Monday, May 30, 2022

 

This is Us – Isto são os Estados Unidos?

 (Este texto contém spoilers da série.)

Comecei a assistir à série This is Us quando ela já era um sucesso e não demorou meio episódio para eu me encantar com ela. A estrutura da narrativa, desconstruída no tempo, trazia uma história banal. Uma família norte-americana encarando alegrias e tragédias em diversos períodos do passado e no presente, avançando no futuro depois de algumas temporadas.

O nome da série imediatamente me remeteu ao filme “Nós”, de 2019, dirigido por Jordan Peele e que, no original, chama-se “Us”. O trocadilho em inglês não funciona em português, mas a relação me pareceu posta: da mesma forma que Peele pretendia fazer uma alegoria do país em seu filme de horror (Us = United States), os criadores de This is Us deviam querer dizer alguma coisa com essa menção tão explícita no nome da série.

This is Us, em português, traduz-se como “isto somos nós”, mas em inglês pode sugerir também “isto são os Estados Unidos”, e desde o começo eu assisti à série procurando pistas dessa suposta alegoria.

 

A família Pearson

O lar da família Pearson é a cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, estado que corresponde a uma das treze colônias que deram origem ao país. Pearson é sobrenome de origem inglesa, anglo-saxônica. Jack Pearson, o patriarca da família, nesse contexto seria também uma alegoria dos primeiros colonizadores.

 

No entanto, a família Pearson como a conhecemos só se forma pela união de Jack com Rebecca Malone. Malone é sobrenome de origem irlandesa, uma das principais correntes imigratórias na formação do povo norte-americano. Dessa forma, a gênese da família Pearson se assemelha muito à origem do povo norte-americano, inicialmente formado por colonizadores ingleses, mas logo miscigenado a imigrantes que chegavam ao país, sobretudo, em busca de trabalho.

Pearson + Malone = ingleses + irlandeses

 KKK

Outro detalhe que me chamou a atenção foi a escolha dos nomes dos trigêmeos, filhos de Jack e Rebecca: Kevin, Katherine (Kate) e Kyle. KKK... Kyle não sobrevive. No hospital, quando convence Rebecca a adotar o bebê negro abandonado na mesma noite em que seus filhos nasceram, Jack entende a coincidência como uma espécie de chamado. Mas a ideia de “reposição” está latente, tanto que o bebê segue sendo chamado de Kyle até que Rebecca, ao conhecer o pai biológico do bebê, decide mudar o nome para Randall.

Kevin, Kate e Randall

Aquela família só não teve uma trinca de filhos KKK porque chegou a ela um novo membro, que pode até ter exercido um papel de substituto no início (como o povo negro escravizado substituiu a mão de obra imigrante em diversos contextos). Mas Randall se impõe naquele lar como indivíduo, com outra história pregressa. Talvez, por essa escolha, a série queira instigar uma reflexão: teriam os Estados Unidos se tornado uma grande Ku Klux Klan se não tivessem que se haver com indivíduos diferentes de seus colonizadores brancos e primeiros imigrantes, também brancos?

Miguel: quem é esse cara?

Na mesma linha da “reposição” de pessoas, um dos personagens mais emblemáticos e, ainda assim, de importância apenas latente até o apagar das luzes da série é Miguel. A série já está avançada em sua narrativa quando descobrimos que Miguel, atual marido de Rebecca, era o melhor amigo de Jack. De origem hispânica, Miguel soa sempre meio escanteado na dinâmica dos Pearson, tem poucas falas, e a criação de antipatia ao personagem parece meticulosamente criada pelos autores.

(Aqui, vou fazer um breve parêntesis para deixar claro que parte dessa antipatia da audiência me parece originada no fato de que, segundo essas pessoas, Miguel teria traído o amigo morto ao se envolver com a viúva, um conceito que, já de princípio, baseia-se no machismo, como se Rebecca não tivesse, ela mesma, desejos e motivações próprias, sendo mero objeto de uma disputa desleal entre um homem morto e seu melhor amigo.)

 

Miguel, que precisou virar Mike

O elo mais forte entre a presença de Miguel na série e a história norte-americana está no personagem como alegoria dos imigrantes de origem hispânica. Reeditando basicamente a mesma saga de todos os imigrantes que buscaram a “América” na esperança de trabalho e dignidade, a família de Miguel chega aos Estados Unidos no século 20, período no qual as diversas linhagens de imigrantes europeus já estão no país há várias gerações e são, portanto, simplesmente americanos. Miguel busca aculturar-se, entra em conflito com a própria família, precisa americanizar o nome para enfim conseguir uma chance de emprego. Miguel não é apenas o homem que veio para tomar o lugar de Jack. É a mão de obra mais barata que, no subconsciente americano, vem para roubar “nossos empregos”.

