Sunday, March 27, 2016

Homens-objeto

O filme “A grande aposta” recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor. Levou apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, o que não quer dizer que o filme seja ruim. Pelo contrário, achei “A grande aposta” superior a outros três concorrentes a melhor filme que vi neste ano – “O regresso”, “O quarto de Jack” e “Spotlight”, embora tenha gostado muito dos dois últimos.



Quando comentei que tinha adorado “A grande aposta”, nas redes sociais, algumas pessoas questionaram se eu não havia considerado o enredo “técnico demais”, por conta das exaustivas referências a termos do mercado financeiro. Bem, o filme propõe-se a contar de que maneira a bolha imobiliária dos Estados Unidos tornou-se uma enorme crise econômica mundial, não havia como escapar desses termos.

Mas acho que os roteiristas foram hábeis na tarefa de introduzi-los, primeiro com as repetições constantes de sua definição, cabíveis nos diálogos, e também com o recurso bem-humorado de utilizar celebridades como a cantora Selena Gomes para exemplificá-los. Ainda que não se entendam todos os meandros desse ambiente, é fácil deduzir a mensagem principal do filme: o mercado financeiro é uma selva.

Christian Bale, em "A grande aposta"


No entanto, não é impossível que eu tenha me abstraído da dificuldade de entender todo o discurso técnico por um detalhe prosaico: o filme tem um monte de atores bonitos e/ou charmosos, e em dado instante eu percebi que além de seguir a história, eu estava interessada em continuar vendo aquele desfile de espécimes masculinos. Não eram poucos: Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt (que é um fracasso retumbante em tentar parecer gordo e velho), além de nomes menos conhecidos, como Hamish Linklater (o problemático, porém engraçado, irmão de Julia Louis-Dreyfuss na série “New adventures of old Christine), e até alguns coadjuvantes como Max Greenfield e Billy Magnussen.

Não. Não eram poucos. Era praticamente um monopólio de homens na tela. E logo me lembrei de outros dois filmes, citados anteriormente, que praticamente só mostravam homens em ação: “O regresso” e “Spotlight”. Comentei isso com o amigo crítico e escritor Pablo Villaça, diretor do site Cinema em Cena, e ele apontou que a falta de representatividade das mulheres no cinema não é novidade, em vários aspectos. Um deles é a baixíssima quantidade de mulheres indicadas ao Oscar, ao longo da história, na comparação com homens, em todas as categorias, como mostra este texto (em inglês).

Brad, desista: você nunca fica feio


Também me chama a atenção o fato de que nem sempre as atrizes premiadas pela Academia estejam nas produções indicadas ou vencedoras dos principais prêmios (Melhor filme, especificamente). Este outro texto, também em inglês, quantificou isso, mostrando que, na história, apenas 40% das mulheres indicadas na categoria Melhor atriz estavam em produções indicadas a Melhor filme, contra 52% entre os homens.

Uma tentativa de justificar essa diferença poderia passar pela escolha dos temas. Ora, se vamos falar de mercado financeiro e o mercado financeiro é dominado por homens, é natural que tenhamos mais atores que atrizes. O mesmo se aplica para um filme que fale de uma tropa do exército deslocando-se em um ambiente inóspito. No entanto, praticamente qualquer história pode ser contada do ponto de vista das mulheres afetadas direta ou indiretamente por elas. E ainda: o mundo está cheio de histórias cujo protagonismo se concentra em mulheres ou em grupos de mulheres, e muitas dessas histórias esperam ser contadas.

Ryan Gosling: "ô, lá em casa..."


Mas, então, fiquei pensando que minha atitude contemplativa da beleza masculina, diante de um filme tão impregnado de testosterona, ainda que sério, talvez tenha sido uma pequena rebeldia. Querem nos impor machos brancos indômitos nas telas, relegando as mulheres a papéis menos que secundários? Não tem problema. Façamos deles homens-objeto, eventualmente desconsiderando o que estão falando, apenas para admirar seus dotes físicos. O gesto de desprezo intelectual não é muito diferente do que se tem feito regularmente com a figura feminina, na mídia, em geral. Mulheres seminuas têm ajudado a vender de cerveja a carro 0 km, sem precisarem abrir a boca. De preferência, não abrindo.

De fato, tenho visto crescer, nas redes sociais, uma postura frontalmente lasciva das mulheres em relação a atores, esportistas e celebridades, cultuando esses homens eventualmente mais pelo seu invólucro do que pelo que dizem e fazem. Eu mesma tenho seguidores dos dois gêneros que se atiçam com meus comentários ligeiramente maliciosos ou meramente contemplativos da beleza de pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol e artistas, como se eu emulasse um macho típico soltando um gracejo do gênero “ô, lá em casa...”.


Essa naturalidade em “coisificar” um homem talvez seja boa notícia, por refletir mais uma fronteira vencida pela mulher na sociedade. Mas não aplaca a sensação de baixa representatividade que esses mundos – do cinema, do esporte etc. – ainda nos impõem. Eu trocaria alguns suspiros motivados por músculos salientes, olhares sedutores e sorrisos marotos pela sensação de maior pertencimento a esses mundos. Basicamente porque a contemplação na tela do cinema ou na TV é mera idealização, mas a desvantagem feminina é real, palpável e cruel.

Wednesday, March 23, 2016

Eu não te odeio

Posicionei o celular na direção dele e perguntei se poderia fotografá-lo. “Por que, você vai me bater?” Eu tinha acabado de sair do trabalho, estava usando um vestido estampado, sandálias de salto e carregava a bolsa em um ombro, a mochila com o notebook no outro. Penteada, levemente maquiada, como sempre. Eu realmente devo parecer madame, ou executiva. Era até natural que ele não me identificasse com o restante das pessoas que estava na Avenida Paulista naquela hora, manifestando-se a favor da democracia, a maioria vestindo vermelho. Mas era improvável que eu pudesse bater naquele homem de talhe enorme. Eu, um metro e cinquenta e seis de altura.

Mas entendo. Sinal dos tempos, da animosidade como regra. “O que é isso, companheiro?” Ele se desarmou, exibiu o cartaz que carregava e eu fiz a foto. Ri com ele. Mas não tinha nada de graça naquele rir. Não, não é sinal dos tempos coisa nenhuma, não é de agora, não é de hoje. Um homem negro ter medo de alguém como eu, apenas pelos símbolos de bem-nascida que carrego, é uma das histórias mais antigas deste país. Mais velha que esta, só se ele fosse índio.

"Vai me bater?"


Na hora, não relacionei o episódio a outro fato daqueles mesmos dias. Eu estava treinando, na academia, e um professor me perguntou, em voz baixa: “Você, que é petista, como está vendo tudo isso que está aí?” O tom de voz dele, que é contrário ao atual governo federal, carregava uma intenção evidente: não me expor naquele ambiente em que se contam nos dedos os eleitores de esquerda. Habitualmente acuada, por ter vivido a maior parte da minha vida em locais hostis à minha ideologia, respondi brevemente o que ele me perguntou e subi para fazer uma aula. Enquanto pedalava ao som de um bate-estaca, uma ideia martelava meu cérebro. Queria retomar a conversa e corrigi-lo quanto à minha definição. Não sou petista.

Se você chegou até aqui, já estou feliz. Em uma sociedade na qual muita gente mal lê placa de trânsito, atrair o leitor por três parágrafos é vitória do escritor. Caso alinhe-se à direita, não se anime com a afirmação acima. Caso seja “petralha”, “vermelho”, “bolivariano”, não abandone a leitura.

Eu sou de esquerda, desde a adolescência e nunca abandonei meus ideais socialistas. Já escutei muita crítica e deboche, dizendo que o socialismo não deu certo em lugar nenhum. Para todos, sempre dei a mesma resposta. Acredito que o socialismo ainda não deu certo porque o ser humano ainda não deu certo.

E acredito que está chegando um tempo em que a sociedade vá perceber que a lei da selva já não nos serve, que o “cada um por si” cavou um abismo profundo no qual estamos todos caindo, puxados pelo peso das florestas desmatadas, da força das águas armazenadas em barragens débeis, das montanhas de corpos de crianças famélicas, de refugiados cuspidos de suas terras, de mulheres assassinadas por maridos violentos, de gays agredidos apenas porque são. À beira do fim, após séculos de depuração, aprendendo muito mais pela dor que pelo amor, tenho fé: o homem vai entender que só a solidariedade salva.

Pode ser que o regime de governo que vá emergir desse pré-caos não se chame socialismo. É claro que a mácula sobre o nome pode ser incontornável, pelos maus tratos que governos ditatoriais ou simplesmente incompetentes lhe impuseram. Mas não me parece haver outra saída que não seja perceber o outro como reflexo de si mesmo, de enxergar-se naquela criança com fome, naquele imigrante, naquele homossexual, sob o risco de cairmos todos nesse mesmo buraco.

Qual não foi minha surpresa, recentemente, quando descobri que um pré-candidato à disputa presidencial dos Estados Unidos – Bernie Sanders, no caso – tem amealhado simpatizantes entre parte do eleitorado, especialmente jovens, ao tornar públicas suas posições que confrontam fortemente os ideais do livre mercado, deslocando o foco de um eventual governo seu para as pessoas, em vez de servir prioritariamente às instituições.

Teorizei um pouco sobre o “meu” ideal de sociedade por dois motivos: para expor claramente meu lado (se tivesse tido tempo de conversar com o personagem que abre este texto, ele entenderia que eu definitivamente não queria bater nele) e para explicar ao meu professor da academia que não concordo com tudo o que o atual governo petista fez. Isso inclui os erros administrativos e a corrupção (isso é tão óbvio que escrevi e apaguei essa menção algumas vezes, mas que fique, para registro). Mas também critico os avanços ainda tímidos desse governo em numerosas questões sociais. Eu idealizo um governo ainda mais destemido no enfrentamento a carteis, oligarquias, violências cotidianas e preconceitos. Este, que está aí, com muitos erros, foi o que mais se aproximou desse meu ideal.

