Thursday, October 05, 2006

O adestrador para presidente

Nos arredores da avenida Paulista, perto dos prédios da Gazeta, da Jovem Pan e da tradicional maternidade Pro Matre, perambula habitualmente um adestrador de cães. Passo de carro por ali, todo dia, na hora do almoço, a caminho da academia. Já o vi com vários animais diferentes. Minha pouca afinidade com os bichos me faz ignorante quanto aos nomes das raças. Há algum tempo, andava com um daqueles que parece uma salsicha, igual ao do antigo comercial da Cofap (ainda existe essa marca de amortecedores?). Nos últimos dias, é um cão corintiano, alvi-negro de pelagem longa, parece a Lessie.

O homem tem aparência simples. Baixinho, moreno, veste sempre uma camiseta com a inscrição “adestrador” no peito. Deve ter orgulho da função e não é para menos. De algum tempo para cá, quando o avisto, já não foco o olhar nele e no cão, mas nas pessoas à sua volta. Invariavelmente, olham-no enternecidas, com bocas de sorriso tímido. Há que ter coragem para sorrir escancarado no centro financeiro-nervoso de São Paulo. Meio sorriso já é um evento.

Em todas as vezes que o observei, atentei menos para a coreografia dos cães e mais para a dinâmica do adestrador. Os bichinhos sentam, deitam, equilibram-se em duas patas, oferecem uma das patinhas, nada que não se tenha visto em programa dominical. Mas o que me encanta é a condução do processo. O homem orienta os cães em voz baixa, não faz gestos abruptos. É um paradoxo dos gigantescos: um homem falando em voz baixa com um cão, a uma quadra dos decibéis enlouquecidos da mais paulista das avenidas.

Ora, dirão os entendidos, o cachorro tem o ouvido melhor que o nosso, escuta mais, por isso não se precisa gritar. Ah, é? E o amor nos olhos daquele homem, que lei da Física explica? E seus gestos brandos, e sua calma, e o respeito que denota a cada nova ordem? Nas minhas observações no entorno, vejo a admiração dos transeuntes. Não sei dizer o que lhes vai na alma. Se mais os impressiona a obediência e a capacidade dos cães em atender as ordens do mestre ou se, como a mim, encanta a eles a delicadeza do adestrador.

Chegou a se agitar em mim um pensamento torto, rebelde, tolamente incendiário: sadismo dessa gente! No fundo, queremos ver um homem dominando um animal, fazendo-lhe submisso. Aquietou-me o bom pensamento: isso é educar, ensinar, incluir no convívio do grupo. Há que fazer isso com as crianças, com os animais domésticos. O educador Paulo Freire já ensinou: mais importante que a educação é a “amorização”.

Sonho com o dia em que todas as relações sejam como as desse homem com seus bichos. Amor, amor, amor. Com amor se ensina, se corrige, se acostuma, se molda, se cresce. É demais sonhar com um país que se paute por isso? Se for demais, sinto muito. “Eu nunca quis pouco.”

Wednesday, October 04, 2006

Dois turnos

Lula é Fernando Alonso? Alckmin é Michael Schumacher? Vai lá no GPTotal e descobre! Depois, me diz o que você acha.

Saturday, September 30, 2006

O que não é mais, o que é para sempre

Em 1981, quando Gilberto Gil lançou o disco "Luar", pouco prestei atenção à faixa "Flora", dedicada à então jovem esposa do hoje ministro. Aquele disco teve muitas músicas de sucesso, como "Palco", "A gente precisa ver o luar", "Cores Vivas", "Se eu quiser falar com Deus" e "Lente do Amor", esta última tema de abertura do seriado "Amizade Colorida", da TV Globo. Um tremendo disco! O fato de eu não prestar tanta atenção a "Flora" talvez tenha tido relação com a maior divulgação das outras músicas. Ou também por outra razão: com apenas 11 anos, na época, eu talvez não tivesse mesmo sintonia com uma música de amor tão delicada, nem maturidade para entender o conteúdo e a profundidade daqueles versos.

No ano seguinte, Gil lançou o também admirável "Um Banda Um", que tem "Andar com Fé", "Metáfora", "Esotérico" e "Drão", uma das mais tocadas do disco, dedicada à ex-esposa de Gil, Sandra, conhecida entre amigos e familiares como Drão, corruptela de Sandrão. Nunca esqueci o comentário da minha mãe, naquela época. Antes, cumpre-se informar que minha mãe é de Touro. Do pouco que entendo de Astrologia, e entendo pouquíssimo, sei que os taurinos são o ápice do ciúme. Ela disse algo como: "Se eu fosse a mulher do Gil, mandava ele passear. Como é que faz uma música para a ex-mulher mais bonita do que a que fez para atual?"

Não contestei a opinião dela e acho até que vivi alguns anos concordando que "Drão" era mais bonita que "Flora". Até que um dia, ouvindo a gravação do show "Trem Azul", o último de Elis Regina, subitamente me vi tocada às lágrimas com "Flora", que Elis provavelmente gravaria no disco planejado para aquele 1982 fatal. Naquele momento, "Flora" revelou-se para mim e definitivamente contestei minha mãe (não que tenha dito isso para ela; ela provavelmente só saberá da minha discordância quando - e se - ler este post.)

"Flora" revela o amor maduro de Gil por uma mulher que se afigura a ele como a musa eterna. Olhando para a jovem, ele nela enxerga seu próprio futuro. Vislumbra a jovem como idosa e se vê ao seu lado, vivendo da sombra de sua maturidade, trocando mesmo de papel. No presente, o poeta é um homem vários anos mais velho que a amada e lhe transfere a condição de segurança e sabedoria. No futuro, ela é a árvore frondosa, sob cuja copa ele contempla a própria vida, multiplicada em frutos - sonhos, filhos - de uma existência conjunta, única, uma amálgama de dois seres. Como se já não existisse o velho e a jovem, nem o homem e a mulher, mas um único ser, unificado em uma realização comum, a materialização genuína do amor.

"Drão" é o hino de um amor transformado, a ode a uma relação localizada no passado, intensa e igualmente frutífera, mas que se sublimou em outro tipo de amor. Não por acaso, "Flora" é uma árvore, forte, plantada, fincada na vida do poeta, enquanto "Drão" recorre igualmente à idéia do grão, da geração da vida que, no entanto, tem que morrer para germinar, desprender-se da terra, tornar-se infinito, ganhar a amplidão do espaço para assim se realizar. "Drão" é, sim, uma declaração de amor de Gil a uma musa, mas de um amor que não é mais o amor que costumava ser, ou que se percebeu diferente ao longo do tempo, na descoberta de outras formas de amar, talvez mais intensas, ou mais perenes, ou mais completas.

Em "Flora", o poeta joga-se nas mãos da musa, coloca nela seu futuro e a crê para sempre. Em "Drão", Gil consola-se e consola a musa do fim de um amor que só poderia ter esse destino, mas que nem por isso deixou de ser amor.

Os poetas talvez saibam amar melhor que nós outros.

Veja as letras das duas canções, abaixo, e fique muito à vontade para dizer se concorda comigo, com minha mãe ou, na linha do que diria o próprio Gil, se "a complexidade do tema está justamente na contraposição das expressões diversas da manifestação amorosa".

Flora
(Gilberto Gil)

Imagino-te já idosa
Frondosa toda folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ô, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ô, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda madura
Pura no sabor de amor
E de amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono com certeza
Debaixo da tua sombra
Ô, Flora

Drão
(Gilberto Gil)

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar n'algum lugar
Ressucitar do chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhada dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver
Há de haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre e nasce trigo
Vive, morre pão

Wednesday, September 20, 2006

Um cockpit para Gandhi

Já está no ar a coluna "Um cockpit para Gandhi", no GPTotal. Achou estranho? Vá lá e entenda.

Monday, September 18, 2006

Bife à rolê

Minha avó Maria era uma trasmontana com grande talento para a liderança. Isso eu diria se estivesse traçando um daqueles perfis psicológicos de empresa. Em português de Portugal, eu diria que ela gostava de mandar e exercia enorme influência sobre os seus. O pendor para comandar tanto podia ser traço inato quanto forja da vida. Consta que perdeu a mãe muito cedo e se esmerou na criação dos irmãos menores. Por conta disso, só se casou aos 26 ou 27 anos, idade já crítica para uma mulher desencalhar na primeira metade do século passado. Conheceu meu avô no Brasil, ele também lusitano e bem entrado em anos. Devia ter uns quarenta quando juntaram os tamancos.

Talvez pela dureza da vida, ou por ser mesmo muito prática, Vó Maria tinha especial metodologia quando o assunto era comida. Não parecia muito afeita a pensar no tema. Comida era para ser comida e ponto final. Suspeito que tal abordagem fosse típica da geração de imigrantes a que pertenceu. A avó do meu marido, também de Trás-os-Montes, respondia curta e grossa quando uma das filhas questionava acerca de alguma iguaria sobre a mesa. “O que é isso, mãe?”. “É de comer e calar.”

Minha avó portuguesa fazia sempre o mesmo prato a cada dia da semana, como se a casa fosse um restaurante tipo prato feito. Com isso, não esquentava a cabeça nem na hora de fazer as compras. Era sempre tudo igual. Mantivemos o hábito de almoçar com ela todos os domingos, até sua morte, em 1981. Enquanto meu avô era vivo, o encontro era em torno da mesa caseira. Depois, ela passou a preferir restaurantes.

Lembro-me pouco, mas sei que nesses almoços privados havia sempre um macarrão de forno. Coisa prática de se fazer antes e finalizar na hora de servir. Cozinhava um talharini. Pegava uma forma de buraco, untava e passava farinha de rosca. Revestia a forma com fatias de presunto. Acomodava ali a massa cozida, intercalando camadas de macarrão com pedaços de queijo. Depois, batia uns ovos e jogava por cima. No forno, gema e clara batidas amalgamavam tudo, virava uma espécie de torta. Todo domingo, sempre.

Com as mães e avós daquela época, não tinha essa história de não gostar. A comida era aquela e pronto. Se gostava, comia. Se não gostava, fazia birra, apanhava antes e comia depois. Nunca levei dela nem palmadinha na bunda nem vi minha avó bater em ninguém. Mas, com aquela autoridade no olhar e no discurso, desconfio que nem precisava.