 O Oeste e o trem

Mais um detalhe que aproxima a família Pearson da história norte-americana: a atração pelo Oeste. Em seu início de relacionamento, Rebecca convence Jack a acompanhá-la em uma viagem a Los Angeles, na busca por uma carreira na música. A tentativa foi frustrada, mas o apelo da Califórnia como terra de oportunidades e de novos começos se consolida na geração seguinte, quando Kevin tenta e consegue se estabelecer como ator em Hollywood. E, da mesma forma que a busca por essa terra prometida tornou-se desilusão para milhares de norte-americanos que trocaram o Leste e o Meio Oeste pela Califórnia, encontrando apenas mais um lugar para trabalhar duro, também a maior parte da família Pearson, em dado momento, abandona Los Angeles e se volta para o local de origem.

Rebecca no trem

 Nessa mesma linha de desbravamento do país, surge nas duas histórias uma figura de importância capital – o trem. Da mesma forma que ele foi fundamental para a consolidação dos Estados Unidos enquanto nação, transportando pessoas, colheitas, ouro e tudo o mais, o trem surge como vínculo fundamental entre Rebecca e sua própria história. Está na lembrança mais doce da infância, em um dos primeiros momentos de consciência da doença que desenvolve, e na sua despedida da vida, no penúltimo capítulo da série, que é, literalmente, conduzido em uma viagem de trem.

 Não consigo respirar

 O grande e mais forte elo entre os Pearson e a história norte-americana parece estar em Randall. Cercado de amor desde o berço, o filho adotivo experimentou diversas vezes o sentimento de não pertencer àquele universo. Na audiência em que se definiria a guarda definitiva do bebê para a família adotiva, um juiz (negro) prefere deixar o processo, para não decidir sobre uma questão que ele achava inadequada. Por ele, Randall deveria ser criado por uma família negra, para ter referenciais negros ao longo da vida.

Mas quantas são as famílias negras com recursos financeiros para adotar crianças? Se a maioria dos muito pobres é formada por negros, não parece lógico que crianças abandonadas terão melhores prognósticos com famílias mais abastadas que, em sua maioria, são formadas por brancos? É essa lógica cruel que parece guiar a juíza que decide pela guarda definitiva de Randall para os Pearson.

 

Randall: uma alma sufocada

Ao longo da infância e da adolescência, Randall enfrenta diversas situações permeadas pelo racismo estrutural e mesmo de ofensas racistas. De fato, ele não tinha, em casa, uma referência para abordar essas situações. Uma cena prosaica, vivida na piscina frequentada pela família, demonstra como uma tarefa cotidiana – cuidar dos cabelos – poderia ter sido facilitada se Randall tivesse essa referência. Randall estudou em uma boa universidade, tornou-se um homem bem-sucedido muito provavelmente porque foi acolhido por uma família de classe média com recursos para prover tudo isso. Mas não deixou de sentir essa falta de pertencimento em tantos momentos da vida, que poderia ter sido muito melhor se as mesmas condições que lhe foram dadas pelos Pearsons estivessem presentes em sua família original. Só que essa família, como tantas outras, precisou se haver com a pobreza, com a migração forçada, com a marginalidade, com o desalento.

Na história pregressa de Randall, seu pai biológico, William, migra de Memphis, no Tennessee, para Pittsburgh, exatamente como fizeram muitas pessoas que foram escravizadas no Sul confederado, buscando ambientes menos hostis nos estados do Norte. Randall só parece encontrar seu eixo, e deixar de sofrer constantes crises de pânico, que o sufocavam, quando reconstrói a ponte com suas origens.

Em certos momentos, a história de This is Us acolhe fatos reais, como a pandemia e o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, sufocado pela polícia local. Aqui, as reações de sufocamento de Randall, presentes antes mesmo do fato verídico se impor à ficção, podem parecer uma mórbida coincidência, mas é mais lógico constatar que o personagem sufocado por seus próprios sentimentos, ainda que cercado de amor e segurança, fosse uma metáfora genérica do povo negro, vivenciando o racismo há várias gerações na América.

A cena final: um país que precisa se encarar

 A história fictícia parece fazer uma leitura crítica da própria condição do negro na sociedade norte-americana. Enquanto essa sociedade não enxergar o povo negro como único, dono de uma identidade própria, com necessidades e referências específicas e integrado à história do país, esse grupo de pessoas continuará se sentindo – e sendo – sufocado. Nesse contexto, é absolutamente emblemático que a última cena de This is Us mostre Jack e Randall se olhando, como um convite a essa integração ainda a ser feita entre os povos que habitam aquele país.

Saturday, December 28, 2019

Uma mulher alta: traumas de guerra sob o olhar feminino



Pesado, denso, sufocante e, no entanto, fluido e envolvente. “Uma mulher alta”, dirigido pelo russo Kantemir Balagov, propõe-se a contar uma história de guerra sob a ótica feminina e termina por mostrar que as sequelas podem ser tão profundas na alma dos civis quanto em corpos mutilados e paralisados dos soldados que retornam.

A “grandona” do título é Iya (Viktoria Miroshnichenko), uma enfermeira que trabalha em um hospital de Leningrado repleto de soldados russos recém-egressos da Segunda Guerra. Traumatizada pelo conflito, ela desenvolveu a tendência de eventualmente ficar paralisada, incapaz de se mover enquanto respira com dificuldade. Logo depois de um evento pessoal trágico, ela recebe a amiga Masha (Vasilisa Perelygina), que volta da guerra e passa a morar com ela.