Um motivo que não me impulsionou a esta “saída do armário”: convencer quem quer que seja da minha opinião. Em toda minha vida, só tive a pretensão de ajudar a formar o meu filho, porque sou responsável por isso e o que parece certo para mim teria de direcionar essa influência. Neste ano, ele se torna eleitor e vejo, com indisfarçável orgulho, que não reproduz minhas ideias. Confronta muitas delas, pensa por si.

Nasci e me criei em uma família de pensamento conservador. Amigos, vizinhos e a comunidade em torno, formada pela chamada “classe média”, seguiam a mesma linha. Os parentes votavam em massa na Arena, quando eu era criança. Professam essa ideologia até hoje, e por mais que me entristeça ver algumas dessas pessoas engrossando coros raivosos, sectários e preconceituosos, não vou ao embate contra eles. Primeiro, e mais importante, pelo afeto que me une a vários deles. Mas também pelo respeito que tenho à opinião de cada um. Como eu, são adultos e também tiveram as mesmas oportunidades de se informar e de formar seus pensamentos.

Acho até certa ingenuidade quando vejo amigos de esquerda alertando a massa que prega um regime de exceção, como intervenção militar, por exemplo, sobre os perigos que isso possa representar para o cidadão comum. Acho ingênuo porque, de fato, dificilmente essas pessoas (gente como eu, diga-se) serão diretamente afetadas pelo governo. Qualquer governo. Quem tem casa, carro, diploma, sítio, plano de saúde, passaporte etc. vive altos e baixos, aperta o cinto hoje, gasta em outlet amanhã e, no mais, toca a vida.

É claro que alguns se ressentem mais de momentos econômicos críticos como o atual e demonizam o governo, ainda que estejam patinando em dívidas ou em falta de oportunidades de trabalho porque fizeram escolhas erradas, ou gastaram demais e pouparam de menos. Mas raramente uma pessoa dessa classe vai militar politicamente ou incentivar seus filhos a fazê-lo. Geralmente, vai fugir de “confusão”, levando sua vida de “Ouro de tolo”, na certeza de que político é tudo igual. Não é pela ameaça da supressão de direitos que alguém vai alertá-los para o risco de um recrudescimento político e social. Nem por isso, vou ironizar suas escolhas, chamá-los de ignorantes, vociferar contra o que acreditam.

Manifestante não identificada na Avenida Paulista: não sei quem você é, mas você me representa

Se é fácil fazer isso porque os laços que me unem a muitos deles são os de afeto, não acho que seja impossível transportar a mesma tática para os que eu pouco conheço. Porque, para além do discurso raivoso, das ideias opostas ou simplesmente da aparência, pode ser que haja uma fagulha de diálogo. Da mesma forma que o companheiro na Paulista percebeu que, atrás do meu jeito de madame, havia ali alguém que, em grande medida, afinava o pensamento com o dele.


Não vou terminar sem expressar mais claramente o que penso “de tudo isso que está aí”. Mas vou fazê-lo com a ajuda do amigo Pablo Villaça, que publicou ontem este texto. Depois de lê-lo, eu ansiei muito pelo abraço que encerra a narrativa. Sintam-se, todos, abraçados.

Tuesday, February 09, 2016

Je suis Vai-Vai


“Eu não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim...”. O primeiro verso da canção “É corpo, é alma, é religião”, de Arlindo Cruz, Rogê e Arlindo Neto, define a minha relação com o ritmo que é um dos mais fortes símbolos brasileiros. Sou uma branquela de classe média, nascida e criada na Zona Norte de São Paulo. Tinha, na infância, uma remota ligação com o Carnaval pela frequência às matinês do Acre Clube, também na região. Eu adorava aquela bagunça, muito mais para juntar confetes e jogar para cima do que propriamente pela música.

Mas o jogo começou a virar a favor do samba quando descobri os desfiles das escolas. Desde muito pequena, eu adorava assistir àquela maratona pela TV e suportava com valentia as piadas recorrentes sobre “ver a Mangueira entrar” na casa da família, em Mairiporã, onde passávamos o feriado. E, desde cedo, fui capturada por duas escolas de samba, uma em São Paulo e outra no Rio. A carioca era justamente a Mangueira. A de São Paulo, “meu Vai-Vai no Bixiga”, como diz a música que abre este post, gravada pela cantoraMaria Rita.

No ano passado, vivi uma das maiores emoções da vida ao assistir ao desfile do Vai-Vai, que homenageou Elis Regina e conquistou o campeonato. Contei a história neste post.

No texto, eu comentava que tinha enorme vontade de desfilar, mas que havia me retraído porque não conhecia ninguém da escola e não queria simplesmente chegar, comprar uma fantasia e me convidar para a festa. Isso me parecia invasivo com uma comunidade de 86 anos que é uma das maiores referências do samba de São Paulo. Frescura minha? Talvez, mas eu respeito instituições.

Poucas semanas após o Carnaval de 2015, começou a frequentar minha academia um rapaz muito simpático que ia todos os dias treinar com uma camiseta do Vai-Vai. Depois de alguns dias daquele desfile de estampas, perguntei diretamente: “você é da escola?”

E assim conheci Leandrinho Amêndola, um dos responsáveis na diretoria pelo barracão do Vai-Vai, que não fica no Bixiga, mas perto do Sambódromo do Anhembi. Contei para ele sobre minha emoção no desfile anterior e de como gostaria de ter desfilado. “Não seja por isso, no ano que vez você vai.”

Eu e Leandrinho Amêndola


No segundo semestre de 2015, comecei a frequentar a quadra do Vai-Vai no Bixiga. O enredo já havia sido divulgado e as fantasias para o desfile foram apresentadas em um domingo de chuva torrencial. Não tive muita dificuldade para escolher a ala Forte Conceito, chefiada pela Sueli de Souza. Não foi exatamente a fantasia que me cativou, embora fosse muito bonita, mas o sorriso largo da Sueli. E foi uma surpresa descobrir que ela, tão risonha, era irmã do Mestre Tadeu, o sempre sério maestro da bateria Pegada de Macaco do Vai-Vai há 43 anos.

Meu filho Gabriel, Sueli e eu, no dia em que me tornei componente da ala Forte Conceito


Escolhida a fantasia, ganhei minha camiseta de componente – que equivale a um ingresso para os ensaios, pagos por quem vai apenas assistir. E passei a frequentar o Vai-Vai todos os domingos, para ensaiar o samba e a formação da escola. Além dos ensaios no Bixiga, que também eram realizados às terças e quintas na época mais próxima ao Carnaval, houve três ensaios técnicos no Sambódromo, algo fundamental para ir acertando a evolução, especialmente para nós, do Vai-Vai, que temos uma quadra muito pequena e ensaiamos na rua. Conheci alguns componentes da ala e, aos poucos, fui me familiarizando com aquela atmosfera. Definitivamente, eu não me sentia mais como alguém “de fora” e, a cada ensaio, ao repetir o verso “sou raça, sou raiz, há tantos carnavais, je suis Vai-Vai”, as palavras ganhavam mais legitimidade para mim.

Faltando alguns dias para o desfile, comecei a sentir uma espécie de crise de abstinência antecipada. “Meu Deus, o Carnaval está chegando e isso tudo vai acabar.” Passei a desejar que o tempo passasse mais lentamente, para aproveitar melhor aqueles últimos ensaios, ouvir de perto a bateria, simplesmente estar ali.

Na concentração, minutos antes de entrar na passarela do samba


Tudo isso se revelou algo muito menor quando o intérprete Wander Pires começou o “esquenta” do Vai-Vai e, da concentração, eu comecei a enxergar nossos carros alegóricos, posicionados para entrar na passarela. A massa cantava o esquenta (“Vem novamente a disputa, meu povo à luta, Vai-Vai”). Na sequência, a cantora Didi Gomes fez a introdução, entoando um trecho de La Vie em Rose, em alusão ao enredo da escola em 2016, a França. O cavaquinho chamou a melodia, os violões entraram, e mergulhamos no refrão que abre o samba deste ano. “Mon amour, a voz do povo é quem diz, sou raça, sou raiz, há tantos Carnavais...”.

Não era mais emoção, era euforia. Eu não tinha só que cantar e dançar diante do público. Eu passava a ser parte da escola, e me tornava responsável por ajudar a construir suas notas. A escola avançava na avenida e nós, na concentração. A faixa que define o início da passarela pareceu para mim como a cortina do palco. Eu não me sentia mais foliã ou torcedora do Vai-Vai. Ali, éramos todos artistas, aquela era nossa peça. Ultrapassei a faixa. Estreei.

A luz, meus amigos, é forte, o que faz da passarela um lugar quente, muito quente. Tem que cantar – harmonia é feita disso: a escola cantou o samba em uma única voz? Tem que dançar, sorrir e se movimentar. Os gestos coreografados nos ensaios não serviram todos na nossa fantasia, que era imensa, com um costeiro enorme e um chapéu que apertava a cabeça com a força de muitas enxaquecas. Tem que observar a ala da frente, para respeitar a evolução. Tem muita gente, e gente muito perto da pista, e é possível interagir com o público, que canta junto, faz coração com as mãos, pula e chora.

E tem a hora que a ala passa pela bateria, e todo o resto parece sumir no ar, com a ressonância das batidas preenchendo toda a paisagem sonora. E quando se sai dessa massa de batuque, você escuta novamente a sua voz e, melhor ainda, escuta a voz da arquibancada repetindo seu refrão. O corpo cansa, a fantasia pesa, o suor escorre, e ainda assim, você sente pena quando enxerga a outra faixa, a do fim da passarela. O show vai terminar.

Entrei na dispersão e levei um susto, vendo alguns componentes chorando. Cheguei a pensar que a escola tinha tido problemas. Logo saí e liguei para minha mãe, que tinha visto o desfile pela TV e, eufórica, disse que tinha sido lindo, perfeito. Entendi o choro dos colegas. Era o mesmo que eu vertia, agora, ao perceber que meu show tinha sido um sucesso. 

