Tuesday, April 25, 2006

Micropolêmica

Mãe joga filho no rio. Filho mata mãe com golpe de judô.
A humanidade está eternamente condenada à lei de ação-reação.

Friday, April 21, 2006

Telê


O jogo era contra a Itália e minha mãe inventou de fazer nhoque.
Meu pai achou por bem acompanhar com pão italiano.
Aquilo não me soou bem.
Tínhamos moído a Argentina, o mundo era nosso.
Não percebi que perder, ali, não podia.
O empate era nosso, mas que retranca?
Fechar o time? Botar na roda? Cera?
Mataria o time, alegando desonra.
Cerezo sozinho, de costas.
Nem um grito, um alerta.
"Cuidado, ladrão!"

Daí pra frente, sempre detestei perder por 3 a 2. E fiquei de bico com nhoque e pão italiano por um bom tempo. Chorei e sofri, como nunca antes, nem depois, pelas coisas da bola. E foi ali que a bola me fisgou. Devo essa a Telê Santana.

Friday, April 14, 2006

Reforma do código penal

Não, não sou advogada. Mas às vezes me ocorrem sugestões para melhorar nossos diversos códigos de leis. E como precisamos de pausa para rir um pouco, convido os amigos a compartilhar as minhas e contribuir com novas idéias.

Já é tempo de classificarmos como "crimes hediondos" as seguintes infrações, incorreções, inconveniências e aporrinhações:

- usar uma fita colante (de qualquer espécie: durex, fita isolante, esparadrapo etc.) e não dobrar-lhe a ponta após o uso (já tentou usar uma assim, depois que algum infeliz esqueceu de dobrar a pontinha?).
- referir-se a marcas e modelos de carros com apelidos ou diminutivos: Merça no lugar de Mercedes Benz, BM em vez de BMW (isso é um asco!), Fuca substituindo Fusca. Enquadram-se na categoria os abomináveis Gol Quadrado e Gol Bolinha.
- falar com entonação de idiota quando se dirige a um bebê. Falar com entonação de bebê quando se dirige ao(à) namorado(a). Chamar o(a) namorado (a) de bebê.
- exclusivo para homens: tingir os fios do bigode. (aliás, bigode sem barba não é bem um crime hediondo, mas um passo para continuar sozinho nas noites de sábado)
- exclusivo para mulheres: mini blusa + calça de cintura baixa + formações adiposas abdominais (incorrer nesse crime deveria dar direito a cumprir a pena em um spa. Como o estado não dispõe de recursos para tal, no lugar de spa, esparadrapo. Feche a boca ou mude o look, minha filha. E não se esqueça de dobrar a ponta do esparadrapo depois!)

Quem dá mais?

Monday, April 10, 2006

Custo, preço e valor




Uma das principais críticas feitas à viagem do astronauta brasileiro - o militar Marcos César Pontes - diz respeito ao gasto de US$ 10 milhões por parte do governo federal.

(Outras duas críticas me parecem pouco defensáveis. A saber, a primeira: a de que a viagem de Pontes é mera propaganda eleitoreira de Lula não se sustenta porque o programa começou há oito anos, portanto, durante a gestão FHC. E a segunda: de que os experimentos feitos por ele no espaço não servem de nada, mas ainda que assim fosse, eu concordaria com o próprio coronel, que enxerga em sua missão um fator de motivação aos jovens em formação.)

Mas voltando à cifra dos 10 milhões. Não achamos despropositados os valores que envolvem as grandes transações no futebol: Tevez veio para o Corinthians por 20 milhões de dólares, o Real Madrid pagou 30 milhões para ter Robinho. Tudo ali, na lata. Não quero dizer que 10 milhões sejam dinheiro de pinga nem omitir o fato de que, no caso dos jogadores, é dinheiro privado, enquanto a viagem do astronauta é dinheiro público.

No entanto, 10 milhões investidos em oito anos representam 1,25 milhão/ano, o que não me parece nenhuma soma absurda. Na esteira da crítica quanto ao valor absoluto gasto pelo governo, vem a queixa de que o Brasil poderia investir esses 10 milhões na formação de muitos cientistas. Nas últimas décadas, o Brasil tem conseguido formar e até exportar cientistas, sobretudo, graças às parcerias do governo com a iniciativa privada. É o tipo de relação "boa para ambas as partes": as instituições públicas, como as universidades, ganham acesso às tecnologias mais recentes, viabilizadas pelo contato com as empresas, e a iniciativa privada pode contar com a mão-de-obra de melhor nível em formação no país.

Uma exposição do país nesse programa, enviando um cientista para o espaço, não funciona, no mínimo, como estímulo para que outras empresas adotem políticas de parceria e participação junto a instituições de ensino e pesquisa? Eu acho que funciona.

Friday, April 07, 2006

Teto de vidro

Tenho dito por aqui que sou uma incorrigível otimista e espero sempre cultivar essa característica. Um dos aspectos mais positivos trazidos pela crise de ética instalada no Brasil, especialmente do meio de 2005 para cá, foi na minha opinião a oportunidade da reflexão e do debate.

