Thursday, October 15, 2009

No verão, a primavera



Entre Monteiro Lobato e Érico Veríssimo, senhores da minha infância literária, e a descoberta de García-Márquez, uma autora frequentou a cabeceira da minha pré-adolescência: Lucília Junqueira de Almeida Prado. Escritora nascida em 1924, ganhou o Prêmio Jabuti por "Uma rua como aquela", que li naquela mesma época. Um de seus livros mais marcantes, para mim, foi "No verão, a primavera", que conta a história de uma moça que vivia uma arrebatadora paixão, do tipo adolescente, na vida adulta. O título tinha essa referência: no verão da vida, a personagem vivenciava sentimentos extemporâneos, e o mais tocante era acompanhar aquela explosão juvenil em uma mulher já madura.



As declarações de Rubens Barrichello, nesses dias pré-GP do Brasil, me fizeram lembrar do livro. Há um ano, Barrichello estava praticamente aposentado pela imprensa, sem contrato para 2009, em algo que parecia o ocaso de uma carreira decadente. O começo da atual temporada não foi assim tão alvissareiro para o veterano brasileiro. Enquanto o companheiro de equipe enfileirava vitórias, Barrichello lutava com o carro. Mas, ainda assim, somava pontos. Até que "vestiu" o Brawn na segunda metade da temporada e venceu duas corridas, conseguindo reduzir a distância para Button e, principalmente, ganhando algo que sempre pareceu faltar a ele: auto-confiança.

No verão de sua carreira, Barrichello renasceu em competitividade, com a vantagem da maturidade.

Hoje, falando à imprensa, Rubens reportou um "sentimento arrasador" ao cruzar o túnel de acesso à pista de Interlagos. Na reportagem de Luis Fernando Ramos, o Ico, no Tazio, ele diz: "Tive um sentimento de muita gratidão ao passar pelo túnel do autódromo. Porque no ano passado, quando passei pelo túnel no domingo, eu fiquei com aquela sensação de que poderia ser a última vez. Então, hoje, tive um sentimento arrasador de chegar e me sentir competitivo, em casa, então faça chuva ou faça sol, será um grande fim de semana."

Faça chuva, ou faça sol, será um grande fim de semana. Bingo, Rubens! Vai ser um grande final de semana porque, nesta altura da sua longa e respeitada carreira, você já se sabe vencedor. Não se trata, aqui, de apelar para aqueles chavões de livros de auto-ajuda. Mas parece evidente que, neste 2009 tão surpreendente, a maré virou para o seu lado porque, em dado momento, neste ano, você virou seu pensamento. Deixou de se apegar ao discurso vira-lata do brasileirinho contra o resto do mundo. E as coisas começaram a melhorar para você.

Sabe o que me lembra essa atitude de Barrichello? Todo mundo já passou por isso. Você perde alguma coisa, dentro de casa, e passa um dia inteiro revirando gavetas e armários, sem sucesso. Tempos depois, tendo dado o item por perdido, você o encontra, sem querer. Ou então aquelas mulheres que passam anos tentando engravidar, fazem tratamentos, até que desistem, adotam uma criança e, depois, acabam engravidando. Assim, sem querer. Basicamente, porque mudaram o foco, impedindo que o estresse continuasse boicotando suas células. Em resumo: desencanaram.

É isso aí, Rubens, desencana que a vida é bacana. Vá para o GP do Brasil sem pôr o peso das arquibancadas nas costas, como você fez tantas vezes, principalmente nos tempos da Ferrari. Assim, meio sem querer, você vai viver sua primavera em Interlagos.

(a foto de Barrichello é de Carsten Horst)

Tuesday, October 13, 2009

Dois talentos


Escrever sobre corrida, no Brasil, muita gente escreve - e admiro vários desses colegas. Mas o que Bruno Mantovani faz é diferente de tudo: original, bem concebido e bem acabado, além de extremamente trabalhoso, verdadeiro trabalho de artesão.

Suas charges animadas são aguardadas com ansiedade lá em casa. Depois de cada GP, Mantovani cria esses curtas animados com pouco mais de um minuto, protagonizados por seus "Pilotoons", sempre com os capacetes originais dos pilotos da temporada e um detalhe marcante - os olhos. Mantovani pinçou a única coisa que se consegue enxergar de um piloto de Fórmula 1 e fez disso a expressão maior de sua arte. Olhos tristes para Kovalainen e Fisichella. Olhos arregalado para Buemi. Olhos de monstro para Barrichello, uma espécie de morto-vivo renascido em 2009. Para cada dez segundos de ação, cerca de uma hora de trabalho. Haja dedicação!

Mas não são só as charges animadas que valem a visita ao seu blog. Seus desenhos são primorosos, com traços elegantes e cores idem.

Eu já achava isso tudo do grande chargista e desenhista, que me deixou sem alternativas depois de publicar o desenho acima em seu blog, desse jovem talento da blogosfera. Permitam-me o breve momento mãe coruja e, por favor, visitem o blog do rapaz.

Sunday, October 11, 2009

United Colors of Red Bull


Tomei o energético Red Bull duas ou três vezes na vida. Na última, em vez de tomar direto da lata, resolvi despejar um pouco do líquido em um copo transparente e notei que tinha cor de xixi. Nunca mais me apeteceu. Além do mais, costumo buscar minha energia em noites bem dormidas, em vez de ficar acordada durante a noite. Por isso, o boicote à Red Bull proposto por um movimento recém-instalado na web não vai modificar em nada meus hábitos.

A bronca dessa turma começou quando a assessoria de imprensa da Red Bull, a equipe de Fórmula 1, divulgou um release entre engraçadinho e agressivo, criticando a cidade de São Paulo. O contexto é o seguinte: a Red Bull sempre faz uma espécie de avant-première de cada corrida da Fórmula 1 e o tom é habitualmente de escárnio. Em vez louvar as belezas do lugar que recebe o "circo", a equipe abusa de alfinetadas. Até o ano passado, a equipe distribuía nos autódromos, nos três dias de GP, uma edição do irreverente "Red Bulletin", esforço editorial que brindava seus leitores com notícias e fotos frescas, em uma diagramação moderna. O tom era esse mesmo - sarrista, debochado, mas quase sempre inteligente e com boas sacadas. Neste ano, com a redução dos orçamentos, acabaram com o Red Bulletin, mas o espírito nas demais peças de divulgação do time continua o mesmo.

Como alguns dos meus colegas já escreveram (aqui e aqui, por exemplo), acho o boicote injustificado. Ora, São Paulo não é mesmo caótica em seu trânsito, suja, árida na maioria das suas vias públicas e marcada por uma humilhante desiguladade social? Sou paulistana, gosto de morar aqui, mas não fecho os olhos para as mazelas da minha cidade. Não acho descabido que um estrangeiro pense duas ou dez vezes antes de vir para cá. Eu não gostaria de viajar para o Cairo ou para Mumbai, por exemplo. Se meu trabalho me obrigasse a ir até lá, eu provavelmente criticaria o que visse de desagradável nesses lugares, por isso acho que um estrangeiro que vem até aqui também tem direito de reclamar do nosso caos urbano.

Mas nem é essa a tônica principal deste post.

Hoje, enquanto participava da 8ª Corrida pela Paz do WTC*, prova da Corpore disputada na Marginal Pinheiros, com largada a partir da Ponte Estaiada, lembrei da irreverência da Red Bull e logo associei este espírito com o de outra marca cujo nome frequentou a Fórmula 1 durante muitos anos - a Benetton.



Entre os anos 1980 e 1990, a Benetton adorava chamar a atenção - e até chocar - com suas peças publicitárias. Assinadas pelo fotógrafo Oliviero Toscani, as propagandas da Benetton lançavam mão de imagens étnicas, comportamentais, religiosas para, sem palavras, colocar o povo (os povos, no caso, pois eram campanhas globais) para pensar. Hoje, algumas peças da Benetton parecem óbvias, mas nos anos 1980, antes da invasão do discurso politicamente correto na mídia, nas escolas etc., uma prosaica imagem de um casal interracial era algo meio perturbador para algumas mentes mais retrógradas.

Toscani virou símbolo de provocação. Chegou a passar dos limites do bom gosto quando lançou uma campanha com um doente terminal de AIDS em seu leito de morte (encontrei a imagem na web, mas desisti de postá-la aqui, pela dureza da cena e por tudo que ela representa).

Benetton e Red Bull, cada uma a seu modo, usaram certa dose de agressividade para chamar a atenção. Ambas, vejam só, também usaram a Fórmula 1 para promover suas marcas. Ao fim e ao cabo, é mais para isso que serve a Fórmula 1 contemporânea. Não vale a pena comprar briga por nada disso.

(*Meu desempenho na prova de 8 km: 40min24, Classificação Geral: 878/2961, Classificação Faixa: 10/121, Classificação Sexo: 64/701, Ritmo: 05:03 min/km. Já fiz essa prova em 38min alto. Mas, mesmo assim, gostei do meu desempenho. Desse 10º lugar na faixa, principalmente!).

Thursday, October 08, 2009

Separados no nascimento


A correria, como vocês podem supor, está grande. Mas não posso deixar de fazer este breve registro.