No momento em que escrevo, terça-feira de Carnaval, já sei que o Vai-Vai não conquistou o bicampeonato, ficando atrás da campeã Império da Casa Verde, da Acadêmicos do Tatuapé e da Mocidade Alegre. Assim que acabou o desfile, escrevi uma mensagem para a Sueli:

Minha querida chefe, estou triste com o resultado, mas nada vai apagar a emoção de ter desfilado pelo meu Vai-Vai e de fazer parte da família Forte Conceito, com muito orgulho.”


O Vai-Vai buscará sua 16ª estrela no ano que vem, e continuará buscando novos títulos nos próximos anos. E eu vou com ele, porque agora eu sou e me sinto parte dessa instituição, legitimamente. Je suis Vai-Vai.

Sunday, January 17, 2016

Fórmula 1, Cinema e lágrimas



Quando o piloto alemão Sebastian Vettel conquistou seu quarto título mundial de Fórmula 1, no GP da Índia de 2013, os ouvintes das rádios do grupo Bandeirantes devem ter percebido minha voz embargada, no último comentário. De fato, eu me emocionei ao nível das lágrimas, depois de ver o alemão largar na pole, liderar a maior parte da corrida e vencer a prova, sagrando-se o tetracampeão mais jovem da história. Não que eu seja torcedora de Vettel. O que me encantou ali foi testemunhar como um grupo de seres humanos foi capaz de produzir um carro extraordinário, pilotado com competência incomum por outro ser humano, produzindo juntos uma demonstração de eficiência próxima da perfeição.

E, assim, começo este texto emulando Caetano Veloso, que é capaz de compor uma canção em homenagem à então esposa gastando os primeiros versos para falar de si mesmo, e não dela. (“Eu sou apenas um velho baiano/Um fulano, um caetano, um mano qualquer/ Vou contra a via, canto contra a melodia/ Nado contra a maré/ Que é que tu vê, que é que tu quer, Tu que é tão rainha? / Branquinha...”). Pois esse texto não é sobre mim ou sobre Sebastian Vettel, mas sobre o livro que li na minha semana de férias, neste início de ano: “Os filmes da sua vida têm muito mais para contar”, do escritor e crítico de cinema Pablo Villaça, diretor do site Cinemaem Cena.

A longa introdução justifica-se porque me lembrei dessa passagem, no rádio, quando li o seguinte trecho da crítica sobre o filme “A origem”:

“(...) E é neste momento que Christopher Nolan e o montador Lee Smith orquestram um momento tão magnífico que, confesso, fui levado às lágrimas durante a projeção simplesmente por admirar a beleza da carpintaria dramática da sequência: para que possam retornar ao primeiro nível dos sonhos (e, daí, para o mundo “real”), os heróis são obrigados a sincronizar os “chutes” em cada andar para que estes ocorram milissegundos antes dos “chutes” que virão no nível seguinte, levando-os, assim, de volta ao início. Para isso, usam a música cantada por Piaf como aviso sonoro que penetra em todas as camadas, permitindo que coordenem suas ações – e vê-los despertando em sequência em cada “andar” foi algo que me comoveu de maneira inesperada justamente em função da inteligência e da elegância da estrutura da narrativa. (...)”

A correlação entre os dois momentos de emoção inesperada – a minha, na corrida, e a dele, no filme – me forneceu mais uma pista de por que o Pablo se tornou meu crítico de cinema de referência, nos últimos anos. Vou chegar lá, porque antes trago outras, bem mais evidentes: os textos extremamente bem escritos, lógicos e fundamentados, fugindo à regra de que texto para internet tem que se curto; o enorme conhecimento sobre cinema; a sensibilidade diante de detalhes como cores, sons, enquadramentos, aspectos que nem sempre o sentido menos treinado tem capacidade de perceber, mas que, depois de destacados, provocam aquela reação incontrolável de ler o texto e ficar repetindo “isso, isso, isso mesmo!”.

E, claro, uma característica que quem lê suas críticas e o segue nas redes sociais já conhece: em nenhum momento, ele teoriza sobre qualquer coisa como se fosse verdade absoluta. Há opinião, claro, ele é um crítico, mas essa opinião é sempre sustentada por argumentos e, ainda que possa chegar à mesa do leitor mais apressado como prato feito, sempre contém uma instigação para que o filme ou o tema do filme seja refletido, não simplesmente digerido.

O escritor e crítico de cinema, Pablo Villaça


É possível que eu já tivesse lido a maioria das críticas contidas no livro no próprio site, mas reuni-las em material impresso foi uma grande sacada da editora Rio Escrito. Primeiro porque enobreceram o conteúdo. E também porque a edição das críticas foi primorosa, seguindo uma lógica simples, mas muito eficiente, ao reunir textos que se relacionam, de alguma maneira. E, de uma forma muito apropriada, como se fosse ele mesmo um filme, o livro avança para o final encaixando peças que permitem ao leitor entender um pouco como o próprio crítico Pablo Villaça se moldou.

A emoção que a sequência de “A origem” provocou nele não é o único rasgo de humanidade nos textos reunidos. Pelo contrário, quem conhece o trabalho dele pode até dizer que ela é regra e há um capítulo no livro dedicado a textos francamente direcionados para esse aspecto (Capítulo 11 – O homem na crítica). E é ali, no terço final da obra, que se chega à crítica de “Life itself”, documentário sobre o crítico norte-americano Roger Ebert, reconhecido pelo próprio Pablo como um dos responsáveis pela sua escolha em seguir a mesma profissão. O texto é dos mais tocantes do livro (não vou entrar em detalhes. Compre o livro!), mas destaco um trecho, que (enfim) fecha a lacuna que abri três parágrafos acima:

“(...) Como Roger costumava dizer, citando Robert Warshow, ‘um homem vai ao cinema e o crítico deve reconhecer que é aquele homem’ – o que, na prática, implica no reconhecimento de nossa bagagem pessoal e de nossa subjetividade diante da Arte.(...)”

Os profissionais da minha geração, que vivem de escrever (ou de atuar em outros veículos de comunicação), foram forjados no conceito da imparcialidade, que eu sempre questionei por considerá-lo no mínimo uma idealização perigosa (ou, como os anos me mostraram, uma fraude criminosa). Deparar-me com essa abordagem honesta que o Pablo exerce no seu ofício tem sido uma experiência libertadora. Naquele GP da Índia, eu ainda me senti um tanto constrangida com a minha emoção e tentei conter a voz. Na próxima, talvez eu chore de soluçar.



O caminho mais curto para comprar o livro “Os filmes da sua vida têm muito mais para contar” é acessando o site Cinema em Cena. Se você também gosta de cinema, siga o Pablo Villaça nas redes sociais. No twitter, @pablovillaca e, no Facebook, curta a página dele.

Thursday, February 19, 2015

Vai-Vai: isto não é uma biografia, é um desfile

A passagem do Vai-Vai levantou a arquibancada

É um pequeno milagre que eu seja comentarista de rádio já há alguns anos. O rádio é a agilidade em forma de veículo de comunicação, o aqui-e-agora mais radical da mídia. Foi ao ar, já era. Não tem tecla de backspace, não tem como apagar. E não me sinto incomodada em “ler” uma corrida de Fórmula 1 enquanto ela acontece, na minha frente, tentando desvendar algo que possa ter passado despercebido para os ouvintes. Se eu tivesse que fazer essa mesma leitura de outras coisas, acho que ficaria muda diante do microfone, abestada. Isso vale para as artes, por exemplo. Dificilmente consigo sair do cinema ou de um espetáculo com a ideia formada sobre tudo que vi, ouvi e percebi. Preciso digerir essa sopa de sensações para extrair algo que faça sentido para outras pessoas.
Aconteceu isso neste Carnaval, quando fui a um desfile de escolas de samba pela primeira vez. Sempre adorei desfiles e via tudo que fosse possível pela TV. Desde criança, tinha minha preferência por uma escola em São Paulo (Vai-Vai, a escola alvinegra da Bela Vista, bairro onde nasci) e Mangueira (a verde-rosa que me encantou por influência da minha prima Debora e que, depois, me fisgou de vez com o enredo sobre Carlos Drummond de Andrade).

Mas nunca tinha tido oportunidade de ir à avenida, por falta de companhia, de atitude, pura bundamolice mesmo. No ano passado, quando soube que o Vai-Vai homenagearia Elis Regina, no ano em que ela completaria 70 anos, enfiei na cabeça que estaria no Sambódromo do Anhembi desta vez. A ideia, primeiro, era desfilar. Mas fui adiando minha ida à quadra da escola, mesmo depois de encontrar casualmente o presidente de honra, Tobias, e ser estimulada por ele a fazer parte da festa. De novo, a falta de atitude, que a essa altura eu já reconheço. Foi a mesma que quase me fez perder o espetáculo “Elis, a musical”. Não é só bundamolice, é instinto de preservação: sei que qualquer coisa que se relacione a Elis Regina vai me emocionar de forma irremediável. Acho que fujo dessa fragilidade que a emoção me impõe.

Mas, felizmente, sobrepõe-se o medo do arrependimento. Do mesmo jeito que não admiti perder “Elis, a musical”, fui ao Anhembi no dia do desfile e fiquei quase duas horas na fila. Saí de lá com o ingresso e, enfim, assisti a um desfile de escola de samba. 

Não tenho competência para julgar os quesitos que compõem as notas das escolas, mas os anos de desfiles pela TV me deram algumas pistas. Das escolas da segunda noite, na qual o Vai-Vai se apresentou, achei a Mocidade Alegre favorita. Lindas fantasias, carros majestosos, alas coreografadas, e um nome de peso no enredo – a atriz Marília Pera. Um desfile “correto”, mas que esteve muito distante de empolgar a plateia como fizera a Gaviões da Fiel, ainda no início da noite.

