Monday, May 07, 2007

Foi bonita a festa, pá

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Ontem, depois de 34 anos, a Portuguesa ganhou um título. A Portuguesa, a Lusa, o time do meu pai.

Meu avô José, que nascera em Portugal em 1893, chegou ao Brasil rapazola. Por afinidade, simpatizava com a Portuguesa, como era natural, ó pá. Mas, e isso eu só soube adulta, muitos anos após sua morte, acabou arrastando a asa para um certo time identificado com as camadas populares. A verdade é que meu avô português era corintiano. Casou-se coroa, teve a primeira filha depois dos quarenta. Só voltou a ouvir chorinho de bebê em casa, novamente, nove anos depois. Meu pai nasceu quando meu avô, pois, já tinha 51 anos e um longo histórico de corintianismo.

Mas o moleque não quis nem saber do alvi-negro. O pai o levava para brincar nos charcos do Ibirapuera, antes de ali haver um parque, e naquele campo sem dono treinava o time da Portuguesa de Desportos. O menino se apaixonou pelo time, talvez pela identificação com a origem lusitana dos pais. Ficou fanático a ponto de cair doente quando a Portuguesa vendeu um certo Pinga para o Vasco da Gama. Meu avô, percebendo o paradoxo, virou casaca. Não tinha lógica: ele, português, torcer pelo Corinthians, enquanto o filho, brasileiro, sofria pela Lusa.

Em sua meteórica passagem pelo planeta, meu pai só comemorou um título da Portuguesa, o Paulistão de 1973, numa confusão dos diabos provocada pelo árbitro Armando Marques. O campeonato daquele ano acabou dividido entre a Lusa e o Santos e parece uma sina isso - sempre que a Portuguesa for campeã, no mesmo dia o Santos levantará a taça. Mas, afinal, não é do Santos que isto se trata.

O mais próximo que chegamos de comemorar um título da Lusa foi no Brasileiro de 1996. "Chegamos" sim, pois me engajei na torcida quase como se fosse pelo meu Timão. Lembro nitidamente do primeiro jogo da final, contra o Grêmio, disputado aqui em São Paulo. Peguei um congestionamento dos diabos, uma enchente ou coisa assim e cheguei em casa esbaforida, com o jogo já em andamento. Encontrei meu pai lavando a louça do jantar, com TV e rádios desligados. Cheguei a protestar, como se eu não conhecesse sua lógica irrefutável. Nunca assistia aos jogos, como garantia de satisfação posterior. "Se ganhar, fico feliz. Se perder, fico feliz de não ter perdido meu tempo." Naquele dia, no entanto, ele mal disfarçou. Estava era nervoso com a disputa do título. Não deu, apesar da vitória no jogo de ida.

Nunca mais chegamos perto de disputar título nenhum. Ele pelo menos não viu a Lusa desabar para a Segunda Divisão no Brasileiro e no Paulista. Até ontem, minha alegria mais recente com a Portuguesa foi o fato de ela não cair para a Terceira Divisão, no final do ano passado. Mas, como já disse a vários amigos palmeirenses na época da queda, o bom de cair é a perspectiva de subir, de preferência colocando mais um troféu na galeria das conquistas. Foi o que fez a Lusa, para minha alegria, do meu pai e do ícone Flavio Gomes. É para os dois que dedico este post de hoje.

E, para quem não leu, sugiro este texto, o primeiro do blog, uma singela homenagem à Lusa dos meus antepassados.

Viva a Lusa!

Wednesday, May 02, 2007

Zeca

Vivo cercada de pessoas que gostam de carros, amam carros, sonham com carros, sofrem por seus carros, regozijam-se com seus carros. Confesso que não entendo muito isso. Perdoem-me, meu amigos carromaníacos, mas carro, para mim, é apenas um meio de transporte confortável, que me basta se funcionar direito, tiver um toca CD e ar-condicionado. Sei que este segundo pré-requisito denota minha linhagem burguesa, mas não acho demais almejar um arzinho fresco no trânsito de São Paulo. Abro mão de todo o resto – direção hidráulica, ABS, air bag, vidro elétrico, trava elétrica, MP3.

Mas houve um carro, um único carro, que adquiriu em minha história a relevância de um ente querido. Talvez por ter sido o primeiro, por sinalizar um inequívoco rito de passagem, por ter me acompanhado durante quase toda a faculdade. Era vermelho sangue, placa PP 7014, um Gol GT 1986 de respeitabilíssimo motor 1.8, demais para minha virgem carteira de habilitação. Foi comprado usado pelo meu pai, em agosto de 1988.

Antes disso, cumpri o primeiro semestre na Cidade Universitária a bordo de dois bumbas inesquecíveis – Mandaqui e Vila Nilo. Ambos saíam de dentro do campus e atravessavam a cidade rumo à Zona Norte. Li muito Adorno, Horckheimer e McLuhan no indócil chacoalhar dos coletivos. Em uma hora e meia, duas horas de viagem, devorava páginas de textos xerocados no centro acadêmico, chegava em casa com o estômago nas costas e o dever cumprido. Mas nem sempre era a leitura que me ocupava o tempo. Havia Silvio César, colega de classe e eventual companheiro de busão, a melhor coisa que a faculdade me deu, muito melhor que o diploma, laço de amizade atado e apertado para sempre nas viagens vespertinas do Vila Nilo.

Antes que o carro chegasse, gastei boa parte daquele primeiro semestre aprendendo a dirigir. Meus pais nunca me deixaram chegar perto do volante antes dos 18 anos e, para ser sincera, nem pedi. Por isso, cheguei crua de tudo à auto-escola. Aliás, acho que posso me candidatar a um registro no Guiness, porque ninguém no mundo deve ter feito tantas aulas de auto-escola quanto eu. Foram mais de trinta, uns dois meses e meio de preparação, acho que nem noiva virgem de antigamente se preparava tanto.

Eu já dirigia para cima e para baixo com o Seu Rubens, o instrutor da auto-escola. Mas meus pais achavam melhor eu treinar mais e lá ia eu, fazer serviço de rua para o instrutor, que aproveitava o horário da minha aula para ir ao banco, levar documentos sei lá eu onde, e assim conheci recantos aprazíveis como o Jardim Japão, cuja avenida principal se chama Roland Garros, mas que ninguém pronuncia à francesa, como Rolã Garrô, mas como Rolandi Garros mesmo, com um “s” bem caprichado no final.

Depois da via-crucis, enfim marquei meu exame prático, e a examinadora custaria a crer que malhei tanto naquele fusquinha da auto-escola, porque deixei o carro morrer na ladeira e não dei seta numa das saídas. Mas a bandalheira era tanta naquela época que não só passei como meu exame médico continua válido até hoje!

Foram alguns meses entre receber a carteira de habilitação e começar a cruzar as ruas da cidade por conta própria. Meu pai comprou o carro em agosto e, assim que ele chegou, fiz algo inédito e que nunca mais se repetiu na minha vida – dei um nome ao carro. Acho que me encantei tanto com ele que o batizei com a alcunha do personagem masculino mais bonito que já tinha visto até então, meu eterno símbolo Kadu Moliterno, Zé Eleutério, ou simplesmente Zeca, na novela “Paraíso”.


Meu Zeca era igualzinho a esse...

Jamais me referi ao Gol GT placa PP 7014 como “meu carro” ou coisa parecida. Era simplesmente Zeca. Talvez inspirado pelo personagem, tido na trama como “o filho do Diabo”, meu Zeca era bastante problemático. Devia ter sido carro de boy antes de chegar às minhas mãos, porque logo pifou geral e teve que passar por retífica no motor. Depois disso, aprontou algumas vezes. Tinha um defeito congênito de ferver a todo instante. O mecânico cansou de quebrar a cabeça e, vencido pela obstinação do Zeca, encontrou uma solução esdrúxula. Me mandou andar sempre com o radiador destampado. Deu certo. Ferver, nunca mais ferveu, mas ainda assim me deixou na mão.

Certa vez, eu estava parada em um semáforo da avenida Sumaré. Engatei a primeira e saí. Quando pisei na embreagem para colocar a segunda, meu pé esquerdo afundou bem mais do que deveria. Tec! O cabo da embreagem rompeu. Um taxista japonês se apiedou com meu estado desnorteado e me levou até uma loja de auto-peças na Vila Madalena para comprar um cabo novo. Ele mesmo trocou a coisa, eu jamais saberia fazê-lo.

Numa outra ocasião, Zeca parou em plena avenida Rebouças, ou melhor, já na entrada do túnel que leva ao Pacaembu. Mas dessa vez, pobre Zeca, a culpa foi toda minha. Eu estava atordoada com um monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo. A USP estava em greve, meu querido amigo Zuza tinha tido um infarto, aproveitei a folga forçada para ir levar uma mensagem de solidariedade até sua casa. Chegando lá, gastei quase todo o meu dinheiro comprando um talão de Zona Azul para poder parar o Zeca na rua. Nem percebi que um certo ponteirinho do painel apontava para baixo de um “R”, de reserva, abaixo de uma tarja vermelha.

Zeca foi enquanto pôde, apesar da negligência de sua dona. Esgotado, parou na entrada do túnel, congestionando a avenida. Mais uma vez, meu estado de pânico funcionou. Uma picape Kombi, daquelas bem surradas, parou e seu motorista, ágil, laçou Zeca com uma corda. Me deixou no primeiro posto que apareceu, já bem distante dali, no começo da avenida Pacaembu. Meus trocados deram para dois litros de combustível, se tanto. O suficiente para voltar para casa e contar, constrangida, a aventura para minha mãe. E hoje, veja só, estampo a história para o mundo ler...

Zeca esteve ao meu lado durante cinco anos. Nunca tive um carro por tanto tempo. Mais correto dizer que ele me teve. Eu tinha tanto medo de que ele fosse roubado que vivia tendo o mesmo sonho. Nele, eu entrava em um estacionamento lotado, percorria os corredores em busca do Zeca e ficava desesperada, porque encontrava o PP 7013, o PP 7015, um monte de Gols vermelhos, mas nunca o Zeca, PP 7014. O pesadelo talvez prove que não sou tão desligada assim de carros, que um carro não é, definitivamente, igual a qualquer outro.

