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Que James Bond, que nada. O melhor espião de todos os tempos é Ron Dennis. Que não apenas locupletou-se de segredos da rival como fez sumir o crime dos noticiários.
Até o GP da Hungria, a McLaren trafegava precariamente entre a estranha absolvição em um tribunal da FIA e a perspectiva cruel de ser novamente julgada.
Depois do GP da Hungria, graças a uma briga criada em seu próprio quintal, desviou completamente o foco do mundo da Fórmula 1.
Ninguém mais fala em Nigel Stepney ou Mike Coughlan, só querem saber de Fernando Alonso e Lewis Hamilton.
A McLaren ainda deverá encarar o tribunal da FIA, depois da grita histérica da Ferrari, mas o clima já é bem outro.
Talvez eu seja cética demais, ou veja armações em coisas demais.
Monday, August 13, 2007
Friday, August 10, 2007
Adeus, Conjunto Nacional
.
Moro em Santana, na Zona Norte de São Paulo, o bairro mais longe da capital. Não importa que o sujeito more no Morumbi, na Penha, em Alphaville, que nem em São Paulo fica. Quando digo que moro em Santana, sempre me perguntam por que moro “tão longe”. Há vários anos já desisti de explicar que longe é um conceito dependente de algo chamado referencial. Digo apenas que gosto de morar lá, o que é a pura verdade.
Moro a exatos dez quilômetros do meu trabalho, na região da Paulista. Pouco mais de seis quilômetros me separam do centro da cidade. Gosto de estar a esta distância da muvuca, mas paradoxalmente gosto de me sentir perto dela, como se a controlasse à distância. Santana é um bairro alto, vejo a cidade de cima. Não deixa de ser um tolo exercício de poder.
Da janela da minha cozinha, avisto o Conjunto Nacional, um importante edifício localizado na avenida Paulista. O Conjunto Nacional foi um projeto revolucionário no período de seu lançamento, na década de 1950. Agregando áreas residenciais e comerciais, virou um ponto de referência da grande avenida. Tem lojas, restaurantes, escritórios, cinemas e a sede da Livraria Cultura. Mas, para efeito de símbolo da cidade, o Conjunto Nacional pode simplesmente ser descrito como o edifício do relógio do Itaú. Ao longe, é possível saber que horas são, ou quantos graus está na cidade, apenas desviando o olhar para a Paulista.

(A cidade de São Paulo sofreu uma faxina radical recentemente. O prefeito Gilberto Kassab fez cumprir uma lei chamada Cidade Limpa que saiu arrancando letreiros e fachadas de tudo quanto foi estabelecimento comercial. O mastodôntico relógio do Itaú segue impávido em cima do Conjunto Nacional. Há alguns anos, depois que o agora governador José Serra foi eleito prefeito, o Itaú passou a responder pelos pagamentos da prefeitura. Deve movimentar um dinheirão esse dono do relógio...)
Santana é um bairro em ebulição imobiliária, como de resto vários outros da cidade. As casas vão caindo uma atrás da outra, dando lugar a prédios com nomes italianos como Areggio ou Via Qualquer Coisa. Eu mesma moro em um prédio, não posso falar muito. Mas percebi que um terreno perto de casa está todo cheio de tapumes, denunciando construção eminente. Não seria nada demais se não estivesse a vivenda em projeto bem na linha do Conjunto Nacional.
É por uma fresta que o vejo, e presto atenção nele por uns dez segundos, diariamente. Quando acordo e vou fazer meu café da manhã. E antes de deitar, hora do último copo d´água. Pela manhã, se vejo o prédio e diviso o relógio, estranhamente me sinto confortada. É como se tudo fosse dar certo naquele dia. Mas há muitos dias de neblina, e nem sempre o enxergo. Claro que não volto para a cama e desisto do dia por conta disso. Até me esqueço.
Mas era um hábito, um conforto, uma companhia familiar tê-lo ali, tão longe e tão perto. Vou sentir falta do Conjunto Nacional, mas vou me habituar à sua ausência. É sempre assim, com tudo. Cada vez que olhar o Areggio Não-sei-o-quê ou o Via Não-sei-o-que-lá vou lembrar que ele, antes, lá esteve. Ainda estará, só não mais ao alcance dos meus olhos.
Moro em Santana, na Zona Norte de São Paulo, o bairro mais longe da capital. Não importa que o sujeito more no Morumbi, na Penha, em Alphaville, que nem em São Paulo fica. Quando digo que moro em Santana, sempre me perguntam por que moro “tão longe”. Há vários anos já desisti de explicar que longe é um conceito dependente de algo chamado referencial. Digo apenas que gosto de morar lá, o que é a pura verdade.
Moro a exatos dez quilômetros do meu trabalho, na região da Paulista. Pouco mais de seis quilômetros me separam do centro da cidade. Gosto de estar a esta distância da muvuca, mas paradoxalmente gosto de me sentir perto dela, como se a controlasse à distância. Santana é um bairro alto, vejo a cidade de cima. Não deixa de ser um tolo exercício de poder.
Da janela da minha cozinha, avisto o Conjunto Nacional, um importante edifício localizado na avenida Paulista. O Conjunto Nacional foi um projeto revolucionário no período de seu lançamento, na década de 1950. Agregando áreas residenciais e comerciais, virou um ponto de referência da grande avenida. Tem lojas, restaurantes, escritórios, cinemas e a sede da Livraria Cultura. Mas, para efeito de símbolo da cidade, o Conjunto Nacional pode simplesmente ser descrito como o edifício do relógio do Itaú. Ao longe, é possível saber que horas são, ou quantos graus está na cidade, apenas desviando o olhar para a Paulista.

(A cidade de São Paulo sofreu uma faxina radical recentemente. O prefeito Gilberto Kassab fez cumprir uma lei chamada Cidade Limpa que saiu arrancando letreiros e fachadas de tudo quanto foi estabelecimento comercial. O mastodôntico relógio do Itaú segue impávido em cima do Conjunto Nacional. Há alguns anos, depois que o agora governador José Serra foi eleito prefeito, o Itaú passou a responder pelos pagamentos da prefeitura. Deve movimentar um dinheirão esse dono do relógio...)
Santana é um bairro em ebulição imobiliária, como de resto vários outros da cidade. As casas vão caindo uma atrás da outra, dando lugar a prédios com nomes italianos como Areggio ou Via Qualquer Coisa. Eu mesma moro em um prédio, não posso falar muito. Mas percebi que um terreno perto de casa está todo cheio de tapumes, denunciando construção eminente. Não seria nada demais se não estivesse a vivenda em projeto bem na linha do Conjunto Nacional.
É por uma fresta que o vejo, e presto atenção nele por uns dez segundos, diariamente. Quando acordo e vou fazer meu café da manhã. E antes de deitar, hora do último copo d´água. Pela manhã, se vejo o prédio e diviso o relógio, estranhamente me sinto confortada. É como se tudo fosse dar certo naquele dia. Mas há muitos dias de neblina, e nem sempre o enxergo. Claro que não volto para a cama e desisto do dia por conta disso. Até me esqueço.
Mas era um hábito, um conforto, uma companhia familiar tê-lo ali, tão longe e tão perto. Vou sentir falta do Conjunto Nacional, mas vou me habituar à sua ausência. É sempre assim, com tudo. Cada vez que olhar o Areggio Não-sei-o-quê ou o Via Não-sei-o-que-lá vou lembrar que ele, antes, lá esteve. Ainda estará, só não mais ao alcance dos meus olhos.
Thursday, August 09, 2007
Terra, Vento & Fogo
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Minha cabeça faz associações esdrúxulas, que chegam a me constranger. Acho que todo mundo é assim, mas eu, pelo menos, falo das minhas sandices. Nas últimas semanas, depois do acidente da TAM, falou-se muito do tal “grooving” da pista de Congonhas, um processo pelo qual são feitas ranhuras no piso, para favorecer a frenagem das aeronaves. Pois cada vez que eu ouvia falar em “grooving”, lembrava da música “Let´s groove”, um grande sucesso do grupo norte-americano Earth, Wind & Fire.
Nascido em 1969, em Chicago, ainda com o nome de Salty Peppers, EWF teve uma quantidade absurda de integrantes ao longo de sua história – cerca de 50! Habitualmente, a banda agregava em torno de dez músicos. As formações foram inúmeras, mas o coração do EWF era seu criador e, por assim dizer, “dono”, Maurice White. Era em torno dele que a banda gravitava, tendo como base constante ele e seu irmão, o baixista Verdine White, além do cantor Philip Bailey.
Quando surgiu, o EWF foi apresentado como uma banda de rythm´n´blues e foi sob esta definição que gravou os primeiros álbuns, no começo dos anos 70. Mas a curiosidade de Maurice White era tanta que ele nunca se furtou a passear por inúmeros outros gêneros. Isso explica, em parte, a multidão de músicos que passou pelo grupo. Se, em determinado momento, buscava um som mais jazzístico, acolhia músicos dos “after hours” que se esmeravam em caprichados solos de sopros. No momento seguinte, seus ouvidos se voltavam para tendências mais “étnicas”, e ele logo se juntava a músicos estrangeiros, tendo contado com a participação inclusive de músicos brasileiros, como o percussionista Paulinho da Costa.
Percussão e brasileiros, na mesma frase, são termos que valem destaques especiais. Maurice White foi uma espécie de Carlinhos Brown da dance music. Não que tivesse a inventividade do percussionista baiano para criar instrumentos musicais a partir de objetos do dia-a-dia, nem sua verborragia algo complexa, mas o músico de Chicago incorporou a percussão com toques africanos de forma definitiva à música popular norte-americana dos anos 70. Isso se tornou tão forte na história do EWF que ele acabou criando uma produtora chamada Kalimba Records (sendo kalimba o nome de um instrumento de percussão originário da África, que era praticamente a impressão digital do EWF). O som do EWF era uma combinação poderosa de metais, percussão e, claro, o vocal ultra-característico do grupo.

A ligação da banda com o Brasil foi enorme. Uma turnê em 1980 pelo país rendeu o disco Live in Rio. Os caras estavam na crista da onda por aqui. Indiscutivelmente, o EWF foi catapultado ao estrelato pela onda disco. Quem hoje torce o narizinho empoado para o que se produziu naquela época pode até chamar os cabras de comerciais, mas quero ver fazer isso sem chacoalhar de leve o quadril ou pelo menos bater o pezinho enquanto ouve “September”, “Boogie Wonderland”, “Fantasy”, “Devotion”, “After the love is gone” ou a “Let´s Groove” que me veio à mente.
Todos esses megahits foram produzidos entre 1978 e 1981, a época de maior sucesso do EWF. Para mim, no entanto, seu melhor disco foi gravado em 1983, chama-se “Powerlight” e tocou quase até furar no toca-discos lá de casa. Teve dois grandes sucessos – “Fall in love with me” e “Side by Side”, que eram minhas favoritas ao lado de “Spread your love” e “Miracles”, a última faixa do disco, um gospel de arrepiar, com um coro infantil somado aos vozeirões adultos.