Terça-feira era dia de bife à role, que devia ser feito com coxão duro, recheado de várias coisas, entre elas, lingüiça. Meu pai sempre detestou carne de porco e, na certa, torcia o nariz para a brachola lusitana por conta do embutido suíno. Problema dele. Já adolescente, começou a ganhar asas nas rodas de uma bicicleta. Certa terça, já sentindo o refogado chiar na panela, resolveu livrar-se do desafeto gastronômico da semana. A única irmã, nove anos mais velha e já casada, morava uns bons quilômetros distante da casa materna, mas inventou de ir visitá-la. Um pouco para fugir do bife à rolê, muito mais para rever a mana. A diferença de idade não impedia o enorme afeto entre os dois, que fazem muita falta entre nós hoje.

Subiu na magrela e rumou para o Jardim da Glória, um simpático recanto entre a Aclimação e o Ipiranga. Sobe ladeira, desce morro, chegou à casa da irmã. Era terça-feira e, se você prestou atenção ao talento para influenciar pessoas da minha avó e ao título desta crônica, já sabe o que tinha de almoço na casa da minha tia, naquele dia.

Monday, September 11, 2006

11 de setembro - O que você estava fazendo?

Tive bronquite alérgica durante toda a infância. Mal de família. Alopatia, homeopatia, simpatia. De tudo, o mais eficaz era a tetraciclina, antibiótico danado que sossegava os brônquios no imediato, mas deixava seqüelas no futuro. Os dentes permanentes, ainda nem nascidos, vieram com uma coloração acinzentada que me mortificava. Não fossem minhas péssimas relações com a balança, durante muitos anos da vida, eu teria atravessado a adolescência com vergonha dos dentes. Anos depois, afinei a silhueta, daí mirei na boca. Meu médico me indicou o dentista, seu amigo do peito, e fui bater às portas do dr. Marcelo. Comecei o tratamento e ele me aconselhou: evite o café. Resolvi levar a orientação a termo bem naquele dia. O café da manhã foi sem café, mas dr. Marcelo falou, está falado. Nunca imaginei que seguiria tão à risca o que me diz um palmeirense, mas com ele foi e é assim.

Ajeitei a agenda de modo a ficar com a manhã livre e poder levar meu filho para fazer um exame. Um mês antes, uma infecção urinária nos assustou e a pediatra nos indicou uma bateria de procedimentos, para excluir suspeitas. Ultra-som das vias urinárias, lá vamos nós. Sempre adorei ultra-som, que conta a história na hora, sem depender de revelações posteriores. Depois, trabalhando muito com médicos, descobri que ultra-som é o que eles chamam de “operador dependente”, ou seja, a máquina só vai mostrar bem se o médico que o opera souber fazê-lo com competência. A médica japonesa que examinou meu filho devia ser das boas, porque poucas passadas do aparelho foram suficientes para ela dizer a frase que todos gostamos de ouvir de homens e mulheres de branco. “Está tudo normal.”

Enxaqueca é uma dor de cabeça lancinante. Parece haver uma mãozinha dentro de seus miolos querendo empurrar um dos olhos para fora. Há quem sinta enjôos e náuseas e quem veja estrelas. Nunca fui acometida por tais alucinações visuais – minha mente parece viajar por conta própria, sem o auxílio da dor. Na variedade de sintomas, todos parecem se unir em um desejo comum: um quarto escuro e silêncio. Quem já tomou remédio para enxaqueca deve saber que muitos deles são feitos à base de cafeína. A enxaqueca está muito associada a mudanças de hábitos: dormir menos ou mais do que se costuma, ingerir álcool ou alimentos gordurosos, ficar muito tempo ao sol, submeter-se a uma situação de estresse, beber muito café ou menos que de costume. Naquele dia, 11 de setembro, não bebi café algum.

Saí do centro de diagnósticos com a alma leve, certa de que meu filho não sofria de nenhuma anomalia nos rins ou na bexiga. Bem antes que a enxaqueca aniquilasse meu dia. Liguei o rádio na Bandeirantes AM e peguei uma entrevista começada. Um homem dava testemunho de um acidente ocorrido no World Trade Center. Achei que era o da Marginal Pinheiros, veja só. Ao longo da entrevista, entendi que era Nova York, que não era um acidente e que o entrevistado era jornalista e tinha sido meu colega veterano na universidade. Enquanto ele falava, outro tumulto. O segundo avião batendo na segunda torre. Ah, os jornalistas! O mundo inteiro sabia daquilo, mas eu tinha que contar para alguém. Liguei do celular para meu marido, que estava em reunião, já sabia mais ou menos do ocorrido, mas ainda não tinha noção da gravidade. Deixei meu filho em casa e fui trabalhar, como se fosse possível produzir alguma coisa naquele dia.

Na hora do almoço, fui correr meia horinha na esteira e gostei de ver todas as TVs da academia ligadas nos noticiários. O tradicional som tecno emudeceu para ouvirmos os repórteres. Lembro de um professor indignado com a atitude de uma aluna, que andava calmamente na esteira, escutando música em seus fones de ouvido. “Em que planeta essa menina vive?” Quando voltei para o escritório, estávamos sem luz. Pergunta daqui, reclama de lá, a concessionária de energia elétrica informa que a ligação havia sido desligada naquele dia, conforme solicitação. O peso na cabeça, que vinha se acentuando, começou a virar agudas pontadas. Solicitação de quem? Esbravejei ao telefone e solicitei urgente outro técnico no local. E ele veio e confirmou que tinha desligado a força do conjunto 33, conforme solicitação. Mas eu sou do 34!!! Eu falava e repetia, e a cabeça latejava. Antes de anoitecer, entreguei os pontos. Hoje não é dia, vou pra casa. Cheguei louca pelo quarto escuro, nem os noticiários da noite vi.

Foi assim meu 11 de setembro de 2001, e o seu?

Em tempo: meu tratamento de clareamento dental foi um sucesso retumbante. Prof. Dr. Marcelo Poloniato levou meu caso para congressos e chegou a receber aplauso em cena aberta quando mostrou minhas fotos de antes e depois! O escurecimento por tetraciclina era tido quase como um caso perdido na comunidade odontológica. E talvez os especialistas tenham descoberto que o café não prejudica o tratamento, porque é óbvio que, do dia 12 de setembro em diante, nunca mais fiquei sem café.

Sunday, September 10, 2006

The end

Revirei a caixa dos telex em busca de alguma novidade. "Tem notícia aí, Alves?", um dos editores perguntou. "Definiram o substituto do Gachot, um alemão. Peraí que vou olhar de novo o nome dele. Schumacher. Nunca ouvi falar." Ninguém tinha ouvido. "Escreve um módulo 100", pediu-me o chefe, indicando o tamanho da notícia. Módulo 100 era a mais curta delas, naquele projeto editorial da Folha.

Bertrand Gachot, titular da equipe Jordan, não correria o GP seguinte, na Bélgica, por um motivo esdrúxulo. Estava preso na Inglaterra, depois de uma briga de trânsito, na qual resolvera a contenda disparando gás paralisante no outro motorista. Assim começou a carreira de Michael Schumacher na Fórmula 1. Hoje, 10 de setembro, quinze anos depois, ele anunciou que ela termina no dia 22 de outubro, no GP do Brasil.

Vi tudo. E agora acabou. Semana passada, Agassi. Hoje, Schumacher.O futuro sorri a eles, também nos sorri. Os Stones lembrariam que o tempo está do nosso lado. Time is on my side, yes it is... Mas é difícil, difícil demais, levantar a âncora do passado.

Wednesday, September 06, 2006

A cerimônia do adeus

No ar, minha mais nova coluna no GPTotal, falando sobre a aposentadoria (ou não) de Michael Schumacher. Vê lá, vai!

Monday, September 04, 2006

Homem não chora

...


Desculpem a insistência no tema, mas estou mesmo sensibilizada com a aposentadoria de Andre Agassi. Os anos e a brutalidade do mundo vão se encarregando de endurecer nossos corações juvenis e chegamos à maturidade com tiques de ceticismo. Às vezes, nada parece sincero. Tudo pose, tudo fake, tudo feito para a TV. Mas, sei lá, Agassi me derrubou. Talvez por ter exatamente a mesma idade que eu, o norte-americano, ao dar adeus às quadras, me bateu de leve no ombro e cochichou: “é, mana, você está ficando velha.”

Agassi não encerrou sua carreira no auge da forma. Portanto, poucos apostariam que ele se despediria do tênis conquistando mais um título, como fez Pete Sampras. Logo, cada uma das três partidas que disputou no Aberto dos Estados Unidos tinha potencial para ser a última. A primeira, contra o romeno Andrei Pavel, não foi exatamente fácil. Agassi perdeu o primeiro set e venceu os três seguintes. A segunda, contra o cipriota Marcos Baghdatis, foi de arrancar o couro. Jogo com mais de três horas, decidido em cinco sets. Foi demais para o veterano.

Ontem, dia 3 de setembro, os cacos de Agassi entraram na quadra para enfrentar o alemão Benjamin Becker, que até agora só figura na história do tênis por ter vencido a última partida disputada pelo norte-americano. Esse Becker não tem nada a ver com o Boris, número 1 que dividiu glórias e títulos com Ivan Lendl nos anos 80. Só apareceu para ser o outro, a sombra, o J. Pinto Fernandes da história.

Drummond não escreveria sobre a derradeira partida de Agassi, um 3 a 1 qualquer, como tantos. Agassi perdeu, encaminhou-se para a rede, como pede a etiqueta tenística, cumprimentou o vencedor, foi para sua cadeira, sentou-se e começou a chorar. Talvez nessa hora, o poeta mineiro se animasse. A platéia estava lá para isso mesmo, por isso se levantou inteira e despejou-lhe palmas, gritos, vivas e mais lágrimas. Talvez nenhum espectador lá estivesse para ver a vitória, mas para presenciar a história. E a história só se faria com a derrota. Um bando de urubus, na verdade nua e crua.