Em 1993, consegui efetivar um milagre. Troquei Zeca por um modelo zero, praticamente sem colocar dinheiro em cima, graças à mágica dos modelos populares que desaguavam no mercado. Sim, amigos, troquei um Gol GT 1.8 por um Mille 1.0. Nunca mais vi o Zeca, gostaria de saber se ele ainda existe, gostaria que ele tivesse ido parar na mão de um desses meus amigos louquinhos que colecionam carros antigos. Já tem mais de vinte anos, o Zeca. Teria potencial para virar um clássico?

Sunday, April 29, 2007

O rei está nu

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Demorei muito para postar qualquer coisa sobre ele talvez por coerência ao tempo que levei para entendê-lo. Ele esteve presente em toda minha infância, adolescência, cada um de seus discos chegava em casa assim que lançado. A partir de um certo período, passei a desprezá-lo. Em parte, por identificá-lo ao gosto musical dos meus pais. Há um tempo, e todo mundo sabe disso, que é imperativo desgostar do que gostam os pais, menos por gosto, mais por auto-afirmação juvenil. Mas muito da minha rejeição veio, também, de uma necessidade de sofisticação, de gostar só de música "boa".

Um belo dia, Caetano resolve gravar "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", e explica que aquela música tinha sido feita em homenagem a ele. Uau! Não era, então, uma música de amor inspirada por uma mulher? Era para o Caetano, remetendo à sua fase de exílio?! Confesso, comecei a me desarmar, por obra e graça da chancela de Caetano. Tolinha, foi quase como se eu ganhasse um alvará para poder gostar daquilo que, no fundo, gostava, e remetia à minha infância, e me aproximava do gosto dos meus pais.

Ele costuma dizer que "a experiência é um belo pente que a vida nos dá quando não temos mais cabelos", mas discordo. Os anos me deram a chance de compreender melhor esse rei, e de me compreender também, sobretudo. Ajudou, nesse (auto) conhecimento, a análise afiada desse outro cara aqui, um sujeito que só conheço da blogsofera mas por quem tenho enorme carinho e respeito. Se você quiser entender o rei (e você também) um pouco melhor, leia "Como dois e dois" e depois me diga.

Entender o rei, entender a si mesmo, entender o Brasil.

Em dado momento, percebi que eu ainda tinha cabelos e quis aproveitar o pente da vida para ir além do rei e conhecer seus súditos. Foi quando cheguei ao livro "Eu não sou cachorro, não", do escritor e pesquisador Paulo Cesar de Araújo. Poucas vezes um livro mudou tanto minha cabeça, na vida adulta. De maneira resumidíssima: o trabalho do Paulo Cesar aborda a música dita "cafona" dos anos 70 e mostra como ela foi tão ou mais perseguida pela censura do governo militar quanto a chamada MPB, e como a abordagem preconceituosa da mídia escondeu isso.

Dobrei uma esquina, enxerguei outro mundo, entendi melhor meu país, a imprensa do meu país, eu mesma.

Até que as duas coisas se juntaram e não poderia ser diferente: Paulo Cesar lançou uma biografia não-autorizada do rei. Na semana do lançamento, comprei um exemplar, que dei de presente de Natal para minha mãe. Logo depois, começou a pendenga. O rei não leu o livro, mas não gostou. Entrou com ação contra Paulo Cesar e a editora. Alegou que estava exposto demais no livro e que aquela história, a história da sua vida, é um patrimônio dele.

Na última sexta-feira, o rei venceu. Para evitar o processo, a editora e o autor concordaram em tirar o livro de circulação.

Gostaria de propor um debate e saber a opinião de vocês sobre o assunto. Dou a minha.

A notícia me entristeceu muito. Não conheço Paulo Cesar pessoalmente não li a biografia ainda, mas considero a ação do rei uma agressão em duas partes.

Primeira parte: censura. Não tem outro nome para o ato de se tirar qualquer coisa de circulação que não seja ofensiva, caluniosa, difamatória. E o detalhe abjeto da alegação do rei e de seus advogados versa exatamente sobre isso: não há nenhuma mentira no livro, nunca se contestou informação de qualquer natureza na obra.

Segunda parte: ganância. O rei se acha prejudicado porque alguém está contando a SUA história e ganhando dinheiro com isso. Ele, o mesmo rei que está há quarenta anos invadindo nossas casas com o disco do ano, com o especial do ano, com a viuvez do ano. Sua gravadora faturou oceanos de dinheiro com seus LPs, revistas de fofocas e celebridades jogaram litros e litros de tinta em papel para estampar notícias sobre ele, a emissora de TV faturou um monte com anunciantes que se estapearam para patrocinar seu programa natalino. E o Brasil vendo e consumindo tudo. Só o Paulo Cesar pagou o pato.

Não, rei, essa história deixou de ser só sua há várias décadas. É minha, da minha família, de cada família, de todo o Brasil. Sinto muito, mas você não tem direito a essa pretendida privacidade. Você se locupleta há quarenta anos da fama. Tudo tem seu preço. Quem quer anonimato vira bancário ou contador. Você escolheu ser o cantor mais famoso do Brasil.

Tuesday, April 24, 2007

These foolish detalhes

Tenho ensaiado há alguns dias um post sobre Billie Holiday, porque de fato é bem estranho falar de cantoras de jazz dando a primazia para Dinah Washington, depois discorrendo sobre Ella Fitzgerald e nem uma palavra mencionar sobre Billie, aliás Eleanor Fagan, Lady Day, talvez a maior cantora de jazz da história. Mas empaquei e conheço esses eventos, não adianta forçar, uma hora sai, assim, from the clear blue sky. Claro, porque isto é um blog diletante e não um veículo formal de comunicação. Fosse séria a coisa, com inspiração ou não, saía o texto, sob o olhar atento do chicote do editor.

Anyway, na busca de um fio condutor para Billie, lancei mão de alguns de seus LPs. Não deu liga para escrever só sobre ela, mas ouvindo a manjada “These foolish things”, fiz uma ponte entre essas sophisticated ladies de outrora e nosso rei eterno, que fez aniversário na semana passada e justamente por ouvir uma de suas músicas mais conhecidas pelo rádio, me ocorreu esta conexão esdrúxula. Ladies and gentlemen, abstraiam-se um instante da atmosfera enfumaçada do café novaiorquino que tem nos abrigado. Vamos, sim, falar de Roberto Carlos.

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Dos gregos para cá, é tudo cópia. Costumo dizer essa frase nos debates que cercam propriedade intelectual, pirataria, compartilhamento de obras culturais etc. É claro que se trata de uma provocação, não acredito de verdade que a humanidade não tenha produzido nada de original da Antigüidade até hoje. Mas me incomoda muito a pretensão de alguns grupos, seja de artistas ou de “gestores” da indústria cultural, de se imaginarem detentores de algo tão original que todo o resto do planeta tenha de pagar centavo por centavo, e caro, para fruir essa obra de arte, seja ela música ou qualquer outra manifestação artística.

Sim, produzimos uma enormidade de obras artísticas, mas vamos ser honestos: tantos livros, peças, filmes, músicas, no fundo, são variações dos mesmos temas – amores românticos, felizes ou miseravelmente frustrados, debulhados em grãos de regozijo, comunhão e plenitude ou de solidão, traição, ausência, separação. Também falamos de cobiça, de inveja, de humilhação, de injustiças e mazelas sociais. Ontem, hoje e sempre.

Penélope tecia o véu à espera de Ulisses, Rapunzel trançava metros de cabelo à espera do príncipe encantado, Julieta esperava Romeu no balcão, a Santinha desejava o Filho do Diabo na novela das seis de Benedito Ruy Barbosa. Certa vez, ouvi uma definição do que era uma novela, não me lembro o autor, simplesmente genial: "Novela são dois querendo transar e um monte de gente pra atrapalhar". Ao fim e ao cabo, em novela mas também nos romances, nos filmes, nas músicas, é disso sempre que falamos.

Quantas vezes, ouvindo os sininhos melodiosos do amor ou sofrendo uma dor de cotovelo daquelas, você não escutou uma canção qualquer e pensou: “Puxa, parece que foi composta para mim...”? Não, aquele compositor não tem o dom de adivinhar sentimentos alheios. Nós, seres humanos, é que somos pouco (ou nada) originais.

É óbvio que o fato de serem todos frutos da mesma semente não fazem das obras produtos iguais. Depende de quem aduba, de como se aduba, com o que se aduba. Sinto de maneira evidente isso nos textos. Sou capaz de ler um livro inteiro que só contenha bobagens no cerne de sua mensagem, desde que seja bem escrito. Por outro lado, não passo da página dois de um livro de texto ruim, ainda que o tema seja de meu total interesse. A forma, muitas e muitas vezes, supera o conteúdo. Mas, cada vez mais me convenço, depende também da etiqueta colada do lado de fora da peça para que nós, consumidores de obras culturais, gostemos ou não da tal obra, antes mesmo de provar o sumo dessa fruta.

Sofisticados como somos, apreciadores de jazz, ficaremos com os olhos cheios d´água se ouvirmos Billie Holiday (ou Ella Fitzgerald, ou Frank Sinatra ou até Bryan Ferry) cantar “A cigarette that bares a lipstick’s traces/ An airline ticket to romantic places/ And still my heart has wings/ These foolish things remind me of you”.

Mas seremos capazes de mudar de estação se for Roberto Carlos dizendo “se um outro cabeludo aparecer na sua rua/ e isso lhe trouxer saudades minhas/ a culpa é/ o ronco barulhento do seu carro/ a velha calça desbotada ou coisa assim/ imediatamente você vai lembrar de mim”.

Porque, no fundo, sem fazer muito esforço para conectar ambas, sabemos logo que Holt Marvell, Jack Strachey e Harry Link, ao compor “These foolish things”, fizeram alguns anos antes o mesmo que Roberto e Erasmo: falaram de um amor acabado que deixa rastros no cotidiano do coração ferido. Só que um é chique, noir, cheio de um glamour nostálgico que, a bem da verdade, nem conhecemos, embora nos remeta a uma madrugada úmida, um casaco pesado, luvas, conhaque para um, esquentar a solidão e lembrar do vinho tinto para dois, de outros tempos.

