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Na semana passada, um amigo me perguntou, em certo tom de cobrança: "Você não vai falar da Ana Paula de Oliveira?"
A auxiliar de arbitragem foi às manchetes nos últimos dias com a divulgação da notícia de que será capa da revista Playboy. Confessei certo desânimo no assunto, mas concordei que era um bom debate.
O desânimo vem da enorme carga de machismo que circunda o assunto. A começar pela função exercida por Ana Paula. Sendo "bandeirinha" de futebol, ela já chamou bastante atenção por furar um território quase exclusivamente masculino. Ao longo da carreira, suas atuações são habitualmente destacadas, em especial quando comete erros. Já foram vários e, em muitos casos, determinantes para o resultado. De qualquer forma, é difícil saber se Ana Paula erra mais que outros auxiliares ou se seus erros recebem maior atenção, por ela ser mulher.
Ao aceitar a proposta da Playboy para posar nua, Ana Paula parece ter "traído" a causa feminina, como se tivesse sucumbido ela mesma ao machismo. É difícil não associar uma coisa à outra: revistas masculinas talvez sejam o símbolo máximo da mulher tratada como mercadoria. Na mesma conversa que originou este post, ponderei: já houve mulheres que posaram nua e nem por isso adquiriam o estigma de mulher-objeto, e o exemplo que me veio à mente foi da ex-jogadora Hortênsia. O amigo retrucou, dizendo que Hortênsia era uma espécie de Pelé em sua função, já estava na condição de fazer o que quisesse sem ganhar julgamentos desabonadores.
É muito complexo isso, não? Com minhas raízes feministas, tendo a desprezar qualquer abordagem superficialista da mulher, e o caráter das revistas masculinas segue esse parâmetro. Por outro lado, penso que essa própria associação de idéias seja machista em si. Por que uma mulher que ganha dinheiro aparecendo nua tem necessariamente de ser associada à idéia de mercadoria?
O que vocês acham?
Sunday, June 24, 2007
Thursday, June 21, 2007
Fruta estranha
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Fiquei várias semanas pensando em um mote para escrever sobre Billie Holiday. Depois de dois textos quase seguidos sobre cantoras negras dos Estados Unidos - Dinah Washington e Ella Fitzgerald - me pareceu absurdo não escrever sobre aquela que é considerada por muitos como a maior de todas.
Já disse aqui mesmo que minha preferida é Dinah Washington, o que não quer dizer que ela seja nem que eu a considere melhor que Billie. Gosto é gosto, é coração e emoção, não necessariamente análise estética. Billie é daquela classe de gente que deixou de ser "só" artista, virou mito. Não é só o que ela canta, como ela canta, mas um conjunto de gestos, a tal atitude.
Como Dinah e outras tantas divas, Billie morreu cedo, aos 44 anos, sucumbindo às drogas. Um desfecho coerente com uma vida toda cheia de conflitos e tragédias. Em sua biografia, uma frase na abertura dá o tom: "Quando meus pais se casaram, não passavam de crianças. Papai tinha 18, mamãe, 16 e eu, três." Molestada por um vizinho aos dez anos de idade, e com essa estrutura familiar capenga, acabou internada em uma casa de correção. Aos doze, foi trabalhar em um prostíbulo, lavando assoalhos. Aos catorze, "promovida" à função essencial do estabelecimento.
Em 1930, com quinze anos, Billie viu-se ameaçada de despejo, do quarto onde morava com a mãe. Em busca de um emprego melhor, ofereceu-se como dancer em um bar do Harlem. Era um desastre dançando, mas o pianista intuiu que a moça sabia cantar. Ganhou o emprego de crooner e ficou cantando na noite até que o crítico John Hammond a viu em cena e conseguiu que ela entrasse em estúdio pela primeira vez, gravando com Benny Goodman.
Sua produção em estúdio foi frenética. Gravou dezenas de músicas, percorrendo as mais variadas fileiras de compositores - dos clássicos do cancioneiro norte-americano a compositores menos conhecidos, além de ter ela mesma assinado muitas de suas canções.
Mas o que me acendeu uma luzinha para falar de Billie - veja só - foi justamente a vitória de Lewis Hamilton no GP dos Estados Unidos, domingo passado. A abordagem (anti) racista da circunstância (o primeiro negro da história a ganhar uma corrida na Fórmula 1 - e ganhou logo duas seguidas) me fez lembrar de dois episódios vividos por Billie.
Um é contado em tom de lenda e envolve um astro de primeira grandeza de Hollywood. Billie teria entrado em um bar e pedido uma bebida no balcão, ouvindo um categórico não do atendente. Anos 30 ou 40, barra pesadíssima no país da democracia. Billie teria protestado, em vão, até que atrás dela soou uma voz decidida, em direção ao balconista. "Sim, você vai servi-la." Virando-se para trás, Billie deu de cara com Clark Gable. Resta saber se ele tinha mesmo mau hálito, como apregoa a mitologia em torno de "...e o vento levou".
A outra história não tem nada de lenda e reflete como, há pouco mais de meio século, a barbárie ainda fazia estragos medonhos no país da liberdade.

Uma das músicas mais importantes do repertório de Billie Holiday é "Strange fruit", composta por um professor judeu, de pseudônimo Lewis Allan. Aqui, reproduzo um trecho da coluna "Fruta pisada", escrita por Vange Leonel na Folha de S. Paulo em abril deste ano:
Quando cantou pela primeira vez a canção "Strange Fruit", Billie Holiday estranhou o silêncio da platéia. Achou que não havia agradado. Mas logo alguém se levantou, bateu palmas freneticamente e puxou o aplauso de todo o público.
"Strange Fruit" foi composta por um professor judeu que lecionava num bairro negro. Horrorizado, após ver uma foto com negros linchados e pendurados como frutos numa árvore, decidiu escrever uma canção de protesto. Mortos por brancos racistas e deixados ao relento para que os corvos os devorassem, aqueles negros eram os "estranhos frutos" da canção.
Como dissemos no post anterior e em seus comentários, boa parte dos red necks não deve ter dado importância à vitória de Lewis Hamilton. Muitos deles nem devem saber, já que a Fórmula 1 é um esporte pouco conhecido nos Estados Unidos. Mas não deixa de ser um alento saber que se ontem negros eram cruelmente assassinados e pendurados em árvores, tornando-se essas "frutas estranhas" pendendo de galhos, hoje um deles, pelo menos, é capaz de ser aclamado como vencedor em um esporte altamente elitista.
Sim, eu sei, há muito racismo e crimes racistas cotidianamente, lá como cá, mas não me furto ao direito de ser otimista. Você pode dizer que sou uma sonhadora, mas não sou a única...

Fiquei várias semanas pensando em um mote para escrever sobre Billie Holiday. Depois de dois textos quase seguidos sobre cantoras negras dos Estados Unidos - Dinah Washington e Ella Fitzgerald - me pareceu absurdo não escrever sobre aquela que é considerada por muitos como a maior de todas.
Já disse aqui mesmo que minha preferida é Dinah Washington, o que não quer dizer que ela seja nem que eu a considere melhor que Billie. Gosto é gosto, é coração e emoção, não necessariamente análise estética. Billie é daquela classe de gente que deixou de ser "só" artista, virou mito. Não é só o que ela canta, como ela canta, mas um conjunto de gestos, a tal atitude.
Como Dinah e outras tantas divas, Billie morreu cedo, aos 44 anos, sucumbindo às drogas. Um desfecho coerente com uma vida toda cheia de conflitos e tragédias. Em sua biografia, uma frase na abertura dá o tom: "Quando meus pais se casaram, não passavam de crianças. Papai tinha 18, mamãe, 16 e eu, três." Molestada por um vizinho aos dez anos de idade, e com essa estrutura familiar capenga, acabou internada em uma casa de correção. Aos doze, foi trabalhar em um prostíbulo, lavando assoalhos. Aos catorze, "promovida" à função essencial do estabelecimento.
Em 1930, com quinze anos, Billie viu-se ameaçada de despejo, do quarto onde morava com a mãe. Em busca de um emprego melhor, ofereceu-se como dancer em um bar do Harlem. Era um desastre dançando, mas o pianista intuiu que a moça sabia cantar. Ganhou o emprego de crooner e ficou cantando na noite até que o crítico John Hammond a viu em cena e conseguiu que ela entrasse em estúdio pela primeira vez, gravando com Benny Goodman.
Sua produção em estúdio foi frenética. Gravou dezenas de músicas, percorrendo as mais variadas fileiras de compositores - dos clássicos do cancioneiro norte-americano a compositores menos conhecidos, além de ter ela mesma assinado muitas de suas canções.
Mas o que me acendeu uma luzinha para falar de Billie - veja só - foi justamente a vitória de Lewis Hamilton no GP dos Estados Unidos, domingo passado. A abordagem (anti) racista da circunstância (o primeiro negro da história a ganhar uma corrida na Fórmula 1 - e ganhou logo duas seguidas) me fez lembrar de dois episódios vividos por Billie.
Um é contado em tom de lenda e envolve um astro de primeira grandeza de Hollywood. Billie teria entrado em um bar e pedido uma bebida no balcão, ouvindo um categórico não do atendente. Anos 30 ou 40, barra pesadíssima no país da democracia. Billie teria protestado, em vão, até que atrás dela soou uma voz decidida, em direção ao balconista. "Sim, você vai servi-la." Virando-se para trás, Billie deu de cara com Clark Gable. Resta saber se ele tinha mesmo mau hálito, como apregoa a mitologia em torno de "...e o vento levou".
A outra história não tem nada de lenda e reflete como, há pouco mais de meio século, a barbárie ainda fazia estragos medonhos no país da liberdade.

Uma das músicas mais importantes do repertório de Billie Holiday é "Strange fruit", composta por um professor judeu, de pseudônimo Lewis Allan. Aqui, reproduzo um trecho da coluna "Fruta pisada", escrita por Vange Leonel na Folha de S. Paulo em abril deste ano:
Quando cantou pela primeira vez a canção "Strange Fruit", Billie Holiday estranhou o silêncio da platéia. Achou que não havia agradado. Mas logo alguém se levantou, bateu palmas freneticamente e puxou o aplauso de todo o público.
"Strange Fruit" foi composta por um professor judeu que lecionava num bairro negro. Horrorizado, após ver uma foto com negros linchados e pendurados como frutos numa árvore, decidiu escrever uma canção de protesto. Mortos por brancos racistas e deixados ao relento para que os corvos os devorassem, aqueles negros eram os "estranhos frutos" da canção.
Como dissemos no post anterior e em seus comentários, boa parte dos red necks não deve ter dado importância à vitória de Lewis Hamilton. Muitos deles nem devem saber, já que a Fórmula 1 é um esporte pouco conhecido nos Estados Unidos. Mas não deixa de ser um alento saber que se ontem negros eram cruelmente assassinados e pendurados em árvores, tornando-se essas "frutas estranhas" pendendo de galhos, hoje um deles, pelo menos, é capaz de ser aclamado como vencedor em um esporte altamente elitista.
Sim, eu sei, há muito racismo e crimes racistas cotidianamente, lá como cá, mas não me furto ao direito de ser otimista. Você pode dizer que sou uma sonhadora, mas não sou a única...
Monday, June 18, 2007
O fim do apartheid
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Nos idos dos anos 1990, um racha transformou a principal categoria de monopostos dos Estados Unidos em dois campeonatos. Naqueles tempos, depois de triunfos seguidos de Emerson Fittipaldi, um grande fluxo de pilotos de fora dos Estados Unidos começou a se deslocar para aquela que nos acostumamos a chamar, no Brasil, de Fórmula Indy, embora este nunca tenha sido o nome oficial da categoria.
Motivados um pouco por reserva de mercado e muito por pura xenofobia, os donos do circuito de Indianápolis lideraram a separação. Nascia assim a IRL - Indy Racing League - campeonato originalmente idealizado para ter corridas apenas em pistas ovais e só com pilotos estadunidenses. Se a Fórmula Indy já não era um primor de competição, o racha criou duas categorias ainda piores. Antes de falir por completo, a IRL foi aos poucos abandonando o radicalismo oval e a xenofobia, e hoje tanto corre em circuitos mistos quanto "aceita" pilotos estrangeiros.
A Fórmula 1 corre em Indianápolis desde 2000, não no oval, mas em um circuito misto que aproveita partes do traçado tradicional das 500 Milhas. Ontem, a vitória de Lewis Hamilton, a segunda de sua carreira, a segunda na América do Norte, a segunda em uma semana, tem este significado simbólico.
Foi ali, no Meio-Leste dos Estados Unidos, no "tempo sagrado da velocidade", na casa dos xenófobos que Hamilton, o primeiro negro da história a vencer um GP de Fórmula 1, simbolicamente determinou o fim do apartheid na Fórmula 1. Antes da corrida, toda aquela papagaiada tricolor: grid girls vestidas como a Mulher Maravilha, cheias de listras e estrelas, uma cantora dilacerando o hino estadunidense no melhor estilo "matança do porco". Depois da prova, a dona do circuito Mrs. Não-sei-o-quê George, com um cabelo que mais a deixava com a cara da Bruxa Má do Leste, entregando o troféu ao já mítico Hamilton.
Oh, pequenos grandes prazeres das pistas: como foi bom imaginar a cara dos red necks ao presenciar tal cena...

