Tudo diferente, tudo tão igual. O lado bom de fazer uma mesma corrida pela segunda vez é ter parâmetros para comparar. O lado ruim é antever os pontos críticos e domar a ansiedade por superá-los. Há ainda um terceiro ponto – o imponderável, que faz com que uma corrida seja ao mesmo tempo tão diferente e tão semelhante à prova disputada no ano anterior.
São Silvestre 2006 x São Silvestre 2007, as diferenças.
Solidão, que nada...A primeira – e talvez mais marcante: não estou só. No ano passado, correr a São Silvestre foi, sobretudo, um grande exercício de solidão. Fui sozinha para a região da Paulista, deixei meu carro no prédio do escritório, caminhei sozinha até a largada, alonguei e aqueci sem trocar palavra com ninguém, pois não conhecia nenhuma das mil e poucas mulheres que dividiam o espaço da avenida comigo.
Corri sozinha, literalmente sozinha em alguns trechos, pois a prova feminina tinha proporcionalmente tão poucas atletas que era comum olhar à volta e não ver ninguém ao meu lado. No ano passado, aqui mesmo no blog, escrevi este trecho: No fim do Minhocão, sem prédios ao redor, um silêncio solitário, quase triste.
Ontem, nada de solidão. Parte da equipe Conexão participou da prova e combinamos de nos encontrar antes da largada. Em uma paralela da Paulista, no lugar marcado, lá estávamos: Henry, Zoca, eu, Fábio, Lara, Ammar (com dois amigos), além do Marcio, namorado da Lara que mora ali pertinho. Fomos até o prédio dele e lá nos alongamos, tentando lembrar a seqüência de exercícios que nosso técnico Zé nos passa. Zé está em férias, não pôde nos acompanhar. E nenhum de nós levou câmera fotográfica, até porque ninguém quer segurar máquina e correr a São Silvestre ao mesmo tempo.
Gente, muita genteA organização da prova, desta vez, dividiu a largada em trechos determinados pelo ritmo dos corredores. À frente, deveriam ficar os que correm cada quilômetro em 4min30. Logo atrás, quem faz o mesmo trecho com tempo de 5min, e assim sucessivamente. Bem, valeu a tentativa, mas a São Silvestre não é uma corrida como outra qualquer. Há quem chegue lá antes do meio-dia só para largar na frente, ainda que tenha tempos miseráveis.
E o povo vai chegando e se acomodando, alguns vestindo fantasias, carregando faixas ou imagens de santos, e poucos pareciam se importar com os banners que indicavam o ritmo ideal para aquela localização na largada. O início estava marcado para as 16h45. Nosso encontro, antes do alongamento, foi às 16h. Ou seja, chegamos à largada quando faltava menos de meia hora. Nesse panorama, simplesmente, era tentar se acomodar no meio da multidão, sem chance de localizar o trecho ideal. Se, no ano passado, eu achei a prova vazia, ontem eu soube o que é gente, muita gente.
Outra diferença: o horário. Em 2006, a prova feminina largou às 15h15. Teoricamente, um horário mais sacrificado, em função do calor. No entanto, a prova do ano passado foi disputada com tempo bem mais ameno que ontem. Além de tudo, choveu à beça em 2006. Ontem, apesar de largar mais tarde, o calor estava muito, mas muito mais forte, e não choveu. Pelo menor número de inscritas e pela chuva, senti saudade da prova de 2006.
Vinte mil atletas, homens e mulheres misturados, aquele famoso mar de gente. Claro que, diante desse quadro, não dá para correr em ritmo forte no início da prova. Do momento da largada até passar pelo tapete que registra a passagem de cada corredor, levamos mais de nove minutos. Até aí, sem problema, pois o tempo não é registrado enquanto não se passa pelo tapete. A encrenca começa na passagem, quando o tempo já está sendo registrado e a muvuca ainda é imensa ao redor. Se, em 2006, eu já estava livre e solta no final da Paulista, com pista livre à minha frente, desta vez só consegui ter um pouco mais de espaço – pasmem! – no viaduto da avenida Pacaembu, ao lado do Memorial da América Latina, portanto, depois do quilômetro sete e meio. Portanto, com mais de metade da prova cumprida.
