Thursday, June 21, 2007

Fruta estranha

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Fiquei várias semanas pensando em um mote para escrever sobre Billie Holiday. Depois de dois textos quase seguidos sobre cantoras negras dos Estados Unidos - Dinah Washington e Ella Fitzgerald - me pareceu absurdo não escrever sobre aquela que é considerada por muitos como a maior de todas.

Já disse aqui mesmo que minha preferida é Dinah Washington, o que não quer dizer que ela seja nem que eu a considere melhor que Billie. Gosto é gosto, é coração e emoção, não necessariamente análise estética. Billie é daquela classe de gente que deixou de ser "só" artista, virou mito. Não é só o que ela canta, como ela canta, mas um conjunto de gestos, a tal atitude.

Como Dinah e outras tantas divas, Billie morreu cedo, aos 44 anos, sucumbindo às drogas. Um desfecho coerente com uma vida toda cheia de conflitos e tragédias. Em sua biografia, uma frase na abertura dá o tom: "Quando meus pais se casaram, não passavam de crianças. Papai tinha 18, mamãe, 16 e eu, três." Molestada por um vizinho aos dez anos de idade, e com essa estrutura familiar capenga, acabou internada em uma casa de correção. Aos doze, foi trabalhar em um prostíbulo, lavando assoalhos. Aos catorze, "promovida" à função essencial do estabelecimento.

Em 1930, com quinze anos, Billie viu-se ameaçada de despejo, do quarto onde morava com a mãe. Em busca de um emprego melhor, ofereceu-se como dancer em um bar do Harlem. Era um desastre dançando, mas o pianista intuiu que a moça sabia cantar. Ganhou o emprego de crooner e ficou cantando na noite até que o crítico John Hammond a viu em cena e conseguiu que ela entrasse em estúdio pela primeira vez, gravando com Benny Goodman.

Sua produção em estúdio foi frenética. Gravou dezenas de músicas, percorrendo as mais variadas fileiras de compositores - dos clássicos do cancioneiro norte-americano a compositores menos conhecidos, além de ter ela mesma assinado muitas de suas canções.

Mas o que me acendeu uma luzinha para falar de Billie - veja só - foi justamente a vitória de Lewis Hamilton no GP dos Estados Unidos, domingo passado. A abordagem (anti) racista da circunstância (o primeiro negro da história a ganhar uma corrida na Fórmula 1 - e ganhou logo duas seguidas) me fez lembrar de dois episódios vividos por Billie.

Um é contado em tom de lenda e envolve um astro de primeira grandeza de Hollywood. Billie teria entrado em um bar e pedido uma bebida no balcão, ouvindo um categórico não do atendente. Anos 30 ou 40, barra pesadíssima no país da democracia. Billie teria protestado, em vão, até que atrás dela soou uma voz decidida, em direção ao balconista. "Sim, você vai servi-la." Virando-se para trás, Billie deu de cara com Clark Gable. Resta saber se ele tinha mesmo mau hálito, como apregoa a mitologia em torno de "...e o vento levou".

A outra história não tem nada de lenda e reflete como, há pouco mais de meio século, a barbárie ainda fazia estragos medonhos no país da liberdade.



Uma das músicas mais importantes do repertório de Billie Holiday é "Strange fruit", composta por um professor judeu, de pseudônimo Lewis Allan. Aqui, reproduzo um trecho da coluna "Fruta pisada", escrita por Vange Leonel na Folha de S. Paulo em abril deste ano:

Quando cantou pela primeira vez a canção "Strange Fruit", Billie Holiday estranhou o silêncio da platéia. Achou que não havia agradado. Mas logo alguém se levantou, bateu palmas freneticamente e puxou o aplauso de todo o público.
"Strange Fruit" foi composta por um professor judeu que lecionava num bairro negro. Horrorizado, após ver uma foto com negros linchados e pendurados como frutos numa árvore, decidiu escrever uma canção de protesto. Mortos por brancos racistas e deixados ao relento para que os corvos os devorassem, aqueles negros eram os "estranhos frutos" da canção.


Como dissemos no post anterior e em seus comentários, boa parte dos red necks não deve ter dado importância à vitória de Lewis Hamilton. Muitos deles nem devem saber, já que a Fórmula 1 é um esporte pouco conhecido nos Estados Unidos. Mas não deixa de ser um alento saber que se ontem negros eram cruelmente assassinados e pendurados em árvores, tornando-se essas "frutas estranhas" pendendo de galhos, hoje um deles, pelo menos, é capaz de ser aclamado como vencedor em um esporte altamente elitista.

Sim, eu sei, há muito racismo e crimes racistas cotidianamente, lá como cá, mas não me furto ao direito de ser otimista. Você pode dizer que sou uma sonhadora, mas não sou a única...

9 comments:

Caíque. said...

Belo Post Alessandra, nada a tentar acrescentar.

Bruno said...

Realmente, fantástico “post”. Informativo e factual.
Vou passar sempre por aqui!

Anonymous said...

