Saturday, July 26, 2008

Para gostar de ler - Travessuras da menina má


Pensei muito antes de escrever este post - e de abrigá-lo na seção "Para gostar de ler". Fundamentalmente, porque não gostei desse romance de Mario Vargas Llosa, e me pareceu desonesto apresentar a obra como um exemplo que possa inspirar qualquer um a gostar de ler. Mas a reflexão acerca do tema ressaltou um aspecto: o fato de eu não ter gostado do livro não o torna necessariamente ruim, e havia percepções da obra que eu gostaria muito de compartilhar com os leitores, daí sua presença aqui.

Ao contrário dos outros livros da seção, esse não foi degustado recentemente. Li-o em janeiro de 2007, durante uma viagem a Maceió. Antes de falar sobre o livro, admito que não sou grande conhecedora de Vargas Llosa, e tenho razões, digamos, ideológico-sentimentais para isso. Quem se interessa um pouco sobre literatura latino-americana há de saber que existe um antigo contencioso entre o peruano Vargas Llosa, transformado com o tempo em um representante da intelectualidade neo-liberal, e o colombiano Gabriel García Márquez, sempre afeito às forças de esquerda. Quem lê este blog com alguma frequência sabe que García Márquez está entre meus escritores preferidos, talvez o número 1 da lista. Ora, a antipatia por Vargas Llosa nasceu na base do "inimigo do meu amigo". Se gosto de García Márquez e García Márquez não gosta de Vargas Llosa, não gosto de Vargas Llosa.

Até que um dia desafiei-me a ler um de seus romances - "O paraíso na outra esquina" - que na verdade são dois romances escritos em seqüência, numa construção primorosa de dois personagens unidos pelos laços de sangue, afastados pelo tempo e pela geografia, mas umbilicalmente ligados pela ânsia de liberdade. Adorei o livro e me lancei sem medo em "Travessuras da menina má".

Não há como negar, é um livro bem escrito. Vargas Llosa tem uma prosa de fluência invejável e vai enredendo o leitor com elegância. Os fatos encadeados são prosaicos, não há um traço de fantasia exagerada na trama, o que aproxima o leitor daqueles personagens, fazendo-o mais íntimo à medida que a história se desenrola porque, afinal de contas, aquelas situações poderiam ter acontecido com qualquer um.

O enredo é o seguinte: um jovem peruano apaixona-se por uma garota - a menina má do título - na adolescência. Ela exerce um poder intenso sobre ele, de maneira quase cruel, e o abandona. Desiludido, ele se muda para Paris, para trabalhar com tradutor. Anos depois, reecontra a garota, que passa a cruzar novamente sua vida de tempos em tempos, cada vez em uma condição diferente - desertora de um grupo militante em Cuba, depois casada com um francês, depois vivendo com um inglês, depois dominada por um japonês. Ela sempre volta, ele sempre a aceita, e ela sempre o descarta. A história segue nessa toada, que uma hora se torna previsível, até alcançar seu desfecho sob os desígnios do deus-autor, em um ato de ajuste de contas com a personagem-título.

À medida que lia o romance, eu enxergava no protagonista um alter-ego do próprio Vargas Llosa. Embora ele mesmo tenha se mudado para Paris já casado, era impossível dissociar o jovem peruano que domina línguas do autor que também floresceu profissionalmente na capital parisiense. Quando seu destino cruza com a menina má em Tóquio e ele a vê dominada por um empresário japonês sádico, a identificação se ampliou. Eu não apenas via Vargas Llosa em Ricardo, o personagem central, como via o personagem japonês como alegoria do ex-presidente peruano Alberto Fujimori. Vargas Llosa, em sua incursão política, perdeu a eleição presidencial para Fujimori, em 1990.



Passei, então, a ver a menina má não mais como a personificação de uma paixão dilacerada, mas também como uma alegoria do próprio Peru na vida do autor. Ele se afasta dela, vai morar na Europa, mas ela permanece vívida em sua lembrança, e o segue, onde quer que ele esteja - Paris, Londres, Tóquio, Madri. Pois esta não é a referência habitual de todo expatriado? Sentir-se estrangeiro em toda parte, retomando a todo o tempo sua origem? E mais ainda: ao ver a menina má (o Peru?) entregue nas mãos de um japonês sádico (Fujimori?), não está Vargas Llosa purgando seu próprio inconformismo de ver sua garota (seu país?) entregando-se voluntariamente (pela força das urnas?) a alguém que só se compraz em maltratá-la?

Era esta, principalmente, a impressão que eu gostaria de compartilhar com os leitores do blog. Quem aí leu esse livro? Concorda com esta leitura ampliada?

Mas, afinal, preciso explicar por que não gostei do livro, apesar de reconhecê-lo como bem escrito. Basicamente, porque o autor/narrador/personagem toma para si, todo o tempo, uma condição vitimizada. Fica evidente que, no capítulo seguinte, a menina má vai retornar, seduzir e reconquistar o mártir, para depois abandoná-lo. Ele segue nessa rotina auto-punitiva como se preparasse o desfecho, usando a mão de um deus onipotente que recompensa seu sofrimento com a punição irregovável da menina má. Como se ele pudesse, com sua pena, mostrar à menina (ao Peru?) como ela errou ao se entregar nas mãos do japonês pervertido.

