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| Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, e Walter Casagrande Jr. |
Quando eu tinha 12 anos, em 1982, comprei um disco de vinil da banda Blitz e ele veio com duas faixas riscadas. Deve ser até difícil para quem nunca pegou um disco de vinil nas mãos e tem pouca intimidade com mídia física entender o que estou descrevendo. O fato é que aquele álbum foi danificado de propósito para que ninguém pudesse escutar duas faixas, que tinham sido proibidas pela Censura Federal. Anos depois, descobriu-se que as canções foram proibidas por conterem termos “imorais”, como – pasme – “bundando” e “peru”, claro, esta última com duplo sentido.
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| O disco da Blitz, com faixas proibidas pela Censura Federal |
Em 1982, período final da ditadura militar brasileira, ainda existia censura. Nenhum artista tinha liberdade absoluta para se expressar sobre o que quisesse. Artista ou qualquer pessoa com algum tipo de popularidade ou de notoriedade. Mesmo que essa fosse uma fase final do regime de exceção, a palavra liberdade ainda era muito mais um conceito do que uma realidade.
Minha experiência de limitação da liberdade na ditadura – esta, descrita acima – é apenas um exemplo tolo de uma pré-adolescente da Zona Norte de São Paulo. Sim, fui privada de ouvir duas músicas de um LP que, no final das contas, nem era tão bom assim. Mas havia muita gente, no Brasil, sofrendo as consequências de um governo incompetente e cruel, que se sustentava apenas com a força do autoritarismo.
O Brasil de 1982 era um descalabro: a inflação anual foi de 100%, o analfabetismo mantinha-se em 25%, 70 a cada 1.000 bebês nascidos vivos não completavam um ano de idade e 40% da população vivia abaixo da linha da pobreza.
No meio dessa atmosfera de restrições e medo, um grupo de pessoas notórias e extremamente populares resolveu se posicionar, criando um movimento que foi batizado de Democracia Corintiana. Os jogadores do Corinthians, aparentemente, estavam “apenas” redefinindo as relações entre atletas e a instituição, mas estavam fazendo muito mais do que isso. Estavam demonstrando como o futebol, aquele microcosmo da sociedade, podia também ser o laboratório de um país que tinha o direito decidir seu próprio destino.
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| Sócrates com a camisa que estimulava as pessoas a irem votar na primeira eleição direta para governadores desde o início da ditadura |
E não se limitaram a criar novos paradigmas sobre o que um jogador podia ou devia fazer no dia anterior ao jogo. Também começaram a colocar a própria cara a tapa, entrando em campo com mensagens políticas, em faixas e na própria camisa. A ditadura seguia implicando com bundas e perus nas letras de músicas, mas não era capaz de conter a força do time do povo na semeadura de consciência popular.
No final daquele ano, o time da Democracia foi campeão paulista, um título que hoje muita gente nem valoriza tanto e há até os que defendam o fim dos campeonatos estaduais. Naquela época, valia muito, mas nem é isso que ecoa ferozmente na memória de quem viveu aquilo.
Mais de 40 anos depois, o Brasil ainda segue como uma sociedade desigual e cheia de problemas, mas a inflação, que era de 100%, hoje fica abaixo de 5% ao ano. O analfabetismo foi de 25% para 4,9%. Em vez de morrerem 70 bebês a cada 1.000 nascidos vivos, esse número caiu para 12,6. No lugar de 40% da população abaixo da linha da pobreza, a cifra hoje é de 2,5%, o que significa estar fora do mapa mundial da fome.
Chegamos a 2026 com um planeta desorientado diante de catástrofes naturais cada vez mais frequentes, com uma população cada vez mais descrente de valores antes almejados, como estudo e emprego, com uma desigualdade social que estimula o pensamento do medo e da ameaça. Ultrapassamos um quarto do século 21 com parte significativa da sociedade acreditando em notícias falsas e em premissas delirantes, como a de que a Terra é plana e que a democracia é dispensável.
Pode parecer banal que um jovem político norte-americano diga ao mundo que, quatro décadas atrás, um grupo de jogadores de futebol fez história ao bradar a importância da democracia. Não é banal. É preciso que se diga que não, o Brasil não era melhor na época da ditadura, nenhum país é melhor sob regime autoritário, e foi por isso que eu me emocionei tanto quando Walter Casagrande Jr. entregou camisas do Corinthians da Democracia para Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, em 20 de junho de 2026.



