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Naquele mesmo palco, em 1992, eu vi Sergio Dias subir para dar uma canja em um show da Rita Lee. Eles não tocaram nada do antigo repertório, mas "Nowhere man", dos Beatles, e "It´s only rock´n´roll, but I like it", dos Stones. Abri bem os olhos e apurei os ouvidos, na certeza de que aquilo era o mais próximo a que eu chegaria de ver Mutantes ao vivo.
Anteontem, três meses e três dias depois de ver Mutantes ao vivo, pela primeira vez, vi Mutantes ao vivo, pela segunda. O lugar antes se chamava Palace, mas hoje é Citybank Hall. Foi ali, há cerca de um ano, que os Mutantes se reuniram para uma espécie de ensaio, antes de se apresentarem no Barbican, em Londres, show que resultou no CD e no DVD que está nas lojas. Ficou uma mistura de dívida de gratidão com superstição em relação ao lugar. Depois de Londres, foram para a América do Norte, viajaram um pouco pelo Brasil, fizeram um show histórico no Museu no Ipiranga, no dia do aniversário de São Paulo. Show em teatro ainda não tinham feito na cidade. Voltaram ao antigo Palace para marcar o fim deste primeiro ano do retorno.
Como já era a segunda vez, em tão pouco tempo, que eu via Mutantes, me achei escolada. "Não estou pilhada como no Tom Brasil, não vou me ajoelhar aos pés de ninguém." E me mantive firme nesse propósito de estar menos emocionalmente envolvida, para enxergar o show com olhos mais críticos, trazer uma opinião um pouco mais imparcial. Estes meus recalques de aluna CDF ainda me matam - talvez de rir. Achei que seria capaz de ver o show sem dançar e cantar junto da primeira à última música, usando o princípio de que trabalho e prazer não se misturam como, dizem, apregoavam as prostitutas antigamente ou preconiza hoje o pessoal que trabalha na Veja.
Comecei a pisar com os dois pés no meu modelito crítica-imparcial assim que pisei no saguão do antigo Palace. Dei de cara com uma mesinha cheia de camisetas dos Mutantes e, claro, despejei 35 dinheiros em uma baby look branca com uma borboleta preta. Daí encontrei e abracei Aluizer Malab, o empresário dos Mutantes, o homem que, em muitos sentidos, fez a coisa acontecer e que logo vai pintar aqui no blog também. Quando me acomodei na pista, razoavelmente perto do palco, fui a nocaute. Meu coração já estava disparado, a boca seca. Supor que assistirei sem emoção a um show dos Mutantes é acreditar que serei capaz de ver um jogo do Corinthians sem torcer.
Desculpem, amigos, isto não é uma crítica de um show. É mais uma declaração de amor.
Arnaldo Baptista e Sergio DiasTalvez tudo o que eu veja, ouça e leia sobre Mutantes passe pelo filtro do que não fui. Não fui jovem quando eles apareceram, não fui fã de seus figurinos malucos, não fui entusiasta de seus arranjos revolucionários. Não fui ao Urso Branco vê-los tocar em início de carreira, não fui aos festivais, não fui ao programa do Ronnie Von nem ao Divino Maravilhoso. E o fato de eu não ser nascida nessa época não me serve de desculpa. Não fui, vou. Com os olhos desfocados, achando tudo lindo. Se você quiser uma opinião própria e imparcial sobre o show dos Mutantes, ouça o CD, veja o DVD.
Algumas coisas, no entanto, consegui ver com retinas menos turvas. Por exemplo, uma certa tensão que paira em torno de Arnaldo Baptista a cada uma de suas deixas. Parece aquela família com a sina do tio aloprado, aquele parente que se apresenta meio maluco, para uns, ou senil, para outros. Sempre que ele chega, a parentada segura a respiração em uníssono, temendo o vexame que ele possa dar na frente das visitas. Só que ele faz as melhores tiradas da festa, todos riem aliviados e se congratulam, em um silêncio também em uníssono - "por que sempre nos preocupamos à toa...".
Outro detalhe do show que me pareceu digno de uma nota menos emotiva: a constatação de que a banda está fazendo um som de grande respeito, poderoso, vigoroso e, em muitos aspectos, diferente do que fazia em seus antigos shows. É uma porrada forte no peito começar o espetáculo com "Dom Quixote" e "Caminhante Noturno", duas canções com arranjos elaboradíssimos, cheias do gênio criativo do maestro Rogério Duprat. Músicas que, segundo o baterista e chapa Dinho Leme, não dava para fazer com a diminuta estrutura com que se apresentavam naqueles anos 60 e 70. Depois do show, fui dar um abraço no Dinho e comentei isso com ele. Ao nosso lado, o tecladista Henrique Peters, um curitibano muito gente boa, confirmou minha impressão - os recursos de hoje permitem que se faça, sem uma orquestra "de verdade", o que o maestro Duprat tinha idealizado para conjuntos de cordas e sopros. E assim o som preenche os espaços, reverbera no peito, acelera o coração.
