Sunday, April 19, 2009

O leão rugiu



O australiano Mark Webber atravessou os últimos anos sob a desconfiança do mundo da Fórmula 1. Acabou ganhando o rótulo de "leão de treino", por conquistar posições de algum destaque nas classificações, decepcionando depois, nas corridas. Como se Webber sempre estivesse com pouco combustível no carro, apto a conseguir um bom lugar no grid, sem que isso se refletisse em sucesso nas provas.

Neste honorável GP da China de 2009, Mark Webber, sob chuva, perpetrou uma das mais belas ultrapassagens dos últimos tempos, ao superar o líder do campeonato, Jenson Button, em uma extraordinária manobra, por fora.

O vigor e a juventude do alemão Sebastian Vettel, seu companheiro de equipe, parecem estar inspirando o velho leão de treino que, neste domingo, rugiu alto.

Wednesday, April 15, 2009

Olha pra frente!
















Acabou. A FIA sacramentou hoje o que os comissários de Melbourne já tinham avaliado: os difusores de dois andares, utilizados até agora apenas pelas equipes Brawn GP, Toyota e Williams, estão dentro do regulamento. Os resultados das provas da Austrália e da Malásia foram confirmados, mantendo Jenson Button na liderança do campeonato.

E agora?

Agora, as outras que corram e tentem recuperar-se do prejuízo.

Acho que ninguém aguentava mais ver tantas fotos das traseiras dos carros. É hora de a Fórmula 1 olhar para a frente. Gente como Felipe Massa considera que a vantagem dos carros da Brawn é enorme, e só a mão pesada da cartolagem poderia frear a jovem equipe.

Mas há gente como Fernando Alonso que considera possível às demais equipes evoluir, em busca de um maior equilíbrio ao longo da temporada.

E você, o que acha? Dá para olhar pra frente e tentar consertar o que resta do campeonato ou o melhor é olhar mais pra frente ainda e já focar 2010?

Saturday, April 11, 2009

Alonso, 22; Heidfeld, 1



Na próxima terça-feira, a FIA vai julgar a legalidade dos difusores da discórdia, utilizados até agora apenas pela Brawn, pela Toyota e pela Williams. Os rumores, pelo que leio e ouço, são da confirmação da sentença dada em Melbourne, primeira corrida do ano. Ou seja, os difusores são uma interpretação legal do regulamento e podem ser usados.

No entanto, os dirigentes da Fórmula 1 andam tão atrapalhados, mal intencionados, incompetentes, delirantes, nenhuma das anteriores ou todas as anteriores, que eu não me espantaria se o julgamento terminasse banindo os difusores. Neste caso, outra dúvida se instalaria: o que fazer com os pontos conquistados pelos pilotos dessas três equipes até agora? Proibem-se os difusores e mantêm-se os resultados? Proibem-se os difusores e eliminam-se os pontos obtidos pelos pilotos das três equipes?

Se esta última alternativa for a escolhida, tudo muda no campeonato. Button perderia as duas vitórias. A primeira, no GP da Austrália, iria parar no colo do bicampeão Fernando Alonso, quinto colocado naquela prova. Por quê? Porque perderiam seus pontos os dois pilotos da Brawn (o vencedor Button e o segundo, Barrichello), e os dois da Toyota (Trulli, o terceiro, e Glock, o quarto). Sendo o piloto com mais vitórias da atual geração, Alonso comemoraria sua estranha conquista com certo enfado. Uma a mais para o currículo, e nem ficaria frustrado por sequer ter subido ao pódio na corrida "de verdade".



Situação mais curiosa viveria o alemão Nick Heidfeld, que herdaria a vitória na corrida maluca de Sepang, chegando à sua primeira conquista na Fórmula 1 sem ter podido comemorá-la como tal. E pior: marcando só a metade dos pontos.

Com os resultados atuais, Alonso e Heidfeld têm o mesmo número de pontos - quatro. No cenário com as desclassificações, Alonso viraria líder do campeonato, passando a dez pontos, enquanto Heidfeld, apesar da hipótetica vitória na Malásia, ficaria com apenas cinco, metade da pontuação normal, pela interrupção precoce da prova.

Quem me conhece há algum tempo sabe que fui entusiasta do estilo de Heidfeld desde seu título na Fórmula 3000, em 1999. Embora ache que o alemão tenha perdido o bonde da história na Fórmula 1, gostaria de vê-lo comemorar pelo menos uma vitória na principal categoria. Mas, não desse jeito. Acho que nem ele.

Monday, April 06, 2009

Chuva?! Que chuva?

Enquanto a Fórmula 1 sofria com a chuva aqui...











Eu batalhava com o sol aqui.













Um breve esclarecimento aos que sintonizaram a Bandeirantes/ BandNews FM ontem e não ouviram meus comentários. Fui correr a Meia Maratona da Corpore, cuja largada aconteceu antes do término do GP da Malásia, e foi disputada sob muito sol e calor. No GP da China, se Deus quiser, estarei a postos, ao lado da equipe comandada por Odinei Edson. Até lá.

Thursday, April 02, 2009

Cachorro picado por cobra...



Não vou completar a frase porque ainda estou inconformada com a extinção do trema imposta pelo novo acordo ortográfico. Jamais comerei uma linguiça, e como já não podemos dispor de uma boa lingüiça, bom, deixa pra lá, já escrevi mesmo.

O fato é que Lewis Hamilton foi excluído do GP da Austrália e, com isso, perdeu o terceiro lugar que havia conquistado com a desclassificação de Jarno Trulli. Um vídeo amador, postado no blog do Capelli, mostra o momento em que Trulli escapa em uma curva, vai para a grama e é ultrapassado por Hamilton que, cá entre nós, não tinha outra alternativa. Hamilton e a equipe ficaram em dúvida, trocaram ideias pelo rádio, a McLaren apelou para os comissários da FIA para saber o que orientar, ficou sem resposta. Pelo sim, pelo não, mandou Hamilton devolver a posição.

Hamilton e seus colegas de firma devem se lembrar bem de Spa 2008, quando ele não devolveu a posição a Raikkonen e acabou perdendo a vitória para Massa. Na minha opinião, foi isso que aconteceu. Não acho que a McLaren tenha mandado Hamilton deixar Trulli passar para se beneficiar disso. Acho que estavam era com medo de tomar outra punição. Só que o moleque foi tonto e mentiu para os comissários, dizendo que não tinha recebido ordem da equipe para deixar o italiano passar.

Acabou punido e ainda levou lição de moral. Hamilton pode até ter sido besta, mas que anda difícil saber o que se passa na cabeça dos cartolas da FIA, isso anda.

Wednesday, April 01, 2009

McDream em Le Mans

A notícia foi dada ontem por meu chapa Rodrigo Mattar, do Sportv e do blog A mil por hora.

Os detalhes esportivos estão todos lá e o resumo da ópera é o seguinte: Patrick Dempsey, o dr. Derek Shepherd de Grey´s Anatomy vai pilotar uma Ferrari na próxima edição das 24 Horas de Le Mans. No blog do Mattar faltou só uma coisa - a foto do dr. Shepherd, aquele que enlouqueceu a chatinha Meredith Grey e que recebeu o apelido de McDream.



Não sei o que esperar de Patrick Dempsey como piloto mas, por seus atributos extra-pista, já ganhou minha torcida na mítica prova. Melhor só seria se, em vez dos companheiros apresentados na notícia (que, cá entre nós, devem ser os carregadores de piano do trio), entrasse o cirurgião plástico dr. Mark Sloan, ou melhor, Eric Dane, amigo do dr. Shepherd na trama. Ai, ai...

Sunday, March 29, 2009

Nada mudou?


Brawn GP, quem diria...

"Será?", perguntei há alguns dias aqui neste mesmo blog. A dúvida se desfez. Não era fantasioso o domínio da Brawn nos primeiros e únicos testes de que participou, pouco antes do início da temporada.