O outro é o som do rádio da vizinha, no fim da manhã de domingo, aquele calor da peste, aquele cheiro de frango assado e molho de tomate apurando na panela, e esse programa da rádio América que não termina nunca, intercalando uma música do Rei com uma do Julio Iglesias, ai, socorro! Rápido, preciso de Billie Holiday, de Benny Goodman, de Count Basie...

...ainda que eu role na cama de vez em quando, tenha vontade de chorar e a certeza que “Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada/ Do tempo que transforma todo amor em quase nada/ Mas quase também é mais um detalhe/ Um grande amor não vai morrer assim/ Por isso, de vez em quando você vai lembrar de mim” tenha sido escrita por eles, inspirados por mim.

(Cheguei a procurar uma foto do Rei para ilustrar este post mas, eu, hein?! De repente ele me processa...)

Thursday, April 19, 2007

Tenho medo dessas coisas

Hoje, fui à academia com dois objetivos: fazer meu treino de esteira e tentar ver o gol que o argentino Messi marcou pelo Barcelona, ontem, pela Copa do Rey, contra o Getafe. Li, ontem mesmo, depois do jogo, que o gol tinha sido muito parecido com o que Maradona marcou pela Argentina, contra a Inglaterra, na Copa de 86. E foi mesmo.

Consegui ver o lance no Globo Esporte, que trouxe uma comparação muito bem feita dos dois gols, com aqueles recursos gráficos de que a Globo dispõe. Para quem não viu o gol do Messi ou não lembra do gol do Maradona, o resumo de ambos é o seguinte: o atacante avança pela lateral direita, supera diversos adversários (cinco, se não me engano, nos dois casos), dribla o goleiro e chuta para o gol.

Impressionante a semelhança. O diário argentino Olé, especializado em esportes, carrega habitualmente na dramaticidade de seus relatos, e não deixaria por menos desta vez. "Uma tarefa tão complicada que tiveram que passar 20 anos, nove meses e 26 dias até que alguém se atreveu a (quase) repetir o segundo gol de Diego Maradona contra a Inglaterra no México-86".



Lionel Messi não era nascido naquela época. Eu era, e bem grandinha já. Assisti ao jogo ao vivo, rendida à obra-prima de Maradona. Dois gols históricos os daquela partida. O primeiro, com a mão. A mão de Deus, diria Diego depois. O segundo, esse espanto. Torci pela Argentina na final contra a Alemanha, eu e esse meu coraçãozinho latino-americano, agarrado à honra de nunca, jamais ter visto uma seleção européia dar a volta olímpica nas terras do lado de cá do Atlântico.

Messi, microfones por todos os lados, evitou a comparação: "Diego é Diego. A jogada foi parecida, mas amanhã (hoje) o conto de fadas terá acabado. O importante é que a equipe conquistou um bom resultado para o jogo de volta", concluiu. O próprio Olé fez questão de dizer que alguém “quase” repetiu o feito. Na Argentina, nada é comparável a Diego Armando Maradona.

Gosto dele, apesar de arrogante. Gosto da autenticidade, da falta de hipocrisia que costuma envernizar figuras públicas. Fico triste por sua tendência auto-destrutiva. Lamento por vê-lo se decompondo fisicamente e mais ainda por tê-lo objeto de julgamentos de gente que parece não saber que todos, indistintamente, temos nossos telhados de vidro.

O futebol pode ser lindo e encantador, com gols como esses dois. Mas o futebol, afinal, é apenas a vida, com suas tantas dicotomias duelando às vezes silenciosas no quarto escuro de cada consciência. Dinheiro e fama, solidão e saudade. Sabe-se lá o que vai na alma de cada jogador apartado de sua casa, de sua família, de sua pátria, nadando em fortunas em terras de ninguém. Outro dia, ouvindo uma entrevista no rádio, uma situação desconcertante. O repórter conversa com um jogador brasileiro, atuando há um ano na Turquia. Em dado momento, o jornalista pergunta como se chama a cidade onde o atleta mora. Longo silêncio. Constrangido, o moço admite que não sabe o nome da cidade onde vive. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, atirariam pedras, chamariam de ignorante para baixo. Eu acho triste, muito triste. Vejo nele, como em Maradona e em tantos outros, um menino pobre, correndo atrás da bola e, atrás dela, percorrendo o mundo, perdendo-se nele.

Maradona está, mais uma vez, internado. Sua saúde definha. De repente, um jovem que nem tinha nascido quando ele foi rei, parece reviver seus dias. Isso, para mim, tem cheiro de ciclo se fechando. Essas coisas me assustam. Tomara que não. Vida longa a Diego Maradona!

Sunday, April 15, 2007

Mack the knife

Você está triste, cansado, estressado, preocupado, irritado, com TPM, seu time perdeu? Não faça como sugere aquele adesivo colado no vidro traseiro de alguns carros. Não, não vá pescar. Ouça Ella Fitzgerald cantando “Mack the knife”, ao vivo, e todos os seus problemas terminarão.



Ella Jane Fitzgerald nasceu no estado norte-americano de Virginia, em 1917, mas muito pequena mudou-se com a mãe para Yonkers, no estado de Nova York. Além de afinada como poucas, tinha uma espantosa extensão vocal. Diz-se que alcançava três oitavas. Se você não sabe o que isso quer dizer, acredite, é uma voz elástica pra burro, que vai de um grave soturno a um agudo cristalino.

No post sobre Dinah Washington e em seus comentários posteriores, mencionamos que talvez o grande mal de Dinah, aliás Ruth Lee Jones, foi ter surgido em um período posterior à fase áurea do jazz, além de ser ligada a uma gravadora mais, digamos, “comercial” que “artística”. Pois com Ella, a história, nos dois aspectos, foi oposta.

Ella começou a cantar em 1935, aproveitando uma oportunidade do baterista e bandleader Chick Webb. Sua presença foi tão arrasadora que, alguns anos depois, a banda passou a se chamar apenas “Ella Fitzgerald and her famous orchestra”. Ella virou a bandleader. Já nos anos 1940, ela deixou a banda para fazer carreira solo. Foi quando começou a trabalhar regularmente com o produtor Norman Granz.

Esse nome, uma pedra fundamental na história do jazz, alguns anos depois criou aquele que seria talvez o mais importante selo do gênero – a Verve. Pois foi justamente pela Verve, e com produção de Granz, que Ella perpetrou esta que é considerada uma de suas mais marcantes, inspiradas e irretocáveis apresentações ao vivo.

Senhoras e senhores, sua atenção: com vocês, Ella Fitzgerald.

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A coisa toda aconteceu no dia 13 de fevereiro de 1960, dez anos menos um dia antes do meu nascimento (desculpem, não agüentei!). Norman Granz produzia regularmente espetáculos chamados “Jazz at the Philarmonic”, excursionando pela Europa e sempre com Ella como estrela principal. Naquele ano, Granz resolveu gravar o show de abertura da temporada, em Berlim, em um local para 12 mil pessoas. Sábia decisão.

O repertório do show era recheado de peças tradicionais do jazz, como “The lady is a tramp”, “Summertime”, “Too darn hot” e “The man I love”. A faixa “Mack the knife”, que acabou dando nome ao disco, é uma versão para o inglês de "Die Moritat von Mackie Messer", música de Kurt Weil com letra de Bertold Brecht para a famosa “Ópera dos três vinténs”.

Se ao ouvir a música você ficar com aquela sensação de que a conhece de algum lugar, é provável que conheça mesmo. A “Ópera dos Três Vinténs” é a base da “Ópera do Malandro”, musicada por Chico Buarque nos anos 1970 e a faixa de abertura, chamada “O Malando”, tem essa mesma melodia, vertida antes para o inglês como “Mack the knife”.

Fosse a história contemporânea, eu, com meu coração cada vez mais endurecido, acharia que era tudo armado, ensaiado previamente, para inglês (ou alemão) ver. Mas isso aconteceu em 1960, bem antes do show virar o business que se tornou e, além de tudo, Ella era mesmo capaz de fazer, de cara limpa, no improviso, a mágica que fez.

Logo na introdução, com sua voz simpática e naturalmente melodiosa, Ella anuncia que vai cantar uma música ouvida na véspera, que lhe pareceu muito popular. E ainda avisa: “Esperamos lembrar de todas as palavras” (“We hope we remember all the words”). Well, não lembrou. A gravação tem, ao todo, 4 minutos e 35 segundos. Antes de chegar a dois minutos (mais exatamente, depois de 1 minuto e 45 segundos), descontando a introdução e tudo, dá o branco.

Sem perder o ritmo ou a melodia, Ella dispara, como se fosse um verso da canção: “Oh, qual é a próxima estrofe dessa música, agora?/ É aquele que eu não sei...” (“Oh, what´s the next chorus to this song, now/ This is the one, now, I don´t know”). Sem pedir licença a Bertold Brecht, começa a enfiar um monte de frases e palavras na letra, enumerando, por exemplo, outros artistas que gravaram a canção, fazendo gracejos com os músicos e, claro, soltando um caprichado scat singing à la Louis Armstrong. Aliás, ela cita Armstrong duas vezes na gravação, algo muito natural para Ella, que gravou várias vezes com o músico e cantor. A platéia enlouquece. Aplauso em cena aberta, diriam no teatro.

Com aquela cumplicidade típica dos músicos, a banda sacou que estava presenciando um momento histórico. É nítido o “crescendo” que vão imprindo à execução os músicos Paul Smith, ao piano, Jim Hall, na guitarra, Wilfred Middlebrooks, no baixo e Gus Johnson, na bateria.

