Thursday, August 17, 2006

Drummond, 19 anos



Eu estava no 3° colegial e, coincidência, estudávamos Drummond nas aulas de Língua Portuguesa daquela semana. Em casa, sempre tivemos o hábito de ouvir rádio desde cedo, então logo escutei a notícia de sua morte. Comentei com a Teca, queridíssima professora de Português, uma das responsáveis por eu ter me tornado profissional da linguagem.

Anos depois, na faculdade, usei trechos de "Os ombros suportam o mundo" em uma reportagem sobre uma sobrevivente de um campo de concentração. Drummond sempre me foi muito caro. São tantas suas qualidades, mas gostaria de destacar uma. Drummond experimentou e ousou com a linguagem sem se tornar uma caricatura. Subverteu as regras de métrica e rima sem, para isso, tornar-se ininteligível. Pelo contrário, é claro, límpido e direto, talvez por isso mesmo tendo se tornado um poeta tão popular.

Reproduzo "Sentimento do Mundo" e convido os amigos a opinar e sugerir outros escritos de Drummond, inclusive prosa, inclusive infantil.

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

13 comments:

Anonymous said...

O poeta tem o dom de transmitir os sentimentos em palavras, a mim algo quase magico ,e inflexivel como sou ,leio e fico parado por minutos vagando.
Fico alternado em entender e sentir com uma louca impressão de estar na pele do autor,não dá para explicar.
E as vezes essa viagem é mais interessante quando voce tem certeza que sua conclusão perante uma poesia que acabou de ler ,seria diferente.
Isso me ajuda a entender mais as pessoas.Na dor ,a reação pode ser diferente , mas o sentimento é igual.
Que bagunça !
Jonny'O

Andréa N. said...

Voce apareceu la no meu blog, hoje.

Ah...Drummond...

Beijo.

Cynthia said...

Por favor não escreva mais que há 19 anos você estava no último ano do colegial.
Ganhei mais um cabelo branco...
Se você tiver guardado, publique o seu discurso como oradora da turma na nossa contestadora formatura. Um dia em que me senti muito orgulhosa por pelo menos segurar a pasta com o texto do discurso.
Um beijo,

Mauro Chazanas said...

Viagem Na Família

No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Não era dia nem noite.
Suspiro? Vôo de pássaro?
Porém nada dizia.

Longamente caminhamos.
Aqui havia uma casa.
A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
E nas casas em ruína
desprêço frio, umidade.
Porém nada dizia.

"..............."
Que cruel, obscuro intento
movia sua mão pálida
e sutilmente nos empurrava
pelo tempo e pelos lugares
defendidos?

Olhei-o nos olhos brancos.
Gritei-lhe: Fala! Minha voz
ficou no ar um momento,
bateu nas pedras. A sombra
prosseguia devagar
aquela viagem patética
através do tempo perdido.
Porém nada dizia.

Vi mágoa, incompreensão
e mais de uma velha revolta
nos dividindo no escuro.
A mão que eu não quis beijar,
o prato que me negaram,
a recusa em pedir perdão.
O orgulho. O terror noturno.
Porém nada dizia.

".............."

E eram distintos silêncios
que se entravam no seu.
Era meu avô já surdo
querendo escutar as aves
pintadas no céu da igreja;
a minha falta de amigos;
a sua falta de beijos;
eram nossas difíceis vidas
e uma grande separação
na pequena área do quarto.

A pequena área da vida
me aperta contra o seu vulto,
e nesse abraço diáfano
é como se eu me queimasse
todo, de pungente amor.
"................"

Senti que me perdoava
porém nada dizia.

As águas cobrem o bigode,
a família, Itabira, tudo.

Alessandra, não quis copiar todo o poema por não saber de limitação de espaço Peço perdão a todas e todos pelo crime que é não colocar o poema inteiro.
Acho que não precisamos de música agora.

Dani Santi said...

Sou apaixonada pelo poema "A Mesa".
É fantástico.

"Feroz a um breve contato
à segunda vista, seco
à terceira vista, lhano
dir-se-ia que ele tem medo
de ser fatalmente humano."

Alessandra Alves said...

jonny´o: acho muito interessante a questão da "interpretação do texto", algo que a gente faz na escola e tem que aprender a fazer mesmo, para aprender de fato a ler. mas acho que não deve ter nada mais enfadonho, para um artista, do que ter de explicar uma obra. ora, obra de arte é para isso mesmo que você falou: para fruir e se deixar levar. pode ter um sentido para mim, outro completamente diferente para você. lembro de uma entrevista do gilberto gil, na qual ele comentava sobre "no woman, no cry", música de bob marley que ganhou uma versão dele em português. um interlocutor chegou a ele e disse algo como "puxa, é isso mesmo, no woman, no cry - sem mulher, sem sofrimento". na mesma época, outra pessoa lhe disse: "essa letra tem tudo a ver comigo. não mulher, não chore". à primeira vista, a segunda interpretação pode até soar como erro, mas é perfeitamente plausível no linguajar jamaicano, no qual ganharia exatamente esse sentido. por outro lado, a primeira interpretação também faz muito sentido!