Terminei a transmissão, na Bandeirantes/Band News FM, com um discurso emocionado, saudando a nova era da Fórmula 1, a nova configuração técnica dos carros e, sobretudo, a decisão da corrida sendo definida pela ação (acertos e erros) dos pilotos e não por estratágias de pit stops.

Fui dormir às 6h30 da manhã e acordei do sonho com um gostinho de ressaca na boca.

A duas voltas do final, uma luta suicida entre Robert Kubica e Sebastian Vettel deixou ambos fora da corrida. No ato, na rádio, alguns colegas contestaram a manobra, adivinhando eventual punição a Vettel. No ato, eu disse que seria absurdo punir quem quer que fosse ali. Eram dois pilotos testando limites - seus e dos carros. Acidente de corrida, na minha opinião. Inerente ao esporte, pois.



Pois puniram Vettel. O alemão encara o grid da Malásia já perdendo dez posições. A nova era da Fórmula 1 mantém idiossincrasias detestáveis do passado.

O esporte anda estranho, ultimamente. Para mim, esse tipo de julgamento é primo-irmão da condenação que alguns fazem de artilheiros habilidosos, que driblam zagueiros-joões sem piedade. Associam esse talento a humilhação. O que essa gente faria se visse o mítico duelo entre Arnoux e Villeneuve em Dijon-Prenois/1979? Do que essa gente chamaria Garrincha, ao vê-lo parafusar algum joão na lateral?

Friday, March 27, 2009

Pelados em Melbourne


E, enfim, começou. O 60º Campeonato Mundial de Fórmula 1 deu as caras, instalando nova ordem, invertendo papéis, tornando grandes os pequenos, jogando para o fim do pelotão alguns medalhões. Eu mesma, que procuro ser receptiva a mudanças, ainda estou estranhando o visual dos carros, com aquele aerofólio dianteiro tipo colheitadeira, aquela asa traseira diminuta. Pela primeira vez, olho para os carros e me parecem saídos de outra categoria, não de Fórmula 1. Mas, como sempre, vamos nos acostumar a eles.

Os dois primeiros treinos livres foram acachapantes, consagrando a Williams de Nico Rosberg. Sobretudo, consagrando a turma com difusor. Isso ainda vai dar muito o que falar, esperem. Treino livre não serve para nada? As grandes estão escondendo o jogo? Não acredito. Acredito que as grandes - Ferrari, McLaren, BMW, Renault - contam com mais recursos para desenvolver seus carros ao longo da temporada, podem evoluir mais que as pequenas e médias. Mas, por enquanto, o que se tem é um grupo de equipes que sacou esse difusor das entrelinhas do regulamento e está se dando muito bem. Se esses carros têm confiabilidade para aguentar as 60, 70 voltas de uma corrida, o tempor dirá.



Dois grandes destaques dos primeiros treinos em Melbourne - Williams e Brawn: os carros mais pelados do grid. A confirmar os bons resultados, isso deve mudar em breve. Não faltarão marcas interessadas em estampar seus logotipos em carros vencedores. A primeira visão deles, tão clean, foi um contraste interessante.

Em tempo: respondendo a alguns leitores, parentes, amigos e conhecidos. Sim, estarei nas transmissões da Bandeirantes AM/ Band News FM neste ano, ao lado dos bambas Odinei Edson, Luis Fernando Ramos (nosso repórter nas corridas), Fábio Seixas, Jan Balder e Cacá Bueno. Quem quiser sintonizar, anote: a Bandeirantes AM fica nos 840 kHz ou no FM 90,9 mHz. A Band News FM está no 96,9 mHz. Para quem está fora de São Paulo, é fácil sintonizar pelos sites de ambas as rádios. A transmissão do GP da Austrália deve começar às 2h20 do próximo domingo. Ouçam lá e depois comentem!

Thursday, March 26, 2009

Velha roupa prateada



"No presente, a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais."

Os versos de Belchior, em "Velha roupa colorida", na voz de Elis Regina, ecoaram na minha cabeça quando li as declarações de Lewis Hamilton feitas nesta quinta-feira, na Austrália. O atual campeão deu nota 4 para o MP4-24, modelo da McLaren para o Campeonato Mundial de Fórmula 1 que começa amanhã (hoje à noite, no horário de Brasília), em Melbourne.

Hamilton fez coro às palavras do chefão da Mercedes, Norbert Haug, que vislumbra a McLaren do meio do pelotão para trás. Os tempos obtidos por Hamilton e Heikki Kovalainen nos testes de inverno sinalizam a ruindade do carro. Nota quatro é nota vermelha, abaixo da média, não dá para passar. Hamilton, Haug e o time encostaram na parede e deram o alerta. "Estamos lascados!"

O atual campeão arriscou uma justificativa. A McLaren perdeu muito tempo, em 2008, trabalhando no carro que o levaria a seu primeiro título. Justificativa aceitável. (Embora não faltem sorrisos maliciosos e tiradas sarcásticas, reputando o desacerto do carro deste ano, totalmente novo, à falta das "dicas" escorregadas pelo ex-engenheiro da Ferrari, Nigel Stepney, pivô do caso de espionagem de 2007).

Enquanto a McLaren malhava no carro de 2008, a Honda entregava o campeonato para Deus e focava no modelo de 2009, baseado no novo e altamente modificado regulamento técnico. Ao que parece, o carro da ex-Honda, agora Brawn, nasceu bom, e assombrou o mundo. E o carro da McLaren é um pau torto, que deve morrer torto depois de consumir muita grana dos alemães. Porém...

Até agora, todo mundo correu contra um único adversário - o cronômetro, nos testes de inverno. Não que seja de se jogar fora. Afinal, a brincadeira de mostra-esconde nesse tipo de teste, dos anos anteriores, não faz muito sentido neste ano. Não haverá testes ao longo da temporada, portanto, a oportunidade ali era valiosa. Não tem muita lógica ir tão mal numa ocasião como aquela, para esconder o jogo. De qualquer maneira, a McLaren pode se locupletar do uso do KERS (desde que ele funcione bem, desde que ela consiga compensar o peso da geringonça), equipamento que a Brawn não terá tão cedo. Isso pode fazer alguma diferença?

Durante uma corrida, é provável que sim. Ao acionar o KERS, o piloto ganha velocidade. É como se o carro de Fórmula 1 tivesse sido "tunado", ganhando uma espécie de boost, como um turbo acionado ao comando do piloto. É uma baita novidade na Fórmula 1, embora o princípio seja comum no universo dos transportes (vou escrever mais sobre isso futuramente). E ninguém sabe direito como vai funcionar. De qualquer forma, a McLaren vai usar, e a Brawn não. Mas, ainda na bruma de incerteza que cerca o pré-GP da Austrália, não consigo imaginar que a McLaren vai salvar seu ano com o KERS nem que a Brawn vai perder o seu, sem o difusor da discórdia, caso seja considerado ilegal.

Pouco mais de doze horas nos separam do início do Mundial! Que venha o 60º Campeonato de Fórmula 1!

Wednesday, March 25, 2009

Será?


Amanhã à noite, horário de Brasília, os carros finalmente entrarão na pista de Melbourne para os primeiros treinos livres do Campeonato de Fórmula 1 deste ano.

Será que a até então improvável Brawn é mesmo favorita? Será que Barrichello, faltando um minuto para a meia-noite, viu sua abóbora transformar-se em carruagem?

Será que a McLaren de Hamilton está essa draga toda?

Será que os difusores da Brawn, da Williams e da Toyota serão considerador ilegais? Sobre isso, leia o ótimo post do meu brother Luis Fernando Ramos, o Ico, que já está lá na terra dos cangurus.

O que você acha sobre essas questões todas? Vamos, dê seu palpite. Prometo dar o meu antes que os motores comecem a roncar.

Monday, March 23, 2009

Haja fôlego...


