
Pode parar. Não é 1º de maio, não é Ímola, não tem nada a ver com Tamburello. O dia em questão aconteceu bem antes, em 1991, e meu choro pós-adolescente não teve tanto a ver com o piloto, e mais com meu noviciado no jornalismo.
Eu havia começado a trabalhar na Folha de S.Paulo em maio daquele ano. Entrei para ser redatora e, como tal, escrevia textos sobre vários esportes, atualizava tabelas diversas, fazia notinhas e o detestável IndiFolha, um quadrinho que era publicado sempre no canto esquerdo inferior da capa do caderno e trazia números interessantíssimos, como a média de gols das últimas dez edições do Campeonato Belga. Mas todo mundo na redação do Esporte sabia que, se pudesse, eu escreveria preferencialmente sobre corridas, sempre.
E, naturalmente, foram sobrando umas pautinhas de automobilismo aqui e ali para eu fazer. Às vésperas do GP do Japão, quando Senna conquistou seu tricampeonato, fui escalada para cobrir o embarque do piloto em Cumbica. Sim, crianças, Senna era tão importante que a gente cobria o embarque dele, para todas (eu disse todas) as provas do ano. Diga-se que ele divulgava sempre, por meio de sua assessoria, os horários exatos do seu embarque. Fazia bem esse papel de aparecer muito na imprensa, e talvez tenha sido o primeiro piloto realmente midiático da Fórmula 1.
Seria relativamente fácil se fosse só ir ao aeroporto, seguir a coletiva, voltar para a redação e escrever. Mas a Folha sempre teve suas idiossincrasias, suas reinvenções da roda, suas viagens alucinadas na definição da pauta. Senna indo e o papa João Paulo II vindo. O que uma coisa tinha a ver com a outra? Nada, claro. Mas saí da redação com a seguinte frase ecoando nos ouvidos: "Hoje, queremos que todos os nossos entrevistados falem o que acham da vinda do papa ao Brasil. Pergunte ao Senna."
Era uma ideia impraticável, risível, sem pé nem cabeça. As coletivas do Senna eram uma bagunça, pela multidão de repórteres, assessores, seguranças, fãs. Ele habitualmente se exasperava, respondia algo ríspido as perguntas que não lhe interessavam, guardando o semblante de messias para o momento de gravar para a TV e tudo o que não precisava ser acrescentado a esta balbúrdia era uma pergunta sobre o papa. O papa?
Putz, se eu perguntasse isso na frente dos meus colegas macacos-velhos de outros veículos era capaz de levar uma vaia, de ser motivo de piada até hoje. Não, eu não podia fazer essa pergunta no meio da coletiva.
Mas, franguinha de leite como era, me angustiava com a ideia de não cumprir a ordem da secretaria de redação. Então, esperei a coletiva acabar e fui andando atrás de Senna pelo saguão do aeroporto. Eu, vários seguranças, fãs e... fotógrafos diversos. Consegui me aproximar de Senna e fiz a pergunta mais idiota da minha carreira: "Senna, o que você acha da vinda do papa ao Brasil?". Ele respondeu o óbvio: "Não acho nada." OK, missão cumprida, volto para a redação.
Matéria escrita, jornal fechado, recebo uma ligação do nosso editor à época, Mario Andrada e Silva, que tinha ido ao Japão cobrir essa corrida. Dei um relatório básico de como tinha sido a reunião e, no final da conversa, comentei o pedido esdrúxulo da secretaria de redação. Do outro lado da linha e do mundo, Mario me inquiriu, já respondendo: "Você não perguntou, né?" Admiti que tinha perguntado e, antes que explicasse a condição da pergunta - que eu não tinha passado o carão no meio da coletiva, mas quase no tête-à-tête com o piloto - Mario me fuzilou via embratel. "Você é louca!!! Como vai fazer uma pergunta dessa na frente de toda aquela canalhada da imprensa?! Você vai virar a piada dos setoristas de Fórmula 1!"
Cheguei a perguntar o que deveria fazer em relação ao pedido da alta chefia, mas era óbvia a resposta. Eu deveria saber que Senna não responderia nada relacionado ao papa, claro. Deveria no mínimo argumentar diante do pedido. Ou simplesmente voltar para a redação de mãos vazias, como de fato voltei, sem ter me exposto a fazer uma pergunta tão descabida.
Voltei para casa, abri a porta da sala e caí no choro, assustando meus pais, naturalmente.
No dia seguinte, para coroar meu mico, vejo a capa do caderno de Esportes do Estadão. Senna entre uma multidão, andando por Cumbica. Do seu lado direito, uma jovem redatora, com cara de susto. Mario tinha razão: a canalhada da redação não perdoou. "Olha a Alessandra aqui, de papagaio de pirata do Senna!"