Na década de 1990, Maurice White anunciou que era portador do Mal de Parkinson e se retirou das turnês do EWF. A banda ainda existe, sob a liderança de Philip Bailey, com Verdine White e Ralph Jones. Maurice manteve a Kalimba Records e ainda hoje produz alguns álbuns de outros artistas da black music.

Minha cabeça faz associações esdrúxulas, que chegam a me constranger. Acho que todo mundo é assim, mas eu, pelo menos, falo das minhas sandices. Nas últimas semanas, depois do acidente da TAM, falou-se muito do tal “grooving” da pista de Congonhas, um processo pelo qual são feitas ranhuras no piso, para favorecer a frenagem das aeronaves. Pois cada vez que eu ouvia falar em “grooving”, lembrava da música “Let´s groove”, um grande sucesso do grupo norte-americano Earth, Wind & Fire.
Nascido em 1969, em Chicago, ainda com o nome de Salty Peppers, EWF teve uma quantidade absurda de integrantes ao longo de sua história – cerca de 50! Habitualmente, a banda agregava em torno de dez músicos. As formações foram inúmeras, mas o coração do EWF era seu criador e, por assim dizer, “dono”, Maurice White. Era em torno dele que a banda gravitava, tendo como base constante ele e seu irmão, o baixista Verdine White, além do cantor Philip Bailey.
Quando surgiu, o EWF foi apresentado como uma banda de rythm´n´blues e foi sob esta definição que gravou os primeiros álbuns, no começo dos anos 70. Mas a curiosidade de Maurice White era tanta que ele nunca se furtou a passear por inúmeros outros gêneros. Isso explica, em parte, a multidão de músicos que passou pelo grupo. Se, em determinado momento, buscava um som mais jazzístico, acolhia músicos dos “after hours” que se esmeravam em caprichados solos de sopros. No momento seguinte, seus ouvidos se voltavam para tendências mais “étnicas”, e ele logo se juntava a músicos estrangeiros, tendo contado com a participação inclusive de músicos brasileiros, como o percussionista Paulinho da Costa.
Percussão e brasileiros, na mesma frase, são termos que valem destaques especiais. Maurice White foi uma espécie de Carlinhos Brown da dance music. Não que tivesse a inventividade do percussionista baiano para criar instrumentos musicais a partir de objetos do dia-a-dia, nem sua verborragia algo complexa, mas o músico de Chicago incorporou a percussão com toques africanos de forma definitiva à música popular norte-americana dos anos 70. Isso se tornou tão forte na história do EWF que ele acabou criando uma produtora chamada Kalimba Records (sendo kalimba o nome de um instrumento de percussão originário da África, que era praticamente a impressão digital do EWF). O som do EWF era uma combinação poderosa de metais, percussão e, claro, o vocal ultra-característico do grupo.

A ligação da banda com o Brasil foi enorme. Uma turnê em 1980 pelo país rendeu o disco Live in Rio. Os caras estavam na crista da onda por aqui. Indiscutivelmente, o EWF foi catapultado ao estrelato pela onda disco. Quem hoje torce o narizinho empoado para o que se produziu naquela época pode até chamar os cabras de comerciais, mas quero ver fazer isso sem chacoalhar de leve o quadril ou pelo menos bater o pezinho enquanto ouve “September”, “Boogie Wonderland”, “Fantasy”, “Devotion”, “After the love is gone” ou a “Let´s Groove” que me veio à mente.
Todos esses megahits foram produzidos entre 1978 e 1981, a época de maior sucesso do EWF. Para mim, no entanto, seu melhor disco foi gravado em 1983, chama-se “Powerlight” e tocou quase até furar no toca-discos lá de casa. Teve dois grandes sucessos – “Fall in love with me” e “Side by Side”, que eram minhas favoritas ao lado de “Spread your love” e “Miracles”, a última faixa do disco, um gospel de arrepiar, com um coro infantil somado aos vozeirões adultos.

Na década de 1990, Maurice White anunciou que era portador do Mal de Parkinson e se retirou das turnês do EWF. A banda ainda existe, sob a liderança de Philip Bailey, com Verdine White e Ralph Jones. Maurice manteve a Kalimba Records e ainda hoje produz alguns álbuns de outros artistas da black music.
Tuesday, August 07, 2007
Entrevista com o mago
Fazia tempo que não falávamos de Mutantes por aqui. Pudera, os Mutantes estavam fora, excursionando pela América do Norte e pela Europa. Nesse meio tempo, saíram coisas interessantes sobre essa turnê, como este testemunho bastante revelador publicado no Blog do Bart, que motivou uma das perguntas da entrevista abaixo. Empolgado – com justíssima causa – ainda fora do Brasil, o baterista Dinho Leme me mandou a versão on line de uma reportagem muito elogiosa do New York Times.
Terminado o périplo, consegui finalmente entrevistar Aluizer Malab, o empresário dos Mutantes. Se você perguntar a Sergio Dias o que possibilitou a volta do grupo, mais de trinta anos depois, a resposta é habitualmente a mesma. “Foi uma mágica”, diz, esotérico. Pois então, se foi mágica, os poderes sobrenaturais pertencem a Aluizer Malab, que foi quem juntou todos os ingredientes dessa poção.
Mineiro, estabelecido em Belo Horizonte, Aluizer é empresário do grupo Pato Fu, além de já ter produzido uma pá de shows nacionais e internacionais e organizado eventos como o Eletronika – Festival de Novas Tendências Musicais. Nesta entrevista, ele explica como aconteceu a aproximação dele com o que tinha restado dos Mutantes e como eles se tornaram Mutantes novamente.
Algumas perguntas ficaram maiores que algumas respostas. Releve-se. É uma paulista que fala muito entrevistando um mineiro. Talvez, a resposta mais curta de Aluizer seja a que me deixa mais feliz, quando pergunto se podemos esperar material inédito dos Mutantes.
Já disse a ele pessoalmente e vou continuar dizendo, talvez até o fim da vida, que sempre me faltarão palavras para agradecer a enorme felicidade que vivi no dia 6 de março de 2007, quando vi Mutantes ao vivo pela primeira vez. Mas agradeço mesmo assim, e agora agradeço também pela gentileza com este humilde blog.
Senhoras e senhores, com vocês, o homem que fez acontecer, o mago Aluizer Malab.

Alessandra - Os Mutantes acabam de voltar de uma turnê pelo exterior. Desde que voltaram a se reunir, esta é a terceira viagem para fora do Brasil, ou seja, os Mutantes tocaram mais no exterior do que aqui. Por quê?
Aluizer - Na verdade, não tocaram mais fora. A turnê brasileira começou em fevereiro. O primeiro show foi aberto no aniversário de São Paulo e, em fevereiro, começamos a percorrer o Brasil, pelo Rio de Janeiro. Interrompemos o trabalho para aproveitar o verão no exterior. Agora, retomaremos o Brasil.
Alessandra - Como tem sido a receptividade do público estrangeiro aos Mutantes? Boa parte dos shows lá fora tem ocorrido em festivais, junto com outras bandas. Essa comparação imediata é boa para os Mutantes?
Aluizer - A receptividade tem sido maravilhosa, de público e imprensa. Tentamos aproveitar ao máximo o período fora. Por isso, os festivais, mas são muitos shows somente dos Mutantes, também. A banda está na ativa e não vejo porque ficar fora desses festivais. Temos feito shows com vários grupos também importantes. Há uma vantagem enorme de público e mídia nos festivais.
Alessandra - E qual tem sido a repercussão junto à mídia no exterior?
Aluizer - Os Mutantes têm sempre amplo espaço. Em Nova York, por exemplo, tivemos duas grandes matérias no New York Times, sendo uma capa.
Alessandra - Os Mutantes voltaram, em 2006, com um CD e um DVD gravados ao vivo em Londres. Voltaram em uma época de evidente crise do mercado fonográfico. A repercussão da volta dos Mutantes foi grande na mídia. Mas e em termos de vendas? O CD e o DVD venderam bem ou os Mutantes são como aqueles artistas da Vanguarda Paulistana dos anos 80, como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, que muita gente ouviu falar, mas pouca gente ouviu cantar?
Aluizer - Dentro da realidade atual do mercado, vendeu bem. O CD e o DVD saíram no início de dezembro e terminaram o ano como os mais vendidos. O lançamento aconteceu neste ano nos EUA e na Europa também. No geral, está bem e sendo trabalhado ainda.
Alessandra - Nos shows realizados no Brasil, é evidente a presença de jovens na platéia, talvez até de forma mais numerosa que o público mais velho. Isso se repete no exterior? A que você atribui essa veneração de alguns jovens pelos Mutantes?
Aluizer - Em geral, o público é mais jovem. No exterior, jovem e gringo. O público jovem teve um contato com o mito e não com a banda na ativa. Essa volta provocou grande curiosidade. Tem muito ídolo dessa garotada que idolatra Mutantes, como foi o caso do Kurt Cobain.
Alessandra - Na continuação da pergunta anterior: parece natural que as gerações jovens queiram ver Mutantes ao vivo, tocando clássicos do passado que nenhum de nós, com menos de 40, pôde ver. Mas e daqui pra frente, não é natural que esse público tenha expectativa por coisas inéditas? Podemos acalentar esse sonho também?
Aluizer - Sim. Eles estão de volta...
Alesandra - Gostaria de retomar um pouco essa "mágica" que proporcionou a volta dos Mutantes. Você poderia dizer em que medida o lançamento do CD de inéditas do Arnaldo Baptista, produzido pelo John Ulhoa, do Pato Fu, facilitou essa volta, já que você também é empresário do Pato Fu?
Aluizer - Como tinha produzido o CD do Arnaldo junto com o John e Rubinho Troll, recebi um convite para o Arnaldo fazer uma apresentação no evento da Tropicália de Londres, onde eles se apresentaram a primeira vez nessa volta. A partir deste convite veio um segundo para os irmãos Dias Baptista. Depois de entrar em contato com o Sergio, procurei os outros. Acabamos fechando com três Mutantes. Aí deu certo.
Alessandra - E ainda Pato Fu: muita gente sempre identificou traços inequívocos de Mutantes na banda mineira, inclusive no vocal da Fernanda Takai. Com a negativa da Rita Lee em participar do revival, parecia coerente tentar a Fernanda como vocalista nos Mutantes. Houve essa opção? Por que não aconteceu?
Aluizer - Não chegamos a fazer o convite. Era um nome dos mais cotados, mas Zélia fez uma visita antes e acabou ensaiando e deu muito certo.
Alessandra - Há quarenta anos, Mutantes eram três jovens músicos de São Paulo, que depois viraram cinco. Hoje, são dez. Essa "encorpada" na banda proporcionou que os Mutantes fizessem ao vivo coisas que não conseguiam antes, como Dom Quixote e Caminhante Noturno, que têm arranjos elaborados e que não se prestavam à formação enxuta de antes. Como essa banda nova foi formada? Você poderia dizer de onde vieram, e pelas mãos de quem, cada um dos jovens músicos incorporados ao grupo?
Aluizer - Basicamente sugerida pelo Sergio. Indiquei Simone Soul para a percussão.
Terminado o périplo, consegui finalmente entrevistar Aluizer Malab, o empresário dos Mutantes. Se você perguntar a Sergio Dias o que possibilitou a volta do grupo, mais de trinta anos depois, a resposta é habitualmente a mesma. “Foi uma mágica”, diz, esotérico. Pois então, se foi mágica, os poderes sobrenaturais pertencem a Aluizer Malab, que foi quem juntou todos os ingredientes dessa poção.
Mineiro, estabelecido em Belo Horizonte, Aluizer é empresário do grupo Pato Fu, além de já ter produzido uma pá de shows nacionais e internacionais e organizado eventos como o Eletronika – Festival de Novas Tendências Musicais. Nesta entrevista, ele explica como aconteceu a aproximação dele com o que tinha restado dos Mutantes e como eles se tornaram Mutantes novamente.
Algumas perguntas ficaram maiores que algumas respostas. Releve-se. É uma paulista que fala muito entrevistando um mineiro. Talvez, a resposta mais curta de Aluizer seja a que me deixa mais feliz, quando pergunto se podemos esperar material inédito dos Mutantes.
Já disse a ele pessoalmente e vou continuar dizendo, talvez até o fim da vida, que sempre me faltarão palavras para agradecer a enorme felicidade que vivi no dia 6 de março de 2007, quando vi Mutantes ao vivo pela primeira vez. Mas agradeço mesmo assim, e agora agradeço também pela gentileza com este humilde blog.
Senhoras e senhores, com vocês, o homem que fez acontecer, o mago Aluizer Malab.