Calor de sauna a vaporSe, psicologicamente, a ausência de solidão foi a maior diferença entre 2006 e 2007, fisicamente o contraste se deu na temperatura. Especificamente, em um trecho da corrida, o final do Minhocão. Foi ali, no ano passado, que senti quase um deserto de concreto à minha volta, unindo-se ao cinza das nuvens que não tardariam a desaguar. No texto de 2006, escrevi: E as nuvens de um negrume renitente. O dia ficou noite. Quando virei no Largo Padre Péricles, ela chegou. Grossa e quente, uma chuva-benção.
Pois ontem, foi exatamente ali que senti toda a diferença. Um mar de cabeças à minha frente, um sol pra cada um, o ar abafado, parecendo se adensar à nossa volta, qual névoa quente de uma sauna a vapor. Meu recorde de dezembro, fazendo 10 km em 49min cravados, naturalmente já tinha ido pro vinagre. Condições diferentes, claro. Mais quente, muito mais gente, e sem o estímulo do “grilo falante” que me empurrou na prova anterior.
Mesmo com essa ausência, lembrei muito das orientações do técnico Zé Eduardo e do colega Henry, que puxou meu ritmo na prova do recorde. Esquecer um pouco o relógio, aumentar o ritmo quando tivesse oportunidade, reduzir quando me sentisse ofegante, inclinar um pouco o tronco para frente nas subidas, beber pouca água durante a prova. Com meia corrida a superar, e bem acima da minha melhor marca, procurei me concentrar em aumentar o ritmo o quanto fosse possível, aproveitando a pista um pouco menos lotada, e tentar melhorar o tempo do ano anterior.
São Silvestre 2006 x São Silvestre 2007, as semelhanças.

<<< Em casa, antes de sair para a prova
Adrenalina e emoçãoIsso já deu para perceber que é sempre igual. Correr a São Silvestre é diferente de fazer qualquer outra prova. Há corridas que ocupam lugares especiais no meu coração – a prova do Barro Branco, a do Centro Histórico, a do Ipiranga – por motivos diversos. Em todas, fico ansiosa pela largada, obstinada pelo resultado, ou seja, com a adrenalina alteradíssima. Na São Silvestre, há tudo isso, mas um componente especial: a emoção. Indo para a Paulista, acho que me sinto mais emocionada que “adrenada”.
Fazer o percurso a pé, entre o prédio do escritório e a avenida, cruzar com outros competidores, trocar sorrisos e leves acenos de cabeça, como se fôssemos todos membros de uma irmandade são hábitos prosaicos que reforçam minha alegria por estar ali. Ontem, quando encontrei a turma, comentei esse sentimento com alguns deles e vi que não estou só. Depois da largada, com foco total na corrida, com o sacrifício imposto pelo percurso e pelo calor, a emoção fica dormindo em algum desvão da mente.
Mas é só virar a Brigadeiro e entrar na Paulista que ela dá as caras. Com pouca gente ou cercada pela multidão, às quatro e meia da tarde ou às seis, já percebi – é sempre reconfortante voltar à Paulista e terminar a São Silvestre, é sempre um convite a agradecer pela vida, pela saúde, por mais um ano, por mais uma corrida. Nessa hora, cumprimenta-se quem está ao lado, seja quem for. A vontade de compartilhar é imensa e, afinal, somos todos ali, de fato, todos da mesma irmandade. Da Paulista, vamos para festas familiares ou baladas, cada um escolhe seu programa. Mas tenho a impressão de que a apoteose de Réveillon, para o corredor, é cruzar a linha de chegada da São Silvestre.
Loucuras de uma tarde de verãoColoque quarenta mil pernas pelas ruas do centro de São Paulo, em um final de tarde de calor, e as histórias só poderão mesmo se multiplicar. Algumas curiosas, outras tristes, a maioria, inusitada. Triste deve ter sido para a moça que caiu ao nosso lado na descida da Consolação. Estávamos, eu e o Fábio, na pista da esquerda, quando a coitada tropeçou e foi ao chão. Logo alguns colegas se apressaram em ajudá-la, seguimos adiante, sem saber se ela conseguiu fazer o mesmo.