Nos idos dos anos 1990, um racha transformou a principal categoria de monopostos dos Estados Unidos em dois campeonatos. Naqueles tempos, depois de triunfos seguidos de Emerson Fittipaldi, um grande fluxo de pilotos de fora dos Estados Unidos começou a se deslocar para aquela que nos acostumamos a chamar, no Brasil, de Fórmula Indy, embora este nunca tenha sido o nome oficial da categoria.
Motivados um pouco por reserva de mercado e muito por pura xenofobia, os donos do circuito de Indianápolis lideraram a separação. Nascia assim a IRL - Indy Racing League - campeonato originalmente idealizado para ter corridas apenas em pistas ovais e só com pilotos estadunidenses. Se a Fórmula Indy já não era um primor de competição, o racha criou duas categorias ainda piores. Antes de falir por completo, a IRL foi aos poucos abandonando o radicalismo oval e a xenofobia, e hoje tanto corre em circuitos mistos quanto "aceita" pilotos estrangeiros.
A Fórmula 1 corre em Indianápolis desde 2000, não no oval, mas em um circuito misto que aproveita partes do traçado tradicional das 500 Milhas. Ontem, a vitória de Lewis Hamilton, a segunda de sua carreira, a segunda na América do Norte, a segunda em uma semana, tem este significado simbólico.
Foi ali, no Meio-Leste dos Estados Unidos, no "tempo sagrado da velocidade", na casa dos xenófobos que Hamilton, o primeiro negro da história a vencer um GP de Fórmula 1, simbolicamente determinou o fim do apartheid na Fórmula 1. Antes da corrida, toda aquela papagaiada tricolor: grid girls vestidas como a Mulher Maravilha, cheias de listras e estrelas, uma cantora dilacerando o hino estadunidense no melhor estilo "matança do porco". Depois da prova, a dona do circuito Mrs. Não-sei-o-quê George, com um cabelo que mais a deixava com a cara da Bruxa Má do Leste, entregando o troféu ao já mítico Hamilton.
Oh, pequenos grandes prazeres das pistas: como foi bom imaginar a cara dos red necks ao presenciar tal cena...
Wednesday, June 13, 2007
Linha de chegada
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Quem assina a Net e quiser me conhecer pela telinha pode sintonizar o programa "Linha de Chegada" desta quinta-feira, 14/06, no Sportv 2, a partir das 21h30. Participei como jornalista convidada, dividindo a mesa com o simpático Sérgio Maurício, narrador e apresentador do canal, do comentarista e velho companheiro Lito Cavalcante e dos pilotos Daniel Serra e Felipe Maluhy, da Stock Car.
Linha de Chegada
Sportv 2
Quinta-feira, 14/06
21h30

Quem assina a Net e quiser me conhecer pela telinha pode sintonizar o programa "Linha de Chegada" desta quinta-feira, 14/06, no Sportv 2, a partir das 21h30. Participei como jornalista convidada, dividindo a mesa com o simpático Sérgio Maurício, narrador e apresentador do canal, do comentarista e velho companheiro Lito Cavalcante e dos pilotos Daniel Serra e Felipe Maluhy, da Stock Car.
Linha de Chegada
Sportv 2
Quinta-feira, 14/06
21h30
Monday, June 11, 2007
MVTANTES, ANO II
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Naquele mesmo palco, em 1992, eu vi Sergio Dias subir para dar uma canja em um show da Rita Lee. Eles não tocaram nada do antigo repertório, mas "Nowhere man", dos Beatles, e "It´s only rock´n´roll, but I like it", dos Stones. Abri bem os olhos e apurei os ouvidos, na certeza de que aquilo era o mais próximo a que eu chegaria de ver Mutantes ao vivo.
Anteontem, três meses e três dias depois de ver Mutantes ao vivo, pela primeira vez, vi Mutantes ao vivo, pela segunda. O lugar antes se chamava Palace, mas hoje é Citybank Hall. Foi ali, há cerca de um ano, que os Mutantes se reuniram para uma espécie de ensaio, antes de se apresentarem no Barbican, em Londres, show que resultou no CD e no DVD que está nas lojas. Ficou uma mistura de dívida de gratidão com superstição em relação ao lugar. Depois de Londres, foram para a América do Norte, viajaram um pouco pelo Brasil, fizeram um show histórico no Museu no Ipiranga, no dia do aniversário de São Paulo. Show em teatro ainda não tinham feito na cidade. Voltaram ao antigo Palace para marcar o fim deste primeiro ano do retorno.
Como já era a segunda vez, em tão pouco tempo, que eu via Mutantes, me achei escolada. "Não estou pilhada como no Tom Brasil, não vou me ajoelhar aos pés de ninguém." E me mantive firme nesse propósito de estar menos emocionalmente envolvida, para enxergar o show com olhos mais críticos, trazer uma opinião um pouco mais imparcial. Estes meus recalques de aluna CDF ainda me matam - talvez de rir. Achei que seria capaz de ver o show sem dançar e cantar junto da primeira à última música, usando o princípio de que trabalho e prazer não se misturam como, dizem, apregoavam as prostitutas antigamente ou preconiza hoje o pessoal que trabalha na Veja.
Comecei a pisar com os dois pés no meu modelito crítica-imparcial assim que pisei no saguão do antigo Palace. Dei de cara com uma mesinha cheia de camisetas dos Mutantes e, claro, despejei 35 dinheiros em uma baby look branca com uma borboleta preta. Daí encontrei e abracei Aluizer Malab, o empresário dos Mutantes, o homem que, em muitos sentidos, fez a coisa acontecer e que logo vai pintar aqui no blog também. Quando me acomodei na pista, razoavelmente perto do palco, fui a nocaute. Meu coração já estava disparado, a boca seca. Supor que assistirei sem emoção a um show dos Mutantes é acreditar que serei capaz de ver um jogo do Corinthians sem torcer.
Desculpem, amigos, isto não é uma crítica de um show. É mais uma declaração de amor.

Arnaldo Baptista e Sergio Dias
Talvez tudo o que eu veja, ouça e leia sobre Mutantes passe pelo filtro do que não fui. Não fui jovem quando eles apareceram, não fui fã de seus figurinos malucos, não fui entusiasta de seus arranjos revolucionários. Não fui ao Urso Branco vê-los tocar em início de carreira, não fui aos festivais, não fui ao programa do Ronnie Von nem ao Divino Maravilhoso. E o fato de eu não ser nascida nessa época não me serve de desculpa. Não fui, vou. Com os olhos desfocados, achando tudo lindo. Se você quiser uma opinião própria e imparcial sobre o show dos Mutantes, ouça o CD, veja o DVD.
Algumas coisas, no entanto, consegui ver com retinas menos turvas. Por exemplo, uma certa tensão que paira em torno de Arnaldo Baptista a cada uma de suas deixas. Parece aquela família com a sina do tio aloprado, aquele parente que se apresenta meio maluco, para uns, ou senil, para outros. Sempre que ele chega, a parentada segura a respiração em uníssono, temendo o vexame que ele possa dar na frente das visitas. Só que ele faz as melhores tiradas da festa, todos riem aliviados e se congratulam, em um silêncio também em uníssono - "por que sempre nos preocupamos à toa...".
Outro detalhe do show que me pareceu digno de uma nota menos emotiva: a constatação de que a banda está fazendo um som de grande respeito, poderoso, vigoroso e, em muitos aspectos, diferente do que fazia em seus antigos shows. É uma porrada forte no peito começar o espetáculo com "Dom Quixote" e "Caminhante Noturno", duas canções com arranjos elaboradíssimos, cheias do gênio criativo do maestro Rogério Duprat. Músicas que, segundo o baterista e chapa Dinho Leme, não dava para fazer com a diminuta estrutura com que se apresentavam naqueles anos 60 e 70. Depois do show, fui dar um abraço no Dinho e comentei isso com ele. Ao nosso lado, o tecladista Henrique Peters, um curitibano muito gente boa, confirmou minha impressão - os recursos de hoje permitem que se faça, sem uma orquestra "de verdade", o que o maestro Duprat tinha idealizado para conjuntos de cordas e sopros. E assim o som preenche os espaços, reverbera no peito, acelera o coração.
Os jovens músicos incorporados à banda são muito bons. A ultra-carismática Simone Soul rouba a cena em muitos momentos. Instalada à direita de Dinho Leme, fez uma amálgama perfeita com o baterista original. O clímax entre os dois acontece no bis, em Bat Macumba, quando ela se posta exatamente ao lado da bateria, vigorosamente tocando tambor ao lado de Dinho. Os vocalistas Esmeria Bulgari e Fabio Recco também ajudaram a encorpar o som. Já não sinto saudade de Rita em Tecnicolor. Esmeria segura tudo e - sem maldade, please - ligeiramente ofusca Zelia Duncan nesse número. Vinicius Junqueira tem a árdua missão de substituir Liminha. Se alguma dúvida havia ficado quanto à sua eficiência, ouça "Dia 36". E, last but not least, uma nota sobre Vitor Alexandre. Que coisa mais Mutante esse menino! Um multi-instrumentista com cara de hippie. Toca teclados, flauta transversa, doce, contrabaixo. Já vi a hora em que ele ia tirar a sanfona para fazer um solo em "2001". Pensou? Ia ficar legal...

Abraço dos manos ao final do show; eu vi: Sergio chorou
Nesse animado e algo caótico backstage, um passarinho me deu uma notícia que fez arrepiar os pelinhos dos meus braços. Folgada como só eu, comecei a dar palpites no repertório. "Por que não 'Dune Buggy', e 'Senhor F', que tal a versão Mutantes de 'Rua Augusta', ou 'Hey, boy'?". Calma, Beth. Este show é o repertório do CD e do DVD, vamos excursionar com ele, depois vem coisa nova, inclusive inéditas. Como é?! Então, os Mutantes estão compondo de novo? Yeah, baby, e com contribuições de Tom Zé, autor das letras de "2001" e "Qualquer bobagem". Uau!

Arnaldo, eu e Sergio, no backstage
Fui ter com Arnaldo e Sergio, acomodados em uma mesinha no fundo do palco. Me "reapresentei" ao Sergio como "a mãe do menino que fez o desenho". Explico: no show do Tom Brasil, entreguei a ele um desenho feito pelo meu filho Gabriel, sete anos incompletos, com todos os integrantes da banda, Zélia e Rita juntas! Pouco antes, o tecladista Henrique mencionou o desenho, que ficou famoso entre os Mutantes. Oh, my... Onde vai parar meu coraçãozinho desse jeito. Sergio se lembrou no ato e mencionou para Arnaldo, que só disse "é, acho que me lembro...". Logo depois, sentou-se com eles a estilista Gloria Coelho, tão pilhada quanto eu, no primeiro show. Falando que sabia as letras de cór, ao que Arnaldo respondeu: "Então, poderia me ajudar, porque eu sempre esqueço." Mas a frase lapidar de Arnaldo foi dada a ele, vale conferir.
(Nessa hora, tive a impressão de que Arnaldo é uma versão conteporânea do Vicente Matheus, presidente falecido do Corinthians, que falava frases desconcertantes, revelando certa ignorância, sendo muitas delas evidentemente armadas. Porque Dinho já me contou que Arnaldo pode ser aéreo para muitas coisas, mas para letras e arranjos originais é uma encíclopédia.)

Pandini, Dinho e eu
Fui, claro, fazer uma foto com Dinho. Ele estava falando com uma mulher muito bonita e pediu a ela que batesse o retrato. "Leila, bate aqui pra nós." Ela é "a" Leila? Sim, era ela, Leila, namorada do Liminha na época, festejadíssima entre a turma. Não perdi a oportunidade de conferir com ela onde era a tal casa dos Mutantes na Cantareira. Já perguntei para outros freqüentadores do lugar, mas ninguém me respondeu com muita precisão. Leila continua morando lá e finalmente pude saber onde ficava a Mutantolândia. Como eu imaginava, bem perto da casa dos meus avós. Pensou? Eu, vizinha dos Mutantes?!

"A" Leila e eu: finalmente, descobri onde era a Mutantolândia
Mais alguém aí foi ao show? Me conta, vai.

Naquele mesmo palco, em 1992, eu vi Sergio Dias subir para dar uma canja em um show da Rita Lee. Eles não tocaram nada do antigo repertório, mas "Nowhere man", dos Beatles, e "It´s only rock´n´roll, but I like it", dos Stones. Abri bem os olhos e apurei os ouvidos, na certeza de que aquilo era o mais próximo a que eu chegaria de ver Mutantes ao vivo.
Anteontem, três meses e três dias depois de ver Mutantes ao vivo, pela primeira vez, vi Mutantes ao vivo, pela segunda. O lugar antes se chamava Palace, mas hoje é Citybank Hall. Foi ali, há cerca de um ano, que os Mutantes se reuniram para uma espécie de ensaio, antes de se apresentarem no Barbican, em Londres, show que resultou no CD e no DVD que está nas lojas. Ficou uma mistura de dívida de gratidão com superstição em relação ao lugar. Depois de Londres, foram para a América do Norte, viajaram um pouco pelo Brasil, fizeram um show histórico no Museu no Ipiranga, no dia do aniversário de São Paulo. Show em teatro ainda não tinham feito na cidade. Voltaram ao antigo Palace para marcar o fim deste primeiro ano do retorno.
Como já era a segunda vez, em tão pouco tempo, que eu via Mutantes, me achei escolada. "Não estou pilhada como no Tom Brasil, não vou me ajoelhar aos pés de ninguém." E me mantive firme nesse propósito de estar menos emocionalmente envolvida, para enxergar o show com olhos mais críticos, trazer uma opinião um pouco mais imparcial. Estes meus recalques de aluna CDF ainda me matam - talvez de rir. Achei que seria capaz de ver o show sem dançar e cantar junto da primeira à última música, usando o princípio de que trabalho e prazer não se misturam como, dizem, apregoavam as prostitutas antigamente ou preconiza hoje o pessoal que trabalha na Veja.
Comecei a pisar com os dois pés no meu modelito crítica-imparcial assim que pisei no saguão do antigo Palace. Dei de cara com uma mesinha cheia de camisetas dos Mutantes e, claro, despejei 35 dinheiros em uma baby look branca com uma borboleta preta. Daí encontrei e abracei Aluizer Malab, o empresário dos Mutantes, o homem que, em muitos sentidos, fez a coisa acontecer e que logo vai pintar aqui no blog também. Quando me acomodei na pista, razoavelmente perto do palco, fui a nocaute. Meu coração já estava disparado, a boca seca. Supor que assistirei sem emoção a um show dos Mutantes é acreditar que serei capaz de ver um jogo do Corinthians sem torcer.
Desculpem, amigos, isto não é uma crítica de um show. É mais uma declaração de amor.