Alessandra - Os Mutantes acabam de voltar de uma turnê pelo exterior. Desde que voltaram a se reunir, esta é a terceira viagem para fora do Brasil, ou seja, os Mutantes tocaram mais no exterior do que aqui. Por quê?
Aluizer - Na verdade, não tocaram mais fora. A turnê brasileira começou em fevereiro. O primeiro show foi aberto no aniversário de São Paulo e, em fevereiro, começamos a percorrer o Brasil, pelo Rio de Janeiro. Interrompemos o trabalho para aproveitar o verão no exterior. Agora, retomaremos o Brasil.
Alessandra - Como tem sido a receptividade do público estrangeiro aos Mutantes? Boa parte dos shows lá fora tem ocorrido em festivais, junto com outras bandas. Essa comparação imediata é boa para os Mutantes?
Aluizer - A receptividade tem sido maravilhosa, de público e imprensa. Tentamos aproveitar ao máximo o período fora. Por isso, os festivais, mas são muitos shows somente dos Mutantes, também. A banda está na ativa e não vejo porque ficar fora desses festivais. Temos feito shows com vários grupos também importantes. Há uma vantagem enorme de público e mídia nos festivais.
Alessandra - E qual tem sido a repercussão junto à mídia no exterior?
Aluizer - Os Mutantes têm sempre amplo espaço. Em Nova York, por exemplo, tivemos duas grandes matérias no New York Times, sendo uma capa.
Alessandra - Os Mutantes voltaram, em 2006, com um CD e um DVD gravados ao vivo em Londres. Voltaram em uma época de evidente crise do mercado fonográfico. A repercussão da volta dos Mutantes foi grande na mídia. Mas e em termos de vendas? O CD e o DVD venderam bem ou os Mutantes são como aqueles artistas da Vanguarda Paulistana dos anos 80, como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, que muita gente ouviu falar, mas pouca gente ouviu cantar?
Aluizer - Dentro da realidade atual do mercado, vendeu bem. O CD e o DVD saíram no início de dezembro e terminaram o ano como os mais vendidos. O lançamento aconteceu neste ano nos EUA e na Europa também. No geral, está bem e sendo trabalhado ainda.
Alessandra - Nos shows realizados no Brasil, é evidente a presença de jovens na platéia, talvez até de forma mais numerosa que o público mais velho. Isso se repete no exterior? A que você atribui essa veneração de alguns jovens pelos Mutantes?
Aluizer - Em geral, o público é mais jovem. No exterior, jovem e gringo. O público jovem teve um contato com o mito e não com a banda na ativa. Essa volta provocou grande curiosidade. Tem muito ídolo dessa garotada que idolatra Mutantes, como foi o caso do Kurt Cobain.
Alessandra - Na continuação da pergunta anterior: parece natural que as gerações jovens queiram ver Mutantes ao vivo, tocando clássicos do passado que nenhum de nós, com menos de 40, pôde ver. Mas e daqui pra frente, não é natural que esse público tenha expectativa por coisas inéditas? Podemos acalentar esse sonho também?
Aluizer - Sim. Eles estão de volta...
Alesandra - Gostaria de retomar um pouco essa "mágica" que proporcionou a volta dos Mutantes. Você poderia dizer em que medida o lançamento do CD de inéditas do Arnaldo Baptista, produzido pelo John Ulhoa, do Pato Fu, facilitou essa volta, já que você também é empresário do Pato Fu?
Aluizer - Como tinha produzido o CD do Arnaldo junto com o John e Rubinho Troll, recebi um convite para o Arnaldo fazer uma apresentação no evento da Tropicália de Londres, onde eles se apresentaram a primeira vez nessa volta. A partir deste convite veio um segundo para os irmãos Dias Baptista. Depois de entrar em contato com o Sergio, procurei os outros. Acabamos fechando com três Mutantes. Aí deu certo.
Alessandra - E ainda Pato Fu: muita gente sempre identificou traços inequívocos de Mutantes na banda mineira, inclusive no vocal da Fernanda Takai. Com a negativa da Rita Lee em participar do revival, parecia coerente tentar a Fernanda como vocalista nos Mutantes. Houve essa opção? Por que não aconteceu?
Aluizer - Não chegamos a fazer o convite. Era um nome dos mais cotados, mas Zélia fez uma visita antes e acabou ensaiando e deu muito certo.
Alessandra - Há quarenta anos, Mutantes eram três jovens músicos de São Paulo, que depois viraram cinco. Hoje, são dez. Essa "encorpada" na banda proporcionou que os Mutantes fizessem ao vivo coisas que não conseguiam antes, como Dom Quixote e Caminhante Noturno, que têm arranjos elaborados e que não se prestavam à formação enxuta de antes. Como essa banda nova foi formada? Você poderia dizer de onde vieram, e pelas mãos de quem, cada um dos jovens músicos incorporados ao grupo?
Aluizer - Basicamente sugerida pelo Sergio. Indiquei Simone Soul para a percussão.
Sunday, August 05, 2007
Disciplinar a guerra
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- Alonso não vai mais largar na pole.
- Por que, mãe?
- Porque atrapalhou Hamilton, não deixou o companheiro fazer a última volta rápida.
- Ué, mas a Fórmula 1 não é isso mesmo? Um não quer deixar o outro chegar na frente...
A lógica de uma criança de sete anos é simplista, mas não deixa de ser lógica. Ao punir a esperteza sacana de Alonso, guindando Hamilton à pole, a FIA cumpriu seu papel de juiz. Há que ter alguma ética no esporte. Mas qual ética?
A justificativa da FIA para a punição: o gesto de Alonso tinha implicações diretas na luta pelo título. Por isso justifica-se uma intervenção da FIA no grid de largada para o GP da Hungria de 2007 e nenhuma ingerência no resultado do GP da Áustria de 2002, aquele em que Barrichello foi obrigado pela equipe a ceder o primeiro lugar a Schumacher. No primeiro, havia um título em jogo. No segundo, não.
Então, a ética da FIA circunscreve-se a títulos, não a gestos. Se a "paradinha" de Alonso tivesse prejudicado, digamos, Nick Heidfeld, Ralf Schumacher ou Giancarlo Fisichella, problema deles.
Então, amigos, para mim isso não é ética, é hipocrisia.
Que lavem as mãos de uma vez por todas e assumam que o esporte nada mais é que a sublimação civilizada de nossos ímpetos bélicos. É guerra, vence o melhor. Qualquer tentativa de disciplinar uma batalha é, por definição, uma batalha perdida. Pronto, falei.
- Alonso não vai mais largar na pole.
- Por que, mãe?
- Porque atrapalhou Hamilton, não deixou o companheiro fazer a última volta rápida.
- Ué, mas a Fórmula 1 não é isso mesmo? Um não quer deixar o outro chegar na frente...
A lógica de uma criança de sete anos é simplista, mas não deixa de ser lógica. Ao punir a esperteza sacana de Alonso, guindando Hamilton à pole, a FIA cumpriu seu papel de juiz. Há que ter alguma ética no esporte. Mas qual ética?
A justificativa da FIA para a punição: o gesto de Alonso tinha implicações diretas na luta pelo título. Por isso justifica-se uma intervenção da FIA no grid de largada para o GP da Hungria de 2007 e nenhuma ingerência no resultado do GP da Áustria de 2002, aquele em que Barrichello foi obrigado pela equipe a ceder o primeiro lugar a Schumacher. No primeiro, havia um título em jogo. No segundo, não.
Então, a ética da FIA circunscreve-se a títulos, não a gestos. Se a "paradinha" de Alonso tivesse prejudicado, digamos, Nick Heidfeld, Ralf Schumacher ou Giancarlo Fisichella, problema deles.
Então, amigos, para mim isso não é ética, é hipocrisia.
Que lavem as mãos de uma vez por todas e assumam que o esporte nada mais é que a sublimação civilizada de nossos ímpetos bélicos. É guerra, vence o melhor. Qualquer tentativa de disciplinar uma batalha é, por definição, uma batalha perdida. Pronto, falei.
Wednesday, August 01, 2007
Benza Deus!
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Nesta quinta-feira, dia 2 de agosto, se fosse viva minha avó Elza completaria 88 anos. Morreu em 2000, antes de conhecer o quinto bisneto, que estava na minha barriga. De qualquer forma, aproveitou bem as oito décadas de vida terrestre que lhe couberam, sempre fugindo dos problemas. Não que tenha tido uma vida sem percalços, ninguém a tem.
O pior deles deve ter sido a perda do filho primogênito, Toninho, abatido por um mal a que ela se referia como “bucho virado” ou “espinhela caída”. Suponho que a doença fosse desidratação, hoje uma ocorrência banal, mas que dizimou milhares de crianças ainda no século 20. Mesmo com o trauma, ainda teve outros cinco filhos.
O sobrenome de solteira da vó Elza era Silva, mas bem que podia ser Coelho. Nasceu em uma família tão numerosa que é difícil contabilizar e – mais ainda – acreditar nos números relatados. Seu pai teve doze filhos com a primeira esposa. A mãe, três com o primeiro marido. Consta que a mãe perdeu marido e prole vitimados por alguma peste na viagem de navio, de Portugal para cá. Viúvos, o brasileiro e a lusitana se casaram. Daí pra frente, nunca entendi ao certo. Dizem que tiveram vinte filhos. Sim, duas dezenas. Jamais soube se foi esse descontrole natal mesmo. Fato é que, filhos de ambos, vingaram nove. Vó Elza era a terceira. Ah, sim: recentemente, alguém da família fez uma pesquisa e parece ter descoberto outros quatro filhos “naturais” do meu bisavô, o Coelho, quer dizer, Antônio da Silva.
Vó Elza nasceu em Amparo, interior de São Paulo, e lá viveu até os vinte anos, quando se casou com meu avô Antônio. Nunca mais voltou a morar na cidade natal. Mesmo assim, uns quarenta anos depois de ter saído de Amparo, sempre esticava o pescoço quando via um carro com placa de lá. “Será alguém conhecido?”.
Quando meu avô morreu, com apenas 57 anos, vó Elza tinha 56. Para mim, no entanto, ela era uma velhinha bem velhinha. Curioso é que minha mãe ficou viúva com a mesma idade e eu a achava tão nova... Minha avó era uma vovozinha. Minha mãe é uma grand-mothern, uma avó moderna, antenada, agitada. Acho que tanto mudaram as avós, que hoje são bem menos vovozinhas mesmo, quanto mudei eu, porque a idade torna tudo tão relativo, não é mesmo? Quando você tem cinco anos, 56 anos é idade de velho. Com 37, bem, estamos quase chegando lá, né?
O fato é que Vó Elza era uma avó típica: agulhas sempre em punho, parecia uma máquina de fazer crochê. Em uma tarde, pronto: um biquinho de pano de prato, uma toalhinha de bandeja, era um fenômeno. Eu gostava mais quando ela errava no tricô e precisava desfazer. Uma linha de desmontagem perfeita: um neto ia puxando a lã já tecida, outros iam esticando para não embaraçar, o último enrolava no novelo. Netos não faltavam, já que ela teve doze, seis meninas e seis meninos. Além de tricotar e crochetar, vó Elza também era ótima na pintura. Acho que não agradeci suficientemente por tantos trabalhos de Artes que ela fez e eu só dublei. Dona Zinha, minha eterna professora na matéria, devia sacar fácil que não era eu a autora de tantas obras primas, já que sempre fui muito menos que o cocô do cavalo do bandido em termos de habilidade para artes plásticas. Obrigada, vó. Desculpe, dona Zinha...
Mas vó Elza, como todas as inúmeras irmãs, era também cozinheira de mão cheia. Seu trivial era espetacular e não há quem esqueça o inigualável bolinho de batata recheado com queijo. As netas, algumas, herdamos o talento para a cozinha, embora nem todas, como eu, pratiquemos a arte regularmente. Herdei um de seus cadernos de receita, que guardo com carinho de neta e com interesse de cozinheira que voltarei a ser, um dia. Dizem, aliás, que faço seu decantado bolo de fubá tão bem quanto ela, o que sempre soou como troféu de excelência para mim.
Cuca fresca por natureza, vó Elza só parecia ter medo incontrolável de duas coisas: cobras e relâmpagos. As primeiras, mesmo que as visse só pela TV, faziam-na levantar na mesma hora as pernas para cima do sofá. Raios e trovões a dirigiam para uma espécie de ritual religioso: andava pela casa sacudindo palmas bentas da Semana Santa pelas janelas, entoando frases de louvor a Santa Bárbara, que parece ser protetora contra intempéries da natureza. Tenho a impressão de que Santa Bárbara é Iansã no candomblé e acho que tem a ver com raios e trovões, sei lá. Mas tenho certeza de que vó Elza ficou feliz, onde está, ao saber que agora tem uma bisneta chamada Bárbara.
Se via uma criança bonita e robusta, ou um belo peru assado, ou um bolo que crescia bastante ou qualquer coisa que desse sinal de beleza, fartura ou saúde, vó Elza exclamava sempre a mesma expressão: “Benza Deus!”. A frase, pelo que sei, é uma corruptela de “A benção de Deus”. Que Deus abençoe você, vó Elza, hoje e sempre!
///
E você? Tem avó? Não tem mais? Quer me falar dela? Contar alguma coisa, dar uma receitinha? Fique à vontade.
Nesta quinta-feira, dia 2 de agosto, se fosse viva minha avó Elza completaria 88 anos. Morreu em 2000, antes de conhecer o quinto bisneto, que estava na minha barriga. De qualquer forma, aproveitou bem as oito décadas de vida terrestre que lhe couberam, sempre fugindo dos problemas. Não que tenha tido uma vida sem percalços, ninguém a tem.
O pior deles deve ter sido a perda do filho primogênito, Toninho, abatido por um mal a que ela se referia como “bucho virado” ou “espinhela caída”. Suponho que a doença fosse desidratação, hoje uma ocorrência banal, mas que dizimou milhares de crianças ainda no século 20. Mesmo com o trauma, ainda teve outros cinco filhos.
O sobrenome de solteira da vó Elza era Silva, mas bem que podia ser Coelho. Nasceu em uma família tão numerosa que é difícil contabilizar e – mais ainda – acreditar nos números relatados. Seu pai teve doze filhos com a primeira esposa. A mãe, três com o primeiro marido. Consta que a mãe perdeu marido e prole vitimados por alguma peste na viagem de navio, de Portugal para cá. Viúvos, o brasileiro e a lusitana se casaram. Daí pra frente, nunca entendi ao certo. Dizem que tiveram vinte filhos. Sim, duas dezenas. Jamais soube se foi esse descontrole natal mesmo. Fato é que, filhos de ambos, vingaram nove. Vó Elza era a terceira. Ah, sim: recentemente, alguém da família fez uma pesquisa e parece ter descoberto outros quatro filhos “naturais” do meu bisavô, o Coelho, quer dizer, Antônio da Silva.
Vó Elza nasceu em Amparo, interior de São Paulo, e lá viveu até os vinte anos, quando se casou com meu avô Antônio. Nunca mais voltou a morar na cidade natal. Mesmo assim, uns quarenta anos depois de ter saído de Amparo, sempre esticava o pescoço quando via um carro com placa de lá. “Será alguém conhecido?”.
Quando meu avô morreu, com apenas 57 anos, vó Elza tinha 56. Para mim, no entanto, ela era uma velhinha bem velhinha. Curioso é que minha mãe ficou viúva com a mesma idade e eu a achava tão nova... Minha avó era uma vovozinha. Minha mãe é uma grand-mothern, uma avó moderna, antenada, agitada. Acho que tanto mudaram as avós, que hoje são bem menos vovozinhas mesmo, quanto mudei eu, porque a idade torna tudo tão relativo, não é mesmo? Quando você tem cinco anos, 56 anos é idade de velho. Com 37, bem, estamos quase chegando lá, né?
O fato é que Vó Elza era uma avó típica: agulhas sempre em punho, parecia uma máquina de fazer crochê. Em uma tarde, pronto: um biquinho de pano de prato, uma toalhinha de bandeja, era um fenômeno. Eu gostava mais quando ela errava no tricô e precisava desfazer. Uma linha de desmontagem perfeita: um neto ia puxando a lã já tecida, outros iam esticando para não embaraçar, o último enrolava no novelo. Netos não faltavam, já que ela teve doze, seis meninas e seis meninos. Além de tricotar e crochetar, vó Elza também era ótima na pintura. Acho que não agradeci suficientemente por tantos trabalhos de Artes que ela fez e eu só dublei. Dona Zinha, minha eterna professora na matéria, devia sacar fácil que não era eu a autora de tantas obras primas, já que sempre fui muito menos que o cocô do cavalo do bandido em termos de habilidade para artes plásticas. Obrigada, vó. Desculpe, dona Zinha...
Mas vó Elza, como todas as inúmeras irmãs, era também cozinheira de mão cheia. Seu trivial era espetacular e não há quem esqueça o inigualável bolinho de batata recheado com queijo. As netas, algumas, herdamos o talento para a cozinha, embora nem todas, como eu, pratiquemos a arte regularmente. Herdei um de seus cadernos de receita, que guardo com carinho de neta e com interesse de cozinheira que voltarei a ser, um dia. Dizem, aliás, que faço seu decantado bolo de fubá tão bem quanto ela, o que sempre soou como troféu de excelência para mim.
Cuca fresca por natureza, vó Elza só parecia ter medo incontrolável de duas coisas: cobras e relâmpagos. As primeiras, mesmo que as visse só pela TV, faziam-na levantar na mesma hora as pernas para cima do sofá. Raios e trovões a dirigiam para uma espécie de ritual religioso: andava pela casa sacudindo palmas bentas da Semana Santa pelas janelas, entoando frases de louvor a Santa Bárbara, que parece ser protetora contra intempéries da natureza. Tenho a impressão de que Santa Bárbara é Iansã no candomblé e acho que tem a ver com raios e trovões, sei lá. Mas tenho certeza de que vó Elza ficou feliz, onde está, ao saber que agora tem uma bisneta chamada Bárbara.
Se via uma criança bonita e robusta, ou um belo peru assado, ou um bolo que crescia bastante ou qualquer coisa que desse sinal de beleza, fartura ou saúde, vó Elza exclamava sempre a mesma expressão: “Benza Deus!”. A frase, pelo que sei, é uma corruptela de “A benção de Deus”. Que Deus abençoe você, vó Elza, hoje e sempre!
///
E você? Tem avó? Não tem mais? Quer me falar dela? Contar alguma coisa, dar uma receitinha? Fique à vontade.
Monday, July 30, 2007
Com muito orgulho, com muito amor, com muita grosseria
.
Por total falta de tempo, não pude comentar assuntos do Pan durante a realização dos jogos. Até gostaria, como entusiasta de esportes que sou, e também pela vontade de deixar escorrer alguns veneninhos de leve. Passado o evento, já não me sinto à vontade para fazer piada, por exemplo, sobre a maquiagem das meninas do nado sincronizado. Fala sério, minha gente, o que é aquilo? Alguém pensa que lambuzar o rosto das moças com um make up de drag queen vai fazer alguém não notar que elas usam um vexatório prendedor no nariz?