O jovem diretor Balagov, de 28 anos, demonstra notável domínio da linguagem cinematográfica ao expressar o contraste entre as duas por meio dos enquadramentos escolhidos, de seus figurinos, das cores associadas a cada personagem. Esse talento foi reconhecido no último Festival de Cannes, no qual o russo foi premiado como Melhor Diretor da mostra Um Certain Regard. Com quase nenhuma trilha sonora, o filme ainda se mostra ousado ao apostar em diálogos muitas vezes monossilábicos, reforçando o peso do silêncio naquele universo. Também é admirável que Balagov adote um ritmo propositadamente lento nos movimentos de câmera, sendo muito parcimonioso no uso de cortes. O pós-guerra em um país recém-liberado de batalhas é um tempo de angústia, de insegurança e de observação, e suas lentes traduzem exatamente esse ritmo.

Iya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina): contrastes

Ainda que ligadas por uma amizade genuína, Iya e Masha são mulheres muito diferentes, a começar pelo contraste de altura, mas sobretudo pela forma como a guerra impactou a vida e o espírito de cada uma delas. Enquanto Masha parece sempre disposta a expor o que o horror do conflito lhe impôs, e buscar soluções imediatas para problemas que ela mesma sabe insolúveis, Iya tenta a todo tempo escamotear seus traumas, medos e grande culpa, sabendo-se igualmente impotente diante das evidências de horror que se espalham por sua vida. Paulatinamente, o filme deixa claro que o livro aberto de Masha no fundo esconde páginas ainda mais sangrentas, e que o esforço de Iya em fazer seus próprios problemas desaparecerem em um cenário tão terrível resultam apenas em mais dor.

Baseado na obra “A guerra não tem rosto de mulher”, da vencedora do Nobel Svetlana Aleksiévitch, “Uma mulher alta” é uma história de guerra contada sob a ótica feminina. Nela, aos homens cabem basicamente dois papéis: o de soldados feridos nas batalhas, ou de produtores de esperma. Em sua obsessão por resolver seu problema insolúvel, Masha será ardilosa a ponto de usar modalidades diferentes de chantagem (real e psicológica), sem conseguir esconder, por baixo de gestos e frases enérgicas, a alma despedaçada que passou a carregar dentro de um corpo igualmente com sequelas. Nesse mundo governado por homens, que resolvem seus conflitos em guerra, usá-los no que lhes é mais simbólico de sua virilidade pode não ser minimante eficaz no seu caso, mas termina por se mostrar altamente catártico.

Wednesday, December 11, 2019

História de um casamento: uma boa novela de Manoel Carlos

Scarlett Johansson (Nicole), Azhy Robertson (Henry) e Adam Driver (Charlie


História de um Casamento": sim, parece novela de Manoel Carlos. Pessoas de elite branca com problemas de elite branca. Sem um grande vilão, os conflitos vêm das situações. Não quer dizer que os problemas não sejam duros, e o diretor é hábil em criar empatia.

O forte do filme são os diálogos mas, no início, é quase tortuoso acompanhar tanta falação, cuja função é clara: situar personagens e seus conflitos. Mas o direitor e roteirista Noah Baumbach é também cuidadoso em pontuar esse falatório com signos visuais fortes.

Portas de armário deixadas abertas, cortes de cabelo, refeições sendo preparadas: o que parece mero cenário, nesse início turbulento, ganha significados diferentes em outros momentos do filme, nos quais os sentimentos dos personagens também são outros. Bela sutileza.

Baumbach também se mostra craque nos enquadramentos que escolhe para situações bem específicas da história. O tom confessional de determinada cena de Scarlett Johansson (Nicole), com a câmera fechada em seu rosto, chega a lembrar a estética de alguns filmes de Godard, como "A Chinesa".

E é admirável como ele desconstrói a ideia de intimidade/verdade do que estava sendo dito ao incluir a fala de uma personagem, até então ausente na cena, e cortar para um enquadramento totalmente diferente, descortinando a farsa montada pela advogada vivida por Laura Dern.

Laura Dern, por sinal uma das atrizes preferidas de David Lynch, é favorita em todas as sondagens para levar o Oscar de Atriz Coadjuvante. Na cerimônia, devem exibir um monólogo em que ela compara as mães à figura da Virgem Maria. Mas Laura faz muito mais que isso no filme.


Laura Dern, a advogada Nora


Sua altivez (realçada pelo figurino, com roupas sempre justas e saltos altíssimos, e pelo enquadramento - de novo! - que a coloca sempre como uma espécie de gigante) encurralam o quase ex-marido da história, Adam Driver, e seu(s) advogado(s).

Uma cena, em particular, materializa esse ato de encurralar a dupla masculina. Alan Alda, o advogado "bonzinho", e Driver estão conversando em uma pequena sala do escritório da advogada. O enquadramento escolhido por Baumbach quase dispensa palavras: estão em um beco sem saída.