Mika Hakkinen está em São Paulo, promovendo uma campanha de direção consciente patrocinada por uma marca de uísque.

Meu irmão chamou a atenção para isso, quando Mika apareceu no GP de Cingapura.

Ele não está a cara do Roberto Leal, lendário cantor português, radicado no Brasil?

Thursday, October 01, 2009

Caldo e fredo


“E é bom para a nossa equipe ter este espírito latino com Fernando e Felipe.”
(Stefano Domenicalli, chefe de equipe da Ferrari)

“É uma personalidade melhor, porque Kimi é o tipo de pessoa que demonstra poucas emoções, ele mantém tudo dentro de si"
(Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari)

Os chefes da Ferrari, cada um a seu modo, louvaram a latinidade da dupla escolhida para 2010. Tudo bem. Entendi.

O problema de Kimi com a equipe era cultural, por ele não ter essa latinidade louvada como trunfo da dupla Fê-Fê. Mas isso vale para o sujeito abaixo?

Tuesday, September 29, 2009

Button = Scheckter?


O campeonato atual da Fórmula 1 pode entrar para a história como um dos mais estranhos de todos os tempos. A começar pela sucessão de polêmicas e escândalos: a discussão sobre a validade (ou não) dos difusores de dois andares, a mentira de Lewis Hamilton na Austrália (custando a cabeça de Ron Dennis na McLaren), a briga entre FIA e Fota, a farsa denunciada do GP de Cingapura de 2008.

Estranho por ver uma equipe, que não existia em janeiro, ser a virtual campeã de Construtores, com enormes chances de fazer também o campeão entre os pilotos. Estranho por ver pilotos mais fortes e/ou experientes (Alonso, Raikkonen, Hamilton, Massa) excluídos da briga pelo título, restrita a pilotos mais limitados e/ou inexperientes (Button, Barrichello, Vettel e, até Cingapura, Webber).

Mas algo me soa familiar nesta temporada, remetendo ao campeonato de exatos 30 anos atrás. O título de Jody Scheckter, em 1979 foi, durante mais de vinte anos, a referência vitoriosa mais recente da Ferrari. Só em 2000, Schumacher e sua turma puseram fim ao jejum do time italiano. Em 1979, como em 2009, o campeonato pareceu viver fases distintas de domínio, com quatro equipes se alternando nas vitórias.

Começou com a superioridade da Ligier (duas vitórias de Jacques Laffite), seguida por duas consecutivas da Ferrari, mas não a Ferrari de Scheckter, e sim de Gilles Villeneuve. Nova vitória da Ligier, com Patrick Depailler, na quinta prova. Scheckter só venceria a sexta corrida daquele ano, na Bélgica, assumindo a liderança para não mais perdê-la, sagrando-se campeão no GP da Itália, quando ainda faltavam duas provas para o final. Duas equipes mais venceriam naquele ano - a Renault, com Jean-Pierre Jabouille, e a Williams, com Clay Regazzoni e Alan Jones (este com quatro vitórias, prenúncio de seu título, conquistado no ano seguinte).

Em 2009, até agora, quatro equipes alternaram-se nas vitórias. O começo irresistível da Brawn sofreu breve hiato apenas na terceira corrida, com a vitória de Vettel na China, interrompendo a série de vitórias de Jenson Button, que venceu seis em sete corridas. A Red Bull voltou a mostrar força por duas provas seguidas - Inglaterra e Alemanha. Na Hungria, renasce a McLaren do campeão Hamilton, seguida de outro renascimento bastante aguardado, com a primeira vitória de Barrichello em cinco anos, emendando em outra ascensão até então inesperada - a da Ferrari de Raikkonen. Novo triunfo para Hamilton em Cingapura, dividindo ainda mais os pontos.

Diferenças entre Button e Scheckter?

Button liderou o campeonato desde o começo. Scheckter, só a partir da sexta prova.
Button tem como principal oponente ao título seu companheiro Barrichello e o discurso oficial da Brawn reza pela liberdade de disputa entre ambos. Em 1979, no GP da Itália, Scheckter foi escolhido por Enzo Ferrari para ficar com o título. (A história conta que Enzo escolheu Scheckter por sua maior experiência, prometendo a Gilles a primazia na oportunidade seguinte. A chance viria em 1982, mas daí o companheiro Didier Pironi resolveu não fazer o jogo da Ferrari, azedou o clima entre eles, Villeneuve morreu no treino para o GP da Bélgica e desandou de vez a macarronada ferrarista.)

Como Scheckter, Button também pode se beneficiar da divisão de pontos entre os oponentes e se sagrar campeão com duas corridas de antecipação. Eu não acredito que isso aconteça, neste próximo final de semana, em Suzuka. E você?

Thursday, September 24, 2009

Sinistro


As empresas de seguro costumam contar com especialistas em fraude. Quem faz seguro honestamente, apenas para preservar um patrimônio como carro ou casa, pode custar a acreditar. Mas há quem simule danos a seus próprios bens com o objetivo escuso de receber o dinheiro do seguro. Você já ouviu falar disso, claro.

Mas você percebeu um detalhe sinistro nessa história da batida de Piquet em Cingapura? O principal patrocinador da Renault, no ano passado e neste, é o banco holandês ING. Aqui no Brasil, a tradicional seguradora SulAmerica passou a fazer parte do grupo há algum tempo. Além do ING, a Renault tem o patrocínio da seguradora espanhola Mutua Madrileña.

Já pensou como pegou bem, para essas duas instituições, que investem muito dinheiro no combate a fraudes, ver seus nomes associados ao que pode ser considerada como a maior fraude da história da Fórmula 1?

O ING já tinha anunciado que não renovaria o contrato com a Renault para 2010. Deve sair antes do fim da atual temporada. E a Mutua Madrileña... bem, este parece ser o típico caso de "aonde a vaca vai, o boi vai atrás". Foi para a McLaren com Alonso, voltou para a Renault com Alonso e agora vai sair da Renault. Rumo à Ferrari?

(E espero, com este post, encerrar meus comentários sobre o caso Nelsinhogate.)

Monday, September 21, 2009

"We got him"


Em 14 de dezembro de 2003, um alto funcionário do governo norte-americano pronunciou a frase título deste post, referindo-se à captura do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein.

Na ótica dos EUA, seu exército estava proporcionando ao mundo um momento de rigozijo pela liberdade de um povo em relação a um tirano. A discutir.

É mais ou menos o sentimento que prevalece entre o público da Fórmula 1, neste histórico 21 de setembro de 2009.

Flavio Briatore está banido da Fórmula 1 e de qualquer competição com a chancela da FIA. A punição à Renault foi branda, com dois anos de suspensão, caso a equipe se envolva em mais alguma maracutaia nos próximos dois anos. Ou seja, nada.

Os pilotos Nelson Ângelo Piquet e Fernando Alonso foram inocentados.

Sujou brabo mesmo para o italiano e para Pat Symonds, chefe de engenharia do time, que levou gancho de cinco anos.

O histórico de mau-caratismo de Briatore é longo, não escondendo de ninguém, nunca, que seu único interesse nas relações esportivas era ganhar dinheiro. Nada contra ganhar dinheiro, mas seus métodos truculentos e sua pose arrogante davam engulhos em qualquer pessoa "de bem".

Arrivederci, Flavio!

Thursday, September 17, 2009

Sorry, guys


Depois do GP de Cingapura do ano passado, perpetrei este texto:

(...)Mas seria injusto definir o GP de Cingapura, o primeiro grande prêmio noturno da história de Fórmula 1, a corrida de número 800, como “a prova em que Massa saiu do box com a mangueira”. Cingapura 2008 foi a vitória da obstinação, da estratégia perfeita, da condução segura, da maestria de Fernando Alonso. Vê-lo sair do carro quebrado, no Q2, foi desalentador. A Renault vinha muito bem nos treinos livres, o que pode não significar muita coisa na maioria das vezes. Mas Alonso garantia – nunca estivemos tão bem em nenhuma outra pista, neste ano. Porém, o carro parou.

O asturiano chegou a declarar que a corrida estava perdida. Acreditava, mesmo, na possibilidade de uma pole position, e se agarrava a isso como promessa de vitória. Pista de rua, estreita, estreitíssima, por onde ultrapassar? Para ganhar, só saindo na frente. Mas a madrugada deve ter sido longa no box da Renault. Alonso não é de jogar a toalha assim, facilmente. Deve ter se reunido com Briatore e com a trupe de engenheiros e ficaram lá, antevendo situações e escolhendo estratégias. Alonso, entusiasta das mesas de pôquer no box da Force India, deve ter desfalcado o carteado na madrugada de sábado para domingo.

Apostaram que alguém, cedo ou tarde, estamparia o muro, fazendo entrar o safety car. A honra coube a Nelson Piquet, companheiro do próprio Alonso, mas levo apenas como brincadeira a idéia de que o brasileiro possa ter feito isso como jogo de equipe. Alonso beneficiou-se amplamente, pois tinha acabado de fazer seu pit stop, arrancando do carro os pneus extra-macios que não rendiam tão bem, trocando-os pelos compostos macios e reabastecendo o combustível.