Passou, abafa o caso, vamos em frente.
Mas não posso me furtar a comentar o comportamento da torcida. Tudo começou na abertura dos jogos, com aquela vaia contundente ao Presidente Lula. No mesmo dia, pulularam notícias e um vídeo dando conta de que o protesto contra o presidente havia sido encomendado e ensaiado com asseclas do prefeito César Maia, do partido dos Demos, adversário do governo federal. Ao longo dos jogos, aparentemente sem combinação e sem ensaio, a vaia ecoou solta pelos ginásios e estádios do Pan. Ali, já não havia protesto político, Lula já tinha ido embora fazia tempo e a "galera" parecia não escolher os alvos pela cor da bandeira. É adversário do Brasil, vaia.
O descontrole chegou ao ponto de alguns atletas não ouvirem o tiro de largada em provas de velocidade do atletismo, tamanha algazarra era feita na arquibancada. A dar mau exemplo, ex-atletas laureados de medalhas como Oscar Schmidt e Aurélio Miguel, um puxando os apupos nas competições de ginástica artística, o outro se pegando de tapa com cubanos durante as provas do judô. Fora do tatame, naturalmente.
Foi tanta grosseria junta que já começo a contestar - será que, na abertura, o povo vaiou Lula por ordem de César Maia ou por sua simples inclinação cultural de demonstrar grosseria quando algo o desagrada ou contraria? Se a maioria do público presente ao Maracanã, na abertura dos jogos, era contrária a Lula, acho possível que a torcida simplesmente tenha vaiado o presidente por não gostar dele, ainda que a ocasião fosse uma solenidade, não um ato político.
A falta de educação do povo brasileiro parece algo evidente e digno de discurso ideológico quando chegam as eleições. Não importa a inclinação política, parecemos todos convencidos de que os investimentos do governo seguinte devem ser prioritariamente destinados à educação. Isso ninguém discute. Quando essa falta de educação se manifesta na prática, nem todos parecem associar que manifestações desse nível são resultado da falta de educação. Não faltam eufemismos para os gestos exacerbados da torcida. Na avaliação de muitos, não somos grosseiros quando atrapalhamos um atleta em seu momento de concentração: somos "quentes", "espontâneos", "vibrantes". Se o atleta estrangeiro não consegue sequer ouvir o tiro de largada, problema dele, "estamos na nossa casa", "farinha pouca, meu pirão primeiro", "quem pode mais chora menos".
Não vejo diferença entre esse tipo de atitude e a do cliente que comete grosserias com o garçom porque seu pedido veio errado e ele, afinal de contas, "está pagando". Não se importa de ser deselegante, de levantar a voz, de chamar a atenção para si e de humilhar quem quer que seja para "fazer valer seu direito". Também não vejo diferença entre o torcedor que vaia o adversário e o cidadão que entra na contramão para garantir uma vaga para o seu carro. É a mesma lógica do "esperto" contra o "otário". Se vou atrapalhar o outro, problema do outro. Garanto o meu e o resto que se lasque.
Tenho lido e ouvido muitas opiniões acerca da atitude da torcida brasileira neste Pan, e muitas vezes a conclusão é a de que o país não tem envergadura para sediar a Copa do Mundo de 2014. Acho pouco, simplista e superficial tal conclusão. O problema não é nossa impossibilidade de sediar uma competição internacional. Drama, mesmo, é continuarmos a viver cotidianamente nesta falta de educação permanente.
Por total falta de tempo, não pude comentar assuntos do Pan durante a realização dos jogos. Até gostaria, como entusiasta de esportes que sou, e também pela vontade de deixar escorrer alguns veneninhos de leve. Passado o evento, já não me sinto à vontade para fazer piada, por exemplo, sobre a maquiagem das meninas do nado sincronizado. Fala sério, minha gente, o que é aquilo? Alguém pensa que lambuzar o rosto das moças com um make up de drag queen vai fazer alguém não notar que elas usam um vexatório prendedor no nariz?
Passou, abafa o caso, vamos em frente.
Mas não posso me furtar a comentar o comportamento da torcida. Tudo começou na abertura dos jogos, com aquela vaia contundente ao Presidente Lula. No mesmo dia, pulularam notícias e um vídeo dando conta de que o protesto contra o presidente havia sido encomendado e ensaiado com asseclas do prefeito César Maia, do partido dos Demos, adversário do governo federal. Ao longo dos jogos, aparentemente sem combinação e sem ensaio, a vaia ecoou solta pelos ginásios e estádios do Pan. Ali, já não havia protesto político, Lula já tinha ido embora fazia tempo e a "galera" parecia não escolher os alvos pela cor da bandeira. É adversário do Brasil, vaia.
O descontrole chegou ao ponto de alguns atletas não ouvirem o tiro de largada em provas de velocidade do atletismo, tamanha algazarra era feita na arquibancada. A dar mau exemplo, ex-atletas laureados de medalhas como Oscar Schmidt e Aurélio Miguel, um puxando os apupos nas competições de ginástica artística, o outro se pegando de tapa com cubanos durante as provas do judô. Fora do tatame, naturalmente.
Foi tanta grosseria junta que já começo a contestar - será que, na abertura, o povo vaiou Lula por ordem de César Maia ou por sua simples inclinação cultural de demonstrar grosseria quando algo o desagrada ou contraria? Se a maioria do público presente ao Maracanã, na abertura dos jogos, era contrária a Lula, acho possível que a torcida simplesmente tenha vaiado o presidente por não gostar dele, ainda que a ocasião fosse uma solenidade, não um ato político.
A falta de educação do povo brasileiro parece algo evidente e digno de discurso ideológico quando chegam as eleições. Não importa a inclinação política, parecemos todos convencidos de que os investimentos do governo seguinte devem ser prioritariamente destinados à educação. Isso ninguém discute. Quando essa falta de educação se manifesta na prática, nem todos parecem associar que manifestações desse nível são resultado da falta de educação. Não faltam eufemismos para os gestos exacerbados da torcida. Na avaliação de muitos, não somos grosseiros quando atrapalhamos um atleta em seu momento de concentração: somos "quentes", "espontâneos", "vibrantes". Se o atleta estrangeiro não consegue sequer ouvir o tiro de largada, problema dele, "estamos na nossa casa", "farinha pouca, meu pirão primeiro", "quem pode mais chora menos".
Não vejo diferença entre esse tipo de atitude e a do cliente que comete grosserias com o garçom porque seu pedido veio errado e ele, afinal de contas, "está pagando". Não se importa de ser deselegante, de levantar a voz, de chamar a atenção para si e de humilhar quem quer que seja para "fazer valer seu direito". Também não vejo diferença entre o torcedor que vaia o adversário e o cidadão que entra na contramão para garantir uma vaga para o seu carro. É a mesma lógica do "esperto" contra o "otário". Se vou atrapalhar o outro, problema do outro. Garanto o meu e o resto que se lasque.
Tenho lido e ouvido muitas opiniões acerca da atitude da torcida brasileira neste Pan, e muitas vezes a conclusão é a de que o país não tem envergadura para sediar a Copa do Mundo de 2014. Acho pouco, simplista e superficial tal conclusão. O problema não é nossa impossibilidade de sediar uma competição internacional. Drama, mesmo, é continuarmos a viver cotidianamente nesta falta de educação permanente.
Monday, July 23, 2007
Desliga o som
.
Desde a terça passada, não coloco um CD para tocar. É rara uma abstinência tão longa, tenho a música como companheira, inspiradora, relaxante, estimulante. Meu carro precisa de gasolina. Eu, de notas soltas e de acordes. Mas não quis ouvir música tão cedo, ainda não quero. É uma razão fútil, quase ilógica e fortemente egoísta. Estou triste, abalada, emotiva, chocada, profundamente tocada pelo acidente com o avião da TAM. Acho que estamos, as pessoas, sofrendo demais com o ocorrido. Quero proteger minhas músicas, como se elas acabassem contaminadas pelo momento. Não quero, daqui algum tempo, ouvir algo que para mim tem o valor de um mantra – sei lá, “A day in the life” ou “Conversando no bar” – e no mesmo momento associar a música a essa tragédia sem fim.
Eu avisei que era egoísta, mas talvez seja a minha forma de lidar com essa monstruosidade. O sagrado reside em cada vida ali perdida. Música para mim é algo sagrado. Eventualmente não estou só protegendo minhas músicas e minhas lembranças no futuro. Estou vivendo o luto, privando-me de algo que para mim é quase vital. É nada perto de tanta perda, mas é minha forma de vivenciar isso, em silêncio.
Eu estava no trabalho quando o acidente aconteceu. Dia de rodízio, programei-me para ficar até as oito da noite. Pouco depois das sete, informações desencontradas pelos portais da internet. Como sempre, como no outro acidente da TAM, em 1996, a coisa parece, em princípio, sempre menor do que é. Sucedem-se telefonemas, minha mãe passa a família em revista, celular em celular, checando o destino de todos. Encontra, para seu espanto e posterior alívio, meu irmão em pleno Aeroporto de Congonhas. Ele estava na avenida Washington Luiz, a mesma que o avião atravessou antes de atingir o prédio da TAM. Mas estava do outro lado, e ficou preso no trânsito logo interditado. Não entendeu o que havia, mas viu labaredas e um posto de combustíveis. Prudente que é, resolveu deixar o carro na rua e abrigar-se no aeroporto.
Cheguei em casa perto das nove da noite, liguei a TV. Pela Bandeirantes, a repórter Eleonora Paschoal, experiente profissional de telejornalismo, chora ao presenciar o resgate dos primeiros corpos. Tive vontade de abraçar a repórter, como forma de agradecer seu testemunho tão franco, tão humano, tão eu. Fui dormir perto da meia-noite. Dormi como uma pedra, sempre durmo. Nunca perdi o sono, jamais na vida, nem quando meu pai se achava em estado terminal. Acordei às cinco da manhã, com despertador, para voltar ao computador e escrever um texto do trabalho. Faço isso, às vezes: acordo na madrugada, escrevo, cabeça fresca me ajuda, telefone que não toca. Faço isso para correr, por que não faria para escrever? Sou meio louca, vocês já sabem.
Irresistível. Ao sentar diante da tela, recorri ao noticiário. A lista, disponível. Irresistível. Vasculho a longa fileira de nomes mortos. Entre eles, encontro o de Marcelo Marthe. Será o mesmo? Abro meus e-mails e encontro a mensagem triste de um colega da mesma turma. Parece ser o mesmo, contemporâneo da ECA, foi repórter da Veja por bastante tempo. Não deixa de ser incrível que ele, repórter que era, tenha vagado tanto entre os nomes sem uma referência concreta de sua pessoa. Do repórter faltou informação. Dias depois, um jornal de Sorocaba, sua terra natal, confirma. Era o mesmo que eu pouco conhecia, mas que freqüentou outras listas junto comigo, as de presença, nas aulas da faculdade.
Não gosto de voar, jamais gostei, pouco voei e gostaria de voar menos. Não me venham com estatísticas, que se morre mais no trânsito em São Paulo. Não gosto de voar, só isso. Uma vez, pousando em Recife, a trabalho, tive uma dor de dente como nunca havia tido. Relatei ao dentista, que cogitou estresse de voar. Deve ter sido, pois nunca mais tive nada parecido.
Não quero ver as fotos dos nomes mortos. Já me basta a lista. Não quero ver a fisionomia sorridente de quem só consigo imaginar nos instantes anteriores ao impacto. O pior, de tudo, devem ser aqueles segundos de certeza – “vamos morrer”. Não tenho horror à morte, não a considero um castigo, por isso não estou em júbilo porque Antonio Carlos Magalhães morreu. A morte nos pertence a todos, não escapará de nenhum. Mas algumas coisas estão doendo em mim.
Vivenciar o sofrimento alheio me entristece. Imaginar famílias ceifadas, jovens vidas interrompidas, corpos dilacerados, pais e mães esperando restos mortais de filhos que já não têm forma, tornaram-se fragmentos. E vê-los mergulhados em um universo que já tem pouco de humano, com facções políticas vibrando feito torcidas organizadas de um lado por uma falha da pista, do outro por um defeito da aeronave.
Desliga o som. Silêncio.
Desde a terça passada, não coloco um CD para tocar. É rara uma abstinência tão longa, tenho a música como companheira, inspiradora, relaxante, estimulante. Meu carro precisa de gasolina. Eu, de notas soltas e de acordes. Mas não quis ouvir música tão cedo, ainda não quero. É uma razão fútil, quase ilógica e fortemente egoísta. Estou triste, abalada, emotiva, chocada, profundamente tocada pelo acidente com o avião da TAM. Acho que estamos, as pessoas, sofrendo demais com o ocorrido. Quero proteger minhas músicas, como se elas acabassem contaminadas pelo momento. Não quero, daqui algum tempo, ouvir algo que para mim tem o valor de um mantra – sei lá, “A day in the life” ou “Conversando no bar” – e no mesmo momento associar a música a essa tragédia sem fim.
Eu avisei que era egoísta, mas talvez seja a minha forma de lidar com essa monstruosidade. O sagrado reside em cada vida ali perdida. Música para mim é algo sagrado. Eventualmente não estou só protegendo minhas músicas e minhas lembranças no futuro. Estou vivendo o luto, privando-me de algo que para mim é quase vital. É nada perto de tanta perda, mas é minha forma de vivenciar isso, em silêncio.
Eu estava no trabalho quando o acidente aconteceu. Dia de rodízio, programei-me para ficar até as oito da noite. Pouco depois das sete, informações desencontradas pelos portais da internet. Como sempre, como no outro acidente da TAM, em 1996, a coisa parece, em princípio, sempre menor do que é. Sucedem-se telefonemas, minha mãe passa a família em revista, celular em celular, checando o destino de todos. Encontra, para seu espanto e posterior alívio, meu irmão em pleno Aeroporto de Congonhas. Ele estava na avenida Washington Luiz, a mesma que o avião atravessou antes de atingir o prédio da TAM. Mas estava do outro lado, e ficou preso no trânsito logo interditado. Não entendeu o que havia, mas viu labaredas e um posto de combustíveis. Prudente que é, resolveu deixar o carro na rua e abrigar-se no aeroporto.
Cheguei em casa perto das nove da noite, liguei a TV. Pela Bandeirantes, a repórter Eleonora Paschoal, experiente profissional de telejornalismo, chora ao presenciar o resgate dos primeiros corpos. Tive vontade de abraçar a repórter, como forma de agradecer seu testemunho tão franco, tão humano, tão eu. Fui dormir perto da meia-noite. Dormi como uma pedra, sempre durmo. Nunca perdi o sono, jamais na vida, nem quando meu pai se achava em estado terminal. Acordei às cinco da manhã, com despertador, para voltar ao computador e escrever um texto do trabalho. Faço isso, às vezes: acordo na madrugada, escrevo, cabeça fresca me ajuda, telefone que não toca. Faço isso para correr, por que não faria para escrever? Sou meio louca, vocês já sabem.
Irresistível. Ao sentar diante da tela, recorri ao noticiário. A lista, disponível. Irresistível. Vasculho a longa fileira de nomes mortos. Entre eles, encontro o de Marcelo Marthe. Será o mesmo? Abro meus e-mails e encontro a mensagem triste de um colega da mesma turma. Parece ser o mesmo, contemporâneo da ECA, foi repórter da Veja por bastante tempo. Não deixa de ser incrível que ele, repórter que era, tenha vagado tanto entre os nomes sem uma referência concreta de sua pessoa. Do repórter faltou informação. Dias depois, um jornal de Sorocaba, sua terra natal, confirma. Era o mesmo que eu pouco conhecia, mas que freqüentou outras listas junto comigo, as de presença, nas aulas da faculdade.
Não gosto de voar, jamais gostei, pouco voei e gostaria de voar menos. Não me venham com estatísticas, que se morre mais no trânsito em São Paulo. Não gosto de voar, só isso. Uma vez, pousando em Recife, a trabalho, tive uma dor de dente como nunca havia tido. Relatei ao dentista, que cogitou estresse de voar. Deve ter sido, pois nunca mais tive nada parecido.
Não quero ver as fotos dos nomes mortos. Já me basta a lista. Não quero ver a fisionomia sorridente de quem só consigo imaginar nos instantes anteriores ao impacto. O pior, de tudo, devem ser aqueles segundos de certeza – “vamos morrer”. Não tenho horror à morte, não a considero um castigo, por isso não estou em júbilo porque Antonio Carlos Magalhães morreu. A morte nos pertence a todos, não escapará de nenhum. Mas algumas coisas estão doendo em mim.
Vivenciar o sofrimento alheio me entristece. Imaginar famílias ceifadas, jovens vidas interrompidas, corpos dilacerados, pais e mães esperando restos mortais de filhos que já não têm forma, tornaram-se fragmentos. E vê-los mergulhados em um universo que já tem pouco de humano, com facções políticas vibrando feito torcidas organizadas de um lado por uma falha da pista, do outro por um defeito da aeronave.
Desliga o som. Silêncio.
Sunday, July 22, 2007
Eu disse
.
Lewis Hamilton terminou o GP da Europa em nono.
Nick Heidfeld enroscou-se com Ralf Schumacher durante a corrida. O incidente será julgado após a prova. Heidfeld terminou em sétimo.
Eu digo: a Fia vai punir Heidfeld e Hamilton herdará um ponto, ficando em oitavo.
A Fia, como o resto do mundo, adora Hamilton.
Lewis Hamilton terminou o GP da Europa em nono.
Nick Heidfeld enroscou-se com Ralf Schumacher durante a corrida. O incidente será julgado após a prova. Heidfeld terminou em sétimo.
Eu digo: a Fia vai punir Heidfeld e Hamilton herdará um ponto, ficando em oitavo.
A Fia, como o resto do mundo, adora Hamilton.
Friday, July 20, 2007
O Maracanaço da Bahia
.