Se Dern entrega uma personagem invariavelmente altiva, Driver percorre um caminho muito mais dúbio com seu Charlie. Intelectual, gênio criativo, pai exemplar, ele aos poucos deixa escapar sua natureza mesquinha, egoísta e, por que não dizer, machista. E o faz de forma impecável.

A grande cena de confronto entre Driver e Johansson vem ancorada em um diálogo que começa sob o signo da boa intenção e civilidade, atinge seu ápice com violência verbal e sentimentos terríveis, e termina com uma imagem que, afinal, sinaliza por onde passará a solução do conflito.

Por melhor que fosse o diálogo e o movimento de câmeras que o diretor/roteirista tivesse criado para esse ápice, só dois atores gigantes alcançariam o que Driver e Johansson atingiram ali. (Mas dois atores gigantes também não alcançariam isso se... vocês entenderam).

Meu único senão para o filme fica para a penúltima sequência, que acontece no quarto, com Charlie e o filho do casal. Ainda que seja uma solução de roteiro justificável, amarrando o fim com o começo, a mim soou apelativa, "para fazer chorar". No mais, gostei muito.

Thursday, December 05, 2019

Charles Chaplin, Buster Keaton, Noel Rosa e a atualidade do cinema mudo

Charles Chaplin, em cena de "O garoto"
Noel Rosa ficou incomodado com a influência de idiomas estrangeiros na linguagem popular e compôs “Não tem tradução”. O primeiro verso já aponta o réu, dizendo que “o cinema falado é o grande culpado da transformação”. Se estivesse vivo, Noel talvez se sentisse recompensado pela prevalência da imagem sobre o som no século 21.

Não só no cinema, claro. Grandes realizadores do início do século 20, como Charlie Chaplin e Buster Keaton, provavelmente estariam fazendo filmes sonoros nos dias de hoje, mas é instigante notar como o desafio de transmitir ideias só com imagens parece dominar o mundo contemporâneo.

Você liga seu computador e clica em cima de um programa ou de um aplicativo simplesmente ao reconhecer seu ícone na área de trabalho, sem precisar ler uma palavra sequer. O mesmo para seu celular (um computador também, afinal). Se quiser “dizer” que está tudo bem para alguém, é só entrar no aplicativo de mensagens, reconhecido pelo desenho de um telefone dentro de um balão, e enviar a imagem de um polegar erguido, e ainda que isso se chame emoticon, é de uma imagem que se trata.


Buster Keaton

Você não precisa mais ligar para ninguém e dizer, com voz chorosa, que está arrependido de ter feito alguma coisa e quer pedir desculpas. Taca a imagem do Gato de Botas, aquele do Shrek, olhando para cima com uns olhos marejados, segurando o chapéu como em ato de contrição. Não chama emoticon, chama GIF, mas é tudo apenas imagem.


"Desculpe..."

Nada precisa ser dito, e tem sido cada vez mais recorrente a queixa em relação a “áudios longos”. Ninguém quer ficar ouvindo uma ladainha de 1 minuto e meio. Manda uma imagem, um GIF. Se não ficar claro, acompanhe as imagens de um texto curto, uma ou duas linhas.

A comunicação interpessoal desembarcou na segunda década do século 21 como uma recriação do cinema mudo. Ou isso tudo não se resume a “imagens intercaladas com sucintas cartelas de texto”?.

Mas, pensando bem, Noel não se sentiria feliz. WhatsApp, emoticon, GIF (que significa Graphics Interchange Format, sabia?): tudo vem em Inglês e, para a maioria dos usuários, simplesmente não tem tradução.




Monday, November 25, 2019

Ford vs. Ferrari: um filmão, em sentido amplo

Damon (Shelby) e Bale (Miles): heróis na pista contra os monstros da burocracia


Se ocorresse uma catástrofe e a Ford fosse soterrada, daqui alguns anos os escavadores chegariam às ruínas e teriam a certeza de que se tratava de uma fábrica de papel com uma imensa frota de veículos. A piada interna, repetida por várias gerações de funcionários da multinacional norte-americana, faz eco com uma das cenas da primeira parte do longa “Ford vs. Ferrari”, dirigido por James Mangold, na qual o personagem principal, vivido por Matt Damon, critica a burocracia da companhia.

Baseado na história por trás da criação de um dos carros de corrida mais famosos de todos os tempos, o Ford GT40, o filme é centrado na figura de Carroll Shelby (Damon), um ex-piloto que se notabilizou por vencer as 24 Horas de Le Mans, em 1959, e precisou abandonar as pistas por conta de um problema cardíaco. O filme mostra Shelby mantendo-se no universo automotivo, negociando carros e projetando novos modelos, até ser procurado por um executivo da Ford (Lee Iacocca, vivido por John Bernthal), para liderar a criação de um carro e de uma equipe que fossem capazes de vencer a então imbatível Ferrari em Le Mans. Shelby aceita a tarefa e insere o velho amigo Ken Miles (Christian Bale) no projeto.

