Wednesday, September 26, 2007
That´s entertainment!
Já está no ar minha mais nova coluna no site GPTotal. A Fórmula 1 sob a abordagem da música. Como é que é? Vai lá descobrir, depois comente aqui.
Monday, September 24, 2007
Carro, moto, estrada... música!

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Toninho Horta é um dos músicos brasileiros mais prestigiados no exterior. Mineiro, habitualmente identificado à turma do Clube da Esquina, Toninho é um excelente guitarrista, desenvolveu sólida carreira nos Estados Unidos, chegando a tocar com grandes nomes do jazz. Acabou muito ligado a outro guitarrista de primeira grandeza, o norte-americano Pat Metheny. É até difícil dizer quem influenciou quem. Ouvindo Toninho, você identifica toques de Pat. Ouvindo Pat, fraseados de Toninho claramente se sobressaem.
Ele é autor do clássico "Beijo Partido", gravado por Milton Nascimento e Nana Caymmi, entre outros.
É, também, autor de músicas dedicadas a temas pouco usuais. Uma de suas mais belas canções, "Diana", não tem nada a ver com a deusa mitológica da guerra nem com a musa que inspirou Paul Anka. É, na verdade, uma delicada homenagem póstuma a sua cachorrinha de estimação.
Se homenageou a cachorra, por que não fazer o mesmo com... seu carro?
Ou melhor, com seu jipe. Foi assim que Toninho perpetrou uma de suas mais belas composições, "Manuel, o Audaz". Um jipe pau-pra-toda-obra, que não escolhe terreno, que engole o pó da estrada sem se abalar.
Pensando bem, até que Toninho não foi tão pouco usual assim. Fazer música para carro, moto, estrada, trânsito e tudo mais associado ao tema "mobilidade" tem sido uma constante na música popular.
Roberto Carlos, com sua boa vida de playboy, adorava o tema. Em seus primórdios, cantou "O calhambeque", mas seguiu fazendo músicas sobre carros e velocidade, e até enfiando o tema em meras canções de amor. É o caso, por exemplo, da hoje proscrita "Quero que vá tudo pro inferno", no verso "se entro no meu carro e a solidão me dói". Consta até que surgiu piadinha infame na época: - Como é o nome da bunda do Roberto Carlos? - Solidão!
O ex-Rei cantou "por isso corro demais", "as curvas da estrada de Santos", inspirando outros a fechar a porta, sentar a bota e seguir em frente. Os Mutantes também gostavam de uma biela subindo e descendo. Cantaram "Dune Buggy", aquele com mais de 1.000 hp, além da clássica "Algo mais", na verdade um jingle composto para a Shell que convidava a juventude a dar a partida e acelerar a vida. Inspiradíssimo no possante de Rita Lee, Jorge Ben(jor) compôs "Rita Jeep", revelando ao mundo o que os íntimos já sabiam, que aquela sujeita era um barato.
Anos mais tarde, um dos maiores sucessos bregas de todos os tempos, "Fuscão Preto", contava uma triste história de corno. Já nos 80´s, os Paralamas do Sucesso clamavam pelo alto astral das duas rodas, em "Vital e sua moto".
Vixe!
Acho que, depois de mulher, amor e traição, carro, moto e estrada talvez sejam os tema mais recorrente das canções.
Quem lembra de outras?
Tuesday, September 18, 2007
F1, canonização e guerra
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Prometi que ia abordar o tema da punição aos pilotos da McLaren, que não houve, e o faço, com uma terrível vontade de encerrar logo este assunto. Já deu, cansou, enjoou, e acho que a maioria concorda.
Desde antes da punição, como deixei claro em minha coluna "Campeão café com leite", no GPTotal, eu não conseguia conceber uma exclusão da McLaren que não eliminasse também Alonso e Hamilton. Já repeti a frase aqui: o espanhol e o inglês não disputam o atual campeonato a pé, mas a bordo dos McLaren acusados - e considerados culpados - por utilizar informações sigilosas da Ferrari.
De lá para cá, revelações se sucederam. E-mails trocados entre Alonso e o piloto de testes Pedro de la Rosa, acusações de chantagem, delação premiada etc. Só não se provou, pelo menos por enquanto, que Hamilton estivesse no rolo, aproveitando-se igualmente das informações obtidas.
Não vou julgar sem conhecer os fatos - se Hamilton foi ou não beneficiado por dados obtidos de forma ilícita do principal rival - mas acho pouco provável que nenhuma informação fosse parar no carro do inglês. Ainda mais que tal troca de correspondências tenha se dado no início do ano, antes, portanto, do clima azedar entre Alonso e Hamilton. Acho natural que os acertos de um fossem repassados aos do outro, porque afinal é a mesma equipe. Mas não dá para afirmar, não nos foi dado a conhecer.
Mesmo assim, punir a McLaren e livrar seus dois pilotos só tem uma razão, não baseada na lógica nem na justiça: manter a chama do campeonato acesa. Coisas de showbusiness, que nada tem a ver com esporte ou com o que acreditamos ser uma competição honesta.
Não dá para separar as coisas, culpa da McLaren, inocência dos pilotos, e apelo para a coerência. Quantos de nós, de vocês, de todos aqui não dissemos, em algum momento, que Schumacher só venceu tudo porque tinha o melhor carro do grid? Quantos não dissemos, antes disso, que Senna só gramou na McLaren em 92 e 93 porque não tinha em suas mãos uma Williams? Quantos não dissemos que foi uma pena Alesi não ter o melhor carro no melhor tempo, ou Heins-Harald Frentzen, ou Jenson Button?
Ora, o melhor piloto não ganha do melhor carro, pelo menos não em condições regulares, com constância. Portanto, se o carro tem alguma vantagem competitiva, lícita ou safada, o piloto que o dirige também tem.
Por fim, uma palavra sobre Alonso. Do final da semana passada até agora, o espanhol virou o demo. Apontado como manipulador, chantagista e até aliciador, Alonso já foi chamado aqui e ali de Dick Vigarista. Longe de aprovar métodos escusos, acho apenas que nada disso surpreende quem se acostumou a ver os maiores vencedores das pistas em ação.
Campeões de Fórmula 1 ou de qualquer esporte de alto nível não são seres iluminados em busca do processo de santificação. Antes disso, são guerreiros obstinados, por vezes inescrupulosos, que não medem conseqüências para vencer. Jogar o carro para cima do rival, manipular processos e pessoas, arregimentar seu próprio exército. Alonso tem o perfil, não me surpreende.
As últimas notícias dão conta que Alonso ofereceu dinheiro aos mecânicos da McLaren por vitórias dele sobre Hamilton. Oh, o aliciador! Menos, gente, por favor. Isso é mais velho que David Coulthard: consta que o ex-piloto Alex Dias Ribeiro, em seus tempos de Fórmula 3, tinha como companheiro de equipe o sueco Gunnar Nilsson, e sentia que a equipe dava mais atenção ao colega que a ele. Descobriu depois o porquê. Enquanto o evangélico Alex presenteava seus mecânicos com exemplares da Bíblia, Nilsson distribuía farto sortimento de revistas para adultos...
Prometi que ia abordar o tema da punição aos pilotos da McLaren, que não houve, e o faço, com uma terrível vontade de encerrar logo este assunto. Já deu, cansou, enjoou, e acho que a maioria concorda.
Desde antes da punição, como deixei claro em minha coluna "Campeão café com leite", no GPTotal, eu não conseguia conceber uma exclusão da McLaren que não eliminasse também Alonso e Hamilton. Já repeti a frase aqui: o espanhol e o inglês não disputam o atual campeonato a pé, mas a bordo dos McLaren acusados - e considerados culpados - por utilizar informações sigilosas da Ferrari.
De lá para cá, revelações se sucederam. E-mails trocados entre Alonso e o piloto de testes Pedro de la Rosa, acusações de chantagem, delação premiada etc. Só não se provou, pelo menos por enquanto, que Hamilton estivesse no rolo, aproveitando-se igualmente das informações obtidas.
Não vou julgar sem conhecer os fatos - se Hamilton foi ou não beneficiado por dados obtidos de forma ilícita do principal rival - mas acho pouco provável que nenhuma informação fosse parar no carro do inglês. Ainda mais que tal troca de correspondências tenha se dado no início do ano, antes, portanto, do clima azedar entre Alonso e Hamilton. Acho natural que os acertos de um fossem repassados aos do outro, porque afinal é a mesma equipe. Mas não dá para afirmar, não nos foi dado a conhecer.
Mesmo assim, punir a McLaren e livrar seus dois pilotos só tem uma razão, não baseada na lógica nem na justiça: manter a chama do campeonato acesa. Coisas de showbusiness, que nada tem a ver com esporte ou com o que acreditamos ser uma competição honesta.
Não dá para separar as coisas, culpa da McLaren, inocência dos pilotos, e apelo para a coerência. Quantos de nós, de vocês, de todos aqui não dissemos, em algum momento, que Schumacher só venceu tudo porque tinha o melhor carro do grid? Quantos não dissemos, antes disso, que Senna só gramou na McLaren em 92 e 93 porque não tinha em suas mãos uma Williams? Quantos não dissemos que foi uma pena Alesi não ter o melhor carro no melhor tempo, ou Heins-Harald Frentzen, ou Jenson Button?
Ora, o melhor piloto não ganha do melhor carro, pelo menos não em condições regulares, com constância. Portanto, se o carro tem alguma vantagem competitiva, lícita ou safada, o piloto que o dirige também tem.
Por fim, uma palavra sobre Alonso. Do final da semana passada até agora, o espanhol virou o demo. Apontado como manipulador, chantagista e até aliciador, Alonso já foi chamado aqui e ali de Dick Vigarista. Longe de aprovar métodos escusos, acho apenas que nada disso surpreende quem se acostumou a ver os maiores vencedores das pistas em ação.
Campeões de Fórmula 1 ou de qualquer esporte de alto nível não são seres iluminados em busca do processo de santificação. Antes disso, são guerreiros obstinados, por vezes inescrupulosos, que não medem conseqüências para vencer. Jogar o carro para cima do rival, manipular processos e pessoas, arregimentar seu próprio exército. Alonso tem o perfil, não me surpreende.
As últimas notícias dão conta que Alonso ofereceu dinheiro aos mecânicos da McLaren por vitórias dele sobre Hamilton. Oh, o aliciador! Menos, gente, por favor. Isso é mais velho que David Coulthard: consta que o ex-piloto Alex Dias Ribeiro, em seus tempos de Fórmula 3, tinha como companheiro de equipe o sueco Gunnar Nilsson, e sentia que a equipe dava mais atenção ao colega que a ele. Descobriu depois o porquê. Enquanto o evangélico Alex presenteava seus mecânicos com exemplares da Bíblia, Nilsson distribuía farto sortimento de revistas para adultos...
Friday, September 14, 2007
F1, Compliance e Benchmarking
Como água e óleo, petistas e tucanos, corintianos e palmeirenses, Montecchios e Capulettos, desde a decisão do Conselho Mundial da FIA, que mais ou menos puniu a McLaren, assim nos dividimos, os amantes de automobilismo. Os que consideraram o veredicto uma injustiça e os que o acharam normal.
Estou entre os primeiros, lembrando a frase que já escrevi aqui e no GPTotal: Alonso e Hamilton não disputam o campeonato a pé, mas a bordo de carros da McLaren, a equipe considerada culpada no caso de espionagem. No calor da discussão – saudável e bendita discussão, um dos sustentáculos da democracia – algumas idéias muito complexas e interessantes brotaram.
