Sunday, July 31, 2011

Dinastia Vettel



Se o alemão Sebastian Vettel decidir cabular os próximos três Grandes Prêmios de Fórmula 1, na Bélgica, na Itália e em Cingapura, voltará no Japão ainda como líder do campeonato, no mínimo com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Isso se o atual vice-líder, seu companheiro Mark Webber, na Red Bull, vencer as três corridas. A matemática fica ainda mais favorável a Vettel, atualmente com 234 pontos, se o desafiante for Lewis Hamilton, atual terceiro colocado.

A supremacia construída por Vettel na primeira metade da temporada permite que ele seja campeão sem precisar vencer mais nenhuma etapa. Já venceu seis e pode simplesmente administrar as oito corridas que faltam, sem precisar expor-se a riscos. Um segundo lugar aqui, um terceiro ali e a poupança vai aumentando. A última vitória do alemão aconteceu no final de junho, no GP da Europa, na insípida pista de Valência. De lá para cá, três corridas, cada uma com um vencedor diferente – Fernando Alonso na Inglaterra, Hamilton na Alemanha e Jenson Button na Hungria.

Até nisso a atual temporada favorece o reinado absoluto de Vettel. Os postulantes a desafiador alternam-se, repartindo entre si pontos que, canalizados para um único piloto, poderiam significar alguma ameaça ao líder. E o vice-líder, Webber, curiosamente não se juntou a esse grupo, amealhando seus 149 pontos até agora sem conquistar nenhuma vitória neste ano. No entanto, apenas os dois pilotos da Red Bull conseguiram pontuar em todas as provas do campeonato.

O domínio da Red Bull em 2011 deve entrar para a história como outras temporadas que exibiram supremacias absolutas. Ferrari em 2004 e 2002 (nos dois anos, Michael Schumacher campeão, Rubens Barrichello vice), Williams em 1992 (Nigel Mansell campeão, Riccardo Patrese vice), McLaren em 1989 (Alain Prost campeão, Ayrton Senna vice) e 1988 (Senna campeão, Prost vice). A disputa pelo vice-campeonato em 2011 está aberta. Webber tem 149 pontos, mas vê Hamilton bem perto (146) e, colado no inglês, Alonso, com 145. O australiano não tem sido bom o suficiente para vencer no atual campeonato, mas a alternância de vencedores ao longo do ano pode jogar a seu favor, continuando a dividir os pontos e consolidando-o como mais um escudeiro a ladear o companheiro campeão.

Sim, escudeiro. Na lista de domínios incontestáveis acima, só a disputa Senna-Prost entre 1988 e 1989 entra para o rol das exceções, nas quais o título foi decidido na base da disputa aberta entre companheiros de equipe. As demais são demonstrações de força coletiva de equipes muito superiores às demais, nas quais o campeão chegou a esta condição sem jamais ser desafiado por seu vice.

A temporada de 2011 talvez seja o ponto alto de um ciclo iniciado em 2009, quando a Red Bull passou a ter, pela primeira vez na sua história, um carro vencedor. Pode soar estranha essa análise, pois 2009 assistiu ao domínio acachapante de Button e de sua Brawn, em um início de temporada ainda mais agudamente eficiente que o de Vettel, neste ano. Mas não é difícil lembrar dois fatos. O primeiro está ligado a uma solução aerodinâmica inovadora – e inicialmente contestada – da Brawn e de outras poucas equipes: os difusores duplos. Especialmente graças a eles, Button venceu seis das sete primeiras corridas (em 2011, Vettel ganhou “apenas” cinco das sete primeiras). Na segunda metade daquela temporada, algumas equipes diminuíram sua distância em relação à Brawn, e Button conseguiu no máximo somar pontos, conquistando apenas dois pódios a mais e permitindo a aproximação justamente da Red Bull de Vettel, que neste complemento de campeonato obteve três vitórias e mais dois pódios, chegando ao vice-campeonato.

O ano de 2010, embora disputado até a última prova, teve a Red Bull como “o carro a ser batido”. Alonso e Hamilton tentaram e beneficiaram-se, talvez mais do que dos méritos de seus próprios equipamentos, da disputa aberta entre Vettel e Webber na Red Bull. Os dois companheiros de equipe chegaram à última prova, em Abu Dhabi, ambos com condição de levar o título. No entanto, hoje esta proximidade soa como circunstancial. Mais fruto da inexperiência de Vettel, afinal consagrado como o mais jovem campeão do mundo, e de erros estratégicos e operacionais da equipe, do que propriamente da igualdade entre pilotos.

Iniciando 2011 como campeão, mais maduro e com um grupo de adversários que, ainda por cima, lhe faz o favor de alternar-se na condição de desafiante, Vettel vestiu a camisa do líder com propriedade. Não é o caso de afirmar que a equipe lhe dá privilégios. Com sua capacidade de conduzir um carro rápido ao limite, ele conquistou tal condição por méritos. Seu desempenho no treino classificatório em Budapeste ilustra essa capacidade. É certo que ainda carece da dose certa de combatividade nos momentos em que precisa livrar-se de uma condição adversa, ou que cede a pressões de forma talvez decepcionante, como no Canadá. Talvez, sem ter o carro extraordinário que tem hoje, Vettel esteja um degrau abaixo de Alonso e de Hamilton, mas o fato é que a história da ascensão da Red Bull está diretamente ligada a Vettel.

Claro que, por trás desse foguete azul escuro, está o projetista Adrian Newey, como esteve Rory Byrne ao lado de Schumacher, na Ferrari, ou John Barnard, ao lado de Senna. Não são meras circunstâncias que constroem tais domínios. São conjugações de talentos, cada um em sua especialidade. Esta, a de Vettel com a Red Bull, parece ser mais uma.

E, assim, a Fórmula 1 reescreve sua história a cada era, repetindo a máxima de que esta categoria, sempre – e apesar das tentativas esdrúxulas de mudanças de regulamento – vive de ciclos dominantes que se alternam.

Sunday, April 17, 2011

Bravura indômita



O GP da China de 2011 poderia ser daqueles que viram filmes, com todos os ingredientes para uma boa produção de Hollywwod, se Hollywwod desse alguma importância para a Fórmula 1. Drama, ação, suspense, superação, risos e lágrimas no final. Estrelando Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Mark Webber e grande elenco.

Na cena de abertura, mecânicos trabalham freneticamente para sanar um vazamento no carro de Lewis Hamilton, ainda nos boxes. Prosaicos rolos de papel absorvente, daqueles que se usam na cozinha, são utilizados na tarefa. Hamilton sai da garagem faltando menos de trinta segundos para o fechamento dos boxes, alinha na terceira posição e vê a equipe terminar a montagem de seu McLaren já no grid.

Dada a largada, a ação ganha corpo no enredo. Sebastian Vettel larga mal, percebe a aproximação de Hamilton, fecha-lhe a porta e, com isso, abre caminho para Jenson Button. Os pneus entregues pela Pirelli na atual temporada são a antítese da ecoeficiência. Duram pouco, obrigam os pilotos a mais trocas, emporcalham a pista. Tudo o que o KERS soma de ambientalmente amigável, os pneus subtraem de desperdício. As usinas elétricas a carvão, lá na mesma China, sorriem marotas diante de tanto dejeto, como se toda sua poluição subitamente ganhasse salvo conduto na comparação com a borracha esfarelada na pista.

Bom artifício de roteiro, esses pneus. Graças a eles, instala-se o suspense. Duas ou três paradas? Quem lidera agora? Mas vai ter de parar de novo? E esse pneu, aguenta até o final? Nessa ciranda de dúvidas, sucedem-se na liderança Button, Rosberg, Massa, Vettel. Nas duas horas que dura a película, espectadores atentos: qualquer um desse, a rigor, pode ganhar.