Um dos desafios de transformar uma história real em filme convencional é a fidelidade aos fatos. Quem conhece a longa história de Shelby (a despeito do problema cardíaco, ele viveu até os 89 anos, morrendo em 2012), certamente vai encontrar incorreções no roteiro. O mesmo vale para Miles e, mais ainda, para a própria Ford Motor Company. Uma reunião na sede, retratada no início da trama (e mostrando o interior da companhia, com suas características paredes de madeira) dá a entender que os anos 1960 seriam a estreia da empresa no automobilismo de competição, o que não é verdade. Mas, como a música dos Paralamas do Sucesso já ensinou, “a vida não é filme”. E “Ford vs. Ferrari” é um filmão.

Literalmente, inclusive. Filmado em formato scope, preenche a tela com ação e velocidade, entregando seu cartão de visita enchendo os olhos dos fanáticos por gasolina com cenas de Shelby ao volante de um Aston Martin, na sua vitória em Le Mans. Introduzindo a fase pós-aposentadoria de Shelby e a intenção da Ford em investir no automobilismo, o filme mergulha em uma longa sequência de cenas que pouco tem a ver com o universo acelerado de seu início. Acentuando a burocracia da montadora, os interesses comerciais de seus executivos e os processos pouco éticos desse ambiente, “Ford vs. Ferrari” gasta pelo menos uma hora de seu tempo com poucas cenas de corrida.

Bale (Miles) e Jupe (Peter): relação pai e filho


Mas o que pode soar como defeito para amantes da velocidade é o tempo ideal para o projeto dirigido por Mangold continuar sendo um filmão. É nesse intervalo entre a Le Mans de Shelby, em 1959, e o desafio da trinca Shelby-Miles-Ford, no final dos anos 1960, que a história se aprofunda nas personalidades dos personagens. É aí que o filme laça de vez o espectador para o lado da dupla Damon-Bale. O Miles de Bale, por sinal, exagera em um sotaque indefinido entre o inglês e o matuto ianque (Miles, de fato, era inglês), mas transparece autenticidade ao mesclar certa brutalidade nas falas e nos gestos com uma quase doçura no trato com a esposa Mollie (Caitriona Balfe) e o filho Peter (Noah Jupe). O jovem Jupe, que já esteve em “Um lugar silencioso”, “Extraordinário” e “Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso”, parece crescer junto com seu personagem no filme, dividindo com Damon uma das cenas de maior força dramática, no final da história.

É também no espaço “sem corridas” que o roteiro introduz a Ferrari. A representação da marca italiana, de seu fundador Enzo e de todo o universo que cerca a mítica fábrica de Maranello passa longe de um eventual maniqueísmo Estados Unidos x Resto do Mundo. Pelo contrário: por sua essência, orgulho e amor ao esporte, Enzo Ferrari e sua trupe parecem bem mais próximos de Shelby e companhia do que o patético Henry Ford II (Tracy Letts), que afinal "não é Henry Ford", e que o amoral Leo Beebe (Josh Lucas), eleito como o grande antagonista do filme.

Remo Girone (à direita), como Enzo Ferrari: mais próximo de Shelby e Miles que Henry Ford II


Mas é na última parte do filme, quando os motores roncam, que “Ford vs. Ferrari” se torna o grande show desejado por todo fã de corrida. A largada “estilo Le Mans”, com os pilotos correndo a pé até seus carros, a sensação de velocidade, com muitas tomadas na altura do asfalto, a reprodução da disputa Ford x Ferrari na pista, a recriação dos boxes e camarotes, a montagem precisa, a trilha sonora em crescendo, a sequência de cenas diurnas, noturnas e a volta para a luz do dia colocam o espectador dentro do universo da mais famosa corrida de longa duração da história de uma forma que só o longa “Le Mans”, protagonizado por Steve McQueen em 1971, havia conseguido fazer. Mas, convenhamos, com personagens e com uma história muito mais envolventes.

Ao final de 2h32 de projeção, a conclusão de “Ford vs. Ferrari” surge quase como lamento. Esse filmão no formato, na criação dos personagens, na condução da história mostra-se também um filme grande em sua duração, mas não arrastado. Carregado nas tintas em alguns estereótipos e situações, o filme de Mangold, no entanto, é cirúrgico em mostrar que grandes corporações entram em competições esportivas por um único propósito: aumentar suas vendas. Permanecem no negócio enquanto ele se mostrar eficiente para esse fim. Recolher as ferramentas e fechar a garagem são consequências que se relacionam muito mais aos cifrões perdidos que a corridas disputadas. Shelby, Miles e o GT40 ficaram na história da Ford e do automobilismo mundial. A Ford, bem, a Ford continua sendo uma montadora de veículos, mas a julgar pela transformação pela qual esse mercado atravessa, talvez no futuro ela esteja fabricando outros produtos. Tomara que não seja papel.



Thursday, September 19, 2019

Bacurau: uma carta para Dra. Domingas

Dra. Domingas: "por que vocês estão fazendo isso?"

