Friday, March 30, 2007

Música nas veias

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Durante todo o primário, o ritual era o mesmo: minha mãe me pegava na escola às cinco da tarde e eu entrava no carro ao som de “Take the A Train”, com a big band de Duke Ellington. É claro que, nessa época, eu não sabia o nome daquela música, nem quem era Duke Ellington. Por muitos anos, aqueles acordes eram para mim apenas “a música do programa do Zuza”, porque logo vinha o locutor informar que “aí vem o Zuza, um programa para quem tem música nas veias”.

Ouvimos todos os lançamentos da fertilíssima MPB daqueles anos 70, entrevistas com vários artistas, análises e histórias saídas do baú privilegiado de Zuza Homem de Mello, pesquisador, crítico musical e escritor que, sem exagero, foi o responsável pela minha escolha profissional. O “Programa do Zuza” fez sua estréia pela Rádio Jovem Pan AM em 1977, o ano em que cursei a primeira série. Eu ouvia o Zuza, naqueles tempos, por osmose, pura influência dos hábitos da minha mãe.

Tanto que, por dois anos, estive distante da melodia de “Take the A Train”. Foi quando passei a estudar de manhã e já não pegava carona no carro da minha mãe. Entre 1981 e 1982, aproveitava o fim de tarde para ficar escutando meus LPs recém-adquiridos, especialmente a coleção de discos da Rita Lee que ia formando. Também aproveitava que eventualmente não havia ninguém em casa – minha mãe continuava saindo no mesmo horário vespertino, para buscar meu irmão – para ensaiar meus momentos de futuro estrelato. Colocava para tocar “Sucesso, aqui vou”, da mesma Rita, e descia a escada do sobrado vislumbrando o palco que nunca pisei. Micos adolescentes: atire a primeira pedra quem não os teve.

Começo de 1983, sétima série, eu tinha de doze para treze anos. Meu pai chega em casa comentando que o Zuza ia passar a fazer um programa por mês inteiramente produzido por um ouvinte, que deveria escolher as músicas e escrever os textos. “Por que você não faz um programa sobre a Rita Lee?”, ele sugeriu. Primeiro, achei que o Zuza não levaria ao ar um programa sobre ela, que estava no auge da fama, fazendo músicas que bombavam nas paradas de sucesso.

O “Programa do Zuza” tocava de tudo, mas tinha um inegável contorno de sofisticação. Depois, achei que o crítico não perderia tempo com os rabiscos de uma garota de treze anos. Mas, sempre me vali da idéia de que o não eu já tenho, se tentar, posso ter o sim. Peguei duas folhas de papel almaço, escolhi as músicas, começando com “Domingo no Parque”, primeira aparição de impacto dos Mutantes, escrevi um textinho para cada música, fechei o envelope, selei, pus no Correio. Alea jacta est.

A sorte estava lançada, mas não pensei muito nisso. Nem passei a ouvir o programa regularmente, por conta do intento, e fiquei mesmo surpresa quando meu pai, de novo, chegou em casa e anunciou: “O Zuza vai fazer seu programa amanhã!”. Fiquei numa pilha só. No dia seguinte, uma quarta-feira, antes das cinco, postei-me ao lado do aparelho de som, fita cassete a postos, o coração aos pulos. Zuza começou o programa anunciando que se tratava de uma contribuição de “uma ouvinte de treze anos”, e repetia essa frase o tempo inteiro. Minha inseparável amiga Cynthia ouviu o programa comigo. Se a maioria das pessoas tem apenas uma vaga idéia de como e quando escolheu sua profissão, eu tenho ano, mês, dia e hora. Foi em 23 de fevereiro de 1983, às 17h, que decidi ser jornalista.



Daí pra frente, Zuza virou minha religião, minha ideologia, meu guia e meu ideal de vida. Eu queria ser Zuza quando crescesse. Todas as quartas-feiras, ele fazia o “Dia do Ouvinte”, lendo cartas e tocando músicas pedidas pela audiência. A última quarta do mês era o “Programa do Ouvinte”, como esse que escrevi e se chamou “Um pouco de Rita Lee”. Entre 1983 e 1988, quando o último “Programa do Zuza” foi ao ar, escrevi dezenas de cartas, quase todas em tons de crítica azeda e violenta. Eu era adolescente, afinal, rebeldia no último volume. Também escrevi mais uns três ou quatro programas completos. A cada programa produzido pelo ouvinte, Zuza ofertava uma fita cassete com a íntegra. Não sei o que me deixava mais feliz: ouvir meu nome no rádio ou ir até a Avenida Paulista, número 807, para buscar a fita das mãos do próprio Zuza.