Encaminhando-se para o final da apresentação, Ella nitidamente se diverte com o improviso, chegando a cantar: “vai ser uma surpresa se essa gravação virar ‘Mack the knife’” (“it´s a surprise this tune comes ‘Mack the knife’”, porque, de fato, da letra original não havia ali quase nada. Finda a música, a audiência irrompe em estrepitosas palmas e Ella desaba em gostosa gargalhada. Resultado: Ella Fitzgerald ganhou o Grammy daquele ano por essa gravação. E estamos aqui, 47 anos depois, falando de um gênio que cantava como poucas, escolhia um repertório de primeira, divertia-se em sua profissão e, o que mais me encanta, encarava o imprevisto com talento e bom humor, rindo de si mesma.

Agora, clique aqui, ouça e diga se isso é ou não é um tremendo elixir contra o mau humor.

Friday, April 13, 2007

Nação Peter Pan

Errou, mas para mim Felipe Massa foi macho pacas depois do GP da Malásia. Lá no GPTotal, vai lá!

Wednesday, April 11, 2007

Bem que eu avisei...


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O papo sobre cantoras de jazz & blues estava tão bom que nem quis mudar de assunto. Resisti a comentar o GP da Malásia, até porque vou escrever na sexta sobre o tema, no GPTotal. Mas depois de ontem não dá para agüentar. O Manchester United venceu o Roma por 7 a 1. A notícia realmente não me abala. Tenho uma dívida de gratidão com o time inglês pelos serviços prestados em Tóquio, no final de 1999, mas só. E nada tenho a favor ou contra o Roma (aliás, há comentaristas que dizem "a" Roma... que seja).

Mas ontem, no jogo de volta das quartas-de-final da Copa dos Campeões da Europa, o Manchester humilhou o time italiano, fazendo 7 a 1. O que me agita é o nome do goleiro do Roma, este que ontem abaixou sete vezes para buscar a bola no fundo das redes. Doni.

Felizmente, tenho poucos cabelos brancos, característica genética talvez herdada do meu pai, que começou a ver o cabelo encanecer depois dos 40. Quando meu primeiro fio surgiu, bem na fronte, mas estrategicamente localizado abaixo da franja, dei a ele o nome de Doni. Nunca vi goleiro para dar mais susto na Fiel. Quando ameaçava, ops!, defendia o gol do Corinthians, Doni tinha o assustador hábito de rebater chutes adversários dentro da pequena área, aquilo que os narradores chamam de "bater roupa". Cada bola rebatida dessas, meu coração dava pulos.

Ao saber que Doni tinha sido contratado pelo Roma, tive certeza da decadência do império. "Os romanos que se cuidem...", lembro de ter pensado.

Taí.

Saturday, April 07, 2007

The Queen




O fato de gostar tanto de cantoras como Elis Regina, Rita Lee, Billie Holiday e Cássia Eller talvez seja revelador da minha própria personalidade. Sem julgamentos mas, convenhamos, são todas louquinhas. Há períodos em que escuto mais uma do que as outras. Por exemplo, não me atrai ouvir jazz ou blues em dias de sol. Nestes, prefiro cantoras brasileiras. Dias frios, nublados e/ou chuvosos, que venham Billie e suas congêneres. E se isso passou de idiossincrasia para você e pareceu loucura, não diga que não avisei.

Entre as cantoras de jazz e blues do século passado, talvez minha preferida seja Dinah Washington. Tenho consciência de que ela não é melhor que Billie ou que Ella Fitzgerald, mas é de interpretação que falo, e não de ser mais ou menos afinada, ou de ter melhor alcance, ou de escolher o melhor repertório. Interpretação é subjetivo: gosto ou não gosto e pronto.

Dinah nasceu em 1924, no Alabama, e como a maioria das cantoras negras de sua geração, começou a cantar em coros gospel. Conheci Dinah por meio da trilha sonora da minissérie “Anos Dourados”, talvez a melhor coisa que assisti na TV Globo em toda minha vida. Ela estava lá em ótima companhia, ao lado de Billy Eckstine, Maysa, Dolores Duran, Silvinha Teles, um timaço. A música cantada por ela, “What a difference a day makes”, não era a melhor da trilha, vim a saber depois que aquele momento, na verdade, estava longe de ser o seu melhor. Mas sua voz, ah, que voz! Me encantou ainda pela TV, e foi principalmente por ela que comprei o LP com Malu Mader e Felipe Camargo romanticamente estampados na capa.

Tempos depois, descobri um daqueles songbooks produzidos pela EmArcy, nos anos 1950, em que Dinah cantava Fats Waller. Oh, boy! Foi então que ouvi pela primeira vez sua gravação de “Ain´t Misbehavin´”, e de “Someone is rocking my dreamboat”, e de “Keepin´out of mischief now”. Tenho o bolachão até hoje, talvez por milagre, porque ele poderia tranquilamente ter furado.

Para quem não conhece, Dinah é uma daquelas cantoras que se ama ou se detesta. Você gosta de cantoras que gritam, que esticam notas com a coragem de quem pula no trapézio sem ter certeza de haver cama elástica embaixo? É dessas. Se você se irrita com algumas interpretações de Elis e a acha muito teatral, ou não gosta de seus improvisos, passe longe de Dinah.

A interpretação de Dinah talvez fosse mero reflexo de sua vida tempestuosa. Viveu apenas 39 anos, depois de nove casamentos e mais de vinte anos de carreira. O jeito como morreu não inspira originalidade para o time de alteradas lá de cima: a manjada combinação de anfetaminas e álcool (antes da grita geral, eu sei, eu sei: Cássia Eller não morreu de overdose, como a imprensa quis fazer crer, e Rita Lee, toc-toc-toc, não morreu). Mas as coincidências entre todas elas – vidas intensas e curtas, amores e drogas – as aproximam assustadoramente. Há duas histórias tão coincidentes, no entanto, que até hoje me espantam e parecem coisa armada.

Uma delas aproxima Dinah de Elis. Consta que The Queen, como era chamada no meio musical, certa vez foi à Europa. Estando em Londres, resolveu ir com um casal de amigos ao Lagoon, um jazz club onde se exibia a loira Helen Merrill, também norte-americana. Ao saber da presença de Queen Dee na platéia, Helen convidou a colega para uma canja. Dinah subiu ao palco em companhia de sua exuberância e da pianista Beryl Booker. Além de cantora trepidante, Dinah era uma musicista dos diabos, tocava piano desde a infância e eventualmente se aventurava em outros instrumentos também. Nessa noite, além de cantar e de fazer dueto com Booker ao teclado, ela também fez solos de contrabaixo e de trombone. Em resumo, eclipsou o show de Helen Merrill, fez a loira parecer mais sem graça que a gastronomia local. Terminado o fuzuê, o amigo que a acompanhava perguntou a Dinah se ela não sentia nenhum constrangimento. “Bem, a moça me convidou para subir ao palco e teve o que pediu”, teria sido a resposta.

No começo da década de 1980, a Globo realizou uma série de especiais musicais com grandes medalhões da MPB. O título do especial era o nome completo do artista. Quando foi produzido o programa “Maria da Graça Costa Penna Burgos”, o especial de Gal Costa, a baiana convidou Elis Regina para fazer com ela um dueto em “Amor até o fim”, música de Gilberto Gil gravada por Elis em 1974. O programa era feito nos moldes de um show, com platéia de convidados. As duas começaram a cantar. Lá pelo meio da música, Elis se pôs a improvisar com a letra. Não era inédito. Certa vez, cantando “Ladeira da Preguiça”, com o mesmo Gil, os dois imortalizaram um duelo de improvisos memorável. Só que a afinadíssima Gal não tinha o jogo de cintura, a rapidez de raciocínio de Elis, e a baixinha fez o que quis no restante do número. Dizem que, questionada sobre o suposto constrangimento, Elis teria se saído com uma resposta bem ao estilo de Dinah. “Ninguém mandou ela me convidar”.

Mas talvez a coincidência mais espantosa para mim seja a de Dinah com Rita Lee. Como a maioria daquelas cantoras dos anos 30/40, ela adotou um nome artístico. Não se chamava Dinah Washington. Seu nome verdadeiro era Ruth Lee Jones. Para quem não sabe, o nome inteiro de Rita Lee é exatamente Rita Lee Jones!

O que isso significa? Sei lá, acho que nada. Só sei que é uma baita coincidência e que adoro essas mulheres!

Friday, March 30, 2007

Música nas veias

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Durante todo o primário, o ritual era o mesmo: minha mãe me pegava na escola às cinco da tarde e eu entrava no carro ao som de “Take the A Train”, com a big band de Duke Ellington. É claro que, nessa época, eu não sabia o nome daquela música, nem quem era Duke Ellington. Por muitos anos, aqueles acordes eram para mim apenas “a música do programa do Zuza”, porque logo vinha o locutor informar que “aí vem o Zuza, um programa para quem tem música nas veias”.

Ouvimos todos os lançamentos da fertilíssima MPB daqueles anos 70, entrevistas com vários artistas, análises e histórias saídas do baú privilegiado de Zuza Homem de Mello, pesquisador, crítico musical e escritor que, sem exagero, foi o responsável pela minha escolha profissional. O “Programa do Zuza” fez sua estréia pela Rádio Jovem Pan AM em 1977, o ano em que cursei a primeira série. Eu ouvia o Zuza, naqueles tempos, por osmose, pura influência dos hábitos da minha mãe.

Tanto que, por dois anos, estive distante da melodia de “Take the A Train”. Foi quando passei a estudar de manhã e já não pegava carona no carro da minha mãe. Entre 1981 e 1982, aproveitava o fim de tarde para ficar escutando meus LPs recém-adquiridos, especialmente a coleção de discos da Rita Lee que ia formando. Também aproveitava que eventualmente não havia ninguém em casa – minha mãe continuava saindo no mesmo horário vespertino, para buscar meu irmão – para ensaiar meus momentos de futuro estrelato. Colocava para tocar “Sucesso, aqui vou”, da mesma Rita, e descia a escada do sobrado vislumbrando o palco que nunca pisei. Micos adolescentes: atire a primeira pedra quem não os teve.