No último ato de Bacurau, o alemão Michael (Udo Kier) encontra-se com Dra. Domingas (Sônia Braga). A médica do vilarejo atacado violentamente por forasteiros parece tentar um armistício, no que é ignorada pelo comandante do grupo. “Por que vocês estão fazendo isso?”, pergunta Dra. Domingas.

Em um exercício de empatia – abominável, porém necessário – decidi me colocar no lugar dos gringos (norte-americanos chefiados por um alemão residente nos Estados Unidos) e tentar responder tal pergunta. Faço isso no formato de uma carta, que envio para a médica, por meio deste blog.

Prezada Dra. Domingas,

Espero que esta carta a encontre bem de saúde e com o ânimo recuperado depois dos acontecimentos tão intensos vividos em Bacurau. Certa de que o forasteiro Michael não teve – nem terá – oportunidade de lhe responder o que havia por trás dos ataques aos habitantes do vilarejo, espero responder por que, afinal, aquela gente estava fazendo aquilo.

Veja, Dra. Domingas, os Estados Unidos são uma nação beligerante. Desde que assumiu o lugar da Inglaterra no imperialismo ocidental, o país já se meteu em pelo menos 33 guerras, e estamos falando só do século passado e deste século 21. A senhora, a quem respeitosamente chamo de experiente, é também pessoa letrada. Deve ter lido ou ouvido que a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelo soldado soviético, com a colaboração do operário norte-americano. Claro que os patriotas envoltos em Stars and Stripes reagiriam rapidamente para lembrar o seu número de mortos no conflito. Foram muitos, de fato. Cerca de 400 mil. Soviéticos? Quase 11 milhões.

Mas os operários americanos realmente executaram sua tarefa com louvor. A partir de 1941, com a entrada dos Estados Unidos na guerra, surgiram três mil novas fábricas e estaleiros no país. Um assombro: até 1945, foram 16 milhões de toneladas de armamentos, entre navios, artilharia, tanques e munição. Não se abandona um negócio pujante assim, do nada, concorda? As guerras que vieram depois, sempre bem distantes da terra da democracia e da liberdade, continuaram absorvendo essa fantástica produção. E seria incoerente brindar tantos países com tão farto material bélico e não aproveitar aquele imenso mercado nacional, não é mesmo?

Pois aproveitam. Estima-se que existam quase 270 milhões de armas nos Estados Unidos. São mais de 50 mil lojas de armas oficialmente registradas por lá (McDonald’s, veja a senhora, Dra. Domingas, cerca de 14 mil). O ser humano pode ser muito inteligente, mas também tem seus deslizes e nem todo mundo usa essas armas para caçar veados na Primavera ou para espantar coiotes que ameacem a criação nos ranchos. Uns doidos varridos começaram a atirar nas pessoas, a senhora deve se lembrar disso. Só em 2019, foram mais de 250 tiroteios em massa, e esse número que eu estou contando para a senhora agora foi contabilizado bem antes de o ano terminar.

O alemão Michael e a devoção às armas

Não dava mais, Dra. Domingas. Era preciso fazer alguma coisa. Mas como evitar que esses incidentes desagradáveis continuassem acontecendo sem empanar o brilho dessa indústria de armas tão importante para a economia do país? Puxa, elas geram empregos, contribuem para grandes causas, financiam projetos importantes e, se eu não me estendo nesse pormenor, a senhora certamente vai me entender. De mais a mais, Dra. Domingas, se a arma ficar lá quietinha, não mata ninguém. O museu de Bacurau é prova disso. O que não dava mais era para passar carão perante o mundo com esses tiroteios. Aquele pessoal da ONU, da Anistia Internacional, o Papa, todos reclamam. Ou, coisa pior, criar caso com seguradoras, porque essa gente é osso duro de roer.

Foi aí que tiveram essa ideia brilhante de criar uma atividade lúdica, uma espécie de competição que reunisse os melhores jogadores. Em vez de desperdiçar esses talentos da mira em universidades ou shopping centers, a esmo, o negócio era levar a turma para lugares distantes, onde pudessem dar seus tirinhos sem atrapalhar a ordem daquela nação tão civilizada. Coisa fina, né, Dra. Domingas? Eles têm armas, mas não quaisquer armas. São artistas do tiro, são adoradores de peças míticas. Idealizaram durante anos a aventura de portar uma submetralhadora, um fuzil ou uma pistola. Eles são clássicos, portam drones, mas não qualquer drone, não, senhora. Tudo é vintage nesse jogo e até esse recurso deles veio com ares de ficção científica dos anos 1960, parecendo um disco voador.