Mais incapacitada ainda eu me encontrava para julgar o Vai-Vai, pela ligação emocional que tenho com tudo que se relacione a Elis Regina. Achei um espacinho na grade e lá me plantei, desde o fim do desfile anterior, da Acadêmicos do Tatuapé, que veio com um samba magnífico, sobre o ouro.

Maria Rita, filha de Elis, na Comissão de Frente
Chega a hora do Vai-Vai e ouço “Elis Regina” à capela, cantando um trecho de Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Havia informações desencontradas se esse canto à capela seria feito pela filha de Elis, Maria Rita. Na hora, pareceu que se tratava da própria Elis gravada, mas depois eu soube que a dona da voz era a cantora Didi Gomes, de timbre idêntico ao da homenageada. Assim que começou a soar o samba-enredo do Vai-Vai, o Sambódromo entrou em estado de comoção.

As bandeirinhas com o nome do enredo e uma foto de Elis, distribuídas antes do desfile, eram agitadas freneticamente. E o público cantava o samba inteiro. Marotamente, os compositores se apropriaram do refrão de “Maria Maria” e o mestre de bateria integrou-o a uma paradinha estratégica. Resultado: o Sambódromo cantava o “aê-âe-aá-ê” praticamente em uníssono. Eu achava que iria chorar ao longo da homenagem, mas comecei antes que a comissão de frente chegasse ao meu setor.

Maria Rita não cantou à capela. Fazia parte da comissão de frente, abrindo a escola. Estava emocionada, muito. Nunca vou deixar de me comover com essa relação entre as duas. Meu pai morreu quando eu tinha 30 anos. Era uma pessoa querida por muita gente. Não é raro que alguém se manifeste ainda hoje sobre a falta que ele faz. Nunca deixou de ser sofrido ouvir esses relatos, e ele não era nenhuma celebridade. Não consigo imaginar como deve ser reagir ao bombardeio de mídia e público, praticamente incessante nos últimos 33 anos, sobre a falta que Elis faz. E, no caso de Maria Rita, primeiro a cobrança para que ela cantasse. Depois, a comparação. É preciso ter força, é preciso ter raça para enfrentar isso, em público, ao vivo, e ainda fazendo o abre alas para a escola.

De tanto ler sobre os preparativos, eu sabia que o Vai-Vai não viria com um desfile linear, histórico. Não iria contar a vida e obra de Elis, mas mergulhar no universo de algumas de suas canções mais famosas. E ali estavam as Nossas Senhoras Aparecidas de “Romaria”, as redes e os peixes de “Arrastão”, o coração flechado de “Tiro ao Álvaro”. E estava também a ala infantil, graciosamente fantasiada de pimentinhas, evocando o apelido de Elis.

João Marcello Bôscoli (à esquerda) e Pedro Mariano (à direita), filhos de Elis

Algumas fantasias eu não sabia explicar, como não soube explicar muito bem a homenagem descomunal a Jair Rodrigues – um parceiro importante, mas não mais relevante para a obra de Elis que, por exemplo, César Camargo Mariano, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Ivan Lins. Como no espetáculo “Elis, a musical”, achei exagerada a referência hippie que se tenta colar nela. Elis não foi símbolo da contracultura, como talvez Gal Costa tenha encarnado mais, ambas muito menos que a turma dos Novos Baianos. E entendi menos ainda o carro alegórico que fazia referência à ditadura e à censura, com uma escultura sorridente de Elis que foi definida por alguns fãs, ali mesmo e nos dias seguintes, como mais semelhante a Silvio Santos ou ao Senhor Spock.

Mas, que diabos, por que eu precisava entender para gostar?

Logo me lembrei da cena atribuída ao pintor Matisse, questionado por uma senhora sobre as formas de uma figura humana em um de seus quadros. Teria dito a madame: “isso não é uma mulher!” Ao que o artista respondeu: “isso não é mesmo uma mulher, é um quadro.” 

Ora, por que me importar com imprecisões históricas ou leituras enviesadas se a sensação, afinal, era tão arrebatadora? Afinal, o sambódromo do Anhembi estava em êxtase. A escola já tinha passado e as bandeiras continuavam se agitando, e a arquibancada continuava cantando o samba. Escrevendo dias depois do desfile e com o Vai-Vai campeão, tenho a forte sensação de que essa comoção influenciou as notas. Se eu questionasse os carnavalescos sobre essa minha tola estranheza, eles com razão poderiam me dizer: "isto não é uma biografia, é um desfile".

Além de Maria Rita, os outros filhos de Elis – João Marcello Bôscoli e Pedro Mariano – também desfilaram. Os três já têm mais idade do que Elis tinha, quando morreu. Naquela passarela do samba, tenho a impressão de que metade do público emocionou-se por ver homenageada uma artista que marcou sua vida e cuja morte ficou no imaginário como um dos maiores lutos do povo brasileiro.


A outra metade provavelmente não conheceu Elis em vida, mas tem aqui e ali alguma referência de sua obra. Muito desse reconhecimento vem do mito que se formou em torno dela. Mas muito está relacionado ao trabalho da família em mantê-la viva na cultura nacional. O que o Vai-Vai fez alinha-se a esta missão de preservar Elis viva. “Cantora igual jamais se ouviu”, diz o samba. Mas podemos continuar ouvindo, para sempre. Obrigada, Vai-Vai.

Monday, January 19, 2015

Elis: eu trocaria o mito por qualquer equívoco

Capa do LP Elis - Em pleno Verão, de 1970
No primeiro domingo deste ano, a cantora Maria Rita apresentou o programa “Sai do chão”, na Rede Globo, recebendo vários convidados. Ao cantar “Romaria” com ela, Sérgio Reis chorou. Mas o trecho do programa que mais me impactou foi o dueto com Marcelo D2. Entre outras, a dupla cantou o rap “Desabafo”, do próprio D2. Sou ignorante no gênero, não conhecia a música. Quando soube que ela cantaria uma música com esse nome, confundi com um antigo sucesso do Roberto Carlos (“por que me arrasto aos seus pés... porque me dou tanto assim”). No dueto com o rapper, Maria Rita causou comoção entre seus fãs ao entoar, em agudo rasgado, o refrão da música (“deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar”). Sou ignorante em rap, mas imediatamente percebi que conhecia aqueles versos. Fui pesquisar e descobri que o trecho era um sampler da música “Deixa eu dizer”, gravada pela cantora Claudia (hoje Cláudya), em 1973. E logo pensei em Elis Regina.

Sem falsidade. Não preciso de motivos para lembrar Elis. Ela está na capinha do meu celular, em um ímã na minha geladeira, na estampa de uma camiseta, junto com o nome do show/disco “Falso brilhante”. Foi, é e sempre será meu maior ídolo. Ponto. A menção à cantora Claudia me fez lembrar de uma passagem contada por uma testemunha ocular de um show de Elis, ainda nos tempos da TV Record. Elis recebia convidados no programa que apresentava com Jair Rodrigues, “O fino da Bossa”. Claudia foi cantar no programa e Elis a recebeu de maneira no mínimo fria, como se duvidando da perenidade da carreira da colega. De fato, hoje faz 33 anos que Elis morreu, gerações de amantes de MPB nasceram depois disso e aprenderam a cultuar Elis pelas qualidades óbvias de sua arte.

Não é preciso gastar muitas palavras para enumerar várias delas: cantora superdotada, com enorme alcance vocal e afinação; intérprete privilegiada, que conseguia carregar as músicas com a emoção precisa, a ponto de cantar sorrindo ou chorando, sem perder o tom, uma verdadeira atriz da música; artista musical completa, que se enquadrava no arranjo como um instrumento da banda; produtora cultural em sentido amplo, concebendo, junto a parceiros músicos, espetáculos e discos a partir de conceitos consistentes e, em muitos casos, transgressores; isso sem contar na capacidade aguçada para garimpar novos compositores e instigá-los na produção de letras e melodias que traduziam sua própria visão, expectativas, ansiedades. É até óbvio que Elis tenha se eternizado na memória cultural brasileira, sendo uma referência para jovens adultos que nem sonhavam em nascer quando ela morreu, naquela manhã de 19 de janeiro de 1982.

Claudia (ou Cláudya) surgiu como um fenômeno naqueles anos 1960. Contemporânea de Elis, ganhou o Troféu Roquete Pinto (uma espécie de Troféu Imprensa ou Melhores do Ano, à época) como cantora revelação. Se é verdade que Elis baniu Claudia do programa “O fino da Bossa” por insegurança não sei. Elis vaticinou que Claudia não duraria. Claudia continuou cantando. Gravou mais de três dezenas de discos, interpretou Evita no teatro. Nunca arrastou multidões, mas ficou no imaginário popular a ponto de ser sampleada por um rapper já no século 21. Elis não durou em vida. Mas eternizou-se na arte. Saber quem levou a melhor na eventual pendenga é discussão filosófica à qual não me aventuro.

Mas sempre me pego pensando que Elis Regina leva imensa vantagem por estar cristalizada em nossas mentes e inconscientes como uma mulher altiva de 36 anos. Gal e Bethânia, beirando os 70, ganharam peso e cabelos brancos, enquanto Elis está lá, exuberante naquele macacão dourado de seu último show, “O trem azul”. Gal gravou Michael Sullivan e Paulo Massadas. Bethânia flertou com os sertanejos. E Elis lá, firme com Tom, Milton, Chico, João Bosco & Aldir Blanc, Joyce, Ivan Lins.

Elis não vivenciou as Diretas Já, a democratização do Brasil, a invasão dos importados, a privatização de bancos e concessionárias de energia e de telefonia. Não viveu para comentar o Mensalão, o BBB, a glamourização dos trios elétricos, o surgimento do “politicamente correto” e seu avesso em programas de humor ou talk shows. Aliás, nem os talk shows ela conheceu. Não viveu para assistir à ascensão de novas religiões, o beijo gay na novela, a Copa do Mundo no Brasil, o nascimento do telefone celular ou das redes sociais.