Arnaldo Baptista e Sergio Dias
Talvez tudo o que eu veja, ouça e leia sobre Mutantes passe pelo filtro do que não fui. Não fui jovem quando eles apareceram, não fui fã de seus figurinos malucos, não fui entusiasta de seus arranjos revolucionários. Não fui ao Urso Branco vê-los tocar em início de carreira, não fui aos festivais, não fui ao programa do Ronnie Von nem ao Divino Maravilhoso. E o fato de eu não ser nascida nessa época não me serve de desculpa. Não fui, vou. Com os olhos desfocados, achando tudo lindo. Se você quiser uma opinião própria e imparcial sobre o show dos Mutantes, ouça o CD, veja o DVD.
Algumas coisas, no entanto, consegui ver com retinas menos turvas. Por exemplo, uma certa tensão que paira em torno de Arnaldo Baptista a cada uma de suas deixas. Parece aquela família com a sina do tio aloprado, aquele parente que se apresenta meio maluco, para uns, ou senil, para outros. Sempre que ele chega, a parentada segura a respiração em uníssono, temendo o vexame que ele possa dar na frente das visitas. Só que ele faz as melhores tiradas da festa, todos riem aliviados e se congratulam, em um silêncio também em uníssono - "por que sempre nos preocupamos à toa...".
Outro detalhe do show que me pareceu digno de uma nota menos emotiva: a constatação de que a banda está fazendo um som de grande respeito, poderoso, vigoroso e, em muitos aspectos, diferente do que fazia em seus antigos shows. É uma porrada forte no peito começar o espetáculo com "Dom Quixote" e "Caminhante Noturno", duas canções com arranjos elaboradíssimos, cheias do gênio criativo do maestro Rogério Duprat. Músicas que, segundo o baterista e chapa Dinho Leme, não dava para fazer com a diminuta estrutura com que se apresentavam naqueles anos 60 e 70. Depois do show, fui dar um abraço no Dinho e comentei isso com ele. Ao nosso lado, o tecladista Henrique Peters, um curitibano muito gente boa, confirmou minha impressão - os recursos de hoje permitem que se faça, sem uma orquestra "de verdade", o que o maestro Duprat tinha idealizado para conjuntos de cordas e sopros. E assim o som preenche os espaços, reverbera no peito, acelera o coração.
Os jovens músicos incorporados à banda são muito bons. A ultra-carismática Simone Soul rouba a cena em muitos momentos. Instalada à direita de Dinho Leme, fez uma amálgama perfeita com o baterista original. O clímax entre os dois acontece no bis, em Bat Macumba, quando ela se posta exatamente ao lado da bateria, vigorosamente tocando tambor ao lado de Dinho. Os vocalistas Esmeria Bulgari e Fabio Recco também ajudaram a encorpar o som. Já não sinto saudade de Rita em Tecnicolor. Esmeria segura tudo e - sem maldade, please - ligeiramente ofusca Zelia Duncan nesse número. Vinicius Junqueira tem a árdua missão de substituir Liminha. Se alguma dúvida havia ficado quanto à sua eficiência, ouça "Dia 36". E, last but not least, uma nota sobre Vitor Alexandre. Que coisa mais Mutante esse menino! Um multi-instrumentista com cara de hippie. Toca teclados, flauta transversa, doce, contrabaixo. Já vi a hora em que ele ia tirar a sanfona para fazer um solo em "2001". Pensou? Ia ficar legal...

Abraço dos manos ao final do show; eu vi: Sergio chorou
Nesse animado e algo caótico backstage, um passarinho me deu uma notícia que fez arrepiar os pelinhos dos meus braços. Folgada como só eu, comecei a dar palpites no repertório. "Por que não 'Dune Buggy', e 'Senhor F', que tal a versão Mutantes de 'Rua Augusta', ou 'Hey, boy'?". Calma, Beth. Este show é o repertório do CD e do DVD, vamos excursionar com ele, depois vem coisa nova, inclusive inéditas. Como é?! Então, os Mutantes estão compondo de novo? Yeah, baby, e com contribuições de Tom Zé, autor das letras de "2001" e "Qualquer bobagem". Uau!

Arnaldo, eu e Sergio, no backstage
Fui ter com Arnaldo e Sergio, acomodados em uma mesinha no fundo do palco. Me "reapresentei" ao Sergio como "a mãe do menino que fez o desenho". Explico: no show do Tom Brasil, entreguei a ele um desenho feito pelo meu filho Gabriel, sete anos incompletos, com todos os integrantes da banda, Zélia e Rita juntas! Pouco antes, o tecladista Henrique mencionou o desenho, que ficou famoso entre os Mutantes. Oh, my... Onde vai parar meu coraçãozinho desse jeito. Sergio se lembrou no ato e mencionou para Arnaldo, que só disse "é, acho que me lembro...". Logo depois, sentou-se com eles a estilista Gloria Coelho, tão pilhada quanto eu, no primeiro show. Falando que sabia as letras de cór, ao que Arnaldo respondeu: "Então, poderia me ajudar, porque eu sempre esqueço." Mas a frase lapidar de Arnaldo foi dada a ele, vale conferir.
(Nessa hora, tive a impressão de que Arnaldo é uma versão conteporânea do Vicente Matheus, presidente falecido do Corinthians, que falava frases desconcertantes, revelando certa ignorância, sendo muitas delas evidentemente armadas. Porque Dinho já me contou que Arnaldo pode ser aéreo para muitas coisas, mas para letras e arranjos originais é uma encíclopédia.)

Pandini, Dinho e eu
Fui, claro, fazer uma foto com Dinho. Ele estava falando com uma mulher muito bonita e pediu a ela que batesse o retrato. "Leila, bate aqui pra nós." Ela é "a" Leila? Sim, era ela, Leila, namorada do Liminha na época, festejadíssima entre a turma. Não perdi a oportunidade de conferir com ela onde era a tal casa dos Mutantes na Cantareira. Já perguntei para outros freqüentadores do lugar, mas ninguém me respondeu com muita precisão. Leila continua morando lá e finalmente pude saber onde ficava a Mutantolândia. Como eu imaginava, bem perto da casa dos meus avós. Pensou? Eu, vizinha dos Mutantes?!

"A" Leila e eu: finalmente, descobri onde era a Mutantolândia
Mais alguém aí foi ao show? Me conta, vai.
Sunday, June 10, 2007
Agora, só falta ela

Lewis Hamilton tornou-se o primeiro negro da história a vencer uma corrida de Fórmula 1. É um dia histórico. E revela o quanto este esporte tem sido restrito à tal diversidade. Esta é a 58ª temporada da Fórmula 1. Foram necessários mais de 57 anos para que um negro ganhasse uma corrida. Normal. A Fórmula 1 talvez seja o mais elitista de todos os esportes.
Mas já que a categoria festeja hoje este marco, e anda tão dada a temas atuais como a preocupação com o meio ambiente - vide o eco-carro da Honda (é difícil vê-lo, mas eventualmente ele anda) - cumpre-se fazer uma pergunta. Quando será a vez de uma mulher chegar onde Hamilton hoje chegou?
Friday, June 08, 2007
Wright estava wrong?
Nesta altura da minha vida - e em face do estágio atual da humanidade - poucas coisas ainda me surpreendem. Uma delas é o fato de Wanderley Luxemburgo ser capaz de tirar volantes, colocar atacantes e fazer de seu time uma equipe mais ofensiva ao longo de uma partida.
Wanderley Luxemburgo é um dos mais competentes técnicos do Brasil, sabe mexer em um time como poucos. Mas é algo paradoxal que ele opte por formações mais ofensivas porque Luxemburgo é uma das personalidades mais defensivas que já vi. Aquele sujeito que sempre começa uma resposta com a palavra "não", ainda que seja para concordar com o interlocutor.
Ao final do jogo de quarta passada, no qual o Santos de Luxemburgo foi eliminado pelo Grêmio da Libertadores, o técnico foi alcançado pelos repórteres finda a partida. Como já havia feito no intervalo, disparou pesado contra a arbitragem. Só que, nesse momento, acrescentou um novo personagem ao paredão de sua artilharia - o comentarista de arbitragem da Rede Globo, o ex-árbitro José Roberto Wright.
Tudo porque Wright considerou normal um lance que resultou no único gol do Grêmio na partida, por sinal, o gol que o classificou às finais. Terminado o jogo, Luxemburgo vociferou contra Wright, deixando claro que tinha visto o comentário do ex-árbitro no intervalo do jogo, no vestiário.
Wright respondeu, no ar, de forma sucinta, apelando para o aspecto mais lógico da questão: "Só queria lembrar ao Wanderley que eu não apito mais." A Globo não deu maior destaque ao tema. No Globo Esporte de ontem, dia seguinte ao jogo, nenhuma menção. Fez bem, na minha opinião. Em sua habitual tática de desviar a atenção das próprias deficiências de seus times, Luxemburgo desta vez exagerou. O culpado já não era o árbitro, mas o comentarista da arbitragem!
A Globo é habitualmente acusada de influenciar muita coisa neste país, mas... menos, né?!
Wanderley Luxemburgo é um dos mais competentes técnicos do Brasil, sabe mexer em um time como poucos. Mas é algo paradoxal que ele opte por formações mais ofensivas porque Luxemburgo é uma das personalidades mais defensivas que já vi. Aquele sujeito que sempre começa uma resposta com a palavra "não", ainda que seja para concordar com o interlocutor.
Ao final do jogo de quarta passada, no qual o Santos de Luxemburgo foi eliminado pelo Grêmio da Libertadores, o técnico foi alcançado pelos repórteres finda a partida. Como já havia feito no intervalo, disparou pesado contra a arbitragem. Só que, nesse momento, acrescentou um novo personagem ao paredão de sua artilharia - o comentarista de arbitragem da Rede Globo, o ex-árbitro José Roberto Wright.
Tudo porque Wright considerou normal um lance que resultou no único gol do Grêmio na partida, por sinal, o gol que o classificou às finais. Terminado o jogo, Luxemburgo vociferou contra Wright, deixando claro que tinha visto o comentário do ex-árbitro no intervalo do jogo, no vestiário.
Wright respondeu, no ar, de forma sucinta, apelando para o aspecto mais lógico da questão: "Só queria lembrar ao Wanderley que eu não apito mais." A Globo não deu maior destaque ao tema. No Globo Esporte de ontem, dia seguinte ao jogo, nenhuma menção. Fez bem, na minha opinião. Em sua habitual tática de desviar a atenção das próprias deficiências de seus times, Luxemburgo desta vez exagerou. O culpado já não era o árbitro, mas o comentarista da arbitragem!
A Globo é habitualmente acusada de influenciar muita coisa neste país, mas... menos, né?!
Tuesday, June 05, 2007
Cê tá pensando que eu sou loser?
Imagine um piloto que está há mais de quinze temporadas em uma categoria principal do esporte a motor, já tendo ocupado posições de destaque em equipes de ponta. Apesar do longo período na categoria top, jamais foi campeão mundial e contabiliza apenas sete vitórias no período. Depois de um ano afastado dessa categoria, retorna em uma equipe pequena. Na sexta corrida da atual temporada, consegue um resultado expressivo, chegando em terceiro e subindo ao pódio.

Este é Alexandre Barros, o único brasileiro no Mundial de Motovelocidade há muitos anos. Barros corre atualmente pela modesta equipe Pramac d´Antin. O pódio obtido na corrida de Mugello, na Itália, no último domingo, seria o mesmo que a Super Aguri chegar em terceiro em um GP da Fórmula 1. Justifica-se, portanto, a alegria dos mecânicos e engenheiros do time assim que acabou a corrida.
Barros é um tremendo gente boa, conheci-o quando eu trabalhava na Folha e era uma espécie de sub-Flavio Gomes. O Flavio cobria a Fórmula 1 e eu, as outras categorias a motor. Barros já estava no Mundial de Motos havia alguns anos, mas nunca teve qualquer traço de afetação. Uma vez, precisei de uma foto dele para publicar. Não teve dúvidas: pediu ao pai, "Seu" Coelho, que levasse para mim, na redação. Outros tempos, sem internet...
Barros continua o mesmo cara tranquilo, pelo que me dizem. Vive de pilotar moto na principal categoria do mundo e não transparece nenhuma frustração por não ter sido um super campeão como o foram Michael Doohan ou Valentino Rossi, seus contemporâneos.
E então reflito: tudo é uma questão de como se encara a vida, né? Alguns, com um histórico desse, se sentiriam (se sentem) ultra-frustrados. Só que, nesses quinze anos, nunca ouvi Barros se auto-proclamar mais do que ele é, vestir o manto do herói, posar de vítima, nada disso. Por isso, ninguém lhe aponta o dedo na rua chamando-o de perdedor nem o compara com tartarugas.
Boa, Barros, parabéns pelo pódio!