Foi como se o PT, pilhado em flagrante, determinasse a queda do último bastião de honestidade da nação. Não é o meu caso, mas muita gente que nunca tinha votado no PT acreditou no partido, nas últimas eleições presidenciais, pela aura de ética que seus candidatos sempre fizeram questão de transparecer.

Destruída essa ilusão, parece-me que parte da sociedade caiu em uma desesperança sem precedentes, daí a quantidade tão grande de intenções ao voto nulo, como as que tenho ouvido aqui e acolá. Mas uma parte da nação me parece disposta a olhar a situação por outro ângulo.

Os outros roubavam e mentiam, esses roubam e mentem. Não presta ninguém. Eu também não presto? Tenho sido ético e honesto em todos os momentos da minha vida? Desonesto é só o político que desvia dinheiro público para negociações escusas de bastidor?

E a empresa que eu abri no município vizinho e que me permite recolher menos impostos, ainda que eu não atue lá?
E a nota "espelhada", que preencho com valor correto para o cliente e subfaturada para o controle fiscal?
E o carro que eu emplaquei numa cidade do sul do país, para me locupletar de uma taxa de licenciamento menor e para escapar de eventuais multas?
E o material de escritório que subtraio dia a dia do local onde trabalho?
E a fita isolante maquiando a placa do carro, para que ele não seja identificado nos radares da cidade?

Os políticos erraram, erram ainda e continuarão errando enquanto refletirem os hábitos, vícios e erros da sociedade que os elege.

Acerca do tema, escreveu a psicóloga Rosely Sayão, com quem cheguei a cruzar na redação da Folha, muitos anos atrás, e ela certamente não se lembra de mim (mas eu a tenho em altíssima conta, pela lucidez das posições, pelo tanto que ela me ilumina e inspira na criação do meu filho).

Recomendo entusiasticamente a leitura deste artigo, publicado na edição de ontem do caderno Equilíbrio, da Folha de S. Paulo.

Sunday, April 02, 2006

E agora, José?



Seguindo o movimento iniciado no blog do Pedro Alexandre Sanches, abro o espaço para os comentários acerca do tema acima.

Estejam à vontade.

Tuesday, March 28, 2006

A Banda x Disparada – o desempate



O II Festival da Música Brasileira completa 40 anos neste ano. Para quem não viveu ou já não lembra, um breve contexto, extraído do livro “A era dos festivais – Uma parábola”, do jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello. O festival realizado pela TV Record, em 1966, entrou para a história ao consagrar duas músicas no primeiro lugar: A Banda, de Chico Buarque, cantada por Nara Leão, e Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues.

A disputa entre as duas músicas foi acirrada a ponto de dividir a platéia, a audiência e de virar tema de comentário em todo o canto da cidade de São Paulo. As eliminatórias do festival começaram em setembro de 1966. Disparada classificou-se na primeira eliminatória. A Banda, na segunda. No dia da grande final, realizada no Teatro Record, na rua da Consolação, cinemas e teatros chegaram a cancelar sessões de suas atrações, tamanho o alvoroço causado pelo festival.

O resultado anunciado pelo apresentador Randal Juliano sacramentou o empate entre as duas músicas no primeiro lugar. O que a maioria das pessoas nunca soube, até 2003, é que o empate não aconteceu de fato. Os jurados reunidos deram vitória para A Banda, mas uma seqüência de decisões mudou o rumo da história.

Primeiro, Chico Buarque deixou claro, nos bastidores, que não aceitaria o prêmio, porque considerava Disparada melhor que sua música. Ao saber disso, um dos diretores e herdeiros da Record, Paulinho Machado de Carvalho, foi até a sala dos jurados e falou sobre a decisão de Chico. Influenciou o grupo a optar pelo empate, ponderando que seria a única forma de não deixar metade da platéia, e da audiência, frustrada. Comunicou o acerto a Chico, que aceitou dividir o prêmio, mas os outros compositores e demais participantes foram informados de que teria havido empate entre os jurados – seis votos para cada música.

A verdadeira história só veio a público quando Zuza lançou seu livro. Além de revelar a real escolha dos jurados, Zuza conta os bastidores da votação, mostrando como a divisão de torcida pelas duas músicas chegou inclusive a contagiar o júri. Houve quem tivesse votado na música de Chico, mas que depois dizia preferir Disparada.

A proposta, agora, é: 40 anos depois, vamos brincar de jurados e desempatar esse primeiro lugar? Entre A Banda e Disparada, para quem vai seu voto?

Como boa anfitriã, deixo meus comensais se servirem primeiro, depois dou minha opinião, mas prometo ir contando historinhas saborosas sobre o II Festival da Record aí embaixo, nos comentários. Para quem não conhece as músicas ou quer relembrá-las, é só clicar nos links abaixo.

Zuza, obrigada!

www.letradelta.com.br/disparada.mp3

www.letradelta.com.br/abanda.mp3



Monday, March 20, 2006

Assino embaixo

A coluna "Politicamente Responsáveis", escrita pela cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora Vange Leonel é um primor de coerência e concisão sobre o tema e, sem tirar nem pôr, representa também a minha opinião.

O original foi publicado na edição do dia 12 de março, na Revista da Folha, e a íntegra pode ser lida nesse link abaixo:

http://vangeleonel.blogspot.com/

Vamos ao debate?