Você já foi à Bahia, nega, não? Então, vá!
O início desse clássico de Dorival Caymmi quase me faz largar tudo e correr para Salvador. Não que eu precise de pretexto para querer de novo estar lá, mas desta vez o motivo é especial.
Meu grande-e-querido-e-especial-e-tudo-de-bom amigo Silvio César Tudela Vieira defende, na próxima sexta-feira, dia 27 de julho, às 10h, sua tese de mestrado na Universidade Federal da Bahia. É um trabalho de fôlego sobre a narração radiofônica da final da Copa do Mundo de 1950, perdida pelo Brasil para o Uruguai, em pleno Maracanã.
Quem estiver por Salvador no período e tiver especial interesse por jornalismo ou por futebol, não perca.
Eu, infelizmente, não poderei ir.
Mas fico daqui mandando todo o meu axé para o Silvio.

Você já foi à Bahia, nega, não? Então, vá!
O início desse clássico de Dorival Caymmi quase me faz largar tudo e correr para Salvador. Não que eu precise de pretexto para querer de novo estar lá, mas desta vez o motivo é especial.
Meu grande-e-querido-e-especial-e-tudo-de-bom amigo Silvio César Tudela Vieira defende, na próxima sexta-feira, dia 27 de julho, às 10h, sua tese de mestrado na Universidade Federal da Bahia. É um trabalho de fôlego sobre a narração radiofônica da final da Copa do Mundo de 1950, perdida pelo Brasil para o Uruguai, em pleno Maracanã.
Quem estiver por Salvador no período e tiver especial interesse por jornalismo ou por futebol, não perca.
Eu, infelizmente, não poderei ir.
Mas fico daqui mandando todo o meu axé para o Silvio.
Tuesday, July 17, 2007
Eu recomendo
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Um grande texto, um grande estudioso da história do automobilismo, um grande apreciador de música, um grande cara. Se você ainda não conhece Luis Fernando Ramos, o Ico, vá até seu recém-inaugurado blog. Ico só tem dois grandes defeitos: ser são-paulino e morar com sua doce Claudia muito longe daqui.
Bem vindo à blogosfera, colega!