Lembrou, vagamente, a estratégia de Nelson Piquet, o pai, em Kyalami 1983. Na ocasião, Piquet sumiu na frente, com pouco combustível no carro, parou antes de todo mundo e garantiu ali seu segundo título mundial. Alonso não largou com tão pouco combustível, mas traçou uma estratégia igualmente inteligente ao fazer uma primeira perna da corrida bem curta, livrando-se logo dos pneus “ruins” e, naturalmente, aproveitando-se da sorte de ter parado no momento certo, exato, pouco antes da entrada do safety car.

Robert Kubica e Nico Rosberg devem ter pensado parecido, calculando um primeiro pit stop precoce, mas não tiveram a sorte de fazê-lo imediatamente antes da entrada do safety car. Ficaram na mão, sob risco de pane seca, e entraram no box quando ainda não podia. Pagaram seus pênaltis com dois stop & go, coisa que não se tem usado com freqüência na Fórmula 1 atual.

Sorte, sim, muita sorte. Estrela: a sorte costuma acompanhar os grandes campeões. Grandes campeões costumam ousar mais, passando mais perto do muro do que os outros. Os outros até passam, mas a diferença, em geral, está no fato de que os outros habitualmente batem.(...)

Desculpem-me, prezados leitores. Sorry, guys. Esta veterana, no fundo, ainda é uma criatura crédula.

Monday, September 14, 2009

Presa e predador



Rubens Barrichello subiu ao pódio de Monza, ontem, acrescentanto um gesto ao seu repertório de sinais corporais. Imitou um atirador de flechas, dando vida ao conceito de franco atirador que este campeonato lhe impôs.

Barrichello fez uma primeira metade de temporada bem apagada em comparação ao companheiro de equipe, Jenson Button. Enquanto o inglês ganhou seis em sete corridas, marcando 61 pontos no campeonato até o GP da Turquia, Barrichello somou 35.
Em compensação, de lá para cá, Button marcou apenas 19, contra 31 do brasileiro.

A diferença, que era de 26 pontos, caiu para 14. Barrichello tem que descontar 3,5 pontos por corrida, nas quatro que faltam, para superar Button. Não é impossível. Sempre vale lembrar a espetacular reação de Kimi Raikkonen em 2007, que descontou 17 pontos em relação a Lewis Hamilton em apenas duas provas.

Como Raikkonen, Barrichello agora é o caçador. Uma posição bem mais confortável que a de Button, que desde o início do campeonato é a caça. O problema, para Button, é que a distância entre ele, presa, e o predador, Barrichello, está cada vez menor. O problema, para Barrichello, é que o campeonato está se afunilando. Faltam apenas quatro provas e ele precisa que Button sofra algum revés significativo para se aproximar mais na classificação. Algo como aconteceu com Raikkonen e Hamilton no já citado 2007 (para descontar os 17 pontos, Raikkonen contou com um abandono de Hamilton, na China, e com um humilde sétimo lugar do inglês, no Brasil).

Uma diferença fundamental entre o Raikkonen de 2007 e o Barrichello de 2009: o finlandês tinha uma equipe inteira brigando por seu título, inclusive com a solidariedade de Felipe Massa, que abriu mão da vitória, no Brasil. Ali, era uma Ferrari inteira, em bloco, contra uma McLaren fratricida. Agora, é uma Brawn contra outra.

O que será que vai dar?

Saturday, September 12, 2009

Nelsinhogate Quiz



O lado bom de ter quase 40 anos é se chocar menos com alguns acontecimentos. Os fatos vão se repetindo, com pequenas variações, e a gente se acostuma à ideia de que a vida é uma sucessão de escândalos.

O caso Nelsinho Piquet x Renault não me chocou como a algumas outras pessoas com quem tive contato. Não que eu ache bonito bater no muro para o companheiro de equipe se locupletar e vencer a corrida. Mas já vi pilotos provocarem acidentes de propósito, vi outros deixando o companheiro vencer, vi artimanhas e mutretas diversas. É triste, mas é a vida.

Vários ângulos do affair Nelsinhogate levantam polêmica e chocam em maior ou menor grau. Fiquei curiosa para saber a opinião dos leitores do blog. Listo abaixo alguns desses aspectos e peço a opinião de vocês.

O que lhe parece pior nessa história?

a) o fato de Nelsinho ter supostamente aceitado a ordem da equipe para provocar o acidente?
b) o fato de Nelsinho ter se calado enquanto considerava que essa obediência lhe garantia um lugar na Renault?
c) a atitude vingativa da família Piquet contra a ex-equipe?
d) a reação destemperada do chefe de equipe, Flavio Briatore, negando a suposta farsa e atacando Nelsinho pessoalmente?
e) o fato de Briatore usar uma suposta relação homossexual de Nelsinho como forma de desabonar sua imagem?
f) a postura da FIA, antecipadamente garantindo imunidade a Nelsinho, oferecendo ao piloto a chamada delação premiada?
g) a postura de Fernando Alonso, vencedor da prova, alegando desconhecer a suposta farsa?

Votem, fiquem à vontade para argumentar, para acrescentar outros ângulos. Só não vale apelar para o velho "todas as anteriores".

Wednesday, September 09, 2009

Doctor/Donkey


Não tenho tido muita sorte com as corridas de Moto GP neste ano. Assisti a poucas provas e mesmo estas foram chatinhas. Perdi, por exemplo, o já histórico pega entre Valentino Rossi e Jorge Lorenzo na última volta do GP da Catalunha. Domingo passado, chovendo cães e gatos em São Paulo, deixei-me ficar à frente da TV, assistindo ao GP de San Marino, disputado no autódromo italiano de Misano.

A corrida teve poucas disputas, com Valentino Rossi largando mal, como faz habitualmente, mas reassumindo a ponta antes da metade da prova. Confesso que comecei a folhear alguns livros enquanto espiava a TV, esperando mesmo pelo show que acontece, paradoxalmente, ao final do espetáculo. As vitórias de Valentino não raro reservam o melhor para depois da corrida, com suas comemorações extravagantes.

Na semana anterior, Vale havia perdido a corrida de Indianápolis para Lorenzo graças a um raro, porém severo, erro cometido por ele mesmo. Desceu da moto nos EUA e decretou: "Fui burro!". Desembarcou em Misano literalmente vestindo a pele do quadrúpede. No alto do capacete, pintou a figura do Burro, personagem do filme Shrek. The Doctor virou The Donkey por livre e espontânea vontade.

Finda a prova, mais burrice. Seus mecânicos o esperavam com orelhas de burro na cabeça e ele mesmo lançou mão do inusitado ornamento, subindo ao pódio com um par de enormes orelhas. Correndo em casa, bancando o clown, Vale mais uma vez levou o enorme público à ovação. A multidão gritava "Vale, Vale" e ostentava bandeiras amarelas com seu número, o mítico 46.



Quem há de criticar o erro de Valentino, em Indianápolis, depois de tão sincero mea culpa? Não bastasse rir de si mesmo, ainda sacramentou a redenção com uma vitória incontestável na semana seguinte.

E sempre fico me perguntando: haveria espaço para a espontaneidade de Valentino na Fórmula 1? Senão vejamos:

- para pintar o Burro no capacete, é bem provável que ele tivesse de abrir negociações entre a FOM e a DreamWorks, distribuidora do filme. Afinal, na Fórmula 1 não é assim, vai chegando e vai mostrando qualquer coisa. Ali, para aparecer, há que pagar.

- se subisse no pódio com orelhas de burro, poderia levar uma punição ou uma multa. Perder dez posições no grid da corrida seguinte ou morrer com uns 10 mil euros. Não se ridiculariza a imagem da Fórmula 1 assim, impunemente (ah, não resisto à piada: os dirigentes da Fórmula 1 exigem exclusividade na avacalhação da categoria...)

- se parasse na pista para pegar uma bandeira das mãos de um fã, correria o risco de ser suspenso, sob alegação de promover a insegurança na pista, encorajando intrusos no ambiente sagrado da velocidade.

- seus mecânicos, ao esperá-lo com orelhas de burro, seriam arrolados como cúmplices de uma ação orquestrada para manchar a imagem de seriedade da categoria. Isso sem mencionar a baderna promovida na frente dos boxes por mecânicos e demais membros das equipes, além do atraso habitual na cerimônia do pódio, verdadeiro veneno para uma categoria rigorosamente cronometrada e vendida como show de TV como a Fórmula 1.



É... Acho que a Fórmula 1 não é o habitat de Valentino, The Doctor.

Tuesday, September 01, 2009

Ouverture



Leio nos sites de notícias que Fernando Alonso negou categoricamente que vá correr no lugar de Felipe Massa ainda em 2009.

Na semana passada, antes do GP da Bélgica, a Ferrari lançou uma nota, entre irritadiça e bem humorada, listando todos os pilotos já cogitados pela imprensa para correr no lugar do brasileiro. O nome de Alonso é óbvio por já circular associado à Ferrari recentemente. Os repórteres que acompanham a Fórmula 1, como meu colega Luis Fernando Ramos, dizem que esse é o boato mais absorvido como verdade dos últimos tempos. Uma triangulação entre Alonso, Ferrari e o Banco Santander parece certa, colocando o bicampeão no lugar que já foi de Michael Schumacher.

Ora, Alonso há de entrar na Ferrari com pompa e circunstância, como cabe a um bicampeão do mundo (como, aliás, entrou Schumacher, em 1996).