Duas delas, particularmente, me levaram à reflexão. A primeira, saída da boca do tricampeão Jackie Stewart, sir Jackie, que já mereceria minha admiração mesmo que não fosse o monumental piloto que foi, mas apenas por ser criador de frases geniais. Sir Jackie disse que o caso todo era problema interno da Fórmula 1, que deveria ser discutido entre quatro paredes, sob pena de levar toda a categoria de roldão.
Sir Jackie, com todo o respeito, shame on you! Que vergonha, Mr. Stewart...
Mas não vou julgá-lo, compreendo o ex-piloto como um homem de outros tempos, de uma Fórmula 1 de outros tempos. Longínquas eras nas quais quatro ou cinco chefes de equipe se reuniam e davam as cartas. O que acertassem entre eles, correto ou amoral, ficava entre eles, os demais acatavam porque sabiam que aquele centro de poder falava pelo bem dos negócios da categoria, e a nós, devotados amantes das corridas, sobravam as manobras, os pegas, as ultrapassagens.
Só o que Sir Jackie não parece levar em conta é que esse tempo acabou. A Fórmula 1 achou por bem crescer à estatura de um gigante corporativo. Como tal, ofereceu-se para seus pares da mesma envergadura – as grandes empresas globalizadas – como um parceiro de admirável potencial. E passou a receber recursos financeiros em volumes nunca antes vistos no esporte a motor, como se um dique de incontáveis hectolitros de água despejasse seu conteúdo por ali. Montadoras, sim, mas não só. Bancos, empresas de telefonia, seguradoras, empresas de bebidas. Todas com olhos enormes – ainda que algumas orientais – para o desmedido poder de divulgação da Fórmula 1.
A categoria não cansa de apregoar que se tornou “profissional” e quanto a isso não pairam dúvidas. Não dá, Sir Jackie, para ser profissional, globalizada, social e ambientalmente responsável e continuar decidindo ações e resolvendo problemas entre quatro paredes. Isso é um choque conceitual inconciliável com algo muito caro a esses gigantes corporativos que a Fórmula 1 atraiu, o conceito de Compliance.
Quem trabalha em certas empresas sabe do que se trata. Compliance é a obediência a leis e regras. Uma empresa que adota essa postura preza por vários conceitos: a transparência, o combate à corrupção em todas as suas formas, o repúdio a toda espécie de preconceito etc.
Empresa, hoje em dia, para estar na Bolsa de Nova York, por exemplo, é obrigada a manter um canal de denúncia anônima para acolher relatos de conduta inadequada. E não é entre quatro paredes que se resolve isso.
Nos últimos anos, não foram incomuns os casos de empresas enredadas em condutas impróprias que se viram obrigadas a corrigir publicamente tais erros, muitas vezes até cortando na carne da própria diretoria, demitindo presidentes, CEOs e todo o alto escalão.
É com essa realidade corporativa que a Fórmula foi se meter, Sir Jackie. Ganharam, vocês aí, muito dinheiro. Tudo tem preço. E o senhor pode ter certeza de que a alta direção da Mercedes Benz está fula da vida com esse arranhão monstruoso no nome da empresa.
A segunda idéia que me chamou a atenção foi a do hábito consolidado de se trocarem informações na Fórmula 1. Essa muita gente comentou. Concordo que é natural trocar idéias, eventualmente soprar um segredinho ao colega ou mesmo inocentemente comentar uma solução que se torna o pulo do gato para algum problema. Mas não acho nada normal que um sujeito, descontente na empresa, mordido pelo despeito de ter sido preterido a outro, despache mais de 700 páginas de informação para um amigo de uma empresa rival.
Foi o que Nigel Stepney fez. Isso não é uma troca de informações. No mundo corporativo, institucionalizou-se a prática do chamado “benchmarking”. Uma empresa visita a outra, oficialmente, e busca informações sobre alguma prática bem sucedida. Claro que isso não impede a troca informal de dados, nem de eventuais práticas ilícitas de fornecimento de segredos. Mas, baseadas no conceito de cumprimento a leis e regras, o tal Compliance, essas empresas: primeiro, exigem de seus funcionários o conhecimento e a assinatura em um documento em que se comprometem a andar na linha e, segundo, combatem atitudes inadequadas exemplarmente.
O que Stepney fez na Ferrari, e por isso foi demitido, nessas empresas globais é combatido no nascedouro, em um esforço de “atrair, contratar e reter os melhores profissionais”. No mundo empresarial de hoje, ser bom profissional já não é só ter as melhores credenciais técnicas. A conduta é igualmente valorizada. Por isso, para empresas atreladas a esse tipo de preceito, o episódio todo foi um descalabro: a McLaren deu o péssimo exemplo de ter um funcionário que recebeu informações sigilosas, mas a Ferrari não sai totalmente como vítima nessa história, ao manter em um cargo de alta responsabilidade um homem capaz literalmente de vendê-la.
Depois, volto para falar sobre outra questão polêmica, sobre a punição aos pilotos da McLaren.
Estou entre os primeiros, lembrando a frase que já escrevi aqui e no GPTotal: Alonso e Hamilton não disputam o campeonato a pé, mas a bordo de carros da McLaren, a equipe considerada culpada no caso de espionagem. No calor da discussão – saudável e bendita discussão, um dos sustentáculos da democracia – algumas idéias muito complexas e interessantes brotaram.
Duas delas, particularmente, me levaram à reflexão. A primeira, saída da boca do tricampeão Jackie Stewart, sir Jackie, que já mereceria minha admiração mesmo que não fosse o monumental piloto que foi, mas apenas por ser criador de frases geniais. Sir Jackie disse que o caso todo era problema interno da Fórmula 1, que deveria ser discutido entre quatro paredes, sob pena de levar toda a categoria de roldão.
Sir Jackie, com todo o respeito, shame on you! Que vergonha, Mr. Stewart...
Mas não vou julgá-lo, compreendo o ex-piloto como um homem de outros tempos, de uma Fórmula 1 de outros tempos. Longínquas eras nas quais quatro ou cinco chefes de equipe se reuniam e davam as cartas. O que acertassem entre eles, correto ou amoral, ficava entre eles, os demais acatavam porque sabiam que aquele centro de poder falava pelo bem dos negócios da categoria, e a nós, devotados amantes das corridas, sobravam as manobras, os pegas, as ultrapassagens.
Só o que Sir Jackie não parece levar em conta é que esse tempo acabou. A Fórmula 1 achou por bem crescer à estatura de um gigante corporativo. Como tal, ofereceu-se para seus pares da mesma envergadura – as grandes empresas globalizadas – como um parceiro de admirável potencial. E passou a receber recursos financeiros em volumes nunca antes vistos no esporte a motor, como se um dique de incontáveis hectolitros de água despejasse seu conteúdo por ali. Montadoras, sim, mas não só. Bancos, empresas de telefonia, seguradoras, empresas de bebidas. Todas com olhos enormes – ainda que algumas orientais – para o desmedido poder de divulgação da Fórmula 1.
A categoria não cansa de apregoar que se tornou “profissional” e quanto a isso não pairam dúvidas. Não dá, Sir Jackie, para ser profissional, globalizada, social e ambientalmente responsável e continuar decidindo ações e resolvendo problemas entre quatro paredes. Isso é um choque conceitual inconciliável com algo muito caro a esses gigantes corporativos que a Fórmula 1 atraiu, o conceito de Compliance.
Quem trabalha em certas empresas sabe do que se trata. Compliance é a obediência a leis e regras. Uma empresa que adota essa postura preza por vários conceitos: a transparência, o combate à corrupção em todas as suas formas, o repúdio a toda espécie de preconceito etc.
Empresa, hoje em dia, para estar na Bolsa de Nova York, por exemplo, é obrigada a manter um canal de denúncia anônima para acolher relatos de conduta inadequada. E não é entre quatro paredes que se resolve isso.
Nos últimos anos, não foram incomuns os casos de empresas enredadas em condutas impróprias que se viram obrigadas a corrigir publicamente tais erros, muitas vezes até cortando na carne da própria diretoria, demitindo presidentes, CEOs e todo o alto escalão.
É com essa realidade corporativa que a Fórmula foi se meter, Sir Jackie. Ganharam, vocês aí, muito dinheiro. Tudo tem preço. E o senhor pode ter certeza de que a alta direção da Mercedes Benz está fula da vida com esse arranhão monstruoso no nome da empresa.
A segunda idéia que me chamou a atenção foi a do hábito consolidado de se trocarem informações na Fórmula 1. Essa muita gente comentou. Concordo que é natural trocar idéias, eventualmente soprar um segredinho ao colega ou mesmo inocentemente comentar uma solução que se torna o pulo do gato para algum problema. Mas não acho nada normal que um sujeito, descontente na empresa, mordido pelo despeito de ter sido preterido a outro, despache mais de 700 páginas de informação para um amigo de uma empresa rival.
Foi o que Nigel Stepney fez. Isso não é uma troca de informações. No mundo corporativo, institucionalizou-se a prática do chamado “benchmarking”. Uma empresa visita a outra, oficialmente, e busca informações sobre alguma prática bem sucedida. Claro que isso não impede a troca informal de dados, nem de eventuais práticas ilícitas de fornecimento de segredos. Mas, baseadas no conceito de cumprimento a leis e regras, o tal Compliance, essas empresas: primeiro, exigem de seus funcionários o conhecimento e a assinatura em um documento em que se comprometem a andar na linha e, segundo, combatem atitudes inadequadas exemplarmente.
O que Stepney fez na Ferrari, e por isso foi demitido, nessas empresas globais é combatido no nascedouro, em um esforço de “atrair, contratar e reter os melhores profissionais”. No mundo empresarial de hoje, ser bom profissional já não é só ter as melhores credenciais técnicas. A conduta é igualmente valorizada. Por isso, para empresas atreladas a esse tipo de preceito, o episódio todo foi um descalabro: a McLaren deu o péssimo exemplo de ter um funcionário que recebeu informações sigilosas, mas a Ferrari não sai totalmente como vítima nessa história, ao manter em um cargo de alta responsabilidade um homem capaz literalmente de vendê-la.
Depois, volto para falar sobre outra questão polêmica, sobre a punição aos pilotos da McLaren.
Thursday, September 13, 2007
F1 não é corrida de carro?
A perda dos pontos no Mundial de Construtores e uma multa de US$ 100 milhões. Eis a punição para a McLaren no caso da espionagem.
Reproduzo um trecho da minha coluna de ontem no GPTotal:
"(...)Por mais que anseie por um bom campeonato, disputado nas pistas, o que não tem acontecido de fato, não consigo imaginar uma punição para a equipe que não atinja os pilotos. Pois, ao que me consta, nem Alonso nem Hamilton disputaram este Mundial a pé, pois não? É a bordo de dois McLaren que eles competem, ou não?(...)"