Um pouco mais à frente, um grupo de corredores-animadores arrancava gritos da platéia. Vestidos com roupas de super heróis (imaginem o calor!), carregavam uma bandeira do Corinthians, sendo aplaudidos por muitos e vaiados por outros tantos. Nas ruas da Barra Funda, a velha solidariedade dos moradores. Mulheres com mangueiras refrescavam os atletas. Alguns, exauridos, lançavam-se sôfregos a beber diretamente do jato. Fico pensando se aquela água estava um pouco menos quente que a servida aos atletas pela organização. No terceiro posto de água, radicalizei. Em vez de pegar um copinho, me apossei de um pequeno bloco de gelo. Lógico que não era água filtrada mas, que se dane...
Na avenida Rio Branco, uma atração à parte. Um atleta corria com seu cachorro. E sem coleira! O animalzinho era uma flecha, magrinho feito um queniano, alvi-negro como um sofredor, mas se distraía com os acenos da multidão e com os salgadinhos jogados no chão pelas crianças. O totó mordia a isca, e lá vinha o dono, de volta pela avenida, para colocar o cachorro novamente na rota.
Brigadeiro who?Apesar de ter disputado apenas duas vezes a São Silvestre, já fiz o percurso três vezes, pois há alguns dias a equipe fez um treino de reconhecimento, no domingo pela manhã. Quanto mais corro nesse trajeto, mais me convenço de que a tal “subida da Brigadeiro” é muito mais mito que desafio. Sim, sobe, muito, mas não é o pior trecho da prova.
A São Silvestre é uma corrida dificílima, cruel em um sentido: desce praticamente tudo o que tem de descer na primeira metade da prova, deixando o trecho final com a tarefa de escalar novamente o morro. Quando se chega na Brigadeiro, faltam cerca de dois quilômetros para o fim da prova. A subida é precedida de uma forte descida, no viaduto que leva o mesmo nome, e de um trecho quase plano. Os últimos metros da Brigadeiro também já são quase planos. Sobe, sobe bem, mas antes disso já se subiu muito também, como no viaduto do Memorial, no impiedoso viaduto que liga as avenidas Rudge e Rio Branco, na própria Rio Branco e no curto, porém sacrificante Largo São Francisco.
A Brigadeiro tem, a seu favor, um componente psicológico fundamental. “Quem chegou até aqui, agora vai até o final”. É um turbo poderoso esse pensamento, tanto que, mesmo depois de subir a ladeira, quase todo mundo consegue dar seu sprint final na Paulista.
E não é que estou subindo a decantada Brigadeiro quando me vejo atrás de dois atletas de Cerquilho?! Atletas de Cerquilho são quase um patrimônio da São Silvestre. Estão sempre lá, com camisetas e/ou faixas. Mesmo subindo, não resisti ao gracejo: “Ê, Cerquilho, agora minha corrida ficou completa!” O colega, que nunca vi mais sarado, responde orgulhoso: “É isso aí, e esse ano trouxe meu filho junto!”. Daí, me animei: “Você conhece Gê Tock, lá de Tietê?” Conhecia, claro. Quem não conhece meu amigo Gê Tock, de Tietê? Quinze quilômetros, quarenta mil pernas. E eu encontro o amigo do amigo...
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Ao fim e ao cabo, não consegui melhorar o tempo do ano passado. Em 2006, fiz em 1h22min53. Este ano, completei em 1h23min15 (384ª na categoria feminina, 63ª na minha faixa etária). Em um primeiro momento, achei que tinha conseguido fazer em 1h20, mas meu cronômetro zerou em um dos postos de água e tive de recomeçar a contagem. Devo ter perdido o fio da meada, mas não estou frustrada, principalmente pelo calor e pelo número de inscritos. No ano passado, a prova feminina teve 1.327 inscritas. Este ano, corri junto com outras 20 mil pessoas.
Assim que tiver mais fotos, daquelas que são publicadas pelos sites especializados, prometo postar aqui.
Agora, sim, vou me despedir para minhas férias. A blogueira tira uma semana a partir do dia 2, retornando às atividades bloguísticas na segunda quinzena de janeiro.
Obrigada pelos votos de boa sorte, pela companhia e feliz 2008 a todos vocês!