Monday, March 13, 2006

Reminiscências 1 – Chicletes

Estudei dos 4 aos 17 anos em um colégio de freiras. Muito do que sou devo a essa formação – para o bem e para o mal, como tudo na vida. Poucos antes de começarem as aulas na 1ª série, fui acometida por um medo paralisante, o de ficar na classe de uma tal professora que era temida como a mais brava da escola.

Eu não ligava o nome à pessoa certa e, em meus pesadelos, ela surgia com a fisionomia de uma outra professora, que eu via circular pelos corredores e pátios do imenso colégio. Escapei ilesa na primeira série: não “caí” com a tal megera. Dois anos depois, em 1979, no entanto, aquela que eu imaginava ser a bruxa da 1ª série, na verdade professora da 3ª, veio a ser a minha mestra.

A confusão de fisionomias, vista em retrospectiva, evidencia para mim o quanto a aparência física revela da personalidade. Aquela que eu imaginava ser a bruxa da 1ª série tinha um porte ereto, rosto comprido e sisudo, cabelos invariavelmente repartidos ao meio e presos com uma fivela em um rabo-de-cavalo baixo. Tinha cara de brava, ponto. Pois quando aportei em sua classe, na 3ª série, ela confirmou todas as minhas expectativas.

Como é vivente, subtraio seu nome verdadeiro. No primeiro dia de aula, acomodadas todas as alunas (sim, só mulheres) em suas respectivas carteiras, ela proferiu a seguinte regra. “Meu nome é Fulana de Tal. Não sou irmã nem da mãe nem do pai de nenhuma de vocês. Portanto, não sou tia de ninguém aqui. Vocês podem me chamar de Fulana ou de dona Fulana, nunca de Tia Fulana.” Uau, que começo!

Era um mini-quartel a classe da Dona Fulana (é claro que nunca ninguém ousou chamá-la sem o dona na frente). Não se pedia para ir ao banheiro. No fundo da classe, ao lado da porta, uma plaquinha dupla-face pendurada em um barbante. De um lado, apenas um papel cartão verde. Do outro, um papel cartão rosa, com um ponto de interrogação. Sinal verde, banheiro liberado. A aluna saía, virava a plaquinha. A próxima só poderia sair quando a anterior voltasse. E desvirasse a placa.

Uma das regras da Dona Fulana, válida para toda a escola, desconfio, era a de não poder mascar chicletes durante a aula. A massa ignara de meninas de nove anos, logicamente, assentiu. Mas o ano foi passando, a acomodação aumentando, até que uma incauta resolveu adentrar a fortaleza mascando um chiclete. Deve ter esquecido, não tinha vocação suicida de rebelde, a coitada. Dona Fulana notou a displicência ruminante da menina e a chamou lá na frente. Mandou-a subir no estrado, aquele lugar que separava a autoridade suprema das perigosas meliantes de saias azul-marinho pregueadas.

“Sicrana, você está mascando chicletes?”. Sicrana engoliu em seco, não o chiclete. “Sim, professora.” “Sicrana, tire seu sapato.” Atônita, a menina ensaiou um balbuciante “mas, prof...”. “Tire seu sapato, eu já falei.” A menina descalçou um dos pés. “Agora, tire seu chiclete da boca, coloque dentro do seu sapato e calce-o novamente.” Diante do espanto da mascadora infratora, Dona Fulana repetiu a ordem. Sicrana ainda tentou argumentar. “Mas, professora, o chiclete vai grudar na minha meia!” Ao que Dona Fulana concluiu, regozijando-se visivelmente: “Exatamente, Sicrana. Porque se eu apenas tivesse chamado sua atenção e mandado um bilhete para sua mãe, dizendo que você estava mascando chiclete na sala de aula, ela poderia achar que eu tinha inventado. Assim, ela vai ter certeza.” E mandou a menina de volta para sua carteira.

Esse exercício de autoritarismo, baseado em humilhação pública, nunca me saiu da cabeça.

Corta a cena.

2006. Conversando com minha prima Camila, artista plástica formada pela FAAP e monitora da Pinacoteca do Estado de São Paulo, ela me relatava as agruras de acompanhar grupos de estudantes pelo museu. Um lugar de simplicidade espartana – paredes e quadros, basicamente – mas altamente suscetível a atos de vandalismo. Entre as regras da instituição, tchan-tchan-tchan-tchan!, não se pode mascar chicletes no local. Claro! Algum engraçadinho pode resolver grudar sua goma de mascar em um Almeida Junior ou num Tarsila do Amaral. Ou, sejamos otimistas, o chicle pode virar aquela coisa sem gosto e desagradável ao longo do percurso. Jogar onde?

Camila adverte a todos os grupos, antes de começar a visita. Nada de chicletes. Cansou de reforçar a regra a incautos, durante o percurso. Um deles até estourou uma bola enquanto ela dava as explicações sobre as obras. Certo dia, o insólito se instalou. Junto a um grupo de estudantes, mascava chicle, candidamente, uma professora! Camila foi sutil e lhe pediu que se livrasse daquilo. Veio uma desculpa inverossímil – algo como hipoglicemia ou gastrite justificando a mascação.