Há de ser anunciado entre flashes e um aglomerado de microfones, em cerimônia formal na sede da equipe, com discurso do presidente e juras de amor de parte a parte.

Se fosse uma ópera, a chegada de Alonso à Ferrari seria o clímax do primeiro ato, com violinos em crescendo, metais pontuando a melodia acelerada, o coro de vozes sobrepostas preenchendo a acústica do teatro, arrematando com o vigor de um toque de pratos, a anunciar a entrada da grande diva, a prima donna.

Supor que Alonso possa estrear na Ferrari no apagar das luzes de 2009, substituindo Felipe Massa, é assumir que ele vai entrar na equipe pela porta dos fundos. Que ele está de pires de mão, clamando por uma chance de pilotar um dos carros vermelhos. Que vai chegar de mansinho, como se a prima donna pudesse entrar em cena em plena ouverture. Não, este não é o estilo de Alonso.

Monday, August 31, 2009

Vingança



"(...)enquanto houver força em meu peito
Eu nao quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar (...)"

Os versos dor-de-cotovelo de Lupicínio Rodrigues parecem expressar o que há por trás da investigação da FIA em relação à Renault. Se Flavio Briatore mandou mesmo Nelsinho Piquet bater em Cingapura, para provocar a entrada de um safety car e assim favorecer Fernando Alonso, a casa pode cair para o chefe de equipe italiano. E fica bem evidente de onde poderia ter partido a denúncia - do desprezado Nelsinho.

"Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem
E quebraste um telhado, perdeste um abrigo
Feriste um amigo(...)"

A tática de Nelsinho, se for isso mesmo que se especula, soa pouco inteligente. Assumindo a farsa, Nelsinho também se assume como réu. Jogo de equipe doloso esse. Saindo da Renault, o piloto rasgou o verbo contra o antigo chefe. A letra de Herivelto Martins e David Nasser, em "Atiraste uma pedra", resume o sentimento da decepção que detona o revide.

"(...)Mas, se existe ainda
Quem queira me condenar,
Que venha logo
A primeira pedra
Me atirar."


O Trio de Ouro, formado por Nilo Chagas, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins


Herivelto Martins, aliás, era casado com a cantora Dalva de Oliveira. Findo o caso de amor, vieram as brigas e os recados públicos, por meio das letras de música. Herivelto lançou "Atiraste uma pedra", e Dalva lançou mão de "Errei, sim", de Ataulfo Alves, remetendo à passagem bíblica, pela qual "quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra". Nelsinho pode se valer dessa lógica, sabendo que, na Fórmula 1, como em qualquer esporte de alta competitividade, não há inocentes. Mais que isso: Nelsinho pode estar servindo a uma causa maior, orquestrada por outro ofendido - Max Mosley - que assim aniquilaria o segundo desafeto, após ter jogado para o ostracismo o inimigo Ron Dennis. De réu confesso, Nelsinho passaria a delator premiado.

"Seu mal é comentar o passado
Ninguém precisa saber
O que houve entre nós dois
O peixe é pro fundo das redes
Segredo é pra quatro paredes
Não deixe que males pequeninos
Venham transtornar os nossos destino (...)"

Dalva falava, Herivelto respondia. Dalva replicava, Herivelto treplicava. Briatore poderia apelar para a letra de "Segredo", de Herivelto e Marino Pinto, tentando convencer Nelsinho (leia-se Nelson Piquet, o pai) a deixar os acontecimentos de Cingapura no passado. Não o fez no tempo certo, agora parece tarde.

Será que a casa vai cair para Briatore?

Monday, August 24, 2009

Devagar, devagarinho



Oh, turba de homens ingênuos! Multidão de seres humanos desavisados! Vós que estais diante das câmeras de TV e não entendeis por que o jamaicano Usain Bolt parece sempre desleixado nos últimos metros de suas provas!

Olhai os passos débeis do magnífico atleta, depois para o cronômetro. Por que será que, depois de 60 ou 70 metros, no caso da prova dos 100 metros rasos, Bolt parece simplesmente se desinteressar da disputa? Por que ele perde centésimos de segundos preciosos olhando para os lados, mexendo a cabeça, gesticulando com os braços?

Ora, qualquer um que tenha informações mínimas sobre o esporte de alto nível sabe o quanto essas distrações fazem diferença no tempo final. Cheguei a escutar, de comentaristas gabaritados, falando em tom de brincadeira, que o ideal seria programar Bolt para uma prova de 200 metros e computar apenas os 100 primeiros, para que ele pudesse relaxar no final sem comprometer o resultado de fato medido.

Parece evidente que Bolt pode fazer muito melhor do que já fez, por mais assombroso que isso pareça. Então, perguntariam os ingênuos, por que ele não faz logo de uma vez?

Ah, é? Para quê?

Para bater os recordes mundiais dos 100 e dos 200 metros rasos apenas uma vez?

Bolt tem noção do quanto pode alcançar. Lembra o ucraniano Serguei Bubka, que subia o sarrafo de centímetro em centímetro, chegando a bater o recorde de salto com vara por 35 vezes. Tantas vezes quantas puder bater o recorde dos 100 metros, a prova mais nobre do atletismo, tanto mais rico e famoso Bolt ficará.

É por isso que ele desencana no final. Para não dar tudo numa única vez. Vai baixar esse recorde mais um monte de vezes. Sem pressa. Devagar, devagarinho.

Sunday, August 23, 2009

Brasil 100, Blog 400


Juro que não estava guardando o post de número 400 deste blog para a centésima vitória do Brasil, mas aconteceu.

A décima vitória na carreira de Rubens Barrichello foi o 100º triunfo do Brasil na Fórmula 1. E foi uma vitória merecida, em uma corrida chata, o GP da Europa, disputado em Valência, como no ano passado.

Uma vitória de estratégia, predicado tão bem exercido pelo chefe de equipe de Barrichello, Ross Brawn, o mesmo que ajudou a arquitetar suas outras nove vitórias, na Ferrari.

Algumas breves considerações sobre a corrida de Valência:

- a combinação pista travada + alta temperatura parece ter sido a fórmula mágica para a ascensão da McLaren nas duas últimas corridas. A conferir: as duas próximas provas, em Spa e Monza, manterão o time de Hamilton nas primeiras posições?

- o calor também parece forte aliado da Brawn. Terá a equipe mais dificuldades na Bélgica, com aquele tempinho habitualmente miserável das Ardenhas?

- mortinha da silva, em Valência, acho que a Red Bull volta a cantar de galo em Spa, por conta do traçado, que privilegia a velocidade. O duelo ali é um quebra-cabeça para chefe de equipe nenhum botar defeito. Webber à frente de Vettel, com quatro pontos e meio de vantagem. Dá para escolher um deles para lutar pelo título?

- ume menção honrosa ao improvável Timo Glock que, quietinho, quietinho, fez a melhor volta da corrida em Valência.

- o tom de Barrichello, na entrevista coletiva, me pareceu extra-emocionado, com agradecimentos a várias pessoas que o ajudaram na carreira. No ar, pelas rádios Bandeirantes/ Band News FM, eu disse que o tom me parecia de despedida. Sei lá, acho que Rubens está pensando em parar no final desta temporada.

- nas abreviaturas que usa para a transmissão de TV, a FIA identificou Luca Badoer como BAD. Bad como ruim, em inglês. Bad, mas bad mesmo. Pede pra sair, Luca!

Monday, August 17, 2009

Bote fé no velhinho

Pedro De La Rosa, Alexander Wurz, Jacques Villeneuve... Os nomes destes três ex-pilotos em atividade rondaram o noticiário nas últimas semanas, como prováveis ocupantes de assentos nas novas equipes da Fórmula 1. Por um momento, pensei que tinha voltado uns dez anos no tempo.



O espanhol De La Rosa, 38 anos, fez sua estreia em 1999.



Wurz, o austríaco de 35 anos, começou na categoria em 1997.



O campeão Villeneuve, canadense de 38 anos, debutou na Fórmula 1 em 1996.

A notícia da volta de Michael Schumacher era superlativa demais para se alinhar a esse espírito de baile da saudade, ainda que fosse o retorno de um piloto de 40 anos, que fez sua estreia em 1991.



Daí veio o forfait do alemão e foram buscar o italino Luca Badoer, mais um da safra de 1971 (38 anos, portanto), que fez sua estreia em 1993.

Como contemporânea dessa turma toda, não deixo de estar satisfeita com a valorização dos "velhinhos". E não deixo de pensar que estamos ouvindo falar de De La Rosa, Wurz, Villeneuve e Badoer em parte por suas habilidades ao volante. Entre eles, um campeão do mundo. Inquestionável. Mas também me parece óbvio que estes nomes ganharam relevância com a esdrúxula regra da proibição de testes.

Como promover jovens a titulares da Fórmula 1 sem lhes permitir ganhar quilometragem com os carros? Esta me parece a razão mais evidente para que os "velhinhos" estejam mais bem cotados que nomes como Niko Hulkenberg, Vitaly Petrov, Lucas di Grassi, Pastor Maldonado, Javier Villa, jovens estrelas da GP2 atual.