Um grande texto, um grande estudioso da história do automobilismo, um grande apreciador de música, um grande cara. Se você ainda não conhece Luis Fernando Ramos, o Ico, vá até seu recém-inaugurado blog. Ico só tem dois grandes defeitos: ser são-paulino e morar com sua doce Claudia muito longe daqui.
Bem vindo à blogosfera, colega!
RádioGP no ar
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Fui convidada, mais uma vez, a participar da RádioGP, o podcast do site Grande Prêmio. O programa desta semana teve como anfitrião o mordaz Victor Martins. Espalhados pelo mundo, Rafael Sola, de São Paulo, Ivan Capelli, de Porto Alegre, Luis Fernando Ramos, de Viena, e a estréia do novo colunista do Grande Prêmio, Carlos Cintra Mauro, o Lua, que apesar do apelido astronáutico falou daqui mesmo, da capital paulista. Para baixar o link, é só clicar aqui.

Fui convidada, mais uma vez, a participar da RádioGP, o podcast do site Grande Prêmio. O programa desta semana teve como anfitrião o mordaz Victor Martins. Espalhados pelo mundo, Rafael Sola, de São Paulo, Ivan Capelli, de Porto Alegre, Luis Fernando Ramos, de Viena, e a estréia do novo colunista do Grande Prêmio, Carlos Cintra Mauro, o Lua, que apesar do apelido astronáutico falou daqui mesmo, da capital paulista. Para baixar o link, é só clicar aqui.
Thursday, July 12, 2007
O cavaleiro solitário na ilha isolada
Faz tempo que tenho vontade de comentar sobre meus tempos de Folha de S.Paulo. Um período relativamente curto, dois anos e pouco, mas intenso e marcante, por vários aspectos. Foi meu primeiro emprego, iniciei lá antes de terminar a faculdade, contratada pelo então editor Flavio Gomes, que depois se tornou um grande chapa. Esta atual efervescência da mídia em torno dos Jogos Panamericanos me fez lembrar de uma cobertura histórica. Não minha, mas de um grande repórter de Esportes – Edgard Alves.
O Pan de 1991 foi a primeira grande competição que encarei na Folha. Realizado em Havana, visto de hoje o evento parece ter acontecido não no século passado, mas no retrasado, pelas dificuldades de comunicação. Edgard era o único repórter do caderno de Esporte da Folha no Pan de Cuba.
Naqueles tempos, o jornal tinha um hábito esdrúxulo. Mandava para uma cobertura política, por exemplo, um repórter de Ciências. Da mesma forma, às vezes pedia ao editor de Esporte uma crítica sobre a novela mexicana em cartaz no SBT. Isso não é força de expressão, acontecia de fato e revelava um “conceito” do jornal, o de colocar profissionais que não entendiam nada daquele assunto para dar “uma outra visão” à cobertura. E assim a equipe de repórteres da Folha no Pan de Cuba tinha um repórter fera em Esporte, nosso Edgard, e um outro grande jornalista, que viria a se tornar biógrafo respeitado, mas que de esportes parecia saber bem pouco.
Claro que um único repórter não faria a cobertura de todas as competições. Desta forma, a redação ficou responsável pela retaguarda que deveria, em grande proporção, produzir de São Paulo o noticiário acerca do que se passava nas quadras, pistas, piscinas e campos de Havana. Eu era foca, o nome que se dá ao jornalista em início de carreira, por isso delegaram a mim esportes menos destacados, como esgrima e pólo aquático. Nem liguei. Estava toda pilhada de fazer minha primeira cobertura de um Pan, ainda que à distância.
Falar com Edgard direto de Havana era um episódio raro, normalmente reservado ao editor, em uma ou duas conversas telefônicas diárias. O resto da equipe tinha de se comunicar com o repórter por meio de um aparelho hoje de museu, o telex. Para a moçada que nunca esteve à frente de um, vou descrevê-lo. Era uma espécie de máquina de escrever grandona, na qual se digitava normalmente. Só que a mensagem era transmitida por meio de uma fita lateral, que ia se preenchendo de furinhos à medida que se digitava. Essa fita era o que continha a mensagem e sua transmissão permitia que se lesse o texto no outro aparelho conectado, em qualquer parte do mundo. Textos longos eram produzidos desta forma: o jornalista digitava o texto, a fita era gravada e um operador transmitia a fita para o telex de destino. Textos curtos podiam ser transmitidos diretamente, como uma espécie de Messenger pré-histórico, mas não era possível manter longas conversações dessa forma, pois a transmissão era feita por linha telefônica. Além de cara, a conversa poderia ser interrompida a todo tempo, em função da má qualidade das linhas.
Produzíamos o noticiário na alameda Barão de Limeira, com o auxílio dos telex das agências internacionais, da transmissão das TVs (só tinha TV aberta naqueles tempos, viu?) e enriquecíamos as notícias com declarações colhidas pelo Edgard, em Havana, ou com impressões e fatos por ele transmitidos, diretamente da ilha. Aquele que se sentava ao telex para falar com o enviado especial, nos breves momentos do dia em que ele conseguia fazer isso, ficava responsável por transmitir aos colegas as informações de outros esportes que o repórter enviava naquele instante.
O Pan de 91 foi especial para o esporte brasileiro principalmente por três acontecimentos. Foi nessa competição que o nadador Gustavo Borges conquistou suas primeiras medalhas em Panamericanos (duas de ouro, duas de prata e uma de bronze). É também dessa competição o surgimento da vitoriosa geração de ouro do vôlei masculino. Ouro que só viria um ano depois, na Olimpíada de Barcelona, mas a prata conquistada pela geração de Tande, Giovane, Maurício e Marcelo Negrão, naquele Pan, foi uma espécie de ensaio.
Mas a grande conquista brasileira naquele Pan, indiscutivelmente, foi o ouro da seleção feminina de basquete, coroando a geração de Hortência e Paula, “condecoradas” pelo próprio Fidel na cerimônia de premiação. Edgard, um grande especialista em basquete, estava lá.
Fiquei muitos anos sem ver Edgard pessoalmente. Há uns dois anos, estive na redação da Folha para um compromisso profissional e fui falar com ele. Como eu estava bem diferente, quis ver se ele me reconheceria. Não disse quem eu era e pedi para adivinhar. Não adivinhou e ficou mais vermelho que uma bandeira do PT quando me “apresentei”.