Os jovens músicos incorporados à banda são muito bons. A ultra-carismática Simone Soul rouba a cena em muitos momentos. Instalada à direita de Dinho Leme, fez uma amálgama perfeita com o baterista original. O clímax entre os dois acontece no bis, em Bat Macumba, quando ela se posta exatamente ao lado da bateria, vigorosamente tocando tambor ao lado de Dinho. Os vocalistas Esmeria Bulgari e Fabio Recco também ajudaram a encorpar o som. Já não sinto saudade de Rita em Tecnicolor. Esmeria segura tudo e - sem maldade, please - ligeiramente ofusca Zelia Duncan nesse número. Vinicius Junqueira tem a árdua missão de substituir Liminha. Se alguma dúvida havia ficado quanto à sua eficiência, ouça "Dia 36". E, last but not least, uma nota sobre Vitor Alexandre. Que coisa mais Mutante esse menino! Um multi-instrumentista com cara de hippie. Toca teclados, flauta transversa, doce, contrabaixo. Já vi a hora em que ele ia tirar a sanfona para fazer um solo em "2001". Pensou? Ia ficar legal...
Abraço dos manos ao final do show; eu vi: Sergio chorouNesse animado e algo caótico backstage, um passarinho me deu uma notícia que fez arrepiar os pelinhos dos meus braços. Folgada como só eu, comecei a dar palpites no repertório. "Por que não 'Dune Buggy', e 'Senhor F', que tal a versão Mutantes de 'Rua Augusta', ou 'Hey, boy'?". Calma, Beth. Este show é o repertório do CD e do DVD, vamos excursionar com ele, depois vem coisa nova, inclusive inéditas. Como é?! Então, os Mutantes estão compondo de novo? Yeah, baby, e com contribuições de Tom Zé, autor das letras de "2001" e "Qualquer bobagem". Uau!
Arnaldo, eu e Sergio, no backstageFui ter com Arnaldo e Sergio, acomodados em uma mesinha no fundo do palco. Me "reapresentei" ao Sergio como "a mãe do menino que fez o desenho". Explico: no show do Tom Brasil, entreguei a ele um desenho feito pelo meu filho Gabriel, sete anos incompletos, com todos os integrantes da banda, Zélia e Rita juntas! Pouco antes, o tecladista Henrique mencionou o desenho, que ficou famoso entre os Mutantes. Oh, my... Onde vai parar meu coraçãozinho desse jeito. Sergio se lembrou no ato e mencionou para Arnaldo, que só disse "é, acho que me lembro...". Logo depois, sentou-se com eles a estilista Gloria Coelho, tão pilhada quanto eu, no primeiro show. Falando que sabia as letras de cór, ao que Arnaldo respondeu: "Então, poderia me ajudar, porque eu sempre esqueço." Mas a frase lapidar de Arnaldo foi dada a
ele, vale conferir.
(Nessa hora, tive a impressão de que Arnaldo é uma versão conteporânea do Vicente Matheus, presidente falecido do Corinthians, que falava frases desconcertantes, revelando certa ignorância, sendo muitas delas evidentemente armadas. Porque Dinho já me contou que Arnaldo pode ser aéreo para muitas coisas, mas para letras e arranjos originais é uma encíclopédia.)

Pandini, Dinho e eu
Fui, claro, fazer uma foto com Dinho. Ele estava falando com uma mulher muito bonita e pediu a ela que batesse o retrato. "Leila, bate aqui pra nós." Ela é "a" Leila? Sim, era ela, Leila, namorada do Liminha na época, festejadíssima entre a turma. Não perdi a oportunidade de conferir com ela onde era a tal casa dos Mutantes na Cantareira. Já perguntei para outros freqüentadores do lugar, mas ninguém me respondeu com muita precisão. Leila continua morando lá e finalmente pude saber onde ficava a Mutantolândia. Como eu imaginava, bem perto da casa dos meus avós. Pensou? Eu, vizinha dos Mutantes?!

"A" Leila e eu: finalmente, descobri onde era a Mutantolândia
Mais alguém aí foi ao show? Me conta, vai.