De La Rosa, Wurz, Villeneuve e Badoer são melhores que a atual geração da GP2? Não há como saber, pois os jovens não foram postos a prova e, se depender do regulamento atual da Fórmula 1, não o serão. Há três semanas, vimos o temor espalhado entre os próprios pilotos, diante da inexperiência do espanhol Jaime Alguersuari. Nesta semana, mais uma estreia provável, a do francês Romain Grosjean, verdinho como o outro. Entre os verdes e os velhinhos, as equipe podem apostar nos cabelos brancos contra a total inexperiência.



Na eleição presidencial de 1989, a primeira eleição direta para presidente do Brasil em 29 anos, o jingle do candidato Ulysses Guimarães entoava os seguintes versos: "Bote fé no velhinho, que o velhinho é demais/ Bote fé no velhinho, que ele sabe o que faz/ Vai mudar o Brasil, do Oiapoque ao Chuí/ E acabar com a molecagem que tem por aí". A principal plataforma do "Sr. Diretas", do deputado que promulgou a Constituição Cidadã de 1988 era, vejám só, a experiência contra a molecagem. Estaria a Fórmula 1 caminhando para se tornar uma categoria de velhinhos?

"E no curral Del Rey..."



Nos idos de 1986, 1987, eu tinha o hábito de escrever em minha Olivetti portátil enquanto escutava música. Sentava no chão, apoiava a máquina de escrever no degrau mais baixo da escada, bem ao lado do aparelho de som. Às vezes, dava uma esticada nas pernas e uma endireitada nas costas, enquanto olhava pela parede envidraçada, avistando dali a Serra da Cantareira, na zona norte de São Paulo. O hábito perdurou por bastante tempo, pelo menos até o começo de 1991, mas este período em especial (1986/1987) foi uma época em que ouvi muito Milton Nascimento e os demais artistas do Clube da Esquina.

Deve ter sido em "Clube da Esquina", a música, que ouvi falar pela primeira vez na Serra do Curral. Os versos dizem:

E no curral D'el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
No fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar

Milton, Minas e montanhas são uma tríade inseparável. Aliás, é óbvio falar de Minas e citar seus morros. Milton não foi o único. Drummond também usou e abusou das montanhas ao retratar sua Itabira. Enfim, cantar Minas e não louvar montanhas é como falar da Bahia sem citar o mar. De tanto ouvir Milton, olhando para a Serra da Cantareira, associei aquela minha paisagem doméstica à Serra do Curral.

Neste final de semana, fiquei cara a cara com a paisagem original, a de Minas. Há pouco mais de quatro meses, meu irmão e sua família se mudaram para Belo Horizonte. Eu não conhecia a capital mineira, mas não foi difícil identificar a Serra do Curral, assim que cheguei ao apartamento deles. Não que seja parecida com a "minha" Serra da Cantareira. Na verdade, não tem nada a ver. A "minha" montanha vai subindo suave, coberta de uma vegetação densa e escura. A montanha de Minas, do Milton e, agora, do meu irmão, é um paredão que parece estancar a cidade. Um morro acintosamente íngreme, com vegetação mais rala e muitos claros, provavelmente ocasionados pela seca sazonal.



Em apenas um final de semana, não se conhece uma cidade. Conheci as cercanias do bairro da Savassi, novo endereço do meu irmão, fui ao Parque das Mangabeiras, ao município de Nova Lima, ao Parque Ecológico, à Lagoa da Pampulha. De cara, meu grande respeito aos colegas corredores que treinam em BH. Êita cidade cheia de ladeira, sô! São os morros, os morros de Minas, do Milton, e agora do meu irmão. No Parque das Mangabeiras, uma surpresa e um flashback. Uma placa homenageando o músico Marco Antonio Araújo, morto aos 36 anos, em 1986, em consequência de um aneurisma cerebral. Como disse, eu ouvia muita música mineira na época, fiquei bem triste com a morte prematura, noticiada por meu querido Zuza Homem de Mello. Dedicaram a ele um teatro de arena no meio do parque. E o parque fica pertinho, pertinho da Serra do Curral. A foto que abre este post foi tirada de dentro do parque, mostrando uma das montanhas dessa cordilheira.

Acho que não estive em Santa Teresa, o bairro onde fica a tal esquina que originou o clube. Também não passei na Guajajaras, na Tamoios, na Tapuias, na Timbiras, na Tupis, aquelas ruas "todas no chão", que permeiam a letra de "Ruas da Cidade", do Lô Borges. Não passei nem em frente à sede do Cruzeiro, cujo salão recebeu vários bailes da vida daquele pessoal. Fica para a próxima. Quem sabe não volto lá, para correr a Volta da Pampulha, com seus aprazíveis 18 km?

Monday, August 03, 2009

Papai, eu quero



Achei que a demissão de Nelson Angelo Piquet não aconteceria ainda neste ano. O clima já era tão ruim há tanto tempo entre ele e o chefe, Flavio Briatore, que considerei indiferente a data da saída. Agora ou no final do ano parecia o menos importante. No entanto, saiu depois do GP da Hungria, vencido por uma cláusula que lhe obrigava a ter pelo menos 40% dos pontos do companheiro Fernando Alonso.

Nelsinho preferiu ele mesmo anunciar a demissão, antecipando-se ao anúncio da Renault. Aliás, essa lavada de honra - anunciar antes de ser demitido publicamente - também ficou parecendo cena orquestrada. Depois de muito discutir com Briatore, Piquet-pai deve ter batido o martelo pela última vez. "Tudo bem, ele sai, mas nós é que vamos divulgar." Ao que Briatore deve ter respondido com um grunhido de desprezo, erguendo-se da cadeira e movendo-se com aquele andar pastoso de quem empurra a protuberância abdominal sem pressa.

Depois do affair Alonso x Hamilton, nenhum piloto tem o direito de se iludir em obter condições iguais estando ao lado do espanhol. Alonso é um piloto extraordinário, dos poucos que fazem a diferença e conseguem eventualmente andar mais que o próprio carro. Mas é também egocêntrico e sabe exigir o melhor para si. Nelsinho e Nelsão deveriam saber. Claro, não era de se jogar fora uma oportunidade na Renault, mas não era de se esperar o mesmo tratamento dispensado a Alonso. E, mesmo com carros diferentes, parece indefensável uma sova de 27 a 1 pró-Alonso (considerando as 28 participações dos dois pilotos em treinos classificatórios nas temporadas de 2008 e 2009).

Há alguns dias, pelo Twitter, Nelsinho soltou o nome Piquet F1, acendendo no mundo afora a boataria em torno de uma equipe comandada por seu papy. O sério repórter Livio Oricchio, do Estadão, cravou que a equipe sai dos boatos para a vaga deixada pela BMW. O assessor de imprensa de Piquet pôs panos quentes e disse que não é bem assim. Eu sigo o faro do Livio, por vários motivos, a começar por sua já citada seriedade e longuíssima experiência na cobertura da categoria.

Observando um pouco mais de longe, vejo outros motivos que devem contribuir para Piquet associar-se ao clube dos donos de equipe. Certa vez, no aeroporto de Congonhas, Piquet-pai falou a um grupo de jornalistas, entre eles, esta veterana que vos escreve. Em dado momento da conversa, questionado sobre alguma decisão de Max Mosley, Nelsão interrompeu o repórter e disse: "O Mosley não manda nada. A Fórmula 1 é do Bernie", decretou. Bernie, seu ex-patrão na Brabham por sete temporadas, enfim percebeu que não pode confiar nas grandes montadoras, que vão progressivamente abandonando a categoria ao sabor dos números no vermelho que têm apresentado a seus acionistas.

Para manter a Fórmula 1, Bernie precisa de gente em que possa confiar. Gente do ramo, não CEOs de empresas globais que podem surfar com segurança em termos como shareholders e balanced scorecards, mas não sabem a diferença entre downforce e understeer. Precisa de gente como Piquet. O arranjo pelo qual o tricampeão entraria no negócio ainda parece nebuloso. Mas o fato de já ter gerenciado equipes de kart, Fórmula 3 e GP2, e de ser um legítimo garagista, que até dormia em garagem no começo da carreira, mais que o credencia para a tarefa.

À primeira vista, a solução caseira soa como mais uma tutela paterna a Nelsinho. As equipes criadas pelo pai, afinal, nada mais foram que instrumentos para o filho ter boas condições nas categorias que disputou. Vai reforçar a imagem de menino superprotegido, mas Nelsinho pode estar menos preocupado com isso do que eu. E Nelsão, afinal, pode até ganhar dinheiro na história. O capricho do filho, vai saber?, pode virar um bom negócio para o pai. A conferir.

Sunday, August 02, 2009

Benza Deus (nº 2)



Minha avó Elza deve ter sido a única pessoa na história da humanidade a se casar às seis horas da manhã. Ela e meu avô Antonio, naturalmente, posto que ela não se casou sozinha. Minha avó Elza tinha histórias curiosas, sui generis, algumas tristes, outras de chorar de rir.