Ai, que medo de imaginar Elis convertida a uma seita bizarra, cantando músicas de qualidade questionável, defendendo posições retrógradas, antagônicas com seu passado de indignação e dedo em riste contra gorilas fardados. Por mais que eu pense que ela não faria nada disso, que diabos. Elis viva seria humana, não mito. Não viveria para consolidar perenemente minha imagem idealizada dela. Viveria, correria riscos, acertaria e erraria. Pensando assim, eu quase consigo imaginar que foi melhor, para a imagem dela, ter se cristalizado no tempo como a cantora altiva de 36 anos, embrulhada em um datado macacão dourado.


Mas a verdade é que eu trocaria esse mito por qualquer um desses eventuais equívocos, só para que este dia 19 de janeiro não martelasse na minha cabeça há 33 anos. Para que ela pudesse ter conhecido Zeca Baleiro. Ou Adriana Calcanhoto. Ou Arnaldo Antunes. Ou Nando Reis. Ou Jair Oliveira...

Tuesday, October 28, 2014

Sabedoria lusitana

Portuguesa, vice-campeã do Brasileiro de 1996
Era um daqueles finais de tarde de caos em São Paulo. Dezembro, uma chuva de verão pesada, trânsito travado. Eu trabalhava no Centro Empresarial e morava em Santana. Em linha reta, uns 25 km. Nas rotas tortas para fugir dos congestionamentos, podia ultrapassar os 35, fácil. Naquele dia, nem rota alternativa salvaria. Saí do trabalho às seis da tarde. Eram mais de nove e eu ainda não tinha nem atravessado o Rio Tietê. Minha aflição não era a chuva, mas o jogo. A Portuguesa entraria em campo em poucos minutos para a primeira partida da final do Campeonato Brasileiro, contra o Grêmio

Seria a primeira final da Lusa que eu assistiria com meu pai, torcedor do time. Na única vez em que isso aconteceu, 1973, eu era pequena demais, não tinha nenhuma lembrança da conturbada final do Paulista daquele ano, quando o juiz Armando Marques errou na contagem dos pênaltis no jogo contra o Santos. Um pai torcedor da Lusa. Era como ter um pai astronauta. Ou cantor de ópera. Ou mergulhador em águas profundas. Dificilmente alguém diria: ah, meu pai também. Dava um sentimento de diferenciação, eu me sentia exótica.

O jogo começou e eu lá, na Avenida Tiradentes, na frente da Pinacoteca. O primeiro tempo estava quase acabando quando Alexandre Gallo abriu o placar para a Lusa. Ouvindo, pelo rádio do carro, pulei, vibrei, soquei o volante e acho até que buzinei. Veio o intervalo e consegui cruzar o rio. O trânsito clareou, corri para a casa dos meus pais, certa de que o encontraria com os olhos grudados na TV. Entro e dou de cara com ele lavando a louça do jantar. Nem TV, nem rádio ligado. Mais por fora que jornalista em férias.

"Você não está vendo o jogo? A Lusa está ganhando! Já começou o segundo tempo", explodi em indignação e pressa. "Ah, não...", falou calmamente, enquanto continuava enxaguando uma panela. Entendi o humor dele no mesmo instante. Era calmo, otimista, gentil, simpático. E sábio. Tinha uma tática infalível para acompanhar os jogos da Portuguesa e manter-se sempre contente. Não assistir. "Se ganha, fico feliz. Se perde, fico feliz por não ter perdido meu tempo." Estava nessa vibração. Mas eu, não.

Assisti ao final do segundo tempo. Rodrigo Fabri ampliou o placar e a Lusa voou para Porto Alegre com um sólido 2 x 0 na bagagem. Lá, o Grêmio repetiu o placar. Tinha a vantagem do empate, ficou com o título. Não vi o time do meu pai ser campeão e minha ansiedade em assistir ao jogo com ele parecia carregada de intuição. Menos de quatro anos depois, eu já não teria meu pai vivo. Era naquela hora ou nunca.

Sempre gostei de esportes por influência dele. Víamos futebol, mas também corridas de Fórmula 1, ainda na era Emerson Fittipaldi, Copas, Olimpíadas, inventávamos superstições para serem quebradas, ele vinha com bacias de pipoca. Dos 30 anos que convivi com ele, quantos foram passados em frente a TV, com uma bola rolando ou rodas girando? Assistir àquele jogo, comemorar o título com ele seria uma forma de retribuir o gosto pelo esporte e sua generosidade em nunca nos impor seu time. Sabia que seria sofrimento eterno.

Anos depois, conversando com minha tia, irmã mais velha dele, ela revelou que meu avô era torcedor do Corinthians. Português, encantou-se pelo time de operários quando aqui chegou. Meu pai nasceu, meu avô já tinha passado dos 50. Tinha tempo de levar o caçula para passear nos charcos do Ibirapuera, onde, anos depois, seria inaugurado o parque. A Portuguesa, que ainda não tinha comprado o Canindé, treinava o time de futebol nos campos de várzea daquela área. Meu pai viu os jogadores, encantou-se pelo time que tinhas as cores da bandeira paterna. Virou torcedor luso. Meu avô, vendo o paradoxo, renegou o alvinegro e abraçou o time do filho. A história soou como grande relevação para mim, que sempre imaginei o óbvio: meu pai se tornara torcedor luso por causa do pai, e era o contrário.

Hoje, 28 de outubro de 2014, a Portuguesa foi rebaixada para a Série C do Campeonato Brasileiro. Fiquei triste, como meu pai provavelmente ficaria. Mas estaria ocupado com alguma outra coisa - talvez lavando louça ou brincando com os netos que não conheceu - e certamente daria para a queda a mesma atenção que deu para aquela Lusa finalista de 18 anos atrás. Nem tão triste com a derrota, nem eufórico com a perspectiva da vitória. Eu disse: era sábio. Talvez a qualidade mais em falta no Canindé, atualmente.

Sunday, October 19, 2014

Sobreviventes

Minha segunda medalha em maratonas
Em 8 de julho de 2012, quando concluí minha primeira maratona, no Rio, tive certeza de que aquela experiência tinha sido a única e que eu já estava feliz por ter completado uma prova de 42.195 metros. Passei 2013 fazendo algumas corridas de 10 km, feliz por terminá-las, além de completar minha sexta São Silvestre. Mas eis que 2014 chegou e a coceira voltou. Resolvi fazer mais uma maratona.

Depois de trocar ideias com os amigos Elisabete e Ricardo Capriotti (ele, meu chefe na Rádio Bandeirantes), decidi correr a Maratona de Buenos Aires, que foi a maratona de estreia de ambos. Totalmente plana, a prova se encaixava no meu calendário para 2014, marcada para o dia 12 de outubro. Eu precisaria abrir mão de comentar o GP da Rússia, que aconteceria no mesmo dia, mas paciência. Em 2012, também precisei faltar a um GP da Inglaterra, no caso. Estava tudo planejado, e comecei a treinar. Março de 2014.

Meu velho amigo Nelson Evencio aceitou a empreitada e me incluí entre os atletas amadores da sua assessoria. Na primeira maratona, tive a orientação da amiga Martha Maria Dallari. Nelson é presidente da Associação de Treinadores de Corrida de São Paulo. Martha foi sua vice por muito tempo, até se mudar para Brasília, no final de 2013. Ou seja, eu estava em ótimas mãos.

Tudo planejado

Logo que comecei a treinar, chegou às lojas o CD “Coração a Batucar”, da Maria Rita. Ganhei-o em uma sexta. No sábado, fui ouvindo no caminho, para a Cidade Universitária, onde treinei religiosamente aos sábados nos últimos meses. Sábado, antes das sete da manhã, não tem trânsito. Isso me permitia associar cada uma das 13 faixas a pontos do meu trajeto.

Começava na rua de casa, com a faixa de abertura, “Meu samba, sim, senhor", e ia até terminar o disco, já no caminho de volta, com “É corpo, é alma, é religião”, perto da Ponte da Anhanguera. Cada faixa caía quase sempre no mesmo ponto, coisa que só pode acontecer em São Paulo em um sábado de manhã. Para completar o caminho de volta, eu ouvia algumas músicas do CD da cantora de 2007, “Samba meu”. Ou seja, passei o treino inteiro escutando samba e não tango, da Buenos Aires que me receberia nos planos originais. Um sinal?

Chega o mês de agosto e uma série de questões pessoais e profissionais me faz mudar os planos. Ficaria inviável ir para a Argentina naquele período, e eu, depois de conversar com meu treinador, resolvi adiar minha maratona por uma semana, disputando a prova de São Paulo, que não era plana como a prova portenha. A ideia inicial, de tentar buscar um tempo abaixo de 4 horas (fiz a prova do Rio em 4h18) também foi engavetada. Se fizesse abaixo dessa primeira marca, eu já estaria feliz.

Treinos seguidos à risca, fui colhendo resultados cada vez melhores. Nelson me transmitia confiança de que era possível melhorar a marca e eu, de fato, me sentia muito confiante. Naquela altura, só por ter conseguido manter o plano de fazer uma maratona em 2014, eu já estava feliz. Mas não ficaria chateada se derrubasse meu recorde pessoal. Uns dez dias antes da prova, conversando com o Capriotti na rádio, ele sacou seu celular e checou a previsão do tempo para o dia corrida. “Más notícias...”. A previsão de máxima era de muitos graus em São Paulo, mais a condição de tempo seco que tem sido uma constante na cidade nos últimos meses. Parecia que ia ser uma prova difícil. Mas acho que ninguém poderia supor que seria tanto.

A largada, marcada para as 8h, na verdade aconteceu às 7h, pois o domingo foi o primeiro dia do horário de verão. Menos mal. Alguns minutos antes, Nelson me informou que os termômetros já marcavam 28 graus. A estratégia estava traçada e o técnico não se importou em repetir várias vezes: “se precisar, ande. Se piorar, pare. E vá se hidratando o tempo todo”. Eu repeti a ele o mesmo que havia escrito para a amiga Bete, na véspera: uma semana antes, minha mãe estava internada, com pneumonia. Passei parte do domingo com ela, no hospital. Hoje, só por tê-la bem, em casa, e eu lá, na frente do Obelisco do Ibirapuera, meu lucro já era imenso. Fique tranquilo. Vou correr para agradecer e me divertir.