Monday, July 21, 2008

Fora do script

Saiu tudo ao contrário do que Lewis Hamilton tinha planejado. Mesmo assim, deu certo. E mais ao contrário ainda, e melhor impossível, para Nelsinho Piquet. E Massa, hein? Lá no GPTotal, a análise do GP da Alemanha. Vai lá, vai.

Sunday, July 13, 2008

Mulheres na frente



Na noite de sábado, a brasileira Bia Figueiredo entrou para a história, tornando-se a primeira mulher do país a vencer uma corrida de carros fora da América do Sul. A vitória de Bia aconteceu na corrida de Nashville, válida pelo campeonato da Fórmula Indy Lights, categoria de jovens pilotos, aspirantes à Fórmula Indy.

Bia, que agora quer ser chamada de Ana Beatriz, para facilitar a pronúncia dos norte-americanos, tem mostrado potencial há alguns anos, destacando-se nas categorias de base do Brasil, como na Fórmula Renault. Chegou à Indy Lights neste ano e ontem conseguiu sua primeira vitória.

O dia foi histórico para o automobilismo brasileiro por conta da façanha de Bia, cuja corrida foi relatada com detalhes pela repórter Evelyn Guimarães, do site Grande Prêmio. (Outros sites também deram destaque para a vitória de Bia, como o Tazio, mas eu não poderia deixar de destacar este texto, escrito por uma mulher, concordam?).

As mulheres estão conquistando inequívoco espaço no automobilismo da América do Norte. Há pouco mais de dois meses, a norte-americana Danica Patrick tornou-se a primeira mulher a vencer uma corrida da Fórmula Indy, disputada no circuito japonês de Motegi.

Peço carona à Bia, desde já eleita heroína deste blog, para contar brevemente minha pequena façanha. Neste domingo, disputei a Corrida do Inverno do Circuito das Estações, no Pacaembu. Quem lê este blog pode se lembrar que foi na Corrida do Verão, há quase sete meses, que bati meu recorde para provas de 10 km, com a marca de 49min00.



Da esquerda para a direita: o palmeirense Nilton, Zoca, Simone, Zé Eduardo, Alessandra, Patrícia, Alexandra e Fábio

De lá para cá, não tinha conseguido igualar o tempo, chegando no máximo a 49min16, em prova disputada no bairro do Ipiranga, há quinze dias. A corrida do Pacaembu tem muito mais trechos planos que a do Ipiranga, o que me fazia ter esperança de chegar perto do recorde desta vez.

Na tarde de sábado, recebi um e-mail do meu colega Henry Hanada, o japonês que me “puxou” na prova de dezembro, dizendo que desta vez não poderia correr, mas que eu carregava a responsabilidade de fazer a prova na casa dos 48 minutos. Este, na verdade, já era meu objetivo, mas preferi ficar “na moita”, sem alardear os planos, principalmente porque meu técnico, José Eduardo Pompeu, não gosta que criemos esse tipo de expectativa.

A manhã estava bem fria na hora da largada, às 8h. Um termômetro público, na Praça Charles Muller, marcava 14°. Cerca de cinco mil pessoas largaram, o que não é nenhum exagero para essa prova, que é disputada a maior parte do tempo em vias largas, como o Pacaembu e o Elevado Costa e Silva, o famoso Minhocão, esse verdadeiro horror arquitetônico de São Paulo.

Seguindo a orientação do Zé, fui aquecendo nos dois primeiros quilômetros, sem forçar muito, mas já fazendo cada trecho de mil metros abaixo dos cinco minutos. Quando virei no quilômetro cinco, estava na faixa de 24 minutos, ou seja, era questão de manter o mesmo ritmo para ficar na casa dos 48 minutos.

Depois de fazer este percurso seis vezes, já tenho alguns conceitos bem definidos sobre ele. O mais óbvio, que no entanto só se percebe quando se corre a pé ali pela primeira vez, é o fato de que a chegada, na Praça Charles Muller, representa uma leve mas contínua subida. Outra constatação, cristalizada hoje, é a do ponto crítico da prova – entre os quilômetros seis e sete, ainda sobre o Minhocão, com uma subida forte e o componente psicológico contrário, de se começar a perceber o cansaço, com mais de quatro quilômetros para o final.

Mesmo ali, entre o seis e o sete, eu continuava com o ritmo forte, passando abaixo dos cinco minutos a cada quilômetro, mantendo uma freqüência cardíaca próxima dos 180 bpm o tempo todo. (Na prova do Verão, eu sempre diminuía o ritmo quando chegava a esse pico, para voltar ao estágio dos 177 bpm, que já é alto, mas me garantia mais conforto em dezembro. O que me deixou feliz na prova deste domingo, também, foi a constatação de que estou conseguindo manter um ritmo forte, traduzido na freqüência cardíaca, durante um longo período.)