Para mim, é pizza.
E para você?
Reproduzo um trecho da minha coluna de ontem no GPTotal:
"(...)Por mais que anseie por um bom campeonato, disputado nas pistas, o que não tem acontecido de fato, não consigo imaginar uma punição para a equipe que não atinja os pilotos. Pois, ao que me consta, nem Alonso nem Hamilton disputaram este Mundial a pé, pois não? É a bordo de dois McLaren que eles competem, ou não?(...)"

Para mim, é pizza.
E para você?
Wednesday, September 12, 2007
Campeão café com leite
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Quem apostou em uma coluna nova no GPTotal acertou. Qual o valor real deste título de 2007? Que status terá o campeão da temporada? Leia lá, comente aqui.
Quem apostou em uma coluna nova no GPTotal acertou. Qual o valor real deste título de 2007? Que status terá o campeão da temporada? Leia lá, comente aqui.
Tuesday, September 11, 2007
Quem viver verá
Monday, September 10, 2007
Crocodilo Dennis (?)
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Primeiro, achei que ele estivesse enxugando o suor. Depois, quando subiu ao pódio para receber o troféu, Ron Dennis deu toda a pinta de estar mesmo com as quatro rodas arriadas. Apesar da vitória de Alonso, do segundo lugar de Hamilton e de sua apresentação de gala, da humilhação imposta à Ferrari em pleno circuito de Monza, da ampla dominação nos Mundiais de Construtores e de Pilotos, de bater recorde de confiabilidade, a McLaren vive sua pior crise.
Independentemente do que aconteça no tribunal da FIA, na próxima quinta-feira, a McLaren está mais suja que banheiro de estádio. Ainda que a pizza esteja pronta para sair do forno, como sinalizam as reuniões dos chefões durante o GP da Itália, Ron Dennis sabe que a casa caiu para ele.
Ninguém parece ter muita dificuldade para aceitar que a Fórmula 1 hoje é mais negócio que esporte. Então, vamos transpor o que acontece na McLaren para um ambiente empresarial, daqueles ultracompetitivos nos quais o aperitivo mais apreciado costumam ser os antiácidos para combater a gastrite.
Quando uma empresa cresce demais, em determinado momento seus donos chegam a um impasse. Para ir além de onde foram por suas próprias forças, precisam captar dinheiro no mercado. Daí arranjam um sócio gigante, ou abrem seu capital. Então não respondem só por si, mas precisam prestar contas ao gigante ou ao mercado de ações. Ron Dennis tem um sócio gigante chamado Mercedes Benz. Alguém pode imaginar o que esse gigante alemão está achando de ver seu nome emporcalhado desse jeito?
Você não estaria chorando também? Por isso, acho que há muito de verdade nas lágrimas de Ron Dennis, enquanto alguns a enxergaram como lágrimas de crocodilo.
Então, passemos a Alonso.
Único campeão em atividade, maior salário da Fórmula 1, fazendo um campeonato consistente rumo a um provável (ou pelo menos muito possível) título. Infeliz, mal-humorado, destemperado em certas ocasiões. O que mais esse cara poderia querer? Está reclamando de barriga cheia? Vai dizer que você nunca ouviu falar de um super executivo, daqueles considerados "um avião" por seus pares, que recebe uma proposta irrecusável de emprego, mil benefícios e mordomias mas, no dia-a-dia, porta-se como o sujeito mais desagradável no trabalho, sendo temido, evitado ou odiado por todos que o cercam? E que, no fundo, arrasta-se infeliz na função que o faz rico e prestigiado?
Você também não ia querer voltar rapidinho para seu lar, para o lugar no qual você era feliz?

Primeiro, achei que ele estivesse enxugando o suor. Depois, quando subiu ao pódio para receber o troféu, Ron Dennis deu toda a pinta de estar mesmo com as quatro rodas arriadas. Apesar da vitória de Alonso, do segundo lugar de Hamilton e de sua apresentação de gala, da humilhação imposta à Ferrari em pleno circuito de Monza, da ampla dominação nos Mundiais de Construtores e de Pilotos, de bater recorde de confiabilidade, a McLaren vive sua pior crise.
Independentemente do que aconteça no tribunal da FIA, na próxima quinta-feira, a McLaren está mais suja que banheiro de estádio. Ainda que a pizza esteja pronta para sair do forno, como sinalizam as reuniões dos chefões durante o GP da Itália, Ron Dennis sabe que a casa caiu para ele.
Ninguém parece ter muita dificuldade para aceitar que a Fórmula 1 hoje é mais negócio que esporte. Então, vamos transpor o que acontece na McLaren para um ambiente empresarial, daqueles ultracompetitivos nos quais o aperitivo mais apreciado costumam ser os antiácidos para combater a gastrite.
Quando uma empresa cresce demais, em determinado momento seus donos chegam a um impasse. Para ir além de onde foram por suas próprias forças, precisam captar dinheiro no mercado. Daí arranjam um sócio gigante, ou abrem seu capital. Então não respondem só por si, mas precisam prestar contas ao gigante ou ao mercado de ações. Ron Dennis tem um sócio gigante chamado Mercedes Benz. Alguém pode imaginar o que esse gigante alemão está achando de ver seu nome emporcalhado desse jeito?
Você não estaria chorando também? Por isso, acho que há muito de verdade nas lágrimas de Ron Dennis, enquanto alguns a enxergaram como lágrimas de crocodilo.
Então, passemos a Alonso.
Único campeão em atividade, maior salário da Fórmula 1, fazendo um campeonato consistente rumo a um provável (ou pelo menos muito possível) título. Infeliz, mal-humorado, destemperado em certas ocasiões. O que mais esse cara poderia querer? Está reclamando de barriga cheia? Vai dizer que você nunca ouviu falar de um super executivo, daqueles considerados "um avião" por seus pares, que recebe uma proposta irrecusável de emprego, mil benefícios e mordomias mas, no dia-a-dia, porta-se como o sujeito mais desagradável no trabalho, sendo temido, evitado ou odiado por todos que o cercam? E que, no fundo, arrasta-se infeliz na função que o faz rico e prestigiado?
Você também não ia querer voltar rapidinho para seu lar, para o lugar no qual você era feliz?
Tuesday, September 04, 2007
Rádio GP no ar

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Já está no ar mais uma edição da Rádio GP, o podcast do site Grande Prêmio, que pode ser baixado e ouvido a qualquer tempo.
Desta vez, com a apresentação de Victor Martins e os comentários de Ivan Capelli, Bruno Vicária, Luiz Fernando Ramos e desta que vos escreve, o programa debate as corridas do último final de semana, com destaque para IRL, Mundial de Moto, Rali da Nova Zelândia e, claro, um preview do GP da Itália de Fórmula 1. Quer saber qual meu palpite para Monza? Baixa lá, e comenta aqui.
Monday, September 03, 2007
Tempo, tempo, tempo, tempo