Agassi, como era de se esperar, pegou o microfone e dirigiu à turba o discurso guardado na mente havia alguns meses. Palavras sem originalidade, juras de amor e gratidão. Poderia até soar fake, não fossem os soluços entrecortando a fala. E as lágrimas escorrendo, e aquela fisionomia de alegria triste que marca o ser humano nas horas cruciais. Aquelas horas estanques que determinam o nada será como antes. Casamento, formatura, despedida. Por mais aguardado o momento, por mais alvissareiro o futuro, é difícil levantar a âncora do passado. Alegria triste.

Ah, se os homens soubessem como amamos suas lágrimas...

O quanto ficam mais humanos, mais sensíveis, mais acessíveis, mais ternos, mais doces. Não, não queremos manteigas derretidas, bezerros desmamados, histéricos descontrolados. Não queremos e não seremos cataratas instantâneas a cada emoção ou contrariedade. Que nem homens nem mulheres tenham a prerrogativa do choro. Nem a do não-choro. Não sejamos modelos. Sem essa de mulher chora à toa. Nada de homem não chora. Homem não chora. Quem chora é gente.

Thursday, August 31, 2006

Nouvelle cuisine

Quinta-feira era dia de macarrão. Minha família não tem nada de italiana, nunca entendi por que se consolidou essa tradição, mas assim era. Talvez um hábito absorvido de fora para dentro de casa, pois todo restaurante tipo “prato feito” de São Paulo podia destacar-se pelo tempero, nunca pela originalidade. Segunda, virado à paulista. Terça, dobradinha. Quarta e sábado, feijoada. Quinta, macarrão. Sexta, peixada.

Lembro que o costume do macarrão às quintas foi particularmente forte no ano de 1980. Ah, a catequese... A turma de meninas seguia para a igreja lá pelas nove da manhã, comprometidas em assistir às aulas da dona Neusa. Uma das mães se encarregava de buscar todas – cinco ou seis – levava para a casa, servia o almoço e depois despejava o grupo na escola.

O cardápio era invariavelmente igual: salada de batatas, bife à milanesa e macarrão. Deus e Dona Neusa que me perdoem, mas eu não via a hora de acabar a aula, salivando pela mistura carbo-calórica que me aguardava. Deus teve de seguir me perdoando enquanto freqüentei a igreja católica e suas missas, porque continuei ansiando pelo fim do ritual, mesmo sem macarrão com bife à milanesa como prêmio, só esperando a parte da missa que mais me enchia de alegria, o “vamos em paz e o senhor nos acompanhe”.

Macarrão, naqueles tempos, não era massa nem pasta. Era macarronada e era muito diferente do que se pede hoje em restaurantes bacanudos da metrópole. Ninguém nunca tinha ouvido falar em grano duro, al dente, pesto, tomate seco, mussarela de búfala. Aliás, ninguém nunca tinha ouvido falar em búfala e rúcula era uma verdura amarguinha que, vez em quando, aparecia na salada, meio exótica.

Macarronada era assim: cozinhava o macarrão, esquentava o molho, escorria a massa, jogava em um pirex com um pouco de manteiga, misturava bem para o macarrão não grudar, jogava o molho, bastante molho, misturava tudo e servia, com queijo ralado por cima.

Daí veio a nouvelle cuisine e seus pratos lindinhos de se ver. Mataram a macarronada. O próprio macarrão foi para o limbo. Restaurante modernete que se preze não serve macarrão, serve pasta. Que é feita de sêmola de grano duro, ou coisa que o valha, cozida al dente, acomodada em um prato fundo, com uma conchinha espartana de molho pomodoro jogada no meio, e um buquê de algo verde decorando no centro. Praticamente uma obra-de-arte.

Nem vou entrar no caso do bife à milanesa, que apanhou tanto, mas tanto, a ponto de se transformar de suculento pedaço de carne em uma solinha de sapato chamada paillard.

Só que, de quando em vez, parece bater uma nostalgia de macarronada no público pagante. E uma pontinha de remorso nos chefs das casas badaladas. Daí colocam no cantinho do cardápio, bem blasé, quase imperceptível, um adendo salvador. Abaixo das pastas finamente acompanhadas de paillard, surge simpático o “molho extra”. Continua vindo a pasta, elegante com sua borda imaculada, o molho só ao centro. Mas junto vem o potinho de molho extra, para que o comensal chafurde feliz o macarrão naquele exagero de tomates pelados liquefeitos, transformando sua pasta al dente de grano duro em uma familiar, suculenta e saborosa macorronada.

Tuesday, August 29, 2006

Brevíssima aula de jornalismo

Ontem, noticiou-se a morte da suposta pessoa mais velha do mundo. Agora, leitores, respondam: quantas vezes, só neste ano, a pessoa mais velha do mundo já morreu? Mês sim, mês não, somos brindados com uma notícia desse teor. Ora, na faculdade de Jornalismo me ensinaram que notícia não é o cachorro que morde o homem, mas o homem que morde o cachorro. Portanto, onde está a notícia no fato de uma pessoa nascida no século 19 morrer em pleno 2006?

Sempre que me deparo com uma notícia dessa, fico procurando sua antítese, mas nunca achei manchete deste tipo - "Nasceu a pessoa mais jovem do mundo".

Um fato curioso relaciona-se ao segredo da longevidade desses centenários: o esporte. Jamais o praticaram.

Monday, August 28, 2006

O adeus a um americano de esquerda

...


Andre Agassi estréia hoje no Aberto dos Estados Unidos para dizer adeus. O jogador de 36 anos, atual número 35 do mundo, anunciou sua aposentadoria depois de 20 anos de carreira, 60 títulos conquistados em 90 finais disputadas. Em Flushing Meadows, o complexo que abriga o USOpen, Agassi reinou por duas vezes, em 1994 e 1999. No ano passado, perdeu a final para Roger Federer, o suíço número um do mundo.

Que sejam esses os fatos, o encerramento de uma carreira coroada de sucesso, não se discute. Mas por que, então, meu coração está apertado, como se estivesse me despedindo para sempre de alguém querido, como se este fosse o último dia das férias? Por que dói em mim a certeza do nunca mais, se sempre terei os tapes de seus jogos, se a qualquer tempo poderei relembrar aquele backhand espetacular?

Mais do que a esquerda mortífera, Agassi passeou pelo saibro, pela grama e pelos pisos rápidos munido de uma arma que não se conquista com treinos – carisma. Menino prodígio rebelde, cabelos em desalinho, norte-americano na bandeira, italiano no sangue e nas brigas com juízes de linha, de cadeira, nos gritos consigo mesmo. Tinha a cara dos anos 80, roupas coloridas, um jeito new wave de desafiar o aristocrático e chatinho mundo do tênis. Depois dele, só quem desarmou a sisudez das quadras imaculadas foi Gustavo Kuerten que, não por acaso, foi festejado após o primeiro dos três títulos em Roland Garros tanto pelo jogo quanto pelo sorriso cativante.

Na mesma proporção em que ganhava títulos, milhões e mulheres, Agassi perdia cabelo. As longas e despenteadas madeixas, sempre acompanhadas de faixas na testa, foram substituídas em 1995 por um “penteado” arrojado para aqueles tempos. Raspou a cabeça antes que outros branquelos como ele aderissem ao visual consagrado pelos negros do basquete. Altos e baixos se sucederam: em um ano vencia Wimbledon, no outro, uma operação no pulso. Quando muitos já se preparavam para acender a vela de sete dias de sua carreira, ressurgia fulminante.

Foi muito bom de marketing, casou-se com a bela Brooke Shields, naufragou com ela no casamento – uma das “boas” crises de sua carreira – virou ativista da Unicef, pareceu ter encontrado o equilíbrio no casamento com a alemã Steffi Graf, até hoje e para sempre meu grande ídolo no tênis internacional.

Milionário, consagrado, adorado por seu público, pô! O que faz persistir esse gosto de ressaca na boca da minha alma?

Penso, respiro, reflito.

Não é dos cabelos desarrumados de Agassi, nem de sua esquerda potente, nem de sua força de superação que sinto saudade. Um ídolo do esporte que se aposenta, depois de uma longa carreira que vimos e vivenciamos por vinte anos, leva consigo uma parte da nossa própria história. Pesa em nossos ombros com o determinismo de frases saudosistas que brotam antes que possamos escamotear. “Esse eu vi jogar”. E já não joga mais.

Thursday, August 24, 2006

I love you, Tony

...


“A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.”(Riobaldo, Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa)