A vida é dura para quem é mole

Sempre começo minhas provas em ritmo moderado, pensando em me poupar para o final. Seria cretinice fazer isso desta vez. Ou eu corria o que pudesse no começo, ou não teria condições de fazê-lo no final, pois o céu era de brigadeiro em São Paulo, um sol pra cada um. Aqueles 28 graus do começo deixariam saudade. Corri os primeiros 15 km sempre com ritmo entre 5’30 e 5’40. A primeira ameaça de boicote mental surgiu no final da avenida da raia, na USP.

Correr na Avenida Escola Politécnica é sempre um desafio. Quase sem sombras, a via habitualmente “quebra” alguns atletas. Politécnica: escola que forma engenheiros. “Seu pai era engenheiro. Não vai ser essa avenida que vai te derrubar”. O anjinho ia vencendo fácil a parada quando o diabinho sussurrou. “É, mas seu pai não fez a Poli, fez Mackenzie.” Eita... “Mas era engenheiro”, gritou o anjinho. E segui feliz.

Completei a primeira metade da prova tranquila, mantendo o bom ritmo dos primeiros quilômetros. A programação da Maratona Internacional de São Paulo incluía outras duas provas: uma de 10 km e outra de 25 km. Perto dos 25, o calor já estava forte, eu já havia andado algumas vezes pela avenida do Jóquei Clube e então encontrei o Nelson, que me esperava com Gatorade e gel de carboidrato (eu já havia consumido os dois sachês que levara no bolso do calção).

Quando cheguei perto do treinador e ele me perguntou como estava, fui sincera. “Está f...”. Junto com ele, dois integrantes da equipe Saúde & Performance. Um deles me repreendeu: “Não está, não! Você vai conseguir! A vida é dura para quem é mole!” Não pude discordar, e segui para a Marginal Pinheiros, também conhecida como a filial do inferno neste domingo paulistano.

Aos sobreviventes, as batatas

Não deixa de ser uma vingancinha saborosa correr pela pista expressa da Marginal Pinheiros ditando a ela o meu ritmo, e não ficando parada em seus habituais congestionamentos. Para acessá-la, precisamos subir o viaduto que fica ao lado de um shopping relativamente novo na cidade. Foi a segunda vez que andei na prova. Voltei a correr ao chegar à Marginal, indo na direção da Avenida Rebouças. Encontrei o Nelson mais uma vez, que parecia teletransportar-se naquele cenário insólito.

O técnico Nelson Evêncio, salvando sua atleta da desidratação


Perto do km 30, a organização da prova oferecia batatinhas cozidas com sal aos corredores. Sempre achei essas batatinhas-aperitivo algo bem sem graça. Não haveria de ser em plena Marginal Pinheiros, com aquela catinga do rio, que eu haveria de apreciar tal iguaria. Mais de 30 km, com sol a pino, tendo como sombra apenas os baixos das pontes, o físico começou a pifar. Alternei corridas e caminhadas. Em uma desses trechos em que só caminhava, uma colega passou por mim e disse: “vem, não desanima!”. E eu respondi que sim, eu iria, só estava me recuperando um pouco.

Não sei se ela também parou, ou diminuiu o ritmo, o fato é que voltei a correr e a encontrei. “Não disse que eu ia continuar?”, perguntei. E fomos correndo juntas. E começamos a conversar, o que nos permitiu encontrar um ritmo ideal para continuar correndo. Só esquecemos de combinar com o sol, que continuava fritando nossos miolos. E passamos a alternar corrida e caminhada, cientes de que, àquela altura, por volta do km 35, essa era a melhor técnica.

Descobri que ela já fez Iron Man, correu Maresias-Bertioga (75 km) solo, tem um filho de três anos. De mim, ela descobriu que aquela era minha segunda maratona, que corro há doze anos e que tenho um filho de 14. E assim fomos vencendo o inferno da Marginal Pinheiros. Quase no final daquele trajeto que percorri hoje pela manhã, mas parecer ter sido há uns três anos, porque não acabava nunca, quem surge? O onipresente Nelson, claro. O arsenal variava, e agora ele surgia com uma Coca. Eu já estava mareada de tanta água e isotônico. Nem sou fã de refrigerante, mas caiu bem à beça (à benção, Martha Maria Dallari, entusiasta da hidratação de emergência à base de refrigerante de cola).

Era hora de subir o demoníaco viaduto de novo, e fomos andando. Ao chegar à avenida Juscelino Kubitschek, km 39, a irresistível sensação de que a prova estava liquidada. Nós também estávamos, mas ignoramos esse detalhe. Foi então que nos apresentamos formalmente. Simone, Alessandra. Nelson ainda surgiu mais uma vez, agora para me dar mais Coca e um bolinho. E não foi mais embora. Estava inscrito na prova e me acompanhou quase até o final. Um cavalheiro, sumiu de cena quando a linha de chegada de aproximava. Depois, disse que os atletas daquela maratona não eram participantes, mas sobreviventes. E que, durante muitos anos, vamos lembrar desse inferno seco pelas ruas da minha São Paulo. 

Ao longo da corrida, a ideia de correr abaixo de 4 horas pareceu um devaneio. Debaixo do sol da Marginal Pinheiros, superar as 4h18 surgiu como improvável. Eu só queria terminar. Inteira (podia ser inteiramente estropiada, não tinha problema, só não queria abandonar). Cruzei a linha de chegada com 4h58, debaixo do maior calor que já senti na vida. Pouco antes, Edu me esperava. Acenei para ele. Gabriel ficou com a minha mãe, na casa dela, para minha tranquilidade. Liguei para lá e ele me perguntou como foi: “pior que parto normal!” Ele riu e sugeriu: “na próxima vez, tenha outro filho, em vez de correr outra maratona!”


Claro que, no momento, vivencio a certeza de que esta foi a última maratona da minha vida. Claro que não será. Mas uma impressão eu espero que se confirme: corri a maratona mais difícil da minha vida.

Wednesday, August 20, 2014

Corrida de rua unida contra a impunidade


Sábado, 16 de agosto, foi um dia trágico na história da corrida de rua de São Paulo: um motorista bêbado atropelou quatro atletas que treinavam no campus da Cidade Universitária, matando o corredor Álvaro Teno, de 67 anos. A atleta Eloisa Pires do Prado teve ferimentos graves e precisou passar por uma cirurgia que se estendeu pela tarde de sábado.

Para homenagear esses atletas e protestar contra mais um ato de imprudência, nós (jornalistas e blogueiros corredores) abaixo assinados convidamos todos os atletas, treinadores e simpatizantes da corrida de rua de São Paulo para um manifesto. Apoiamos o Black Run (acompanhe as informações na página do evento), que nasceu da livre iniciativa de corredores, marcado para sábado, dia 23 de agosto, 9h, na USP.

Defendemos uma manifestação pacífica, em prol da justiça, contra a impunidade, chamando a atenção da sociedade para mais um assassinato, resultante da mistura álcool e direção. Nosso objetivo é manifestar esse sentimento de fragilidade que acompanha todos nós, cidadãos, quando utilizamos avenidas, praças, canteiros e faixas exclusivas para andar, correr ou pedalar e somos vítimas potenciais permanentes desses motoristas criminosos que insistem em dirigir depois de beber.

Reiteramos que neste momento de luto, nosso objetivo é por justiça, contra a impunidade em casos como o ocorrido na USP. Qualquer outra manifestação ou situação vivenciada por nós corredores nos locais de treinamento, poderão ser discutidas num outro momento, em fórum adequado.

Nossa indignação é contra a impunidade. Nossa manifestação é a favor da vida.

Vamos participar do Black Run, no próximo dia 23 de agosto, às 9h, Praça do Relógio, na Cidade Universitária. Vestidos de preto e de forma pacífica,  cobraremos punição para o assassino de Álvaro Teno e alertaremos para o risco que milhares de pessoas sofrem todos os dias nas ruas do Brasil.

E você que é corredor, mas não mora em São Paulo, participe pelas mídias sociais com posts no sábado usando as hastags #queremospaz #naofoiacidente #corridaderua #alvaroteno

Ana Paula Alfano – jornalista
Alessandra Alves – jornalista (Rádio Bandeirantes)
Alexandre Koda – jornalista (Webrun)
Bruno Vicari – jornalista (SBT)
Carla Gomes – jornalista (Eu Atleta/Globoesporte)
Cassio Politi – jornalista
Eduardo Elias – jornalista (Fox Sports)
Iuri Totti – jornalista (O Globo)
Karine César – jornalista (Corpo a Corpo)
Nelson Evêncio (ATC – Associação dos Treinadores de Corrida)
Sergio Xavier – jornalista (Runner’s World)
Ricardo Capriotti – jornalista (Rádio Bandeirantes)
Roberta Palma – jornalista (Jornal Corrida)

Thursday, July 17, 2014

Samba session

Maria Rita e a banda "na diagnonal" (Foto Camila Camargo)
 

Nesta semana, Maria Rita retoma em Santos a turnê “Coração a batucar”, show que assisti em maio, em São Paulo. No momento em que vi o palco do Citibank Hall, minutos antes da estreia paulistana, tive a impressão de que faltava alguma coisa. Os instrumentos estavam todos dispostos no lado esquerdo, em duas fileiras. À frente, o baixo de Alberto Continentino, a guitarra de Davi Moraes e os teclados de Ranieri Oliveira. Atrás, a bateria de Wallace Santos e a percussão de Marcelinho Moreira e André Siqueira. No lado direito, o vácuo. Sendo um show de samba, ocorreu-me uma associação esdrúxula. “Parece o recuo da bateria”. Assim que Maria Rita entrou no palco, pelo lado direito, a dúvida se dissipou e ficou claro que aquele vácuo tinha sido idealizado para a movimentação da cantora. Ao longo do espetáculo, quem se dissipou foi essa certeza. Chegaremos lá.

