Monday, May 07, 2007

Rita Lee Mora ao Lado - Parte 1



Como muita coisa que chega a mim, atualmente, fiquei sabendo do livro "Rita Lee Mora ao Lado" por meio de um blog. No caso, "o blog", aquele me iniciou nesta vida blogueira da qual dificilmente me libertarei, graças a Deus, que assim seja. O blog de Pedro Alexandre Sanches, aliás autor do prefácio do livro. Daí juntei uma coisa com outra e percebi que o autor do livro, Henrique Bartsch, era comensal eventual nos banquetes servidos pelo anfitrião Pedro. Banquetes de idéias, alguns arranca-rabos, mas tudo com muita finésse, claro.

Soube da auto-proclamada "alucinada biografia da rainha do rock" mais ou menos na mesma época em que ganhei de presente um outro livro - "A divina comédia dos Mutantes", do jornalista Carlos Calado, escrito com colaboração de... Henrique Bartsch. Então, foi um turbilhão. Li o livro dos Mutantes em três dias e meio, e passei a reviver minha antiga admiração por eles como há muito não fazia. No começo de março, o show dos Mutantes, durante um evento do amigo Reginaldo Leme. Quem esteve por aqui naquela época sabe que a madame aqui ficou descontrolada. Ver Mutantes ao vivo me deixou tão feliz que fiquei triste. Sabe como é? O livro do Bartsch já tinha chegado, mas achei que encarar a lisérgica biografia naquele ponto era me afundar demais na lingerie, para usar uma expressão mutante que é quase como "enfiar o pé na jaca". Ia dar overdose, e eu não estava a fim de nenhuma lavagem estomacal.

Deixei RLML e o Bart, que é como vou me referir aos dois, daqui pra frente, quietinhos em casa. Há poucos dias, fui ver se já estava sã novamente, para me aventurar por aquelas plagas, dei uma olhadinha no prefácio e slurpt! Foi como se uma língua gigante me capturasse para dentro das páginas. Quando vi, estava mexendo uma sopa e lendo, secando o cabelo e lendo, tomando sol à beira da piscina e lendo. Como disse ao autor na troca de e-mails que originou estes dois posts, não acabei com o livro, ele que me consumiu.

É o tal negócio, aquilo que já falei e falamos tantas vezes nos últimos dias e nem vale a menção desonrosa a quem começou a briga. Vida de gente famosa que a gente vivenciou junto não é mais a vida da celebridade, é a nossa. E RLML é exatamente isso: o desfile da vida de Rita Lee desde os primórdios, passando por Mutantes, chegando até sua vitoriosa carreira solo e terminando no período em que ela chega aos 50 anos. O pulo do gato de Bart foi colocar toda a narrativa na boca de uma personagem fictícia, pero no mucho, chamada Bárbara Farniente, uma hipotética vizinha de Rita que assiste a tudo a partir de sua janela indiscreta.

Uma vida tão intensa quanto a de Rita Lee não permite a ninguém dizer o que daquela saga é realidade e o que é pura viagem. Nem ela, provavelmente. Bart se aproveita desse componente, digamos, criativo da vida da artista para embarcar junto e literalmente pirar na parte final do livro. Lendo de trás para frente tudo o que me caiu nas mãos sobre Rita e Mutantes no último quarto de século, li a biografia propriamente dita como um grande flashback de mim mesma. Mas quando Bart se põe a fundir a vida de Rita com a de Bárbara e as trança de maneira tão envolvente, oh, boy! Que belo ficcionista ele se torna! Foi, de longe, o melhor do livro e digo isso sem demérito nenhum à sua capacidade como historiador nem como desdém à vida alucinada dELA.

Ler RLML não é indicado apenas para quem gosta, admira, já gostou ou tem mera curiosidade por Rita Lee. É um santo remédio para entender um pouco da história cultural do Brasil na segunda metade do século 20. O nosso século, afinal, porque o 21 ainda está no começo e nós, do século passado, ainda temos muito mais lenha queimada lá do que aqui. Essa bruxa queimada em tantas inquisições modernas talvez nem seja sua cantora favorita, a bem da verdade, a minha não é. Há compositores melhores que ela, músicos, aos montes. Mas ela tem muito a ver com o que acontece hoje aí, do seu lado. Ela se vestiu de noiva e pôs uma barriga de grávida por baixo do vestido, em horário nobre, na principal emissora de TV daqueles plúmbeos anos 60. Deitou seminua na cama de casal com o namorado e o irmão dele, tudo pose para uma capa de disco, mas o suficiente para chocar todas as senhoras de São Paulo, a começar pela sogra, a dona da cama em questão. Grávida, foi presa. Disse que ficava de quatro no ato, que mulher é bicho esquisito, todo mês sangra, entre outras cositas que hoje podem parecer inocentes para você, já acostumado a ver moçoilas liberadas quebrando o barraco. Pois bem, cara pálida, quem teria aberto a elas a porta do barraco?

Leia abaixo a íntegra da entrevista que fiz com Henrique Bartsch, por e-mail, usando o método que ELA mesma usou com o autor, como ele explica. Desce lá que você entende mais!

4 comments:

Marcio Gaspar said...

Ainda não li o livro, Alessandra, mas li a entrevista abaixo (muito boa!) e esse seu ultimo post me leva a sair agora, na hora do almoço, pra comprar e devorar o RLML. Conheci Rita mais de perto na época do 'Rita e Roberto' (excelente e pouco valorizado disco, que tinha Virus do amor, Nave Mae e Vitima, entre outras pérolas) - eu trabalhava na SomLivre e nos demos muitissimo bem; espero que o livro dê também o devido valor ao Roberto, encarado (e odiado) por muitos como a nossa YokoOno, mas um musico de respeito e também excelente pessoa. Além do que você bem colocou, Rita foi pra sala com esse tal de rockn'roll qdo roqueiro tinha cara de bandido, foi grávida solteira em pleno 'tempo escuro', lambeu o chão na cadeia (onde a unica artista que a visitou foi a 'careta' Elis), subiu ao céu e desceu ao inferno algumas vezes. É um ser especial, sem dúvida. Long live, lovely Rita...

Alessandra Alves said...

marcio: engraçado que você, sem ter lido o livro, chamou atenção para algo que merece mesmo ser destacado no trabalhao do henrique, que é o devido valor que se deve dar ao roberto. faço até uma mea culpa, porque eu cheguei a engrossar esse corinho de viúva do lennon. no livro, e portanto na vida, uma coisa fica clara: é provável que rita esteja viva hoje graças a roberto, que foi sem dúvida o esteio da família e dela própria. embarque na viagem, depois diga se valeu a dica!

Pedro Alexandre Sanches said...

ehê, olha todo mundo se entrecruzando "aqui" na internet... abraços, alessandra, e pro bart também...

Alessandra Alves said...

pedro: pra você também, querido. esse "cruzamento" começou você sabe onde...