Voltando à avenida Pacaembu, no quilômetro oito, chequei o cronômetro e encontrei 38 minutos, ou seja, eu poderia manter o ritmo pouco abaixo dos cinco minutos que atingiria a meta. Foi o que fiz, porque sabia que não conseguiria melhorar o desempenho com a ligeira subida do final da prova. Quando cheguei à Praça Charles Muller, percebi que havia passado a corrida inteira sem ter nenhum insight para escrever o relato, como habitualmente acontece. Eu estava cem por cento concentrada na corrida, o que talvez ajude a explicar o bom desempenho.

Bom, na verdade, não. Parei o cronômetro com a marca de 48min26, meu novo recorde para provas de 10 km! Fui 39ª entre todas as mulheres, a 6ª na minha faixa etária. Com a licença da Bia Figueiredo, que chegou à frente dos homens da categoria no sábado, eu fiz o mesmo em relação aos marmanjos da minha equipe. Com todo respeito, senhores, esqueçam aquela história de que “atrás de um grande homem” etc. etc....

(Com o tradicional agradecimento ao colega Nilton Hayashi da Cruz, pela foto.)

Tuesday, July 08, 2008

Que pátria?

Bem, apesar do atraso por conta da Telefônica, segue o link para a minha mais recente coluna no GPTotal. (Procure no menu do meio da página, já que não é mais o destaque da home). Uma discussão que nasceu aqui no blog e virou o tema principal da coluna: qual a relação entre o esporte e a pátria? Um representa o outro? Quando torce contra o "Brasil", você se coloca contra o Brasil?

Fora do ar

Amigos deste blog, desculpem pela longa ausência nos últimos dias. Fui e ainda sou uma das vítimas da Telefônica e de seu apagão na internet. A conexão do escritório, acreditem, está fora do ar até hoje, terça-feira, dia 08 de julho, quase uma semana depois da pane.

Juro que não tenho paciência nem vontade para descrever a seqüência de problemas que a Telefônica tem me feito passar nesta última semana. Na verdade, acho que a Telefônica não merece que eu gaste minha energia nisso. Felizmente, a conexão de casa não é dessa empresa, o que me possibilitou escrever este breve post.

Tenham paciência, como eu... Uma hora, resolve.

Atualização: Resolveu! Hoje, finalmente, a Telefônica religou minha banda larga.

Sunday, June 29, 2008

Em nome do pai

Já não me lembro quantas vezes corri no circuito do Ipiranga, pois há duas provas por ano naquele local - uma sempre no final de junho ou começo de julho, em homenagem ao Dia do Bombeiro, e outra em setembro, marcando a Independência. Sempre gostei de correr lá e sempre tive uma porção de motivos por este apreço.

Correr em locais como o Ipiranga, o Centro de São Paulo e o circuito do Barro Branco é uma oportunidade de sair do binômio USP-Ibirapuera, que domina amplamente o calendário. Mas tem mais. O trajeto é altamente desafiador, com uma ladeira longa entre os quilômetros seis e sete, o que modifica totalmente a estratégia habitual. Não dá para apenas aumentar o ritmo progressivamente, pois esse trecho, já na segunda metade da prova, quase sempre representa uma diminuição no desempenho.

Um motivo adicional é o local onde se monta a arena - o Parque da Independência, bem em frente ao Museu do Ipiranga. Certamente, um dos lugares mais bonitos de São Paulo, com aquele jardim copiado de Versailles, com a beleza arquitetônica do museu a emoldurá-lo. Um lugar com muitas árvores, como toda a cidade deveria ser...

Mas, sendo muito honesta, devo confessar que a prova do Ipiranga sempre me remete ao meu pai. Durante um curto período da minha vida profissional, trabalhei no mesmo endereço que ele. Eu, começando a carreira. Ele, às portas da aposentadoria. Éramos de áreas bem diferentes, já que meu pai era engenheiro mecânico. Mas, por conta dessa circunstância, durante um ano fomos juntos para o trabalho, no carro dele, e passávamos todos os dias por aquele pedaço da cidade.

É impossível passar pela avenida D. Pedro I ou pela avenida Nazareth e não recordar aquelas manhãs. Íamos a caminho da Ford, em São Bernardo do Campo, empresa na qual ele trabalhou por trinta anos e na qual fui assessora de imprensa por dois anos e meio. Hoje, treze anos depois desse período, oito anos depois que ele se foi, já é agradável passar por ali. Lembro dos nossos rituais e piadas, e de uma brincadeira macabra que constituía em "atropelar pessoas". Claro que ele não passava com o carro por cima de ninguém, mas a cada oportunidade que tínhamos de deixar um pedestre atravessar na nossa frente, contávamos os pontos para nosso joguinho. Gente carregando sacola valia mais pontos, assim como indivíduos de boné, mochila etc. Éramos normais, não se engane.