- Mãe, você, por favor, pode comprar duas caixas de Sucrilhos?
O pedido, com sentido de urgência, veio no meio da tarde de segunda-feira, soando inusitado. Raramente come Sucrilhos, duas caixas para quê? Justificativa rápida e, em sua lógica, justíssima. O amigo apareceu com duas bolinhas vindas de brinde nas caixas do cereal. Cada caixa, uma bolinha. Logo, duas caixas. “Você traz?”, insistiu.
Averigüei a descrição das tais bolinhas, para confirmar a suspeita. Só podia ser promoção do período da Copa. Em pleno agosto, já era, não vamos encontrar. “Mas você pode procurar?”, tornava a perguntar. Vencer o jogo, talvez. Entrar em campo, sempre. Para não transparecer derrotismo – “não vamos encontrar mesmo” – concordei em levá-lo ao supermercado, à noite.
Vasculhamos todas as embalagens de cereais disponíveis. A ressaca da Copa foi evidente, nada de bolinhas. “Vamos perguntar para alguém”, sugeriu, como se a dinâmica de auto-atendimento dos supermercados pudesse supor alguém atrás do balcão para dar conta de tudo que não se acha. Examinando uma das caixas, uma pista: www.sucrilhos.com.br.
Ainda na casa da avó, me fez suplicar informações para dona Kellog´s. O site tinha o indefectível “Fale conosco” e falei, pedindo ajuda. Onde uma mãe instigada poderia encontrar o brinde descontinuado para o filho? A resposta automática veio em segundos. No dia seguinte, bem cedo, uma resposta personalizada repousava em minha caixa postal. “O brinde a que a senhora se refere é o futebag, distribuído por ocasião da Copa do Mundo. Como já não é atual, será difícil encontrá-lo no varejo, mas teremos prazer em enviar uma unidade para seu filho. Por favor, informe o endereço completo.”
Claro que o fiz no mesmo instante, esperançosa e muda. Não se comenta esse tipo de expectativa com uma criança de seis anos. Você pode não ter filhos, mas já teve seis anos e sabe como o próximo domingo fica longe, como custa para chegar o dia de ir à praia.
Na sexta, chegando em casa, fim de tarde, um envelope alaranjado esperava embaixo da porta. Ele nem notou, claro, não esperava nada. Meu coração palpitou. Guardei as compras, limpei a área, fechei a porta, desliguei o celular. Nenhum intruso, visual ou sonoro, tinha o direito de macular aquele momento. Blasé, peguei o envelope e coloquei sobre a mesa. “Vem ver essa carta que chegou”, pedi. Antes de ver o próprio nome constante como destinatário, bateu o olho no logo, canto esquerdo do envelope. “Uma carta da Kellog´s?!”
Os olhos foram se arregalando e tive a impressão de ver as sinapses acelerando a cabecinha sempre tão veloz. “Abre, mamãe, me ajuda, será que mandaram a bolinha?”. Mantive a fleuma de não rasgar o papel. Alguns papéis devem ser guardados, como o envelope da primeira carta que se recebe. O brinde veio embrulhado em plástico, tal como devia vir na embalagem de Sucrilhos. Pôs a mão no peito, como acusando o coração disparado. “Ai, que emoção, nem acredito!”
O futebag é nada mais que uma bolinha de tecido, recheada com alguma coisa que podem ser pedrinhas, ou qualquer material que deixe o conjunto pesado. No ato, me lembrou aqueles saquinhos cheios de arroz que a vó Elza costurava para a gente jogar. Sabe como é? Uns saquinhos minúsculos, que o desafiante deve jogar um a um para cima, enquanto pega o outro, até encher a mão com todos eles.
Por coincidência, o futebag que veio tem a inscrição “1970” e três estrelinhas. O ano do tri, o meu ano. Nada mais que um saquinho. “Puxa, essa Kellog´s, hein?! Como foi legal! Agora, você tem que comprar Sucrilhos sempre!”
Antes que o coisa ruim passasse a mão sobre minha cabeça e me influenciasse a tecer comentários malévolos à empresa gringa – “safados, é assim que eles capturam seus clientes!!!” – a fada dos bons pensamentos me aconselhou. Foi um gesto simpático, nada mais que uma atitude gentil. Nada mais que um saquinho de pano. Só um sorriso, olhos arregalados, coração disparado, a primeira carta. Um gesto, tudo.

Monday, August 21, 2006

GPTotal, ano 5

Minha coluna de hoje, no GPTotal, comemora os cinco anos do site, lembrando 11 de setembro. O que tem a ver uma coisa com a outra? Quem ler saberá...

Thursday, August 17, 2006

Drummond, 19 anos



Eu estava no 3° colegial e, coincidência, estudávamos Drummond nas aulas de Língua Portuguesa daquela semana. Em casa, sempre tivemos o hábito de ouvir rádio desde cedo, então logo escutei a notícia de sua morte. Comentei com a Teca, queridíssima professora de Português, uma das responsáveis por eu ter me tornado profissional da linguagem.

Anos depois, na faculdade, usei trechos de "Os ombros suportam o mundo" em uma reportagem sobre uma sobrevivente de um campo de concentração. Drummond sempre me foi muito caro. São tantas suas qualidades, mas gostaria de destacar uma. Drummond experimentou e ousou com a linguagem sem se tornar uma caricatura. Subverteu as regras de métrica e rima sem, para isso, tornar-se ininteligível. Pelo contrário, é claro, límpido e direto, talvez por isso mesmo tendo se tornado um poeta tão popular.

Reproduzo "Sentimento do Mundo" e convido os amigos a opinar e sugerir outros escritos de Drummond, inclusive prosa, inclusive infantil.

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Wednesday, August 16, 2006

Um pedido especial

Mensagem para todos os blogueiros e neo-blogueiros: agradeço imensamente pelos comentários recentes, muitos deles motivados pelo link no Blog da Soninha. Manda a boa etiqueta da blogosfera que os comentários sejam respondidos com rapidez, mas tive um contratempo hoje e, infelizmente, só vou conseguir dedicar a atenção que vocês merecem amanhã. Peço a compreensão de todos e agradeço!

Monday, August 14, 2006

Adrenalina, suor e Vivaldi

...



(vou introduzir um assunto recente mas, por favor, atentem para os debates nos tópicos abaixo, que continuam a todo vapor. Não vamos nos dispersar!)

A Corrida do Centro Histórico, cuja 11ª edição aconteceu ontem, em São Paulo, já se tornou uma tradição para os corredores paulistanos. É uma prova diferente de todas as outras, que normalmente acontecem em locais como a Cidade Universitária ou parques, como o Ibirapuera e o Villa Lobos. Correr pelas ruas do centro tornou-se um momento muito especial para mim, por muitos motivos.

Primeiro, mea culpa, porque sou uma paulistana de meia tigela, que não conhece o coração da própria cidade. Sou de uma geração de classe média criada longe desse burburinho. A infância e a juventude dos meus pais foi marcada por constantes idas ao centro, ou “à cidade”, como se costumava dizer. Os bairros não tinham todas as facilidades da região central, de forma que qualquer necessidade além do cotidiano implicava em uma visita ao centro. E essas necessidades iam de consultar um oculista a comprar tecidos finos. Estar no centro parece significar, para mim, a volta a um passado que nem é meu, afinal de contas.

Mas há outros motivos para meu carinho com a Corrida do Centro Histórico. O ritual que antecede a prova, por exemplo. É a única ocasião do ano em que tomo o metrô às 6h30 da manhã de um domingo. Na primeira vez, fui meio ressabiada, achando que seríamos só eu e poucas almas penadas. Logo descobri que o metrô paulistano pulsa cedo, mesmo em um domingo de agosto, habitualmente frio. Não foi o caso deste 13 de agosto, que amanheceu quente.

A arena montada pela Corpore, que organiza a corrida, também tem um charme especial. Estendem-se as barracas pelo Vale do Anhangabaú e eu, que nunca fui de passeatas e protestos, me sinto um pouco mais perto da história, do comício das Diretas Já, das comemorações nas Copas do Mundo, dos já longínquos títulos do meu (Las)timão. E o fato de estarmos ali, em lugar apropriado para aglomerações humanas, permite que encontremos conhecidos, troquemos impressões sobre a corrida, tudo muito bom.

Este ano, a Corpore introduziu uma prática muito simpática durante as provas. A exemplo de maratonas tradicionais, como a de Nova York, a organização programa apresentações de grupos musicais ao longo do percurso (fruto da parceria com o Conservatório Musical Souza Lima). Na prova de ontem, a largada foi brindada com um tenor cantando sucessos italianos antigos e outras peças para vozeirões privilegiados. Na Praça da República, uma cantora entoava Volare (Nel blu di pinto di blu). Achei que a coisa estava italianada demais para o meu gosto. Nada contra peças em italiano, mas me pareceu caricato.



Até que cheguei ao Pátio do Colégio e um grupo de câmara, composto por quatro jovens músicos, soltava no ar a melodia do Allegro da Primavera, “As quatro estações”, de Antonio Vivaldi. Deixei-me render pelos italianos: que cena bonita de se ver! Música erudita para todos, e com visível interesse dos transeuntes. Passei (claro!) muito rápido pelo local, mas pude perceber como tinha juntado gente em torno do pequeno palco. E, convenhamos, quem estava no centro de São Paulo, às oito e pouco da manhã de um domingo, não era a fina flor da elite paulistana, o que derruba a tese preconceituosa de que “música clássica é coisa de rico”. O culto à beleza, a fruição da arte é para todos.

Thursday, August 10, 2006

Ciranda de livros

O tema nasceu nas discussões do tópico abaixo ("Vamos defenestrar o ambíguo?") e, para minha grande satisfação, nos colocamos todos a falar sobre livros e experiências de leituras. Como o tema é vastíssimo e como eu não sou nada além de uma leitora dedicada, não terei pretensões de crítica literária. A idéia é compartilhar impressões sobre livros e literatura em geral e me comprometo, dado ao entusiasmo geral manifestado, a periodicamente retomar o tema da literatura, com foco em algum aspecto específico.

Para começar, sugiro que falemos de um livro que tenha marcado intensamente a vida de cada um. Quem gosta de ler certamente terá dificuldade em escolher um só, mas vamos tentar.

"Ciranda de livros" também é o nome da atividade de incentivo à leitura da escola do meu filho, o Gabriel. Cada semana, o aluno leva para casa o livro de um colega até que, encerrado o ano, todo mundo tenha lido o livro de todo mundo.

Vale, novamente, a indicação. Quem quiser saber mais sobre literatura, acesse O Biscoito Fino e a Massa, blog do professor Idelber Avelar que tem, inclusive, um Clube de Leituras virtual.

Começo falando de "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García-Márquez.

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Realismo fantástico, fantasia real

"Cem Anos de Solidão", do colombiano Gabriel García-Márquez, lançado em 1967, foi provavelmente o primeiro livro "adulto" que li. Foi no abrasador verão de 1984, um mês antes que eu completasse 14 anos. Desde os sete, sempre fui uma leitora interessada, mas nunca havia me apegado a um livro como daquela vez. A versão que me caiu nas mãos, emprestada, tinha 364 páginas, que venci em quatro dias.

Não é totalmente verdade dizer que "Cem Anos" foi o primeiro livro de gente grande que li. Antes disso, meninota ainda, dediquei-me a alguns livros de Agatha Christie, autora muito apreciada por meu pai. Ao ler meu primeiro García-Márquez, tive a dimensão do que eram livros para entretenimento e o que era literatura (sem, por favor, entrar em juízos de valor, não por enquanto!).

Talvez tenha sido imprudência entrar na literatura pelas portas do realismo fantástico, esse gênero tão identificado a García-Márquez, que no entanto ele não fundou, mas que ficou indelevelmente associado à sua obra. Imprudência porque a impressão foi tão forte, à época, que depois fiquei algum tempo em dúvida: será que "Cem Anos" me marcou tanto mais por seu universo surreal do que pela qualidade da obra em si?