Edgard está no Rio, com uma grande equipe da Folha, para a cobertura do Pan, que começa nesta sexta-feira. A todos, desejo boa sorte. E ao Edgard, em especial, esta lembrança daquela que talvez tenha sido sua mais heróica cobertura.
Em tempo: Edgard não é meu parente. A família Alves é que é grande pacas.
O Pan de 1991 foi a primeira grande competição que encarei na Folha. Realizado em Havana, visto de hoje o evento parece ter acontecido não no século passado, mas no retrasado, pelas dificuldades de comunicação. Edgard era o único repórter do caderno de Esporte da Folha no Pan de Cuba.
Naqueles tempos, o jornal tinha um hábito esdrúxulo. Mandava para uma cobertura política, por exemplo, um repórter de Ciências. Da mesma forma, às vezes pedia ao editor de Esporte uma crítica sobre a novela mexicana em cartaz no SBT. Isso não é força de expressão, acontecia de fato e revelava um “conceito” do jornal, o de colocar profissionais que não entendiam nada daquele assunto para dar “uma outra visão” à cobertura. E assim a equipe de repórteres da Folha no Pan de Cuba tinha um repórter fera em Esporte, nosso Edgard, e um outro grande jornalista, que viria a se tornar biógrafo respeitado, mas que de esportes parecia saber bem pouco.
Claro que um único repórter não faria a cobertura de todas as competições. Desta forma, a redação ficou responsável pela retaguarda que deveria, em grande proporção, produzir de São Paulo o noticiário acerca do que se passava nas quadras, pistas, piscinas e campos de Havana. Eu era foca, o nome que se dá ao jornalista em início de carreira, por isso delegaram a mim esportes menos destacados, como esgrima e pólo aquático. Nem liguei. Estava toda pilhada de fazer minha primeira cobertura de um Pan, ainda que à distância.
Falar com Edgard direto de Havana era um episódio raro, normalmente reservado ao editor, em uma ou duas conversas telefônicas diárias. O resto da equipe tinha de se comunicar com o repórter por meio de um aparelho hoje de museu, o telex. Para a moçada que nunca esteve à frente de um, vou descrevê-lo. Era uma espécie de máquina de escrever grandona, na qual se digitava normalmente. Só que a mensagem era transmitida por meio de uma fita lateral, que ia se preenchendo de furinhos à medida que se digitava. Essa fita era o que continha a mensagem e sua transmissão permitia que se lesse o texto no outro aparelho conectado, em qualquer parte do mundo. Textos longos eram produzidos desta forma: o jornalista digitava o texto, a fita era gravada e um operador transmitia a fita para o telex de destino. Textos curtos podiam ser transmitidos diretamente, como uma espécie de Messenger pré-histórico, mas não era possível manter longas conversações dessa forma, pois a transmissão era feita por linha telefônica. Além de cara, a conversa poderia ser interrompida a todo tempo, em função da má qualidade das linhas.
Produzíamos o noticiário na alameda Barão de Limeira, com o auxílio dos telex das agências internacionais, da transmissão das TVs (só tinha TV aberta naqueles tempos, viu?) e enriquecíamos as notícias com declarações colhidas pelo Edgard, em Havana, ou com impressões e fatos por ele transmitidos, diretamente da ilha. Aquele que se sentava ao telex para falar com o enviado especial, nos breves momentos do dia em que ele conseguia fazer isso, ficava responsável por transmitir aos colegas as informações de outros esportes que o repórter enviava naquele instante.
O Pan de 91 foi especial para o esporte brasileiro principalmente por três acontecimentos. Foi nessa competição que o nadador Gustavo Borges conquistou suas primeiras medalhas em Panamericanos (duas de ouro, duas de prata e uma de bronze). É também dessa competição o surgimento da vitoriosa geração de ouro do vôlei masculino. Ouro que só viria um ano depois, na Olimpíada de Barcelona, mas a prata conquistada pela geração de Tande, Giovane, Maurício e Marcelo Negrão, naquele Pan, foi uma espécie de ensaio.
Mas a grande conquista brasileira naquele Pan, indiscutivelmente, foi o ouro da seleção feminina de basquete, coroando a geração de Hortência e Paula, “condecoradas” pelo próprio Fidel na cerimônia de premiação. Edgard, um grande especialista em basquete, estava lá.
Fiquei muitos anos sem ver Edgard pessoalmente. Há uns dois anos, estive na redação da Folha para um compromisso profissional e fui falar com ele. Como eu estava bem diferente, quis ver se ele me reconheceria. Não disse quem eu era e pedi para adivinhar. Não adivinhou e ficou mais vermelho que uma bandeira do PT quando me “apresentei”.

Edgard está no Rio, com uma grande equipe da Folha, para a cobertura do Pan, que começa nesta sexta-feira. A todos, desejo boa sorte. E ao Edgard, em especial, esta lembrança daquela que talvez tenha sido sua mais heróica cobertura.
Em tempo: Edgard não é meu parente. A família Alves é que é grande pacas.
Duas perguntas
.
Há dois mistérios atormentando minha cabeça nestes últimos dias.
1) Não é estranho haver um caso ruidoso na Fórmula 1 - com sabotagem, espionagem e outras modalidades de sacanagem - sem que Flavio Briatore esteja envolvido nele?
2) Quantos fios de cabelos brancos nasceram na cabeça de Dunga, de ontem para hoje, enquanto ele pensa sobre quem vai marcar Lionel Messi no jogo de domingo?
Há dois mistérios atormentando minha cabeça nestes últimos dias.
1) Não é estranho haver um caso ruidoso na Fórmula 1 - com sabotagem, espionagem e outras modalidades de sacanagem - sem que Flavio Briatore esteja envolvido nele?
2) Quantos fios de cabelos brancos nasceram na cabeça de Dunga, de ontem para hoje, enquanto ele pensa sobre quem vai marcar Lionel Messi no jogo de domingo?
Wednesday, July 11, 2007
Caminhante noturno*
.

Doni pegou dois pênaltis e o Brasil se classificou para a final da Copa América. Viva Doni, o herói da classificação.
Mas alguém contou quantos passos o goleiro deu antes de pegar o chute do uruguaio Lugano nesta noite de terça-feira? O que fazia Doni no meio da pequena área quando processou a façanha?
É coisa feita para agradar todo mundo: a galera, francamente favorável ao Brasil no estádio venezuelano, a Confederação Sul-Americana, que deve estar esfregando as mãozinhas por uma final entre Brasil e Argentina, e a torcida são-paulina, que enfim pôde ver como seria Rogério Ceni no gol da seleção... (ô, veneno...)
* Título de uma canção dos Mutantes, de 1968.