Claro, não foi sempre assim, tão tranqüilo, lembrar desses tempos. Nos primeiros anos de sua falta, alguns lugares, gestos e hábitos repercutiam na memória como uma fisgada no peito. Talvez, naquele tempo, eu não conseguiria nem correr pelas ruas do Ipiranga. E quando os mais experientes, que já tinham passado por perdas semelhantes, diziam que uma hora isso ia passar, era difícil de acreditar.

No entanto, hoje passo pela avenida D. Pedro I e por seus casarões antigos, subo a Nazareth com os olhos magnetizados pelo museu e já não vem a tristeza. Vem a lembrança do joguinho esdrúxulo, das piadas, das fitas cassete que íamos ouvindo no carro.

Meu pai certamente ficaria entusiasmado com meu engajamento nas corridas. Na falta dele, fui encontrando nesse circuito alguns "pais" que me guiam, me puxam a orelha, me tratam com genuíno carinho de filha. O pai de todos, Zé Eduardo Pompeu, é o técnico e é Zé, como era meu pai também. Henry, meu grilo falante, é quase um pai bravo a me convencer de que posso ir mais rápido, mais forte, mais decidida. Zoca é outro pai de todos, por ser o mais velho e por ter, com sua (e nossa!) querida Valéria virado uma espécie de padrinho de todo o time.

Na corrida deste domingo, uma performance para encher de orgulho todos eles. Terminei em 49min16, que não é meu melhor tempo para 10 km, mas é um "temporal" para um circuito como aquele, com uma ladeira tão longa. De quebra, recebi duas medalhas. A verdadeira, da prova, e um prêmio inesperado. Meu amigo Henry, outro japonês da turma, me deu uma figurinha repetida de seu álbum da Eurocopa. Na foto, o tudo-de-bom Cristiano Ronaldo, titularíssimo do time de Portugal, terra dos meus avós, país que levava toda a simpatia... do meu pai.

Friday, June 27, 2008

Maria (quase) Gasolina

Em minhas andanças pelos autódromos, lá no Paleolítico, costumava ser muito mais fácil falar com os pilotos, e isso vale também para os de Fórmula 1. As restrições à imprensa eram muito menores naquela época e os pilotos não eram engessados nessas regras de só falar em horários pré-determinados, em ambientes assépticos, com os logotipos dos patrocinadores estrategicamente posicionados para aparecer nas imagens. Era chegar, testar o humor do sujeito e, se rolasse, engatar as perguntas ali mesmo, encostados na mureta do pit lane ou nas portas de ferro do box.

(Nunca me esqueço de que, certa vez, fiquei esperando um tempão para falar com Alain Prost depois do GP do Brasil de 1993, encostada na porta do box. Quando saí, notei que minha calça jeans estava toda suja de graxa. Que ódio!)

Em 1992, o contraste era ver o poderio quase bélico da Williams, com sua suspensão ativa que fazia os carros se mexerem "sozinhos", em testes bem provocativos no intervalo entre um treino e outro, e as condições mequetrefes dos times menores, como Fondmetal ou Larousse. Nada, porém, se comparava à pobreza e ao amadorismo da natimorta Andrea Moda.

A equipe era uma piada a começar pela origem. O dono, Andrea Sasetti, era um empresário do ramo de calçados que achou por bem criar uma equipe de Fórmula 1. As condições eram mais do que precárias. O carro da equipe nunca tinha sido testado. Na semana anterior ao GP do Brasil, os dirigentes do time ficaram prometendo testes em circunstâncias mais que inverossímeis, a ponto de cogitarem colocar o carro para andar no aeroporto do Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo. Não rolou teste nenhum e há quem jure de pé junto ter visto mecânicos da equipe emendando a carenagem do carro com silver tape.

Isso eu não vi mas, meninos, eu vi. Vi Roberto Pupo Moreno, um dos pilotos da equipe, dar uma entrevista sem pé nem cabeça, acreditando não só que o carro andaria como também que ele se classificaria para a largada. Para quem não sabe, naquela época a Fórmula 1 tinha mais carros inscritos que posições no grid, deixando sempre pelo menos quatro carros fora da corrida. Largavam 26 pilotos, imagine...

Pois a Andrea Moda não só ficou na degola de pré-classificação como foi capaz de rodar apenas com um único carro, justamente o de Moreno. O tempo da pole, obtido por Nigel Mansell, foi de 1min15s703. O último colocado no grid, Johnny Herbert com sua Lotus, marcou 1min20s650. A penúltima colocada na pré-classificação, a italiana Giovana Amati, marcou 1min26s645. Achou grande a diferença? Pois então se segure. Moreno, com a paquidérmica Andrea Moda, registrou o inacreditável tempo de 1min38s569! Doze segundos a mais que a penúltima colocada, 23 segundos a mais que a pole!