Há exatos vinte anos, no dia 31 de março de 1987, uma festa oferecida pelo Zuza marcou para sempre a minha vida.

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Naquele dia, o “Programa do Zuza” completava dez anos. Ele organizou um encontro de amigos, incluindo ouvintes, no simpático bar “Inverno & Verão”, no bairro de Santo Amaro. Recebi o convite pelo correio e, claro, pedi para minha mãe me levar. Lembro de tudo: de como o sol batia naquele dia, do lugar em que sentei à mesa, da boca seca de ansiedade. Acho que eu nunca tinha ficado tão empolgada com nenhum acontecimento em meus 17 anos anteriores. Havia artistas de todos os estilos entre os convidados, mas certamente todos os presentes só tinham olhos para uma figura quase mitológica da MPB que também apareceu por lá – Geraldo Vandré.

Conheci pessoalmente os colegas ouvintes que freqüentavam o mesmo espaço das ondas do rádio, como os queridos Chico Nascimento, Nair, Rosinha, gente que parecia fazer parte do meu círculo de amigos íntimos, pela simples irmandade dos que têm música nas veias. Foi nesse dia que conheci Gê Tock, outro da turma, moço de Tietê, bacharel em direito. Mas, de cara, Gê me disse que sua profissão mesmo era músico. Estudava música e era de música que queria viver. Antes de sair, trocamos endereços e telefones. Logo começamos a enviar longas cartas manuscritas um para o outro, fazer eventuais telefonemas, gravar fitas cassetes e enviá-las pelo Correio.

Gê me fornecia rock dos anos 70, muita música mineira da turma do Clube da Esquina e me abastecia seguidamente de um som instrumental que ele mesmo me apresentou, o do guitarrista Pat Metheny. Eu devolvia com MPB das décadas de 60 e 70, Beatles e cantoras de jazz e blues, como minhas preferidas Billie Holliday e Dinah Washington. Um ano depois da histórica festa, nossa festa acabou: em fevereiro de 1988, Zuza apresentou a última edição de seu programa diário. Foi no mesmo mês que passei no vestibular para Jornalismo. A amizade com Gê, no entanto, tinha alçado vôo próprio. Nos anos seguintes, cursei a faculdade, Gê cumpriu o objetivo de viver de música e hoje é professor do respeitado Conservatório Musical de Tatuí, além de guitarrista da Big Band da instituição. Já gravou dois CDs independentes, é excelente instrumentista e compositor, um querido anfitrião nas visitas periódicas a Tietê, foi meu padrinho de casamento. Acima de tudo isso, um amigo querido, dos que têm música nas veias, há exatos vinte anos.

Obrigada, Zuza!

15 comments:

Ulysses Dutra said...

Pô que história bonita Alessandra! A sua escolha precoce foi certamente a mais correta. Um beijo de outra alma que tem "música nas veias"

Anonymous said...

Alessandra, o texto além de comovente me ajudou a entender um lado seu. Sempre achava engraçado que quando você fala de música na janela vremêia é sempre uma coisa que você stá escutando no carro, e eu ficava pensando: mas quanto tempo será que a Alessandra passa no trânsito! Pelo jeito é antigo o hábito e não deixa de ser uma boa forma de aproveitar o tempo atrás do volante.
[sou eu Márcia W. mas o blogger não quer reconhecer minha senha...]

Herik said...

Como é legal ver a vida tomando caminhos tão bons. E ter histórias para contar.
Fiquei curioso para saber quais foram as músicas que você escolheu para o programa.
Abração.

Alessandra Alves said...

ulysses: obrigada! e volte sempre!

márcia w.: querida, que alegria tê-la aqui também. pois é. hábito e de família. eu moro dez quilômetros distante do meu trabalho. não é nenhum absurdo, mas em se tratando de são paulo, é certeza de trânsito. além disso, circulo bastante durante o dia. são sempre duas opções: ou me estressar cotidianamente ou aproveitar esse tempo que passo no carro fazendo algo que eu adoro - ouvir música!

herik: sabe que o gê quase foi morar em belo horizonte, exatamente nessa época? chegou a ir, mas voltou. olha, para saber as músicas do programa, eu precisaria ouvi-lo. tenho as fitas guardadas, mas não estão à mão. além de "domingo no parque", lembro de ter colocado "ovelha negra", "refestança", "jardins da babilônia", "só de você" e "mutante", que encerrava o programa. lembro, também, que optei por colocar mais baladas que rocks, achando que combinavam mais com o estilo do programa do zuza.

escrevi este post em um rasgo sentimental e não me permiti modificar depois o texto, mas agora vejo que esqueci de alguns comentários legais. por exemplo, eu nunca chamei o zuza de zuza. sempre me referi a ele como "mestre". sinceramente, acho que ele ficava meio constrangido com esse tratamento.