Domingas e Michael, antes do furdunço

 Encontrar lugar para a competição também não é tarefa das mais difíceis. Lembra que eu falei da Segunda Guerra Mundial? Pois naquela época, embora o governo brasileiro se enrabichasse bem mais para o lado dos perdedores, acabou entrando na briga junto com os americanos. Dizem que o nome forró nasceu por essa época, não sei bem, mas que eles fincaram base em Natal, isso é certeza. Sempre tem um político matreiro para trançar os pauzinhos com eles. Tony Junior, o ex-prefeito de vocês, é de linhagem tradicional, mas evidentemente não teve o talento do pai para fazer a coisa de um jeito mais discreto. Tenho para mim que ele queria esse pedaço de chão de vocês para algum empreendimento turístico, imobiliário, não sei bem. Aquela serra em torno de Bacurau é bonita, né? Turismo ecológico, trilha, vai saber.

Além disso, sempre tem uns fornecedores locais prontinhos para pegar um dinheiro rápido da mão dos gringos, não é mesmo? Eu acho, Dra. Domingas, que na verdade tem dois tipos bem diferentes de colaboração. Uma vem dos pobres coitados que vivem nesse interiorzão do Brasil. Vida precária, muita necessidade. Vem um bacana qualquer, oferece uns caraminguás e pronto: eles fazem o que for – até entregar caixão sem nem saber para o que vai ser usado.

Mas tem um tipo bem mais matreiro, que são os que se acham bacana também. Que se iludem, pensando que os gringos são amigos deles só porque falam a língua deles. Falar é modo de dizer, né, doutora? Acho bem engraçado quando vejo um engomadinho branquelo achando que fala língua estrangeira. Porque, desculpe a distração, mas agora a senhora pense junto comigo: se um estrangeiro chega no Brasil e nunca, nunquinha, consegue falar “caipirinha de maracujá” sem se enrolar todo, como é que um sujeito nascido e criado aqui, só porque frequentou escola de inglês duas vezes por semana, acha que vai falar daquele jeito que coloca a língua no meio dos dentes e pronunciar as palavras deles sem sotaque? Capaz...

Mas os gringos só estavam lá para matar


Voltando à explicação que prometi à senhora: virou um negócio bom para os dois lados, percebe? Os estrangeiros vieram para cá, cheios das suas armas e parafernálias, jogar seu jogo. O prefeito facilitou as coisas, vendo a vantagem de limpar a região, para explorar aquelas terras de outro jeito. Se a senhora lembrar bem, vai rever na sua mente aquele carrão com que o prefeito chegou depois do furdunço todo. Banco de couro, ar-condicionado, cheio de umas garrafinhas de água, que deviam até estar geladinhas. É uma chacota, eu sei. O povo de Bacurau sem água e os gringos, depois que acabassem o jogo deles, terminando o serviço para o prefeito, iam voltar sei lá eu para onde, naquele carrão de bacana. E com água gelada ainda!

É, Dra. Domingas... Deu tudo errado para eles, porque eles não contavam com a união de vocês. União até dentro das divergências. Porque mesmo nesse sítio tão precário, diante de tanta dificuldade, o ser humano também faz suas diferenças. Estava lá o Lunga, com os meninos, segregado do resto do povoado, magoado. A serra de Bacurau não é Sierra Maestra, mas serviu de esconderijo para esse novo Lampião de vocês. E a senhora, só a senhora, levantou a voz contra o prefeito, quando ele quis levar Sandra. Bicha, puta... pouca gente se importa, não é mesmo? Mas na hora que precisou, foi todo mundo junto para a luta.

A cova de Bacurau: Varsóvia?

 Eles não contavam que a escola, atacada por eles (naquele dia e pelos outros, sempre) ia revidar. Não contavam que o museu ia virar um paiol. Do museu e da escola, Dra. Domingas! Aquele mesmo museu que os forasteiros metidos a bacanas não quiseram nem entrar. De onde eles nunca esperavam, nasceu a resistência. Aquele alemão doido deve ter ficado espantado quando viu o buraco no meio da vila. “Varsóvia?!” Dá até para imaginar que ele se lembrou de alguma história velha, daquela guerra lá, contada por seu pai ou por um tio. Eles não contavam que Damiano, esse Panoramix do sertão, tinha uma fórmula mágica para emprestar força e coragem para aquela gente.

Fazia sentido na cabeça deles, Dra. Domingas. Mas as cabeças deles a gente sabe o destino que tiveram. Que Deus os tenha. E o Diabo que os carregue.

Friday, September 13, 2019

No Coração do Mundo



Quando Stanley Kubrick resolveu filmar seu primeiro longa-metragem, em 1953, optou por uma história de guerra ambientada na selva. Classificado pelo próprio diretor como um trabalho amador, Medo e Desejo foi renegado por Kubrick. Dois anos depois, de volta aos longas, o diretor nova-iorquino seguiu o conselho de um amigo e dirigiu A morte passou por perto, história de um lutador de box que se envolve com o mundo dos gângsters de Nova York. Por trás do conselho estava uma senha: aborde um mundo que você conhece e parte de seus problemas estará resolvida. A familiaridade de Kubrick com o cenário do segundo longa ajudou a alavancar sua carreira, mas nem por isso ele se tornou um diretor capaz apenas de fazer filmes de gângster em Nova York. Kubrick transitou por gêneros tão diversos quanto filme de guerra, romance, ficção científica e drama psicológico que até hoje, vinte anos depois de sua morte, vez por outra ainda se aponta um ou outro diretor como possível herdeiro do norte-americano – e isso quer dizer: fulano sabe dirigir qualquer gênero.