Entre as tristes, a saga da mãe, portuguesa, que partiu de Trás-os-Montes com o marido e os três filhos e desembarcou no Brasil sozinha, vendo a família morrer aos poucos, dizimada por uma daquelas pragas que contaminavam os navios de imigrantes. Minha avó nasceu do segundo casamento, uma união que gerou vinte filhos, com um aproveitamento de menos de 50%. Sobraram nove. Minha avó era a terceira entre os vivos. Sui generis o detalhe de que o bisavô, o reprodutor dos vinte rebentos, era já viúvo, pai de doze filhos, alguns adultos, o que levou minha avó a vivenciar a estranha experiência de ter vários sobrinhos mais velhos que ela.

(Definitivamente, entendo porque ler "Cem Anos de Solidão" não me causou nenhuma estranheza...)

Vó Elza conheceu meu avô em fevereiro de 1940. Ele, de São Paulo, vendia aparelhos de rádio. Ela, em Amparo, interior paulista, bateu o olho no rapaz e, seguindo o conselho de uma prima mais velha, arrancou impulsivamente uma etiqueta do chapéu dele. Dizia, em uma dessas histórias curiosas, que isso era um código para a moça sinalizar ao galente pretendente que, sim, estava a fim. O impulso foi tanto que, ao arrancar a etiqueta, rasgou o forro do chapéu do moço da capital. O que não o impediu de voltar lá em junho do mesmo ano e trazê-la para São Paulo, como esposa.

Os costumes da época não permitiriam que a moça viesse para São Paulo sozinha com o noivo para se casar. E, naturalmente, não se aventava a possibilidade de transferir para a capital toda a família, com os doze filhos do primeiro casamento, os nove do segundo e adjacências. Tinha de ser em Amparo a cerimônia. A logística era complexa. Se casassem às seis da tarde, não teriam trem para seguir viagem. E não teriam morada para usufruir da noite de núpcias e seguir viagem na manhã seguinte. A solução foi marcar o casório para as seis da manhã. Finda a cerimônia bem a tempo de pegar o trem, em 29 de junho de 1940, Dia de São Pedro.

Pronto o vestido, Vó Elza cismou de entrar na igreja com um buquê de camélias brancas. Mas quem haveria de colher camélias antes das seis da manhã, para a cerimônia em tão inusitado horário? Pois a moça tinha pensado em tudo. Pediu que um dos irmãos (e não devia ser difícil achar algum dando sopa) colhesse algumas camélias na noite anterior. Deixou o buquê pronto e, terror! Quando foi se aprontar, viu que as flores estavam escuras. Vó Elza estava cansada de ver as belas flores vicejando na natureza, mas não conhecia a delicadeza da planta, que a um simples toque com a pele já começava a escurecer. A solução não me é exata na memória. Não sei quais flores escolhidas e colhidas para o evento, só sei que Vó Elza aparece na foto do casamento com uma maquiagem da moda, engraçadíssima aos dias de hoje, com a boca em coração, como a maquiagem da Minnie, e segurando um buquê de flores brancas, que não eram camélias.

Hoje, Vó Elza completaria 90 anos. Benza Deus, como ela diria. Segue uma camélia virtual para você, Vó Elza, Bisa Elza. Esta, tenho certeza, não vai escurecer.

Thursday, July 30, 2009

Lance Schumacher


Alguns fizeram paralelo com o retorno de Ronaldo aos gramados. É uma comparação válida, mas comporta uma diferença fundamental. Ronaldo não havia abandonado o futebol. Estava de molho depois de mais uma de suas cirurgias. Schumacher está aposentado há quase três anos. Ronaldo, 33 anos, fora de forma. Schumacher, 40 anos, sequinho e sarado.

Quando ele me disse, com o frisson dos repórteres, que o alemão substituiria Felipe Massa, na hora me veio à mente outra figura - o ciclista norte-americano Lance Armstrong, cuja biografia recheada de desafios e superações foi enriquecida neste 2009, com seu retorno à principal competição da modalidade - o Tour de France.

Como Schumacher, Armstrong, que faz 38 anos em setembro, também estava parado. Voltou e conquistou o terceiro lugar no Tour, vencido pelo companheiro Alberto Contador, de 26 anos.

Dois fora-de-série, Armstrong e Schumacher.

Como diz Milton Neves, citando uma frase que provavelmente foi criada por Mauro Betting, "sorte é o encontro da capacidade com a oportunidade". Schumacher, vai ter sorte assim lá em Valência! O homem volta justamente no momento em que a Ferrari começa a dar sinais de melhora, e numa pista travada, que parece favorecer o atual modelo de Maranello (Kimi foi segundo no travado Hungaroring, as Ferrari foram terceiro e quarto em Mônaco...). Se vai "vestir" bem o carro, depois de três anos, se vai fazer bons tempos, se vai se virar bem com um carro sem controle de tração, nada disso se sabe.

O que me parece certo: o fato foi excelente para a Fórmula 1, que viu a notícia sobre a retirada da BMW ser completamente abafada pela volta do alemão. Mais: que os pilotos Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Heikki Kovalainen, Nelson Angelo Piquet, Kazuki Nakajima, Adrian Sutil, Sebastian Buemi e Jaime Alguersuari, que nunca disputaram corridas na Fórmula 1 contra Schumacher, estão esfregando as mãozinhas para dividir uma curva com ele.

Para Felipe Massa, a escolha de Schumacher, além de uma espécie de homenagem, parece uma garantia de assento para 2010. Se a Ferrari lançasse mão de algum dos nomes que se aventaram nos últimos dias - Alonso ou Kubica - e se esse eventual substituto fosse muito bem, a equipe italiana provavelmente começaria a viver em clima de "resta um", com Massa e Raikkonen disputando o mesmo lugar. Schumacher, pelo contrário, não toma o lugar de ninguém.

Será que a foto abaixo , GP da China de 2006, não será mais a da última vitória de Schumacher?

Wednesday, July 29, 2009

Sorte, falta de sorte ou negligência?


Ainda o acidente de Massa no treino classificatório para o GP da Hungria...

Cheguei a levantar este assunto durante a transmissão da Band News FM/ Rádio Bandeirantes AM, mas não avançamos no debate.

Insisto, até porque a colega Barbara Gancia ontem caminhou pela mesma linha.

A primeira reação da maioria dos espectadores, ao ver a peça atingindo o capacete de Massa, foi pensar: puxa, que falta de sorte! Com tanto lugar para bater, a mola do carro de Barrichello foi diretamente para a cabeça de Felipe Massa.

Depois, ao se constatar a gravidade relativa dos ferimentos, a avaliação também mudou: nossa, que sorte ele teve! Em vez de bater no supercílio, a mola poderia ter atingido o olho, deixando-o cego.

Desde o sábado, fiquei com uma pulga atrás da orelha sobre o fato. É aceitável que uma mola se desprenda da suspensão de um carro e atinja outro? Isso não revelaria que a Brawn, sabidamente com menos dinheiro que a maioria das outras equipes, já está "no osso" em relação a seus equipamentos?

Sunday, July 26, 2009

Comunicação de Massa


Nessas horas, até quem não acompanha Fórmula 1 acaba se ligando nas imagens da TV. Tudo captado pelas câmeras: a mola voando em direção à Ferrari, os braços inertes sobre o volante, freio e acelerador pressionados até o fim, juntos. E o carro seguindo direto para a barreira de pneus, a cabeça imóvel, o atendimento médico ágil, o suspense, a movimentação de repórteres e pilotos.

E o contexto novelesco se formando. O irmão no paddock, os pais no Brasil, junto da esposa, ainda por cima grávida. A Globo, que nunca passa a entrevista coletiva dos pilotos após o treino, ontem esticou a transmissão. Audiência em alta, segura aí! Ao longo da transmissão, Galvão Bueno passando do blasé para o histérico. Primeiro, como se tudo fosse uma habitual batida contra a proteção de pneus. Depois, percebendo que Massa não tinha batido-e-desmaiado, mas desmaiado-e-batido, tornando-se cada vez mais dramático.

"Nunca pensei que teria de dizer isso novamente: vá com Deus, meu amigo..."

Frase dita ao vivo, repetida depois, ao vivo, no Jornal Nacional. O JN, que em condições normais daria uma matéria de um minuto, um minuto e meio para a Fórmula 1, abriu a edição com "o drama de Massa". Link ao vivo no hospital, com Galvão dando testemunho de ser uma das seis pessoas que estiveram na porta do centro cirúrgico, esperando a saída da equipe médica. Esforço de reportagem no aeroporto. A esposa grávida em desespero, dois celulares nas mãos, chora abraçada ao sogro, pede para não gravar entrevista, mas, entre lágrimas, pede: "Não importa qual seja sua fé, reze por ele." E a apresentadora, lançando migalhas ao público ávido: "No final desta edição, mais informações sobre o acidente de Felipe Massa." Audiência, segurem-na!

Uma foto de Massa, ainda de capacete, é mostrada. O olho esquerdo fechado, o corte no supercílio, o olho direito arregalado. A mesma foto, no dia seguinte, estampada na primeira página de vários jornais. Uma foto mundo-cão. Nós, jornalistas, defendemos a publicação desse tipo de imagem pela relevância da notícia. Nós, seres humanos, ficamos chocados com a exposição da dor e da tragédia.

Quem está certo? Espaço aberto para o debate.