Começo de 1983, sétima série, eu tinha de doze para treze anos. Meu pai chega em casa comentando que o Zuza ia passar a fazer um programa por mês inteiramente produzido por um ouvinte, que deveria escolher as músicas e escrever os textos. “Por que você não faz um programa sobre a Rita Lee?”, ele sugeriu. Primeiro, achei que o Zuza não levaria ao ar um programa sobre ela, que estava no auge da fama, fazendo músicas que bombavam nas paradas de sucesso.

O “Programa do Zuza” tocava de tudo, mas tinha um inegável contorno de sofisticação. Depois, achei que o crítico não perderia tempo com os rabiscos de uma garota de treze anos. Mas, sempre me vali da idéia de que o não eu já tenho, se tentar, posso ter o sim. Peguei duas folhas de papel almaço, escolhi as músicas, começando com “Domingo no Parque”, primeira aparição de impacto dos Mutantes, escrevi um textinho para cada música, fechei o envelope, selei, pus no Correio. Alea jacta est.

A sorte estava lançada, mas não pensei muito nisso. Nem passei a ouvir o programa regularmente, por conta do intento, e fiquei mesmo surpresa quando meu pai, de novo, chegou em casa e anunciou: “O Zuza vai fazer seu programa amanhã!”. Fiquei numa pilha só. No dia seguinte, uma quarta-feira, antes das cinco, postei-me ao lado do aparelho de som, fita cassete a postos, o coração aos pulos. Zuza começou o programa anunciando que se tratava de uma contribuição de “uma ouvinte de treze anos”, e repetia essa frase o tempo inteiro. Minha inseparável amiga Cynthia ouviu o programa comigo. Se a maioria das pessoas tem apenas uma vaga idéia de como e quando escolheu sua profissão, eu tenho ano, mês, dia e hora. Foi em 23 de fevereiro de 1983, às 17h, que decidi ser jornalista.



Daí pra frente, Zuza virou minha religião, minha ideologia, meu guia e meu ideal de vida. Eu queria ser Zuza quando crescesse. Todas as quartas-feiras, ele fazia o “Dia do Ouvinte”, lendo cartas e tocando músicas pedidas pela audiência. A última quarta do mês era o “Programa do Ouvinte”, como esse que escrevi e se chamou “Um pouco de Rita Lee”. Entre 1983 e 1988, quando o último “Programa do Zuza” foi ao ar, escrevi dezenas de cartas, quase todas em tons de crítica azeda e violenta. Eu era adolescente, afinal, rebeldia no último volume. Também escrevi mais uns três ou quatro programas completos. A cada programa produzido pelo ouvinte, Zuza ofertava uma fita cassete com a íntegra. Não sei o que me deixava mais feliz: ouvir meu nome no rádio ou ir até a Avenida Paulista, número 807, para buscar a fita das mãos do próprio Zuza.



Há exatos vinte anos, no dia 31 de março de 1987, uma festa oferecida pelo Zuza marcou para sempre a minha vida.

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Naquele dia, o “Programa do Zuza” completava dez anos. Ele organizou um encontro de amigos, incluindo ouvintes, no simpático bar “Inverno & Verão”, no bairro de Santo Amaro. Recebi o convite pelo correio e, claro, pedi para minha mãe me levar. Lembro de tudo: de como o sol batia naquele dia, do lugar em que sentei à mesa, da boca seca de ansiedade. Acho que eu nunca tinha ficado tão empolgada com nenhum acontecimento em meus 17 anos anteriores. Havia artistas de todos os estilos entre os convidados, mas certamente todos os presentes só tinham olhos para uma figura quase mitológica da MPB que também apareceu por lá – Geraldo Vandré.

Conheci pessoalmente os colegas ouvintes que freqüentavam o mesmo espaço das ondas do rádio, como os queridos Chico Nascimento, Nair, Rosinha, gente que parecia fazer parte do meu círculo de amigos íntimos, pela simples irmandade dos que têm música nas veias. Foi nesse dia que conheci Gê Tock, outro da turma, moço de Tietê, bacharel em direito. Mas, de cara, Gê me disse que sua profissão mesmo era músico. Estudava música e era de música que queria viver. Antes de sair, trocamos endereços e telefones. Logo começamos a enviar longas cartas manuscritas um para o outro, fazer eventuais telefonemas, gravar fitas cassetes e enviá-las pelo Correio.

Gê me fornecia rock dos anos 70, muita música mineira da turma do Clube da Esquina e me abastecia seguidamente de um som instrumental que ele mesmo me apresentou, o do guitarrista Pat Metheny. Eu devolvia com MPB das décadas de 60 e 70, Beatles e cantoras de jazz e blues, como minhas preferidas Billie Holliday e Dinah Washington. Um ano depois da histórica festa, nossa festa acabou: em fevereiro de 1988, Zuza apresentou a última edição de seu programa diário. Foi no mesmo mês que passei no vestibular para Jornalismo. A amizade com Gê, no entanto, tinha alçado vôo próprio. Nos anos seguintes, cursei a faculdade, Gê cumpriu o objetivo de viver de música e hoje é professor do respeitado Conservatório Musical de Tatuí, além de guitarrista da Big Band da instituição. Já gravou dois CDs independentes, é excelente instrumentista e compositor, um querido anfitrião nas visitas periódicas a Tietê, foi meu padrinho de casamento. Acima de tudo isso, um amigo querido, dos que têm música nas veias, há exatos vinte anos.

Obrigada, Zuza!

Monday, March 26, 2007

Pais, padrinhos e padrastos

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A relação de alguns pilotos com seus chefes de equipe é o tema da minha coluna de hoje, lá no GPTotal. Vai lá, vai!

Sunday, March 25, 2007

Esfinges

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Ouvindo algumas músicas, dou graças a Deus pelo fato de certos versos não serem esfinges. Se dependesse de decifrá-los, seria devorada.

É fato que nem sempre os poetas quiseram dizer exatamente aquilo que interpretamos. Caetano Veloso, por exemplo, falou certa vez sobre "Enquanto seu lobo não vem", lançada no disco Tropicália (ou Panis et Circensis). Explicou que a letra faz várias referências políticas, mas não mereceu reprimenda da feroz censura da época simplesmente porque os censores não entenderam. Forçou, né, Caetano? "Há uma cordilheira sob o asfalto" seria, segundo ele, uma referência à guerrilha cubana saída da Sierra Maestra e ao fato de Che Guevara ter ido para a Bolívia depois. Ah, claro, bem que eu tinha percebido!

Como este, há uma enorme gama de versos que deveriam vir com manual de instruções. Alguns compositores são especialmente pródigos em letras enigmáticas, como Djavan, Luiz Melodia e o absolutamente hors-concours Carlinhos Brown. Antes que se apressem os julgamentos, nada contra. Sou partidária da idéia de que a música, como toda forma de arte, tem fim em si mesma, não precisa servir a nada. Se as letras servirem para despertar reflexões, isso é lá com o compositor. Antes de qualquer coisa, arte - e música - é pura fruição.

Mas não resisto à tentação...

Vamos brincar de listar os versos mais incompreensíveis da música brasileira?

Eu começo, vocês continuam.

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"Obi Obá, que nem zen, czar, shalom, Jerusalém, s´oiaseau"
(de Obi, do Djavan) - isso faz sentido em alguma língua? Aliás, em que língua?, porque consigo contar pelo menos seis neste curtíssimo extrato.

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"Devo de ir fadas, Inseto voa inseto sem direção"
(de Fadas, do Luiz Melodia) - esta letra é inteirinha Esfinge. Tenho vontade de ouvi-la de trás pra frente para ver se faz algum sentido. Será?

*

"Esse ão de são, hei de cantar, naquela canção"
(de "Uma brasileira", Paralamas e ele, Carlinhos Browm) - essa é outra. Esfinge da cabeça aos pés. Não por acaso, os Paralamas convidaram Djavan para cantar na música. OK, não precisa explicar. Eu não iria entender.

Só para esquentar, vamos lá!

Wednesday, March 21, 2007

Parabéns

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O pessoal da Fórmula 1 deve se lembrar que hoje Ayrton Senna faria aniversário, mas não é dele que quero falar. (Não consigo deixar de rir cada vez que ouço/leio fãs dizendo que "se Senna corresse hoje na Fórmula 1 blá-blá-blá...". Pô, se Senna estivesse vivo faria hoje 47 anos!). Que Deus o tenha, como diriam os antigos.

Pois é de um "antigo" que falo. Se meu avô Antonio fosse vivo, hoje faria 89 anos. Muita gente tem avós até mais velhos, hoje em dia, mas não tive esse privilégio. Meu avô José morreu em 1974, aos 81. No ano seguinte, com apenas 57, foi a vez do vô Antonio. Praticamente não me lembro dos dois, embora eu já tivesse duas Copas do Mundo nas costas quando ambos se foram.

Vô Antonio teve uma vida terrestre curta, mas otimizou a oportunidade. Brasileiro, filho de um português com uma espanhola, tinha uma feição meio árabe que denunciava a presença mourisca na Península Ibérica. Magro, ereto, cristalizou-se na minha memória em uma imagem inusitada. Gostava de andar pelo grande e arborizado quintal da casa, no Tucuruvi, segurando um cabo de vassoura com os braços arqueados, atrás das costas. Dizia que fazia bem para a coluna e eu tenho certeza de que estava certo. Lembro sempre da sabedoria do vô quando vejo umas senhoras fazendo coisa parecida na aula de yoga, lá na academia.

O pai, Alípio, acumulou fortuna graças a uma indenização da estrada de ferro Sorocabana, onde perdeu uma perna. A família era grande, meu avô era um dos filhos mais novos e não aproveitou o tempo das vacas gordas, progressivamente fatiadas pela sanha do resto da turma. Cresceu praticamente pobre, no então longínquo bairro do Tremembé. Passava a pé na frente do palacete do Tucuruvi e dizia que um dia aquela casa seria dele. Foi o típico self-made-man, não escolheu trabalho, casou-se jovem com minha avó Elza. Antes dos trinta, já tinham quatro filhos. Antes dos quarenta, cinco filhos e a casa. Aquela casa.