outra coisa que não citei e isso é imperdoável: a risada do zuza! gente, a risada do zuza é inimitável, adorável de se ouvir. risada tão gostosa quanto a do zuza só conheço a da minha cunhada patricia.

e um outro detalhe maravilhoso da minha amizade com o gê. ele é palmeirense e eu, corintiana. nunca, nunca, nunca deixamos de tirar sarro um do outro, a depender da fase, mas jamais tivemos sequer algum mal estar por conta disso. dia seguinte de clássico, invariavelmente o vencedor ligava para o perdedor, trocávamos duas ou três frases debochadas sobre o jogo e logo passávamos a outros temas, claro, com a música no centro dos debates.

mario lago said...

alessandra, lendo vc e suas histórias, sempre comoventes, diga-se, confio ainda mais ser o destino responsabilidade de quem o toma pelas mãos e o coração...

Ulysses Dutra said...

Puxa Alessandra, valeu a visita e o afetuoso comentário. Sou teu fã. Um abraço

Marcio Gaspar said...

Belas lembranças, Alessandra. Realmente, sinto saudades do tempo em que tinhamos verdadeiros críticos musicais - gente do calibre de Zuza, de Tarik de Souza, de Ezequiel Neves, de Maria Amelia Rocha Lopes, de Jamari França, de Mauricio Kubrusly, por sorte todos eles amigos queridos... Hoje, quem são seus substitutos?

Cynthia said...

Oi mãe, eu tô no blog!
Alê, me lembro muito desse dia. Meu nervoso era enorme e minha emoção foi muito grande de ouvir o nome de alguém que eu conhecia tanto ser falado no rádio. E a voz do Zuza... que incrível!
E depois, no lanche pra variar rolou uma pipoquinha com pão...

Alessandra Alves said...

mario lago: quem sabe faz a hora, né?!

ulysses: :)

marcio gaspar: eu me sinto privilegiada por ter me formado como ouvinte, apreciadora de música etc. sob a influência dessas pessoas que você citou. eu acho, sinceramente, que a crítica musical mudou tanto de lá para cá que não dá para traçar paralelos. essas pessoas eram grandes conhecedoras de música, conviviam no meio. de uns vinte anos para cá, muito em função da postura de alguns órgãos de imprensa, o conhecimento deixou de ser valorizado. alguns órgãos, infelizmente, chamam "experiência" de "vício" e preferem alçar à condição de formadores de opinião gente que se pauta só pelo próprio gosto musical, produzindo análises muitas vezes preconceituosas, sectárias, míopes. o contrário disso, uma visão aberta e flexível, eu só encontro mesmo no pedro (alexandre sanches). por isso acabei me identificando tanto com aquele espaço, que não tem mais a ver só com música. e, também por essa visão diferente, não dá para ser comparado à crítica feita por esses profissionais que você citou. outros tempos...

Alessandra Alves said...

cy: era pipoca porque era de tarde. fosse na hora do almoço... coxinha!!!!

Andréa N. said...

Poxa, Alessandra, você sempre nos emociona com suas histórias reais e a gente vai te conhecendo um pouquinho mais. Temos a mesma idade e provavelmente por isso eu sempre me identifico com os momentos musicais que você menciona. Rita Lee me traz tanta lembrança boa de infância e as melhores são de quando eu não entendia completamente o que ela queria dizer por pura ingenuidade. Ai, ai...
Quanto ao time de futebol, sorry, estou com o Gê! :-)
Beijoca e viva o Zuza!

Pinho said...

olá Alessandra! como vai?

bárbara essa sua história.... me fez recordar da minha terra natal... Avaré.

na década de 90, anualmente, era realizado um festival de música e o Zuza foi, na maioria das edições, o "presidente" do júri.... o que refletia sempre num excelente nível dos participantes.

bom... parabéns pelo post!

saudações.

Alessandra Alves said...

andréa n.: "me deixa de quatro no ato". hahahaha você entendia alguma coisa disso? eu, não!

pinho: o gê ia a todo festival de avaré, chegou até a competir lá. você não conhece ele não?

Bruno Ribeiro said...

Oi alessandra, dá uma olhada no meu blog. Fiz uma entrevista com Zuza, de quem também sou amigo e fã. Beijos!

Anonymous said...

AlÊ... SENSACIONAL relato,viajei contigo no banco do carro, fui na festa e escutando as musicas que vc citou ... emocionou viu... temos algo em comum além de conhecermos o doce ZUZA ... o prazer pela Música e pela corrida. bj

Vicent Sobrinho