Thursday, July 23, 2009

Adultescentes


Neste sábado, dia 25 de julho, Nelson Angelo Piquet completa 24 anos. No dia seguinte, disputa o GP da Hungria. Ao que parece, corre com a espada sobre a cabeça. Se tiver outro desempenho medíocre, como foi a maioria de seus desempenhos na Fórmula 1 até hoje, pode (ou deve) perder a vaga, provavelmente para o piloto francês Romain Grosjean.

Leio no Tazio que, chegando a Budapeste, hoje, Nelsinho deu a seguinte declaração:

"Queria eu saber [se continuarei]. Estou aqui para andar e meu pai está aqui para resolver os pepinos. Então, se eu soubesse, estaria ótimo. Sei lá", disse.

Estive rapidamente com Nelson Angelo no ano passado, em um evento da Renault. Pareceu-me, sobretudo, um rapaz tímido, mas atendeu meu filho com simpatia e educação, posou para fotos, autografou bonés.

Neste ano, em que a Renault faz muito quando não anda para trás, Nelsinho está fazendo menos ainda. Dá seguidas mostras de displicência, parece mais interessado em se comunicar com os amigos via Twitter e a própria resposta acima corrobora essa linha "tô nem aí".

24 anos...

Alguns dirão que o comportamento do jovem Piquet é fruto da imaturidade, mas não acho que um homem de 24 anos ainda deva se pendurar no pai. O pai, aliás, teve uma trajetória completamente diferente, sujeitando-se a condições bem menos confortáveis que as do filho em seus primeiros anos na Europa. Há algum tempo, Nelsinho relatou as agruras de viver sozinho no Velho Continente, queixando-se, por exemplo, de viver sem ter uma empregada por perto. Chega a ser ofensivo, para a maioria das pessoas deste planeta, escutar uma reclamação como essa.

Mas, afinal, Nelsinho não reflete um comportamento cada vez mais comum entre os adultos jovens das classes médias e entre os mais abastados? Quantos de nós não convivemos com jovens de 20 e poucos anos, alguns já passados dos 30, que continuam vivendo na casa dos pais, locupletando-se de empregadas e mesadas mesmo quando já dispõem de uma profissão?

Fico meio passada quando vejo adultos bem formados que ainda dependem do pai ou da mãe para pagar suas contas ou para ter uma peça de roupa limpa para vestir. Mas, afinal, de quem é a culpa? Dos adultescentes folgados, que deixam todos os pepinos nas mãos dos pais, como faz Nelsinho com Nelsão, ou dos próprios pais, que reforçam com tal comportamento sua vocação para continuar dirigindo a vida dos filhos?

Monday, July 20, 2009

40 anos - O homem na Lua



Duas datas comemorativas sempre me serviram como espécie de preparação para o meu próprio aniversário - a chegada do homem à Lua e o milésimo gol do Pelé. Eu estava na barriga de mamys quando os dois fatos aconteceram.

Em julho de 1969, a bem da verdade, eu era um minúsculo feto, de apenas algumas semanas. Mas já estava na área. Nunca ouvi muitos relatos dos meus pais sobre o feito de Neil Armostrong e seus colegas de firma. O que é até estranho, pois meu pai era um leitor entusiasta de ficção científica. Suponho que ele tenha seguido o noticiário com interesse, mas o outro evento histórico ocorrido durante meu período de ensaio sempre foi muito mais comentado lá em casa.

Afinal, o milésimo gol do Pelé todo mundo sabe que aconteceu mesmo...

Sunday, July 19, 2009

Ipiranga, com atraso e com amor


Já faz duas semanas que corremos a prova dos Bombeiros, disputada no dia 5 de julho neste ano, mas ainda vale o registro. Já escrevi antes e repito: cada corrida tem seus desafios e encantos, mas algumas são incomparáveis, e a prova do Ipiranga é especial por vários aspectos.

Primeiro, por não ser disputada nos tradicionais trajetos que incluem Cidade Universitária ou arredores do Ibirapuera. Só o fato de ir até o Ipiranga já oxigena as ideias. No meu caso, é sempre uma viagem no tempo - me faz recordar o período em que eu ia para o trabalho, em São Bernardo do Campo, de carona com meu pai, e passávamos todos os dias pelo Ipiranga. O relato mais completo dessas reminiscências está no post sobre a corrida do ano passado.

Outro diferencial da prova dos Bombeiros está no percurso cheio de altos e baixos do Ipiranga. Largamos ao lado do Museu, bem em frente ao Grupamento de Bombeiros (2 de julho é o Dia do Bombeiro, por isso essa prova da Corpore é sempre disputada nessa época do ano). Dali, seguimos em discreta subida pela avenida Nazareth. Viramos à esquerda e começamos a descer. Descida pra valer na rua Bom Pastor, chegando à avenida D. Pedro, belo logradouro com muitas árvores em ambos os lados. Um pequeno desvio até a Avenida Teresa Cristina, voltando à D. Pedro e, desafio dos desafios, subindo novamente a Nazareth, uma escalada de mais de um quilômetro. Refazemos o trecho inicial, passando novamente pelos Bombeiros, virando novamente à esquerda e à esquerda novamente, encerrando bem em frente ao Museu.

Estava bem frio antes da prova, mas nem por um instante pensei em lançar mão de calças compridas para correr. Sei que o arrepio de antes da largada logo cede lugar ao calor, antes do primeiro quilômetro. Como tenho relatado aqui, meus treinos neste ano estão muito menos disciplinados que em anos anteriores, por falta de tempo. Por isso, nem projetei um tempo ideal para esta corrida. Não me dei ao trabalho nem de olhar o tempo registrado no ano passado, para evitar mais pressão.

A turma da Equipe Conexão, sob o comando do técnico Zé Eduardo Pompeu, esteve em número expressivo nesta prova. Henry, o "do mal", como sempre liderando nosso pelotão, com seu preparo de triatleta. Nilton, meu cordial oponente palestrino, mantendo um ritmo muito forte em 2009. E mais: Henry, o "bonzinho", Fábio, Lara, Zoca, Pati, Dafine, Alê Carioca, Hiba e Ammar. Aliás, Bombeiros é a prova do coração para o Ammar, que fez sua estreia como corredor em uma prova dessa, dois anos atrás.

Cheguei cedo ao Ipiranga, pois um problema crônico do lugar é a dificuldade para estacionar. Para-se o carro na rua, o que nem é tão difícil. Difícil, ou impossível, é escapar dos flanelinhas que se oferecem para "tomar conta" dos veículos. E lá se foram R$ 20,00 (sim, R$ 20,00!) para deixar meu carro na rua. E dei-me por feliz ao voltar, depois da prova, e encontrar o possante inteiro pois, no ano passado, saindo de lá, notei que haviam tentado arrombar a fechadura da porta do passageiro. Anyway...

Larguei sem nenhuma meta de tempo na cabeça e prometi só começar a fazer contas depois da metade da prova. Os cinco quilômetros chegam na parte mais baixa do percurso, lá na D. Pedro. Para fazer uma projeção a partir daquele trecho, é preciso lembrar que o pior está por vir, com a subida da Nazareth. Atingi os 5 km com 26 minutos de prova e uns quebrados. Se eu conseguisse apenas dobrar este tempo, já me daria por feliz, considerando que teria de subir tudo o que já tinha descido. E me concentrei nesse objetivo. O intervalo entre os quilômetros 5 e 6 é feito todo no plano, o que me permitiu aumentar significativamente a velocidade. Ganhei ali o que perderia entre os quilômetros 6,5 e 8.

Na subida da Nazareth, Zé esperava cada integrante da equipe. Momento crucial da prova, uma palavra de incentivo do técnico sempre é um turbo poderoso. Quando passei novamente pelo palanque em frente ao Corpo de Bombeiros, o repórter Alex Muller, da Bandeirantes e tradicional animador das provas da Corpore, dizia ao microfone suas frases e gracejos. Aproveitei para tirar o boné e exibir a bandana do Corinthians que havia colocado, só para fazer graça com meu técnico são-paulino. Acenei para Muller e mostrei a bandana. Pois ele pareceu ter combinado a anti-piada com o próprio Zé - "Olha lá a são-paulina!". Desaforo...

Terminei os 10 km com 52min52, três minutos acima do meu tempo de 2008. Não foi o tempo dos sonhos, mas também não foi uma grande decepção, pois eu sabia da minha condição atual. Mas serviu - ah, se serviu - como estímulo para retomar a disciplina dos treinos. Mas, qual o quê... Semana passada, uma sinusite me derrubou e já emendei mais uma semana sem treinos. Semana que vem, quem sabe...

Saturday, July 18, 2009

Billie, Elis e a orquídea


Ontem, dia 17 de julho, completaram-se 50 anos da morte de Billie Holiday. Já escrevi várias vezes sobre esta cantora, uma das minhas preferidas, consagrada pela história como a rainha do blues. Como tantas outras divas do canto, teve vida conturbada, pontuada por tragédias, tristezas e vícios, terminando em morte precoce. No seu caso, com apenas 44 anos.

Billie associou à sua figura a imagem de uma flor - a orquídea - seguidamente usada como adorno em seus penteados.