Junto a Moreno, no box da Andrea Moda, estava um piloto inglês, carequinha e simpático, chamado Perry McCarthy. Na sala de imprensa, tínhamos visto seu nome na lista de inscritos, mas nenhum dos repórteres brasileiros conhecia o indivíduo. Em um tempo no qual só se falava de Ayrton Senna e de seu desalento em perseguir a esquadra da Williams, ninguém deu muita bola para Perry McCarthy. Numa dessas idas e vindas entre sala de imprensa, paddock e pitlane, deparei-me com meu colega de Folha de S. Paulo Edgar Alves, junto a um pequeno grupo, na frente de um box.

Cheguei e vi um loirinho calvo, já entrado na casa dos 30, descrevendo uma manobra como se narrasse um desenho animado. Gesticulava explicando o movimento do carro e a subseqüente batida, usando onomatopéias o tempo todo. "Pum, pow, poff, crash!" E se ria todo, lembrando de alguma corrida, em algum rincão da Europa, que provavelmente ninguém mais viu. Percebi que o figura era Perry McCarthy e fiquei ali, pescoçando a conversa. Como era natural, o então repórter do Jornal da Tarde estava junto comigo.

Em dado momento, inquirindo o piloto sobre mais detalhes de sua vida e carreira, Edgar Alves perguntou se McCarthy era casado. O safadinho virou-se para mim, entre jocoso e galante, arregalando os olhos e dando piscadelas cômicas. "Quem está perguntando?", disse em um inglês bem arretado. Ao que Edgar respondeu: "Ela!", referindo-se naturalmente a mim. E Perry: "No, I am not!"

Com meus 20 e pouquinhos anos, corei. Ao lado do namorado, acrescentei constrangida. "But, I am...". E o repórter do JT arematou: "Yes, with me!".

Perry não perdeu o rebolado. Virou-se para o jovem jornalista, estendeu-lhe a mão e disse: "With you! Oh, congratulations!" A entrevista informal terminou em risadas. A aventura de Perry McCarthy na Fórmula 1 não completou uma volta sequer, e assim acabou minha curtíssima carreira frustrada como Maria Gasolina.

Sunday, June 22, 2008

Pelo amor e pela dor

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Felipe Massa, ao vencer e se tornar líder do campeonato, parece ter encontrado o equilíbrio que lhe faltava em outras temporadas. Uma análise deste histórico GP da França de 2008, lá no GPTotal. Vai lá, comenta aqui, ou lá, onde quiser!

Tuesday, June 17, 2008

A seguir, cenas dos próximos capítulos...


Soube pela internet que o SBT está reprisando a novela "Pantanal", exibida originalmente pela extinta TV Manchete. Quando li a notícia, comentei com a jornalista Tatiana Napoli, que trabalha comigo, sobre um dos grandes legados de "Pantanal" - o fim do tradicional "a seguir, cenas dos próximos capítulos...".

Tati, que é bem mais nova que eu, não conhecia essa verdadeira instituição da teledramaturgia brasileira. E se ela, que é bem antenada, demonstrou desconhecer o tema, imagino que boa parte das gerações jovens jamais tenham visto um final de capítulo arrematado pela tal frase.

Desde que Eva Wilma e Johnny Herbert cruzaram as linhas em "2-5499 Ocupado", a primeira telenovela diária do Brasil, o final do capítulo seguia sempre a mesma fórmula. Antes do último intervalo, em vez de aparecer o tradicional "estamos apresentando", vinha a frase lapidar "a seguir, cenas dos próximos capítulos". Tome reclame e, na volta, um pequeno clip mostrava cenas a serem exibidas. Às vezes, sem os diálogos, com uma das músicas da trilha sonora percorrendo as cenas. Em outras ocasiões, com os diálogos. Nos primórdios, entravam as cenas recortadas e um locutor repetia um mesmo texto, dia após dia, algo como "amor, emoção, traição, cobiça... tudo isso em... Fogo sobre terra!".

E por que sumiram com o tal "a seguir, cenas dos próximos capítulos"?

Aí é que entra "Pantanal" na história. A telenovela, uma xaropada como quase todas, só que com muita gente pelada, balançou a audiência da Globo. A novela ia ao ar depois do tradicional horário da novela das oito da emissora do Jornalista Roberto Marinho (sic). Só que a zapeada era tão violenta rumo à Manchete que a Globo começou a se preocupar com a baixa audiência de suas atrações seguintes, a chamada linha de shows. Para tentar evitar que os telespectadores mudassem de canal já no último intervalo, o que antecedia as tais "cenas dos próximos capítulos", a Globo começou a colar a atração seguinte na novela, sem direito a intervalo nenhum.

Talvez a solução de emergência tenha se mostrado vantajosa de alguma forma, porque aos poucos as "cenas dos próximos capítulos" foram sumindo de todas as outras novelas, até desaparecer de vez.

Além de introduzir o desfile de peladas lânguidas em paisagens idem, "Pantanal" talvez entre para a história da teledramaturgia nacional como a novela que acabou com "cenas dos próximos capítulos" embora, ela mesma, tivesse as suas.