Entre a humilhação de Dona Fulana e a displicência da atual professorinha, onde nos perdemos? Será que a mestra atual foi aluna de Dona Fulana? Perdemos as rédeas do bom senso?

Wednesday, March 08, 2006

Mulheres na pista

O simpático site F1 na Veia fez um especial sobre o Dia Internacional da Mulher. O jornalista Alexandre Almeida Galvão me entrevistou e o resultado pode ser conferido aqui:

http://www.f1naveia.com/2006/noticias/noticia.php?cod=004393

Valeu, Alexandre, ficou bem legal!

Tuesday, March 07, 2006

As sete porcarias da corrida a pé

Muito já se falou sobre as sete maravilhas da corrida a pé. Como entusiasta deste que é o mais simples e democrático dos esportes, concordo com todas elas. Sinto-me tão bem correndo, depois de correr e com a perspectiva de correr que, desconfio, o número deve ser bem maior que sete. E, como todo atleta amador que se preze, acabei mordida pelo bicho da competição e tenho feito corridas desde 2002. Adoro, de verdade, mas sempre penso que a vida é feita de compensações. Para compensar tudo de bom que a corrida me traz, tenho de agüentar alguns aspectos desagradáveis.
No último domingo, 5 de março, corri a prova de abertura do circuito da Corpore (Corredores Paulistas Reunidos), na Cidade Universitária. Ótimo evento, dez mil participantes estimados, duas provas simultâneas (5 e 12 km - corri a de 12). Durante o percurso, fiquei atentando para aquilo que eu chamo "As sete porcarias da corrida a pé". Porque enaltecer já virou lugar comum. Em ordem crescente de pentelhação, aí vai minha relação:

7º lugar - Eleanor Rigby
É impressionante a capacidade do paulistano de se meter em congestionamento, mesmo que seja um domingo, às 7h da manhã. O trânsito estava parado antes de entrar na Cidade Universitária. Lá dentro, quarenta minutos para estacionar. O frisson da largada chegando e o desespero batendo. Não tivemos dúvida: largamos o carro na avenida da Raia, no meio da avenida! Tudo bem, um prende o outro, mas todo mundo sai mais ou menos ao mesmo tempo, impera a camaradagem. Mas, sozinha no meu carro, olhava ao redor e via a maioria dos carros também assim, com um único ocupante. Caramba! Será que não tinha ninguém que mora perto de mim e que poderia ter ido de carro comigo? Se todo mundo pensasse - e agisse - assim (eu incluída), teríamos a metade dos carros lá! Olhava ao redor e só lembrava de uma música dos Beatles, que tem tocado muito lá em casa, ultimamente: "Ah, look at all the lonely people...".

6º lugar - Hum, que cheirinho...
Correr no meio de um monte de gente é uma experiência riquíssima em termos de cheiros. No começo, antes da largada, impera o odor de desodorante, com toques do detestável aroma de cânfora, que alguns passam para evitar contusões. Ao longo da corrida, valha-me Deus! Começa a mistureba de perfume, que exala com o suor, cânfora, toques adocicados, advindos de isotônicos e suplementos de carboidrato, e o indefectível cheio de corpo (suor, cecê, catinga, budum - escolha seu termo preferido). Como é impossível prender a respiração, agüente!

5º lugar - Que a força esteja com você!
Eu sei que a intenção é das melhores, mas tenho ímpetos de esganar aquele pessoal da organização da prova, que se posta nas laterais e fica bradando palavras de incentivo a quem está correndo. Fala sério: onde esse pessoal fez curso de estimulação à superação de desafios? Deve ter sido assistindo à série completa do Karatê Kid. "Vamos lá, pessoal!", "Não pára agora, não!". Sempre tenho vontade de falar: "Puxa, obrigada. Se você não me lembrasse de que tenho que correr, era capaz de eu esquecer que ainda faltam cinco quilômetros!"

4º lugar - Cuidado, pista escorregadia
É o mal de correr onde passa carro. Manchas de óleo podem virar ameaças terríveis quando cai uma agüinha. Trechos mal pavimentados são outro perigo constante. Fora olhos de gato e outras armadilhas. Uma vez, correndo na Rubem Berta, durante uma prova, vi um senhor se esborrachar depois de tropeçar num olho de gato. Chocante.

3º lugar - Planeta Água
Sim, precisamos de água, mas os postos de água são um momento de tensão quase indescritível apra mim. Primeiro porque o povo começa a cruzar na sua frente, como se não houvesse amanhã! O problema todo é a atitude dos corredores, que algumas vezes parecem correr como se estivessem sozinhos no mundo. Bebem água, jogam na cabeça e atiram o copo para o lado, à meia altura. Já fui alvejada diversas vezes por esses artefatos! O povo precisa aprender: só joga para o lado se estiver na lateral da pista, e joga alto, porque pode estar vindo alguém para ultrapassar. Caso contrário, simplesmente deixe o copinho cair, junto ao seu corpo!