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Ontem, antes que Casey Stoner alinhasse sua Ducatti para mais uma vitória na MotoGP, eu já comemorava a minha. Nunca antes, na modesta carreira de corredora amadora de longas distâncias que cultivo, obtive resultado tão expressivo. Completei os oito quilômetros da Corrida pela Paz, da Corpore, em 38min55, cumprindo meu objetivo de correr o percurso abaixo de 40 minutos. Menos de cinco minutos por quilômetro, portanto.
Há três semanas, terminada a Corrida do Centro Histórico, fiquei insatisfeita com os 45min38 gastos para percorrer os nove quilômetros da prova. Mais de cinco minutos por quilômetro, afinal. Meu técnico Zé Eduardo Pompeo já não suporta meus queixumes. Tanto que caçoou de leve do meu entusiasmo após a corrida de ontem, como de estivesse esperando mais uma sessão de auto-flagelação.
Não reclamei. Na verdade, terminei bastante satisfeita. Se comparar as duas provas, baixei meu tempo em mais de um minuto, pois na proporção eu faria um tempo acima dos 40 minutos neste percurso mais recente.
Enquanto voltava para casa, me pus a pensar na relatividade do tempo. Uma atleta amadora como eu, disputando a média de uma prova por mês, com alguma dedicação extra nos treinos, um trajeto favorável e uma concentração adequada, consegue reduzir seu tempo em mais de um minuto no intervalo de três semanas. Um atleta profissional, com todos os treinos e cuidados específicos, pode passar uma vida inteira tentando - sem sucesso - reduzir o centésimo de segundo que o separa do recorde mundial dos 100 metros rasos.
Claro. Inúmeras variáveis circundam tal comparação, a começar pela natureza distinta das duas provas, sendo uma de resistência, a outra de explosão. Por isso fui me meter com corridas de fundo, e jamais o faria com corridas de velocidade.
O mesmo princípio vale para as corridas de carro. Milésimos de segundo separando carros de Fórmula 1 são dados normais. Já houve uma corrida - Europa, 1997 - na qual três pilotos fizeram rigorosamente o mesmo tempo no treino classificatório. Villeneuve, Schumacher e Frentzen empataram até a casa milesimal, sendo a ordem de largada definida pela ordem de tomada dos tempos. Quem obteve primeiro o tempo largou na frente, daí a pole atribuída a Villeneuve.
Em corridas de longa duração, a diferença entre os carros tende a aumentar. Nos ralis, então, disputados ao longo de três dias, no campeonato mundial, e em vários estágios diferentes, mais se acentua a diferença entre os carros.
Pois chego em casa e recorro ao Grande Prêmio para descobrir o resultado do Rali da Nova Zelândia. O finlandês Marcus Gronholm, da Ford, venceu o francês Sébastian Loeb, da Citroen, por míseros três décimos de segundo! Até o velho Albert teriam dificuldade para aceitar tão pequena diferença...
Friday, August 31, 2007
Procissão, não
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Na repercussão sobre o GP da Turquia, aqui no blog, destacaram-se referências sobre meus comentários, durante a transmissão da BandNews FM, a respeito das ultrapassagens na Fórmula 1. Ou a falta delas, mais precisamente. Em sua coluna de hoje, na Folha de S.Paulo, o amigo Fábio Seixas, comentarista titular da BandNews, retomou o tema.
Este pecado da Fórmula 1 atual - falta de ultrapassagens - parece ser o grande responsável pelo tédio das corridas. Em quase todas elas, posições só se alteram em função das paradas nos boxes, não de manobras arrojadas na pista. Não temos mais corridas, mas procissões.
A FIA está atenta ao problema e até criou uma comissão multidisciplinar de notáveis, ou coisa que o valha, para fomentar a volta das disputas roda a roda, freada a freada.
Torço para que dê certo. Mas, quando ouvi a notícia, outra situação me veio à mente. É impressionante como o ser humano é capaz de fazer bobagens e depois sair, meio desesperado, tentando corrigir.
Uma comissão oficial para trazer de volta as ultrapassagens me fez lembrar daquelas notícias sobre grupos de cientistas que colocam um macho e uma fêmea de alguma espécie em extinção no cativeiro, para ver se procriam. Isso é como se a humanidade estivesse dizendo: "Sim, detonamos o meio ambiente, por conta própria os bichinhos não se reproduzem mais, então vamos dar uma mãozinha."
Mais ou menos a mesma coisa. A FIA mexeu tanto no regulamento da Fórmula 1 nos últimos anos e agora tenta remendar. Menos mal que estão fazendo alguma coisa.
Afinal, às vezes até saem uns bichinhos bonitinhos do cativeiro.
Eis a coluna do Fábio Seixas de hoje:
*
Ultrapassai-vos uns ao outros
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São 17 GPs, estamos no 12º. Foram 3.537 km em disputa. Sabe quantas ultrapassagens pela liderança? Uminha
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O CAMPEONATO é o melhor dos últimos anos, quatro pilotos podem chegar a Interlagos na luta pelo título, o trono do alemão ainda está vago e deve permanecer assim por um bom tempo, o menino prodígio começa a ratear, Alonso não embala, a Ferrari cresce a olhos vistos, as duas próximas pistas favorecem a equipe italiana, as três últimas, ninguém sabe.
Mas as corridas... Ah, as corridas... Fernando Carmona Simões, de Ribeirão Preto, resumiu assim a situação: "Campeonato disputado, mas as corridas são um saco". No ponto.
O Mundial começou em março, estamos no último dia de agosto. São 17 GPs na temporada, estamos no 12º. Até agora, já foram 3.537 quilômetros em disputa. Sabe quantas ultrapassagens pela liderança? Uma. Apenas uma. Uminha. De Alonso sobre Massa, na caótica corrida de Nurburgring.
Se levarmos em consideração as largadas, o espanhol também superou o brasileiro na Malásia. Mais do que um alívio, porém, esse é outro agravante. Em 12 GPs, só uma vez o líder perdeu a posição nos primeiros metros da corrida? Afe.
"Detalhe": na largada, pelo menos na F-1, todo mundo começa parado. Não há aquela turbulência usada como justificativa para a falta de ultrapassagens. O que acontece, então?
Acontece, imagino, que os pilotos esqueceram como ultrapassar. Esqueceram o prazer esportivo, lúdico, sádico, de deixar o outro pra trás.
Sentados num regulamento que premia 36% do grid, como lembrou Alessandra Alves na última transmissão da BandNews FM, deixam para trás a idéia de ousar, de partir pra cima, de arriscar na freada no fim da reta para conquistar um, dois pontos a mais no Mundial.
Por que arriscar chegar em terceiro quando o prêmio em relação ao quarto lugar é de só um ponto? Por que partir para cima do líder, quando já se tem oito pontos no bolso?
É o anti-esporte, a antidisputa, a anticompetição. Um regulamento feito para segurar o ímpeto de Schumacher, mas que perdeu o sentido com o fora de série aposentado.
Pior: nas categorias de base, o que não falta é ultrapassagem. Basta ver uma corrida da GP2 ou da F-3 inglesa. Mas os Hamiltons da vida, quando chegam à F-1, são forçados a pensar, repensar e tripensar antes de tentar passar alguém.
Pilotos de hoje... Lembrai-vos dos tempos de kart, quando era tão bacana sair do meio do pelotão e superar todo mundo, um a um. Recordai-vos do doce prazer de enxergar pelo retrovisor alguém que há instantes só lhe oferecia o aerofólio traseiro.
Revedes e revedes o duelo Piquet x Senna na Hungria. Respirais fundo antes de mergulhar naquela curva cega. E carregais na carga do pé direito -a área de escape é gigantesca, seu carro não vai atolar. Ultrapassai-vos uns aos outros, enfim. É muito bacana, o povo gosta, vos garanto. E não é pecado.
*
Agora, é com vocês.
Na repercussão sobre o GP da Turquia, aqui no blog, destacaram-se referências sobre meus comentários, durante a transmissão da BandNews FM, a respeito das ultrapassagens na Fórmula 1. Ou a falta delas, mais precisamente. Em sua coluna de hoje, na Folha de S.Paulo, o amigo Fábio Seixas, comentarista titular da BandNews, retomou o tema.
Este pecado da Fórmula 1 atual - falta de ultrapassagens - parece ser o grande responsável pelo tédio das corridas. Em quase todas elas, posições só se alteram em função das paradas nos boxes, não de manobras arrojadas na pista. Não temos mais corridas, mas procissões.
A FIA está atenta ao problema e até criou uma comissão multidisciplinar de notáveis, ou coisa que o valha, para fomentar a volta das disputas roda a roda, freada a freada.
Torço para que dê certo. Mas, quando ouvi a notícia, outra situação me veio à mente. É impressionante como o ser humano é capaz de fazer bobagens e depois sair, meio desesperado, tentando corrigir.
Uma comissão oficial para trazer de volta as ultrapassagens me fez lembrar daquelas notícias sobre grupos de cientistas que colocam um macho e uma fêmea de alguma espécie em extinção no cativeiro, para ver se procriam. Isso é como se a humanidade estivesse dizendo: "Sim, detonamos o meio ambiente, por conta própria os bichinhos não se reproduzem mais, então vamos dar uma mãozinha."
Mais ou menos a mesma coisa. A FIA mexeu tanto no regulamento da Fórmula 1 nos últimos anos e agora tenta remendar. Menos mal que estão fazendo alguma coisa.
Afinal, às vezes até saem uns bichinhos bonitinhos do cativeiro.
Eis a coluna do Fábio Seixas de hoje:
*
Ultrapassai-vos uns ao outros
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São 17 GPs, estamos no 12º. Foram 3.537 km em disputa. Sabe quantas ultrapassagens pela liderança? Uminha
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O CAMPEONATO é o melhor dos últimos anos, quatro pilotos podem chegar a Interlagos na luta pelo título, o trono do alemão ainda está vago e deve permanecer assim por um bom tempo, o menino prodígio começa a ratear, Alonso não embala, a Ferrari cresce a olhos vistos, as duas próximas pistas favorecem a equipe italiana, as três últimas, ninguém sabe.
Mas as corridas... Ah, as corridas... Fernando Carmona Simões, de Ribeirão Preto, resumiu assim a situação: "Campeonato disputado, mas as corridas são um saco". No ponto.
O Mundial começou em março, estamos no último dia de agosto. São 17 GPs na temporada, estamos no 12º. Até agora, já foram 3.537 quilômetros em disputa. Sabe quantas ultrapassagens pela liderança? Uma. Apenas uma. Uminha. De Alonso sobre Massa, na caótica corrida de Nurburgring.
Se levarmos em consideração as largadas, o espanhol também superou o brasileiro na Malásia. Mais do que um alívio, porém, esse é outro agravante. Em 12 GPs, só uma vez o líder perdeu a posição nos primeiros metros da corrida? Afe.
"Detalhe": na largada, pelo menos na F-1, todo mundo começa parado. Não há aquela turbulência usada como justificativa para a falta de ultrapassagens. O que acontece, então?
Acontece, imagino, que os pilotos esqueceram como ultrapassar. Esqueceram o prazer esportivo, lúdico, sádico, de deixar o outro pra trás.
Sentados num regulamento que premia 36% do grid, como lembrou Alessandra Alves na última transmissão da BandNews FM, deixam para trás a idéia de ousar, de partir pra cima, de arriscar na freada no fim da reta para conquistar um, dois pontos a mais no Mundial.
Por que arriscar chegar em terceiro quando o prêmio em relação ao quarto lugar é de só um ponto? Por que partir para cima do líder, quando já se tem oito pontos no bolso?
É o anti-esporte, a antidisputa, a anticompetição. Um regulamento feito para segurar o ímpeto de Schumacher, mas que perdeu o sentido com o fora de série aposentado.
Pior: nas categorias de base, o que não falta é ultrapassagem. Basta ver uma corrida da GP2 ou da F-3 inglesa. Mas os Hamiltons da vida, quando chegam à F-1, são forçados a pensar, repensar e tripensar antes de tentar passar alguém.
Pilotos de hoje... Lembrai-vos dos tempos de kart, quando era tão bacana sair do meio do pelotão e superar todo mundo, um a um. Recordai-vos do doce prazer de enxergar pelo retrovisor alguém que há instantes só lhe oferecia o aerofólio traseiro.
Revedes e revedes o duelo Piquet x Senna na Hungria. Respirais fundo antes de mergulhar naquela curva cega. E carregais na carga do pé direito -a área de escape é gigantesca, seu carro não vai atolar. Ultrapassai-vos uns aos outros, enfim. É muito bacana, o povo gosta, vos garanto. E não é pecado.
*
Agora, é com vocês.
Thursday, August 30, 2007
O sabor da fé
“Vamos em paz e o senhor nos acompanhe”. Eu passava mais de uma hora esperando para ouvir esta frase.
Começava com o canto de abertura, a bênção inicial, depois vinham umas orações, mais cânticos, três leituras da Bíblia, a homilia, mais conhecida como sermão, e um monte de coisas que, na minha análise infantil, só serviam para me separar do meu real objetivo: doces! Ao ouvir o “vamos em paz”, era como se o padre tivesse dado a senha – corra, minha filha, antes que o balcão fiquei cheio de crianças maiores que você.
Esta era minha profissão de fé, com meus seis, sete anos. Ia à missa dominical com minha tia e meus primos. À missa uma ova. Ia comprar doces no boteco ao lado da igreja. O padre falava, eu salivava, pensando naqueles pirulitos dulcíssimos, produzidos com a mesma proporção de açúcar e corantes, acomodados em potes transparentes que ressaltavam ainda mais o visual arco-íris das guloseimas. Havia também um tradicional pirulito todo vermelho, em formato de chupeta, um néctar divino.

Era bem engraçada a cena. Ao final da missa, a turba infantil saía desmandada em direção ao barzinho. Naquele tempo, eu era a mais nova dos netos mais velhos, o que durante anos me deu a condição de “café-com-leite”. Eu odiava aquele status fantasma: o café-com-leite é como um deputado, com sua imunidade parlamentar. No pega-pega, não pode ser pego. No esconde-esconde, não vale ser achado. Nas brincadeiras, ser café-com-leite fazia mal apenas ao meu ego, mas na corrida pelas guloseimas, ao fim da missa, o tamanho diminuto representava uma ameaça física. Não cheguei a ser pisoteada, mas cotoveladas e empurrões foram aos montes. Fora que eu sempre ficava à meia altura do balcão, pulando para ser vista pelo tio do boteco.
Alguns anos depois, chegou o tempo de fazer catequese. Um certo estresse se instalou, pois algumas igrejas exigiam dois anos de preparação, mais um envolvimento considerável dos pais ao longo do curso. As famílias eram grandes entusiastas de que fizéssemos a primeira eucaristia, mas se pudesse ser em um esquema supletivo, tanto melhor. Assim, eu e um grupo de colegas da escola fomos parar em uma igreja que fazia toda a preparação em menos de um ano.
As aulas aconteciam sempre às quintas-feiras, pela manhã. Éramos cinco ou seis meninas, todas da mesma classe, no colégio. Alguma das mães teve uma idéia brilhante: em vez de levar e buscar as filhas na igreja, as mães apenas levavam e uma delas se encarregava de apanhar todas. Levava-as para casa, servia o almoço e despachava todas juntas para a escola, no período da tarde. Cada semana, uma delas ficava responsável pelo farnel. Era uma farra maravilhosa. Passei a esperar as quintas-feiras pela reunião ampliada com as amigas e também pelo cardápio. Nunca soube se a combinação macarrão-bife à milanesa-salada de batata era parte obrigatória do pacote, ou mera coincidência. Só sei que acordava quase sentindo o cheiro do molho de tomate. Não sei por que razão, sempre me lembro dessas quintas macarrônicas quando o tempo está como hoje, aqui em São Paulo, cinzento e um pouco frio.
A cerimônia da primeira comunhão aconteceu em dezembro daquele ano, 1980, em um domingo quente à beça. Estávamos todas de branco, como recomendaram o padre e dona Neusa, a professora da catequese. Minha mãe mandou fazer um conjunto de laise para mim. A família inteira compareceu à igreja. Na hora da eucaristia, coloquei a hóstia na boca, meus olhos se encheram de lágrimas. Católicos, por favor, não tomem por heresia. Não foi emoção, mas uma mistura de ânsia com engasgo.
Eu nunca tinha colocado uma hóstia na boca e, inadvertidamente, deixei que ela grudasse no céu da minha. Comecei a empurrar a massa insípida com a língua, tentando desesperada que ela soltasse de onde estava. Daí, a infeliz (olha o pecado!) escorregou direto pela minha garganta e quase me obstruiu a traquéia. Consegui engolir o pequeno, mas perigoso, disco de biscoito sem sal nem açúcar e só quando ele passou inteiro pelo tubo esofágico lembrei de rezar. Fiquei algum tempo com remorso. Depois, entendi que não era pecado, era só o efeito sempre inesperado do desconhecido.
Começava com o canto de abertura, a bênção inicial, depois vinham umas orações, mais cânticos, três leituras da Bíblia, a homilia, mais conhecida como sermão, e um monte de coisas que, na minha análise infantil, só serviam para me separar do meu real objetivo: doces! Ao ouvir o “vamos em paz”, era como se o padre tivesse dado a senha – corra, minha filha, antes que o balcão fiquei cheio de crianças maiores que você.
Esta era minha profissão de fé, com meus seis, sete anos. Ia à missa dominical com minha tia e meus primos. À missa uma ova. Ia comprar doces no boteco ao lado da igreja. O padre falava, eu salivava, pensando naqueles pirulitos dulcíssimos, produzidos com a mesma proporção de açúcar e corantes, acomodados em potes transparentes que ressaltavam ainda mais o visual arco-íris das guloseimas. Havia também um tradicional pirulito todo vermelho, em formato de chupeta, um néctar divino.