Fui passar o final de semana na praia, no Guarujá (putz, agora o blog ficou parecendo redação de escola, ou melhor, "composição", como se dizia no meu tempo). Estimulada pelo fato de que este era o último final de semana antes do início da Fórmula 1 - e meio por birra, para desafiar a chegada do outono - desci a serra na manhã de sábado.

Céu nublado, chuvinha intermitente. Não daria aquela praia com p maiúsculo, mas há mais o que fazer na orla além de ficar quarando no sol. Enquanto os rapazes ficaram cavando buracos na areia, resolvi fazer um percurso que ouvi outro dia, no ótimo programa Fôlego, da Rádio Bandeirantes, dedicado à corrida de rua apresentado pelo Ricardo Capriotti e pelo Sergio Patrick, todo domingo, às 8h30.

Em janeiro, o programa foi apresentado justamente de lá, do Guarujá, e foi entrevistado um corredor de rua da cidade. Em dado momento, o rapaz mencionou o trecho Astúrias-Enseada e, não sei se fizeram alguma confusão ou se eu que ouvi mal, o fato é que fiquei com a idéia de que o percurso, ida e volta, daria 10 km. Beleza, é com esse que eu vou (clique no mapa para ampliar), pensei na tarde de sábado, e saí das Astúrias em direção a Pitangueiras, passando pelo Morro do Maluf e alcançando a longuíssima Enseada.

Comecei a perceber que algo estava errado quando já tinha uns vinte minutos de corrida, a avenida estava no número mil e poucos e ainda faltava um bocado de orla para acabar. Eu não estava em ritmo ofegante, mas estava bem forte, o que me permitiria fazer os 10 km em, digamos, 52/53 minutos. Olhava para a frente e via um pedação de terra ainda, e já tinha passado dos trinta minutos. Fui em direção ao Morro das Tartarugas e o alcancei quando o relógio marcava 47 minutos. "Nem a pau que isso aqui tem 5 km!" Dei uma paradinha de um minuto e meio e voltei, fazendo a segunda perna em 43 minutos (para aumentar o ritmo, comecei a fazer uns tiros de 200 metros, aproximadamente, a cada quilômetro). Cheguei de volta às Astúrias em 1h30. Definitivamente, o trajeto tinha mais de 10 km.



À noite, saímos de carro e resolvi medir o trajeto, já que é possível fazer, de carro, exatamente o percurso de ida. Sabe quanto, Capriotti? Sabe quanto, Patrick? 8,5 km cada perna! Portanto, minha tarde de sábado foi coroada com um excelente treino de 17 km. Recomendo a todos os corredores da Baixada ou de folga no Guarujá. Além do visual ser perfeito, a praia da Enseada tem um calçadão largo, ao lado de uma ciclovia, o que torna o lugar ainda mais agradável de correr.

Friday, March 20, 2009

Dias lindos é o c...


Falta menos de meia hora para terminar o verão.

O outono chega hoje, dia 20 de março, às 8h44, segundo disse o meteorologista pelo rádio, agora cedo. E, com o outono, chega aquele ventinho gelado no final da tarde, chega o tempo das folhas caídas e daquele sol no horizonte, que torna impossível dirigir em determinadas horas do dia, sem um bom par de óculos escuros.

E chega o tempo de trombar - aqui e ali - com referências tantas à crônica de Carlos Drummond de Andrade, que dá nome a um de seus livros: "Os dias lindos". Nessa crônica, Drummond fala justamente dos dias de abril, louvando sua beleza.

Quem lê esse blog há mais tempo sabe o quanto gosto de Drummond. Mas, sinto muito, querido poeta, não cerro fileiras ao seu lado, na louvação ao outono.

O outono, para mim, é um inverno sem coragem, uma fase de transição que não se decide em ser quente ou ser fria. Um meio termo bem pior que a Primavera, posto que esta prenuncia o verão.

O outono é o começo da hibernação, prenúncio de dias acanhados, encolhidos. O outono é a natureza nos dizendo "recolham-se, fechem-se, protejam-se, aí vem o pior". Não me agrada o recolhimento, a hibernação - gosto de janelas abertas, de sol, de calor, do horário de verão, dos dias que demoram a terminar.

Já são quase 8h44, o horário marcado para o distinto chegar. Chegue, pois. Eu talvez até releia a crônica de Drummond, não sem esperar pela boa nova, trazida nos versos de Ronaldo Bastos, na parceria com Beto Guedes:

"Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez...

Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar...

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer...

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender."

(Sol de Primavera, Beto Guedes e Ronaldo Bastos)

Wednesday, March 18, 2009

Ronaldo by Mauricio de Sousa



Adorei a homenagem que o Mauricio de Sousa fez ao Ronaldo. O desenho foi entregue ao Fenômeno ontem, no Parque São Jorge. Mauricio já eternizou outros jogadores, transformando-os em personagens, como Pelezinho e Ronaldinho Gaúcho.

Mas, é impressão minha ou o desenhista foi pra lá de econômico ao desenhar os dentes do Fenômeno? Ele é mais dentuço que isso, não é? Mônica, aquela chatinha autoritária, tem dentes maiores que os desse desenho, não tem?



Crédito da foto - Divulgação Corinthians

Tuesday, March 17, 2009

Losers



"O segundo colocado é o primeiro entre os perdedores."
Ayrton Senna






"Um vencedor, dois perdedores."
Relâmpago McQueen



Hoje, o Conselho Mundial da FIA tornou o número de vitórias o critério determinante para definir o campeão da temporada. Será campeão quem ganhar mais provas, não quem somar mais pontos. Ou seja, tornaram regra o que, até agora, era frase de efeito.

E se alguém desembestar a ganhar corridas logo no começo da temporada, como Schumacher fez em 2004 (venceu oito das nove primeiras)? O campeonato termina em julho.

Que beleza...

Top 5

No post "Vamos falar de homens (com todo o respeito)", mencionei que o francês Sebastien Loeb entraria fácil na lista dos meus cinco pilotos preferidos de todos os tempos. Falando em termos de atributos bem além da pilotagem, naturalmente. Os cinco abaixo listados não são todos pilotos geniais, mas não tenho culpa se, na discussão sobre o melhor piloto de todos os tempos, o item beleza passaria longe de totens do automobilismo, como Senna, Schumacher, Fangio, Prost ou Nuvolari.

Uma observação que, de certa forma, me causa alguma vergonha: os lindinhos aí de baixo são todos moldados praticamente na mesma forma - europeus, peles claras, olhos idem (quase todos). Eu adoraria apresentar uma lista mais miscigenada e politicamente correta. Fosse um rol de jogadores de futebol, seria fácil. De novo, a culpa não é minha: a Fórmula 1, esse funil estreito, é de fato a maior vitrine da elite branca mundial, para usar uma expressão que ele tanto usa.

Enquanto a Fórmula 1 não começa para valer e ficam todos aí teorizando (iludindo-se?)sobre os tempos da Brawn GP, com licença. Prefiro louvar a beleza do passado e do presente a me apegar a essa promessa de futuro.

Com vocês, os pilotos mais bonitos de todos os tempos:

François Cevert - o grande galã dos anos 1970. Com uma vitória apenas na Fórmula 1, morreu aos 29 anos, nos treinos para o GP dos Estados Unidos de 1973, em Watkins Glen, a mesma pista que assistiu sua única vitória. Morte trágica, horripilante: seu Tyrrell capotou e ele acabou degolado pelo guard-rail.




Alessandro Nannini - meu símbolo sexual na juventude. Outro que só tem uma vitória na Fórmula 1, justamente uma corrida cujo resultado eu detestei: GP do Japão de 1989, com a desclassificação de Ayrton Senna. Em 1990, sofreu um acidente de helicóptero e teve o braço direito decepado, depois reimplantado.


(que horror: um perde a cabeça, o outro perde o braço - qual será meu critério para eleger homens bonitos?)


Jenson Button - mais um que só tem uma vitória na Fórmula 1 (Hungria, 2006, a única vitória da equipe Honda). Button surgiu na Fórmula 1 em 2000 e foi logo alçado à condição de sensação pela imprensa inglesa. Escolhas erradas detonaram sua carreira (é, Jenson, nem todo mundo tem chance de consertar a própria vida...).