Como toda fita que se preza, o filme do GP da China lança mão de coadjuvantes que crescem ao longo da trama. Mark Webber foi o principal deles. Companheiro de equipe na pole, ele em 18º no grid. Tal franco atirador, lançou-se sôfrego na escalada de posições. E conseguiu. Com um carro desses, diriam os mais críticos, não fez mais que a obrigação. Seria como colocar Jack Nicholson para interpretar um malandro sarcástico. Só poderia dar certo.

Mas o duelo da história, claro, estava reservado para os protagonistas, lá na frente. Hamilton, depois do drama da largada, soube gerir bem o entra e sai dos boxes. Previdente, guardou do sábado um jogo de pneus para o dia da corrida. Como suprimento para refugiados, os pneus serão itens de sobrevivência nesta Fórmula 1 de 2011. Como ator afeito ao improviso, pareceu dar de ombros às ordens de seu engenheiro - "espere um pouco mais antes de atacar". O alvo? Vettel. A decisão de Hamilton? Desobediência. Foi para cima do alemão, que ensaiou defesa heróica. Estaria Vettel preparado para vencer de forma diferente, pela primeira vez acossado decisivamente e, ainda assim, mantendo a ponta?

Não. Hamilton tomou-lhe a primeira posição. Talvez menos por sua bravura indômita. Pois ele a tem, ô se tem. Mas eventualmente mais pela artificialidade de pneus que se desmancham como paçoquinha Amor. Ou pela ação algo covarde da asa móvel que anula a vantagem de quem vai à frente (ainda que a ultrapassagem definitiva, a cena de ação máxima, sobre Vettel, tenha sido feita no miolo, e não na zona permitida para o uso da engenhoca). Bravo, aguerrido, indomável, obstinado, inconsequente, lágrimas de emoção ao final. Hamilton foi tudo isso no GP da China de 2011. E a Fórmula 1 atual talvez seja mais roteiro de cinema que competição.

Friday, April 15, 2011

"Eu me adoro cantando"


Jogando baralho com amigos, ela cantarola, ajeita cartas na mão, joga a cabeça pra trás, ouve o som da própria voz em um aparelho de som ao fundo, exclama "ah, eu me adoro cantando", e gargalha. A personagem é Nana Caymmi, o filme, Rio Sonata. Fui vê-lo na quarta-feira passada, em uma sessão especial do Reserva Cultural, provavelmente meu cinema preferido em São Paulo, ao lado do Cine Livraria Cultura, dos poucos que restam com alma, identidade.

Eu não sabia nada sobre o documentário, mas a simples referência a Nana Caymmi me fez vencer um monstruoso congestionamento na cidade (por conta do último show do U2?) e me proporcionou uma das noites mais memoráveis dos últimos tempos. Nana e seu irmão Dori Caymmi estavam lá. E também meu querido Zuza Homem de Mello, que me apresentou ao som de Nana há 28 anos, quando ela lançou o extraordinário álbum "Voz e Suor", que contava apenas com o piano de César Camargo Mariano e a voz de Nana.

O filme foi produzido pelo suíço George Gachot (não consegui descobrir se ele tem algum parentesco com o piloto Bertrand Gachot). Aqueles do copo meio vazio diriam "que pena, precisa vir um estrangeiro para produzir um filme sobre uma cantora como Nana Caymmi". Os do copo meio cheio - incluindo-me entre eles - prefeririam o benefício do olhar estrangeiro, distanciado, capaz de enquadrar Nana em moldura feita de percepções, não de estereótipos.

Porque o estereótipo, o senso comum, a visão estreita tendem a pintar Nana como cantora sofisticada, de elite, difícil. A visão ampliada de Gachot levou à tela uma cantora rigorosa com suas escolhas e, sobretudo, consigo mesma(singela, Nana em dado momento revela que é difícil cantar músicas como "Ponta de Areia" e "João Valentão", e fica evidente que a dificuldade está menos nas músicas e mais no tom desafiador que ela e seus maestros se impõem). Rigor à parte, Nana revela-se realizada em seu ofício, exercendo a profissão de cantar com um hedonismo que transparece em vários trechos do filme, como o "eu me adoro cantando" do animado carteado.

Quando o letreiro anunciou o final do filme, fui tomada de certa decepção e até exclamei: "mas já?". Eu assistiria e ouviria aquele documentário por muito mais tempo. A música de Nana seria suficiente para justificar esse apego, mas a beleza do filme também há de ser destacada. Gachot foi ao ponto: contextualizou Nana em um Rio - sua terra natal - nublado, sombrio, melancólico. O tom de sua voz de lamento, o lamento dos olhares e gestos simples das pessoas retratadas no filme. Porteiros, crianças brincando no subúrbio, donas de casa, camelôs. A Nana de Gachot não é sofisticada, blasé, intangível, difícil.

Sem ser linear, e sem se preocupar em ser documental, o filme vai reconstituindo a história de Nana, mostrando cenas do seu cotidiano, mesclando-as com imagens do passado. A diva que se apresenta ao lado de Tom Jobim no instante seguinte é uma mulher de quase 70 anos à procura dos "óculos para longe", encontrados depois de certo esforço na bolsa enorme. A cantora alçada à popularidade em anos recentes, graças a temas de novelas, ganha depoimentos de gente de várias tribos - do ex-marido Gilberto Gil ao Tremendão; de Milton Nascimento a Mart´nália. E vai falando sobre cantar e amar e sobre cantar o amor, definindo-se uma cantora de Bossa Nova que ninguém nunca assim reconheceu (Milton decifrou-a: na Bossa Nova, cantava-se baixinho, e Nana tem esse vozeirão...). A diva refere-se ao irmão Dori como um de seus compositores preferidos, e o chama de Dorivalzinho, transportando para a tela uma intimidade familiar que não nos pertence, mas que enche o filme de uma ternura que nada tem a ver com a cantora sofisticada que sempre se pintou.

Em uma das sequências mais divertidas do documentário, no que parecem ser os bastidores de um show, Nana, Miúcha e Maria Bethânia improvisam sobre uma canção de Dorival. Bethânia, gestual dramático, altivo, comandante, lança o primeiro verso, dá o tom. Miúcha embala, quase tiete entre as duas prima donas. Nana apodera-se da batuta, baixa o tom da canção, gestual maternal e firme, recoloca em seu lugar a moreninha da sandália do pompom grená da canção de seu pai. Uma brincadeira, quase um duelo de vozes, ou de estilos. Perdoe-me, mana, Nana ganhou.

E o pai - a origem - é quem vem encerrar o filme, em uma sequência bela, inesquecível, recontando a história de "Acalanto", a canção de ninar que fez para Nana, a diva que casou-se cedo, foi para a Venezuela, teve três filhos, separou-se, venceu festival, casou-se com Gil sem nunca olhar para a Tropicália ("não entendi aquilo até hoje, se alguém quiser me explicar..."), e trilhou sua carreira baseada em um princípio básico - o prazer de cantar. Simples assim.

Se eu tivesse essa voz, Nana, eu também iria me adorar cantando.

Sunday, April 10, 2011

Paradoxo


Não esperem de mim análises que terminem com "a corrida foi chata". Já viram aqueles adesivos que propagam a ideia de que um mau dia no surfe é melhor que um bom dia no escritório? Pois para mim funciona assim: um dia com corrida sempre vai ser melhor que um dia sem corrida, seja a corrida como for. Porque, insisto, a corrida da Malásia pode ter sido chata para brasileiros, espanhóis e britânicos. Mas, para os alemães, foi uma corrida fantástica, como fantásticas eram as provas que Ayrton Senna liderava de ponta a ponta. Chatas para os franceses, adoráveis para os brasileiros.

Se nosso automobilismo não foi capaz de produzir um novo campeão nos últimos vinte anos, a culpa provavelmente é menos da F1 e mais da gestão do automobilismo no Brasil. É certo que a FIA esforçou-se por criar regras bizarras que tornaram a categoria por vezes risível, outras ininteligível, outras simplesmente idiota. Mas pilotos continuaram ganhando corridas e campeonatos enquanto isso, e o fato de não serem brasileiros não pode diminuir seus méritos, até por se darem bem na barafunda esquizofrência das mudanças de regras.