É certo que “Coração a Batucar” é um espetáculo de samba, baseado no disco homônimo lançado em março. Das treze faixas que compõem o CD, apenas três não estão no show. O primeiro disco inteiramente dedicado ao samba da cantora (Samba Meu, de 2007) cede outras sete canções. Completam o espetáculo duas músicas de Gonzaguinha (“Comportamento geral” e “E vamos à luta”), duas músicas do álbum Elo (“Coração a batucar” e “Coração em desalinho”), uma do álbum de estreia (“Cara valente”) e uma do espetáculo Redescobrir (“Ladeira da Preguiça”). No bis, outro samba ainda não gravado em CD (“Do fundo do nosso quintal”). É um show de samba, mas não é só isso.

Quando lançou o CD, no início do ano, Maria Rita surpreendeu com a atmosfera escolhida. Na capa, ela surge vestida de preto, olhando de frente para a plateia, com uns olhos pintados também em tons escuros. Nada de lantejoulas ou guias coloridas. Nada de velas ou de confete e serpentina. Nada de samba? A sonoridade, no CD, é sofisticada, com fortíssima presença dos teclados em praticamente todas as faixas, além de um papel de destaque também para a guitarra. É, definitivamente, uma roda de samba, e também uma jam session. Quem escutasse o CD e fosse direto para o show esperaria uma jam session que, aos poucos, fosse se tornando uma roda de samba como, de certa forma, é o CD. E Maria Rita puxou o tapete sob nossos pés, abrindo o show com a última música do álbum (“É corpo, é alma, é religião”), uma animada celebração ao próprio samba.

Tática para animar o público, provavelmente, reforçada pela segunda música do espetáculo (“Cara valente”), um dos maiores sucessos de Maria Rita, daqueles que a plateia canta junto. Não parece muito difícil para ela envolver o público. O novo CD tem pouco mais de quatro meses na praça (considerando o lançamento virtual, que veio antes) e é impressionante ouvir o coro acompanhando a cantora em praticamente todas as músicas. Maria Rita hoje é uma cantora que literalmente arrasta multidões. Ela hoje desfruta de uma plateia devotada, que parece segui-la quase messianicamente. Mas Maria Rita não passa recibo disso. Fala bem menos com o público do que o fazia no show “Redescobrir”. “Eu gosto mesmo é de cantar”, disse no show de estreia em São Paulo, e pôs-se a guiar a plateia por um caminho cujas pistas estavam dadas no CD e que me fez desconstruir a ideia de que aquele vácuo, do lado direito, era “só” para ela se movimentar.

O ponto de inflexão do espetáculo chega de mansinho, com uma música aparentemente “menor” do CD. “Bola pra frente” é uma canção composta por Xandi de Pilares e Bernini. Tem uma estrutura simples, com uma melodia que se repete nas quatro primeiras estrofes, utilizando a mesma lógica para as quatro estrofes seguintes. Deságua em um refrão curto, de ritmo marcado, lembrando a tradição dos antigos jongos africanos que ajudaram a moldar o samba. Pois é essa estrutura simples, algo repetitiva, que permitiu à roda de samba transmutar-se em jam session no espetáculo.


Maria Rita, no show Coração a Batucar (foto: Wesley Mesquita)

A repetição dos temas, em “Bola pra frente”, abriu caminho para que cada músico da banda expusesse de fora inapelável sua relevância no espetáculo e, então, a disposição dos instrumentos no palco fez muito mais sentido. O fato de estar “meio de lado” não era necessariamente para dar espaço para Maria Rita sambar (até porque ela sambou no palco inteiro, diga-se). Muito mais, na verdade, para dar a cada integrante daquela pequena escola de samba o mesmo peso que a própria cantora tinha no cenário. Uma disposição convencional, com os músicos no fundo do palco e a cantora à frente criaria uma condição de coadjuvantes que aqueles profissionais, definitivamente, não mereceriam.

Mas não foi só isso que “Bola pra frente” proporcionou ao show. A música inaugurou o capítulo mais engajado do espetáculo, enfileirando quatro músicas de cunho social, sendo duas delas de Gonzaguinha, oriundas da apresentação de Maria Rita no Rock in Rio do ano passado. No lançamento do novo disco e na estreia da turnê, a cantora explicou em entrevistas a opção por produzir um novo disco de samba, como tendo sido algo espontâneo, meio incontrolável. E não deixou de apontar que a veia social, ensaiada no show do Rock in Rio e presente em diversos momentos de sua trajetória profissional de onze anos, está latente e, em breve, deve render frutos.

Só que Maria Rita, ás vésperas de completar 37 anos, hoje é também uma artista madura e sabe onde pisa. Lançar um disco “político” em ano eleitoral, e dar de bandeja a oportunidade de ser lida como propaganda deste ou daquele? E dar munição para a selvageria de campanhas eleitorais cada vez mais desqualificadas? Não sei se ela fez esse cálculo. Se não fez, benza Deus. A intuição a protege, e tal merecimento não pode ser à toa. Mas, do mesmo jeito que entoou “Minha alma”, d’O Rappa, em meados da década passada, parecendo renovar o “Ouro de tolo” de Raul Seixas, ou que bradou “Menino” e cantou que “quem cala sobre teu corpo consente na tua morte” em plenos tempos de Amarildo desaparecido, Maria Rita dá seu recado político em “Coração a batucar”, que é alegre celebração ao samba, que é virtuosismo de músicos, que é dedo na ferida. Uma samba session, por que não?

Sunday, July 13, 2014

Sarriá, Mineirão, razão, coração

Algumas horas depois do 7 x 1 para a Alemanha, meu filho me perguntou se aquela derrota era pior que a desclassificação do Brasil na Copa de 1982, história que me marcou de forma decisiva e que mencionei a ele em várias ocasiões. No impacto da derrota desconcertante, não soube o que responder. Naquele mesmo dia, meu colega Thiago Alves me perguntou algo semelhante via Twitter. Nesse momento, eu cheguei à resposta, mas achei que valia a pena ir um pouco mais a fundo nela.

7 x 1 para a Alemanha: não foi jogo, foi massacre; em 1982, eu assisti a um jogo de futebol


Eu tinha 12 anos na Copa de 1982, a da Espanha, do Naranjito, da seleção extraordinária de Telê Santana, com Zico, Júnior, Falcão, Oscar, Éder e meu ídolo maior, Sócrates. Aquele ano produziu marcas tão profundas na minha vida que, algum tempo atrás, ao preparar uma apresentação para alunos de uma faculdade de Jornalismo, percebi que foi entre janeiro e dezembro de 1982 que não apenas me decidi por ser jornalista como fixei alguns dos valores mais importantes do meu caráter.

Na ordem, o ano de 1982 viveu três acontecimentos de repercussão nacional que me impactaram fortemente: a morte de Elis Regina, em janeiro, a Copa do Mundo, entre junho e julho, e a consolidação da Democracia Corintiana, coroada com o título do Campeonato Paulista pelo Corinthians, em dezembro. Cada um a seu modo, os eventos provocaram em mim a mesma sensação - de querer fazer parte - e a maneira de concretizar isso seria escolhendo uma profissão que pudesse me abrir caminhos entre assuntos tão díspares quanto a cultura e o esporte. Jornalismo, meu filho, é isso: é ser especialista em generalidades. O jornalista vai alargando seu conhecimento sobre tantos assuntos, de forma tão superficial, que chega ao final da carreira sabendo nada sobre todos os temas. Ao contrário dos médicos e advogados, que se aprofundam tanto sobre algo tão específico que se aposentam sabendo tudo sobre coisa nenhuma (essa comparação sempre me faz lembrar da piada do "especialista em direito". Te contei?)

Vínhamos de uma Copa na qual fomos "campeões morais", desclassificados por uma anfitriã que comprou sua presença na final por meio de suborno à seleção peruana. Tínhamos um time magnífico, um técnico genial, afeito ao toque de bola. Começamos com um jogo duro, contra a União Soviética, com Waldir Peres levando um frango, ganhando por 2 x 1 suado, e fomos evoluindo no desempenho, enfileirando duas goleadas (Escócia e Nova Zelândia), para desaguar em uma revanche aguardada e vencida com louvor sobre os argentinos. Eles eram o belzebu das nossas vidas. Passamos por eles, tirando o jovem Maradona de campo, enfezadinho, pronto, a Copa é nossa!

Paolo Rossi passa pelo lateral Júnior na partida que desclassificou o Brasil da Copa de 1982


Na minha cabeça de 12 anos, o pior já tinha passado, a Itália era um pedregulho a ser retirado do caminho, depois de transpor a montanha argentina. Não acho que seja pretensão imaginar que a própria seleção brasileira imbuiu-se desse espírito. Em nenhum momento o time do Brasil menosprezou a Itália, mas manteve-se fiel a seu toque mágico de bola, e talvez tenha cometido seu grande pecado ao ver em Paolo Rossi um jogador comum, o que era plenamente aceitável, posto que esse meu pesadelo eterno, esse delírio dos infernos, esse carcamano sem coração não tinha feito nada na Copa até então. Nada, zero, vácuo. Nenhum gol. E precisávamos só de um empate. 1 x 0. Gol de Rossi. Zico empata, 1 x 1. 2 x 1. Gol de Rossi. Falcão empata, 2 x 2. Aos trinta do segundo tempo, o golpe final, certeiro. 3 x 2. Gol de Rossi. E assim acabou.

Mas foi um jogo, uma disputa, um placar apertado. Os 7 x 1 na semifinal da Copa de 2014 foi um vareio, uma surra, uma demonstração de força inequívoca. Ou uma demonstração de fraqueza absoluta?