2º lugar - O que você está fazendo aqui?
Provas simultâneas, como essa de domingo, costumam trazer esse problema: mistura de gente rápida com gente muito lenta. Eu apóio entusiasticamente a criação de provas mais curtas, como as de 5 km, como forma de incentivar novos praticantes, mas pelo amor de Deus, façamos largadas separadas! Pessoas que estão começando a correr são naturalmente mais lentas. E eventualmente correm em grupos, como forma de um incentivar o outro. Sentiu o drama? Mais lento e em grupo: da largada ao final, vão tagarelando, tecendo comentários sobre a prova ou falando da vida, como se estivessem no parque. Nessa prova de domingo, peguei tantos grupos assim, nos três primeiros quilômetros, que fiz esses trechos em marcas acima de 6 min/km, o que prejudicou muito meu tempo final.

1º lugar - Pipi-room
Não poderia ser diferente: o primeiro lugar no concurso das porcarias das corridas a pé vai para... os banheiros químicos! Se existe mesmo o inferno, o umbral ou qualquer outro termo correlato, ele deve ser parecido com um banheiro químico. Todas as sensações de desconforto que um ser humano pode sentir parecem condensadas nessa verdadeira instituição dos grandes eventos públicos. É sujo, abafado, claustrofóbico, desconfortável, cheira mal. Depois de pegar uma fila enorme para usá-lo, encontramos o recanto cheio de papéis fétidos, eventualmente molhado e, claro, com a descarga emperrada. Uma das minhas grandes satisfações, ao fazer provas "menores", como as do Clube Espéria, é poder usar o banheiro de verdade do lugar. Para ver como a vida é feita de pequenas alegrias.

Mas que ninguém se engane: estarei na próxima corrida, a postos, doidinha para bater meu melhor tempo! Quem não veio, venha comigo: as sete porcarias são nada perto das dezenas de maravilhas da corrida a pé!

Thursday, March 02, 2006

O grande armário

Dá uma passadinha lá no GPTotal e veja minha coluna "O grande armário", depois comenta, lá ou aqui.


Monday, February 27, 2006

Crianciocracia

Sou prestadora de serviço em duas das mais importantes maternidades de São Paulo. Sempre que tenho a oportunidade de passar por seus corredores de internação, presto atenção aos enfeites de porta. Nos últimos tempos, tenho me deparado com um tipo de enfeite que me deixa espantada. Um desenho de um menino ou de uma menina (crescidos, não bebês) e uma inscrição: "Nasceu meu irmão Fulano" ou "Meu irmão fulano chegou". Entendi direito? Quer dizer: importante é que o bebê recém-nascido é irmão do filho mais velho? Ou seja, o filho mais velho é a referência máxima da família?
Antes que possa parecer que advogo em causa própria, registre-se: eu mesma sou primogênita. Mais: também sou mãe, e de um único menino, portanto sei o que é ter um filho e ter por ele o maior e mais intenso sentimento de amor que um ser humano pode experimentar. Só que penso também o seguinte: se eu tivesse um segundo filho, ele seria um outro filho, antes de tudo, e não o irmão do meu filho mais velho. Por que os pais têm embarcado tão acintosamente nessa onda de culto à personalidade de seus rebentos?
Eu tenho um palpite, mas antes vou relatar outro tipo de situação muito freqüente. Da mesma maneira que vejo pais e mães fazerem seu mundo girar em torno do do filho, escuto homens e mulheres com crianças pequenas tecerem loas a tal hotel que é "ma-ra-vi-lho-so, porque tem monitores ótimos, você pode deixar a criança brincando o dia inteiro enquanto você joga cartas ou bebe caipirinha na beira da piscina". Ou pais e mães que viajam, vão para o clube ou para o restaurante com a criança e uma babá a tiracolo. Ou pais e mães que se valem a todo o tempo de avós ou o restante da parentela para ficar com a criança enquanto eles viajam ou curtem uma noitada com os amigos, "porque é preciso um tempo só para você, né?".
Fica muito direta a relação, na minha cabeça: o culto à personalidade do filho tem raiz em consciência pesada. Ninguém precisa fazer o mundo girar em torno da criança, basta dar a ela atenção pelo menos nos momentos de descanso da família. Mas me parece que muitos pais e mães, hoje, ainda não se conformam com a inexorável necessidade de amadurecer. Querem continuar "jovens", querem momentos só para si, alijando a criança que se entedia de seus programas de adulto, e com razão torna-se uma figura imprópria para uma balada.
Daí, compensa com esse tipo de simbolismo absurdo, tentando fazer crer que a criança é o centro de todo o resto, protagonista absoluto, até na chegada de um novo ser humano à família.