Afastei essa dúvida a cada nova leitura da obra, na medida em que a riqueza da linguagem, a fluência da narrativa e a exposição de tantos e tão diversos dramas humanos confirmavam que ali estava de fato uma obra-prima, independente do padre que levitava, aparições precedidas de borboletas, uma anciã que encolhia até quase caber numa caixa de sapatos, um bebê com rabo de porco devorado por formigas.

Gente muito mais gabaritada que eu já se debruçou sobre "Cem Anos de Solidão" para dizer o que é, afinal, a fantasmagórica Macondo, o que representa a figura do Coronel Aureliano Buendía, onde estão escondidos mitos milenares nos personagens e fatos da história, o significado daquele final a um tempo tão anunciado e chocante, tão óbvio e tão carregado de angústia. Pessoalmente, a experiência com "Cem Anos de Solidão" ganhou um capítulo riquíssimo e, ouso dizer, alentador, com a leitura de "Viver para Contar", a primeira parte da biografia de García-Márquez, lançada em 2003.

Nesse livro, o autor relembra sua infância, adolescência e os primeiros anos da vida adulta. Muitos dos personagens e fatos contidos em "Cem Anos" são reproduções fantasiosas de personagens e fatos de sua própria vida. Há um fato isolado do período que rendeu, sozinho, um livro inteiro, o também ótimo "Crônica de uma morte anunciada" (leitura recomendada e capítulo obrigatório para estudantes de jornalismo!) O alento vem justamente da percepção que a infância e a juventude de García-Márquez não foram nada de extraordinário, uma vida comum, como a de tantos de nós. E, no entanto, dessa vida ordinária, ele extraiu a matéria-prima para construir uma obra fanstástica, nos dois sentidos. E o alento é perceber que é possível fazer literatura a partir do dia-a-dia mais previsível. Transformar os fatos em um texto imortal é que são elas...

Quem quiser saber um pouco mais sobre "Cem Anos de Solidão" encontra uma breve introdução aqui.

Quem quiser puxar discussão sobre "Cem Anos", esteja à vontade. Quem quiser falar de outros livros, vambora!

Wednesday, August 02, 2006

Vamos defenestrar o ambíguo?

Quem me conhece sabe que me esforço para olhar o mundo sempre por uma perspectiva positiva. Um olhar Pollyanna. Não nasci assim, mas entendi que esse é um jeito mais inteligente de viver, por isso me aplico, com a ajuda de valiosos amigos e mentores, para melhorar e enxergar o mundo pela lente do otimismo. Nesse sentido, acho que vale mais a pena enaltecer o bom que reforçar o ruim. Tudo isso para dizer que não tenho (mais) o hábito de criticar o Galvão Bueno.

Hoje, sou capaz de compreender Galvão como um karma coletivo do povo brasileiro. É aquele ser que veio ao mundo para nos dar a oportunidade de exercer a paciência. Além disso, por mais espontaneidade que possa estar contida nos achados e bordões do locutor, não podemos esquecer que ele é empregado de uma emissora de TV e, se está prestigiado na posição há tanto tempo, certamente isso se dá em razão de ser um funcionário exemplar. Ou seja, cumpre bem as ordens que recebe.

Sublimo tanto a existência de Galvão que sou capaz de assistir a uma partida de futebol ou a uma corrida narrada por ele sem registrar o que ele diz. Talvez tenha sido por isso que não me lembro de duas passagens havidas na última corrida de Fórmula 1, disputada no último domingo, na Alemanha. Mas as duas valem o registro, menos no sentido da malhação habitual, e mais no exercício de reflexão que ensejam.

Primeiro ato. Rubens Barrichello abandona a prova e é entrevistado pelo repórter Pedro Bassan, afirmando que não havia rodado na pista. A imagem mostra que rodou, sim. Bassan retoma o contato com Barrichello, sem que o áudio da segunda conversa vá ao ar. O repórter apenas relata que perguntou novamente sobre a eventual rodada “porque a resposta de Rubinho tinha sido ambígua”. Imediatamente, Galvão pede explicações ao repórter. “Tinha sido o quê?”. Consta que o pedido de explicação veio em tom de reprimenda, como se Bassan tivesse proferido um palavrão no ar.

Segundo ato. Falando sobre algum piloto substituído – provavelmente Montoya (nesse caso, não tenho certeza. Se alguém souber, agradeço o complemento da informação) – o comentarista Reginaldo Leme diz que o piloto tinha sido “defenestrado pela equipe”. Ato contínuo, Galvão emenda: “Tá boa a coisa aqui hoje. Ambíguo, defenestrar...”, apontando as “falhas” dos colegas em usar palavras, digamos, “difíceis” no ar.

De novo, reafirmo: a postura do locutor não pode ser compreendida como mera idiossincrasia (oh, desculpem pela palavra!). É, evidentemente, uma postura da empresa em que ele trabalha. Um dogma que deve ter o seguinte teor: falamos para o povo, e quando se fala para o povo, não se pode falar difícil. Aqui eu acho que cabem a reflexão e o debate. Vou lançar algumas idéias e convido vocês a embarcar e contribuir com outras.

Se a postura é essa, para mim é um desserviço. A emissora de TV é uma concessão pública que implica algumas obrigações do concessionário, como as de informar e educar. Usar palavras e formações lingüísticas cultas, explicando-lhes o significado, é uma maneira de alargar o vocabulário e a capacidade de comunicação de quem assiste. Não vejo mal nenhum, nenhum pedantismo, em usar a palavra “ambíguo”, explicando seu significado, em uma transmissão esportiva.

A própria emissora, se reza por essa cartilha, no entanto já usou o expediente de formar entretendo. Li há alguns meses que o autor Silvio de Abreu aproveitou uma cena da novela das oito para “corrigir” o hábito crescente do chamado “gerundismo” (vou estar ligando, vou estar retornando etc.). E novela das oito é o programa de maior audiência da TV, e é entretenimento puro.

Outro aspecto que vale o debate. Não é uma postura também preconceituosa achar que a linguagem deve forçosamente ser medíocre para que o público compreenda? Eu tenho convicção de que pessoas simples, de origem simples, são capazes de nos acrescentar muito em termos de vocabulário. A Lia, que trabalha lá em casa, vive dizendo que fulano “está engenhando alguma coisa”. Achei a expressão curiosa e fui ao dicionário. Está lá que engenhar é inventar, tramar, criar. Eu não sabia, ela me ensinou.

Ou será que na comunicação de massa só cabe o medíocre e Galvão e sua empregadora estão certos?

Monday, July 24, 2006

Revelação germânica

Te contei que o Schumacher tomou uma tremenda vaia em plena Copa do Mundo? Não?! Então lê a história completa lá no GPTotal e depois me conta o que achou.

Thursday, July 20, 2006

299 vidas

...



D. Pedro II, o filho com cara de avô, nunca poderia supor que seu palácio de verão evocaria tal sentido. A Princesa Isabel, infância de janeiros mais ou menos amornados no recanto onde não urdiu a Lei Áurea, jamais imaginaria que aquelas paredes se associassem aos meus grilhões. O Palácio Imperial de Petrópolis fez parte do nosso roteiro turístico naquele julho de 1981.
Filho com bronquite crônica move pais zelosos à loucura. Pois falaram de um tal médico no Rio, subúrbio de Olaria, e para lá nos abalávamos a cada seis meses. O consultório ficava ao lado da estação de trem, tinha uma escadaria de madeira e um doutor à moda antiga, sem hora marcada, com um jeito de Beato Salu que minha mãe sacou na hora: esse médico é espírita. Aviava uma receita com um pozinho tal que meu irmão aspirava numa bombinha, toda noite. Não sarou da bronquite então, mas ganhamos férias inesquecíveis no Rio.
Paulistas rumo a Olaria invariavelmente terminavam perdidos. E invariavelmente pedíamos orientação a alguém no ponto de ônibus. A cantilena até começava, cheia de uma expressão que eu adorava – “segue reto, toda vida” – mas acabava sempre do mesmo jeito: “Olha, eu estou indo para lá, se quiser me dar carona, vou explicando,”, o que me dava a impressão de que todo mundo ia para Olaria, uma Roma extemporânea nos arrabaldes cariocas.
E o novo guia suburbano subia em nosso Ford sem que tivéssemos qualquer receio, outros tempos. Uma vez, uma dona simpática e bem adiposa comentou que a irmã tinha vindo morar em São Paulo há tanto tempo “que já falava arrastado”. Audácia! Logo nós, paulistas, que falamos sem sotaque! Noutra vez, coincidência maior não houve, um rapaz conduzia a filhinha bebê ao mesmo médico. Ele parecia o Michael Sullivan e foi de sua boca que escutei pela primeira vez a expressão “Cidade de Deus”. Jocoso: “Aquilo é tão triste que antes chamava ‘Cidade do Diabo’, mas nem o coisa-ruim quis, por isso sobrou pra Deus.”
Noutro dia, subindo a serra em direção ao palácio, de novo nos vimos perdidos. Nova parada no ponto e nova carona, mas para um tipo meio estranho, caladão. Dessa vez, ficamos com medo da companhia, minha mãe chegou a censurar meu pai pela acolhida, mas enfim chegamos sãos a Petrópolis. Do museu não lembro patavina. Registro ter apreciado mais o Quitandinha, charmosíssimo hotel e cassino de outrora.
Era dia 23 de julho de 1981. A data martela no último quarto de século não pelo que vi no alto da serra, mas de novo à beira-mar, no banheiro da suíte de hotel, São Conrado. Enquanto os outros apreciavam mais um crepúsculo emoldurando a Pedra da Gávea, meu susto. “Mãe, vem cá.” A mancha cor de chocolate na impoluta roupa de baixo.
Menarca. Nome bom para uma tribo nômade da península arábica. Ou para um vilarejo no sul da Espanha. Nas aulas de orientação educacional, já tinham nos dito que este era o termo correto para a primeira menstruação, mas sempre achei muita banana para um tostão. Nome bonito desse para uma coisa nojenta dessa...
Começava meu capítulo fértil, dali para frente eu já poderia gerar novas vidas, deixava de ser menina, mas a única coisa que realmente me importava, preocupava e atormentava era o modess. Fui a primeira da minha turma a menstruar, e a cada mês, quando tinha de lançar mão do detestável acessório, eu sentia como se um enorme outdoor em cores fosforescentes, e piscante, fosse instalado em minha região pélvica. Todo mundo devia estar olhando para aquilo, claro, que vergonha, que vergonha...
Se eu fosse a Remédios, de Cem Anos de Solidão, cuja menarca foi esperada como sinal verde para o casamento com o Coronel Aureliano Buendía, nessa altura poderia ter um filho de 24 anos. Uma vez, falei isso para um amigo e ele disse que tal circunstância seria bem provável se eu vivesse no interior da Paraíba. Não vivi, nunca mais fui a Petrópolis, continuei em São Paulo marcando encontros mensais com o Velho Chico em meu vale de fertilidade. A cada visita do rio rubro, um óvulo jogado fora. Faça as contas, 25 anos, um óvulo por mês. Não precisa, eu fiz. Amadureci trezentos deles nestas duas décadas e meia. Desprezei 299. Os últimos ataques de Israel ao Líbano já devem ter superado meu recorde.
Fico pensando nessa força estranha – destino, acaso, missão – que pinçou exatamente aquele óvulo (provavelmente o de número 230) para uni-lo a outra célula e transformá-lo em um menino falante, de olhos vivíssimos, que atualmente adora saber tudo sobre ruas. Fico pensando nos outros 299, fantasio se algum deles não poderia ser o novo Mozart, ou dividir o átomo em algo menor ainda, ou ganhar mais títulos em Wimbledon que Maria Esther Bueno, ou descobrir a cura da Aids, ou promover a paz entre árabes e israelenses. Daí fico pensando que tanta vida não vivida talvez tenha me servido de combustível para fertilizar outros campos, para me preparar melhor a gerar e criar o 230, para me deixar aqui pensando. Um por mês, 299. Nem é tanto, que o digam os machos: milhões a cada ato.