Sebastian Vettel provavelmente será bicampeão do mundo, conquistando o título de maneira muito mais tranquila do que o fez em 2010. É admirável ver conjuntos vencedores de piloto e máquina, como foram tantos na história da F1. Só para ficar nos mais recentes: Button e a Brawn, Alonso e a Renault, Schumacher e a Ferrari. É o state of the art em termos de desenvolvimento tecnológico e perícia. Vettel tem uma receita de vitória que leva um dia para a marinada terminar de dar o tempero. Começa no sábado, com a pole. Termina no domingo, depois de liderar a corrida inteira. Fácil é achar que isto é simples. Vê-lo extenuado após a corrida dá uma medida do esforço que é cozinhar esse boi em fogo lento. Mas, desculpe-me jovem alemãozinho, ainda estou esperando sua grande corrida. Porque, mesmo enaltecendo sua capacidade de tirar tudo do carro nas situações-limite, gostamos do embate, da disputa, da refrega. De ultrapassagens, em resumo.

E por mais que a organização da F1 tenha tentado criar condições para mais ultrapassagens, lá na frente não está sendo nada útil. Vettel não precisou ultrapassar ninguém neste ano, ainda. Largou lá na frente e sumiu. No máximo, negociou com retardatários. Não é testemunho para o funcionamento da asa móvel. Nem o KERS da Red Bull, que parece ser o grande - senão único - calcanhar de Aquiles da equipe austríaca está lhe fazendo falta. Vai altivo, soberano lá na frente. Nossa sanha por disputa nos faz desejar um escorregão que seja do alemão e de seu boi voador. Quem sabe assim, acossado pela desvantagem, Vettel faça a corrida que espero e que, de fato, não lhe fez falta nenhuma do ponto de vista prático até agora.

Mas, a despeito do espetacular e modorrento domínio de Vettel, a F1 atual vive uma espécie de paradoxo em relação ao ano passado. Em 2010, a alternância na ponta da tabela à primeira vista poderia sugerir um campeonato eletrizante. E era, porém formado de corridas "chatas". Em 2011, graças principalmente à necessidade de mais trocas de pneus e à ação da asa traseira móvel, tivemos duas corridas movimentadas. OK. Não chegarei ao ponto de dizer "eletrizantes". Mas corridas inegavelmente movimentadas, que provavelmente resultarão em um campeonato "chato".

Para nós. Não na Alemanha.

Friday, March 25, 2011

Boi voador



Os amigos vão me desculpar a demora e a desfaçatez de vir fazer previsões para uma temporada que, afinal, já começou. Mas, como disse no post anterior, apesar da antiguidade, este blog continua sendo espaço de mero diletantismo, e a necessidade de ganhar a vida me empurra sempre para outras atividades menos lúdicas. Vil metal, esse carrasco...

Faltam poucas horas para a largada do primeiro GP do ano, aquele que deveria ser o segundo, mas que acabou com as honras de estreia pela turbulência sócio-política no Bahrein. (Aliás, pouco tem se falado da situações dos países do Oriente Médio, depois da crise na Líbia e, mais ainda, da catástrofe natural no Japão. Países amigos do Ocidente sempre são tratados com complacência pela mídia, habitualmente pautada pelas agências internacionais, quase todas grandes potências de comunicação do Ocidente...).

Mas então a política nos deslocou novamente para a madrugada, e cá estamos, à espera do primeiro GP, novamente em Melbourne. Foi falta de tempo, mas agora vejo que comentar a pré-temporada teria sido... perda de tempo. O suposto equilíbrio entre Red Bull e Ferrari desvaneceu-se na parte final do treino classificatório da Austrália. Não só a Red Bull fez seus pilotos voarem, mostrando que havia passado o inverno europeu escondendo o leite, ou o energético. Também a McLaren parece ter gasto a temporada fazendo cara de paisagem, para depois colocar seus dois carros na duas primeiras filas.

Mas, ora direis, uma única volta rápida seria parâmetro para toda a temporada?

É claro que não. Os carros da Red Bull têm sido os mais rápidos há muito tempo. Não só em 2010, mas desde a segunda metade da temporada de 2009. No entanto, os bois voadores pularam miudinho até a última prova do ano passado, graças ao deperdício de pontos causado ora por erros de seus pilotos ora por estratégias inadequadas da euipe. Pode acontecer de novo. Ainda mais em uma temporada com uma gigantesca mudança de caráter técnico - a já tão comentada estreia dos pneus Pirelli.

Não foi à toa que a Pirelli desenvolveu compostos aparentemente bem menos resistentes que seus antecessores. O cliente - a FOM (Formula One Management), no caso - sabe que as corridas têm se decidido basicamente nos pit stops. Pneus mais frágeis, mais pit stops, mais chance de embaralhar as posições na corrida. Mas a fabricante de pneus parece ter se empolgado na tarefa de criar pneus que se desmancham no ar. Ainda que alguns pilotos tenham se declarado confiantes em relação ao tema, após os treinos em Melbourne, apontando que os pneus não são tão descartáveis assim, a imagem da TV foi nítida, ao registrar os pneus de Lewis Hamilton com partes que mais pareciam chicletes mastigados (bleargh!).

Talvez o ponto mais destacável dessa história não sejam exatamente os pneus, mas como os pilotos vão se haver com eles. Hamilton é o exemplo bem acabado do papa-borracha. Seu estilo de pilotagem, agressivo e afeito a subir nas zebras, sempre o levou a desgastar os pneus mais do que os companheiros de equipe. O que dirá em uma situação como esta, em que os compostos já são menos resistentes.

É possível imaginar que o conjunto carro-piloto que consuma menos pneus será capaz de fazer menos paradas, ganhando enorme vantagem. Mas é claro que isso só valerá para carros minimamente competitivos. Os franco atiradores do pelotão de trás que se agarrarem a esta teoria nem por isso vencerão corridas. Há que ter um mínimo de velocidade e técnica para locupletar-se da eventual parada a menor. Meus colegas comentaristas já levantaram a lebre: nesse contexto, olho vivo em Jenson Button, com sua condução limpa. Pode ser, mas não é só.

A mudança nos pneus já seria suficiente para bagunçar o coreto, mas a Fórmula 1 quis mais. Inventou a tal asa móvel que, em corridas, só pode ser usada em uma determinada "zona de ultrapassagem". Bem, como isso ainda não foi visto, não vou entrar no clima de "não vi e não gostei", mas que tem tudo para ser uma baita confusão, isso tem. De qualquer forma, a tal asa é outro efeito desestabilizador do carro. Vai se dar bem quem dominá-la melhor. Durante o treino, já deu para perceber como alguns pilotos ainda não aprenderam a reagir ao verdadeiro coice dado pela ação aerodinâmica da asa. Rodadas são esperadas. Em corrida, não costuma terminar bem. Mas não deixo de ficar otimista com o fato de que dois itens do carro tornam a ação do piloto mais determinante que antes.

Para terminar, "una palabra por la unidad de la America Latina". É frustrante ter apenas dois brasileiros no grid, e que apenas um tenha mais chances de brigar por vitórias. Mas meu coração latino-americano alegra-se ao ver mais dois representantes da América entre os inscritos. Pastor Maldonado e Sergio Perez - como todos os outros - garantiram suas vagas na Fórmula 1 graças à injeção de recursos. Não estão lá apenas por seus resultados anteriores, mas pelo dinheiro de empresas (a maior empresa pública da Venezuela, no caso de Maldonado). É a regra do jogo, e talvez ele nem valham os cobres despositados em seus ombros, mas não me peçam para ficar indiferente a dois hermanos correndo na Fórmula 1.

Pena que ainda falta uma mulher.

Boa temporada a todos e reforço o convite para acompanhar a transmissão das provas pelas rádios Bandeirantes AM e BandNews FM, com a equipe formada por Odinei Edson, Fábio Seixas, Jan Balder, Luiz Fernando Ramos e eu. Até lá!