Monday, February 13, 2006

Cheguei, espero passar


Estávamos vendo TV, eu, meu irmão e minha avó. Férias, quase hora do almoço. Minha mãe vem da cozinha, passada. “A Elis morreu.” Depois do alvoroço inicial, não registrei nada de grande monta nos minutos seguintes. Fim do dia, rádio ligado na Jovem Pan, Zuza Homem de Mello faz seu programa diário. Estranhei. “Puxa, eles eram tão amigos, achei que hoje ia faltar.” Ao que minha mãe explica, dizendo algo como a vida continua, ou o show não pode parar. Eu tinha onze, quase doze anos. Elis, 36.
Ontem, dia 12, fiz 36. A idade ficou na minha cabeça como as imagens do velório e do enterro, pela TV. E as sucessivas matérias/homenagens, que terminavam, em expressiva maioria, com Elis, olhos arregalados, cabelos encaracolados, magra, de saia comprida e botas, cantando “Travessia”. E martelavam o verso final, o braço no ar: “Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar”. Naqueles primeiros dias, nada de overdose, nada de cocaína. Uma pessoa que morre sozinha no quarto, madrugada, depois de uma conversa tensa pelo telefone com o homem que ama. “Vou querer me matar”. Fazia sentido e fechava legal a reportagem.
A cobertura da morte de Elis Regina ainda nos brindaria com uma das (primeiras?) capas safadas de Veja. Foto dramática de Elis, agora na temporada de “Trem Azul”, macacão bege-dourado, cabeça pendendo para trás, braços abertos. “A tragédia da cocaína”.
Quem lembra disso? Quem se impressionou com isso?
Enfim, cheguei aos 36, espero ter mais tempo que Elis, pelo menos o dobro! Obrigada a todos que ligaram. Na ordem: Marcelo, Naná, Lucas, Tiago, Felipe, Debora, Dora, Adriano, Silvio, Marisa, Paulo, Guida, Claudia, Edson, Márcia, Milly, Junior, Cynthia, Rosa Paula, Gê. Os e-mails e recados orkutianos: Rosane, Tales, Claudia, Dani, Andréa, Patrícia, Perrone, Thomas, Mauro, Karina, Ico, Alessandro, Bruno, Eduardo, Paula. Beijos!

Homens versus Marcas

Tem coluna nova hoje no GPTotal. Mesmo quem não se liga em automobilismo pode gostar do tema. Falo da presença das Grandes Corporações no universo da Fórmula 1, inspirada em um debate que floresceu semana passada no blog do Pedro Alexandre Sanches (valeu PAS, valeu Vange!)

Olha lá: www.gptotal.com.br

e depois me fala.

Friday, February 10, 2006

Invasão do Maracanã: mande sua história



Vou aproveitar esse espaço para dar uma breve notícia e fazer um pedido. Meu amigo Tales Torraga e eu estamos trabalhando na produção de um livro sobre o evento que ficou conhecido como “a invasão do Maracanã”. Aconteceu na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976, quando cerca de 70 mil torcedores corintianos ocuparam metade dos lugares disponíveis no estádio, fazendo um deslocamento sem precedentes de uma torcida para assistir a um único jogo. No final do ano, esse fato completa 30 anos, quando pretendemos lançar o livro. Tanta gente foi para lá que nós queremos coletar o maior número possível de histórias, lembranças, fatos pitorescos etc. Se você foi a esse jogo ou conhece alguém que foi, por favor, escreva para nós. Pode ser na janelinha de comentários do blog ou, melhor ainda, mandando um e-mail para o endereço invasaocorintiana@letradelta.com.br.
Pronto, não deixem o samba morrer, mantenham o debate!

Tuesday, February 07, 2006

Ironia: eu quero uma para escrever


O mundo, vez por outra, não me compreende. Não estou sofrendo nenhuma crise existencial, não se preocupem, a questão é absolutamente literal. Por diversas vezes, algumas pessoas não entendem o que estou falando, mesmo que se trate de um diálogo travado entre dois nativos em língua portuguesa. Admito parcela da culpa. Quem mandou usar a palavra “idiossincrasia” no meio da sala de musculação, lá da academia? Virei objeto de piada. Não que os freqüentadores de academia, por definição, não saibam o que é idiossincrasia, mas ali não era hora, nem lugar, de mencionar tal verbete. Nossos cérebros, ali, estão preparados para ouvir termos muito próprios do universo da malhação – como barra W, anilha ou albumina – coisas que parecerão grego para muita gente. Mas idiossincrasia, não.
Para além da questão do vocabulário, há uma outra situação que me incomoda ainda mais. Há pessoas, mais do que eu gostaria de supor, que não são capazes de entender ironias, piadas, brincadeiras. No final do ano, em entrevista ao programa Saca Rolha, da Rede 21, a jornalista Barbara Gancia comentou que “a gente só ri daquilo que conhece”, e usou como exemplo a mítica Amália Lucy, filha do ex-presidente Ernesto Geisel. Quem tem menos de 30 e muitos ou 40 e poucos anos certamente não achará graça em uma piada sobre a figura, que sumiu da mídia depois do governo do pai. E ela era alvo constante de piadas e historietas maldosas. Concordo com a Bárbara, mas acho que temos mais alguma coisa aqui. Aqui mesmo, neste blog.
Alguns posts atrás, coloquei a letra de um “samba enredo” composto em um churrasco, com pessoas da minha família. A letra é um amontoado de chavões de sambas-enredo de todos os tempos, uma brincadeira, um sarrinho à toa. Pois não é que teve gente que levou a piada a sério e até “criticou” a “poesia”?!
Essa questão se avolumou na minha cabeça depois que a Folha de S.Paulo publicou, na sexta, 3 de fevereiro, um texto intitulado “Não quero ver dois homens trocando beijos”, do comediante Larry David, co-criador da série Seinfeld, a respeito do filme recém-estreado no Brasil, “O segredo de Brokeback Mountain”, de temática homossexual. A íntegra do texto está aqui:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0302200608.htm