Wednesday, July 12, 2006

O estrangeiro

Já está no ar mais uma coluna minha no GPTotal. O título faz referência à obra de Albert Camus, mas o tema é o piloto colombiano Juan Pablo Montoya. O que um tem a ver com o outro? Vai lá e confere!

Thursday, July 06, 2006

Nações x Corporações

O Brasil tinha acabado de ser eliminado da Copa do Mundo, e a preocupação maior de parte dos jogadores brasileiros não parecia ser a derrota, mas a disputa para ver quem cumprimentava primeiro o adversário Zidane. Consta, até, que o brasileiro Robinho foi ter com o meia francês, no intervalo, talvez para garantir a primazia da camisa do craque ao fim do jogo. Companheiros no Real Madrid, na temporada passada, os dois se abraçaram fraternalmente depois do apito final. Robinho não foi o único da seleção brasileira que ficou babando pelo francês. Leio há tempos que Zizou é um tudo-de-bom legítimo: joga aquela bola toda e ainda é muito do bem.

Meu amigo de blogosfera, Pedro Alexandre Sanches, escreveu em um comentário aí para baixo que alguns jogadores brasileiros pareciam gostar mais de Zidane que dos compatriotas. Muito se comentou da falta de rivalidade entre brasileiros e franceses nesse jogo fatal de quartas-de-final, mas esse não foi o único ponto que revelou um inequívoco tô-nem-aí de parte do time brasileiro.

• Terminado o jogo, Adriano e Ronaldinho Gaúcho foram para uma balada germânica.
• No dia seguinte à desclassificação, Ronaldo, o Fenômeno, foi embora para a Espanha, a bordo de sua Raica e de seu jatinho. Na falta de um avião, dois.
• No jogo contra o Japão, com o Brasil já classificado e escalado com meio time reserva, o lateral Roberto Carlos assistia à partida deitado no gramado, como se observasse uma pelada (de qualquer tipo) na praia.
• O mesmo Roberto Carlos, por cansaço, distração ou desleixo, arrumava as meias na hora do gol de Henry, o que tirou o Brasil da Copa.

Falta de interesse, de hombridade, de patriotismo. Excesso de dinheiro na conta. Razões não faltam para explicar a postura apática do Brasil nesse e nos outros jogos dessa (Euro)Copa. Vou puxar mais um: globalização. Quantas e quantos campanhas publicitárias e motes corporativos não temos ouvido, nos últimos anos, louvando o século 21 e sua realidade “sem fronteiras”?

É o que mais se ouve, de propaganda de celular a discurso de presidente de multinacional. Analistas de geo-política também rezam na mesma cartilha: não temos mais nações, temos corporações. Faz muito sentido que um analista de marketing brasileiro, nessa altura, esteja feliz por ver a Itália na final, rindo-se intimamente pela desclassificação do Brasil. Faz sentido se esse analista de marketing for um engravatadinho que trabalha na Puma, inimiga juramentada da Nike.

Onde entram os jogadores brasileiros nessa? Ora, pegue 90% desses profissionais: são oriundos da classe pobre, com histórico de infância e adolescência de restrições de toda sorte (na Copa passada, o fanfarrão Vampeta deu uma entrevista que não me sai da cabeça: vivendo no interior da Bahia, ainda criança, reclamava de fome para a mãe e ouvia dela o seguinte conselho: “vai dormir que passa.”). Não soubessem jogar bola – e não tivessem encontrado algum “bom” empresário em seu caminho – poderiam estar no noticiário não pelo fiasco na Alemanha, mas pelo motim em alguma penitenciária. Mas sabem jogar bola, e são catapultados do sono-famélico (ou da fome-sonolenta) para o estrelato, sem escala.

Logo partem para o exterior, onde passam a viver em um país com condições sócio-econômicas infinitamente melhores que o seu, de origem. Enquanto isso, suas famílias ficam no Brasil, viram novos-ricos da noite para o dia, viram alvos de seqüestro, protegem-se em carros blindados, mudam-se para condomínios fechados. Tal e qual qualquer novo rico, classe média alta – grades e grifes por todos os lados. Ronaldo, em pré-ocaso de carreira, já avisou: fica morando em Madrid mesmo, depois de se aposentar. Jogo a primeira pedra? Eu não. Você joga?

OK, a porta está aberta para a contestação mais imediata: então, porque os franceses, os italianos, os alemães, os portugueses, que também jogam, em sua maioria, fora de seu país, ostentam suas camisas pátrias com orgulho? Não será porque representam a França, a Itália, a Alemanha, Portugal, países que se globalizaram depois que já eram fortalecidos como nações? E não são esses países, mais alguns outros do Hemisfério Norte, que mais se locupletaram com essa nova dinâmica mundial (tão diferente e tão parecida com a expansão marítima pós-Colombo?).

Ainda na primeira fase, a imprensa mundial noticiou e, em grande medida, desceu a lenha nos jogadores da seleção de Togo, que ameaçaram não entrar em campo caso não recebessem tal quantia em dinheiro pela participação na Copa. “Mercenários!”. Ah, claro, Togo é uma nação fortíssima, que enche seus habitantes (e atletas) de orgulho. Vistam a camisa de seu país, seus desertores! Então, me (lhes) pergunto: nós, do Brasil, estamos mais perto de Togo ou da França, da Itália, da Alemanha, de Portugal?

Monday, July 03, 2006

Epitáfio, by Parreira

Pouco antes do início da Copa, surgiu a notícia de que o técnico Carlos Alberto Parreira tinha escolhido a música "Epitáfio", composição de Sergio Brito, dos Titãs, como tema da seleção agora eliminada da Copa da Alemanha. Estava na cara que a coisa não podia dar certo. Felipão sacodia sua "Família Scolari", em 2002, com Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho, e o Parreira afundava seus depressivos jogadores nessa bela música titânica, bela mas ótima para se tocar naquela cerimônia fúnebre do Crematório da Vila Alpina.

Fechado o caixão, proponho uma versão para a letra original. Em tempo: o refrão deve ser cantado pelo lateral Roberto Carlos que, parece, estava ocupado ajeitando a meia no lance do único gol da França:

Devia ter atacado mais
Contra-atacado mais
Posto o Cafu pra correr
Devia ter arriscado mais
Substituído mais
Deixado os caras com o que sabem fazer
Devia ter percebido que a França não é o Braziliense
Que nem todo afro-descendente tem a pontaria de um ganense
O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter segurado menos
Teorizado menos
gritado como o Felipão
Devia ter me importado menos
Com recordes pequenos
Ter tomado mais gols
Queria ter colocado o Robinho logo de saída
Pro Gaúcho entrar com ela dominada, driblando o mundo, feliz da vida

O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter faturado menos
Aparecido menos
Gritado como o Felipão...

Wednesday, June 28, 2006

O bom hedonista

Já está no ar mais uma coluna minha no GPTotal

O tema nasceu de uma notícia da semana passada, mas a reflexão é fruto de muitas discussões correlatas, no blog do Pedro Alexandre Sanches.

Achei interessante fazer essa ponte entre hedonismo (estoicismo, masoquismo e outros ismos) e esporte. Que tal?

Thursday, June 22, 2006

Black is beautiful!

A questão é meramente ideológica, nada esportiva. Minha torcida, em eventos esportivos, obedece à seguinte ordem de prioridades: Brasil, latino-americanos (Argentina inclusive), africanos, europeus do leste, asiáticos, países da Oceania, países do Oriente Médio, europeus ocidentais e, em último lugar, os Estados Unidos.

É certo que, nesta Copa, em dado momento me vi torcendo pelos Estados Unidos contra a Itália. Tentei me enganar, alegando que os estadunidenses mereciam minha vibração porque estariam jogando "com mais vontade" que os italianos. Balela: fato é que não superei ainda a tragédia do Sarriá, aquele maledeto Paolo Rossi, talvez nunca supere...

Eis que hoje, dia do desencanto de Ronaldo, horas antes vivi uma cena reveladora. Aula de bike na academia, eu só via metade do telão. Findo o jogo da Itália contra a República Checa, começam a transmitir o final da partida entre Gana e Estados Unidos. Sabia que os africanos estavam ganhando e me pus a festejar o momento em que o juiz apitou o fim da partida. E soltava uns gritos entusiasmados: "Lindos! Lindos!". Uma colega, mais bem posicionada que eu, começou a acenar para mim. "Não, não, quem ganhou foi Gana, não os Estados Unidos!"