Este é Alexandre Barros, o único brasileiro no Mundial de Motovelocidade há muitos anos. Barros corre atualmente pela modesta equipe Pramac d´Antin. O pódio obtido na corrida de Mugello, na Itália, no último domingo, seria o mesmo que a Super Aguri chegar em terceiro em um GP da Fórmula 1. Justifica-se, portanto, a alegria dos mecânicos e engenheiros do time assim que acabou a corrida.
Barros é um tremendo gente boa, conheci-o quando eu trabalhava na Folha e era uma espécie de sub-Flavio Gomes. O Flavio cobria a Fórmula 1 e eu, as outras categorias a motor. Barros já estava no Mundial de Motos havia alguns anos, mas nunca teve qualquer traço de afetação. Uma vez, precisei de uma foto dele para publicar. Não teve dúvidas: pediu ao pai, "Seu" Coelho, que levasse para mim, na redação. Outros tempos, sem internet...
Barros continua o mesmo cara tranquilo, pelo que me dizem. Vive de pilotar moto na principal categoria do mundo e não transparece nenhuma frustração por não ter sido um super campeão como o foram Michael Doohan ou Valentino Rossi, seus contemporâneos.
E então reflito: tudo é uma questão de como se encara a vida, né? Alguns, com um histórico desse, se sentiriam (se sentem) ultra-frustrados. Só que, nesses quinze anos, nunca ouvi Barros se auto-proclamar mais do que ele é, vestir o manto do herói, posar de vítima, nada disso. Por isso, ninguém lhe aponta o dedo na rua chamando-o de perdedor nem o compara com tartarugas.
Boa, Barros, parabéns pelo pódio!
Thursday, May 31, 2007
De que lado você estaria (estava, estará...)?
Outro dia, estava conversando com meu "filho" Bruno Vicária sobre o livro "1968, O ano que não terminou", e o papo enveredou por aquele período intenso da história contemporânea.
Apesar de sermos de gerações diferentes, nenhum de nós viveu aquela fase e passamos a conjecturar o óbvio: o que seria de nós se vivos e adultos naquela época. Então comentei sobre a famosa "Passeata da Música Popular Brasileira", que entrou para a história como "a passeata contra as guitarras" e aconteceu em 1967.
A história foi mais ou menos assim: a música brasileira vivia um período de grande fertilidade e seu principal veículo de divulgação era a TV Record, a Rede Globo da época, que abrigava praticamente todas as tendências da música popular em sua grade de programação. Havia aquilo que depois se consolidou como a MPB, nas hostes do programa "O fino da bossa", apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues; havia a Velha Guarda do "Bossaudade", capitaneado por Eliseth Cardoso; estava lá a coqueluche da juventude, a "Jovem Guarda" do trio Roberto, Erasmo e Wanderléa. Em 1967, a Record realizou seu III Festival de Música Popular Brasileira, vencido por "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam. Mas a grande novidade desse certame, sem dúvida, foi a inusitada mistura de música popular tradicional com toques de rock, numa salada de chiclete com banana personificada em duas apresentações, a de "Domingo no Parque", com Gilberto Gil acompanhado pelos Mutantes, segunda colocada, e a de "Alegria, Alegria", de Caetano, acompanhado pelo grupo argentino Beat Boys, classificada em quarto lugar.

O terceiro festival da Record teve alguns episódios históricos, como a célebre "violada no palco", quando o cantor Sérgio Ricardo quebrou seu violão e o atirou na platéia, que o vaiava inclemente durante a apresentação da música "Beto bom de bola". Outra marca do festival foi a de segmentar grupos na platéia. Não eram apenas espectadores, mas quase torcidas organizadas que iam ao teatro tanto para aplaudir seus ídolos quanto para vaiar seus desafetos. A rivalidade adquiriu contornos político-ideológicos. A turma identificada com a ala de Elis Regina, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, entre outros, considerava-se engajada, de esquerda, oposição ao regime e rechaçava tudo o que pudesse ser identificado como imperialismo ianque. O grupo tinha até uma líder, invocada e brigona, conhecida como Telé, a puxadora oficial da saraivada de vaias.
E o que poderia ser mais americanizado, alienado, colonizado que o rock rebelde ou as baladas vertidas do inglês da turma da Jovem Guarda? Roberto Carlos participou, sim, do festival, mas cantando uma comportada "Maria Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paraná, sem guitarras nem apelo rock´n´roll. Mas era nítido que as guitarras e, principalmente, a atitude associada ao rock estava chegando para ficar. Foi neste contexto que surgiu a tal passeata. Visto de hoje, o panorama de "rivalidade" entre as várias correntes parece até esdrúxulo, senão vejamos. Quem ia à "Jovem Guarda" era proscrito do "Fino da Bossa". No entanto, poucos anos depois de terminada a "guerra", Elis estava gravando Roberto & Erasmo e desafiando solos de guitarras, por exemplo, em "Cinema Olympia", de Caetano Veloso. Mais nonsense ainda era pensar que Gilberto Gil, aquele mesmo, acompanhado de guitarras no festival, marchou junto de Elis e de outras figuras de peso contra... as guitarras!
À luz de quatro décadas passadas, hoje a passeata contra as guitarras soa mais como um evento fomentado pela própria Record para atiçar as rivalidades e fazer subir a audiência do que um movimento realmente popular. No entanto, eu e Vicária ficamos pensando onde estaríamos se estivéssemos naqueles tempos ali, de bobeira, no centro de São Paulo.
Afinada que sempre fui com o pensamento de esquerda, tenho medo de pensar - mas é a mais pura lógica - que eu estaria junto a Elis & cia., clamando pelo fim da alienação e da influência ianque em nossa "música de raiz". Claro que isso soa absurdo visto de hoje, em que me sei entusiasta da revolução tropicalista, do gênio do maestro Rogério Duprat e de seus arranjos mágicos. Que me conheço como admiradora profunda de Mutantes, de Gil, de Caetano, de Gal, e de Beatles, de Secos & Molhados, de Novos Baianos, de Eduardo Dusek, de Itamar Assumpção, disso e daquilo outro. Claro, hoje é fácil, conheci tudo isso muito depois e não me vi em trincheira nenhuma, tendo de escolher entre alguns deles para amar e os outros todos para odiar.
Mas, no fundo, às vezes penso que estaria na marcha. Vicária acha que abraçaria a Tropicália (mas até aí, né, filho, o Gil fez a Tropicália e marchou também...). Concordamos que este camarada e este outro aqui não só seriam os primeiros da fila contra a americanização ianque como eram capazes de duelar para namorar a Telé.
E você, de que lado estaria? E você, se estava lá, marchou ou vaiou? Me conta?
Apesar de sermos de gerações diferentes, nenhum de nós viveu aquela fase e passamos a conjecturar o óbvio: o que seria de nós se vivos e adultos naquela época. Então comentei sobre a famosa "Passeata da Música Popular Brasileira", que entrou para a história como "a passeata contra as guitarras" e aconteceu em 1967.
A história foi mais ou menos assim: a música brasileira vivia um período de grande fertilidade e seu principal veículo de divulgação era a TV Record, a Rede Globo da época, que abrigava praticamente todas as tendências da música popular em sua grade de programação. Havia aquilo que depois se consolidou como a MPB, nas hostes do programa "O fino da bossa", apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues; havia a Velha Guarda do "Bossaudade", capitaneado por Eliseth Cardoso; estava lá a coqueluche da juventude, a "Jovem Guarda" do trio Roberto, Erasmo e Wanderléa. Em 1967, a Record realizou seu III Festival de Música Popular Brasileira, vencido por "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam. Mas a grande novidade desse certame, sem dúvida, foi a inusitada mistura de música popular tradicional com toques de rock, numa salada de chiclete com banana personificada em duas apresentações, a de "Domingo no Parque", com Gilberto Gil acompanhado pelos Mutantes, segunda colocada, e a de "Alegria, Alegria", de Caetano, acompanhado pelo grupo argentino Beat Boys, classificada em quarto lugar.

O terceiro festival da Record teve alguns episódios históricos, como a célebre "violada no palco", quando o cantor Sérgio Ricardo quebrou seu violão e o atirou na platéia, que o vaiava inclemente durante a apresentação da música "Beto bom de bola". Outra marca do festival foi a de segmentar grupos na platéia. Não eram apenas espectadores, mas quase torcidas organizadas que iam ao teatro tanto para aplaudir seus ídolos quanto para vaiar seus desafetos. A rivalidade adquiriu contornos político-ideológicos. A turma identificada com a ala de Elis Regina, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, entre outros, considerava-se engajada, de esquerda, oposição ao regime e rechaçava tudo o que pudesse ser identificado como imperialismo ianque. O grupo tinha até uma líder, invocada e brigona, conhecida como Telé, a puxadora oficial da saraivada de vaias.
E o que poderia ser mais americanizado, alienado, colonizado que o rock rebelde ou as baladas vertidas do inglês da turma da Jovem Guarda? Roberto Carlos participou, sim, do festival, mas cantando uma comportada "Maria Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paraná, sem guitarras nem apelo rock´n´roll. Mas era nítido que as guitarras e, principalmente, a atitude associada ao rock estava chegando para ficar. Foi neste contexto que surgiu a tal passeata. Visto de hoje, o panorama de "rivalidade" entre as várias correntes parece até esdrúxulo, senão vejamos. Quem ia à "Jovem Guarda" era proscrito do "Fino da Bossa". No entanto, poucos anos depois de terminada a "guerra", Elis estava gravando Roberto & Erasmo e desafiando solos de guitarras, por exemplo, em "Cinema Olympia", de Caetano Veloso. Mais nonsense ainda era pensar que Gilberto Gil, aquele mesmo, acompanhado de guitarras no festival, marchou junto de Elis e de outras figuras de peso contra... as guitarras!
À luz de quatro décadas passadas, hoje a passeata contra as guitarras soa mais como um evento fomentado pela própria Record para atiçar as rivalidades e fazer subir a audiência do que um movimento realmente popular. No entanto, eu e Vicária ficamos pensando onde estaríamos se estivéssemos naqueles tempos ali, de bobeira, no centro de São Paulo.
Afinada que sempre fui com o pensamento de esquerda, tenho medo de pensar - mas é a mais pura lógica - que eu estaria junto a Elis & cia., clamando pelo fim da alienação e da influência ianque em nossa "música de raiz". Claro que isso soa absurdo visto de hoje, em que me sei entusiasta da revolução tropicalista, do gênio do maestro Rogério Duprat e de seus arranjos mágicos. Que me conheço como admiradora profunda de Mutantes, de Gil, de Caetano, de Gal, e de Beatles, de Secos & Molhados, de Novos Baianos, de Eduardo Dusek, de Itamar Assumpção, disso e daquilo outro. Claro, hoje é fácil, conheci tudo isso muito depois e não me vi em trincheira nenhuma, tendo de escolher entre alguns deles para amar e os outros todos para odiar.
Mas, no fundo, às vezes penso que estaria na marcha. Vicária acha que abraçaria a Tropicália (mas até aí, né, filho, o Gil fez a Tropicália e marchou também...). Concordamos que este camarada e este outro aqui não só seriam os primeiros da fila contra a americanização ianque como eram capazes de duelar para namorar a Telé.
E você, de que lado estaria? E você, se estava lá, marchou ou vaiou? Me conta?
Tuesday, May 29, 2007
Momento fútil
.

A brasileira ficou em segundo, a estadunidense caiu, a japonesa ganhou, OK. Mas ninguém vai falar que, entre as cinco, não há nenhuma loira? Nenhuma, zero vezes zero. E os litros de água oxigenada que já gastei na vida? São sinal de decadência? Respondam, please: o mundo não prefere mais as loiras?