Era bem engraçada a cena. Ao final da missa, a turba infantil saía desmandada em direção ao barzinho. Naquele tempo, eu era a mais nova dos netos mais velhos, o que durante anos me deu a condição de “café-com-leite”. Eu odiava aquele status fantasma: o café-com-leite é como um deputado, com sua imunidade parlamentar. No pega-pega, não pode ser pego. No esconde-esconde, não vale ser achado. Nas brincadeiras, ser café-com-leite fazia mal apenas ao meu ego, mas na corrida pelas guloseimas, ao fim da missa, o tamanho diminuto representava uma ameaça física. Não cheguei a ser pisoteada, mas cotoveladas e empurrões foram aos montes. Fora que eu sempre ficava à meia altura do balcão, pulando para ser vista pelo tio do boteco.
Alguns anos depois, chegou o tempo de fazer catequese. Um certo estresse se instalou, pois algumas igrejas exigiam dois anos de preparação, mais um envolvimento considerável dos pais ao longo do curso. As famílias eram grandes entusiastas de que fizéssemos a primeira eucaristia, mas se pudesse ser em um esquema supletivo, tanto melhor. Assim, eu e um grupo de colegas da escola fomos parar em uma igreja que fazia toda a preparação em menos de um ano.
As aulas aconteciam sempre às quintas-feiras, pela manhã. Éramos cinco ou seis meninas, todas da mesma classe, no colégio. Alguma das mães teve uma idéia brilhante: em vez de levar e buscar as filhas na igreja, as mães apenas levavam e uma delas se encarregava de apanhar todas. Levava-as para casa, servia o almoço e despachava todas juntas para a escola, no período da tarde. Cada semana, uma delas ficava responsável pelo farnel. Era uma farra maravilhosa. Passei a esperar as quintas-feiras pela reunião ampliada com as amigas e também pelo cardápio. Nunca soube se a combinação macarrão-bife à milanesa-salada de batata era parte obrigatória do pacote, ou mera coincidência. Só sei que acordava quase sentindo o cheiro do molho de tomate. Não sei por que razão, sempre me lembro dessas quintas macarrônicas quando o tempo está como hoje, aqui em São Paulo, cinzento e um pouco frio.
A cerimônia da primeira comunhão aconteceu em dezembro daquele ano, 1980, em um domingo quente à beça. Estávamos todas de branco, como recomendaram o padre e dona Neusa, a professora da catequese. Minha mãe mandou fazer um conjunto de laise para mim. A família inteira compareceu à igreja. Na hora da eucaristia, coloquei a hóstia na boca, meus olhos se encheram de lágrimas. Católicos, por favor, não tomem por heresia. Não foi emoção, mas uma mistura de ânsia com engasgo.
Eu nunca tinha colocado uma hóstia na boca e, inadvertidamente, deixei que ela grudasse no céu da minha. Comecei a empurrar a massa insípida com a língua, tentando desesperada que ela soltasse de onde estava. Daí, a infeliz (olha o pecado!) escorregou direto pela minha garganta e quase me obstruiu a traquéia. Consegui engolir o pequeno, mas perigoso, disco de biscoito sem sal nem açúcar e só quando ele passou inteiro pelo tubo esofágico lembrei de rezar. Fiquei algum tempo com remorso. Depois, entendi que não era pecado, era só o efeito sempre inesperado do desconhecido.
Tuesday, August 28, 2007
Feitiço do tempo
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Um assunto puxa o outro, e lá vem mais um, e assim me pus a pensar esses dias no ano de 1982. Quando falei dos vinte anos da morte de Didier Pironi, mencionei a morte de Gilles Villeneuve, em maio de 1982. Naquele ano, não morreu apenas Gilles, um dos mais adorados pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos, mesmo sem ter sido campeão mundial.
No dia 5 de julho de 1982, morreu também o futebol arte. A desclassificação da seleção brasileira na Copa da Espanha marcou definitivamente uma era, ou o fim dela. No lugar do futebol solto, que busca o gol, nascia o futebol força, a marcação acima de tudo, a defesa como dogma. Gilles era um pouco isso, nas pistas. Muito mais coração que cabeça, muito mais ataque que defesa.
Se nos fosse dado voltar no tempo e mudar o rumo da história, tenho certeza de que nove entre dez amantes de Fórmula 1 ou de futebol voltariam a 1982 para impedir a morte de Gilles e não deixar que Paolo Rossi fizesse o terceiro gol da Itália naquelas quartas de final.
Então, fiquei pensando se fosse possível reviver alguns dias determinantes da história do esporte mundial. Como no filme “Feitiço do tempo”, com Bill Murray e Andie McDowell, no qual um repórter de televisão se vê preso no tempo, sempre no mesmo dia, com a chance de fazer diferente o que fez na véspera. E escolhi três resultados que eu gostaria, ardentemente, de mudar. Na ordem cronológica, são estes:
Campeonato Paulista de 1987 – O Corinthians fez um começo de campeonato sofrível, na zona de rebaixamento, mais ou menos o que faz no atual Brasileirão. Pouco antes da metade do campeonato, começou a reação. Tínhamos uma dupla de artilheiros, Everton e Edmar, endiabrados naqueles tempos. O time se acertou, desandou a vencer jogos e a empatar alguns, a ponto de ficar 22 partidas sem perder. A fiel torcida adotou como trilha sonora, naquele ano, uma música infantil que fazia sucesso nas paradas, o tema do He-Man. “Eu tenho a força/ Sou invencível/ Vamos, amigos/ Unidos venceremos a semente do mal”. Fomos indo, indo, até chegar à final contra o São Paulo. Não deu. Lembro que, quando acabou o jogo, me fechei no banheiro e liguei o chuveiro para não ouvir o foguetório tricolor. Há outras finais e jogos decisivos, especialmente contra o Palmeiras, entalados na garganta corintiana. Mas este, pela circunstância, pelo mérito, pela recuperação, talvez tenha sido o meu título perdido mais sofrido.

GP do Japão de 1989 – Foram três anos de guerra de nervos, disputa acirrada, duelos estratégicos, até terminar em pura baixaria. Enquanto foram companheiros de equipe, em 1988 e 1989, Ayrton Senna e Alain Prost formaram a dupla de sonho e de pesadelo na McLaren. No primeiro ano, Senna venceu o campeonato mais ou menos em paz. Em 1989, era guerra. Ao final da competição, Prost em larga vantagem. Senna precisaria vencer as três últimas provas para ser campeão – Espanha, Japão e Austrália. Venceu na Espanha. No Japão, Prost liderava, Senna tentou tomar-lhe a ponta, foi fechado pelo companheiro de equipe. Os dois carros saíram da pista, Prost deu-se por satisfeito, saltou da McLaren e foi para o box. Senna implorou ajuda aos comissários, foi empurrado da chicane para a pista, voltou para a corrida, venceu a prova e acabou desclassificado, justamente por contar com ajuda externa. Passaram-se mais minutos que os habituais entre Senna cruzar a linha de chegada em primeiro e o pódio ser formado, com Alessandro Nannini aclamado como vencedor. O campeonato estava encerrado, com Prost garantindo seu terceiro título mundial. Se pudesse, eu gostaria de mudar esse resultado, que Senna fosse capaz de voltar à pista sozinho, vencendo (como venceu) e empurrando a decisão do Mundial para a última corrida, em Adelaide. Talvez viesse outro golpe baixo do francês, talvez Senna vencesse, talvez ele fizesse uma corrida ruim, quem sabe?
Campeonato Brasileiro de 1996 – Não era meu time na final, mas a Portuguesa de Desportos, a Lusa do meu pai, o segundo time de todos. Tinha feito uma campanha sensacional no Brasileirão daquele ano, chegando à final contra o Grêmio, que levava a vantagem do empate e de decidir em casa. Nos momentos antes do primeiro jogo da final, no Canindé, uma chuva colossal se abateu sobre São Paulo. Eu estava presa no trânsito quando o jogo começou e gritei sozinha no carro assim que o Gallo fez o primeiro gol da Lusa. Fui direto para a casa dos meus pais e lá chegando encontro meu velho candidamente lavando a louça do jantar. “Como assim? Não está vendo o jogo?”, quase gritei. Aquele totem de paciência e calma também tinha seus limites de estresse. Sabia que ficaria nervoso vendo o jogo, preferiu a companhia da esponja e do detergente. Pois eu fui para a frente da TV e pulei ensandecida quando a partida terminou com dois a zero para a Lusa. Na final, zero a zero seria nosso. Poderíamos perder até por um gol de diferença. Mas Paulo Nunes abriu o placar e Ailton terminou de soterrar nosso sonho. Dois a zero para o Grêmio, placar igual ao do Canindé, Grêmio campeão. Não me lembro da reação do meu pai, mas o totem certamente se manteve impávido. Eu chorei. Quem melhor escreveu sobre esse jogo foi Flavio Gomes, na crônica chamada “Carta ao Mané”. Meu pai morreu em 2000, sem comemorar um título da Lusa que não fosse aquela lambança do Paulista de 1973, quando a Portuguesa dividiu o título com o Santos, por um erro do juiz na contagem dos pênaltis. Se eu pudesse, mandava alguém marcar o Ailton, só para aquele segundo gol não sair...
///
Agora, é com vocês. Que fato esportivo você gostaria de mudar? Não vale a Copa de 82 nem a morte de Gilles Villeneuve, que são hours concours.
Um assunto puxa o outro, e lá vem mais um, e assim me pus a pensar esses dias no ano de 1982. Quando falei dos vinte anos da morte de Didier Pironi, mencionei a morte de Gilles Villeneuve, em maio de 1982. Naquele ano, não morreu apenas Gilles, um dos mais adorados pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos, mesmo sem ter sido campeão mundial.
No dia 5 de julho de 1982, morreu também o futebol arte. A desclassificação da seleção brasileira na Copa da Espanha marcou definitivamente uma era, ou o fim dela. No lugar do futebol solto, que busca o gol, nascia o futebol força, a marcação acima de tudo, a defesa como dogma. Gilles era um pouco isso, nas pistas. Muito mais coração que cabeça, muito mais ataque que defesa.
Se nos fosse dado voltar no tempo e mudar o rumo da história, tenho certeza de que nove entre dez amantes de Fórmula 1 ou de futebol voltariam a 1982 para impedir a morte de Gilles e não deixar que Paolo Rossi fizesse o terceiro gol da Itália naquelas quartas de final.
Então, fiquei pensando se fosse possível reviver alguns dias determinantes da história do esporte mundial. Como no filme “Feitiço do tempo”, com Bill Murray e Andie McDowell, no qual um repórter de televisão se vê preso no tempo, sempre no mesmo dia, com a chance de fazer diferente o que fez na véspera. E escolhi três resultados que eu gostaria, ardentemente, de mudar. Na ordem cronológica, são estes:
Campeonato Paulista de 1987 – O Corinthians fez um começo de campeonato sofrível, na zona de rebaixamento, mais ou menos o que faz no atual Brasileirão. Pouco antes da metade do campeonato, começou a reação. Tínhamos uma dupla de artilheiros, Everton e Edmar, endiabrados naqueles tempos. O time se acertou, desandou a vencer jogos e a empatar alguns, a ponto de ficar 22 partidas sem perder. A fiel torcida adotou como trilha sonora, naquele ano, uma música infantil que fazia sucesso nas paradas, o tema do He-Man. “Eu tenho a força/ Sou invencível/ Vamos, amigos/ Unidos venceremos a semente do mal”. Fomos indo, indo, até chegar à final contra o São Paulo. Não deu. Lembro que, quando acabou o jogo, me fechei no banheiro e liguei o chuveiro para não ouvir o foguetório tricolor. Há outras finais e jogos decisivos, especialmente contra o Palmeiras, entalados na garganta corintiana. Mas este, pela circunstância, pelo mérito, pela recuperação, talvez tenha sido o meu título perdido mais sofrido.