Fernando Alonso - caso raro de "beauty and brains". Beleza, cérebro, braço, talento, personalidade. Com dois títulos e 21 vitórias, é o maior vencedor da atualidade. Planeja ficar Fórmula 1 por pelo menos mais dez anos (palavras dele), o que pode contribuir para que suas estatísticas cresçam ainda mais.


Sebastien Loeb - o único piloto de fora da Fórmula 1. No último domingo, alcançou sua 50ª vitória no Mundial de Rali, ao vencer a etapa do Chipre. Pentacampeão, sempre pela Citroën, o francês de 34 anos é considerado o Schumacher do WRC, com a vantagem de ser incomparavelmente mais bonito.

Friday, March 13, 2009

Escolha feita



Meu coração está em paz. Das bobagens que já fiz na vida (atire a primeira pedra quem não fez as suas também), talvez a mais pública e notória tenha sido minha aposentadoria. Em 13 de outubro de 2007, neste mesmo blog, anunciei que estava me aposentando do "cargo" de corintiana. Eram trinta anos de serviços prestados, o Corinthians só dava vexame, dentro e fora do campo, eu me sentia tendo doado muito mais do que recebido, pedi as contas, peguei o boné, fui.

É claro que não me tornei indiferente a ele de uma hora para outra. Mas efetivamente mudei minha atitude em relação ao Timão. Já não deixava de sair para ficar em casa assistindo aos jogos televisionados, sofria muito menos (até em situações como a perda da Copa do Brasil, na final contra o Sport) e chegava até a zapear por outros canais nos eventuais jogos que vi. Saiba, leitor querido: para quem me conheceu roendo as unhas em frente à TV, essa mudança de comportamento teve o valor de uma revolução.

Mas aí veio 2009, título na Copa São Paulo. Meu coração começou a se reaquecer por aquele que, afinal, nunca deixou de ser um grande amor. Passei a me lembrar, cada vez mais, de tantos bons momentos vividos. Sofremos? Claro, isso é normal em uma relação de longo termo, que atravessa crises. Mas o amor se manteve e o saldo - e isso foi se tornando evidente - era amplamente positivo.

Como esquecer tantas conquistas? O bi-Paulista, em 1982/1983, o primeiro Brasileiro, em 1990, o inesquecível ano de 1995, com a primeira Copa do Brasil e a vitória sobre o Palmeiras, na final do Paulista, o bi-Brasileiro, em 1998/1999 e, torçam o nariz se quiserem, como esquecer aquele janeiro de 2000, que nos brindou com o título do primeiro Mundial Interclubes organizado pela Fifa?

Aquele janeiro de 2000 no qual eu trazia no ventre um futuro corintiano. Pelo menos, era isso que eu pensava, ou ardentemente desejava. A tarefa me parecia fácil. Meu marido - do alto de sua generosidade (ou devo dizer: de sua indiferença por futebol?) - não ofereceria resistência. O Corinthians vinha de conquistas vultosas naqueles meses. E, last but not least, o obstetra que me acompanhou durante todo o pré-natal e que fez o parto é um corintiano daqueles de dar orgulho em Vicente Matheus e Elisa juntos. Sendo o primeiro ser humano a tocar no rebento, o faria como se ungisse a criança com os óleos sagrados do corintianismo.

Mas a vida às vezes nos confunde. O ritual de 2000 foi se desvanecendo em uma bruma tricolor que tomou conta da geração século 21. Quando meu filho começou a se interessar, ainda que levemente, por futebol, o São Paulo bombava. Ajudava, no pendor para tal time, a influência da tia adorada. Resultado: ao ser perguntado sobre o time do coração, o pequeno começou a se definir como são-paulino. Apertou meu coração mas, estando eu mesma afastada do grande amor, achei até natural. Como um castigo pela minha negligência, por ter deixado minha família alvi-negra às portas da desintegração (afinal, mesmo desligado de futebol, meu marido não deixa de ser alvi-negro, pelas raízes santistas de quem nasceu na terra que consagrou Pelé).

Mas veio 2009. Veio o nove. Veio 8 de março e aquele gol aos 47 minutos do segundo tempo, contra o Palmeiras. Um gol de empate, um gol redentor, um gol que fez a família (avó, tios, primos), reunida em um churrasco, vibrar em uníssono. Um gol que fez o pequeno ex-são paulino pular e gritar e bradar o nome de Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo.

No dia seguinte, volta da escola regozijando-se do feito. Do gol de Ronaldo e da oportunidade de congratular-se com colegas e com os dois professores de Educação Física - "corintianos como eu, mamãe". Parece, pela primeira vez em seus quase nove anos de vida, interessado em ir ao campo. Na quinta-feira, após a vitória de virada sobre o São Caetano, gol de Ronaldo, não via a hora de chegar à escola e perguntar ao novo amigo ("corintiano como eu"), como tinha sido a experiência de ver in loco a estréia do camisa nove no Pacaembu. E me pede, com sinceridade no olhar, para eu lhe comprar uma camiseta, com os dizeres: Eu nunca vou te abandonar... Por que eu te amo!

(crédito da foto: Cesar Greco /FOTOARENA / Parceiro / Agência O Globo)

Wednesday, March 11, 2009

Pra inglês ver?


Slavica Ecclestone, já agora ex-esposa de Bernie, teve aceito seu pedido de divórcio. Alegou "mau comportamento" do bofe (teria sido pior que o de seu colega Max Mosley?), e que tal comportamento a submeteu a "estresse e ansiedade".

Ele, 78. Ela, 50.

Um jovem interlocutor meu arriscou: o problema dele é ser velho e rico. No divórcio, ela tiraria dele a única coisa que ele ainda pode lhe dar - dinheiro.

Meu palpite: fachada. No início da crise financeira, ventilou-se a informação de que Bernie estaria perdendo muito dinheiro com suas aplicações. Já cansei de ver casal classe média que se separa diante da bancarrota. O marido passa os bens para o nome da mulher, que vira ex, e assim se salva o apartamento, o sítio, o Astra e o Corolla. Por que não usar o mesmo expediente quando o que se tem a perder é muito, mas muito mais?

Vamos falar de homens (com todo o respeito)



São Paulo, manhã de terça-feira nublada, porém abafada, sigo para o sofisticadíssimo Shopping Cidade Jardim, para a coletiva de imprensa da Citroën. A marca está entre os clientes que atendo junto com meu marido, e é sempre um prazer participar de seus eventos, por várias razões. As pessoas com que trabalhamos lá são ótimas - Carlos Costa, meu antigo chefe na Ford, Rogério Franco, Danielle Amadio, Fabiano. Os eventos são sempre bem organizados e divertidos, tenho a oportunidade de reencontrar colegas jornalistas com quem trabalhei em períodos anteriores e, um bônus, nessas ocasiões posso ouvir um pouco de francês e tentar desenferrujar o idioma.

A programação de ontem tinha múltiplos propósitos: apresentar a nova identidade visual da Citröen (ah, que gostoso! em francês, não nos privam do trema), lançar para a imprensa o novo e belíssimo C4 hatch e apresentar o novo presidente da companhia no Brasil. O evento aconteceu no cinema do shopping, e tinha razão para que fosse assim. A pièce de résistance da programação foi a exibição de um curta metragem, feito na França, sobre a nova identidade da Citroën. Um filminho nos moldes do seriado CSI, sobre o fictício roubo de um exemplar do DS Inside, carro conceito da Citroen.

Well, well, well...




No escurinho do cinema, sentada ao lado do meu marido, busquei nele mesmo a inspiração para este post. Eis que, em determinado trecho do filme, surge um dos maiores pilotos de rali de todos os tempos, o pentacampeão Sebastien Loeb, que corre pela Citroën no Mundial de Rali. Na hora, lembrei da série "Vamos falar de mulheres (com todo o respeito)", um dos destaques do blog PandiniGP. Nomes como Penélope Cruz, Patricia Pillar, Paula Toller e outras zinhas já foram destacadas lá. Pois aqui vai minha resposta.