Doni pegou dois pênaltis e o Brasil se classificou para a final da Copa América. Viva Doni, o herói da classificação.
Mas alguém contou quantos passos o goleiro deu antes de pegar o chute do uruguaio Lugano nesta noite de terça-feira? O que fazia Doni no meio da pequena área quando processou a façanha?
É coisa feita para agradar todo mundo: a galera, francamente favorável ao Brasil no estádio venezuelano, a Confederação Sul-Americana, que deve estar esfregando as mãozinhas por uma final entre Brasil e Argentina, e a torcida são-paulina, que enfim pôde ver como seria Rogério Ceni no gol da seleção... (ô, veneno...)
* Título de uma canção dos Mutantes, de 1968.
Tuesday, July 10, 2007
Um sonho
Esta noite, sonhei que Kimi Raikkonen será o campeão da temporada 2007 da Fórmula 1. O sonho tinha toques lisérgicos, como o fato de o chefe da equipe dele, que não era a Ferrari, ser um cliente meu, que por acaso é médico.
Isto, sem dúvida, é um sinal.
Sinal de que penso muito em Fórmula 1.
Há alguns meses, sonhei que a final do Mundial Interclubes, este ano, seria disputada entre Santos e Manchester United. Como todos sabemos, será entre Milan e Boca Juniors. Mas, neste caso, justifica-se: deve ter sido meu desejo de ver Cristiano Ronaldo mais uma vez...
Isto, sem dúvida, é um sinal.
Sinal de que penso muito em Fórmula 1.
Há alguns meses, sonhei que a final do Mundial Interclubes, este ano, seria disputada entre Santos e Manchester United. Como todos sabemos, será entre Milan e Boca Juniors. Mas, neste caso, justifica-se: deve ter sido meu desejo de ver Cristiano Ronaldo mais uma vez...
Saturday, July 07, 2007
Paixão e dúvida
.
Amigos, estou apaixonada. Já nem tento resistir a ele, desta vez sinto que me rendi incondicionalmente. Fico encantada com seu sorriso, tentando adivinhar quais serão seus próximos atos, enamorada de tudo o que ele faz. Como todo ser apaixonado, tenho certeza de que meu amado é perfeito, não faz nada errado, é um semi-deus, ou um deus por inteiro. Minha boca fica seca, minhas mãos ficam úmidas ao prenúncio de sua chegada.
Nem ligo por dividir seu amor com os outros. E os outros formam uma legião de milhares de fãs em todo o mundo. Não me importo nem mesmo de ele não saber da minha existência.
Diga, você também, se não está entregue a Lewis Hamilton.
De março até hoje, o piloto inglês já foi chamado de quase tudo: robô, fabricado, sortudo, perfeito, perfeito, perfeito. A Fórmula 1 não perdoa os erros e ele, até agora, simplesmente não errou nos momentos cruciais. Abro bem os olhos quando ele aparece, sedenta de guardar nas retinas outra cena que há de entrar para a história.
Hamilton tem outra virtude inequívoca: começou a correr no ano seguinte à aposentadoria de Michael Schumacher.
Estou apaixonada por Hamilton, mas sou uma mulher madura. E entre retinas encantadas e mãos molhadas, minha mente fervilha com uma dúvida.
Se passamos vários anos ouvindo que "se Senna não tivesse morrido, Schumacher não seria tão vitorioso", a lógica vale para o presente momento? Sempre achei essa inadagação uma chatice inominável, mas será que alguém, em algum rincão da Alemanha, não está se fazendo essa pergunta? Se Schumacher não tivesse parado, este campeonato estaria tão equilibrado e Hamilton estaria brilhando tanto?
Amigos, estou apaixonada. Já nem tento resistir a ele, desta vez sinto que me rendi incondicionalmente. Fico encantada com seu sorriso, tentando adivinhar quais serão seus próximos atos, enamorada de tudo o que ele faz. Como todo ser apaixonado, tenho certeza de que meu amado é perfeito, não faz nada errado, é um semi-deus, ou um deus por inteiro. Minha boca fica seca, minhas mãos ficam úmidas ao prenúncio de sua chegada.
Nem ligo por dividir seu amor com os outros. E os outros formam uma legião de milhares de fãs em todo o mundo. Não me importo nem mesmo de ele não saber da minha existência.
Diga, você também, se não está entregue a Lewis Hamilton.
De março até hoje, o piloto inglês já foi chamado de quase tudo: robô, fabricado, sortudo, perfeito, perfeito, perfeito. A Fórmula 1 não perdoa os erros e ele, até agora, simplesmente não errou nos momentos cruciais. Abro bem os olhos quando ele aparece, sedenta de guardar nas retinas outra cena que há de entrar para a história.
Hamilton tem outra virtude inequívoca: começou a correr no ano seguinte à aposentadoria de Michael Schumacher.
Estou apaixonada por Hamilton, mas sou uma mulher madura. E entre retinas encantadas e mãos molhadas, minha mente fervilha com uma dúvida.
Se passamos vários anos ouvindo que "se Senna não tivesse morrido, Schumacher não seria tão vitorioso", a lógica vale para o presente momento? Sempre achei essa inadagação uma chatice inominável, mas será que alguém, em algum rincão da Alemanha, não está se fazendo essa pergunta? Se Schumacher não tivesse parado, este campeonato estaria tão equilibrado e Hamilton estaria brilhando tanto?
Thursday, July 05, 2007
Barcelona, 5 de julho de 1982
.

Já escrevi muito sobre este dia, especialmente quando da morte de Telê Santana. Quem viu aquela seleção brasileira jogar nunca se contentou com Dunga. Nunca há de se contentar. Mil vezes aquele título perdido... Hoje, faço da data uma homenagem a Reginaldo Manente, autor da foto que melhor traduziu o sentimento de derrota que invadiu todos os corações brasileiros.
Tive a honra de trabalhar com Reginaldo Manente, grande figura, apesar de palmeirense. Esta foto, estourada na capa do Jornal da Tarde de 6 de julho de 1982, rendeu prêmios ao jornal e ao fotógrafo. Perguntei a ele como tinha acontecido o registro. Ele me contou que o jogo tinha acabado, ele havia feito vários filmes do jogo e dos jogadores brasileiros, rendidos em campo, após a derrota. Mas sentia que não tinha "a" foto. Começou a vasculhar a arquibancada com os olhos e viu o menino chorando. Apontou a teleobjetiva e fez uma seqüência do garoto.
Sem palavras. Pra quê?

Já escrevi muito sobre este dia, especialmente quando da morte de Telê Santana. Quem viu aquela seleção brasileira jogar nunca se contentou com Dunga. Nunca há de se contentar. Mil vezes aquele título perdido... Hoje, faço da data uma homenagem a Reginaldo Manente, autor da foto que melhor traduziu o sentimento de derrota que invadiu todos os corações brasileiros.
Tive a honra de trabalhar com Reginaldo Manente, grande figura, apesar de palmeirense. Esta foto, estourada na capa do Jornal da Tarde de 6 de julho de 1982, rendeu prêmios ao jornal e ao fotógrafo. Perguntei a ele como tinha acontecido o registro. Ele me contou que o jogo tinha acabado, ele havia feito vários filmes do jogo e dos jogadores brasileiros, rendidos em campo, após a derrota. Mas sentia que não tinha "a" foto. Começou a vasculhar a arquibancada com os olhos e viu o menino chorando. Apontou a teleobjetiva e fez uma seqüência do garoto.
Sem palavras. Pra quê?
Tuesday, July 03, 2007
RádioGP no ar

Atendendo ao convite do pessoal do Grande Prêmio, participei ontem da Rádio GP, o podcast do site. Sob o comando do multimídia Flavio Gomes, debatemos o GP da França de F1, o GP da Holanda de Motovelocidade, as corridas de GP2 em Magny Cours e muito mais.
Os comentários são de Victor Martins, Bruno Vicária e Ivan Capelli.
É possível baixar o programa por aqui.
Sunday, July 01, 2007
Que bonito é...
.
Neste final de semana, o esporte abusou do direito de ser espetacular. Começou na manhã do sábado, com o GP da Holanda de Motovelocidade. Um duelo de arrepiar entre o superstar Valentino Rossi e a nova sensação Casey Stoner, com vitória de Rossi no final da prova.
Logo depois da moto, veio a corrida da GP2, em Magny Cours, na França, com um acidente de apavorar com o venezuelano Ernesto Viso. Depois de decolar literalmente, o jovem piloto passou a poucos centímetros do mesmo muro que matou o brasileiro Marco Campos em 1995. Um milagre, ou talvez um santo forte danado desse Hugo Chavez.
Domingo cedinho, mais adrenalina, mas esta para poucos. Quer dizer, poucos se comparados à massa de espectadores que acompanha transmissões esportivas pela TV. Falo da XII Corrida dos Bombeiros da Corpore, que aconteceu pelas ruas do Ipiranga e reuniu cerca de sete mil atletas. Estive lá, completando os dez quilômetros em 50min31, que considerei um bom tempo em função da longa subida que se estende do quilômetro seis e meio até o oito.
Assim que der, coloco fotos do evento aqui.
Cheguei a tempo de ver ao vivo pouco menos da metade do GP da França de Fórmula 1, pouco emocionante em si pela vitória correta de Kimi Raikkonen, mas espantoso pelo conjunto da obra deste mundial. Oito corridas, duas vitórias de cada um dos pilotos da McLaren e da Ferrari. Expresso 2222. Duas de Kimi, duas de Massa, duas de Alonso, duas de Hamilton. Este inglesinho carismático parece ter tanta sorte que já não parece sorte. Primeiro, parecia que o cara era "fabricado". Depois, que tinha o traseiro virado pra lua. Cada vez mais fica evidente: o homem é bom mesmo!
Para terminar, o jogo da seleção brasileira contra o Chile pela Copa América. Por coincidência, foi depois da saída de Elano que o Brasil deslanchou. Acho lamentável que Elano se torne o Dunga de Dunga, o símbolo do mau futebol desta atual seleção. E ele não é mau jogador. O que me pareceu certa teimosia do técnico Dunga foi demorar tanto em colocar a vitoriosa dupla de volantes do São Paulo de outrora - Josué e Mineiro. Esta simples mudança organizou o meio-campo, fez a bola chegar ao ataque, e nos brindou com um belo segundo gol, fruto de uma eficiente troca de passes entre Wagner Love e Robinho.
E, sobretudo, nos presenteou com um gol de placa de Robinho, com drible da vaca e tudo, consolidano a goleada.
Neste final de semana, o esporte abusou do direito de ser espetacular. Começou na manhã do sábado, com o GP da Holanda de Motovelocidade. Um duelo de arrepiar entre o superstar Valentino Rossi e a nova sensação Casey Stoner, com vitória de Rossi no final da prova.
Logo depois da moto, veio a corrida da GP2, em Magny Cours, na França, com um acidente de apavorar com o venezuelano Ernesto Viso. Depois de decolar literalmente, o jovem piloto passou a poucos centímetros do mesmo muro que matou o brasileiro Marco Campos em 1995. Um milagre, ou talvez um santo forte danado desse Hugo Chavez.
Domingo cedinho, mais adrenalina, mas esta para poucos. Quer dizer, poucos se comparados à massa de espectadores que acompanha transmissões esportivas pela TV. Falo da XII Corrida dos Bombeiros da Corpore, que aconteceu pelas ruas do Ipiranga e reuniu cerca de sete mil atletas. Estive lá, completando os dez quilômetros em 50min31, que considerei um bom tempo em função da longa subida que se estende do quilômetro seis e meio até o oito.
Assim que der, coloco fotos do evento aqui.
Cheguei a tempo de ver ao vivo pouco menos da metade do GP da França de Fórmula 1, pouco emocionante em si pela vitória correta de Kimi Raikkonen, mas espantoso pelo conjunto da obra deste mundial. Oito corridas, duas vitórias de cada um dos pilotos da McLaren e da Ferrari. Expresso 2222. Duas de Kimi, duas de Massa, duas de Alonso, duas de Hamilton. Este inglesinho carismático parece ter tanta sorte que já não parece sorte. Primeiro, parecia que o cara era "fabricado". Depois, que tinha o traseiro virado pra lua. Cada vez mais fica evidente: o homem é bom mesmo!
Para terminar, o jogo da seleção brasileira contra o Chile pela Copa América. Por coincidência, foi depois da saída de Elano que o Brasil deslanchou. Acho lamentável que Elano se torne o Dunga de Dunga, o símbolo do mau futebol desta atual seleção. E ele não é mau jogador. O que me pareceu certa teimosia do técnico Dunga foi demorar tanto em colocar a vitoriosa dupla de volantes do São Paulo de outrora - Josué e Mineiro. Esta simples mudança organizou o meio-campo, fez a bola chegar ao ataque, e nos brindou com um belo segundo gol, fruto de uma eficiente troca de passes entre Wagner Love e Robinho.
E, sobretudo, nos presenteou com um gol de placa de Robinho, com drible da vaca e tudo, consolidano a goleada.
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