GP do Japão de 1989 – Foram três anos de guerra de nervos, disputa acirrada, duelos estratégicos, até terminar em pura baixaria. Enquanto foram companheiros de equipe, em 1988 e 1989, Ayrton Senna e Alain Prost formaram a dupla de sonho e de pesadelo na McLaren. No primeiro ano, Senna venceu o campeonato mais ou menos em paz. Em 1989, era guerra. Ao final da competição, Prost em larga vantagem. Senna precisaria vencer as três últimas provas para ser campeão – Espanha, Japão e Austrália. Venceu na Espanha. No Japão, Prost liderava, Senna tentou tomar-lhe a ponta, foi fechado pelo companheiro de equipe. Os dois carros saíram da pista, Prost deu-se por satisfeito, saltou da McLaren e foi para o box. Senna implorou ajuda aos comissários, foi empurrado da chicane para a pista, voltou para a corrida, venceu a prova e acabou desclassificado, justamente por contar com ajuda externa. Passaram-se mais minutos que os habituais entre Senna cruzar a linha de chegada em primeiro e o pódio ser formado, com Alessandro Nannini aclamado como vencedor. O campeonato estava encerrado, com Prost garantindo seu terceiro título mundial. Se pudesse, eu gostaria de mudar esse resultado, que Senna fosse capaz de voltar à pista sozinho, vencendo (como venceu) e empurrando a decisão do Mundial para a última corrida, em Adelaide. Talvez viesse outro golpe baixo do francês, talvez Senna vencesse, talvez ele fizesse uma corrida ruim, quem sabe?
Campeonato Brasileiro de 1996 – Não era meu time na final, mas a Portuguesa de Desportos, a Lusa do meu pai, o segundo time de todos. Tinha feito uma campanha sensacional no Brasileirão daquele ano, chegando à final contra o Grêmio, que levava a vantagem do empate e de decidir em casa. Nos momentos antes do primeiro jogo da final, no Canindé, uma chuva colossal se abateu sobre São Paulo. Eu estava presa no trânsito quando o jogo começou e gritei sozinha no carro assim que o Gallo fez o primeiro gol da Lusa. Fui direto para a casa dos meus pais e lá chegando encontro meu velho candidamente lavando a louça do jantar. “Como assim? Não está vendo o jogo?”, quase gritei. Aquele totem de paciência e calma também tinha seus limites de estresse. Sabia que ficaria nervoso vendo o jogo, preferiu a companhia da esponja e do detergente. Pois eu fui para a frente da TV e pulei ensandecida quando a partida terminou com dois a zero para a Lusa. Na final, zero a zero seria nosso. Poderíamos perder até por um gol de diferença. Mas Paulo Nunes abriu o placar e Ailton terminou de soterrar nosso sonho. Dois a zero para o Grêmio, placar igual ao do Canindé, Grêmio campeão. Não me lembro da reação do meu pai, mas o totem certamente se manteve impávido. Eu chorei. Quem melhor escreveu sobre esse jogo foi Flavio Gomes, na crônica chamada “Carta ao Mané”. Meu pai morreu em 2000, sem comemorar um título da Lusa que não fosse aquela lambança do Paulista de 1973, quando a Portuguesa dividiu o título com o Santos, por um erro do juiz na contagem dos pênaltis. Se eu pudesse, mandava alguém marcar o Ailton, só para aquele segundo gol não sair...
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Agora, é com vocês. Que fato esportivo você gostaria de mudar? Não vale a Copa de 82 nem a morte de Gilles Villeneuve, que são hours concours.
Sunday, August 26, 2007
O GP da Turquia (e eu)
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Pois então, hoje, participei pela primeira vez de uma transmissão de Fórmula 1 pelo rádio, como comentarista convidada nas rádios BandNews FM e Bandeirantes AM.
Dividi a mesa com o lucutor Odinei Edson e com os comentaristas Fábio Seixas e Jan Balder, mais o âncora Luiz Megale. O GP da Turquia foi chatinho como têm sido as corridas da Fórmula 1, com raríssimas exceções.
Felipe Massa fez uma corrida nota 10, quase barba-cabelo-bigode. Largou na pole, liderou de ponta a ponta e só não marcou a melhor volta, registrada por seu companhero Kimi Raikkonen no final da prova. Atestado inequívoco de que as Ferrari dominaram amplamente em Istambul.
A dobradinha da equipe italiana foi ótima para o Mundial, que continua embolado. Diante do desastre anunciado para a McLaren, o terceiro lugar foi o melhor que Alonso poderia ter feito. Mas o pneu estourado de Hamilton configurou-se, para o espanhol, ainda melhor. Alonso encurtou sua distância em relação ao inglês na classificação do campeonato em dois pontos (eram sete, agora são cinco).
Mas a vitória de Massa talvez tenha um outro significado além de dez pontos na tabela. A cinco provas do final da temporada, a Ferrari deve partir para a união de esforços, ou seja, a trabalhar por um dos pilotos. Massa agora tem um ponto à frente de Raikkonen. As duas próximas corridas serão disputadas em pistas que, teoricamente, favorecem a Ferrari (Itália e Bélgica).
É difícil dizer se, a esta altura, Massa já adquiriu esse domínio dentro da própria equipe, afinal Raikkonen foi contratado a peso de ouro, para substituir Michael Schumacher. Mas, se o time se unir em torno do brasileiro, ele está mais dentro da disputa do que nunca.
E vocês, o que acharam da corrida?
E para os que ouviram a transmissão da Band, digam o que acharam da comentarista convidada.
Gostei muito da experiência e mais uma vez agradeço pelo convite.
Pois então, hoje, participei pela primeira vez de uma transmissão de Fórmula 1 pelo rádio, como comentarista convidada nas rádios BandNews FM e Bandeirantes AM.
Dividi a mesa com o lucutor Odinei Edson e com os comentaristas Fábio Seixas e Jan Balder, mais o âncora Luiz Megale. O GP da Turquia foi chatinho como têm sido as corridas da Fórmula 1, com raríssimas exceções.
Felipe Massa fez uma corrida nota 10, quase barba-cabelo-bigode. Largou na pole, liderou de ponta a ponta e só não marcou a melhor volta, registrada por seu companhero Kimi Raikkonen no final da prova. Atestado inequívoco de que as Ferrari dominaram amplamente em Istambul.
A dobradinha da equipe italiana foi ótima para o Mundial, que continua embolado. Diante do desastre anunciado para a McLaren, o terceiro lugar foi o melhor que Alonso poderia ter feito. Mas o pneu estourado de Hamilton configurou-se, para o espanhol, ainda melhor. Alonso encurtou sua distância em relação ao inglês na classificação do campeonato em dois pontos (eram sete, agora são cinco).
Mas a vitória de Massa talvez tenha um outro significado além de dez pontos na tabela. A cinco provas do final da temporada, a Ferrari deve partir para a união de esforços, ou seja, a trabalhar por um dos pilotos. Massa agora tem um ponto à frente de Raikkonen. As duas próximas corridas serão disputadas em pistas que, teoricamente, favorecem a Ferrari (Itália e Bélgica).
É difícil dizer se, a esta altura, Massa já adquiriu esse domínio dentro da própria equipe, afinal Raikkonen foi contratado a peso de ouro, para substituir Michael Schumacher. Mas, se o time se unir em torno do brasileiro, ele está mais dentro da disputa do que nunca.
E vocês, o que acharam da corrida?
E para os que ouviram a transmissão da Band, digam o que acharam da comentarista convidada.
Gostei muito da experiência e mais uma vez agradeço pelo convite.
Thursday, August 23, 2007
Didier e Gilles
Hoje, faz vinte anos que morreu o piloto francês Didier Pironi. Não acompanhei sua carreira, embora siga a Fórmula 1 desde 1983. É que, nessa época, ele já não corria na categoria. Pironi sofreu um seríssimo acidente no treino qualificatório para o GP da Alemanha de 1982. Tão sério que nunca mais competiu na Fórmula 1. Morreu cinco anos depois, em um acidente marítimo, disputando uma prova de offshore.
Embora não tenha acompanhado a trajetória de Pironi, alguns capítulos trágicos de sua vida sempre me impressionaram.
Nestes tempos atuais, com tantas disputas entre pilotos de uma mesma equipe, é recorrente lembrar da rivalidade entre Pironi e o canadense Gilles Villeneuve, companheiros na Ferrari em 1982. Gilles era tido como o número 1, mas Pironi inventou de ultrapassá-lo no final do GP de San Marino, mesmo com a orientação da equipe para que mantivessem as posições, com o canadense em primeiro e o francês, em segundo. Depois da prova, Gilles jurou nunca mais falar com Pironi.

E não falou mesmo, porque morreu poucas semanas depois, no treino para o GP da Bélgica. Essas brigas de "nunca mais" sempre me sensibilizam. Penso exatamente isso: e se o outro morrer amanhã, vai morrer com raiva de mim, sem me perdoar, sem eu poder pedir desculpa, ou sem que eu o desculpe, sem um abraço, sem um "deixa disso, já passou"?
Bem, a Ferrari, que tinha começado o ano mandando prender e mandando soltar, não conseguiu vencer o título de pilotos de 1982. Pudera, começou com uma dupla e terminou com outra (após a morte de Gilles, entrou em seu lugar o francês Patrick Tambay e, depois do acidente de Pironi, o outro carro do time italiano passou a ser comandado por Mario Andretti). Ainda assim, a equipe venceu o Mundial de Construtores.
Um detalhe quase novelesco parece encerrar a briga entre Villeneuve e Pironi. Quando o francês morreu, sua esposa Catherine estava grávida. Em janeiro de 1988, deu à luz gêmeos, dois homens. Batizou-os como Didier Gille e Gilles Didier. Ela também escreveu um livro sobre o marido, chamado "Lettre a Didier" ("Carta a Didier").

Não se tem notícia de que algum dos rapazes corra, de carro ou de barco.
Meu amigo Saco de Gatos fez um post ótimo sobre Pironi hoje. Vale a visita.
Embora não tenha acompanhado a trajetória de Pironi, alguns capítulos trágicos de sua vida sempre me impressionaram.
Nestes tempos atuais, com tantas disputas entre pilotos de uma mesma equipe, é recorrente lembrar da rivalidade entre Pironi e o canadense Gilles Villeneuve, companheiros na Ferrari em 1982. Gilles era tido como o número 1, mas Pironi inventou de ultrapassá-lo no final do GP de San Marino, mesmo com a orientação da equipe para que mantivessem as posições, com o canadense em primeiro e o francês, em segundo. Depois da prova, Gilles jurou nunca mais falar com Pironi.