Que Raikkonen, que Button, que Nico Rosberg, o quê!

Na minha opinião, Sebastien Loeb é o piloto mais bonito da atualidade, e entraria fácil na lista dos cinco mais bonitos de todos os tempos.

Manifestem-se vocês (de todos os sexos), sem preconceito.

Thursday, February 26, 2009

BBB



Então, é isso.

A Honda vem a público no final do ano para dizer que está fora. O presidente chora, alguns lamentam, outros dizem "bem que eu avisei", as especulações crescem, e aumentam, e levam a cenários diversos, alguns absurdos, alguns impossíveis, a maioria, risível.

Eis que, pouco mais de um mês antes do início do Mundial de Fórmula 1, uma das hipóteses ganha corpo - a do management buyout - e crescem as evidências de que Ross Brawn continuará chefiando a equipe. Tendo como pilotos... Jenson Button e Rubens Barrichello. Brawn, Button, Barrichello. Também nós, na F1, temos nosso BBB. Um quarto B poderia ter entrado na história. Mas parece que Bruno, o Senna, vai dançar. (Para um estreante, começar pela Honda de 2009 seria a sorte grande - quem poderia culpar o jovem piloto por eventuais fracassos com um carro que, se existe, ainda não foi para a pista uma única vez?)

Que neste instante, todos os editores, de todos os veículos de comunicação dedicados ao automobilismo, no mundo, unam-se em prece de agradecimento à montadora japonesa, repetindo:

"Obrigada, Honda, por alimentar nossos noticiários por todos esses meses."

Friday, February 20, 2009

Última volta

Aceitei o convite do colega Marcio Madeira da Cunha, que está reunindo relatos sobre todas as vitórias brasileiras na Fórmula 1 em seu site, o Última Volta. Coube-me escrever sobre o GP do Brasil de 1991, o primeiro a que assisti ao vivo, em Interlagos. Para ler meu testemunho, clique aqui. Parafraseando Flavio Gomes, leiam lá, comentem aqui.

Monday, February 16, 2009

Desaniversários

Nas últimas semanas, deixei escapar duas comemorações aqui do blog. A primeira foi no dia 29 de janeiro, quando este democrático espaço completou três anos. Foi no comecinho de 2006 que, instigada pelo meu padrinho blogueiro Pedro Alexandre Sanches, inaugurei este blog, com o post "A parábola do tremoço". Esqueci completamente de registrar a data, que mancada...

A outra não foi exatamente um esquecimento, mas falta de tempo mesmo. No último dia 12, esta blogueira chegou à última etapa antes dos "enta". Aproveito este post para agradecer a todos que telefonaram, chamaram pelo messenger, mandaram mensagens pelo orkut, enviaram e-mails. E aproveito, também, para conta um fato ocorrido na semana passada.




Academia, uma da tarde, TV ligada no Globo Esporte. Como era semana de clássico entre Corinthians e São Paulo, o programa exibiu trechos de jogos históricos entre os dois times. Sorte minha, pois naquele dia passavam lances da final do Campeonato Paulista de 1982. Fiquei lá, admirando aquele time da Democracia Corintiana, e fui me empolgando com os lances da partida, antecipando alguns deles, como o histórico gol do Biro Biro, impiedosamente imposto ao ótimo goleiro Valdir Perez com uma bola entre as pernas.

Eis que chega um dos professores da musculação, corintiano também, e começa a vibrar com os lances. "Nossa, esse jogo é histórico, um épico", e me juntei a ele, acrescentando mais detalhes daquele dia. Ao que ele se admira: "Nossa, que legal, você lembra desse jogo?" Se lembro, rapaz? Lembro do jogo e de tudo o que fiz naquele dia, como se fosse um filme visto ontem. Parei, olhei para o rapaz, que não é uma criança, nem um adolescente, mas um homem feito, e disparei à queima roupa: "Você não tinha nascido, né?". Não, não tinha...

Sunday, February 08, 2009

Será que ele é?


No post anterior, uma frase safada levantou a bola. Não é de hoje que o mundo da Fórmula 1 faz insinuações sobre a sexualidade do alemão Nico Rosberg. Na verdade, desde seus tempos de GP2, o lindo e loiro filho de Keke Rosberg é alvo de comentários sobre o tema. E, como costuma acontecer em ambientes predominantemente masculinos, a Fórmula 1 incluída, o tom quase sempre é de piada.

Há quase três anos, escrevi esta coluna sobre homossexualidade na Fórmula 1. Tirando a referência de que nunca havíamos tido um negro na categoria - Lewis Hamilton surgiu depois disso - o resto todo se mantém.

A Fórmula 1 é um ambiente machista, sectário, preconceituoso. Fosse um ambiente liberal, talvez já tivéssemos assistido a algumas saídas do armário nesses quase 60 anos de história. Porque - fala sério! - você não acredita que nunca, jamais, em tempo algum houve na Fórmula 1 algum piloto, projetista, chefe de equipe, mecânico gay, acredita?

Vi Nico Rosberg ao vivo nos dois últimos GPs do Brasil. O rapaz é muito bonito, magro e sarado. Na primeira vez que o vi, no lobby do Hotel Transamérica, me chamou a atenção seu modo de andar. Coluna ereta, ombros levemente arqueados para trás, passos rápidos e curtos. Recentemente, um colega definiu o caminhar de Nico como de alguém que "está andando sobre chão quente".



O leitor Claudio Ceregatti me pergunta se acho que Nico é gay. Jamais conversei com o piloto nem mantive contato com qualquer pessoa de seu convívio. Nunca li nenhuma declaração de Nico sobre o tema, por isso qualquer opinião minha a esse respeito seria baseada na observação de seu "jeito". Pesquisando na internet, descubro que Nico tem uma namorada chamada Vivian Sibold, alemã como ele (ou teve, já que a notícia é de 2006).

Ora, há quem tenha "jeito" de gay e não é gay. Por outro lado, há muita gente dentro do armário, que não tem gestos efeminados, e é homossexual. Definir pelo "jeito" é muito simplismo.

O que continua me incomodando nesse tipo de discussão é justamente a falta de espaço que o ambiente da Fórmula 1 - e dos esportes, em geral - oferece ao tema. Como eu disse na coluna, de quase três anos atrás, a gente não se choca ao ver um artista ou um estilista gay assumido, mas ainda se escandaliza quando os estereótipos do esportista (virilidade, coragem) chocam-se com os da homossexualidade.

Se Nico Rosberg é gay, onde estaria o maior problema: na eventual inclinação sexual dele ou na falta de ambiente da Fórmula 1 para se assumir como tal?

Thursday, February 05, 2009

O menor piloto de todos os tempos


Começo pedindo desculpas pela longa ausência. Não sei de onde tiraram a idéia de que o ano só começa depois do Carnaval, pois o meu começou quente. Estou trabalhando como um cortador de cana em plena safra, de sol a sol, mas não reclamo. Costumo dizer que, por trabalhar por conta própria, sou como um táxi - só ganho se estiver ocupada.

Também devo confessar certo desânimo em entrar nessas discussões de pré-temporada na Fórmula 1. Considero isso: a) inútil - quase tudo o que se fala nessa época é pura especulação; b) repetitivo - são sempre os mesmos e óbvios prognósticos, ainda que muitas vezes nós, analistas, quebremos a cara com nossas previsões e raramente façamos mea culpa depois; c) chato - sobretudo chato, já que ficamos parecendo um bando de fofoqueiros.

