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Entre Monteiro Lobato e Érico Veríssimo, senhores da minha infância literária, e a descoberta de García-Márquez, uma autora frequentou a cabeceira da minha pré-adolescência: Lucília Junqueira de Almeida Prado. Escritora nascida em 1924, ganhou o Prêmio Jabuti por "Uma rua como aquela", que li naquela mesma época. Um de seus livros mais marcantes, para mim, foi "No verão, a primavera", que conta a história de uma moça que vivia uma arrebatadora paixão, do tipo adolescente, na vida adulta. O título tinha essa referência: no verão da vida, a personagem vivenciava sentimentos extemporâneos, e o mais tocante era acompanhar aquela explosão juvenil em uma mulher já madura.

As declarações de Rubens Barrichello, nesses dias pré-GP do Brasil, me fizeram lembrar do livro. Há um ano, Barrichello estava praticamente aposentado pela imprensa, sem contrato para 2009, em algo que parecia o ocaso de uma carreira decadente. O começo da atual temporada não foi assim tão alvissareiro para o veterano brasileiro. Enquanto o companheiro de equipe enfileirava vitórias, Barrichello lutava com o carro. Mas, ainda assim, somava pontos. Até que "vestiu" o Brawn na segunda metade da temporada e venceu duas corridas, conseguindo reduzir a distância para Button e, principalmente, ganhando algo que sempre pareceu faltar a ele: auto-confiança.
No verão de sua carreira, Barrichello renasceu em competitividade, com a vantagem da maturidade.
Hoje, falando à imprensa, Rubens reportou um "sentimento arrasador" ao cruzar o túnel de acesso à pista de Interlagos. Na reportagem de Luis Fernando Ramos, o Ico, no Tazio, ele diz: "Tive um sentimento de muita gratidão ao passar pelo túnel do autódromo. Porque no ano passado, quando passei pelo túnel no domingo, eu fiquei com aquela sensação de que poderia ser a última vez. Então, hoje, tive um sentimento arrasador de chegar e me sentir competitivo, em casa, então faça chuva ou faça sol, será um grande fim de semana."
Faça chuva, ou faça sol, será um grande fim de semana. Bingo, Rubens! Vai ser um grande final de semana porque, nesta altura da sua longa e respeitada carreira, você já se sabe vencedor. Não se trata, aqui, de apelar para aqueles chavões de livros de auto-ajuda. Mas parece evidente que, neste 2009 tão surpreendente, a maré virou para o seu lado porque, em dado momento, neste ano, você virou seu pensamento. Deixou de se apegar ao discurso vira-lata do brasileirinho contra o resto do mundo. E as coisas começaram a melhorar para você.
Sabe o que me lembra essa atitude de Barrichello? Todo mundo já passou por isso. Você perde alguma coisa, dentro de casa, e passa um dia inteiro revirando gavetas e armários, sem sucesso. Tempos depois, tendo dado o item por perdido, você o encontra, sem querer. Ou então aquelas mulheres que passam anos tentando engravidar, fazem tratamentos, até que desistem, adotam uma criança e, depois, acabam engravidando. Assim, sem querer. Basicamente, porque mudaram o foco, impedindo que o estresse continuasse boicotando suas células. Em resumo: desencanaram.
É isso aí, Rubens, desencana que a vida é bacana. Vá para o GP do Brasil sem pôr o peso das arquibancadas nas costas, como você fez tantas vezes, principalmente nos tempos da Ferrari. Assim, meio sem querer, você vai viver sua primavera em Interlagos.
(a foto de Barrichello é de Carsten Horst)




































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