A brasileira ficou em segundo, a estadunidense caiu, a japonesa ganhou, OK. Mas ninguém vai falar que, entre as cinco, não há nenhuma loira? Nenhuma, zero vezes zero. E os litros de água oxigenada que já gastei na vida? São sinal de decadência? Respondam, please: o mundo não prefere mais as loiras?
Monday, May 28, 2007
Solitude
"Você precisa fazer os 10 km da Tribuna, em Santos. Lá não é como aqui, a cidade pára para ver a corrida, não é essa solidão de correr pelas ruas de São Paulo."
O apelo da moça foi tão entusiasmado que acabei me inscrevendo na tal corrida naquele mesmo dia. O diálogo aconteceu poucos minutos antes da Corrida de Outono, no Pacaembu, uma prova bem tumultuada em termos de organização, no dia 1º de abril. Eu, que nunca havia corrido em Santos, achei que era uma boa oportundidade para fazer uma prova diferente e aproveitar um final de semana na praia.
Os 10 km da Tribuna aconteceram no dia 20 de maio. Uma ótima organização, um percurso agradável e muito diferente de tudo o que se faz em São Paulo, a começar pelo fato de que não "corremos em círculo" lá. A prova sai do Centro da cidade e termina na orla. Em São Paulo, em geral, largamos e terminamos no mesmo lugar.
Ontem, 27 de maio, corri uma das minhas provas preferidas, a da Academia do Barro Branco. Tenho vontade de morder a língua cada vez que falo isso. Quando tinha meus 15 anos, eu não podia nem ouvir falar no Barro Branco, nome ligado a uma instituição da Polícia Militar, localizada na Zona Norte de São Paulo. A ditadura militar tinha acabado de acabar e eu simpleslemte ficava louca com algumas colegas que debutavam e convidavam os cadetes do Barro Branco para dançar a valsa. Pois eu me recusava, na tentativa mais próxima de mostrar minha resistência ao antigo regime e de expressar minhas esperanças no novo governo civil. Tsk, tsk...
Mas a prova do Barro Branco é inigualável. Nem todos gostam de fazê-la, por seu percurso pouco usual. Localizada em uma região de terreno bem acidentado, a prova acontece praticamente só em ladeiras, subindo ou descendo. Um verdadeiro teste de resistência e força que ameaça de fato os músculos.
Correndo nesta fria manhã de domingo, em determinado trecho, praticamente deserto de almas transitando pelas ruas, lembrei da comparação da moça de Santos (cujo nome não sei e que nunca mais vi!). É realmente contrastante a animação do público às margens dos 10 km da Tribuna em relação à indiferença paulistana com a maioria das coisas que acontece por aqui. A cidade não é indiferente só a uma corrida de malucos às 8h da matina de um domingo gélido. A metrópole é blasé em relação a quase tudo. Fui assaltada uma vez, o sujeito quebrou o vidro do meu carro, havia uma multidão de carros à volta, ninguém nem olhou. Aqui, é assim.
Mas a divagação foi mais longe. Concordei em termos com a moça de Santos. De fato, lá a coisa é mais, digamos, "quente". Mas a solidão de correr independe do entorno. Aliás, correr é também um ótimo exercício para a mente. Pois foi correndo, com seis mil pessoas à volta ou sozinha, que fui percebendo como a solidão talvez seja o destino de todos. Por mais companhia que se tenha, por mais ajuda, colaboração, apoio, amor, simpatia, afinidade que se possa amealhar nos relacionamentos, é dentro de si que estão as perguntas e as respostas, os problemas e as soluções. E isso não é maldição nenhuma, mas antes uma grande libertação.
(Os sites especializados em fotos de corrida vão colocando seu material no ar aos poucos. Encontrei duas fotos minhas da prova de ontem. Estão neste link.)
O apelo da moça foi tão entusiasmado que acabei me inscrevendo na tal corrida naquele mesmo dia. O diálogo aconteceu poucos minutos antes da Corrida de Outono, no Pacaembu, uma prova bem tumultuada em termos de organização, no dia 1º de abril. Eu, que nunca havia corrido em Santos, achei que era uma boa oportundidade para fazer uma prova diferente e aproveitar um final de semana na praia.
Os 10 km da Tribuna aconteceram no dia 20 de maio. Uma ótima organização, um percurso agradável e muito diferente de tudo o que se faz em São Paulo, a começar pelo fato de que não "corremos em círculo" lá. A prova sai do Centro da cidade e termina na orla. Em São Paulo, em geral, largamos e terminamos no mesmo lugar.
Ontem, 27 de maio, corri uma das minhas provas preferidas, a da Academia do Barro Branco. Tenho vontade de morder a língua cada vez que falo isso. Quando tinha meus 15 anos, eu não podia nem ouvir falar no Barro Branco, nome ligado a uma instituição da Polícia Militar, localizada na Zona Norte de São Paulo. A ditadura militar tinha acabado de acabar e eu simpleslemte ficava louca com algumas colegas que debutavam e convidavam os cadetes do Barro Branco para dançar a valsa. Pois eu me recusava, na tentativa mais próxima de mostrar minha resistência ao antigo regime e de expressar minhas esperanças no novo governo civil. Tsk, tsk...
Mas a prova do Barro Branco é inigualável. Nem todos gostam de fazê-la, por seu percurso pouco usual. Localizada em uma região de terreno bem acidentado, a prova acontece praticamente só em ladeiras, subindo ou descendo. Um verdadeiro teste de resistência e força que ameaça de fato os músculos.
Correndo nesta fria manhã de domingo, em determinado trecho, praticamente deserto de almas transitando pelas ruas, lembrei da comparação da moça de Santos (cujo nome não sei e que nunca mais vi!). É realmente contrastante a animação do público às margens dos 10 km da Tribuna em relação à indiferença paulistana com a maioria das coisas que acontece por aqui. A cidade não é indiferente só a uma corrida de malucos às 8h da matina de um domingo gélido. A metrópole é blasé em relação a quase tudo. Fui assaltada uma vez, o sujeito quebrou o vidro do meu carro, havia uma multidão de carros à volta, ninguém nem olhou. Aqui, é assim.
Mas a divagação foi mais longe. Concordei em termos com a moça de Santos. De fato, lá a coisa é mais, digamos, "quente". Mas a solidão de correr independe do entorno. Aliás, correr é também um ótimo exercício para a mente. Pois foi correndo, com seis mil pessoas à volta ou sozinha, que fui percebendo como a solidão talvez seja o destino de todos. Por mais companhia que se tenha, por mais ajuda, colaboração, apoio, amor, simpatia, afinidade que se possa amealhar nos relacionamentos, é dentro de si que estão as perguntas e as respostas, os problemas e as soluções. E isso não é maldição nenhuma, mas antes uma grande libertação.
(Os sites especializados em fotos de corrida vão colocando seu material no ar aos poucos. Encontrei duas fotos minhas da prova de ontem. Estão neste link.)
Thursday, May 24, 2007
"Pois sem você, meu tesão..."
Fui falar de Eduardo Dussek e de seu surgimento no Festival MPB 80, da Globo, que a coisa escapou do controle. O elétrico Rodrigo Mattar logo replicou com um post sobre o festival seguinte, o MPB Shell, e então fiquei sem alternativas neste agradável duelo. É preciso falar do “Festival dos Festivais”, competição lançada também pela Globo, em 1985.
A pretensão do nome, vá lá, justifica-se. Para organizar o certame, a Globo chamou Solano Ribeiro, responsável pelos históricos festivais da Record da década de 1960 e fomentou um número impressionante de inscrições – mais de dez mil. O desejo de tornar o evento um acontecimento nacional foi reforçado pela descentralização das eliminatórias, quatro ao todo, realizadas em Recife, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, cada uma com a apresentação de 12 músicas. As duas semifinais e a finalíssima aconteceram no Rio, no ginásio do Maracanãzinho.
Para garantir que o festival fosse o sucesso esperado pela Globo, Solano cercou-se dos bons e velhos amigos. Por exemplo, chamou para compor a comissão de pré-seleção o pianista e arranjador César Camargo Mariano, que por sua vez resolveu contar com a ajuda do então rapazola João Marcello Bôscoli, seu enteado, primogênito de Elis e hoje presidente da gravadora Trama. A função de João Marcello, no processo, era colocar para tocar as milhares de músicas enviadas em fitas k-7 para a equipe de notáveis ouvir.
Não foi por falta de músicas nem de empenho da equipe que o Festival dos Festivais foi chocho feito ele só (justiça seja feita: outros poucos festivais o sucederam e conseguiram ser ainda piores, mas isso é outra história, que eu não pretendo contar!). Apesar da sofrível qualidade musical apresentada, a competição teve bons momentos.

A começar pela “revelação” da intérprete da canção vencedora, “Escrito nas Estrelas”. A sul-matogrossense Tetê Espíndola sustentava uma tímida carreira comercial desde o fim dos anos 1970, tornando-se no começo dos ´80s um dos nomes de maior destaque da chamada “Vanguarda Paulista” (bem lembrado, um dia falo dessa vanguarda paulistana capitaneada por um paranaense, um tieteense, uma sul-matogrossense etc.). Tetê era underground à beça e causou espanto para quem a conhecia ao surgir na Globo cantando uma baladinha convencional, vestindo uma roupa de crochê nada convencional e usando um penteado doidaço.
A música podia até ser qualquer nota, mas tinha alguns traços de originalidade. A começar pelo autor da letra, Carlos Rennó, que era também crítico de música, uma bela saída do armário, de pedra a vidraça. E um verso daqueles “vamos celebrar o fim da Censura” (lembrando: em 1985, José Sarney – gostemos ou não – assumiu como o primeiro presidente civil depois de 21 anos de ditadura militar, decretando, entre outras medidas, o relaxamento da Censura). O verso era justamente o título deste post – “Pois sem você, meu tesão...” – que Tetê cantava exacerbando no agudo, sua marca registrada, e fazendo uma cara de malícia bastante compatível com aquela roupa cheia de buracos.
Em segundo lugar, ficou a indígena “Mira Ira”, de Lula Barbosa e Vanderley de Castro, cantada pela desaparecida Miriam Mirah, uma canção com um refrão indecifrável, mas que levantava a galera. Algo assim: aná-ná-ira-ira-ira-ná-ná-tupi.
E em terceiro, talvez aquela que tenha sido a mais perene das obras inscritas no festival, “Verde”, de Eduardo Gudin e Costa Netto, interpretada por Leila Pinheiro, que recebeu o prêmio de revelação do festival. E um registro final para competidora premiada como a melhor letra – “A última voz do Brasil”, do irreverente grupo Joelho de Porco, capitaneado por Zé Rodrix.
E para não dizer que não lembrei: o prêmio para a melhor canção foi entregue por ela, Rita Lee.
A pretensão do nome, vá lá, justifica-se. Para organizar o certame, a Globo chamou Solano Ribeiro, responsável pelos históricos festivais da Record da década de 1960 e fomentou um número impressionante de inscrições – mais de dez mil. O desejo de tornar o evento um acontecimento nacional foi reforçado pela descentralização das eliminatórias, quatro ao todo, realizadas em Recife, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, cada uma com a apresentação de 12 músicas. As duas semifinais e a finalíssima aconteceram no Rio, no ginásio do Maracanãzinho.
Para garantir que o festival fosse o sucesso esperado pela Globo, Solano cercou-se dos bons e velhos amigos. Por exemplo, chamou para compor a comissão de pré-seleção o pianista e arranjador César Camargo Mariano, que por sua vez resolveu contar com a ajuda do então rapazola João Marcello Bôscoli, seu enteado, primogênito de Elis e hoje presidente da gravadora Trama. A função de João Marcello, no processo, era colocar para tocar as milhares de músicas enviadas em fitas k-7 para a equipe de notáveis ouvir.
Não foi por falta de músicas nem de empenho da equipe que o Festival dos Festivais foi chocho feito ele só (justiça seja feita: outros poucos festivais o sucederam e conseguiram ser ainda piores, mas isso é outra história, que eu não pretendo contar!). Apesar da sofrível qualidade musical apresentada, a competição teve bons momentos.

A começar pela “revelação” da intérprete da canção vencedora, “Escrito nas Estrelas”. A sul-matogrossense Tetê Espíndola sustentava uma tímida carreira comercial desde o fim dos anos 1970, tornando-se no começo dos ´80s um dos nomes de maior destaque da chamada “Vanguarda Paulista” (bem lembrado, um dia falo dessa vanguarda paulistana capitaneada por um paranaense, um tieteense, uma sul-matogrossense etc.). Tetê era underground à beça e causou espanto para quem a conhecia ao surgir na Globo cantando uma baladinha convencional, vestindo uma roupa de crochê nada convencional e usando um penteado doidaço.
A música podia até ser qualquer nota, mas tinha alguns traços de originalidade. A começar pelo autor da letra, Carlos Rennó, que era também crítico de música, uma bela saída do armário, de pedra a vidraça. E um verso daqueles “vamos celebrar o fim da Censura” (lembrando: em 1985, José Sarney – gostemos ou não – assumiu como o primeiro presidente civil depois de 21 anos de ditadura militar, decretando, entre outras medidas, o relaxamento da Censura). O verso era justamente o título deste post – “Pois sem você, meu tesão...” – que Tetê cantava exacerbando no agudo, sua marca registrada, e fazendo uma cara de malícia bastante compatível com aquela roupa cheia de buracos.
Em segundo lugar, ficou a indígena “Mira Ira”, de Lula Barbosa e Vanderley de Castro, cantada pela desaparecida Miriam Mirah, uma canção com um refrão indecifrável, mas que levantava a galera. Algo assim: aná-ná-ira-ira-ira-ná-ná-tupi.
E em terceiro, talvez aquela que tenha sido a mais perene das obras inscritas no festival, “Verde”, de Eduardo Gudin e Costa Netto, interpretada por Leila Pinheiro, que recebeu o prêmio de revelação do festival. E um registro final para competidora premiada como a melhor letra – “A última voz do Brasil”, do irreverente grupo Joelho de Porco, capitaneado por Zé Rodrix.
E para não dizer que não lembrei: o prêmio para a melhor canção foi entregue por ela, Rita Lee.
Tuesday, May 22, 2007
É do ar do Dusek
1980, grande 1980!
O Brasil já tinha cantado tudo o que dava sobre “a volta do irmão do Henfil”, e os ares da abertura finalmente pareciam preencher os espaços. Tudo bem que ainda demoraria quase uma década até que o povo enfiasse na urna uma cédula com nome de candidato para presidente mas, em 1980, parecia que tudo seria melhor.
Foi então que a Rede Globo resolveu reeditar o formato dos festivais e lançou o “MPB 80”, naqueles moldes dos programas da década de 1960, com eliminatórias e uma grande final. Lembro do ar de desprezo dos meus pais. “Não vai ser igual...”, era o que meus olhos liam naquele desinteresse todo. Mas, que diabos, eu não tinha visto festival nenhum e me atirei como uma militante naquele certame.
Minha torcida, como da massa, era por Amelinha, aquele frevo-mulher com cabelos de fogo cantando “Foi Deus que fez você”. Ganhou Oswaldo Montenegro, com “Agonia”, e até nisso tive que engolir a sapiência vivida de pappy & mammy. “Sempre foi assim, a preferida do público nunca vence”.
Mas o que me hipnotizou mesmo, naquele festival, foi um maluco surgido em uma das eliminatórias, cantando de paletó de fraque, asas de anjo e... cueca samba-canção. É engraçado que pouca gente se lembre disso, mas tenho nítida na memória a grafia de seu nome naquele evento: Duardo Dusek. A música era “Nostradamus”, um deboche sobre o fim do mundo com pérolas assim:
“(...) começou tudo a carcomer,
gritei, ninguém ouviu
e olha que eu ainda fiz psiu (...)”
“(...) vou até a cozinha,
encontro Carlota,
a cozinheira, morta,
diante do meu pé, Zé (...)”
Lembro da escritora Fanny Abramovich aplaudindo de pé a apresentação do sujeito e eu, que adorava as participações da Fanny no TV Mulher, apesar de ter só dez anos na época!, imediatamente transferi as palmas dela para minhas gavetinhas de juízo de valor. Amei Dusek daquele dia em diante, mas demorei a entender que Dusek não era só um anjo maluco de fraque e cueca, mas um senhor compositor, um gênio que pegava referências culturais riquíssimas com uma mão, um punhado de bom humor com a outra, jogava tudo em um caldeirão, misturava, e dali tirava praticamente o que quisesse.
É certo que minha percepção de Dusek como um fanfarrão debochado foi reforçada pela imagem que ele mesmo disseminou nos anos seguintes e na qual a grande imprensa embarcou, tratando de reforçar o estereótipo. Senão vejamos.
Depois de explodir no festival da Globo, Dusek logo gravou um disco, chamado “Olhar Brasileiro”, que o apresenta como uma espécie de Lamartine Babo modernizado. São desse primeiro disco músicas como o frevo “Folia no Matagal”, que ficou nacionalmente famosa na voz de Ney Matogrosso, com versos marotos como “o mar passa saborosamente a língua na areia(...)” e “Chocante”, a saga de uma dama abandonada deixando cair em um boteco (pelo jeito sórdido). Mas a própria faixa-título, “Olhar Brasileiro”, é nada menos que um clássico que se encaixaria à perfeição no repertório de Cauby, de Dalva de Oliveira ou de qualquer outro medalhão daqueles tempos.