Descobriu a vocação e encontrou solidez nos negócios com imóveis. Construiu, administrou e loteou terrenos, embrenhando-se pela Zona Norte paulistana, chegando a Guarulhos, onde teve atuação tão destacada a ponto de virar nome de avenida. A homenagem veio em parte pelo espírito empreendedor, mas muito pela ação social. Durante vários anos, Vô Antonio realizava uma caprichada festa de Natal para a população carente do município, com Papai Noel e tudo.

Claro que não era um santo. Nenhum de nós é, ou não estaríamos fazendo estágio neste planeta. O fato é que, em menos de sessenta anos de vida, Vô Antonio criou família, prosperou, ajudou parentes como pôde, cativou uma legião de amigos que ainda hoje, quase trinta e dois anos após sua morte, lembra-se de sua presença, de seus animados almoços de quarta-feira, já nos últimos anos de quase aposentadoria, de suas partidas de bocha, do vinho que fazia no quintal.

Aos 57 anos, Vô Antonio partiu por um mal do coração. Talvez tenha sido um daqueles casos, como disse certa vez Rita Lee: "se por acaso morrer do coração, é sinal que amei demais".

Feliz aniversário, vô.

Monday, March 19, 2007

GP da Austrália

Bem, amigos (começou mal, mas vamos assim mesmo), primeiro peço desculpas pela pouca atualização do blog. A correria anda brava, sem muitas perspectivas de sossego por enquanto, então vou postar no método Darcy Ribeiro, ou seja, "aos trancos e barrancos".

Falar sobre o GP da Austrália nesta altura já não é notícia, é história. Meus amigos da imprensa já trouxeram todas as informações, observações e bastidores da corrida de Melbourne. Para ficar só na blogosfera, quem quiser saber mais pode acessar aqui ou aqui e ler tudo a respeito.

Como minha próxima coluna do GPTotal é só na semana que vem, e daí é que não fará sentido mesmo falar da abertura da temporada, seguem alguns ligeiros comentários:

- Já dizia minha avó que o apressado come cru. É cedo demais para alçar Lewis Hamilton ao Olimpo da F-1 e tão cedo quanto para enterrar de vez a carreira de Heikki Kovalainen. Mas como a imprensa tem pressa, o clima já é de "viva Lewis", "morte a Heikki".

- O enterro preococe de Kovalainen justifica-se na medida que o chefe de equipe dele foi o primeiro a pegar a pá. É por essas e outras que considero Flavio Briatore uma escala na evolução da espécie humana. O homo sapiens veio depois.

- Achei Kimi mais magro no pódio. Depois reparei que era o novo macacão da Ferrari, com duas estratégicas faixas brancas na lateral. Pilotos amadores, anotem a dica. Listras na lateral, se não quiserem ficar com aquele visual Teletubbie.

- O carro da Honda, afinal, não se saiu tão mal na transmissão. Se andasse rápido talvez não aparecesse bem a pintura, mas naquele ritmo, tá legal...

- Não acho, mesmo, que a troca de posições entre Hamilton e Fernando Alonso foi estratégia de equipe. Quem viu a corrida notou como o estreante perdeu tempo com retardatários antes da segunda parada. Mas Ron Dennis deve ter adorado o fato. Tudo o que ele não precisa, agora, é um clima estranho entre os dois pilotos. Como foi, ficou tudo de bom para todo mundo: Alonso na frente e Hamilton bonito na foto, em terceiro na estréia. E, de quebra, a McLaren liderando o campeonato de construtores.

- Sinto muito por meu querido Reginaldo Leme, mas não ouço a transmissão da Globo há vários anos. No treino de sábado, não teve jeito, porque minha rádio preferida não estava transmitindo. Mas jurei para mim mesma que daria um murro na TV se aquele locutor chamasse Hamilton de "Robinho" mais uma vez. Tá doendo, viu?

- O vôo do escocês David Coulthard sobre o austríaco Alexander Wurz me fez lembrar os desempenhos de Roberto Carlos e Cafu na última Copa. Um homem deve perceber quando seu tempo já passou, né Rubens?

- A pintura da Renault ainda me causa estranheza, mas aquele leãozinho da placa de "brakes on" é tão fofo que vou acabar me rendendo à nova pintura, patrocinada pela seguradora ING.

- Não, Hamilton ainda não é o grande senhor das pistas, mas ele me fez feliz como no dia em que Guga venceu Roland Garros pela primeira vez e no gol marcado por Ronaldinho Gaúcho contra a Venezuela, seu primeiro pela seleção. Os três demonstraram sua alegria com sorrisos. Estou cansada de punhos cerrados e cenhos franzidos. Estou cansada de tapas raivosos no peito e urros guturais. Alegria, alegria!

Thursday, March 15, 2007

Clássico na Vila

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Nos últimos dias, a principal discussão do futebol paulista girou em torno dos clássicos na Vila Belmiro. O Santos, é claro, quer jogar eventuais clássicos da final do Paulistão em seu estádio. O São Paulo, é óbvio, não quer. Um blá-blá-blá interminável sobre condições do estádio, segurança dentro e fora dele. (Longo bocejo).

Enquanto isso, com a bola rolando, alheios ao nhém-nhém-nhém dos bastidores, os jogadores jogam. E os bons jogadores nos enchem os olhos. O terceiro gol do Santos ontem, pela Libertadores, contra o argentino Gimnasia y Esgrima, não foi propriamente um gol. Foi uma obra de arte. O autor: Zé Roberto.

Ele não perguntou a ninguém se pode ou não ter clássico na Vila. Foi lá e fez um. Um gol clássico, no sentido da perfeição de um Michelangelo. Sim, pode ter clássico na Vila.

Wednesday, March 07, 2007

Sabe, Rita...

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Sabe, Rita, quando você disse que foi a Abbey Road e lambeu as maçanetas do estúdio, só porque John, Paul, George e Ringo tinham segurado nelas, achei que era exagero, que ninguém chegaria a tanto só por amor a seus ídolos. Bem, querida, mais uma vez, você me pegou. Soube que era verdade quando me vi ajoelhada aos pés do Sergio, tomando-lhe a mão para beijar. Ele, com seu sorriso de esquilo, deve ter achado ridículo ou ficou envergonhado, porque logo me ergueu e disse, doce e cavalheiro, que são os homens que devem se ajoelhar por nós, as damas.

Sabe, Rita, o primeiro dos meus abusos não pareceu me conter, porque em seguida eu estava beijando a testa do Arnaldo, abraçando aquele corpo magrinho (que no entanto deu cambalhotas e fez flexões no palco, ninguém me contou, eu vi), segurando-lhe as mãos e repetindo “obrigada, obrigada”, como se ele tivesse me lançado a bóia dos náufragos. Teu ex-companheiro achou graça e, candidamente, soltou vários “eu é que agradeço”, como se eu é que tivesse o colocado de volta em um trem colorido, do passado lóki para o meu presente enlouquecido. Rita, confesso, careta, que eu ontem pirei.

Sabe, Rita, eu ainda hoje fico procurando mensagens pouco cifradas naquelas músicas e fico com pena de você dizendo “eu só quero que você me queira”, imaginando com raiva que ele respondia “eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória”. Daí fico achando que ele se arrependia, sentia saudade e dizia “benvinda aos braços meus, você demorou, por onde andou?, fiquei chateado, coitado de mim”, pra você em seguida tripudiar, ameaçando “eu vou sabotar, você vai se azarar”. Ah, Rita, esse amor talvez tenha sido demais, explodiu, desandou, transbordou e todos nos sentimos com direito a morder pedacinhos dele.

Sabe, Rita, quando os astros de 2006 se alinharam, um anjo passou e dissemos amém, eu não tive nem tempo de pensar que você viria também. Não teve Yoko, não teve a bala do Marc Chapman nem o câncer do George, mas eu nunca deixei minha cabeça sonhar que com vocês seria possível, seria diferente. No fim, ele quase se azarou, a glória correu para você, teu 2001 astronáutico também já passou, tua Miss Brasil 2000 está quase coroa. Você poderia ter vindo, mas sempre soubemos que o muro talvez fosse espesso demais, intransponível. Toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz, ele te mandou embora. Ah, eu acho que eu não voltava também.

Sabe, Rita, ajoelhar aos pés do Sergio e beijar a testa do Arnaldo foi a maior travessura que fiz na vida, desde que roubei a plaquinha da porta da minha classe, no 3° Colegial. Não estou à altura de um mutante, eu sei, desculpe o vexame. De você, o máximo que consegui ter até hoje foi só uma imitação da mítica franja. Fiquei depois pensando que mais eu faria se você estivesse lá, também. Sabe, Rita, você não sabe, mas a primeira coisa mais ou menos séria que eu escrevi na vida foi um programa de rádio sobre você, quando eu tinha 13 anos. De lá, vim dar aqui. Se você estivesse lá, não sei, acho que algum circuito ia queimar, um ciclo ia se fechar, tenho medo desses ritos, sem trocadilho.

Sabe, Rita, não tem nada a ver o Vinicius de Moraes com isso, mas sua falta ontem me fez lembrar de uma poesia dele, “Ausência”. O trecho: “... eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz/ Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado”. Serve para todos os amantes condenados a viver à distância, mas serviu para mim ontem. Ah, vocês poetas, pensam que escrevem só para si. Se você estivesse lá, ontem, acho que eu desmancharia no ar.

Sabe, Rita, foi bom, porque ficou parecendo que não terminou. Eu nunca sonhei que seria possível ver Mutantes e me deram esse bônus. Acho que vou começar a acalentar a esperança de um dia, qualquer dia, ter você junto a eles também. Não liga não, é só sonho, posso? Sem pressa, sei que você segue como mutante, no fundo sempre sozinha.

“Ai de mim que sou romântica...”

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Ontem, 6 de março de 2007, uma festa comemorou os 35 anos de Fórmula 1 do jornalista Reginaldo Leme e a 15ª edição de seu anuário Automotor (e eu escrevi a primeira!!!). Os Mutantes deram um show, com 14 músicas, no final do evento, tendo o primeiro-irmão Dinho Leme em sua melhor forma, na bateria. Obrigada, Reginaldo e Dinho, não sei se vocês têm noção do que representou aquilo tudo para gente como eu. Vida longa à família Leme, ao anuário, aos Mutantes!