Leio notícia sobre os testes de inverno e sobre certo desânimo apontado por Fernando Alonso com seu R29. O carro, que é mais feio que o Kubica e o Buemi juntos, pode mesmo ser uma cadeira elétrica, mas prefiro esperar o show começar para dar todo crédito ao espanhol. É que, com vinte e cinco anos de Fórmula 1 no currículo, vivi o bastante para desconfiar de tudo. As palavras de Alonso me cheiram a blefe, e já vi tantos blefes na Fórmula 1... Alonso mal tinha saído das fraldas e eu já cobria os blefes de Ayrton Senna. "Não vou correr pela McLaren neste ano", "Vou correr na Fórmula Indy", blá-blá-blá... O novo Renault pode mesmo ser uma cadeira elétrica - os choques causados pelo KERS reforçam tal inclinação - mas prefiro esperar.

Mas era sobre o KERS mesmo que eu queria falar. Tido como grande revolução tecnológica, o dispositivo que recupera a energia de frenagem para reacelerar o carro é algo já banalizado em alguns sistemas de transportes. Na Europa, várias linhas de trens utilizam soluções semelhantes. No Brasil, veja só, há até ônibus rodando por algumas cidades com uma chamada "célula de combustível", que executa um processo parecido, recuperando a energia gerada pelos freios para reacelerar o veículo. No mundo aqui fora, tais dispositivos servem para economizar combustível e, portanto, otimizar o custo do processo. Com o apelo ecológico bombando em todas as direções, é algo muito bem vindo. E a Fórmula 1 pegou carona, desenvolvendo seu próprio sistema.

As equipes ganharam mais esse quebra-cabeça para atazanar a vida de seus projetistas. Como o brinquedo pesa entre 25 e 40 kg, a relação de peso dos carros mudou. E como o piloto vai dentro do carro, sobrou para ele também. A moda entre a pilotada, agora, é brincar de faquir. Os rapazes, que já eram magros, estão ficando pele e osso. Durante o inverno europeu, Fernando Alonso perdeu 3,5 kg. Meteu-se até com ciclistas de seu país, subindo montanhas para fazer descer o ponteiro da balança. Nico Rosberg, que já era um pau de virar tripa, confessa que passou o Natal contando calorias (teria abdicado do peru?). Se os nanicos Felipe Massa, Nick Heidfeld e Heikki Kovalainen emagrecerem mais, correm o risco de serem levados pelo vento.

Nunca tive muita paciência para aquelas intermináveis discussões sobre "o maior piloto de todos os tempos". Schumacher, Senna, Fangio, Nuvolari, o lenhador austríaco, sei lá mais quem... Parece que a geração atual subverteu essa questão. Estão todos empenhados em ser o menor piloto de todos os tempos.

Sunday, January 25, 2009

A tua mais completa tradução?

Hoje é dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo. Se você mora na capital paulista ou acessa os meios de comunicação daqui, certamente já ouviu ou ouvirá "Sampa", de Caetano Veloso, diversas vezes ao longo do dia. "Sampa", que é um clássico extraordinário, música e letra, tem diversas referências a ícones paulistanos, não apenas a esquina famosa - "(...)quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João".



Cita os poetas do concretismo, os Demônios da Garoa, os Mutantes. E cita Rita Lee, definida como "a mais completa tradução" da megalópole.

A "homenagem" de Caetano também vai enfileirando aspectos desabonadores à cidade, na ótica do poeta:

"deselegância discreta de tuas meninas”

“chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”

“quem vem de outro sonho feliz de cidade
aprende depressa a chamar-te de realidade”

“povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas”

“feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”



Sempre que ouço essa música penso nisso: se eu fosse a Rita Lee, estaria longe de considerar a citação de Caetano homenagem, senão vejamos. Ele fala de deselegância, mau gosto, povo oprimido, feia fumaça... e diz que Rita Lee é a mais completa tradução de tudo isso.

Homenagem uma ova!

(455 anos - Parabéns, São Paulo!)

Thursday, January 22, 2009

Ode à chapinha



Minha querida Barbara Gancia escreveu, entre vários posts sobre a posse de Obama, um que me calou fundo. Chamou atenção para as madeixas da mulher e das filhas do novo presidente do mundo. A íntegra do texto está aqui.

Barbara é contra a chapinha. Pensei várias vezes antes de confrontá-la. Não se desafia Barbara Gancia impunemente, sob risco de uma esculhambada pública ou de um ataque de seu cão Pacheco Pafúncio. Mas, como ela me deve um picolé de limão até hoje, pois não me pagou a aposta pelo final do Campeonato de Fórmula 1 de 2007, perdi o temor reverencial.

Destaco uma das frases de Barbara: "Particularmente, não consigo entender quem tem o cabelo linda e poderosamente encaracolado ter vergonha do que Deus lhe deu."

Barbara, doce italiana de cabelo bom, ouça-me bem. Não é vergonha, querida, é uma amálgama de sentimentos.

É acordar pela manhã, olhar-se no espelho e ver que seu cabelo está no sétimo andar, ainda que você more no sexto.

É gastar uma fortuna em shampoo sem sal (cabelo tem pressão alta?), condicionador, creme para pentear, defrizante, pomada, silicone, um exército de cosméticos empenhado na luta de domar os cachos para, ao final do dia, perceber que a batalha foi miseravelmente perdida.

É enfiar o pente no cabelo, depois de lavá-lo, e correr o risco de não conseguir tirá-lo. Se a tarefa for desembaraçar o cabelo de uma criança, então, prepare-se para choros e ranger de dentes.

É produzir-se inteira, ficar nos trinques para uma reunião de trabalho, uma festa de gala ou cineminha à noite e saber que parte disso não resistirá a uma inocente garoa. Cachos e chuva são incompatíveis, caso você não saiba. O que era cacho vira uma esponja arrepiada e a Cinderela que saiu de casa volta bruxa, sem apelação.

É gastar vários minutos de seu dia domando aquelas feras que se precipitam para fora de sua cabeça, feito cobrinhas em cachola de medusa. É ver a abençoada de cabelo liso sair do chuveiro, chacoalhar as madeixas de forma humilhante e sair com os fios pingando, certa de que eles estarão na mesma posição, várias horas depois.

É ter a certeza de que cabelo crespo é como bandido: ou está preso ou está armado.

Barbara, querida, não julgue Michele, Malia, Sasha, eu e todas as ex-cativas.

Viva a chapinha!

Tuesday, January 20, 2009

Lovely Aretha



O pouco que vi da posse de Barack Obama foi pelos telejornais, à noite, e pela internet, quase em tempo real. Consegui ver pouco ao vivo, pela Globo, e me chamou a atenção a foto que a emissora escolheu para ilustrar o fato - o rosto de Obama, meio de lado, com a luz insidindo na cabeça. Parecia uma aureóla de anjo. E assim reforçam-se os mitos.

Lamentei, de fato, não ter visto a apresentação de Aretha Franklin na posse. A descomunal dama do rithm´n´blues cantou "America - My Country Tis of Thee". Em geral, acho essas apresentações solenes muito chatinhas. E cantoras de voz potente cantando hinos de forma meio desfigurada sempre me fazem lembrar da simpática Fafá de Belém. Mas a escolha de Aretha tem muito significado.

Aretha é, sem exagero, herdeira musical de minha "ídola" Dinah Washington. Consta que a consagrada Dinah, pouco antes de morrer, esteve em uma festa de noivado de Aretha, abençoando a jovem nubente e a voz da jovem nubente, elegendo-a como sucessora. (Essa história sempre me lembrou daquele mito sobre a morte de Cacilda Becker, morta em cena. Diz a lenda que a grande dama, ao ser carregada já desfalecida por entre a platéia, teria esbarrado sua mão em Marília Pera, como se a ungindo herdeira artística.)

Com ritual ou não, o negócio é que Aretha Franklin tornou-se uma das maiores cantoras norte-americanas e se mantém ativa há mais de quarenta anos. Sendo herdeira de Dinah, acaba sendo herdeira de Billie Holiday, que imortalizou a devastadora "Strange Fruit", um dos maiores libelos artísticos contra o racismo, cuja história completa está aqui. Nada mais significativo do que a voz de Aretha para embalar a posse do primeiro presidente negro dos EUA.