Wednesday, June 11, 2008

Atendendo a pedidos

Desde que inaugurei este blog, em 29 de janeiro de 2006, nunca tinha mudado seu layout. Meu "filho" Bruno Vicária, dono da Laje de Imprensa, blog que se traduz por ser uma espécie de metamorfose ambulante, já tinha tirado uns sarrinhos, de leve, da estagnação deste meu espaço. Meu filho, outro blogueiro com sede de mudança, pediu, reiterou, insistiu e hoje, finalmente, graças a uma irresistível ligação no final do dia, conseguiu me convencer.

Foi me guiando pela lista de layouts disponíveis, dando idéias e sugerindo cores. Por fim, decretou: coloque uma foto sua! Aquela, de cabelo preso. Que nem é uma foto do dia-a-dia, pois raramente uso o cabelo preso.

O que uma mãe não faz...

Tuesday, June 10, 2008

Embalos de sábado à noite

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Seja em treino ou corrida, penso sempre a mesma coisa antes de completar o primeiro quilômetro: "O que estou fazendo aqui?". É irresistível abandonar-se à reflexão acerca do sentido de correr, de extenuar-se, de elevar o batimento cardíaco ao nível do desconforto. O sentido ou a falta dele. Como bem lembrou Drauzio Varella há algumas semanas, em artigo na Folha de S. Paulo, exercitar-se não é algo natural para animais na vida adulta. O homem é o único que tem de se forçar à atividade física programada, por ter adotado uma vida tão prática e confortável. O que equivale dizer - tão sedentária.

Mas, depois de vencido o primeiro quilômetro, a coisa pega no tranco e a gente vai. Na verdade, a gente volta, pois correr é quase sempre movimentar-se em círculo, partindo de um ponto e voltando a ele mesmo. Outra reflexão que sempre se instala. Se era para voltar para o mesmo lugar, por que fui? Parece a anedota do caiçara, ouvindo o homem da cidade aconselhá-lo sobre a necessidade de pescar mais, vender mais, comprar mais um, dois, dez barcos, ter uma frota, ter empregados trabalhando para ele, a fim de que ele pudesse, finalmente, deixar-se ficar na beira da praia, só descansando, ao que o pescador responderia - "E não é o que eu estou fazendo agora?"




Ainda assim, venço a tentação da inércia e vou. No sábado, dia 7 de junho, fui pela 40ª vez. Em quase seis anos de corrida, 40 provas. Neste ano, por conta das transmissões da Fórmula 1, tenho perdido algumas corridas, a maioria programada para as manhãs do domingo. Por isso, me animei com a idéia de fazer uma prova noturna. Sim, sábado à noite. A turma da Equipe Conexão, sob o comando do treinador José Eduardo Pompeu, compareceu em peso. No caminho, indo de comboio para a Cidade Universitária, eu repetia a todo instante a mesma pergunta - "O que estou fazendo aqui?".

Tinha sido um sábado cheio de atividades. Logo pela manhã, festa junina na escola dele. Na hora do almoço, um aniversário na casa de amigos, com pausa para ver o treino do GP do Canadá. Na volta para casa, tempo apenas para trocar de roupa e seguir para a Paulista, onde a turma se reuniria. Saí de casa com uma sensação estranha, por deixar pai e filho meio à deriva, numa noite de sábado.

A prova, Fila Night Run, 10 km, tinha largada marcada para as 20h. O mesmo embaço de sempre na hora de estacionar o carro, retirar o chip e guardar as sacolas no guarda-volumes. Pouco tempo para aquecer, muita gente na largada, sentença dada - vamos aquecer nos primeiros dois quilômetros e ver o que dá para melhorar daí para a frente.

Pouco antes da largada, percebi que aquela não era apenas minha primeira prova noturna. Eu simplesmente nunca havia corrido à noite, nem em treino. Sou diurna, gosto de acordar antes do sol para aproveitá-lo todinho e sempre sinto o gás acabando quando o entardecer se instala. Some-se a essa tendência natural a correria de sábado e minha perspectiva não era para um desempenho notável na prova.

Chegando à USP, um reforço inusitado para a energia da turma. Zoca saca de sua sacola uma lata de biscoitos cheia de... bolinhos de chuva! Sua doce Valéria havia preparado um farto carregamento da guloseima, que até aquela data nunca tinha se mostrado especialmente indicada para a nutrição de atletas antes do exercício.










Não sei se foi o bolinho da Valéria, o horário da largada ou a vontade de ir embora logo, mas o fato é que comecei a me sentir muito disposta durante a prova, fazendo os primeiros quilômetros sempre acima dos cinco minutos, mas não muito mais que isso. A partir do quinto, comecei a apertar o ritmo e terminei em 50min20, bem acima do meu recorde de 49min00, mas bem melhor do que eu imaginava no início da prova.

Terminado o evento, na volta para o carro, com uma vontade louca de voltar para minha casa, tive certeza de que foi uma boa experiência, mas talvez única. Dez quilômetros na noite de sábado já é manifestação patológica. Comecei, continuei e terminei com a mesma pergunta rondando minha mente - "O que eu estou fazendo aqui?"