E não falou mesmo, porque morreu poucas semanas depois, no treino para o GP da Bélgica. Essas brigas de "nunca mais" sempre me sensibilizam. Penso exatamente isso: e se o outro morrer amanhã, vai morrer com raiva de mim, sem me perdoar, sem eu poder pedir desculpa, ou sem que eu o desculpe, sem um abraço, sem um "deixa disso, já passou"?
Bem, a Ferrari, que tinha começado o ano mandando prender e mandando soltar, não conseguiu vencer o título de pilotos de 1982. Pudera, começou com uma dupla e terminou com outra (após a morte de Gilles, entrou em seu lugar o francês Patrick Tambay e, depois do acidente de Pironi, o outro carro do time italiano passou a ser comandado por Mario Andretti). Ainda assim, a equipe venceu o Mundial de Construtores.
Um detalhe quase novelesco parece encerrar a briga entre Villeneuve e Pironi. Quando o francês morreu, sua esposa Catherine estava grávida. Em janeiro de 1988, deu à luz gêmeos, dois homens. Batizou-os como Didier Gille e Gilles Didier. Ela também escreveu um livro sobre o marido, chamado "Lettre a Didier" ("Carta a Didier").

Não se tem notícia de que algum dos rapazes corra, de carro ou de barco.
Meu amigo Saco de Gatos fez um post ótimo sobre Pironi hoje. Vale a visita.
Wednesday, August 22, 2007
Nas ondas do rádio

No próximo domingo, dia 26 de agosto, vou participar como comentarista convidada da transmissão do GP da Turquia de Fórmula 1, pelas rádios BandNews FM (96,9 MhZ em São Paulo) e Bandeirantes AM (840 kH e 90,9 MhZ FM).
Apesar de ser ouvinte de rádio desde sempre, de ter me decidido pela profissão por causa do rádio, como já contei neste post, é a primeira vez que faço um programa de rádio "tradicional", sem contar minhas participações no podcast do Grande Prêmio.
Uma das grandes vantagens de participar de uma transmissão como as da Band é o fato de que a rádio pode ser ouvida, pela internet, em qualquer lugar do mundo. Portanto, os amigos de Salvador, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, de Ribeirão Preto, de Porto Alegre, de Newark, de Lisboa, de Viena ou de Tóquio também podem sintonizar.
E peço mesmo que o façam, e que comentem aqui, depois.
Desde já, agradeço aos titulares Odinei Edson e Fábio Seixas pelo convite. Até lá!
Sunday, August 19, 2007
La famiglia
.
Há alguns dias, quando escrevi sobre o Campeonato de Fórmula 1 de 1999, mencionei o irlandês Eddie Irvine e o fato de ele ter se tornado vice-campeão naquele ano pela Ferrari. Foi uma condição totalmente inesperada a que produziu esse quase título. Aquele campeonato foi o quarto de Michael Schumacher pela Ferrari, e o primeiro a oferecer condições reais de um título para o alemão, a bordo de um dos carros da escuderia italiana.
Mas Schumacher se acidentou em Silverstone, quebrou uma perna e ficou de molho por seis corridas. Em seu lugar, assumiu Mika Salo, finlandês como Mika Hakkinen, o campeão daquele ano. Na primeira corrida sem Schumacher, e com Salo, Irvine conquistou sua segunda vitória do ano, encostando em Hakkinen na classificação do campeonato (apenas dois pontos os separavam após essa prova, disputada em Zeltweg, na Áustria).
Na corrida seguinte, na Alemanha, Hakkinen largou na pole e liderou até a 24ª volta, quando abandonou por um furo no pneu traseiro esquerdo que o fez rodar e bater forte em uma proteção de pneus. Vinha em segundo o escudeiro ferrarista Mika Salo, com Irvine em terceiro. A liderança de Salo não foi maior do que uma volta. Cumprindo ordem da equipe, o finlandês cedeu o primeiro lugar a Irvine, que liderou as vinte voltas seguintes, venceu a prova e saiu de Hockenheim líder do campeonato, com oito pontos de vantagem sobre Hakkinen.

A manobra ficou na cara. Irvine saltou do carro e foi agradecer Salo ainda no parque fechado. Consta até que o irlandês teria dado o troféu de primeiro lugar ao companheiro de equipe. O finlandês correu as quatro provas seguintes, pontuando apenas na Itália, com um terceiro lugar. A fidelidade de Salo, embora não tenha sido suficiente para garantir o título para a Ferrari, naquele ano, foi amplamente premiada. O piloto ganhou vaga na Sauber, que utilizava motores Ferrari, no ano seguinte. Ainda pilotou para a Toyota na Fórmula 1 e, hoje, é um dos pilotos da Ferrari no American LeMans Serie, campeonato de carros turismo e GT nos Estados Unidos. Seu companheiro de equipe é o brasileiro Jaime Melo Junior.

Esta história serve para reforçar uma prática ancestral da Ferrari. A equipe italiana tradicionalmente escolhe um de seus pilotos e trabalha por ele. O segundo piloto é parte desta estratégia. Já era assim com Enzo Ferrari. No campeonato de 1979, diante da flagrante e espetacular ascensão do canadense Gilles Villeneuve, o comendador teria conversado com o piloto, de quem gostava “como um filho”, pelo que dizem. O teor da conversa: este ano, vamos trabalhar por Jody Scheckter. Gilles não teria gostado muito, mas acatou, certo de obter a preferência na oportunidade seguinte. Esta oportunidade teria chegado em 1982, só que a morte chegou mais cedo para ele.
Então, nada de novo em exigir tal comportamento também de Salo. Fico me perguntando se a imprensa finlandesa esboçou reação irada quando o piloto foi obrigado a ceder a vitória a Irvine. Teriam dito que Salo era “só um finlandezinho lutando contra esse mundo todo”? Detalhe: o gesto de Salo prejudicou outro finlandês, Hakkinen, que terminaria com o título, mas por aquela manobra perdeu momentaneamente a liderança do campeonato.
Pode-se até discutir a ética esportiva desse tipo de estratégia, mas fica evidente que este é o jeito da Ferrari trabalhar. O que leva a uma conclusão para os dias de hoje. Ainda neste campeonato de 2007, em algum momento, a Ferrari fará esta opção, entre Raikkonen e Massa.
Há alguns dias, quando escrevi sobre o Campeonato de Fórmula 1 de 1999, mencionei o irlandês Eddie Irvine e o fato de ele ter se tornado vice-campeão naquele ano pela Ferrari. Foi uma condição totalmente inesperada a que produziu esse quase título. Aquele campeonato foi o quarto de Michael Schumacher pela Ferrari, e o primeiro a oferecer condições reais de um título para o alemão, a bordo de um dos carros da escuderia italiana.
Mas Schumacher se acidentou em Silverstone, quebrou uma perna e ficou de molho por seis corridas. Em seu lugar, assumiu Mika Salo, finlandês como Mika Hakkinen, o campeão daquele ano. Na primeira corrida sem Schumacher, e com Salo, Irvine conquistou sua segunda vitória do ano, encostando em Hakkinen na classificação do campeonato (apenas dois pontos os separavam após essa prova, disputada em Zeltweg, na Áustria).
Na corrida seguinte, na Alemanha, Hakkinen largou na pole e liderou até a 24ª volta, quando abandonou por um furo no pneu traseiro esquerdo que o fez rodar e bater forte em uma proteção de pneus. Vinha em segundo o escudeiro ferrarista Mika Salo, com Irvine em terceiro. A liderança de Salo não foi maior do que uma volta. Cumprindo ordem da equipe, o finlandês cedeu o primeiro lugar a Irvine, que liderou as vinte voltas seguintes, venceu a prova e saiu de Hockenheim líder do campeonato, com oito pontos de vantagem sobre Hakkinen.

A manobra ficou na cara. Irvine saltou do carro e foi agradecer Salo ainda no parque fechado. Consta até que o irlandês teria dado o troféu de primeiro lugar ao companheiro de equipe. O finlandês correu as quatro provas seguintes, pontuando apenas na Itália, com um terceiro lugar. A fidelidade de Salo, embora não tenha sido suficiente para garantir o título para a Ferrari, naquele ano, foi amplamente premiada. O piloto ganhou vaga na Sauber, que utilizava motores Ferrari, no ano seguinte. Ainda pilotou para a Toyota na Fórmula 1 e, hoje, é um dos pilotos da Ferrari no American LeMans Serie, campeonato de carros turismo e GT nos Estados Unidos. Seu companheiro de equipe é o brasileiro Jaime Melo Junior.

Esta história serve para reforçar uma prática ancestral da Ferrari. A equipe italiana tradicionalmente escolhe um de seus pilotos e trabalha por ele. O segundo piloto é parte desta estratégia. Já era assim com Enzo Ferrari. No campeonato de 1979, diante da flagrante e espetacular ascensão do canadense Gilles Villeneuve, o comendador teria conversado com o piloto, de quem gostava “como um filho”, pelo que dizem. O teor da conversa: este ano, vamos trabalhar por Jody Scheckter. Gilles não teria gostado muito, mas acatou, certo de obter a preferência na oportunidade seguinte. Esta oportunidade teria chegado em 1982, só que a morte chegou mais cedo para ele.
Então, nada de novo em exigir tal comportamento também de Salo. Fico me perguntando se a imprensa finlandesa esboçou reação irada quando o piloto foi obrigado a ceder a vitória a Irvine. Teriam dito que Salo era “só um finlandezinho lutando contra esse mundo todo”? Detalhe: o gesto de Salo prejudicou outro finlandês, Hakkinen, que terminaria com o título, mas por aquela manobra perdeu momentaneamente a liderança do campeonato.
Pode-se até discutir a ética esportiva desse tipo de estratégia, mas fica evidente que este é o jeito da Ferrari trabalhar. O que leva a uma conclusão para os dias de hoje. Ainda neste campeonato de 2007, em algum momento, a Ferrari fará esta opção, entre Raikkonen e Massa.
Friday, August 17, 2007
20 anos sem Drummond
.
Há exatamente um ano, registrei os 19 anos da morte do poeta Carlos Drummond de Andrade neste post.
Vinte anos, hoje.
Minha relação com o fato está no texto de 2006. Para hoje, passo a palavra ao poeta, com dois poemas sobre o mesmo tema.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Há exatamente um ano, registrei os 19 anos da morte do poeta Carlos Drummond de Andrade neste post.
Vinte anos, hoje.
Minha relação com o fato está no texto de 2006. Para hoje, passo a palavra ao poeta, com dois poemas sobre o mesmo tema.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Thursday, August 16, 2007
O bode na sala
A atual temporada de Fórmula 1 tem levantado muitas comparações com o campeonato de 1986, um dos mais disputados de todos os tempos. De fato, naquele ano, como neste, quatro pilotos alternaram-se na liderança: os dois da Williams (Piquet e Mansell), um da McLaren (Prost) e um da Lotus (Senna). Este último tornou-se carta fora do baralho depois do GP de Portugal, antepenúltima corrida do ano. Na última, em Adelaide (Austrália), os três primeiros ainda mantinham suas chances.
Apesar de ser a melhor equipe e de vencer o Mundial de Construtores com folga, a Williams perdeu o título de pilotos para Prost, sendo que o inglês Nigel Mansell precisava apenas de um terceiro lugar para sagrar-se campeão na última corrida. Só que abandonou, com um pneu estourado. A disputa interna na Williams é reputada, por muitos, como uma das fortes razões para a perda do título. Isso tudo se parece muito com 2007. A McLaren também enfrenta uma luta fratricida entre Alonso e Hamilton, o que pode dividir as forças. Diferença significativa está no fato de que, do outro lado, entre os postulantes ao título, estão dois pilotos de uma mesma equipe – Raikkonen e Massa, separados na tabela de classificação por apenas um ponto.
Mas há uma referência bem mais recente de um título disputado até a antepenúltima corrida por quatro pilotos. Foi na temporada de 1999, que marcou o bicampeonato de Mika Hakkinen. Até o GP da Europa, disputado em Nurburgring, além de Mika, disputavam o título seu companheiro na McLaren, o escocês David Coulthard, o irlandês Eddie Irvine (Ferrari) e o alemão Heinz-Harald Frentzen (Jordan). Coulthard e Frentzen deixaram de ter chances após a corrida seguinte, na Malásia. Os dois remanescentes desembarcaram no Japão com chances de conquistar o campeonato, sendo Irvine o líder até então.
O que aconteceu de especial nesta referida temporada?