De cara, pode parecer uma manifestação homofóbica, um libelo de preconceito, mas é uma grande piada. Larry David está sendo irônico. Depois de ler, e de rir muito, tive um momento de temor: será que todo mundo entende isso como uma piada? O próprio seriado Seinfeld padeceu desse mal. Fez estrondoso sucesso, mas seguiu uma rota inusitada até se tornar mania nacional. Nas primeiras temporadas, tinha índices de audiência relativamente baixos. Pesquisas da NBC, que exibia o programa, mostravam que a platéia fiel de Seinfeld, naquele início, era formada pelo chamado “público qualificado”, gente com maior escolaridade e referências culturais mais amplas. Em um determinado momento da história do seriado, os episódios começaram deliberadamente a ironizar a tendência do politicamente correto. Sem fronteiras, sem amarras, ironizaram a nova postura social adotada frente a negros, homossexuais, hispânicos, deficientes físicos. Não se discute: o seriado é das coisas mais engraçadas que a TV já exibiu, mas há quem acredite que boa parte da audiência estadunidense gostava de Seinfeld porque o programa “fazia troça” dessas minorias. Ou seja, boa parte da audiência estadunidense não entendia a piada. Tudo muito na linha do texto de Larry David sobre o filme.
Fica o tema para o debate: estou condenada a só falar pão-pão, queijo-queijo, e garantir a compreensão ampla e irrestrita, ou continuo rindo sozinha das minhas ironias, piadas e brincadeiras?

Friday, February 03, 2006

Obrigado, até logo



Pilotar uma Ferrari deve ser o sonho de nove entre dez moleques que gostam de automobilismo (o outro sonha com a Gisele Bündchen). Imagine ter a oportunidade de fazer isso durante três dias e terminar tal temporada “de sonho” dizendo que não gostou da experiência. Foi isso que aconteceu com o italiano Valentino Rossi, sete vezes campeão do mundo de Motociclismo, que nesta semana pilotou o carro de Fórmula 1 da Ferrari durante os testes da pré-temporada. A expectativa criada para tal teste foi grande a ponto de arrastar 135 repórteres para o circuito espanhol de Valencia.
Embora tenha saído da pista agradecendo pela oportunidade, o fato é que The Doctor não apreciou mesmo os tais testes. E a fonte é mais do que confiável: seu pai, Graziano Rossi. O motivo do descontentamento, segundo o Rossi Sênior, foi o malfadado primeiro dia de testes, quando Valentino rodou na primeira volta. O piloto gostaria de ter tido mais uma oportunidade naquele mesmo dia, coisa que a Ferrari não lhe deu. Para um piloto forjado na vitória – já que Valentino ganhou tudo o que disputou, desde a mais tenra idade – a rodada em Valencia, sem direito a apelação, deve ter soado como um atestado de incompetência. Depois que voltou à pista, nos dias seguintes, o desempenho de Valentino não foi nada mau. Ficou pouco mais de um segundo atrás do melhor tempo de Schumacher. Só que um segundo, na Fórmula 1, como dura... É o tipo de situação que deveria voltar à mente de todos, sempre que surge a tentação de chamar qualquer piloto da Fórmula 1 de braço duro.

Obesos e blindados

A Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou uma lei que obriga a reserva de lugares adaptados para obesos em cinemas, teatros, casas de espetáculos e no transporte coletivo. O texto foi proposto pelo deputado Rogério Nogueira, do PDT. Ouvi, pela Rádio Bandeirantes, a justificativa do parlamentar, que se mostrou sensível ao apelo de amigos “gordinhos”, segundo ele, habitualmente constrangidos em situações nas quais precisam sentar em lugares cujo espaço não comporta suas dimensões.
Iniciativa de inclusão social: uma compreensão possível do ato. Qualquer circunstância que leve cidadãos a constrangimento e humilhação deve, no mínimo por uma questão humanitária, ser evitada. Mas convido a uma outra reflexão, retomando a fala da presidente da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, Maria Inês Dolci. Na mesma reportagem da Bandeirantes, ela louvou a lei que combate a discriminação, acrescentando que o número de pessoas obesas tem, de fato, aumentado em nossa sociedade.
É louvável que um legislador se preocupe em sanar problemas que atingem a população por ele representada. Mas não caberia também ao poder público, em qualquer de suas esferas, pensar mais na causa e menos no efeito? Qual é o problema maior aqui: o constrangimento dos obesos ou o fato de termos uma população crescente de obesos? Um cidadão entalado em uma cadeira de cinema provavelmente terá naquele momento de vexame um dos piores de sua vida – para ele, um assento maior seria a solução. E ponto. Mas e para a sociedade, isso resolve?
É também uma questão humanitária pensar nos malefícios que a obesidade acarreta, e nem vou me alongar nisso, todo mundo sabe. Mas é também uma questão de gasto lógico dos recursos. Mais obesos significam, no longo prazo, mais gastos com saúde e com previdência (mais infartos, mais acidentes vasculares cerebrais, mais aposentadorias precoces). O poder público não deveria se ocupar também de leis e medidas que contribuíssem para reduzir a obesidade?
A população está engordando porque quer ou porque é empurrada para esse estilo de vida? Pinçando dois exemplos do cotidiano de um trabalhador em uma grande cidade, como São Paulo. Ele recebe um vale-refeição, suponha, de R$ 8,00, suficiente para fazer uma refeição “leve” em um restaurante por quilo (“leve” imaginando que ele vá ocupar mais da metade do prato com folhas de alface, que de fato pesam pouco). Por R$ 1,50, ele encosta em uma Towner e se afunda em um cachorro quente, com massa o suficiente para lhe dar maior sensação de saciedade, ainda mais se insuflada por um copo de refrigerante “genérico”. O troco do vale-refeição faz enorme diferença em seu orçamento, já está incorporado a ele. Vá convencê-lo de abrir mão da diferença por uma vida “mais saudável”...
Aí, chega o final de semana e o trabalhador se vê entediado em casa. Poderia ir bater uma bolinha, dar um mergulho em um parque da prefeitura, mas faz as contas. Condução e lanche para a família toda, brincando, brincando, gasta uns R$ 20,00. Cadê R$ 20,00? Fica em casa mesmo, liga a TV. Não saiu, não bateu perna, não gastou caloria. Está engordando porque quer?
Não quero criticar nem mesmo desprezar a iniciativa do deputado Rogério Nogueira, mas cada vez mais me vejo mergulhada em uma sociedade que cuida dos efeitos e não das causas. E aí nos vemos aumentando assentos, subindo grades, blindando vidros.