Como se só pudesse ser engano meu chamar aquele time de ébano de lindos. Pois repito:
Lindos! Lindos! (mas só até terça-feira, meio-dia...)

Monday, June 19, 2006

Nunca te vi, sempre te amei

...




Dois toques.

Eventos como a Copa do Mundo dão vida a entidades habitualmente etéreas, como a "formação de opinião". Ser formador de opinião é exercer o poder de dizer alguma coisa - qualquer coisa - que rapidamente se transforma em voz corrente da maioria. Parece não existir maior formador de opinião que comentarista de futebol. E quase todos os comentaristas, desde o primeiro jogo do Brasil na Copa, clamam pela entrada do meia Juninho Pernambucano na seleção, como senha para "arrumar o meio de campo", "soltar mais a bola", "distribuir as jogadas", sem esquecer o potencial do homem em "fazer Ronaldinho Gaúcho jogar tão bem quanto no Barcelona". Caramba! Eu quero um Juninho Pernambucano para mim também!

A tese dos comentaristas parece bem embasada, mas o que me diverte de fato é ver meus amigos, parentes e conhecidos defendendo a entrada de Juninho Pernambucano no time, sendo que a maioria deles deve tê-lo visto jogar meio tempo de partida em toda sua vida. A verdade é que muitos dos jogadores convocados por Parreira são seres distantes até para quem é ligado em futebol. Adriano, por exemplo: quem viu Adriano jogar no Brasil? O homem foi para a Europa, parece-me, com menos de 20 anos. Há que ser bem antenado com o Campeonato Italiano para poder teorizar sobre a atuação de Adriano, esse Panzer em nosso time. E o Campeonato Francês, quem assiste a isso, meu Deus, para ansiar com tanta paixão pelo meia Pernambucano, astro do Lyon?

Outro toque: assisto muito pouco à TV, normalmente. Nesses tempos de bola, mais. De qualquer forma, só ligo na hora dos jogos e eventualmente em telejornais, para recuperar gols perdidos ao longo do dia (como meu trabalho atrapalha essa Copa...). De sábado para cá, no entanto, fiquei com a sensação de que a Globo falou com parcimônia da morte de Bussunda. Melhor assim, para seu espírito e para sua família, mas uma pergunta ficou fazendo cócegas no meu ouvido: não fosse tempo de "pra frente Brasil", imperaria a parcimônia ou a imagem do comediante estaria em todos os programas globais, do Caldeirão do Huck ao Fantástico, transmissão do enterro ao vivo e tudo o mais? Esforço-me para não ser maldosa, mas fico aqui pensando se, na falta de um campeão de audiência como a Copa do Mundo, tão comprometido com anunciantes cujas cotas foram garantidas com meses de antecedência, não teríamos uma overdose de funeral...

Monday, June 12, 2006

Todos, menos você

A imprensa espanhola, habitualmente venenosa, foi quem primeiro falou. Daí o mundo todo falou e a questão virou tema de segurança nacional. Ronaldo está gordo. Seguiram-se todas as variações possíveis da afirmação. Ronaldo está gordo? Ronaldo não está gordo, está fora de forma. Ronaldo pode até estar gordo, mas mesmo gordo é imprescindível. Ronaldo está gordo e não merece ser titular, que brigue com Robinho pela vaga.

Enquanto o mundo falava e debatia a adiposidade (ou não) de Ronaldo, o copo foi se enchendo. A gota fatal parece ter sido pingada pelo presidente, em quem o camisa nove entrou de carrinho com as duas chuteiras, travas altas de metal.

- Dizem que estou gordo, o que não é verdade. Dizem que ele bebe pra caramba, que também não deve ser verdade.

(Antes de prosseguir, quero deixar claro que não acredito em um suspiro de espontaneidade em eventos como aquela teleconferência entre o presidente e a seleção. Tenho convicção de que tudo é programado, que as perguntas são conhecidas antes, um teatrinho bem armado, o que me leva a concluir que a tal pergunta do presidente sobre o físico de rolha do centroavante não era surpresa, pelo contrário, uma bela levantada de bola para Parreira entrar e dizer que Ronaldo está pronto, acima do peso ou não é nosso homem de confiança, aquela papagaiada toda.)

Mas o que ficou para o público e para a história foi a resposta mal-educada do jogador. Uma leitura possível da reação desmedida do atacante: agora, chega. Todo mundo falou, eu engoli, mas vou aproveitar que não é qualquer um que está falando, mas o presidente, e vou responder à altura. Depois que se manda o presidente do país calar a boca, quem vai falar mais alguma coisa?

Outras leituras possíveis? Várias.

- Escuta aqui, meu compadre. Você é chamado de chefe da quadrilha, não tem estudo, tem fama de pinguço, já te botaram na capa da revista com um pé na bunda e vem perguntar se eu estou gordo?

Ou então, será que não?

- Presidente, se liga, não vem apontar o dedo para mim, não. Sou como você. Nós dois somos filhos de gente pobre, não fizemos faculdade, por pouco não viramos marginais, mas nos demos muito bem na vida, ao contrário do que se espera de gente pobre e sem estudo.

No fundo, a pergunta impertinente de Lula e a resposta destemperada de Ronaldo me soaram como um duelo entre iguais.

Thursday, June 08, 2006

Bola de cristal

A Copa do Mundo começa amanhã, na Alemanha, e o clamor por "previsões" se espalha. Desde o tradicional "bolão da firma" até análises acuradas de especialistas da bola, todo mundo dá seu palpite quanto a favoritos para vencer o torneio. Se todos já o fizeram, eu é que não faço, mas exerço minha porção vidente de outra forma.

Vislumbro, desde já, uma série de referências a Telê Santana, recém-falecido. Para dar uma mãozinha a locutores e comentaristas, ofereço aqui uma coleção de frases prontinhas, adaptáveis de acordo com a ocasião.

Se o Brasil for campeão, jogando bonito - "Essa Copa é sua Telê, você merecia ser o técnico dessa equipe, que mostrou ao mundo como ainda se pode ser campeão apostando no futebol arte!"

Se o Brasil for campeão, jogando feio - "Essa Copa é sua Telê, vencemos com um esquema fechado, retrancado, marcador, mas é na genialidade do jogador brasileiro, algo que você tanto valorizou, que fazemos a diferença!"

Se o Brasil não for campeão, jogando bonito - "Perdemos a Copa, Telê, mas encantamos o mundo, como seu time de 82, no Sarriá. Não levamos o hexa, mas talvez sejamos mais campeões que os vencedores, com nossa alegria, nosso jeito moleque!"

Se o Brasil não for campeão, jogando feio - "Perdemos a Copa, Telê, talvez porque tenhamos insistido em jogar duro, fechado, retrancado. Tivéssemos aprendido suas lições, velho mestre, e nosso futebol-arte hoje talvez nos desse outro título..."

Wednesday, May 31, 2006

Ode ao Iguatemi

Primeiro, de Fusca. Depois, de Corcel. E mais algum tempo depois, de Maverick. A vida prosperava aos poucos, mas o passeio preferido era sempre o mesmo: matinê no shopping Iguatemi. Meu pai e minha mãe na frente, eu e meus três primos mais velhos no banco de trás, invariavelmente esmagando os ocupantes das janelas a cada curva. Uma espécie de ajuste de contas natural: quer sentar na janelinha, vai tomar amasso. Da Zona Norte à Faria Lima, o tempo gasto contando modelos de carro. Fusca não valia. Cada um contava o seu e confiávamos em todos.

O estacionamento era só um, descoberto, atrás do shopping. O cinema tinha uma escadaria imensa aos meus olhos de quatro, cinco anos, coberta de tapete vermelho. Não me lembro tanto da pipoca, mas de chicletes Adam´s, minúsculos retângulos coloridos, que vinham em embalagem de plástico mole, um palhaço desenhado, a boca do palhaço vazada, ampla visão ao arco-íris de goma. E tinha uma máquina de batata frita nas Lojas Americanas, aroma inebriante de gordura saturada.

Mas o lanche preferido era do Julie & Jim, meu primeiro milk shake de chocolate. Tempos depois, veio o Well´s, sua arquitetura de vagão de trem e o sorvete Hulla Hulla, servido em meio abacaxi com coroa e tudo.

O Iguatemi foi o único shopping de São Paulo durante muitos anos. Foi lá que comecei a comprar meus discos, LPs saídos do Museu do Disco, da Hi Fi ou da Sears, uma loja de departamentos tão grande que, extinta, deu origem à praça de alimentação do shopping, hoje abrigando um monte de fast foods e um monte maior ainda de mesas e cadeiras.

O grosso das compras de roupas era feito na loja da dona Amália, magazine de bairro da avenida Tucuruvi, mas presentes e itens para ocasiões especiais vinham do Iguatemi. Peças de qualidade superior, que duravam anos no armário, diretamente de lojas como Modélia, Brasília, a própria Sears, Corello e Germon´s. Era um shopping bacana, onde a classe média ia ao paraíso das boas compras sem deixar dez salários mínimos na loja, em troca de uma bolsa.

Década de 70, mercado fechado, nada de grifes importadas. Não havia Louis Vuitton, Calvin Klein, Dolce & Gabanna, Ermenegildo Zegna, Burberry, Diesel, Armani ou Salvatore Ferragamo. Essas coisas nem existiam e ainda não haviam nos informado que precisaríamos delas para ser mais elegantes, mais atualizados, mais valorizados e mais felizes.

Foi-se o Fusca, foi-se o Corcel, foi-se meu pai. Veio meu filho e seu encanto pelo relógio d´água do Iguatemi. Eventualmente, pede para vê-lo e lá vamos nós, classe média como antes, nos enfiar no mesmo shopping de antes, entrar nas mesmas Lojas Americanas de antes, talvez a única do lugar cujas mercadorias tenham uma relação real de custo-benefício.