Friday, June 06, 2008

Al Capone

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O maior gângster da história foi preso por sonegar impostos. Quase como Max Mosley, absolvido pelo "motivo errado". No GPTotal, o desenvolvimento desse tema e uma análise das mazelas de Nelson Piquet, o segundo. Vai lá, vai.

Thursday, June 05, 2008

Avante, patrício!

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A Eurocopa começa nesta semana, com jogos na Suíça e na Áustria. O repórter Julio Gomes vai cobrir a competição e hoje trouxe uma entrevista exclusiva com o principal jogador de Portugal, Cristiano Ronaldo, candidatíssimo ao título de melhor jogador do ano.

Como forma de homenagear meus antepassados, junto-me à torcida de Portugal. É só por isso que este post vem ilustrado assim, tão lindamente.

Tuesday, June 03, 2008

Mosley fica

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Quem apostou que ele cairia (como eu) queimou a língua. Por 103 votos contra 55, o presidente da FIA, Max Mosley, recebeu um voto de confiança da assembléia geral da entidade, em reunião realizada nesta terça-feira, em Paris.

A votação foi secreta (ah, assim fica fácil) e o resultado final, divulgado pela FIA, foi o seguinte:

Sim ao voto de confiança - 103
Não ao voto de confiança - 55
Abstenções - 7
Votos nulos - 4

Ou seja, uma lavada de Mosley.

Com o resultado, Mosley permanece em seu cargo pelo menos até novembro, quando devem acontecer novas eleições para a presidência da entidade.

Continuo achando que, se a votação fosse aberta, ele cairia.

Friday, May 30, 2008

Cai ou não cai?

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Na próxima terça-feira, dia 3 de junho, o presidente da FIA, a Federação Internacional de Automobilismo, Max Mosley, pode perder seu cargo. Na origem da eventual queda, a divulgação de uma orgia com temática sado-masoquista, apimentada por indumentária e ambientação nazistas.

Gostaria de debater dois aspectos.

Primeiro: você acha que Mosley cai ou não cai no dia 3?

Segundo: o que você acha mais condenável - a fantasia de Mosley, de cunho nazista, ou a divulgação da orgia pelo jornal "News of the world"?

Minha opinião: acho que ele cai, que os dirigentes do automobilismo não querem o incômodo de passar por omissos diante de um caso tão ruidoso. Ao fim e ao cabo, será um gesto hipócrita, porque a condenação, se vier, só virá em função da divulgação pública. Em outras palavras: os cartolas que votarem contra Mosley vão fazê-lo para ficar bem com a chamada "opinião pública". Mas, se soubessem que o velho Max é chegado em um chicotinho e isso não tivesse saído na imprensa, era bem capaz de olharem para ele com um misto de admiração e inveja, ansiando mesmo para serem convidados para suas "festinhas", como disse Nelson Piquet em seu habitual tom de deboche.

Segundo: acho que todos temos nossos esqueletos no armário e prezamos nossa privacidade. Ninguém gostaria de se ver exposto em um tablóide sensacionalista da maneira como Mosley foi. Pessoalmente, acho esse tipo de imprensa abjeta e não hesitaria em processar um veículo se fosse vítima dele. Mas, é o tal negócio, jornalecos como esse existem porque há quem os leia...

Monday, May 26, 2008

O nome da grana

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Hoje, em seu programa semanal de rádio, o presidente Lula afirmou que a América do Sul caminha para ter uma moeda única. Uma questão: como se chamaria o dinheiro do continente sul-americano?

Eu, que já passei por cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro (de novo), cruzeiro real e real, sempre acho uma perda de tempo essas trocas de nomes. Sempre achei que o dinheiro no Brasil deveria se chamar simplesmente "pau". Afinal, é assim que nos referimos ao preço das coisas, ou não?

"Quanto você pagou nesse tênis?"

"Duzentos paus".

Pronto, oficializa. E, de quebra, faz uma homenagem à origem do nome do país - Pau-Brasil. Só não sei se o resto do continente ia gostar...

E você, que nome daria para a moeda única da América do Sul?

Obrigada

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Certa vez, estava dentro do carro, na frente de um caixa eletrônico, quando vi um homem descer de seu automóvel e se dirigir a esse mesmo caixa. Havia algum movimento na rua, mas nenhuma das pessoas pareceu notar sua presença. Ele entrou, ficou alguns minutos lá dentro e saiu, sem que ninguém fizesse menção de lhe dirigir a palavra. Corintiana que sou, ainda assim fiquei espantada com a indiferença. Era Ademir da Guia, chamado por muitos de "Divino", um dos maiores jogadores que atuaram pelo Palmeiras. Ninguém deu bola.

Noutra vez, no Aeroporto de Guarulhos, reparei em um homem diante de um balcão de café, esperando seu pedido, olhando para o nada do saguão lotado. Sozinho na multidão, era Careca, um dos maiores centroavantes do São Paulo, titular da seleção de 1986.

Fama é assim mesmo. Chega, instala um turbilhão na vida do sujeito, torna-o celebridade e eventualmente rico, mas quase sempre vai embora. E ele que fique com suas lembranças e com seus dividendos.