Michael Schumacher sofreu um forte acidente no GP da Inglaterra, bem na metade da temporada. Ficou fora de seis provas, voltando no GP da Malásia, como mero consorte de Irvine. Na primeira parte do campeonato, Schumacher havia obtido duas vitórias, um segundo e um quarto lugares. Ns duas últimas provas do ano, conseguiu dois segundos lugares. Ou seja, estaria na briga pelo título. Mas ficou fora, e o campeonato, com sua ausência, foi ultra-disputado.
Coincidência ou não, é na primeira temporada sem Schumacher que a competitividade volta com força na Fórmula 1, novamente com quatro pilotos brigando pelo título. Não vou discutir se o alemão é ou não o maior piloto de todos os tempos – cansei, tô cansadinha disso... Mas não posso deixar de reparar que a saída dele fez bem para a Fórmula 1. Schumacher era o bode na sala da Fórmula 1.
Apesar de ser a melhor equipe e de vencer o Mundial de Construtores com folga, a Williams perdeu o título de pilotos para Prost, sendo que o inglês Nigel Mansell precisava apenas de um terceiro lugar para sagrar-se campeão na última corrida. Só que abandonou, com um pneu estourado. A disputa interna na Williams é reputada, por muitos, como uma das fortes razões para a perda do título. Isso tudo se parece muito com 2007. A McLaren também enfrenta uma luta fratricida entre Alonso e Hamilton, o que pode dividir as forças. Diferença significativa está no fato de que, do outro lado, entre os postulantes ao título, estão dois pilotos de uma mesma equipe – Raikkonen e Massa, separados na tabela de classificação por apenas um ponto.
Mas há uma referência bem mais recente de um título disputado até a antepenúltima corrida por quatro pilotos. Foi na temporada de 1999, que marcou o bicampeonato de Mika Hakkinen. Até o GP da Europa, disputado em Nurburgring, além de Mika, disputavam o título seu companheiro na McLaren, o escocês David Coulthard, o irlandês Eddie Irvine (Ferrari) e o alemão Heinz-Harald Frentzen (Jordan). Coulthard e Frentzen deixaram de ter chances após a corrida seguinte, na Malásia. Os dois remanescentes desembarcaram no Japão com chances de conquistar o campeonato, sendo Irvine o líder até então.
O que aconteceu de especial nesta referida temporada?

Michael Schumacher sofreu um forte acidente no GP da Inglaterra, bem na metade da temporada. Ficou fora de seis provas, voltando no GP da Malásia, como mero consorte de Irvine. Na primeira parte do campeonato, Schumacher havia obtido duas vitórias, um segundo e um quarto lugares. Ns duas últimas provas do ano, conseguiu dois segundos lugares. Ou seja, estaria na briga pelo título. Mas ficou fora, e o campeonato, com sua ausência, foi ultra-disputado.
Coincidência ou não, é na primeira temporada sem Schumacher que a competitividade volta com força na Fórmula 1, novamente com quatro pilotos brigando pelo título. Não vou discutir se o alemão é ou não o maior piloto de todos os tempos – cansei, tô cansadinha disso... Mas não posso deixar de reparar que a saída dele fez bem para a Fórmula 1. Schumacher era o bode na sala da Fórmula 1.
Tuesday, August 14, 2007
Quem é seu chato preferido?
Há alguns cantores chatos. Podem nem abrir a boca, mas só de cruzar com eles pelo rádio ou pela TV, muda-se instintivamente de estação ou de canal. Muitos deles nem têm direito à defesa. Ganharam da mídia o rótulo de chatos, podem se esforçar de maneira hercúlea, nada fará efeito. Chato: caso encerrado.
Entre eles, talvez o mais célebre seja Oswaldo Montenegro, de quem a maioria das pessoas não ouviu sequer o segundo acorde. Mas há também Fagner, emérito pentelho de interpretação inconfundível. Há quem ache Zé Ramalho chato. Eu adoro, e aí entramos em uma seara pedregosa. Meus chatos podem ser diferentes dos seus, mas ainda assim serão chatos em um certo senso comum, que nos farão confessar o gosto por eles com certo rubor na face.
Há, naturalmente, os chatos intragáveis. Para mim, ícone maior de chatice é Sandy & Junior. Não me animo nem com a anunciada separação da dupla. Sei que eles continuarão por aí. Ela, principalmente. Podem me dizer que sua voz é afinada e cristalina. Sorry. A única coisa que me ocorre, ao ouvi-la, é aconselhar, e depressa: “Vai, entrega logo a boneca para a essa menina, para ver se ela pára de chorar!”
Uma vez, fui passar férias em Salvador e, na piscina do hotel, os monitores insistiam em tocar axé music o dia inteiro. Tudo bem, eu estava em Salvador, mas com tanta coisa boa que a Bahia nos deu, precisava ser aquela lavagem cerebral (ou traseiral)? Não dava para rolar um Dorival Caymmi, um Caetano, um Gil, até um Carlinhos Brown? Pitty! Pitty é baiana... Eu não chegaria ao requinte de pedir João Gilberto à beira da piscina, até porque João é por muitos considerado um chato de galochas.
E então voltamos aos meus, aos seus, aos nossos chatos. Há uma cantora-compositora que alguns consideram chata, mas que eu adoro. Joyce. Gosto de verdade de tudo o que ela já fez, e talvez goste muito, também, por ela ter sido uma das primeiras mulheres a compor na MPB. Joyce gravou o primeiro LP no final dos anos 1960, mas gramou bastante no quase anonimato até estourar com a canção-de-ninar “Clareana”, no Festival MPB Shell, em 1980.

“Um coração, de mel de melão, de sim e de não...”
Assim começa a música, parceria de Joyce com Mauricio Maestro, do ótimo grupo Boca Livre. Dessa mesma época, são canções como “Feminina”, “Da cor brasileira”, “Mistérios”, “Essa mulher” (que deu nome ao disco de Elis Regina, gravado em 1979), “Monsieur Binot”. Nesse período, a obra de Joyce se caracterizava por um cunho fortemente feminino/feminista. Também era notável a influência do pensamento libertário dos anos 60/70, toques hippies, natureza, aquele flower power todo.
Depois, ao longo dos anos 1980 e 1990, Joyce foi se cristalizando cada vez mais no formato banquinho e violão e, suspeito, começou a achar que tinha se transformado em João Gilberto. Não posso culpar quem a toma por chata (ai, que maldade...). Leituras e releituras de Bossa Nova afastaram a Joyce feminista e natureba da Joyce para exportação que desembarcou no século 21.
Menos conhecida que os sucessos listados acima, talvez a música mais curiosa de Joyce seja “Minha gata Rita Lee”, composta em homenagem não à cantora-compositora, mas efetivamente a uma gata de estimação. Descrita na música como “magrinha, magrinha, arrepiada, de pêlo vermelho e olhos de fome” a gata não poderia mesmo ter outro nome – Rita Lee.
///
E para você, quem é chato mesmo? E quais são os chatos de que você gosta?
///
Este texto foi livremente inspirado em um ótimo post do querido blog-amigo Henrique Bartsch, que botou a turma para falar de seus “prazeres proibidos”. Cantores chatos entram no rol.
Entre eles, talvez o mais célebre seja Oswaldo Montenegro, de quem a maioria das pessoas não ouviu sequer o segundo acorde. Mas há também Fagner, emérito pentelho de interpretação inconfundível. Há quem ache Zé Ramalho chato. Eu adoro, e aí entramos em uma seara pedregosa. Meus chatos podem ser diferentes dos seus, mas ainda assim serão chatos em um certo senso comum, que nos farão confessar o gosto por eles com certo rubor na face.
Há, naturalmente, os chatos intragáveis. Para mim, ícone maior de chatice é Sandy & Junior. Não me animo nem com a anunciada separação da dupla. Sei que eles continuarão por aí. Ela, principalmente. Podem me dizer que sua voz é afinada e cristalina. Sorry. A única coisa que me ocorre, ao ouvi-la, é aconselhar, e depressa: “Vai, entrega logo a boneca para a essa menina, para ver se ela pára de chorar!”
Uma vez, fui passar férias em Salvador e, na piscina do hotel, os monitores insistiam em tocar axé music o dia inteiro. Tudo bem, eu estava em Salvador, mas com tanta coisa boa que a Bahia nos deu, precisava ser aquela lavagem cerebral (ou traseiral)? Não dava para rolar um Dorival Caymmi, um Caetano, um Gil, até um Carlinhos Brown? Pitty! Pitty é baiana... Eu não chegaria ao requinte de pedir João Gilberto à beira da piscina, até porque João é por muitos considerado um chato de galochas.
E então voltamos aos meus, aos seus, aos nossos chatos. Há uma cantora-compositora que alguns consideram chata, mas que eu adoro. Joyce. Gosto de verdade de tudo o que ela já fez, e talvez goste muito, também, por ela ter sido uma das primeiras mulheres a compor na MPB. Joyce gravou o primeiro LP no final dos anos 1960, mas gramou bastante no quase anonimato até estourar com a canção-de-ninar “Clareana”, no Festival MPB Shell, em 1980.

“Um coração, de mel de melão, de sim e de não...”
Assim começa a música, parceria de Joyce com Mauricio Maestro, do ótimo grupo Boca Livre. Dessa mesma época, são canções como “Feminina”, “Da cor brasileira”, “Mistérios”, “Essa mulher” (que deu nome ao disco de Elis Regina, gravado em 1979), “Monsieur Binot”. Nesse período, a obra de Joyce se caracterizava por um cunho fortemente feminino/feminista. Também era notável a influência do pensamento libertário dos anos 60/70, toques hippies, natureza, aquele flower power todo.
Depois, ao longo dos anos 1980 e 1990, Joyce foi se cristalizando cada vez mais no formato banquinho e violão e, suspeito, começou a achar que tinha se transformado em João Gilberto. Não posso culpar quem a toma por chata (ai, que maldade...). Leituras e releituras de Bossa Nova afastaram a Joyce feminista e natureba da Joyce para exportação que desembarcou no século 21.
Menos conhecida que os sucessos listados acima, talvez a música mais curiosa de Joyce seja “Minha gata Rita Lee”, composta em homenagem não à cantora-compositora, mas efetivamente a uma gata de estimação. Descrita na música como “magrinha, magrinha, arrepiada, de pêlo vermelho e olhos de fome” a gata não poderia mesmo ter outro nome – Rita Lee.
///
E para você, quem é chato mesmo? E quais são os chatos de que você gosta?
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Este texto foi livremente inspirado em um ótimo post do querido blog-amigo Henrique Bartsch, que botou a turma para falar de seus “prazeres proibidos”. Cantores chatos entram no rol.
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