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Atualização fotográfica, com um agradecimento especial a Carsten Horst, da agência Hyset



Alessandra, Sergios Dias e Bruno Vicaria, do site Grande Prêmio



Alessandra, Arnaldo Baptista e Vicaria



Lance curioso: a platéia, formada por muitos jornalistas ligados ao automobilismo, interrompeu o show várias vezes, gritando "Dinho, Dinho!". Ó ele lá no meio!

Tuesday, March 06, 2007

Virunduns

Não sei quanto a vocês, mas eu a-do-ro colecionar virunduns. Ao lado dos palíndromos, são talvez as duas coisas inúteis que mais me encantam.

Ah, vá dizer que você não sabe o que são virunduns? Nem palíndromos?

Um dia volto aos palíndromos, por enquanto vamos apenas de virunduns.

"Ouviram do Ipiranga..." - pronto, ei-lo. Quantas crianças não se debateram na dúvida sobre o que queria dizer aquela primeira frase do Hino Nacional? Daí surgiu a expressão "virundum", para designar trechos de música que soam de forma completamente diferente do original. O Hino Nacional Brasileiro é praticamente um virundum só. Além de usar palavras pouco usuais, abusa da ordem indireta nas frases. Em resumo, acho que 98% das pessoas que o cantam nunca pararam para destrinchá-lo e finalmente compreendê-lo.

Mas há tantos, tão hilários e saborosos virunduns que existe até um site sobre isso. Se quiser rir, é diversão na certa.

O meu preferido, de todos os tempos, foi o virundum de um professor de francês, que recém-chegado de seu Uruguai natal deparou-se com um sucesso de Elis Regina nas rádios: "... mas é você que é mal-passado e que não vê...". Era o que o pobre entendia, no lugar de "... mas é você que ama o passado...". Clássico e recorrente.

Há algum tempo, no blog do PAS, começamos a falar de virunduns e alguém veio com um outro, igualmente sensacional. De Djavan, que já é um virundum potencial, por tanto hermetismo nas letras: "...mais fácil apedrejar pôneis em Bali...", leitura digamos "alternativa" para "...mais fácil aprender japonês em braile...".

E você, venha, confesse seu virundum. Todo mundo já teve um.

Eu tenho vários, mas gosto mais desses aqui:

Gil cantava "com a cor do veludo, com amor, com tudo..."
e eu entendia "com a cor do peludo, com amor, com tudo..."

Roupa Nova cantava "alçar o vôo livre..."
e eu entendia "All Star, o vôo livre..."

Quem dá mais?

Monday, March 05, 2007

Espelho

Aqueles que se dedicam a administrá-lo, há muito tempo, parecem apenas interessados nos próprios benefícios. Quem já esteve próximo de suas estruturas internas sabe: os que entram lá metem a mão mesmo, é uma farra de caixas dois, notas frias, benesses aos amigos e parentes. Mudam os nomes, a zona é a mesma. Novas moscas, só.

Na primeira oportunidade, aliam-se a gente que já pode ter sido o inimigo de antes ou que tenha achado a reputaçãoe no esgoto, que eventualmente vai continuar a expoliação, mas tudo bem, desde que a sangria venha desaguar nos bolsos de ambos os lados.

Quem fica abaixo deles vira-se como pode. Os que podem mais exercem seus podres poderes, às vezes exacerbando. Os que podem menos abaixam a orelha. E vão tocando a vida, aos trancos e barrancos, às vezes comemorando vitórias fugazes, no mais das vezes amargando a tristeza de ver seu enorme potencial desperdiçado.

Corinthians, Brasil...

O que mais me dói é o quanto insisto em amá-los.

Thursday, March 01, 2007

A Fórmula 1 e o "triple bottom line"

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Na última segunda-feira, a Honda apresentou o carro que vai utilizar no Mundial de Fórmula 1 deste ano. O impacto causado pelos japoneses é justificável: os novos Honda trazem a imagem do planeta Terra, como visto do espaço. Sem nenhum logotipo ou nome de patrocinador (pelo menos, por enquanto), os carros trazem apenas um endereço virtual. Este site tem por objetivo atrair a atenção de outras empresas ou iniciativas para a questão ecológica.

Em tempos de intensos debates sobre aquecimento global e tudo o mais que cerca o tema ecologia, a Honda não poderia ter encontrado melhor forma de mostrar-se ao mundo como empresa engajada. Antes de parecer que é tudo apenas e tão somente marketing, cumpre-se informar que a Honda tem um longo histórico de pesquisa e desenvolvimento de produtos ditos "ecológicos", como aliás outras montadoras asiáticas. Recentemente, um estudo apontou os doze carros mais amigáveis com o meio ambiente. O primeiro colocado foi um modelo Honda (no total, foram nove japoneses e três coreanos - Ásia 10 x Resto do Mundo 0).

Ao utilizar a Fórmula 1 como veículo de conscientização, a Honda transfere para a categoria um princípio largamente difundido entre as empresas nos últimos tempos, a sustentabilidade. Esse conceito se apoia em um termo que consultores e especialistas costumam chamar de "triple bottom line" (ah, as maravilhas da linguagem corporativa e seus termos em inglês...). O nome é pomposo, mas a idéia é simples. Não adianta quererem ganhar dinheiro à custa de explorar pessoas e destruir a natureza, porque pessoas exploradas e natureza destruída geram uma droga de sociedade que não consome nada e não te deixa ganhar dinheiro. Dinheiro, pessoas, natureza. Ecoomia, sociedade, meio-ambiente, eis o "triple bottom line".

Tomara mesmo que a maioria das empresas esteja consciente de que a fórmula é essa. Se não resolver todos os problemas do mundo, pelo menos não atrapalha. Mas tem um dado incontestável nisso tudo. Ser e, principalmente, parecer engajado com esses preceitos é um marketing poderoso. A empresa que investe em responsabilidade social e, sobretudo, divulga isso aos quatro ventos, ganha a simpatia de uma parcela cada vez maior de consumidores. Belo marketing da Honda, ou não?

O Mundial de 2007 já pode ser considerado o campeonato mais socialmente responsável de todos os tempos. Antes que a Honda surgisse com seu eco-carro, a McLaren-Mercedes já havia anunciado a estréia de Lewis Hamilton, o primeiro piloto negro da categoria. Que fique claro: Hamilton não chegou à Fórmula 1 por ser negro, mas por ser bom piloto. De qualquer maneira, a inclusão de pessoas de várias etnias é outra ação bastante valorizada nas corporações globais, promovendo a diversidade (e nesse termo entram também as campanhas de inclusão de mão-de-obra feminina, de portadores de necessidades especiais etc.).

Bom ou ruim para a Fórmula 1 embarcar no marketing do politicamente correto? Patologicamente otimista, acho bom. Ainda que seja mais marketing que ação, não deixa de ser uma ferramenta para despertar pessoas, em todo o mundo, sobre questões relevantes do nosso tempo.

Wednesday, February 28, 2007

O boto do Reno

Há dois anos, tive minha primeira e até agora única experiência com a edição de um livro. A obra é "O Boto do Reno", do jornalista-colega-primeiro chefe-gente boa Flavio Gomes. É uma coletânea de crônicas escritas pelo Flavio ao longo de quinze anos cobrindo Fórmula 1. Mas, atenção, não é um livro sobre Fórmula 1. É um livro de crônicas de viagem, com um texto primoroso, carregado de humor (às vezes bom, muitas vezes mau).

Leitores do Grande Prêmio, do GPTotal e do Blog do Gomes já conhecem o livro, mas achei que valia a pena dar uma amostra grátis para quem ainda não conhece. Quem quiser comprar o livro, em promoção, por sinal, é só entrar aqui.

Selecionei um dos meus capítulos preferidos. Leiam, comentem!