Monday, March 21, 2011

PVAPF

O sempre divertido Mauro Chazanas - divertido e obstinado - resolveu fundar nesta segunda-feira o Partido Volta Alessandra Por Favor. Tal como em "Geni", posso dizer que "foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos", que resolvi tomar vergonha na cara e retomar o blog, depois de três meses de ostracismo.

Cumpre, digníssimo presidente do PVAPF, informar que este blog é exercício puro de diletantismo. Jamais recebi um mísero cobre pelas linhas traçadas neste espaço, lá se vão cinco anos. Se a grita já é grande quando alguém abre os cofres para Bethânia blogar, que poderia eu esperar desse universo virtual?

Minha lida é árdua, capinando em outras roças, correlatas ao jornalismo. Mas chega de desculpas. Aproveitando a volta da Fórmula 1, anuncio para logo meu post de previsão da temporada. E um outro sobre música, afinal, vossa excelência Chazanas transita mais pelos sustenidos e bemóis que por motores e pneus.

"Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto, eu tô voltando".

Friday, December 24, 2010

Feliz Natal



Ainda me enternece um cenário cheio de neve, feições rosadas pelo frio, o trio gorro, luva e cachecol. Ainda me comove o disquinho do Tio Patinhas, coleção da Editora Abril, revivendo a história dos três espíritos no Natal - passado, presente, futuro. Mas outras tradições vão se somando ao meu Natal, como o passeio pela Avenida Paulista com meu filho na hora do almoço do dia 24 de dezembro. Comprinhas de última hora, uma passada pela banca de jornal.

E a foto de John e Yoko aqui no blog.

Porque John e Yoko fizeram a música de Natal definitiva para mim, aquela que evoca os sentimentos que deveríamos mesmo cultivar, e no ano todo, na vida toda, para além das religiões, evocando conceitos de diversidade racial, de justiça social, de desejo utópico (?) de igualdade. Porque John e Yoko despiram-se literalmente, escancararam suas paixões, conflitos, crises e reconciliações. Romperam rótulos masculino/feminino, ocidente/oriente, oprimido/opressor.

Este é o meu desejo de Natal, de um feliz Natal para todos vocês.

"Merry Christmas, John
Merry Christmas, Yoko"

Monday, November 15, 2010

Nada do que foi será...



A singela "Como uma onda", de Lulu Santos e Nelson Motta, é uma espécie de hino existencialista com a humildade de quem se sabe só poeta raso, e não filósofo. Mas, no embalo zen de um surfista hedonista, tem estes versos que prenunciam a revolução: "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia/ tudo passa, tudo sempre passará".

O título de Sebastian Vettel em 2010 me acendeu a esperança de que, talvez, uma revolução esteja em marcha. Nós, macacos velhos da Fórmula 1 (27 anos nas costas, no meu caso), passamos os últimos anos repetindo o mantra de que o jogo de equipe é tão antigo quanto a categoria. Sim, é verdade. Durante o GP do Brasil, conversei bastante com o ex-piloto francês Jacques Laffite, que correu entre 1974 e 1986, e hoje é comentarista da TV francesa. Laffite se mostrou totalmente convencido de que a Ferrari havia agido de maneira correta ao inverter as posições entre Felipe Massa e Fernando Alonso, no GP da Alemanha. Perguntei ao francês se, em sua carreira, ele havia passado por uma situação parecida com a de Massa. Com aquele charme parisiense, deu um sorriso maroto e respondeu: "Não, eu sempre era o Alonso da minha equipe."

A vitória de Vettel foi cantada em prosa e manchetes como o triunfo da ética sobre a armação, da verdade sobre a hipocrisia. Como alguns colunistas escreveram brilhantemente por aí, a postura da Red Bull, neste final de temporada, foi também uma extraordinária ação de marketing. Ao optar pelo não-favorecimento de nenhum de seus pilotos, a Red Bull uniu-se ao coro dos descontentes com a decisão ferrarista em Hockenheim. Ainda que a mesma Red Bull tenha enchido de descontentamento o veterano Mark Webber ao sacar de seu carro uma asa especial, e colocá-la no de Vettel, na corrida anterior a esta da Alemanha.

Mas, se a vitória de Vettel parece um divisor de águas, a corrida de Hockenheim também o foi. Aqui, no twitter, na academia, no cabeleireiro, escutei um quase uníssono de vozes, clamando pela luta aberta, pela não-armação. E fico pensando que talvez seja hora de nós, os símios anciões, pararmos de dizer que "sempre houve jogo de equipe na Fórmula 1, por isso temos de aceitá-la." Ora, sempre houve uma porção de coisas que hoje não queremos que continuem existindo. No nível da civilização, não aceitamos mais o racismo, a misoginia, a homofobia, a degradação do meio ambiente. Muitos destes conceitos foram aceitos durante parte da história da humanidade, mas resolvemos que seria melhor mudar.

A corrida de Abu Dhabi não trouxe nenhuma situação em que o jogo de equipe pudesse assumir o papel de protagonista. Se Vettel estivesse em primeiro, com Webber em segundo e Alonso em terceiro, o alemão abriria mão da vitória, para dar o título ao companheiro australiano? Jamais saberemos. Vettel chegou a dizer, em entrevistas anteriores, que cederia o espaço, de forma voluntária. A fala do jovem alemão, somada à opção declarada do dono da equipe, Dietrich Mateschitz, que disse preferir perder o título de forma limpa, a ordenar uma troca de posições, era por si só um jogo de cena perfeito. A Red Bull mantinha o discurso da disputa liberada, a equipe garantiria o título para Webber e Vettel assumiria o papel de esportista que sabe competir pelo time, mas por uma opção pessoal, não imposta. Mas este cenário esteve longe de acontecer, e saiu melhor do que a encomenda para a Red Bull, com Vettel campeão, sem troca de posição alguma.

Para a imagem da Fórmula 1, foi melhor assim. Como foi melhor para a Fórmula 1 que a McLaren não ganhasse o título de 2007, depois de confirmado que a equipe havia espionado segredos da Ferrari. Premiar a McLaren, naquela ocasião, ou a Ferrari, neste ano, seria dar um atestado de idoneidade para criminosos condenados.

Talvez, a via tortuosa pela qual o título terminou nas mãos de Vettel seja pedra fundamental para um novo tempo na Fórmula 1. Quero acreditar nisso. Quero ter certeza de que todos pensaremos desta mesma forma - prefiro perder o título a encenar um simulacro de corrida diante do público. Se todos estivermos de acordo que é melhor ver nosso ídolo sem troféu, mas com ficha limpa, então estarei ainda mais feliz por continuar amando este esporte.

Wednesday, November 10, 2010

Palpite e torcida


Sem mais delongas, uma enquete, duas perguntas:

1) Quem você acha que será campeão do Mundial de Fórmula 1 de 2010?
2) Para quem você está torcendo?

Votem e, se quiserem, justifiquem suas escolhas. Valendo!

Saturday, November 06, 2010

GP do Brasil, sábado

Neste dia histórico, com a primeira pole da carreira de Nico Hulkenberg, um breve álbum de flagrantes do sábado em Interlagos.


Gabriel Prado, repórter da Bandeirantes, e eu, com o cabelo vencido pela chuva (de novo!)


Odinei Edson narra, Cacá Bueno comenta; ao fundo, Sergio Patrick


Velhos companheiros: Emerson e Jan Balder


O fã da Ferrari manda um recado à equipe: deve ser torcedor do Massa, concordam?

Sunday, October 31, 2010

31 de outubro de 2010

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....

(Obrigada, Mauro Chazanas)


Sunday, October 24, 2010

Manual de autoajuda Fernando Alonso


Terminado o GP da Coreia do Sul, escrevi a seguinte frase no Twitter: "Como é largo esse Fernando Alonso". De fato, à primeira vista, a vitória do espanhol pareceu uma sequência de lances de sorte. Primeiro, o acidente de Mark Webber. Depois, o motor estourado de Sebastian Vettel. E, assim, Alonso saiu da Coreia como líder do campeonato. Mas faço minha penitência já: não pode ser creditada só à sorte a jornada vitoriosa do espanhol no primeiro grande prêmio disputado naquele país.