Quer ouvir um arrasa-quarteirão na voz de Aretha Franklin? Procure "Jumpin´Jack Flash", dos Stones, com participação especial dela. Se você não sair dançando depois disso, bom sujeito você não é...

Monday, January 19, 2009

27 anos sem ela



Elis Regina, 27/03/1945 - 19/01/1982

Nova esperança bate coração
Renascer cada dia como a luz da manhã
Despertar sem medo, enganar a dor
Disfarçar essa mágoa que anda solta no ar

Ter que acreditar no regresso da estação
Como o sol volta a brilhar, como as chuvas de verão
Ter que acreditar só pra ter razão
De sonhar mais uma vez

Nova esperança bate coração
Renascer cada dia como a luz da manhã
Semear a terra certo de colher
Da semente o fruto depois descansar

(Nova Estação, Luiz Guedes/ Thomas Roth)

Tuesday, January 13, 2009

Por toda a minha vida (Exaltação ao amor)


Um dos hits das minhas curtas férias foi o CD "Roberto Carlos e Caetano Veloso e a música de Tom Jobim". O CD nasceu dos espetáculos feitos pelos dois em 2008, como parte da celebração pelos 50 anos da Bossa Nova.

Cheio de clássicos, tem quatro músicas cantadas pelos dois. A melhor, na minha opinião, é "Wave". E tem essa apaixonada "Por toda a minha vida (Exaltação ao amor)", lindamente cantada por Caetano Veloso.

Letras de Vinícius de Moraes já são um clássico deste blog, e sigo achando uma enorme covardia alinhar Vinícius a outros letristas da música brasileira. Vinícius era um poeta fazendo letras de música, o que já lhe dá vários corpos de vantagem sobre todos os outros.

Ao ouvir Caetano, que aos 66 anos de idade parece cantar ainda melhor que na juventude, é natural lembrar da interpretação de Elis Regina para a mesma música, do mítico "Elis & Tom", de 1974. Ambos cantam como se fossem o noivo ou a noiva, exaltando o ser amado ao pé do altar. Um dado interessante é que a letra, com pequeníssimas adaptações, pode revelar o eu-poético feminino e o masculino.



Elis cantou assim:

Oh! meu bem-amado
Quero fazer de um juramento uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente tua e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou ninguém

Oh! meu bem amado, estrela pura aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh! meu amor

Caetano, assim:

Minha bem-amada
Quero fazer de um juramento uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente teu e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou, ninguém

Minha bem-amada
Estrela pura aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh, meu amor

Vinícius, seu bandido: por sua causa, e de gente como Drummond, é que desisti de ser poeta. Vocês escreveram em verso tudo o que eu gostaria de ter escrito.

Monday, January 12, 2009

Puto maravilha


Calma, minha gente, não é nada do que vocês podem estar pensando...

Não voltei das férias mais boca suja do que antes. O "puto", do título, é apenas a maneira lusitana pela qual nossos colegas d´além mar se referem a menino, rapazote. Meus leitores portugueses podem confirmar (alô, Speeder; alô, Flavia!).

O admirável Cristiano Ronaldo foi eleito hoje o melhor jogador de futebol de 2008, pela Fifa. Recebeu o troféu das mãos de Pelé. É certo que muita gente acha o português mais marketing do que bola. Também é certo que ele nunca foi, por Portugal, tudo o que foi para o Manchester United. É certo, também, que ele é mais habilidoso individualmente do que coletivamente.

Mas como é bonito vê-lo com a bola aos pés... Em muitos sentidos!

O título deste post é referência a uma reportagem que meu filho viu em um blog há alguns meses, e que o fez dar muitas risadas, justamente por não entender a utilização do "puto". Referia-se à vitória de Sebastian Vettel no GP da Itália e o apresentava exatamente assim - Puto maravilha.

Se há contestações sobre o título dado hoje à Cristiano Ronaldo, toda a polêmica se cala diante de Marta. Três vezes eleita a melhor do mundo, a brasileira deve ser uma unanimidade até se aposentar. Não é demais dizer que Marta é o Pelé do futebol feminino. Que orgulho, Marta! Que inveja de você nessa foto, Marta...

Thursday, January 01, 2009

São Silvestre

Quando nasce o primeiro filho, você acorda várias vezes à noite para ver se ele está respirando.

Quando nasce o segundo, você acorda se ele chora.

Quando nasce o terceiro, você nem acorda mais.

Tive apenas um filho, mas já corri três São Silvestres, e acho que esse sentido de normalidade, de rotina, acaba se acomodando nesse tipo de situação também.

Não fica mais fácil, nem menos divertido, nem menos marcante ou emocionante. Mas não há o frisson do novo, a sensação de se fazer algo inédito. Mas, que diabos, é a São Silvestre, éramos mais de vinte mil ali, tudo bem, mas não é todo mundo que corre quinze quilômetros em um percurso difícil como aquele. Vale o registro detalhado?

Digam vocês.



Como na primeira vez, em 2006, fui para a região da Paulista escutando o CD "Technicolor", dos Mutantes. Naquela ocasião, ele era novinho, um dos presentes de Natal daquele ano, e eu estava ouvindo muito Mutantes na época. Adotei-o como tradição da prova e mandei ver este ano também. Escutei a faixa título, depois "Virginia", depois "She´s my shoo-shoo", versão para o inglês de "A minha menina", do então Jorge Ben. Tirei o CD para colocar uma coletânea do U2, com a intenção de ouvir "Beautiful Day", um hit atual dos meus caminhos por São Paulo, mas reconheci a voz do Ricardo Capriotti no rádio. Acabei desistindo do CD.

Capriotti, apresentador da Bandeirantes, é um entusiasta das corridas e lançou, neste ano, um programa chamado "Fôlego", dedicado à modalidade. Fez mais: facilitou um programa de treinamento para um grupo de ouvintes, que partiram do zero e, em cem dias, alcançaram condicionamento para correr a São Silvestre. Tenho acompanhado as notícias do grupo nesses últimos meses e acabei estacionando o dial na Band, até chegar ao estacionamento.

Lá, outro ritual. Deixei o carro na garagem do meu escritório e subi a pé para a Paulista. Seguindo pelas ruas, "fantasiada" de corredora, ouvi os habituais cumprimentos e desejos de boa sorte de alguns transeuntes. Corro o ano inteiro e eventualmente ando pelas ruas antes de chegar à largada, mas só escuto esse tipo de manifestação na São Silvestre, o que explica o apreço de quem corre essa prova por esses pequenos detalhes.

Chegando à Brigadeiro Luís Antônio, surpresa! Não era possível cruzar a avenida em direção à rua São Carlos do Pinhal, onde os integrantes da Equipe Conexão haviam marcado seu ponto de encontro. Perguntei ao guarda como eu deveria fazer para cruzar e ele reagiu como se eu tivesse feito a pergunta em linguagem de sinais no idioma sânscrito. "Ah, isso eu não sei!". Continuei andando pela Brigadeiro, ao lado de corredores tão desnorteados quanto eu e pedestres revoltados pela interdição. Na esquina com a Paulista, encontrei meu amigo Henry, um dos membros da turma, e seguimos pela grande avenida em busca de uma passagem.

Perto da Alameda Campinas, vimos uma ambulância se preparando para passar para o outro lado. Henry, que entre nós é chamado de "o bonzinho", para diferenciá-lo do outro Henry da turma (pensem o que quiser...), sugeriu que aproveitássemos o vácuo da viatura para burlar a interdição. Eu estava embarcando na contravenção do colega quando notei que ali, bem ao lado, havia uma passagem para pedestres, livre e desimpedida. Ponderei que não gostava da idéia de frustrar nossa malandragem, mas que poderíamos guardar nossa cota de rebeldia para outra ocasião.

