
Jogando baralho com amigos, ela cantarola, ajeita cartas na mão, joga a cabeça pra trás, ouve o som da própria voz em um aparelho de som ao fundo, exclama "ah, eu me adoro cantando", e gargalha. A personagem é Nana Caymmi, o filme, Rio Sonata. Fui vê-lo na quarta-feira passada, em uma sessão especial do Reserva Cultural, provavelmente meu cinema preferido em São Paulo, ao lado do Cine Livraria Cultura, dos poucos que restam com alma, identidade.
Eu não sabia nada sobre o documentário, mas a simples referência a Nana Caymmi me fez vencer um monstruoso congestionamento na cidade (por conta do último show do U2?) e me proporcionou uma das noites mais memoráveis dos últimos tempos. Nana e seu irmão Dori Caymmi estavam lá. E também meu querido Zuza Homem de Mello, que me apresentou ao som de Nana há 28 anos, quando ela lançou o extraordinário álbum "Voz e Suor", que contava apenas com o piano de César Camargo Mariano e a voz de Nana.
O filme foi produzido pelo suíço George Gachot (não consegui descobrir se ele tem algum parentesco com o piloto Bertrand Gachot). Aqueles do copo meio vazio diriam "que pena, precisa vir um estrangeiro para produzir um filme sobre uma cantora como Nana Caymmi". Os do copo meio cheio - incluindo-me entre eles - prefeririam o benefício do olhar estrangeiro, distanciado, capaz de enquadrar Nana em moldura feita de percepções, não de estereótipos.
Porque o estereótipo, o senso comum, a visão estreita tendem a pintar Nana como cantora sofisticada, de elite, difícil. A visão ampliada de Gachot levou à tela uma cantora rigorosa com suas escolhas e, sobretudo, consigo mesma(singela, Nana em dado momento revela que é difícil cantar músicas como "Ponta de Areia" e "João Valentão", e fica evidente que a dificuldade está menos nas músicas e mais no tom desafiador que ela e seus maestros se impõem). Rigor à parte, Nana revela-se realizada em seu ofício, exercendo a profissão de cantar com um hedonismo que transparece em vários trechos do filme, como o "eu me adoro cantando" do animado carteado.
Quando o letreiro anunciou o final do filme, fui tomada de certa decepção e até exclamei: "mas já?". Eu assistiria e ouviria aquele documentário por muito mais tempo. A música de Nana seria suficiente para justificar esse apego, mas a beleza do filme também há de ser destacada. Gachot foi ao ponto: contextualizou Nana em um Rio - sua terra natal - nublado, sombrio, melancólico. O tom de sua voz de lamento, o lamento dos olhares e gestos simples das pessoas retratadas no filme. Porteiros, crianças brincando no subúrbio, donas de casa, camelôs. A Nana de Gachot não é sofisticada, blasé, intangível, difícil.
Sem ser linear, e sem se preocupar em ser documental, o filme vai reconstituindo a história de Nana, mostrando cenas do seu cotidiano, mesclando-as com imagens do passado. A diva que se apresenta ao lado de Tom Jobim no instante seguinte é uma mulher de quase 70 anos à procura dos "óculos para longe", encontrados depois de certo esforço na bolsa enorme. A cantora alçada à popularidade em anos recentes, graças a temas de novelas, ganha depoimentos de gente de várias tribos - do ex-marido Gilberto Gil ao Tremendão; de Milton Nascimento a Mart´nália. E vai falando sobre cantar e amar e sobre cantar o amor, definindo-se uma cantora de Bossa Nova que ninguém nunca assim reconheceu (Milton decifrou-a: na Bossa Nova, cantava-se baixinho, e Nana tem esse vozeirão...). A diva refere-se ao irmão Dori como um de seus compositores preferidos, e o chama de Dorivalzinho, transportando para a tela uma intimidade familiar que não nos pertence, mas que enche o filme de uma ternura que nada tem a ver com a cantora sofisticada que sempre se pintou.
Em uma das sequências mais divertidas do documentário, no que parecem ser os bastidores de um show, Nana, Miúcha e Maria Bethânia improvisam sobre uma canção de Dorival. Bethânia, gestual dramático, altivo, comandante, lança o primeiro verso, dá o tom. Miúcha embala, quase tiete entre as duas prima donas. Nana apodera-se da batuta, baixa o tom da canção, gestual maternal e firme, recoloca em seu lugar a moreninha da sandália do pompom grená da canção de seu pai. Uma brincadeira, quase um duelo de vozes, ou de estilos. Perdoe-me, mana, Nana ganhou.
E o pai - a origem - é quem vem encerrar o filme, em uma sequência bela, inesquecível, recontando a história de "Acalanto", a canção de ninar que fez para Nana, a diva que casou-se cedo, foi para a Venezuela, teve três filhos, separou-se, venceu festival, casou-se com Gil sem nunca olhar para a Tropicália ("não entendi aquilo até hoje, se alguém quiser me explicar..."), e trilhou sua carreira baseada em um princípio básico - o prazer de cantar. Simples assim.
Se eu tivesse essa voz, Nana, eu também iria me adorar cantando.











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