Em 1982, Dusek gravou aquele que deve ter sido seu disco de maior sucesso, “Cantando no Banheiro”. Fui vê-lo no Palácio das Convenções do Anhembi. O palco era todo decorado com privadas, bidês e papel higiênico em profusão. São dessa época, além da faixa-título, o “Rock da Cachorra” (“Troque seu cachorro por uma criança pobre”), composição de Léo Jaime que deu pano pra manga junto a associações de defensores de animais, “Cabelos Negros”, “Quero te beber no gargalo”, uma impagável marchinha totalmente lamartiniana, e minha preferida, “Barrados no Baile”.
Com doze aninhos, ainda não entendendo bem por que a mãe de uma colega ficava tão escandalizada quando Rita Lee dizia que ficava “de quatro no ato”, eu também não pescava tudo o que Dusek dizia. Nesta barrados no baile, por exemplo, eu custei a pegar o que eram “aplicados pra não dormir” e achava que não fazia sentido a frase “saca aqui, qualquer privé é cilada, se não for peixinho não nada”.
Em 1984, Dusek lançou “Brega Chique”, disco cuja faixa-título ficou conhecida como “Doméstica”, a hilariante história de uma empregada presa por engano como traficante, depois transformada em baronesa não sem antes fazer breve estágio no calçadão. Ou seja, era impossível dissociar Dusek de deboche. Até aí, sem problema. O xis da questão é que Dusek sabia ser debochado com elegância, com graça e com uma base musical maravilhosa. Daí que a indústria do disco, tempos depois, e a mídia, e todo mundo, de repente até eu e você aí, começamos a nos contentar com deboche sem graça, com mau gosto. Sinal dos tempos, talvez. Ainda bem que sou de qualquer tempo e não me furto a mergulhar no passado para me deliciar com música bem feita (e bem humorada).
Quando fui buscar algo no You Tube para ilustrar este post, que coincidência. Outro dia, ainda no post “Todas as teclas”, o leitor e blogueiro Paulo de Tarso mencionou a primeira experiência de César Camargo Mariano com um piano. Pois encontrei esta participação de Dusek em um programa do maestro e arranjador, da extinta TV Manchete, cantando e tocando ao piano a deliciosamente romântica “Aventura”, do disco de 1986. Esta música tem um daqueles versos que eu queria para mim: “(...) vi seu olhar, seu olhar de festa, de farol de moto (...)”. Ai de mim que sou romântica... Só porque tenho olhos de desenho animado japonês e, quando estou animadinha, dizem, eles brilham bastante. Pretensão...
Dusek passou a década de 1990 bem apagado, como muitos artistas daquela geração, espremidos entre o sertanejo e o axé. Retomou a gravação de discos já neste século, dedicando-se a reviver a obra de Carmen Miranda, que tem mesmo tudo a ver com ele. Quando ressurgiu, passou a grafar o sobrenome com um “s” a mais e agora é Dussek. Segundo seu site oficial, apresenta-se em eventos empresariais regularmente, além de fazer shows esparsos. Sinceramente, acho pouco, pouquíssimo, para um artista como ele.
Senhoras e senhores, divirtam-se:
http://www.youtube.com/watch?v=y44hdB0OnEg
O Brasil já tinha cantado tudo o que dava sobre “a volta do irmão do Henfil”, e os ares da abertura finalmente pareciam preencher os espaços. Tudo bem que ainda demoraria quase uma década até que o povo enfiasse na urna uma cédula com nome de candidato para presidente mas, em 1980, parecia que tudo seria melhor.
Foi então que a Rede Globo resolveu reeditar o formato dos festivais e lançou o “MPB 80”, naqueles moldes dos programas da década de 1960, com eliminatórias e uma grande final. Lembro do ar de desprezo dos meus pais. “Não vai ser igual...”, era o que meus olhos liam naquele desinteresse todo. Mas, que diabos, eu não tinha visto festival nenhum e me atirei como uma militante naquele certame.
Minha torcida, como da massa, era por Amelinha, aquele frevo-mulher com cabelos de fogo cantando “Foi Deus que fez você”. Ganhou Oswaldo Montenegro, com “Agonia”, e até nisso tive que engolir a sapiência vivida de pappy & mammy. “Sempre foi assim, a preferida do público nunca vence”.
Mas o que me hipnotizou mesmo, naquele festival, foi um maluco surgido em uma das eliminatórias, cantando de paletó de fraque, asas de anjo e... cueca samba-canção. É engraçado que pouca gente se lembre disso, mas tenho nítida na memória a grafia de seu nome naquele evento: Duardo Dusek. A música era “Nostradamus”, um deboche sobre o fim do mundo com pérolas assim:
“(...) começou tudo a carcomer,
gritei, ninguém ouviu
e olha que eu ainda fiz psiu (...)”
“(...) vou até a cozinha,
encontro Carlota,
a cozinheira, morta,
diante do meu pé, Zé (...)”
Lembro da escritora Fanny Abramovich aplaudindo de pé a apresentação do sujeito e eu, que adorava as participações da Fanny no TV Mulher, apesar de ter só dez anos na época!, imediatamente transferi as palmas dela para minhas gavetinhas de juízo de valor. Amei Dusek daquele dia em diante, mas demorei a entender que Dusek não era só um anjo maluco de fraque e cueca, mas um senhor compositor, um gênio que pegava referências culturais riquíssimas com uma mão, um punhado de bom humor com a outra, jogava tudo em um caldeirão, misturava, e dali tirava praticamente o que quisesse.
É certo que minha percepção de Dusek como um fanfarrão debochado foi reforçada pela imagem que ele mesmo disseminou nos anos seguintes e na qual a grande imprensa embarcou, tratando de reforçar o estereótipo. Senão vejamos.
Depois de explodir no festival da Globo, Dusek logo gravou um disco, chamado “Olhar Brasileiro”, que o apresenta como uma espécie de Lamartine Babo modernizado. São desse primeiro disco músicas como o frevo “Folia no Matagal”, que ficou nacionalmente famosa na voz de Ney Matogrosso, com versos marotos como “o mar passa saborosamente a língua na areia(...)” e “Chocante”, a saga de uma dama abandonada deixando cair em um boteco (pelo jeito sórdido). Mas a própria faixa-título, “Olhar Brasileiro”, é nada menos que um clássico que se encaixaria à perfeição no repertório de Cauby, de Dalva de Oliveira ou de qualquer outro medalhão daqueles tempos.
Em 1982, Dusek gravou aquele que deve ter sido seu disco de maior sucesso, “Cantando no Banheiro”. Fui vê-lo no Palácio das Convenções do Anhembi. O palco era todo decorado com privadas, bidês e papel higiênico em profusão. São dessa época, além da faixa-título, o “Rock da Cachorra” (“Troque seu cachorro por uma criança pobre”), composição de Léo Jaime que deu pano pra manga junto a associações de defensores de animais, “Cabelos Negros”, “Quero te beber no gargalo”, uma impagável marchinha totalmente lamartiniana, e minha preferida, “Barrados no Baile”.
Com doze aninhos, ainda não entendendo bem por que a mãe de uma colega ficava tão escandalizada quando Rita Lee dizia que ficava “de quatro no ato”, eu também não pescava tudo o que Dusek dizia. Nesta barrados no baile, por exemplo, eu custei a pegar o que eram “aplicados pra não dormir” e achava que não fazia sentido a frase “saca aqui, qualquer privé é cilada, se não for peixinho não nada”.
Em 1984, Dusek lançou “Brega Chique”, disco cuja faixa-título ficou conhecida como “Doméstica”, a hilariante história de uma empregada presa por engano como traficante, depois transformada em baronesa não sem antes fazer breve estágio no calçadão. Ou seja, era impossível dissociar Dusek de deboche. Até aí, sem problema. O xis da questão é que Dusek sabia ser debochado com elegância, com graça e com uma base musical maravilhosa. Daí que a indústria do disco, tempos depois, e a mídia, e todo mundo, de repente até eu e você aí, começamos a nos contentar com deboche sem graça, com mau gosto. Sinal dos tempos, talvez. Ainda bem que sou de qualquer tempo e não me furto a mergulhar no passado para me deliciar com música bem feita (e bem humorada).
Quando fui buscar algo no You Tube para ilustrar este post, que coincidência. Outro dia, ainda no post “Todas as teclas”, o leitor e blogueiro Paulo de Tarso mencionou a primeira experiência de César Camargo Mariano com um piano. Pois encontrei esta participação de Dusek em um programa do maestro e arranjador, da extinta TV Manchete, cantando e tocando ao piano a deliciosamente romântica “Aventura”, do disco de 1986. Esta música tem um daqueles versos que eu queria para mim: “(...) vi seu olhar, seu olhar de festa, de farol de moto (...)”. Ai de mim que sou romântica... Só porque tenho olhos de desenho animado japonês e, quando estou animadinha, dizem, eles brilham bastante. Pretensão...
Dusek passou a década de 1990 bem apagado, como muitos artistas daquela geração, espremidos entre o sertanejo e o axé. Retomou a gravação de discos já neste século, dedicando-se a reviver a obra de Carmen Miranda, que tem mesmo tudo a ver com ele. Quando ressurgiu, passou a grafar o sobrenome com um “s” a mais e agora é Dussek. Segundo seu site oficial, apresenta-se em eventos empresariais regularmente, além de fazer shows esparsos. Sinceramente, acho pouco, pouquíssimo, para um artista como ele.
Senhoras e senhores, divirtam-se:
http://www.youtube.com/watch?v=y44hdB0OnEg
Friday, May 18, 2007
Thursday, May 17, 2007
Todas as teclas