Gustavo Kuerten foi o maior jogador de tênis da história do Brasil. Fez, com seu esforço, o inimaginável em um país que dá pouca importância para outros esportes que não sejam o futebol. E, ainda no futebol, esquece tão fácil seus ídolos de ontem.

Que Guga tenha uma vida feliz, que possa usufruir o que conquistou. Que seja reverenciado, para sempre. Obrigada, Guga!

Questão de estrela

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Sorte ou competência? O que, afinal, levou Lewis Hamilton à vitória no GP de Mônaco de 2008? Algumas considerações no GPTotal. Leia lá, comente!

Sunday, May 18, 2008

Juntos, outra vez

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Zelia Gattai não morreu ontem, na Bahia. Zelia tornou a viver. Pode ser que demore alguns dias, dias terrenos, essas vinte e quatro horas em que o planeta gira em torno de si mesmo, que convencionamos a chamar de dia. Em algum tempo, em medida que desconhecemos, Zelia reencontrará a vida porque estará de novo com seu grande amor.

Jorge Amado morreu em 2001, deixando para Zelia os dois filhos e os netos, a cadeira na Academia Brasileira de Letras, a solidão na casa do Rio Vermelho. Parece que foi mais cedo para arrumar a casa e esperá-la. Conhecendo Zelia e Jorge por meio dos livros dela, é de se imaginar que a casa estará uma bela bagunça. Zelia chegará para colocar ordem na nova vida dos dois.

Foi assim desde 1945, quando os dois se conheceram, ambos desquitados, militantes do Partido Comunista. Fascinada pelo escritor baiano, a paulistana assumiu a vida do marido como a própria vida. Mudou-se com ele para o Rio, acompanhando-o já eleito deputado federal. Declarado ilegal o partido, foram exilados para Paris, depois Praga, na então Tchecoslováquia, e finalmente, Salvador.

Mulher, desquitada, militante comunista. Zelia mudou-se com Jorge para o mundo deixando tudo para trás. Teve coragem até para deixar o filho, fruto de um primeiro casamento, aos cuidados das irmãs. Não, esse não era um amor qualquer.

Colocou ordem na vida de Jorge, responsabilizando-se até por passar a limpo e revisar seus originais.

Escritor popular, talvez o mais popular do Brasil, Jorge sabia que não era considerado pela intelectualidade como um literato. Talvez não fosse mesmo, mas não parecia se importar com isso. Jorge talvez tivesse a consciência da missão nobre a ele reservada: enfiar a cara de milhares, milhões de pessoas em todo o mundo dentro de um livro. Não há que ser literato para isso, há que ser bom contador de histórias.



E foi o talento para contar histórias que Jorge detectou na mulher, incentivando-a a escrever suas memórias. "Anarquistas graças a deus" foi o livro de estréia de Zelia, aos 63 anos de idade. O conselho dele: escreva de maneira simples, sem parecer literato. Não somos literatos.

Com sua singeleza, Zelia tornou-se uma competente cronista de suas épocas. Da São Paulo dos anos 20 e 30, do Rio de Janeiro dos anos 40, da Europa dos anos 50. Histórias prosaicas, daquelas que aconteciam na vida de qualquer um, transcritas em textos fluidos, sem empáfia.

Zelia, como Jorge, ajudou a despertar em muitos leitores o amor pelos livros. Obrigada, Zelia, vai cuidar do teu baiano romântico e sensual, vai.

Tuesday, May 13, 2008

Vocé é o...?

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O pai é provavelmente a maior enciclopédia viva sobre automobilismo no Brasil. A mãe dá seus pitacos sobre corrida desde 1991. Resultado é que o rapazinho sempre responde do mesmo jeito quando perguntado sobre seu time preferido: "Não gosto de futebol".

E não gosta mesmo. Na TV, nem pensar. Na escola, participa e se diverte nas aulas do esporte bretão, mas de fato canaliza todo interesse em esporte para coisas que se movam, com duas ou com quatro rodas.

Certo dia, o jovem blogueiro acompanhava uma conversa da mãe com a avó. "Puxa, você viu que a filha do Pelé morreu?".

Ele, de imediato: "Quem é Pelé?"

A avó achou um acinte. "Se seu avô fosse vivo, você saberia quem era o Pelé." O avô, torcedor da Lusa, sofreu como todos os outros times com aquele camisa dez do Santos. Mas, como todo brasileiro, era admirador do atleta do século. Contaria histórias de Edson Arantes do Nascimento e o guri saberia, certamente, quem é Pelé.

Mas não sabia, nem se interessou em pesquisar. Dias depois, vai Pelé homenagear Michael Schumacher, que em Interlagos fazia sua última corrida na Fórmula 1.

"Tá lá, Gabriel, tá vendo aquele cara entregando um troféu para o Schumacher? Aquele é o Pelé."

E para ele, provavelmente, Pelé ainda é o sujeito que fez uma homenagem ao alemão no grid do GP do Brasil de 2006.