Gabriel Martins e Maurílio Martins apresentaram seu primeiro longa-metragem em 2019, No Coração do Mundo. Como Kubrick, que antes de lançar o primeiro longa também dirigiu alguns curtas, Gabriel e Maurílio iniciaram carreira nesse formato, com a diferença de já terem mais de dez anos de experiência. Assistir a No Coração do Mundo, conhecendo a obra dos dois diretores, é se reencontrar com o mesmo ambiente e com alguns personagens que já transitaram por outros filmes, especialmente os curtas Contagem (2010) e Dona Sônia Pediu uma Arma para Seu Vizinho Alcides (2011). Contagem não é só nome de filme: é a cidade da região metropolitana de Belo Horizonte onde os dois diretores cresceram. Como Kubrick, à vontade filmando Nova York, Gabriel e Maurílio movem-se com desenvoltura em Contagem e essa familiaridade transparece no filme. O que não quer dizer que serão para sempre cineastas circunscritos à cidade natal, crivada de carências, nem que sua obra tenha de espelhar essa precariedade. Aliás, No Coração do Mundo, mesmo sendo o primeiro longa, parece anunciar que ambos já não cabem em qualquer rótulo que junte as palavras “cineasta” e “periferia”.

Selma (Grace Passô), em cena que homenageia Carlos Reichenbach


No Coração do Mundo é um western urbano e a presença do rap Texas, do MC Papo, logo no início, parece não deixar dúvidas quanto à intenção do filme em ser reconhecido como um faroeste da periferia. Não tão rápido. No Coração do Mundo também é romance e várias situações, estrategicamente engendradas como poderosos alívios cômicos, permitiriam, sem exagero, identificar ali traços de comédia romântica. Não só. No Coração do Mundo também é drama, suspense, ação, em camadas sobrepostas que denotam não apenas a evidente cinefilia de seus autores, como a evolução de seu fazer cinematográfico. Pois, se Contagem e Dona Sônia estão ali, de alguma forma (ou de várias), a forma final do longa é uma evolução evidente dos cineastas que maravilharam o diretor Carlos Reichenbach quando surgiram no Festival de Brasília de 2009.

Carlão está no filme, homenageado como nome de escola. Lá atrás, na gênese da dupla, o diretor veterano assistiu a Contagem em Brasília e, impactado com o trabalho dos dois jovens, escreveu um artigo em seu blog intitulado “Fez-se a luz em Contagem”. À época, Carlão exalou encantamento em ver, pela primeira vez, um filme rodado em câmera digital que a ele parecia feito em película. De lá para cá, os dois jovens mineiros aperfeiçoaram sua linguagem cinematográfica e sua técnica. A ambientação da periferia está lá, o hábil processo de criação de empatia com aqueles personagens está lá. Mas estão também o rigor no corte preciso – apenas quando essencial – e a obstinação pelo plano, a ponto de construir várias cenas em planos longos e passagens desafiadoras em planos sequência que vão sinalizando, ao longo do filme, que Gabriel e Maurílio cresceram. E, cineastas adultos que são, sabem-se aptos a aumentar o volume, a velocidade e a tensão da trama a ponto de produzirem sequências de ação irrepreensíveis, coroando o filme com um desfecho calcado em movimento e violência, elementos abundantes naquela Contagem que tanto conhecem, ali usados como matéria-prima de uma narrativa coesa.

Maurílio Martins (à esquerda) e Gabriel Martins

 Sim, Gabriel e Maurílio cresceram – em um universo pontuado por mulheres fortes. Na periferia, cineastas filmam em locação menos por influência de John Ford e mais por falta de recursos. Mulheres tornam-se fortes menos por serem arianas com ascendente em Leão e mais pela premência de criar filhos, sustentar a casa, cuidar de pais idosos, muitas vezes sozinhas. As mulheres de No Coração do Mundo são diligentes e estão sempre em movimento: Selma (Grace Passô) dirige (e como dirige!) seu ou qualquer outro automóvel. Rose (Bárbara Colen) planeja uma mudança de vida tornando-se motorista de Uber. Ana (Kelly Crifer) circula o dia inteiro como cobradora de ônibus, e ainda que a vida pareça prendê-la em um feroz carrossel que nada tem de música infantil, ela se move. Os homens, sem exceção, surgem letárgicos.

Ainda que No Coração do Mundo não se apresente como um filme essencialmente feminista, ele se torna o retrato de uma comunidade que vive à margem de uma capital de estado, formada por famílias marcadas pela carência e pela falta de horizonte (belo ou não). E essas famílias, quase sempre, são guiadas por mulheres. No Coração do Mundo é um agudo retrato de um lugar e de um tempo em que as mulheres continuam sendo “o crioulo do mundo”, como cantou John Lennon. Esse mundo Gabriel e Maurílio conhecem bem, e o primeiro longa deles deixa isso muito claro.