andréa n.: obrigada, querida, pela citação! seu blog é muito legal, assim que der vou linká-lo aqui também. seu post sobre café + brownie me lembrou uma referência de "sex and the city", com uma das personagens afogando a carência em chocolate. como chama aquele troço que ele ativa em nós? cerotonina? ah, sei lá, pode ser um veneno negro, mas como é bom...

cy: caramba, eu acho que não guardei o discurso da nossa formatura. coisa rara, porque guardei várias coisas daquela época, inclusive a plaquinha da classe, cujo roubo configura-se, até hoje, como a maior transgressão da minha vida. ah, como foi legal aquela formatura! subvertemos a paz do colégio de freiras, cantando "sapato velho" e "tempo perdido" na colação. isso era realmente inovador naquela época e, sim!, faz dezenove anos, tia!!!

mauro: dá um aperto no peito desprezar alguns versos do poeta, né? mas acho que ele nos perdoa. é tão universal esse sentimento por ele expresso, não? não digo que toda relação pai-e-filho tem esse distanciamento, esse temor reverencial que cria barreiras inexpugnáveis. mas acho que todos temos entes queridos com os quais, de alguma forma, não conseguimos consumar uma relação plena. quem nunca sentiu vontade de chegar a alguém e dizer o quanto esse alguém é importante para si? ou de pedir desculpas por algo sepultado pelo passado? ou de evidenciar um mal-estar? e, no entanto, prevalecem as reticências...

dani: bela contribuição, obrigada!

Anonymous said...

Voltando a falar de interpretação,me fez lembrar de uma passagem na Bahia, em Luis Eduardo Magalhães ,hoje uma bela cidade com mais de 50 mil pessoas e muito prospera, a 10 anos atras simplesmente não existia nada.
E foi no inicio desta cidade que estive por lá, em 1998,fazendo pesquisa mineral ,um trabalho solitario onde vc sai em busca de material para analise,que conheci um mundo muito diferente até então.
Na época era comum os grandes proprietarios de terra "limpar"suas fazendas dos intrusos ,os chamados grileiros.
Naquele periodo estava uma bagunça as divisas das areas ,escrituras com 2 ou 3 andares.Conheci alguns proprietarios que gastavam até 15.000,00 reais por mês com pistoleiros, um verdadeiro horror.
Tinha levado comigo um livro do Fernando Pessoa ,não me lembro qual pseudônimo , Alvaro de Campos ou Alberto Caeiro ,só sei que é o mais natureba deles.Só sei que pra relaxar um pouco ,sempre dava uma olhadinha nas poesias.
Fiquei por lá quase 6 meses e quando voltei e depois de um ano talvez ,dei uma olhadinha nas mesmas poesias .
O gosado Alessandra é que tive a impressão de ter duas interpretações diferentes das poesias.É impressionante tambem o que o meio modifica as pessoas e por outro lado a capacidade do ser humano em se adaptar e depois voltar ao seu estado normal.
Vai entender!

Jonny'O

Anonymous said...

E assim quanto mais tarde me procure a morte,angustia de quem vive, quem sabe a solidão, angustia de quem ama, eu possa me dizer do amor que tive.
Que não seja imortal, posto que é chama,
mas que seja infinito enquanto dure.

" O importante é que nossa emoção sobreviva"

Beijo grande

Anonymous said...

É Alberto Cairo mesmo em "O guardador de rebanhos".

Jonny'O

Anonymous said...

Alberto Caeiro
II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alessandra ,ao meu ver entre os heterônimos de Fernando Pessoa ,Alberto Cairo era o mais direto e de simples leitura.
Sabe como é ,meu vocabulario não é lá essas coisas ,fico meio perdido se for uma obra mais complexa.
Jonny'O

Anonymous said...

Perdão, escrevi Cairo de novo, é CAEIRO!

Alessandra Alves said...

jonny´o: muito legal seu relato sobre a poesia. é aquela história: você nunca passa duas vezes pelo mesmo rio, né?

sobre fernando pessoa: que obra colossal ele nos deixou, não? tenho a impressão de que ele não fazia outra coisa que não escrever. e o mais incrível: com tanta qualidade. engraçado: lembrei agora daquele trecho da música "língua", de caetano veloso, quando ele diz: "gosto do Pessoa na pessoa, da rosa no Rosa". por acaso, vou postar logo logo algo sobre Guimarães Rosa. Pessoa, Rosa...

Makely said...

Oi Alessandra, "A Máquina do Mundo", publicado no livro Claro Enigma é um dos poemas mais belos e deslumbrantes, rigoroso e onírico ao mesmo tempo, já escrito em língua portuguesa. Beijos