É ,tava faltando mesmo Billie Holiday em seu repertorio de posts musicais,da qual pouco opino graças a minha vasta intelectualidade no assunto!
Mas dentre as cantoras negras americanas ,tive quase que acidentalmente uma fita k7 dela.
Eu estava saindo de um sitio da faculdade de agronomia e um grupo de estudantes estavam a pé no meio do caminho pedindo socorro.Eram dois rapazes e duas garotas ,estavam apavorados e um deles estava tendo um piripaque ,levei-os ao pronto socorro e só depois fui saber que se tratava de chá de cogumelo ,o rapaz nunca mais voltou ao normal.
O saldo disso tudo foi justamente uma fita k7 que a turma de bicho grilo deixou cair no carro, nunca devolvi e demorou muito tempo para saber que aquela voz aveludada se tratava de Billie Holiday.
Nunca entendi realmente como eles escutavam Billie ou o que eles escutavam.

Jonny'O

Henrique Bartsch said...

Lady Day também é uma de minhas favoritas. Tenho uma caixa lindíssima, com vários cds e um livro muito interessante, onde aparecem vários ensaios de várias épocas daquela voz sofrida. Putz, preconceitos em qualquer formato, pedofilia, toneladas de comida jogadas fora diariamente e gente passando fome, num mundinho tão pequeno como êsse. Ficamos apreciando as palavras de Lennon, e imaginando se no final o amor que se leva é equivalente ao amor que se deu. Todas estas frutas são bem estranhas.

Alexandre said...

Graças ao Capelli estou passando por aqui todos os dias, e vou continuar o fazendo.

Esse blog é sensacional!

Parabéns Alessandra, sua forma de escrever é mesmo maravilhosa.

Vicaria said...

Mamy, também decidir colocar meu gosto musical no papel. Vou tentar contar um pouquinho dos discos que mais gosto. Nunca fiz resenhas de discos... Estou fazendo uma experiência, mas acho que será legal...
Me visita lá!

A benção, mãe!

Vicaria

Marcio Gaspar said...

A grande Billie foi sacaneada até depois de morta. Consta que seu empresário/amante/cafetão montou um bazar na casa dela assim que soube da notícia da morte; antes de ser enterrada, todas as roupas e objetos pessoais de Billie já tinham sido vendidos pelo féladaputa...

Alessandra Alves said...

caíque: gracias!

bruno: obrigada, venha sempre!

jonny´o: mas que história, rapaz! lembrei na hora de uma música antiga da rita lee ("ando jururu, i don´t know what to do/ quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu"). mas cê vê como são as coisas, né? como a gente tende a ser preconceituosa... assim que li sua história, fiquei pensando: "pô, mas os malucos ouviam billie? deveriam ouvir pink floyd..." e por quê?! há males que vêm mesmo para bem. você viveu o estresse dos chapadões, mas ganhou uma fita de billie holiday!

henrique: sempre fico me perguntando como soaria a voz de billie hoje, com a qualidade muito melhor das gravações de que dispomos. porque, em geral, os discos dela são uma chiadeira só, né?

agora, meu bom amigo, eu só consigo "aceitar" tanto horror e iniqüidade entendendo este planetinha como um estágio para coisa melhor. mas está melhorando, eu e lennon achamos. aliás, "imagine" foi uma das músicas que papy escolheu para tocar em seu funeral. e ao contrário do que eu previa, não fico triste quando a ouço.

alexandre: puxa, obrigada... e um agradecimento especial ao ótimo capelli também...

vicaria: filhote, que orgulho!

marcio gaspar: putz, disso eu não sabia não. parece a história dos mamonas assassinas, né? e sabe o que eu esqueci de comentar sobre billie? a orquídea, sua marca registrada, que depois elis usou no disco e no show "essa mulher".

Joaquim said...

Em "O Homem que Matou o Facínora" o personagem de James Stewart sentencia: quando a lenda torna-se maior que o homem, publique-se a lenda.Assim é a biografia dos grandes, sempre permeadas por alguns fatos que extrapolam a realidade, caindo no mundo da lenda ou do mito fabricado.. A brilhante frase de efeito à qual Alessandra se refere é a abertura da biografia "Lady Sings the Blues", de William Duffy (1956). Aqui já se comete uma imperfeição, pois Billie jamais cantou blues, e sim jazz. Blues era para Bessie Smith, Ethel Waters, Monette Moore, algumas das bambambãs da época, depois secundadas pela santíssima trindade: Dinah Washington, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughn. Mas de Billie, sabia-se com certeza a enorme tolerância no consumo de drogas - conta-se que ao chegar em casa injetava-se uma dose cavalar de heroína, rebatia com doses industriais de bourbon e arrematava tudo com um baseado antes de ir para a cama - e a especial preferência por vagabundos e desocupados que a exploravam e a espancavam num rito quase diário. Uma deusa no palco mas uma existência miserável entre o alcoolismo e a devastação das drogas. Belo post, Alessandra, absolutamente imperdível.Congratulations!!!