Alcançamos o ponto de encontro, em frente ao outrora sofisticado Hotel Maksoud Plaza, e já avistamos o Ammar. Pouco depois, chegaram o Fábio, a Pati e seu namorado Rafael. Ficamos alguns minutos conversando e alongando, quando ganhamos a companhia de um rapaz que chegou meio trôpego, meio lânguido, muito bêbado. Pediu-nos dinheiro, e argumentamos que, ali, ninguém tinha dinheiro, nem nada nos bolsos. O distinto se pôs a nos censurar. "Como assim? Não tem nem um documento no bolso? Quer dizer que se vocês forem para um hospital, serão internados como indigentes?" E desandou a falar um discurso naturalmente desconexo. Do outro lado da rua, avistei o amigo Nilton chegando e fiz sinal para que ele não atravessasse, que nos esperasse lá. Em princípio, Nilton não entendeu a súbita saudade que se abateu sobre todos, indo o grupo inteiro em sua direção. Informado sobre a desagradável companhia, o bom palmeirense compreendeu nossos motivos. "Se os bêbados soubessem como são chatos, não beberiam", sentenciou Ammar.

Depois, ainda chegaram a Alexandra e o Zoca, e fomos para a Paulista, pouco depois das 16h30. A largada seria às 16h50, mas a avenida já estava tomada pelos atletas. Nem cogitamos ir mais para a frente, ficando no quarteirão entre a Rua Pamplona e a Alameda Campinas. Nos vinte minutos que esperamos, a aglomeração aumentou ainda mais. "O que mata nessa hora é esse cheiro de humanidade", lembrou Zoca. Já escrevi neste blog: uma das piores coisas nas corridas é a profusão de cheiros. Além do dito cheiro de corpo, misturam-se odores como desodorante e pomadas canforadas, um teste para o olfato.

17 minutos depois...

O pelotão de elite largou pontualmente às 16h50. Nós, a turma do fundão, só conseguimos passar pelo tapete que registra os tempos dezessete minutos depois. Era muita gente, e de cara percebi que seria difícil imprimir um ritmo sequer razoável, porque além da enorme quantidade de atletas, havia muitos participantes que já estavam andando no final da Paulista, ali perto do meu estimado Conjunto Nacional! Sem estresse: desde o ano passado, eu não encaro a São Silvestre como um desafio ao tempo, como faço com as outras provas. Aquilo não é competição, não para nós, amadores, é celebração. E com esse espírito fui em busca do quilômetro 15.

A São Silvestre tem algumas características que a tornam mais difícil que muitas outras provas. Em primeiro lugar, seu percurso: o corredor desce praticamente tudo o que tem de descer na primeira metade, e sobe tudo na segunda, ou seja, quando já está mais cansado. Outro complicador: o horário. Em geral, corre-se pela manhã, enquanto a São Silvestre escolhe o horário vespertino, em pleno verão. Mais um fator a dificultar: a quantidade de gente correndo. Em alguns trechos, como na avenida da Consolação ou no Minhocão, e onda de corredores se espalha por todas as faixas das vias - ida e volta. Em outros, como no Centro, o funil se instala e não há como manter o ritmo.

Os tipos esquisitos e/ou engraçados são uma tradição. Corri com várias noivas de barba, uma mulher-fruta com uma cesta tipo Carmen Miranda na cabeça, alguns super-heróis, um samurai, um homem e uma mulher das cavernas. O mais popular, pelo jeito, era um sósia do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, que correu de shorts, paletó e gravata. Passei por ele no Minhocão, ele acenava para a o público e só repetia - "Thank you, thank you!". Ainda em cima do elevado, um corredor ao meu lado perguntava aos moradores dos prédios, aflitíssimo, quem tinha ganho a prova. Algo que permanceu um mistério para mim até que cheguei ao carro e liguei para casa.

No elevado ao lado do Memorial da América Latina, uma daquelas cenas improváveis. Uma corredora chamou pelo nome de algum colega (marido, namorado, irmão, técnico, sei lá). "Vitor?". Alguém retrucou: "Flávio?". Ao que se seguiu uma ladainha de nomes, de gente chamando, gritando, caçoando da moça. O clímax se deu quando alguém gritou "Ronaldo!", senha para alguns exaltarem o Timão, ao que outros, naturalmente, vaiaram.

Cheguei ao quilômetro 10, dois terços da prova, na avenida Rio Branco, com 55 minutos no cronômetro. Meu melhor tempo para a distância, 48min16, tinha ficado lá na Barra Funda, mas continuei relax. Eu até me sentia bem, o joelho não doía nada, conseguiria aumentar o ritmo, mas com aquela parede de gente à frente, impossível. Eu já estava meio entediada de ficar desviando dos colegas e resolvi manter o ritmo tranquilo e me resguardar de novas cotoveladas.

Alcancei o Centro com o céu negro, o que me fez lembrar minha primeira São Silvestre. Parecia impossível terminar a prova sem que a tempestade desaguasse. No entando, foi só ameaça. O clima, por sinal, estava ótimo, o melhor que enfrentei até hoje nessa corrida. Na primeira, muita chuva. Na segunda, muito calor. Na terceira, nem uma coisa nem outra. Tinha até um ventinho agradável em algumas ruas.

Cãezinhos a caminho

Alcançar a Brigadeiro é como ligar um turbo para mim. Ali, faltam pouco mais de dois quilômetros para a chegada e sempre persiste a idéia de que quem chegou bem até ali vai bem até o final. Fui subindo a mítica ladeira como sempre faço, sem olhar para a frente. Quando cruzei a rua Treze de Maio, uma cena impagável. No meio do público, bem embaixo do viaduto, dois cachorrinhos se divertiam descaradamente, talvez excitados pelo excesso de movimentação à volta, doidos para entregar nova ninhada ao mundo, no ano novo.

Alcancei o topo com uma preocupação - queria tentar avistar minha prima e madrinha Dora, que prometeu ir me ver na Brigadeiro. Percebi como é difícil tentar divisar alguém na multidão. Ela deve ter ido, mas eu não a vi. Limpei a frustração dos olhos e me preparei para a apoteose, que é dobrar a esquina e retornar à Paulista.

Minha Paulista, minha avenida, minha casa. Naquela hora, tive um pensamento meio funesto. Lembrei do que sempre digo, sobre meus restos mortais - quero ser cremada e ter minhas cinzas jogadas na Paulista. Acrescentei um detalhe - quero que o façam durante uma São Silvestre. Pensei em outra coisa, ainda menos adequada para aquele momento de celebração: lembrei de uma música da Rita Lee, "Saúde", na qual ela diz que "se por acaso morrer do coração, é sinal que amei demais". Pensei que, se por acaso eu morrer do coração, em uma corrida, que ninguém pense em culpar os organizadores. Seria minha apoteose final.

Mas logo limpei a mente desses pensamentos também e aproveitei a visão dos prédios, o colorido das decorações natalinas, as luzes já se acendendo. Estou de volta, e espero fazer este regresso à casa muitas vezes, por muitos anos, com a orientação do meu técnico José Eduardo Pompeu, com a convivência com meus colegas de equipe, com a inspiração da minha família. Afinal, como diz a mesma música, "enquanto estou viva, cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz".

Em tempo: registro minhas marcas na prova - 1h24min52; fiquei em 402º lugar na prova feminina (2.706 atletas no total), 55º na minha faixa etária (437 atletas no total).



Por fim, minha homenagem e orgulho por ter corrido a prova que marcou a aposentadoria do grande fundista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, cuja comemoração pelo terceiro lugar na Maratona da Olimpíada de Atenas, em 2004, foi uma das maiores lições que recebi do esporte. Eu, que estava revoltada por Vanderlei ter sido atrapalhado por um lunático durante o percurso, achei que ele deveria entrar no estádio fazendo algum tipo de protesto, cruzando a linha de costas, qualquer coisa assim. Vanderlei mostrou-se muito mais equilibrado e maduro do que eu. Em vez de lamentar o ouro perdido, comemorou o bronze, com seu habitual aviãozinho no final da prova.