E nem vou me ater às questões de perícia do bicampeão. Alonso pode ser manhoso, dissimulado, amoral até, como dizem alguns, mas é um extraordinário piloto. Nada de novo nisso. Manter-se íntegro em uma prova com condições adversas pode ser tudo, menos um golpe de sorte, ou vários. Mas queria analisar um aspecto mais, digamos, esotérico deste final de semana.

Abri minha participação na transmissão, aliás, falando sobre isso. Depois do treino classificatório, no sábado, li a seguinte frase de Alonso, no Tazio: "E mais uma vez foi o nosso máximo potencial hoje, o que é, de certa forma, muito bom, porque a classificação não é nosso ponto mais forte do fim de semana. Aqui, estamos próximos da Red Bull, então a situação parece boa para amanhã."

É uma frase corriqueira, em linha com o discurso quase sempre vazio que esportistas costumam proferir nos pré-eventos. Mas pesquei um ardil na sentença. No ar, pelas rádios Bandeirantes e BandNews FM, comentei que a fala de Alonso tinha um tom de ameaça, como se ele dissesse para Vettel e Webber: "aproveitem enquanto estão na frente, porque amanhã será pior."

A diferença astronômica da Red Bull para as demais, que se consolidou em pistas como Mônaco e Malásia, parece ter ficado no passado. Na Coreia, Alonso classificou-se com um tempo muito próximo ao de Vettel e de Webber e, na corrida, conseguiu manter a distância na casa do confortável e administrável. Alonso tinha motivos concretos para acreditar que, mais uma vez, os carros mais rápidos no treino não necessariamente levariam tal vantagem para a corrida.

Mas a fala de Alonso foi mais do que análise cartesiana. Teve ali um componente de dupla serventia. A um tempo, o espanhol plantou em si mesmo a perspectiva de ser melhor hoje do que havia sido ontem. E, também, semeou em Vettel e em Webber a desconfiança, a cisma, o trauma de algo, afinal, repetido outras vezes nesta mesma temporada. Alonso plasmou a vitória de hoje em sua mente.

Os nomes variam - pensamento positivo, energia, vibração - mas o conceito é o mesmo. Está em livros esotéricos e em manuais de autoajuda o conselho que Alonso pareceu seguir nas terras orientais. Fixou-se a uma imagem alvissareira para o domingo e se manteve na rota para alcançá-la. É cada vez mais recorrente esta faculdade entre esportistas. No futebol e em outros esportes coletivos, fica cada vez mais evidente que o papel do técnico está tão ou mais relacionado a motivar e instigar a equipe do que necessariamente no reforço dos fundamentos técnicos ou em armações táticas. Que o diga o DJ Luiz Felipe Scolari e seu repertório de músicas motivacionais.

Alonso não venceu só na pista, venceu na cabeça. A duas corridas do final, a fortaleza psicológica pode ser uma arma letal.

Wednesday, August 18, 2010

Kleiton e Kledir


Nestes tempos de férias da Fórmula 1, aproveito um tempo raro para escrever novamente sobre música. A motivação, ora vejam, partiu do esporte. Liguei a TV na segunda-feira no programa "Bem, amigos", apresentado pelo Galvão Bueno, e lá estava a dupla de cantores e compositores gaúchos Kleiton e Kledir. Nossa, que sequência de flashbacks!

Antes que o conceito de dupla, na música brasileira, fosse imediatamente associado ao gênero sertanejo, os irmãos Ramil fizeram muito sucesso, mas por poucos anos. A carreira começou no meio dos anos 1970, como integrantes de um grupo de rock batizado de Almôndegas, que chegou a ter uma de suas músicas ("Canção da meia noite")incluída na trilha sonora da novela global "Saramandaia". Quando o grupo acabou, os irmãos resolveram continuar a carreira como dupla.



Em 1979, o primeiro grande sucesso - "Maria Fumaça", que disputou o Festival da TV Tupi daquele ano. O trenzinho acelerado de Kleiton e Kledir puxou as vendas do primeiro disco, que tinha outras músicas ótimas - "Vira, Virou", com participação do Ivan Lins, "Fonte da Saudade", "Roda da Fortuna", que também foi tema de novela (quem se lembra desta? "Cavalo Amarelo", da TV Bandeirantes) e até uma canção em tupi-guarani, chamada "Tassy".



No ano seguinte, a vocação para festivais dos gaudérios voltou a se manifestar. Inscreveram a bela "Navega, coração", que era apresentada com o auxílio luxuoso dos vocais do grupo Céu da Boca. Não ganharam. O prêmio ficou para a pobre Lucinha Lins, dona de uma das mais traumatizantes vaias de que se têm notícia, coitada. A música "Navega, coração" foi lançada no segundo LP da dupla, que tinha igualmente ótimas canções, como o mega sucesso "Deu pra ti", "Lagoa dos patos", com participação do MPB-4, "Paixão" e uma música ao estilo duelo de trovadores, não por acaso chamada "Trova", música que me divertia, principalmente pelo verso "eu não sou de perder trova pra gaúcho bunda mole". Nossa, eu achava aquilo tão corajoso e transgressor. Não tenho certeza nem consegui informações para confirmar, mas acho que "Trova" foi censurada na época, e talvez fosse por "tanta grossura", como diz a letra, mas também poderia ter sido pelos versos "daqui a pouco, se ofendemos de filho da ditadura, o homem pode engrossar, e fecha a tal da abertura".

Fui assistir Kleiton e Kledir no Palácio das Convenções do Anhembi. Havia shows lá praticamente toda semana e, como eu morava relativamente perto, lá vi Caetano, Rita Lee, Milton Nascimento, Eduardo Dusek, Ney Matogrosso, era uma festa. Quem não é daquela época ou não se lembra pode achar estranho que uma dupla de cantores e compositores gaúchos, que fazia música moderna mas de forte influência sulista, cantava com sotaque e incluía sons de violino e sanfona em seus arranjos fosse extremamente popular. Mas eram, inclusive com as crianças, provavelmente ainda pelos ecos de "Maria Fumaça".

Não sei ao certo se eu me apaixonei pelo Kledir nesse show ou se já fui a ele gamada no moço. Depois do Oscar e do Éder, da seleção brasileira de 1982, Kledir ganhou todos os meus suspiros entre os anos de 1983 e 1984. O show comendo solto e uma pequena multidão de crianças se esbaldando na frente do palco. Pois os gentis cantantes convidam a petizada a subir no palco. Estava eu entre eles? Claro que não! Eu tinha 13 ou 14 anos, e naturalmente já me achava fora da turma dos baixinhos. Mas meu irmão estava! E acabou ganhando um aperto de mão do Kledir, para minha inveja trepidante.

Era uma família toda musical, essa Ramil. Além dos dois, o irmão caçula, Vitor Ramil, revelou-se também um compositor extraordinário, depois virou escritor, como aliás também o é o próprio Kledir.



O terceiro disco da dupla não teve o brilho dos dois anteriores, na minha opinião. E também fez menos sucesso, mas não escapou da censura, tendo a faixa "O analista de Bagé" proibida para divulgação pública. Mas nesse disco, Kleiton e Kledir gravaram uma versão em português para "Bridge over troubled water", de outra dupla conhecidíssima - Simon & Garfunkel. Esta versão, batizada em português de "Corpo e Alma", celebra justamente a amizade entre irmãos, sejam eles de sangue ou de afinidade. Foi uma das músicas escolhidas pelo meu pai, ao lado de "Imagine", de John Lennon, para tocar em sua cerimônia da cremação.

Sunday, August 01, 2010

Uma tarde em 2010



Quem me dera, agora, eu tivese a viola pra cantar. Mas, a viola foi quebrada e jogada na plateia.

