Sunday, June 29, 2008

Em nome do pai

Já não me lembro quantas vezes corri no circuito do Ipiranga, pois há duas provas por ano naquele local - uma sempre no final de junho ou começo de julho, em homenagem ao Dia do Bombeiro, e outra em setembro, marcando a Independência. Sempre gostei de correr lá e sempre tive uma porção de motivos por este apreço.

Correr em locais como o Ipiranga, o Centro de São Paulo e o circuito do Barro Branco é uma oportunidade de sair do binômio USP-Ibirapuera, que domina amplamente o calendário. Mas tem mais. O trajeto é altamente desafiador, com uma ladeira longa entre os quilômetros seis e sete, o que modifica totalmente a estratégia habitual. Não dá para apenas aumentar o ritmo progressivamente, pois esse trecho, já na segunda metade da prova, quase sempre representa uma diminuição no desempenho.

Um motivo adicional é o local onde se monta a arena - o Parque da Independência, bem em frente ao Museu do Ipiranga. Certamente, um dos lugares mais bonitos de São Paulo, com aquele jardim copiado de Versailles, com a beleza arquitetônica do museu a emoldurá-lo. Um lugar com muitas árvores, como toda a cidade deveria ser...

Mas, sendo muito honesta, devo confessar que a prova do Ipiranga sempre me remete ao meu pai. Durante um curto período da minha vida profissional, trabalhei no mesmo endereço que ele. Eu, começando a carreira. Ele, às portas da aposentadoria. Éramos de áreas bem diferentes, já que meu pai era engenheiro mecânico. Mas, por conta dessa circunstância, durante um ano fomos juntos para o trabalho, no carro dele, e passávamos todos os dias por aquele pedaço da cidade.

É impossível passar pela avenida D. Pedro I ou pela avenida Nazareth e não recordar aquelas manhãs. Íamos a caminho da Ford, em São Bernardo do Campo, empresa na qual ele trabalhou por trinta anos e na qual fui assessora de imprensa por dois anos e meio. Hoje, treze anos depois desse período, oito anos depois que ele se foi, já é agradável passar por ali. Lembro dos nossos rituais e piadas, e de uma brincadeira macabra que constituía em "atropelar pessoas". Claro que ele não passava com o carro por cima de ninguém, mas a cada oportunidade que tínhamos de deixar um pedestre atravessar na nossa frente, contávamos os pontos para nosso joguinho. Gente carregando sacola valia mais pontos, assim como indivíduos de boné, mochila etc. Éramos normais, não se engane.

Claro, não foi sempre assim, tão tranqüilo, lembrar desses tempos. Nos primeiros anos de sua falta, alguns lugares, gestos e hábitos repercutiam na memória como uma fisgada no peito. Talvez, naquele tempo, eu não conseguiria nem correr pelas ruas do Ipiranga. E quando os mais experientes, que já tinham passado por perdas semelhantes, diziam que uma hora isso ia passar, era difícil de acreditar.

No entanto, hoje passo pela avenida D. Pedro I e por seus casarões antigos, subo a Nazareth com os olhos magnetizados pelo museu e já não vem a tristeza. Vem a lembrança do joguinho esdrúxulo, das piadas, das fitas cassete que íamos ouvindo no carro.

Meu pai certamente ficaria entusiasmado com meu engajamento nas corridas. Na falta dele, fui encontrando nesse circuito alguns "pais" que me guiam, me puxam a orelha, me tratam com genuíno carinho de filha. O pai de todos, Zé Eduardo Pompeu, é o técnico e é Zé, como era meu pai também. Henry, meu grilo falante, é quase um pai bravo a me convencer de que posso ir mais rápido, mais forte, mais decidida. Zoca é outro pai de todos, por ser o mais velho e por ter, com sua (e nossa!) querida Valéria virado uma espécie de padrinho de todo o time.

Na corrida deste domingo, uma performance para encher de orgulho todos eles. Terminei em 49min16, que não é meu melhor tempo para 10 km, mas é um "temporal" para um circuito como aquele, com uma ladeira tão longa. De quebra, recebi duas medalhas. A verdadeira, da prova, e um prêmio inesperado. Meu amigo Henry, outro japonês da turma, me deu uma figurinha repetida de seu álbum da Eurocopa. Na foto, o tudo-de-bom Cristiano Ronaldo, titularíssimo do time de Portugal, terra dos meus avós, país que levava toda a simpatia... do meu pai.

7 comments:

david santos said...

Olá, Alessandra!
Então, os meus sinceros parabéns.
Abraços.

Marcus said...

Suas reminiscências sempre dão belos posts. E eu achei graça desse "Carmageddon virtual", hehehe.

Parabéns pela medalha.

Rafael said...

Como é bom ler as coisas que a Alessandra escreve...

Cynthia said...

Lindo, lindo,lindo. Quando perdemos alguém, no começo é doído demais, depois vai diminuindo a dor e vamos ficando só com as memórias boas, o que não significa que elas não sejam cheias de emoção.
Só para descer o nível da conversa... Torci muito para Portugal (é lógico!), mas para mim o tudo de ótimo é o Ballack.

Ron Groo said...

Tocante, Alessandra.
E no que tange ao tempo... Parabéns, se eu tivesse metade da força que você tem... ai ai

Celinho Boy said...

Adorei esta história. Eu achei tocante estas tuas lembranças. Pior que muitos lugares nos trás à tona muitas lembranças. Bem tua incansável saga em baixar dos 49 minutos.
Não sabia que tu coleciona figurinhas. Ganhei uma do meu irmão Da Champions League, mas infelizmente não cosegui completar.
E domingo temos mais uma corrida. Mas eu estarei trabalhando na hora da corrida.

Andrei said...

Oi, Alessandra. Aqui é o Andrei, do Tazio. Preciso de seu e-mail, por favor. Beijo, Andrei (andrei@tazio.com.br)