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Estatualândia

26/8/03

Tenho duas horas e vinte e oito minutos para escrever. É o que indica o mostrador da carga de bateria de meu novo laptop. Estou no avião. É uma experiência curiosa escrever dentro do avião. Nunca tinha feito isso antes, porque o computador antigo não aguentava, coitado. Aliás, tem sido um ano de grandes transformações em minha vida. Separei-me de dois velhos companheiros, o Acer, que ficou com a tela verde, e a mala cinza clara, que teve um problema técnico e a companhia aérea trocou por uma nova, à qual não me adaptei bem, devo confessar, mas agora Inês é morta, nunca mais vou ver minha mala antiga.Quando se viaja bastante, criam-se companheiros como o laptop, a mala, a nécessaire (onde diabos vão os acentos nessas palavras francesas?). Outro dia troquei a nécessaire, não por necessidade, por frescura, mesmo.
Destroquei depois de duas ou três corridas. Fiquei com pena da antiga, tão habituada a dias gloriosos, viagens pelo mundo, os melhores hotéis, de repente esquecida num armário debaixo da pia ao lado de minhas edições antigas da Playboy. A que eu prefiro é a da Carla Perez, já na versão de peitos turbinados.(Ainda tenho as mesmas duas horas e vinte e oito minutos para escrever, este laptop é foda, tem um sistema que economiza bateria diminuindo a luminosidade da tela. O outro, coitado, nem funcionava na bateria.)Do meu lado tem um viado. Acho que é, porque viaja com um monte de amigos e um deles está de camiseta regata com o sovaco depilado. Sovaco raspado é coisa de viado. São alemães, acho. O avião em que estou é suíço. Saiu de Zurique para São Paulo e Rio. Está cheio de putas, também. Não se espantem, eu não tenho nada contra putas e viados, nem me importo em dividir os passageiros em categorias. Vôo o bastante para ter o direito de classificar as pessoas como bem entender.Pois bem, o alemão do meu lado é viado (o certo é escrever "veado", como o animal, mas "viado" é mais legal) e todos os amigos dele também. E as putas estão voltando para levar dinheiro para o Brasil. Que mal há nisso? Elas vão para a Europa (digo "vão", e não "vêm", porque o mapa na tela de TV do avião indica: estamos sobre a África setentrional, estamos indo, e não vindo) ganhar dinheiro em moeda forte, dão para os europeus e voltam de vez em quando para levar o que ganharam para casa, sonhando em não ter de pegar o avião de novo, mas no fim pegam, e normalmente vêm nesses vôos que eu venho, os mais baratos. Cansei de viajar com putas. Sempre tem uma promoção de alguma companhia, agora é a Swiss que está barata, é na Swiss que elas vêm e os viados vão. O que será que essas bichas velhas vão fazer no Brasil? Não importa, problema deles.Faltam duas horas e quatorze agora para a bateria apitar. Dá tempo, escrevo rápido.Estou na poltrona 30G, corredor. Ninguém no assento ao lado, apenas o viado alemão na outra ponta da fileira. Tentou se esticar até meus domínios, mas consegui defender a poltrona à minha esquerda de seu chulé. Fica pra lá, viado. Venho da Hungria, onde não sei se tem muito viado, mas tem muita puta. Incrível como tem puta, e como elas são belas e provocantes. Estive na Hungria pela primeira vez em 1991. Gostei muito e aluguei um Lada. Hoje acho o país uma merda. (Não se espante, de novo, com a profusão de palavrões. Hoje decidi escrever como falo, e falo muitos palavrões. Falo algumas coisas que politicamente não são muito corretas, também, algumas até dariam cadeia se as leis fossem cumpridas no país, mas vou procurar me controlar.)Acho a Hungria uma merda porque estão acabando todos os resquícios do comunismo. Tenho uma mania que carrego há anos. Sempre que estou na rua, no trânsito, invento alguma coisa para contar. Por exemplo: do aeroporto até minha casa, quantas Kombis eu vejo. Estabeleço metas, dependendo do percurso. Duzentas Kombis. Se consigo contar duzentas Kombis, ganho um prêmio imaginário. Se não consigo, azar. É para passar o tempo, faço isso sempre, sou meio louco. Na Hungria, sempre conto Trabants. Se você não sabe o que é um Trabant, vá procurar saber, estou sem saco para explicar. Há anos que a meta é de 100 Trabants entre o hotel e o aeroporto no dia de ir embora. No ano passado tive de reduzir para 50. Contei 47 e perdi por pouco. Hoje contei só 16, fiquei longe do prêmio, mesmo sabendo onde procurá-los, nos estacionamentos dos conjuntos residenciais, imensos prédios cinzentos de apartamentos onde moram os pobres que têm Trabants, ou deveriam ter. Nesse ritmo, vão acabar os Trabants e, com eles, o que restou da Cortina de Ferro, do passado.Acho a Hungria uma merda porque depois que acabou o comunismo virou tudo uma putaria, os taxistas te roubam, os caras dos hotéis são mal-educados, os policiais vivem te achacando, a comida é ruim. Fui achacado em Budapeste por cinco anos seguidos até este ano, em que consegui passar ileso por todos os rendörség, é assim que se diz polícia em húngaro. Tenho muita raiva dos rendörség, por mim podiam tirar a corrida da Hungria e colocar na Bósnia que eu não iria reclamar. (Neste exato instante mudei-me para a poltrona mais central nesta fileira de quatro em que ocupava uma das extremidades, porque a mulher na minha frente abaixou o encosto de seu assento, batendo na tela do meu novo laptop. Vaca. Estou mais perto do alemão viado, que quer se esticar nos bancos. Mas se depender de mim vai ficar é torto e com torcicolo quando chegar ao Brasil.) Hoje pela manhã (na verdade ontem, pelo fuso hoje já foi, no avião a gente fica com o fuso confuso, puxa, que engraçado) fui fazer turismo em Budapeste. Tinha um folheto na recepção do hotel (merda de hotel, sem ar-condicionado e barulhento, cheio de turistas espanhóis) sobre um certo parque de estátuas, um lugar para onde levaram algumas daquelas enormes esculturas da escola realista-socialista (inventei essa escola agora) que se espalhavam por todas as cidades comunistas que se prezassem, imagens gigantescas de Lenin e Marx, ou de operários, ou de camponeses, ou de militares. Aquilo é que dava charme ao mundo, que perdeu totalmente a graça após a queda do Muro de Berlim e recebeu a pá de cal com o fim da produção do Fusca.Bem, tinha algumas horas até o avião sair, fui com um amigo ao parque das estátuas. O folheto estava em inglês, e mostrava algumas fotos do lugar. Vamos lá. Cara, que merda. Tinha o quê?, umas 20 imagens, talvez um pouco mais. Num descampado horrível, empoeirado, cheio de mato crescendo. Nenhuma placa decente identificando aquelas estátuas e esculturas, nenhuma explicação, de onde foram tiradas, quem as construiu, em que época, picas, alguns monumentos pichados. Um lixo, um descaso completo com a história, um engana-trouxa. Deu vontade de voltar lá de noite com um caminhão e roubar tudo, ninguém ia perceber.Pior: na entrada havia, há, um quiosque minúsculo para pagar a entrada, e com lembranças comunistas para vender. Eu queria umas camisetas, mas todas elas tiravam sarro do comunismo e dos comunistas, o que é isso, torcida brasileira? Camisetas esculhambando tudo, deu vontade de colocar fogo naquilo e entoar a Internacional Socialista com a mão no peito. Comprei uma só, que tinha um Traby estampado na frente (Traby é como eu chamo os Trabant). Comprei também um ímã de geladeira com as faces de Marx, Engels, Lenin e Stalin. E uma moeda de não sei quantos rublos, com CCCP escrito, a foice e o martelo estampados. Paguei mil forints nessa merda de moeda, espero que seja autêntica. Já me dei mal com lembranças comunistas em Berlim, comprei certa vez um relógio de parede que o vendedor me garantiu ter pertencido a um submarino soviético, não era porra nenhuma, parou de funcionar em uma semana.A gota d'água que me fez concluir que o comunismo acabou de vez foi, nesse mesmo quiosque, um CD à venda chamado "The Best of Comunism". Puta que pariu, como é que alguém tem coragem de dar tal título a uma coletânea de músicas compostas para louvar e propagar a única doutrina digna de todos os tempos? Porra, colocaram o comunismo no mesmo saco que a Madonna, o Elvis Presley, o U2 e o Willie Nelson! "The Best of Comunism", é demais, é para dar um tiro na cabeça. Na saída, fiz questão de assinar o livro de visitas. Coloquei meu nome, o país de onde vim, mas a caneta disponível não escrevia direito, e no espaço onde perguntavam do que mais gostei no parque, deixei em branco. No espaço para escrever do que menos gostei, escrevi "a caneta".Apesar de tudo, sou teimoso e turrão o bastante para incluir o parque das estátuas num roteiro para as futuras viagens que farei com meus filhos e a Thais, coitada, que vai odiar, claro, esse parque de merda. Já decidi que meus meninos jamais conhecerão Orlando e a Disneylândia, e por isso tenho de descobrir atrações alternativas como a agora batizada por mim de Estatualândia, em Budapeste. Já os levei ao Parque do Asterix em Paris (bem, houve uma breve uma passagem pela Disney de lá, também, mas foi por acaso, e eles nem lembram, gostaram muito mais do Asterix), a Lindóia, São Lourenço, Caxambu, Canela e Gramado. Farei de tudo para que nem saibam que existe um parque de diversões na Flórida. Se depender de mim, jamais, morte ao Mickey, ao Pateta (que é viado), àquele bando de órfãos mal-resolvidos sobrinhos do Pato Donald, ao porco capitalista Patinhas, à vagabunda da Margarida e a todos eles, tudo cria de outro porco dedo-duro macartista chamado Walt Disney, que o inferno o tenha.Disponho ainda uma hora e trinta e seis minutos de bateria, mas não se incomodem, estou ficando com sono.Já falei da Estatualândia, aonde mais posso levar meus filhos sem contaminá-los? Berlim. Lá tem o museu de Checkpoint Charlie (se não sabe o que é, descubra), ótimo lugar para contar histórias, talvez Aushwitz e Dachau, onde estive outro dia, Hiroshima, Nagasaki. Aliás, tenho contado muitas histórias de guerra para meus filhos dormirem. Aboli Cinderela, Três Porquinhos e Chapeuzinho Vermelho, que em algum momento de sua vida você acaba contando, para que eles durmam logo e você possa ir ver TV. Estão fora do repertório caseiro. São histórias nocivas, a madrasta da Cinderela era uma vaca e suas filhas, idem, e a Cinderela era uma galinha, saiu dando para o príncipe no primeiro dia, se fosse um plebeu qualquer, nem olhava na cara. Dos três pequenos suínos, dois eram bichinhas e o outro um assexuado pervertido que, isso eu vi numa fita, não é mentira minha, inventou uma mesa de tortura para colocar o lobo, aquele famélico e ridículo lobo que consegue enganar a cretina da Chapeuzinho, incapaz de distinguir uma avó de uma besta fera. Isso não é para meus filhos, lamento.Agora tenho contado histórias da Segunda Guerra, falo dos camicases e dos países do Eixo, de Hitler e Churchill, de Mussolini e De Gaule, dos aliados e da FEB, descrevo campos de prisioneiros, bombardeios, gueto de Varsóvia, combates sangrentos e ataques noturnos, explico o que é blecaute e gasogênio, falo também da guerra no Iraque e digo sem subterfúgios o que penso dos americanos. Não sei se têm idade para entender direito, um fez cinco anos agora, o outro vai fazer quatro, mas acham legal e dormem logo, também, especialmente o mais novo. O mais velho pergunta sempre quantos morreram nas guerras que conto, e um dia me falou, esse negócio de guerra é bem feio, né pai?, e eu disse que é feio pacas, mas que ele pode ficar tranquilo que no Brasil não tem. E quando fomos a Caxambu ele perguntou se em Caxambu tinha guerra, e eu disse que em Caxambu também não tem. Um pai tem de tranquilizar os filhos.Vou dormir, gosto de dormir no avião e sonhar que ele está caindo, para acordar e ver que não caiu.