Thursday, February 02, 2006

Pare o que estiver fazendo: Os Mutantes voltaram!


Tenho um ritual estranho para ler o jornal: dou uma olhada rápida na primeira página, depois ordeno os cadernos e começo a ler de trás para frente. Não me pergunte a razão disso, é um hábito de mais de vinte anos. Nessa ordem, leio os cadernos de cultura, esportes, cidades, economia e política, todos de trás para frente. Poucas chamadas de capa são capazes de me fazer atropelar tal seqüência. Hoje, uma delas conseguiu: quase toda a discografia dos Mutantes está sendo relançada em CDs remasterizados. Pulei todas as páginas da Ilustrada, fui direto para a capa do caderno.
Se você conhece Os Mutantes, sabe o que isso significa. Se não conhece, com todo respeito, preste atenção: essa banda foi uma virada na esquina da música popular brasileira. Não sou adepta de rótulos, não gosto de fechar questão, muito menos de decretar quem foi “o melhor” qualquer coisa de todos os tempos. Não gosto nem mesmo de dizer que “se não fosse tal pessoa (ou tal grupo), tal coisa não teria acontecido” (se a gente puxar o fio desse novelo, vai terminar lá em Adão e Eva). O fato é que Os Mutantes foram a síntese do novo, uma fagulha revolucionária que nasceu estranhamente como grupo acompanhante do cantor Ronnie Von, desaguou na Tropicália, inundando o som dos baianos com distorções, elementos até então inexplorados, experimentalismo, uma salada paulista (cosmopolita?).
Talvez a revolução musical trazida pelos Mutantes não tenha sido fruto apenas da cabeça fervilhante de Arnaldo Baptista. Pode ter sido filha daqueles loucos anos 60, das picadas abertas por Little Richards e Chuck Berry, na década anterior, da estrada pavimentada pelos Beatles, da pista de decolagem construída pelo iê-iê-iê nacional, do vôo sideral brotado da sinergia entre a corrida espacial, os alucinógenos e o escapismo da barra pesada pré e pós AI5 (e vamos parar ou chegamos lá, em Adão e Eva).
Os Mutantes sintetizaram a evolução (revolução) tropicalista com dotes alquimistas: misturaram os elementos “puros” do rock com toques de música clássica, seresta, folclore, tribalismo. Você pensou em Carlinhos Brown? Bingo: o inusitado de Brown, ao tocar instrumentos improváveis como latinhas de alumínio ou estantes de partituras era hábito consolidado desse trio doido. Arnaldo, seu irmão Sergio e Rita Lee usavam esdrúxulos equipamentos e ferramentas para modificar e complementar o som dos instrumentos: mangueira de borracha conectada a uma lata de Nescau, como lembra Carlos Calado nessa matéria da Folha de hoje, vaporizador de inseticida e o que estivesse à mão.
A notícia do relançamento me trouxe várias sensações. Alegria, sobretudo. Minha lista de presentes de aniversário acaba de ser aumentada. Mas também fiquei decepcionada por saber que, apesar de relançar sete discos dos Mutantes, mais um da Rita Lee (disco que, na verdade, era dos Mutantes, mas foi lançado como sendo só dela), a Universal não relançou o primeiro disco solo de fato da Rita, Build Up, de 1970. Também fiquei com um gosto de nostalgia na boca. Não daquela época, não vivi isso tudo. Fiquei com saudade dos meus treze, catorze anos, quando descobri Os Mutantes. Fiquei com saudade do frescor rebelde de Rita Lee, quando ela era mais mutante e menos implicante. Lembrei da capa lisérgica e maravilhosa do LP “Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets”. E aí fiquei feliz de novo por lembrar que um dia, uns doze ou treze anos atrás, levei esse LP para ser autografado pelo baterista do grupo – Dinho Leme que, naquela altura, e por muitos anos, seria assessor de imprensa de Rubens Barrichello. Mundo pequeno, meu Deus...