No aspecto esportivo, a derrota da seleção brasileira para a alemã, no Mineirão, foi muitas vezes pior que a chamada tragédia do Sarriá.

Mas a goleada história deste ano me pegou com 44 anos, um filho, contas a pagar, compromissos profissionais diversos a cumprir, os treinos de mais uma maratona daqui três meses. Aos doze anos, eu tinha a escola e a Copa. Acabou Copa, meu mundo caiu. A razão me mostra, por todos os ângulos, que o Mineirão foi uma derrota muito pior. O coração me lembra que o Sarriá, que nem existe mais, nunca vai sair da minha cabeça. Maldito Paolo Rossi...


Friday, May 02, 2014

O samba nasceu em mim

Capa do novo álbum da cantora 

Quando se anunciou que Maria Rita estava preparando seu novo disco e que ele teria apenas sambas, era natural que se pensasse que estava a caminho um “Samba meu” número 2. Gravado em 2007, “Samba meu” foi uma guinada corajosa da cantora em seu terceiro álbum de estúdio. Nascida na MPB e logo alçada à condição de uma das principais cantoras do gênero, Maria Rita rasgou o rótulo. Concebeu um disco e um show inteiramente ambientados no universo do samba. Foi um grande sucesso, levado a várias cidades brasileiras em espetáculo grandioso, mostrando uma cantora com personalidade cada vez mais marcante e uma mulher a cada dia mais segura, sensual e bonita. À época, escrevi sobre “Samba meu” neste mesmo blog.

A aventura de Maria Rita no samba não havia começado ali. “Cara valente”, do primeiro álbum, já flertava com o gênero. Em “Segundo”, seu disco de 2007, “Recado” e “Conta outra” assinalavam a presença do gênero entre canções de MPB. Tudo, ainda, em um universo fortemente jazzístico, ancorado no trio teclado-contrabaixo-bateria que acompanhou a cantora em seus primeiros trabalhos. “Samba meu” pôs o pé no terreiro, mergulhou em pandeiros, tamborins e cuícas. Era um disco de samba e ponto. E, de fato, o samba nunca saiu do repertório da cantora. No disco seguinte, “Elo”, as presenças de “Coração a batucar” e “Coração em desalinho” preenchiam a cota de samba e, no trabalho seguinte, “Redescobrir”, uma profusão de canções do gênero: “Saudosa maloca”, “Ladeira da Preguiça”, “Vou deitar e rolar”. No ano passado, ao participar do Rock’n’Rio, a abusada escolheu um repertório baseado todo em músicas (sambas!) de Gonzaguinha. No Rock’n’Rio, sim senhora! Rotule-me se for capaz...

Não seria, portanto, nada estranho que Maria Rita gravasse um novo disco de sambas, mas a primeira audição já mostrava que “Coração a batucar” não era um “Samba meu” número 2. O segundo disco só com sambas da cantora não é mais do mesmo, por várias razões, e todas convergem para ela mesma.

Antes, há que se entender a razão pela qual Maria Rita decidiu gravar mais um disco inteiramente dedicado ao samba. Evidentemente, porque ela gosta de samba e, diacho!, a gente costuma fazer melhor aquilo que faz com prazer. Maria Rita tornou-se membro de comunidades de samba de relevo, como o bloco Bola Preta, no Rio, e a escola de samba Vai-Vai, em São Paulo. Mas há uma razão secundária que me parece bastante plausível, embora fruto só da minha percepção: Maria Rita carrega a bandeira do samba para dentro da MPB, como uma espécie de missão.

Em décadas passadas, importantes nomes da MPB baseavam suas carreiras em sambas ou incluíam sambas regularmente em seus repertórios: Chico Buarque, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Maria Bethânia e, claro, Elis Regina. Hoje, escasseiam artistas fazendo essa ponte. Marisa Monte gravou um belo disco de sambas há alguns anos, mas, de forma geral, a fronteira entre MPB e samba hoje parece mais sólida. Ouça uma  rádio dedicada à MPB contemporânea e tente ouvir um samba. Vai ser difícil. Com Maria Rita empunhando essa bandeira, é possível ouvir Arlindo Cruz ou Zeca Pagodinho nesse ambiente. Ela sabe que tem essa influência, que eu tenho quase certeza ser compreendida por ela como responsabilidade.

“Coração a batucar” é o trabalho de uma artista madura, a começar pelo fato de ter produção e direção musical da própria Maria Rita. Falando em responsabilidade, não é desprezível a opção por acumular estas funções à de cantora. Não que fosse pouco “apenas” cantar, mas Maria Rita quis mais e produziu um disco que não é mera compilação de músicas, é um conceito exposto em treze canções, uma história contada, com começo, meio e fim. Esta é uma das razões pelas quais “Coração a batucar” não é “mais um disco de samba” da cantora. Mas há outra, mais importante e evidente para quem escuta o CD já na primeira vez: a voz. Maria Rita nunca cantou tão bem, e com tanta personalidade, e com tanta coragem.

Quem me conhece há mais tempo sabe que sou comentarista de Fórmula 1. Ao escutar “Coração a batucar” pela primeira vez, por vezes eu me enxerguei à frente de Lewis Hamilton, ou de Fernando Alonso, ou de Sebastian Vettel ou, em um rasgo de nostalgia, de Ayrton Senna ou de Gilles Villeneuve. Cada vez que Maria Rita embalava em uma frase musical que, por lógica, terminaria em um agudo improvável, eu sentia o mesmo arrepio de quando um desses pilotos indomáveis armava o bote para fazer uma ultrapassagem por demais arriscada. Passa de coragem, é destemor quase irresponsável, é quase ação suicida. Não é possível, ela não vai alcançar. Não pode ser, ele vai bater. Um arrepio de mãe vendo o rebento equilibrar-se na bicicleta pela primeira vez. Mas ela alcançou, fácil, e várias vezes, e meu sorriso foi como o de ver Hamilton defender-se de um ataque feroz do companheiro Nico Rosberg no último GP do Bahrein. Sorriso de gol de bicicleta, sorriso de ver e ouvir a beleza materializada em um CD que ganhei de presente. Deve ter custado uns R$ 25,00. Custasse R$ 250,00, era barato.

Maria Rita na Fundição Progresso (RJ) - foto de Wesley Mesquita

O CD abre com “Meu samba, sim senhor”, cartão de visita ideal de quem se anuncia “mais uma vez, aqui estou”. E vai sambando miudinho, crescendo na intensidade instrumental e vocal, nas faixas seguintes. O primeiro desses mergulhos no ar – sem cama elástica por baixo – a me chamar atenção foi em “No meio do salão”, música que poderia muito bem ser a versão fêmea ferida de “Sem compromisso”, clássico de Geraldo Pereira eternizado na voz de Chico Buarque. Ele diz “você só dança com ele e diz que é sem compromisso (...) quem trouxe você fui eu, não faça papel de louca, pra não haver bate-boca dentro do salão”. Ela reclama “eu te trouxe pro samba, para comigo dançar, como se atreve, dançar com outra pra quê?”. A ira da mulher traída manifesta-se com o drama que merece quando a cantora disfere “quer me fazer de palhaça, eu já não quero nem graça, da próxima vez e outra vez eu não quero falar...” em uma modulação extraordinária, desembocando em um agudo magnífico.

A história vai ficando densa e séria, como se a brejeira cantora da faixa de abertura fosse mergulhando no universo desse samba que não é só alegria e celebração, mas veículo para também transportar dores de amores e outros dissabores desta vida, ao chegar à décima faixa, “Rumo ao infinito”, canção de Arlindo Cruz escolhida como música de trabalho do CD. Arlindo parece ser o compositor preferido de Maria Rita nesse gênero, e, se é mesmo, não é por acaso. São três as composições dele no álbum. Provavelmente, as mais belas. Escutei “Rumo ao Infinito” como se fosse também uma resposta, um diálogo com outra canção do mesmo autor, “Trajetória”, gravada em “Samba meu”. Nesta, um ser apaixonado e desiludido anuncia sua partida, após perceber-se desprezado. “Agora queira dar licença que eu já vou, deixa assim, por favor...”. Mais íntegro e sereno, o par parece responder, em “Rumo ao Infinito”: “vem cá, me dê um abraço, isso é coisa de momento, eu sei que vai passar”. Tudo perfeito: vocal, arranjo, música e letra encaixadinhas. Que grande clássico Maria Rita perpetrou nesse trabalho...

E emenda com outra de Arlindo Cruz, “Mainha me ensinou”, e quem disse que não pensa em Elis Regina ao ouvir esta canção é mentiroso ou muito distraído. Mainha ensinou Maria Rita e todas as outras cantoras que vieram depois dela como é que se faz. Ninguém aprendeu mais que a filha, geneticamente aparelhada para fazer isso melhor que ninguém. A música não descreve uma mãe cantora ensinando o ofício à filha. Mostra uma mãe sábia ensinando a cria a ser um ser humano por inteiro, a ser gente. Depois de ter cantado o repertório de Elis Regina e de ser laureada por público e crítica por isso, Maria Rita hoje não tem medo de nenhum grave, nenhum agudo, nenhum desafio profissional parece-lhe mais arriscado. E, primeira cereja do bolo, emenda “Mainha me ensinou” com uma música da compositora Joyce, "No mistério do samba", a mesma de “Essa mulher”, tida como uma das canções eternizadas por Elis que mais expressam a percepção da própria Maria Rita com sua vida e sua escolha por ser cantora.


Nesta altura, o clima do álbum já é de pura celebração e homenagem ao samba. Nada mais apropriado que encerrá-lo com “É corpo, é alma, é religião”, do mesmo Arlindo. Espécie de testamento da própria cantora, a letra começa dizendo: "eu não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim", e se desenvolve em grande apoteose carnavalesca, encerrando um extraordinário novo trabalho de Maria Rita. Extraordinário, não: "Coração a batucar" é o melhor disco já gravado por Maria Rita. Arranjou pra cabeça, cantora... É óbvio que mal podemos esperar pelo próximo.