A piada contada por Roberto Carlos, nos bastidores do III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, é uma das singelas revelações trazidas pelo documentário "Uma noite em 67", de Renato Terra e Ricardo Calil. O filme, de fato, não se presta a fazer revelações. É uma reconstituição de um acontecimento artístico fartamente documentado, referência para temas tão diversos quanto vaias, Tropicália, guitarras elétricas, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, Sérgio Ricardo, Roberto Carlos cantando samba e além.

"Só queríamos fazer um bom programa de televisão, e que desse tudo certo", diz o produtor Solano Ribeiro logo no início do filme. Alheios a esse propósito simples, os atores desse programa acabaram fazendo uma revolução na música. Talvez Renato Terra e Ricardo Calil quisessem apenas fazer um documentário, mas promoveram um encontro histórico de gerações nas salas de cinema do Brasil.

Fui ver "Uma noite em 67" hoje à tarde com a minha mãe, frequentadora de vários daqueles espetáculos da TV Record. Ela não chegou a ver nenhum dos festivais in loco, pois conseguir ingressos para eles não era tarefa fácil. Mas viu vários programas como "O fino da Bossa" e "Bossaudade" sentada na plateia do Teatro Paramount, na avenida Brigadeiro Luiz Antônio. E assistiu a todos os festivais da Record pela TV. E torceu por Chico Buarque e Nara Leão, em 1966, defendendo "A banda", e manteve a aposta em Chico, em 1967, com "Roda Viva".



Já escrevi aqui e aqui que reverti meu sentimento quanto à nostalgia de um passado que não vivi. Mas o documentário "Uma noite em 67" me fez balançar do conformismo. É bom fruir a produção cultural daquela época com o filtro dos anos. É bom, sobretudo, não ter de tomar partido em uma circunstância tão esdrúxula quanto a passeata contra as guitarras elétricas mas, que diabos!, eu queria muito estar naquele teatro (ou, pelo menos, à frente de uma TV) naquele dia 21 de outubro de 1967!

Não vou me alongar na relevância dos festivais dos anos 1960. Zuza Homem de Mello já escreveu tudo o que precisava ser escrito sobre o tema no livro "A era dos festivais - Uma parábola". Também é inútil teorizar sobre o motivo pelo qual os festivais nunca mais foram como aqueles. O formato festival apenas reuniu em um mesmo palco, e com os ingredientes agudos da disputa, a extraordinária geração de artistas que surgiu naquele tempo.

O documentário "Uma noite em 67" torna-se indispensável para conhecer o tema por um conjunto de atributos. Em primeiro lugar, a reprodução das apresentações originais, e com as músicas exibidas integralmente. Depois de tanto videoclip, de tanta edição nervosa de imagens, de colagens e descontruções de narrativas, como é bom assistir a um filme que respeita o tempo das coisas - músicas, falas, a respiração do entrevistado. Apresentações no palco, entrevistas nos bastidores: está feita a reconstituição do festival. Ali, está o passado, contado e delimitado.

Mas "Uma noite em 67" não se limita a exibir imagens raras. A costura, também muito simples, é feita pelos depoimentos atuais daqueles mesmos personagens - Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Sérgio Ricardo, até Roberto Carlos falou. E ainda Paulinho Machado de Carvalho, um dos proprietários e diretor da Record, o próprio Zuza, consultor do filme, Nelson Motta, Sergio Cabral. E esta costura de depoimentos, ao mesmo tempo que traz à tona informações encobertas, parece ajudar esses mesmos personagens a mergulhar em si mesmos. Tocantes, auto-reflexivas, algumas falas desses artistas expõem o quanto aquela noite de outubro de 67 foi o marco zero de várias revoluções.

Ainda que Chico diga que raramente pensa naqueles tempos e que nem se lembre mais da letra de "Roda Viva".

Ainda que Caetano preferisse ter sua imagem descolada de "Alegria, Alegria".

Ainda que Gil revele o pânico sentido naquele dia e o compare, em nível de angústia, ao que sentiu ao ser preso.



Pois Chico revela que, depois daquilo tudo, acabou se sentindo sozinho, isolado como figura conservadora, o bom moço da MPB.

Pois Caetano localiza naquele evento, na reversão que fez da plateia - da vaia ao aplauso - o momento de se sentir forte para ir além e organizar o movimento.

Pois Gil, olhos a um piscar de derramar lágrimas, admite que ali percebeu a viabilidade de sua ideia libertária de música.

Sorte de quem viveu naqueles anos 1960. Sorte de quem assistir "Uma noite em 67".

Saturday, July 31, 2010

Para embalar este sábado à noite

"Oi Alê, tudo bem?!

Por favor, a hora que vc. puder, dê uma olhada nesse vídeo que fiz! É uma composição nova, quer dizer, já tem uns 7 anos, mas estará presente no próximo CD!"

Este, meu amigo Gê Tock, um dos personagens principais deste post. Um dos meus queridos amigos.

Ele pede minha opinião, mas como sou suspeita, peço também a de vocês. Aproveitem!

Sunday, July 25, 2010

Não aprenderam, não?


"Alonso está mais rádpido que você. Entendeu?" A frase, dita para Felipe Massa pelo rádio, parecia pronunciada em letras de forma, de tão clara e pausada. Veio em inglês macarrônico, daqueles gostosos de ouvir, por serem tão fáceis de entender. Na volta seguinte, Alonso passou e assim venceu o GP da Alemanha de 2010.

Na coletiva, Alonso, Oscar de ator, disse não saber o que aconteceu a Felipe. "Seu carro estava mais lento e eu o passei." Massa não disse que sim ou pelo contrário. "Não tenho nada a falar sobre isso", no melhor estilo depoimento de CPI.

Gente, vamos parar de hipocrisia? Todos nós? Você aí na Ferrari e nós aqui, o mundo. Todo mundo sabe que este é o modus operandi da Ferrari, com regra da FIA ou não, para não haver ordens explícitas de equipe. Vocês acham que nós ainda não aprendemos? Tanto já foi dito e escrito sobre a opção permanente da Ferrari em trabalhar por um de seus pilotos, e fazer o outro de escudeiro. Eu mesma, neste blog, escrevi isto aqui, certa vez. E o fato relatado tem quase trinta anos. Foi assim, depois, nos anos Schumacher/Barrichello.

Se Rubens Barrichello e Massa optaram por aceitar essa condição - a de segundo piloto - é decisão deles. A Ferrari ganhou muitos campeonatos com esta fórmula, e a Red Bull provavelmente vai perder o atual por não fazê-lo e deixar o banana verde do Sebastian Vettel e o esforçado porém limitado Mark Webber brigarem livremente pelo título.

O que me incomoda enormemente na história é a postura pública dos pilotos que são segundos pilotos, mas posam para suas torcidas como primeiros. "Estou na luta pelo título", "Vou correr para ganhar", "Tamo junto, vamo nessa". Não, não vamos nessa, porque a opção da sua equipe é por seu companheiro, não por você. Se você, segundo piloto, aceitou fazer este papel porque isso lhe é conveniente (dinheiro, money, tutu, pilas, verdinhas), good for you. Mas não vou engolir que você está lutando pelo título. Eu já aprendi.

Guardadas as devidas proporções, é o mesmo sentimento que tenho em relação a determinados veículos de imprensa, que são partidários desta ou daquela corrente político-ideológica, mas posam de imparciais. Não discuto a posição. Discuto a mentira. Mentir é feio e faz mal para quem o faz. A verdade às vezes pode ferir, pode até prejudicar quem a diz, mas traz uma leveza de alma que compensa.

Sai do armário, Massa, seja um segundão feliz.

Thursday, July 22, 2010

Dzi Croquettes



“Não somos homens nem mulheres, somos gente”.