Para uma pessoa apaixonada por música como eu, era natural que, em algum momento, o desejo de aprender música despontasse. O problema foi que eu não soube lidar em nenhum momento com essas três palavras – natural, desejo e aprender.
Sempre fui CDF de carteirinha, daquelas de estudar para prova de Filosofia, que não reprovava, no quarto bimestre, tendo fechado as notas no terceiro. Falando o português claro, fui naqueles tempos a neurótica da caderneta. E não me dei por satisfeita em ter um natural desejo de aprender. Não. Em minha defesa, havia uma lógica. Siga: eu já sabia que queria ser jornalista e planejava ser crítica de música. Ora, não querendo que os artistas por mim detonados me dissessem que eu era apenas mais uma “música frustrada”, enfiei na cabeça que eu TINHA que SABER tocar. Não era mais desejo nem muito menos natural. Era obrigação.
Ai, ai... E o pior: é tudo verdade.
Se a coisa era assim séria, não servia professora particular. Fui direto pro conservatório. O ambiente era mais que amigável, quase familiar. A escola pertencia havia várias décadas a Dona Aline, amiga da família, freqüentadora da casa. Não havia piano em casa, mas isso foi o de menos. O ancestral instrumento adquirido por meu avô lá pela década de 50 repousava quase inerte na casa da minha tia mais velha, que fora a pianista da família até se casar. Minhas primas chegaram a batucar um pouquinho nas teclas, mas nenhuma das duas se entusiasmou muito.
Herdei o piano e, minha mãe, uma seqüência de dores de cabeça por conta do trambolho. Quem já teve piano em casa sabe o que é: impossível arrastar o bicho para limpar, necessário chamar firma especializada até para trocar a coisa de uma sala para outra. O terror se instalou quando mudamos da casa para um apartamento e lá foi o piano pela escada, apoiado insanamente nas costas dos carregadores, nove andares acima.
Como toda CDF que se preza, deslanchei nos primeiros anos. Tanto que consegui cumprir os quatro primeiros em apenas dois. Eu me virava bem naqueles livros introdutórios, tipo Anna Magdalena Bach e Czerny. Até gostava de estudar escalas, mas comecei a achar que algo estava fora de ordem quando percebi que gostava mais, muito mais, das aulas de teoria. E que eu era a única que não blasfemava contra o solfejo. Lá pela metade do curso, a suspeita que rondava se instalou no meu colo.
Meus colegas eram tarados por um teclado. Não podiam ver piano aberto que logo se aboletavam e tocavam de ouvido coisinhas básicas como Chopin. Saquei que aquilo não era para mim. Eu, para perpetrar um minueto, uma valsinha que fosse, tinha que malhar horas a fio com a cara na partitura. Errava, parava, voltava. Fazia o mesmo compasso vezes seguidas. E os jovens gênios lá, tocando Mozart e Beethoven de montão. Não, chega, vou parar.
Comuniquei a decisão à minha professora, uma jovem chamada Edilene da qual nunca mais soube nada. Ela ponderou que, naquela altura, metade do curso, era uma pena. Resisti ao argumento. Daí apelou para uma retórica que quase me fez rir. “Veja, você vai estudar jornalismo, profissão difícil... Termina o curso, pelo menos fica com mais um diploma, pode ser professora se não conseguir emprego na sua área.” Quase ri de pensar nos coitados dos meus eventuais alunos. Eu e essa minha paciência toda... Não, prô, acho que vou me entender melhor com as teclas da máquina de escrever que com essas aqui. Então ela jogou baixo, sujo, desleal. “Puxa, isso não combina com você, nunca achei que você fosse do tipo que desiste...”.
Claro, me arrastei até o final do curso. Terminei a tortura no mesmo ano que me formei na faculdade. A cerimônia de formatura era caprichada, com colação de grau e um pequeno espetáculo em um teatro alugado. Naquele último ano, a própria Dona Aline era minha professora. E ela achou muito legal que eu tocasse na formatura a “Rapsódia sobre um tema de Paganini”, de Sergei Rachmaninoff. Eu estava estudando a peça, que é lindíssima, claro, mas igualmente dificílima. Achei que encarava a loucura e aceitei.
Detalhe: eu já trabalhava na Folha, estava no último ano da faculdade, tinha meu trabalho de conclusão de curso para entregar e, naturalmente, nenhum milagre se operou entre o começo do curso e o final. Eu continuava a mesma inepta para a execução de uma peça. Ou seja, se quisesse tocar minimamente bem, ia ter que rachar de estudar e, óbvio, não consegui. Fui para o tal concerto com vontade de não ir. Recebi o canudo, subi ao palco, toquei e nunca mais voltei ao conservatório, nem para buscar o diploma, muito menos para pegar uma cópia da fita do meu fiasco.
Gosto de pensar que me enganei, que não foi tão ruim quanto penso. Lembrei disso há alguns dias, quando meu blog-amigo Henrique Bartsch me contou sobre o episódio de Rita Lee tocando no Phono 73, ao lado de Lucia Turnbull, na meteórica existência da dupla “As Cilibrinas do Éden”. Para Rita, elas foram vaiadas naquela noite. Henrique estava lá, gravou e prova que não foram. Fiquei pensando que talvez fosse bom encontrar um anjo desses, mas afinal não virei mesmo pianista, nem crítica de música. Daquele dia em diante, senti um alívio imenso em nunca mais ter de enfrentar a dupla teclado-partitura pela frente. E uma alegria ainda maior em poder deixar as unhas crescer.
Anos depois, assistindo ao filme “Shine”, que rendeu a Geoffrey Rush o Oscar de melhor ator, compreendi a dimensão da minha loucura. O pianista David Helfgott, em cuja vida o filme foi baseado, sofreu o mais grave de seus surtos, que o levou a um manicômio, tocando em público uma peça de... Sergei Rachmaninoff. Até que tive sorte.
Wednesday, May 16, 2007
Genética
Bruno Senna é sobrinho do homem, o tricampeão morto há treze anos. No sábado passado, Bruno ganhou uma corrida na GP2, a categoria que antecede a Fórmula 1. O rapaz parece ter talento para a coisa e, com um nome desse, cacife não vai faltar para chegar à Fórmula 1.
Há torcedores fanáticos de Ayrton Senna, ainda hoje, que não se conformam com o fato de Michael Schumacher ter batido todos os recordes do brasileiro.
Pergunta:
Se Bruno Senna for para a Fórmula 1, tornar-se um grande vencedor e bater todos os recordes do tio, nesse caso, a grita será a mesma?
Há torcedores fanáticos de Ayrton Senna, ainda hoje, que não se conformam com o fato de Michael Schumacher ter batido todos os recordes do brasileiro.
Pergunta:
Se Bruno Senna for para a Fórmula 1, tornar-se um grande vencedor e bater todos os recordes do tio, nesse caso, a grita será a mesma?
Sunday, May 13, 2007
Thinking Blogger Awards
Há alguns dias, minha querida "afilhada" Joana Rizério (guarde este nome!) elegeu este humilde blog como um de seus top five na categoria "thinking blogs", ou seja, blogs que fazem pensar.
Prometi que faria o mesmo - parece que esta é a regra da brincadeira, cada laureado indica os cinco blogs que mais o fazem dar tratos à bola, e aqui vão minhas indicações:
Pedro Alexandre Sanches - O blog que me introduziu na blogosfera é um espaço muito caro para mim. Tem uma dinâmica toda própria. Pedro é um senhor jornalista, com textos maravilhosos, mas não sofre de febre posteira, ou seja, não lança dezenas de posts por semana, como alguns blogueiros fazem. Sem desmerecer os posts, que são no mínimo o combustível para o que vem a seguir, talvez a pièce de resistance do blog do PAS seja a janela de comentários. De alguma forma que, suponho, nem ele saberia explicar, criou-se ali uma comunidade de debatedores contumazes que têm se atirado sem tela de proteção por baixo em acrobacias retóricas interessantíssimas. O blog me faz pensar tanto, e tanto, que já revi posições as mais variadas por conta dos debates. Acima de tudo, conta-se ali com a generosidade do anfitrião, que deixa a caixa de comentários aberta, coisa que aliás inspirou este blog desde seu nascedouro.
O biscoito fino e a massa - Blog do professor Idelber Avelar, uma cabeça mineira privilegiada que leciona literatura latino-americana na Universidade de Tulane, em New Orleans. Além de textos state-of-the-art, Idelber tem o dom de enxergar o Brasil, à distância, com uma lucidez espantosa. Há algum tempo, foi criado no blog um Clube de Leituras que me deu grandes alegrias no passado recente. Pena que o prô não anda com tempo para lançar novos desafios aos sócios do clube...
Vange Leonel - A cantora, compositora, colunista e ativista GLTB tem uma qualidade que me encanta - o poder de síntese. Seus textos são curtos e grossos, com a essência do tema proposto, nem mais nem menos. O blog da Vange me faz pensar sobre diversidade sexual sob um ponto de vista muito além da militância, com dados científicos, históricos, antropológicos. E me faz pensar sobre o feminismo de uma forma despida dos preconceitos que a mídia passou a revestir o tema nos tempos mais recentes.
Blog da Soninha - A vereadora por São Paulo e apresentadora de TV me faz pensar que tudo aquilo que sempre li sobre o terceiro milênio pode ser verdade! Respeito ao meio ambiente, inclusão social, tolerância religiosa, racial e sexual, e ainda pitadas de futebol! Soninha me faz pensar seguidamente que, sim, é possível, e habitualmente saio com o astral mais alto depois de ler seu blog.
ConversAfiada - O blog do jornalista Paulo Henrique Amorim não está nos meus links por pura preguiça. Acabo pegando um atalho e nunca me lembro de listá-lo aqui, mas é um endereço indicado para quem quiser pensar a imprensa sob um ângulo diferente do tradicional. Paulo Henrique, aliás como Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha, são jornalistas do "esquemão" que não se furtam o direito de expor seu pensamento por vezes contrário à visão conservadora da mídia tradicional.
Prometi que faria o mesmo - parece que esta é a regra da brincadeira, cada laureado indica os cinco blogs que mais o fazem dar tratos à bola, e aqui vão minhas indicações:
Pedro Alexandre Sanches - O blog que me introduziu na blogosfera é um espaço muito caro para mim. Tem uma dinâmica toda própria. Pedro é um senhor jornalista, com textos maravilhosos, mas não sofre de febre posteira, ou seja, não lança dezenas de posts por semana, como alguns blogueiros fazem. Sem desmerecer os posts, que são no mínimo o combustível para o que vem a seguir, talvez a pièce de resistance do blog do PAS seja a janela de comentários. De alguma forma que, suponho, nem ele saberia explicar, criou-se ali uma comunidade de debatedores contumazes que têm se atirado sem tela de proteção por baixo em acrobacias retóricas interessantíssimas. O blog me faz pensar tanto, e tanto, que já revi posições as mais variadas por conta dos debates. Acima de tudo, conta-se ali com a generosidade do anfitrião, que deixa a caixa de comentários aberta, coisa que aliás inspirou este blog desde seu nascedouro.
O biscoito fino e a massa - Blog do professor Idelber Avelar, uma cabeça mineira privilegiada que leciona literatura latino-americana na Universidade de Tulane, em New Orleans. Além de textos state-of-the-art, Idelber tem o dom de enxergar o Brasil, à distância, com uma lucidez espantosa. Há algum tempo, foi criado no blog um Clube de Leituras que me deu grandes alegrias no passado recente. Pena que o prô não anda com tempo para lançar novos desafios aos sócios do clube...
Vange Leonel - A cantora, compositora, colunista e ativista GLTB tem uma qualidade que me encanta - o poder de síntese. Seus textos são curtos e grossos, com a essência do tema proposto, nem mais nem menos. O blog da Vange me faz pensar sobre diversidade sexual sob um ponto de vista muito além da militância, com dados científicos, históricos, antropológicos. E me faz pensar sobre o feminismo de uma forma despida dos preconceitos que a mídia passou a revestir o tema nos tempos mais recentes.
Blog da Soninha - A vereadora por São Paulo e apresentadora de TV me faz pensar que tudo aquilo que sempre li sobre o terceiro milênio pode ser verdade! Respeito ao meio ambiente, inclusão social, tolerância religiosa, racial e sexual, e ainda pitadas de futebol! Soninha me faz pensar seguidamente que, sim, é possível, e habitualmente saio com o astral mais alto depois de ler seu blog.
ConversAfiada - O blog do jornalista Paulo Henrique Amorim não está nos meus links por pura preguiça. Acabo pegando um atalho e nunca me lembro de listá-lo aqui, mas é um endereço indicado para quem quiser pensar a imprensa sob um ângulo diferente do tradicional. Paulo Henrique, aliás como Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha, são jornalistas do "esquemão" que não se furtam o direito de expor seu pensamento por vezes contrário à visão conservadora da mídia tradicional.
Thursday, May 10, 2007
Estufa
13° em São Paulo.
Onde foi parar o tal aquecimento global?
Não. Não gosto de frio, não acho aconchegante, não gosto de ir para a cama, não gosto de sair da cama, não gosto de ir para baixo do chuveiro, não gosto de sair de baixo do chuveiro.
Sabe aquele dia quente, ensolarado, bermuda e regata? Abanar-se com o que estiver à mão, suor pelo corpo, cabelos ao alto, nuca molhada? Não, nada disso me incomoda. 30, 32, 34° à sombra. Pode vir quente.
Este é um país tropical. Foi o que me disseram e por isso resolvi nascer aqui.
Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia...
Onde foi parar o tal aquecimento global?
Não. Não gosto de frio, não acho aconchegante, não gosto de ir para a cama, não gosto de sair da cama, não gosto de ir para baixo do chuveiro, não gosto de sair de baixo do chuveiro.
Sabe aquele dia quente, ensolarado, bermuda e regata? Abanar-se com o que estiver à mão, suor pelo corpo, cabelos ao alto, nuca molhada? Não, nada disso me incomoda. 30, 32, 34° à sombra. Pode vir quente.
Este é um país tropical. Foi o que me disseram e por isso resolvi nascer aqui.
Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia...
Monday, May 07, 2007
Rita Lee Mora ao Lado - Parte 1