Em 1979, quando lançou o álbum "Essa mulher", Elis lançou mão da mesma flor, mostrada em desenho na capa do disco, na parte interna do álbum e também adornando os cabelos, parte do figurino do show homônimo. "Essa mulher" era um disco/show chique. Elis usava roupas assinadas pelo estilista Clodovil e, se você só conhece o Clô apresentador e deputado desbocado, saiba que, nos anos 1970, usar roupas assinadas por Clodovil era o fino do chique, viu?

Já no ano seguinte, Elis lançou "Saudade do Brasil", com apelo político e visual despojado (o show tinha um grupo de dançarinos, Elis juntava-se a eles em alguns trechos, cantando descalça, com polainas sobre calças tipo legging). Uma das canções mais marcantes do disco, "Alô, alô marciano" tira um sarro dos novos-ricos metidos a grã-finos. Em dado momento, em improviso livre sobre a letra, Elis imita Louis Armstrong e decreta, debochada: "Ah, mas que chique é o jazz, meu deus...". Talvez, um sarro dela mesma, toda Billie Holiday no ano anterior.

Monday, July 13, 2009

Mulher de malandro



Sabe aquela amiga que vem até você, queixa-se do namorado ou do marido, relata as agruras que passa a seu lado, pede conselhos, diz que não aguenta mais sofrer e, por isso, vai dar um basta?

Depois, você a encontra de braços dados com o sujeito, no maior enlevo, e fica com aquela cara de besta, com a certeza de que só perdeu seu tempo ao dar tanta atenção a ela...

A postura de Rubens Barrichello na Fórmula 1 muitas vezes me lembra essa figura clássica da mulher de malandro. Ontem, depois do GP da Alemanha, saiu do carro se dizendo "roubado" pela equipe. Disparou contra o patrão, dizendo que a Brawn deu um show de como perder corrida. Esfriou a cabeça (ou esfriaram-na) e depois contemporizou, dizendo que não era bem assim.

Parece ter sido lembrado, pelo patrão, que a Brawn estava vendida diante da Red Bull. Mark Webber, afinal, venceu com facilidade mesmo depois de levar uma punição. E a Red Bull conquistou uma dobradinha incontestável. À Brawn caberia, com certo esforço, somar pontos.

A Brawn errou no segundo pit stop de Barrichello, atrapalhando-se no reabastecimento do carro. Um erro estranho, mas, até prova em contrário, um erro. A Brawn colocou pneus duros no carro de Barrichello no terceiro e último pit stop, uma decisão questionável mas, aparentemente, compartilhada com o próprio piloto. A Brawn trabalhou para inverter as posições entre Jenson Button e Barrichello nesta última parada, em uma tentativa evidente de fazer o líder do campeonato somar um ponto a mais que o companheiro de equipe. Bem, os dois últimos campeonatos foram decididos por um ponto de diferença, e Ross Brawn deve se lembrar disso.

Barrichello, por sua vez, não conseguiu abrir vantagem sobre Webber no começo da corrida. Não conseguiu ultrapassar Massa depois do primeiro pit stop. Não conseguiu locupletar-se da vantagem de ter menos combustível que a concorrência durante toda a prova, em função da estratégia de três pit stops. No cara-a-cara com Ross Brawn, Barrichello deve ter recebido de volta um "errei, erramos" e, no melhor estilo samba canção dor-de-cotovelo, percebeu que falou demais após a corrida.

Em sua 17ª temporada de Fórmula 1, com 37 anos de idade, Barrichello segue como tema principal de piadas e chacotas. Ontem, durante a transmissão na Bandeirantes - BandNews FM, comentei que Webber tirava de Barrichello o incômodo título de piloto que mais disputou GPs até conquistar a primeira vitória. Assim que saí do estúdio, um graduado colega da rádio comentou: "Então, quer dizer que agora o Rubinho é o SEGUNDO piloto também nesse quesito?".

Tuesday, July 07, 2009

Berne


Dermatobia hominis é uma mosca que, enquanto ainda se apresenta como larva, é conhecida como berne. O berne é um pequeno parasita, porém um grande problema. Uma vez presente em animais, especialmente bovinos, forma nódulos no hospedeiro, com a presença de uma ou mais larvas no interior.

É nojento esse Berne.

E uma das coisas mais sui generis que já vi é o tratamento para extrair essas larvas. Faz-se um curativo com gase e um pedaço de bacon (!). Esta estranha combinação reduz o ar e o bicho acaba botando a cabeça pra fora para respirar. Daí, é só puxar o parasita para fora.

Berne é nojento, nojento, nojento.

Berne é parasita, suga o sangue da vítima até deixá-la doente, fraca, às portas da morte. O que não deixa de ser uma enorme burrice. Berne parece não saber que, se matar a vítima, mata a si mesmo, por estar hospedado nela, por se parasitar nela.

Berne, esse nanico, é capaz de dizimar um rebanho inteiro, quem sabe de 20 bois, cavalos, carros (?).

Esta espécie possui um aspecto curioso no hábito de oviposição, pois precisa de um outro inseto, geralmente outra mosca, como vetor de seus ovos, para levar o berne até o hospedeiro e iniciar assim, seu ciclo biológico. Talvez essa outra mosca se chame, sei lá, Moslei?

Berne, o diminuto, não admite que o ignorem. Se algo chama mais atenção que ele mesmo - um acidente aéreo, um golpe de estado, a morte de um ídolo - sai apreogoando asneiras, louvando lunáticos, negando a história. Quer chamar a atenção, consegue, depois nega, diz que foi mal compreendido.

Berne talvez tenha se deixado atrair demais pelo bacon ($?), botou a cabeça para fora e sente que o puxam para longe das entranhas de seu hospedeiro.

Berne, o parasita, é nojento.

Monday, July 06, 2009

"Mas ficou tudo de lugar..."

"Alessandra, está escrevendo em algum outro lugar agora? Onde posso acompanhar seus bons textos? Te conheci no GP Total e tenho acompanhado este blog, às vezes interessado, outras menos.
Me pergunto por que tão poucos comentários. Uma jornalista assim, tão informada, eloquente, com textos tão caprichados (me desculpo pela sinceridade: um pouco menos "esforçados" ultimamente)(...)"


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Corrida Corpore Bombeiros - 10 km
Desempenho em 2008 - 49min16 (16º lugar na faixa etária)
Desempenho em 2009 - 52min52 (27º lugar na faixa etária)

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Os dois blocos de texto, acima, aparentemente não têm relação um com o outro? Tem, sim. Poucos textos no blog, como reparou o leitor Edu, no post abaixo (falando em nome de outros, tenho certeza, e com total propriedade). Desempenho sensivelmente pior nas minhas corridas.

A estes, eu poderia acrescentar outros, como contatos escassos ou quase nulos com amigos e ritmo de leitura muito menor. São todos produtos do mesmo fenômeno, amigos: falta de tempo, excesso de trabalho. Este ano de 2009 não está nada fácil, fazendo-me sacrificar coisas muito caras a mim, como escrever no blog e treinar adequadamente.

O diabo é que essas coisas, tão caras, estão na gaveta dos afazeres que me dão prazer, mas não contribuem com o vil metal no fim do mês.

O comentário do leitor, abaixo, e o desempenho piorado, na corrida de ontem (depois, quando der, falo sobre ela...) chamaram atenção para algo que eu já sabia, de velho: por mais que a gente se sinta polivalente, ninguém é super herói. Não dá para fazer tudo e, às vezes, as coisas mais prazerosas são as que mais padecem.

Mas, otimista, espero colocar ordem no meu cotidiano nos próximos meses, voltando a ter um blog atualizado e com textos dignos. E correndo dez quilômetros em menos de 50 minutos!

E, agora que escrevi e publiquei isso, virou compromisso. Cobrem-me!

Thursday, July 02, 2009

Trilegal



Não tive tempo de postar ontem, o que foi uma pena. Deveria ter registrado meu sonho. Contei, de viva voz, para quem pude: para meu filho, minha mãe, professores e colegas da academia, gerente e segurança do banco... "Sonhei que o jogo de hoje vai terminar em 2 x 2."

Jornalistas, se você não sabe, torcem menos para seus próprios times e mais para suas teses. Se, antes do jogo, prevêem uma derrota de sua equipe, são capazes de torcer contra ela, só para ver sua teoria confirmada. Descobri, ontem, que isso não vale para mim em relação ao Corinthians.

Depois de fazer 2 x 0, desejei ardentemente que meu sonho não se realizasse.

Só que eu tinha antecedente... Em julho de 2007, sonhei que Raikkonen seria campeão. Naquele período, com a McLaren bombando no Mundial, ninguém apostaria nisso. E deu no que deu.

Pior é que minha intuição sinalizou mais, assim que começou o jogo. No primeiro ataque do Corinthians, olhei para a meta defendida pelo goleiro Lauro, do Inter, e pensei: "Só entra bola nesse gol, hoje". Estou ficando com medo de mim!!!

Mas estou muito feliz por mais um título neste ano e, mais ainda, pela perspectiva de disputar a Libertadores no ano do centenário do Corinthians.

Pela segunda vez, o Corinthians conquista uma Copa do Brasil em Porto Alegre. Somos três vezes campeões nesse torneio. Sei que não é um tricampeonato genuíno. Bi, tri, tetra, penta só devem ser assim considerados quando são na sequência mas, quem se importa? Somos tri. Conquistamos o tri nos pampas. Trilegal!