Dita logo no início do documentário Dzi Croquettes, a frase acima resume o tom andrógino, revolucionário, libertário e inovador da trupe teatral que marcou o cenário artístico brasileiro nos anos 1970. Há alguns meses, vi uma reportagem sobre o filme, no Canal Brasil, e fiquei muito interessada, principalmente por poder conhecer uma história sobre a qual eu tinha poucas informações.

Outro motivo para minha curiosidade em relação ao Dzi Croquettes estava em seu integrante mais famoso – Lennie Dale. Sua figura surgiu para mim no dia do enterro de Elis Regina (de novo...). Me impressionou muito a figura do homem à beira do túmulo, chorando em desespero. “Quem é que vai cantar pra gente agora?”, ele dizia. Fiquei sabendo que era Lennie Dale, nome que eu já tinha ouvido algumas vezes, sem saber exatamente o que fazia. Definido habitualmente como bailarino e coreógrafo, Lennie era mais que isso. Era um artista completo, um one-man show. Anos depois, lendo “Eis aqui os bossa-nova”, do crítico e meu querido amigo Zuza Homem de Mello, entendi que Lennie Dale não foi só um bailarino, coreógrafo ou homem de cena, mas também uma figura importantíssima da Bossa Nova, seja pelo baú cheio de discos que trouxe para o Brasil quando veio dos EUA, seja pelo profissionalismo que impôs aos shows do “Beco das Garrafas”, templo da música brasileira nos anos 1960, seja pela inventividade harmônica que introduziu nos arranjos em seus espetáculos.



Eu sabia que Lennie Dale tinha a ver com o Dzi Croquettes, mas não sabia que ele não tinha sido seu único criador. Para falar a verdade, eu pouquíssimo conhecia dos outros artistas que fizeram parte do grupo e fiquei até surpresa ao saber que Claudio Tovar, consagrado ator, diretor de teatro e, last but not least, marido da atriz e cantora Lucinha Lins, tinha feito parte da trupe. E, cá entre nós, pela minha idade e pelo meu interesse na cultura brasileira, acho que deveria saber mais. Minha percepção reforça a motivação dos diretores do documentário – Tatiana Issa e Raphael Alvarez. Sócios em uma produtora de Nova York, eles decidiram filmar “Dzi Croquettes” porque perceberam que as novas gerações não conheciam a história do grupo. Bingo, queridos diretores. Se eu, que nem sou tão nova assim, vi o documentário como uma sequência de revelações, imagino os mais jovens.

Coeso e linear, o filme tem muitos méritos, além do resgate da história do grupo. É muito bem editado, mescla imagens da época, fotos e entrevistas recentes de maneira coerente e dinâmica. Gostei, particularmente, da edição de um trecho extremamente emocionante, quando o diretor Amir Haddad fala sobre a morte de Wagner Ribeiro, fundador do Dzi Croquettes. A voz do entrevistado vai se tornando embargada, ele faz pausas. Nas pausas, outros trechos de entrevistas, com outras fontes, preenchem os vazios, complementando o mesmo assunto.

Mas, quem sou eu para avaliar um documentário do ponto de vista técnico... O que me fez sair extasiada do cinema foi a emoção de “Dzi Croquettes”: as cenas do período da ditadura, o contexto autoritário e retrógrado em que os rapazes decidiram levar seu desbunde para um palco no Rio de Janeiro, a absoluta transgressão de corpos semi-nus (que mané semi-nus, o quê?! Peladões, só com tapa-sexo e olhe lá!), o entusiasmo e a devoção de artistas consagrados, como Liza Minelli, Betty Faria ou Ney Matogrosso, ou nascentes na época, como Miguel Falabella, Jorge Fernando e Claudia Raia, os tristes desfechos cercados de AIDS e assassinatos da maioria de seus integrantes. E tudo costurado com o depoimento da própria diretora, filha de um “agregado” do grupo, o iluminador Américo Issa, morto em 2001. Ou, como ela diz, “transformado em purpurina”.



Ao ver aqueles corpos magérrimos, só músculos e ossos, e aquelas caras pintadas, impossível não associar a imagem do “Dzi Croquettes” ao fenômeno “Secos & Molhados”, origem do próprio Ney. Estranhei o fato de não haver nenhuma ponte sobre isso no filme. Quem teria influenciado quem? Se alguém souber (Tatiana? Raphael? Mais alguém?), gostaria de saber.

Muitas vezes, quando vejo cenas de um tempo que não vivi, prevalece a frustração. “Não sou deste tempo, nasci em época errada, quem me dera ter visto isso ao vivo...” Com o passar do tempo, passei a ter outra visão sobre o tema. Até porque, não adianta mesmo: o DeLorean do “De Volta para o Futuro” só funciona no filme. Por vezes, fico pensando que é melhor conhecer alguns ícones do passado com o filtro dos anos, com o distanciamento das décadas. Algumas coisas foram inovadoras demais, transgressoras demais. Será que eu, com minha formação classe-média-católica-paulistana teria sintonia com uma produção cultural tão rompedora como foram os “Dzi Croquettes”? Morro de medo de pensar que eu estaria do outro lado, achando aquilo tudo uma “pouca vergonha”. Como escrevi certa vez, aqui, é fácil olhar a revolução com os olhos de hoje e se posicionar a favor dela. Mas, será que estaríamos todos prontos a abraçá-la?

Sunday, July 18, 2010

The man


Dois pilotos lutando pela liderança da prova. Jorge Lorenzo e Dani Pedrosa. E não apenas disputam o primeiro lugar na etapa da Alemanha da MotoGP. São, também, os dois primeiros colocados na temporada. Lorenzo larga na pole, mas o compatriota Pedrosa coloca-se melhor e assume a ponta. Lorenzo dá-lhe o troco algumas voltas depois. Essa ultrapassagem, meus amigos, ninguém sabe, ninguém viu. Sabem por quê?

Porque o diretor de imagens da TV estava preocupado em mostrar a disputa pelo quinto lugar. Simplesmente porque a disputa pelo quinto lugar envolvia Valentino Rossi. Seis semanas atrás, Rossi sofreu um acidente sério, quebrou a perna em dois lugares, inclusive com fratura exposta. Cirurgia, pinos, fisioterapia, uma bengalinha charmosa, e Rossi recebeu autorização dos médicos para voltar na prova deste domingo.

Escrevi isso no Twitter, na hora da corrida, e repito aqui: Valentino Rossi, provavelmente, é o maior piloto de qualquer coisa que já vi na vida. Alia características que costumamos ver divididas entre vários profissionais do volante (ou do guidão). Técnica apurada, velocidade, audácia, capacidade de desenvolvimento da máquina, lealdade, carisma, simpatia e uma habilidade incomum para lidar com a imprensa, com os fãs e com tudo o que envolve o evento MotoGP.

Em um mata-mata com Schumacher, uma analogia previsível até por serem contemporâneos, voto em Rossi, principalmente por superar o alemão no quesito esportividade/lealdade. Já vi Rossi fazer manobras espetaculares, corajosas e extremas. Não me lembro de nenhuma que pudesse ser considerada desleal. Se os leitores lembrarem de alguma, fiquem à vontade para refrescar minha memória. Já Schumacher...

Comecei muito bem o domingo, assistindo à volta de Rossi às pistas. Welcome, The Doctor. Você, definitivamente, é the man.

Tuesday, July 13, 2010

Cuca legal


O primeiro parágrafo deste post é uma confissão púbica. Quando consegui meu primeiro emprego, fui trabalhar em um local que mantinha o péssimo hábito de cancelar minhas folgas de maneira muito arbitrária. Sempre fui dedicada, CDF de dar nos nervos, mas uma hora me enchi e resolvi parar com a brincadeira. Ligavam do jornal, eu atendia e dizia, simplesmente: “Sinto muito, ela não está, não sei a que horas volta.” Se me perguntassem quem estava falando, respondia impávida: “É a mãe dela, pode deixar, eu dou o recado.” O segredo manteve-se enterrado por tantos anos por uma razão desconcertante de tão simples – minha voz é idêntica à da minha mãe. Nunca pretendi ou precisei imitar a voz da minha mãe. São iguais, apenas isso.