Como muita coisa que chega a mim, atualmente, fiquei sabendo do livro "Rita Lee Mora ao Lado" por meio de um blog. No caso, "o blog", aquele me iniciou nesta vida blogueira da qual dificilmente me libertarei, graças a Deus, que assim seja. O blog de Pedro Alexandre Sanches, aliás autor do prefácio do livro. Daí juntei uma coisa com outra e percebi que o autor do livro, Henrique Bartsch, era comensal eventual nos banquetes servidos pelo anfitrião Pedro. Banquetes de idéias, alguns arranca-rabos, mas tudo com muita finésse, claro.
Soube da auto-proclamada "alucinada biografia da rainha do rock" mais ou menos na mesma época em que ganhei de presente um outro livro - "A divina comédia dos Mutantes", do jornalista Carlos Calado, escrito com colaboração de... Henrique Bartsch. Então, foi um turbilhão. Li o livro dos Mutantes em três dias e meio, e passei a reviver minha antiga admiração por eles como há muito não fazia. No começo de março, o show dos Mutantes, durante um evento do amigo Reginaldo Leme. Quem esteve por aqui naquela época sabe que a madame aqui ficou descontrolada. Ver Mutantes ao vivo me deixou tão feliz que fiquei triste. Sabe como é? O livro do Bartsch já tinha chegado, mas achei que encarar a lisérgica biografia naquele ponto era me afundar demais na lingerie, para usar uma expressão mutante que é quase como "enfiar o pé na jaca". Ia dar overdose, e eu não estava a fim de nenhuma lavagem estomacal.
Deixei RLML e o Bart, que é como vou me referir aos dois, daqui pra frente, quietinhos em casa. Há poucos dias, fui ver se já estava sã novamente, para me aventurar por aquelas plagas, dei uma olhadinha no prefácio e slurpt! Foi como se uma língua gigante me capturasse para dentro das páginas. Quando vi, estava mexendo uma sopa e lendo, secando o cabelo e lendo, tomando sol à beira da piscina e lendo. Como disse ao autor na troca de e-mails que originou estes dois posts, não acabei com o livro, ele que me consumiu.
É o tal negócio, aquilo que já falei e falamos tantas vezes nos últimos dias e nem vale a menção desonrosa a quem começou a briga. Vida de gente famosa que a gente vivenciou junto não é mais a vida da celebridade, é a nossa. E RLML é exatamente isso: o desfile da vida de Rita Lee desde os primórdios, passando por Mutantes, chegando até sua vitoriosa carreira solo e terminando no período em que ela chega aos 50 anos. O pulo do gato de Bart foi colocar toda a narrativa na boca de uma personagem fictícia, pero no mucho, chamada Bárbara Farniente, uma hipotética vizinha de Rita que assiste a tudo a partir de sua janela indiscreta.
Uma vida tão intensa quanto a de Rita Lee não permite a ninguém dizer o que daquela saga é realidade e o que é pura viagem. Nem ela, provavelmente. Bart se aproveita desse componente, digamos, criativo da vida da artista para embarcar junto e literalmente pirar na parte final do livro. Lendo de trás para frente tudo o que me caiu nas mãos sobre Rita e Mutantes no último quarto de século, li a biografia propriamente dita como um grande flashback de mim mesma. Mas quando Bart se põe a fundir a vida de Rita com a de Bárbara e as trança de maneira tão envolvente, oh, boy! Que belo ficcionista ele se torna! Foi, de longe, o melhor do livro e digo isso sem demérito nenhum à sua capacidade como historiador nem como desdém à vida alucinada dELA.
Ler RLML não é indicado apenas para quem gosta, admira, já gostou ou tem mera curiosidade por Rita Lee. É um santo remédio para entender um pouco da história cultural do Brasil na segunda metade do século 20. O nosso século, afinal, porque o 21 ainda está no começo e nós, do século passado, ainda temos muito mais lenha queimada lá do que aqui. Essa bruxa queimada em tantas inquisições modernas talvez nem seja sua cantora favorita, a bem da verdade, a minha não é. Há compositores melhores que ela, músicos, aos montes. Mas ela tem muito a ver com o que acontece hoje aí, do seu lado. Ela se vestiu de noiva e pôs uma barriga de grávida por baixo do vestido, em horário nobre, na principal emissora de TV daqueles plúmbeos anos 60. Deitou seminua na cama de casal com o namorado e o irmão dele, tudo pose para uma capa de disco, mas o suficiente para chocar todas as senhoras de São Paulo, a começar pela sogra, a dona da cama em questão. Grávida, foi presa. Disse que ficava de quatro no ato, que mulher é bicho esquisito, todo mês sangra, entre outras cositas que hoje podem parecer inocentes para você, já acostumado a ver moçoilas liberadas quebrando o barraco. Pois bem, cara pálida, quem teria aberto a elas a porta do barraco?
Leia abaixo a íntegra da entrevista que fiz com Henrique Bartsch, por e-mail, usando o método que ELA mesma usou com o autor, como ele explica. Desce lá que você entende mais!
Rita Lee Mora ao Lado - Parte 2

1) Vamos começar com algo tipo "quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?". Você resolveu escrever RLML por ter colaborado com o Carlos Calado no "A divina comédia dos Mutantes" ou colaborou com ele por já ter farto material de pesquisa que, um dia, se tornaria a biografia dELA?
Minha história com os Mutantes já tem 35 anos. Em 1972, comprei a Guitarra Maldita do Sérgio, aquela que aparece na capa do Tropicália, Mutantes 2, contra-capa do Jardim Elétrico. Conheci então o Cláudio César, o terceiro irmão, que começou a fazer equipamento para minha banda em Ribeirão Preto, chamada então Grupo 17. Durante muito tempo, íamos até a casa dele na Cantareira, isto pouco após a saída da Rita. Muitas vezes, subíamos a serra com o Liminha, e a conversa fluía solta, e à partir daí os bastidores se abriram.
Quando fiquei sabendo que o Calado iria escrever um livro sobre os Mutantes, através de uma amiga fiz contato e disponibilizei todo o material que eu tinha, que eram muitas fitas gravadas nos shows, inclusive a primeira apresentação da Rita com a Lúcia Turnbull, como as Cilibrinas do Éden, feita na abertura do show dos Mutantes na Phono 73. Para o Calado, que nunca tinha visto os Mutantes, foi uma mão na roda, além das histórias que eu sabia.
Isso foi em 1993/95. Em 1998, encontrei o e-mail da Rita, e na verdade eu gostaria de dar a ela a apresentação das Cilibrinas, que provavelmente ela não teria, e principalmente comprovar que elas não haviam sido vaiadas, como Rita costumava dizer, e fato que assino embaixo por estar presente. Daí nasceu uma grande amizade e troca constante de mensagens, já que tínhamos gostos e tipo de humor muito parecidos. Praticamente três anos depois, eu vi que tinha uma infinidade de histórias que ela havia contado, e que seria muito interessante que as pessoas conhecessem.
Ela negou-se terminantemente, dizendo que biografia é coisa de gente morta, e coisa e tal.
Foi neste ponto que tive a certeza que ou eu escreveria, ou ficaria com as histórias só para mim. Quando se vai escrever um livro, temos que tomar certas decisões. Resolvi que ela seria a única fonte, ou seja, eu não ficaria confirmando histórias e nem pegando outros relatos. Então já não seria uma biografia no sentido acadêmico, e como Rita é cheia de personagens, então que uma contasse sua história.
2) Como você definiu esse formato, criando uma narradora fictícia que era vizinha de Rita Lee na infância? Seu nome - Bárbara de Oliveira Farniente. O Farniente é óbvio, uma citação de "Banho de espuma". Por que Bárbara? E por que o parentesco com Dalva de Oliveira?
O formato foi definido como explicado na pergunta anterior. Farniente foi mesmo tirado do "Banho de espuma", e porque quer dizer "nada fazer", ou seja, a personagem não precisou fazer nada para ganhar o papel principal. Bárbara é porque Rita era para ter este nome, mas foi vetado pelo pai Charlie, que não gostava da catolicices, muito embora tenha se esquecido de Santa Rita. Dalva de Oliveira era mesmo amiga da mãe de Rita em Rio Claro, na juventude, e ajudou a dar consistência na trama.
3) Bárbara "pegou" gente à beça nessa história. Até agora, ninguém reclamou? Alguma queixa em relação a apelidinhos carinhosos como Jorge Bengala, para Jorge Ben, ou Nelson Moita, para o Motta?
Estive pessoalmente com o Nelsinho, e ele adorou ser "pego" pela Bárbara e se assumiu o verdadeiro Moita que é na MPB. Acho que o Bengala, digo, Benjor, não deve ter achado ruim ficar tão Ben na fita.
4) Uma percepção minha talvez distorcida. Arnaldo Baptista é quase uma sombra na história. Não esqueço que quem conta a história não é Rita Lee (não mesmo?), mas Bárbara Farniente, que não foi namorada/mulher do homem, não teve contato direto com ele, portanto. Mesmo assim, outros personagens igualmente pouco conhecidos de Bárbara têm um destaque maior que o dele. Ufa! Estou certa? Estou errada? Desculpe a colocação, mas em certo trecho me pareceu que evitar Arnaldo era um jeito de agradar Rita...
Esquecendo um pouco a ficção, como já disse anteriormente, é tudo baseado no ponto de vista da Rita. Assim é fácil concluir que com o girar da roda do tempo, é assim que as pessoas estão configuradas na história da vida dela, para ela. Neste ponto, minha interferência, mesmo fictícia, foi mínima. E em momento algum eu quis agradar, e acho mesmo que Farniente foi muitas vezes dura com sua antagonista branquela e sardenta.
5) Biografia de gente viva é sempre complicado: quando parar? Você me parece ter enfrentado esse desafio sem colocar um ponto final da história de Rita Lee. Ela se dissipa, se funde, vai se amalgamando com a história de Bárbara. A "ficção" que toma conta da história, na parte final da narrativa, é um desejo do que você (Bárbara, eu, todos, essa pessoa só) temos em relação ao futuro de Rita Lee?
O espaço delimitado foram os primeiros 50 anos da Rita, e conseqüentemente da Farniente. E o final é este mesmo, ou seja, a partir dali elas assumiram-se amigas e colaboradoras. O caminho ficou aberto para uma seqüência, que pode vir a demorar mais 50 anos, vai saber.
6) Agora conta, como foi chegar até ELA? ELA assina a orelha do livro, admite ter recebido a história e demorado para ler o amontoado de coisas sobre sua "vidinha vulgar". Quanto foi esse tempo? Quanto você esperou até o e-mail dELA desembarcar na sua caixa de entrada, dando a bênção?
Chegar até ela foi muito fácil. Mandei uma mensagem perguntando se ela era ela mesma. Ela disse que sim, eu duvidei um pouco, depois acabamos nos acertando, isso em uns três dias. Quando pedi a permissão para escrever, eu ia fazendo os capítulos e enviando, até mais ou menos o quinto. A partir daí, ela não viu mais nada, até que terminei a primeira parte, em torno de uns 20 capítulos. Ela adorou, e na verdade a benção já estava dada desde o início. A segunda parte, embora eu já tivesse todo o material, eu demorei um bom tempo para escrever, devido a uma perda familiar repentina que tive, e que me tirou um tanto do ânimo. Mas as coisas na vida, por piores que sejam, sempre se ajeitam, e um ano depois peguei firme e terminei, sem ter contado a ela que o fim seria o que é. Era meu único medo. Quando enviei, ela leu tudo de uma sentada só, me chamou de maluco e disse o "Go, Johnny , go, go...", que agradeço no livro. Na batalha para arrumar uma editora, a grande dificuldade era o medo de não ser autorizada, o que ela ia achar daquilo, coisas assim. Foi então que pedi a orelha, para mostrar que ela sabia muito bem do que se tratava.
7) Seu blog tem inúmeras contribuições dELA e fica claro que hoje vocês se correspondem e, de certa forma, ELA desceu a espada sobre seu ombro e nomeou você mensageiro da rainha. Isso foi anterior ao livro ou nasceu com RLML?
Eu não tive uma irmã, ela não teve um irmão, e é assim que nos tratamos. Fiz o blog para manter um contato diferenciado dela com os fãs e curiosos, e também para ficar treinando a escrita, que é a real função dos blogs, não é mesmo? E a idéia nasceu depois do lançamento do livro. Mas não sou tão mensageiro assim, pois volta e meia levo uns puxõezinhos de orelha, heheheheh... mas, depois de publicado no blog, eu não tiro.
8) E o diário de Rita Lee, que Bárbara vai xeretar e consegue salvar algumas páginas? Aqueles textos de Rita sobre filhos, proteção aos animais, fofoquinhas de artistas, aquilo é real?
Aquilo é ipsis literis texto dela. Eram as coisas que ela me escrevia quando eu perguntava as posições dela em relação a vários assuntos, para ser usado no livro. Não estão nem editados.
9) Para terminar, e não vale copiar a resposta de Bárbara Farniente, uma questão fácil para você: quem é Rita Lee?
Na verdade, o Bárbaro Farniente aqui diz lá no livro o que acha realmente dela, mas posso dizer um pouquinho mais. É bom que se saiba que eu não sou fã da Rita, mas um admirador, e dos grandes. Fico até assustado com o tipo de ligação que os fãs têm com ela. A Rita tem o brilho das pessoas especiais, e não é à toa que é o que é. Ela não fica batalhando as coisas. Tudo vem para o lado dela, e mediunicamente os assuntos vão sendo revelados para o público em geral. A pessoa Rita Lee tem muito medo disso tudo, pois geralmente não se acha merecedora, sabe da responsabilidade que isso traz, mas não foge à luta, jamais. Sabemos que somente aqueles quatro seriam os Beatles, somente aqueles 3 seriam os Mutantes, e vários outros exemplos. A nós da platéia, resta aplaudir e agradecer a contemporaneidade.
E fique à vontade para fazer seu reclame: onde achar o livro, quanto custa, eventos programados. A casa é sua!
O livro está bem distribuido pela Panda Books, e pode ser achado em qualquer site confiável, que venda livros, claro, e nas grandes redes de livrarias. Os preços variam e variam, mas começa em R$39,00.
O próximo evento, é uma feira do livro, em Natal, dedicada à Tropicália, e estarei fazendo uma palestra no dia 04/06, uma segunda-feira, às 19:00.
Mas gostaria muito que todos virassem fregueses do www.bartmoraaolado.blogspot.com que é um adorável ponto de encontro para histórias, fatos e fofocas da vida em geral. E volta e meia ELA passa por lá.
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