Isto posto, marco desde já minha posição em relação àqueles que se referem a Maria Rita como uma “imitadora de Elis Regina”. Genética, minha gente. A voz da filha é igual à da mãe, como igual é seu sorriso que deixa ver tanto dentes quanto gengiva, e espreme os olhinhos a ponto de virarem dois risquinhos chineses acima das bochechas protuberantes. Já escrevi sobre Maria Rita neste post, quando ela lançou o terceiro CD, Samba meu. Na época, não fiquei tão encantada com o disco, como havia ficado com os dois primeiros, mas depois fui vencendo o preconceito e curti muito várias faixas daquele disco. Nesta segunda-feira, fui ver Maria Rita pela primeira vez em carne e osso, em um espetáculo “íntimo e intimista”, como ela mesma definiu, no Tom Jazz.

Flashback rápido. Em 1980, eu era leitora por tabela da revista Claudia, comprada mensalmente pela minha mãe. A revista (quem se lembra?) tinha um encarte fixo, em papel jornal, com notas curtas, tipo notícia mesmo, sem a profundidade das matérias sobre comportamento, moda e beleza, que formavam a piéce de resistance da publicação. Notas, por exemplo, sobre espetáculos. Lembro de ler sobre “Saudade do Brasil”, espetáculo da Elis em cartaz, na época, no Canecão, Rio de Janeiro. O texto era mais ou menos assim: “Além de ver o show, você pode beber uma cerveja e beliscar batatinhas fritas enquanto isso.” Achei um descalabro: como alguém pode mastigar uma porção de fritas engorduradas enquanto Elis Regina canta “Conversando no bar”?! Respirar no mesmo recinto já é quase uma afronta, quanto mais comer e beber enquanto o milagre se processa ali, na sua frente. Enfim, nunca gostei de lugares onde se canta, se toca e se come ao mesmo tempo. Música, para mim, não é pano de fundo, é centro das atenções. O Tom Jazz é uma casa onde se canta, se bebe, se come e se toca, tudo ao mesmo tempo. Sempre vou preferir teatros, mas não nego a vantagem de estar em um local com essa configuração “intimista”: a mulher fica logo ali, a poucos passos de distância. Quem quiser comer e beber, paciência. Eu fui para ouvir. Oh, boy... E como ouvi.

Acústica excelente e músicos idem. Tiago Costa no teclado, Sylvinho Mazzuca no contrabaixo e Cuca Teixeira na bateria, aquele formato jeans-e-camiseta que Maria Rita vestiu nos primeiros shows e discos. E que este figurino fique apenas no sentido figurado, porque a moça está glamourosa que só ela, sequinha dentro de um vestido reto, curto e justo de paetê grená, cabelão poderoso. A sensação de pocket show termina ao primeiro acorde. O som dos três instrumentos preenche a casa de shows como uma massa musculosa de timbres bem definidos. E quando Maria Rita surge, sem alarde, o quarto instrumento se instala e a jam session começa. Músicos, meio brincando, meio dizendo a verdade, às vezes caçoam de cantores, chamando-os de canários, como se fosse mais fácil “apenas” moldar a voz à melodia do que dedilhar cordas, ou espalmar as mãos em acordes virtuosos sobre o teclado. Que isso valha para certa classe de cantores, mas não para músicos-cantores como é Maria Rita.

Eu imaginava que ela tinha essa característica, tive a certeza vendo-a ao vivo. “Há canções e há momentos, eu não sei como explicar, em que a voz é um instrumento que eu não posso controlar”, canta Milton Nascimento em “Canções e momentos”. Maria Rita, cantora, é a quarta instrumentista do grupo. Canários reproduzem a melodia, instrumentistas não se contentam. Reinventam. Por isso é tão recompensador ouvir Maria Rita cantar músicas que outros já gravaram. Ela subverte um rock em balada, transforma foxtrot em jazz. Foi o que fez, neste show, com “Só de você”, de Rita Lee, gravada com participação especial de César Camargo Mariano, pai de Maria Rita, no já longínquo ano de 1982. Maria Rita pegou a canção, confabulou com os colegas músicos e fez da deliciosa baladinha pop um jazz poderoso.

Foi na mesma linha com “A história de Lily Braun”, do espetacular LP “O grande circo místico”, gravada originalmente por Gal Costa, naquele mesmo período, início dos anos 1980. Neste caso, a releitura transcende a própria música. Maria Rita parece subir uma montanha enquanto canta a saga da cantora de cabaré que arrebata um fã. O fascínio, o flerte, a conquista, a paixão, a Lily Braun de Maria Rita vai subindo ao céu enquanto se consuma o encantamento com o homem dos seus sonhos. Mas eis que a cantora da história sucumbe ao pedido de casamento, abdicando do palco, da trupe, da turnê. Neste momento, Maria Rita vai além da interpretação afinada e irrepreensível de Gal. Ela – e seus músicos, claro – depois de atingirem o céu com a paixão de Lyly Braun, parecem começar a descer uma ladeira imaginária. “Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drink no dancing, nunca mais cheese, nunca uma espelunca, uma rosa nunca, nunca mais feliz”. Cantora, instrumentista, atriz. Maria Rita contou e viveu a história de Lily Braun, transpirando na voz e na expressão corporal o contraste de sentimentos da personagem.

Maria Rita conta que escolheu o repertório deste espetáculo com base em “músicas que gosta de cantar”. Termina com sua interpretação arrebatadora de “Minha alma”, d´O Rappa, que já defini outras vezes como “o ouro de não-tolo do século 21”. Raul Seixas nos deu “O ouro de tolo” na época do milagre, um retrato da classe média acomodada com seus valores de pequeno burguês. O Rappa desnudou o inconformismo diante dos valores segregacionistas da elite que se esconde atrás das grades do condomínio. Maria Rita termina o show com esta canção-manifesto, entregue ao esforço vocal que impôs à música com sua interpretação intensa. Termina extenuada, para depois voltar e arrematar com “Encontros e despedidas”, de Milton e Fernando Brandt, e mais uma vez, “Cara valente”, do hermano Marcelo Camelo.




Quando Milton Nascimento deu “Encontros e despedidas” para Simone gravar, em 1982, senti o gesto como uma invasão. Ora, Simone parece ser uma pessoa doce, uma cidadã engajada, uma mulher de enorme valor. Mas, perdão, “Encontros e despedidas” evidentemente era uma canção feita para Elis. Milton sempre disse isso. Compôs a vida inteira para Elis, antes que ela gravasse sua primeira música, “Canção do sal”, continuou compondo por muitos anos, e seguiu pensando na voz dela, para suas canções, mesmo depois que ela morreu. Ao ouvir “Encontros e despedidas” na voz de Simone, pela primeira vez, levei um choque. Nunca deixei de ouvir esta e várias outras músicas pensando como ficariam na voz de Elis. Durante algum tempo, tive um sentimento ambíguo por Elis Regina. Amava devotadamente sua obra, mas não conseguia absorver sua morte, precoce, sofrida, estúpida, evitável, chocante. Elis, como observou a própria Gal Costa, certa vez, era capaz de vivenciar a emoção de suas músicas de uma forma quase incompreensível até mesmo para cantoras. Quem a viu cantar “Atrás da porta”, aos prantos, sabe do que estou falando. Cantava, chorava, sofria verdadeiramente com a letra, e não saía do tom! Elis não cantava apenas, Elis sentia as canções.

Por isso, nesta segunda-feira, vendo Maria Rita segura, altiva, absoluta em uma carreira que é dela, não de sua mãe, tive a sensação de que Elis estaria satisfeita. Porque é impossível pensar que ela cantava que queria “a esperança de óculos, e meu filho de cuca legal”, sem ter certeza de que ela não só cantava, mas vibrava intimamente por isso. Aquela cantora-instrumentista-atriz que eu vi no palco do Tom Jazz é a filha de cuca legal com que uma mãe pode sonhar.