Comprar CDs nas Americanas está longe da experiência de percorrer os nichos de LPs do antigo Museu dos Discos, separados em Nacionais, Internacionais, Jazz e Clássicos, por ordem alfabética. Nas Americanas, pelo menos, compro um Sonho de Valsa e me reconforto do enfado que tem me acometido cada vez que volto ao shopping da minha infância. A vida continua doce e pode ser simples como o bombom embrulhado em papel rosa-choque. E bem mais em conta que os chocolates Neuhaus, da loja ali em frente.

Monday, May 29, 2006

A vitória dos humildes

...




Depois de um político de direita, fundador do PFL, dizer que a origem de todo o caos social brasileiro é a conduta da "elite branca perversa", a gente acha que não vai se espantar com mais nada. Qual o quê! Cheguei a pensar que não tinha ouvido a notícia direito, logo cedo, pelo rádio, mas recebi detalhes assim que cheguei no trabalho. O campeão baiano de 2006 é mesmo um time chamado Colo Colo, da cidade de Ilhéus, até hoje mais famosa por ser o cenário do romance "Gabriela, cravo e canela", de Jorge Amado, e por representar o principal pólo da lavoura cacaueira do estado da Bahia.

O inusitado circunda toda a história da conquista do Colo Colo. A começar pelo nome do clube, idêntico a de um dos mais importantes times do Chile (!). Mas o queixo cai mesmo quando se informa o total da folha de pagamento do time: R$ 28 mil. Quem é familiarizado com futebol sabe que esse valor corresponde a um salário baixo em um dos grandes clubes de São Paulo.

Mas não custa fazer umas continhas rápidas: se um time de futebol tem, pelo menos, uns vinte jogadores, um técnico, um massagista e um roupeiro (deixando pra lá "frescuras" como médico, auxiliar técnico, fisioterapeuta etc.), significa que a média do salário não ultrapassa os R$ 1.200,00.

O aspecto menos surpreendente do título inédito do Colo Colo é a derrocada dos tradicionalíssimos Bahia e Vitória, de mãos dadas na terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Como bem prognosticou o jornalista Silvio Tudela, paulista radicado em Salvador e professor da Universidade Federal da Bahia, em seu artigo "Ba x Vi, isso existe?", de outubro de 2005, a decadência dos dois mais famosos clubes baianos não é coincidência nem fruto de humores azedos dos orixás. É conseqüência de falta de organização pura, mal que tem acometido tantos clubes brasileiros coalhados de glórias passadas.

Mas se não chega a chocar a degringolada da dupla Ba-Vi, ainda assim é de arregalar os olhos a reação conjunta do time do Colo Colo, que praticamente canonizou o presidente do clube, José Maria de Santana, tanto pelo fato de o homem pagar os salários em dia, coisa rara no futebol atual, como por suas palavras de fé. Ainda no início do campeonato, o presidente definiu o Colo Colo como "um produto modesto", o que parece ter inspirado fortemente os jogadores. Tanto que, ajoelhados sobre a bandeira, no meio do campo, após o jogo que definiu o título, os atletas ouviram do volante Sandro as palavras de que "quando um homem entra com honra e dignidade, ele nunca é vencido".

Um monte de gente humilde, liderada por um benfeitor abnegado... Ai, ai: mudou alguma coisa?

Friday, May 26, 2006

Brincar de correr

Já está no ar mais uma coluna minha no site GPTotal. Olha lá!

Tuesday, May 23, 2006

Evo, O mundo é um moinho - segundo ato

Palco vazio. Escuro. À esquerda, um facho de luz avermelhada ilumina Índia, em pé, braços cruzado, batendo nervosamente um dos pés no chão.

Índia (impaciente) - Agora você vai fingir que não está me ouvindo? Claro! Seus problemas são mais importantes, é sempre assim! Você só lembra que eu existo quando grito e ameaço. Vou precisar gritar de novo, para você parar de me ignorar?

Luz avermelhada esmorece. Palco escuro. Áudio:

"Fala pra mim, diz a verdade
O que mudou assim tão de repente
Quero saber de onde vem
Esse medo que machuca a gente"

À direita, um foco de luz branca incide sobre uma bancada de telejornal. O âncora dá a notícia.

Âncora - A cidade e o estado de São Paulo sofreram na semana passada uma série de ataques do crime organizado, em ações realizadas pelo Primeiro Comando da Capital. Na segunda-feira, dia 15 de maio, a população da capital abandonou suas atividades normais e correu para casa antes do anoitecer. A palavra de nosso analista.
Analista - Ao que tudo indica, as ações foram orquestradas de dentro dos presídios, graças ao acesso dos presos a aparelhos de telefone celular. É fundamental que as autoridades tomem atitudes enérgicas para coibir esse crime. Neste instante, a coisa mais importante a fazer é bloquear o sinal de celulares nas cadeias.

Foco de luz se apaga. Palco escuro. Áudio:

"Tá tudo errado, fogo cruzado
E a gente não consegue se entender
Porque não me telefona
Dê notícias de você
Liga ao menos pra dizer
Que o melhor é te esquecer"

Centro do palco. Luz verde-amarelada sobre homem de barba, vestindo terno. Fala dirigindo-se à platéia.

Homem (sereno)- Nesse momento de comoção e medo, a atitude mais correta nos parece o debate sereno. Tivemos longas e profundas conversas, ficamos à disposição para enviar ajuda. Nosso papel, nessa circunstância, é o apoio firme e resoluto às ações de manutenção da ordem, dentro da mais estrita legalidade.

Luz verde-amarelada esmorece. À esquerda, luz avermelhada sobre a Índia.

Índia (irritada e irônica) - Tudo bem, vai me ignorando, vai! Eu sei a hora certa de usar minhas armas, também. Você acha que eu estou criando caso, inventando uma crise só para aparecer e me aproveitar disso? E se for? Você vai ficar só bancando o papai-sabe-tudo, pra sempre?

Luz avermelhada esmorece. Palco escuro. Áudio.

"É a sua indiferença que me mata
É uma invasão, um nó dentro de mim
Coração divide em dois na sua falta
Uma parte é o começo a outra o fim"

À direita, um foco de luz branca incide sobre uma bancada de telejornal. O âncora dá a notícia.

Âncora - A seleção brasileira desembarcou ontem na Suíça, para quinze dias de preparação antes da estréia na Copa do Mundo. Vamos saber de nosso analista se o clima de "já ganhou" pode atrapalhar o Brasil.
Analista - Bem, amigos, o Brasil é sem dúvida a grande força, o inimigo a bater, o campeão que todos querem derrotar. A coisa mais importante, agora e no próximo mês, é manter nossa atenção constante na bola. Sem vaidades, sem intrigas: só a bola interessa!

Foco de luz se apaga. Centro do palco, luz verde-amarelada sobre homem de terno.

Homem (olhando para a platéia, bem-humorado) - Eles representam nosso orgulho verde-amarelo, são o Brasil vencendo lá fora, impondo seu estilo, marcando seu território. Com determinação e disciplina, ninguém derrota o Brasil! (baixando o tom de voz, como se revelasse um segredo) Estou falando da seleção de futebol, não da Petrobras, caso alguém não tenha entendido...

Luz verde-amarelada esmorece. Palco escuro. Áudio.

"É a sua indiferença que me mata
Que me mata, que me mata
Coração divide em dois na sua falta
Na sua falta, na sua falta"*

Luz avermelhada na esquerda.

Índia (serena, mas mantendo o tom irônico) - Isso, faz bem. Vai lá pro seu futebol. Quem sabe ele te faz esquecer do resto, quem sabe ele te faz esquecer de mim.

Fim do segundo ato.
*Indiferença, Zezé di Camargo e Luciano

Thursday, May 18, 2006

A mais mais

...



Pausa para uma notícia importante. Hoje, 18 de maio, é aniversário da Elza. Elza, Elzinha, Zinzin, minha mãe, a mais bonita, a mais elegante, a mais classuda, a mais mais de todos os tempos, como prova a foto de 1968, ano de seu casamento.

Feliz Aniversário!

Tuesday, May 16, 2006

Galinhas ou abutres?

Situações como as dos últimos dias - de confusão e medo em São Paulo - têm o poder de me emudecer. Jamais serviria para comentarista política de TV ou rádio, que exigem prontidão de opinião. Comigo, não. Uma coisa é dizer na lata que o time A está jogando melhor que o B porque seus laterais cumprem a função tática de atacar quando preciso e defender se necessário.

Tiros, fogo, rajadas, cadeia, PCC, comandante da polícia, secretário de segurança pública, governador, ministro, presidente formam um time bem mais complexo para que minha cabeça ou minha pena cuspa uma sentença imediata.

No fundo, eu talvez cale opiniões mais profundas porque tenho medo dos meus próprios sentimentos. Lembro que quando tinha onze, doze anos, rebeliões eram relativamente comuns na Casa de Detenção, não muito longe da minha casa, e eu grudava na TV e no rádio, querendo mais, e mais. Tenho medo dessa morbidez, e o treino da profissão não me apartou dela. Mea culpa, minha máxima culpa: enquanto pude, ontem, ouvi rádio AM todo o tempo, acessei sites noticiosos enquanto estive à frente do computador. Confesso, eu, pecadora: não estava atrás de orientação coisa nenhuma, estava atrás de notícia (talvez mais ataques, mais mortes, toque de recolher, estado do sítio!). E você, queria o quê?

Meu sentimento, hoje, é de constrangimento. Senti-me um abutre.

O 15 de maio paulistano, o 11 de setembro nova-iorquino, as rebeliões na Detenção, o shopping de Osasco que explodiu servem para muito pouco. Chacoalham nossa vidinha besta, discursamos bobagens para gente que mal conhecemos, nos indignamos e vociferamos contra entes etéreos, como o poder público, o sistema carcerário ou a justiça. Entramos em nossos carros, seguimos tocados como o resto do rebanho, corremos para casa como galinhas assustadas, como bem comparou o colunista Demétrio Magnoli, na Folha de hoje.

Depois, voltamos para nossa vidinha besta, sem tiros, sem mortes, sem toque de recolher.

É uma relação doente, admito. Quanto mais busco saber, mais me enredo na dificuldade de concluir um juízo próprio. Persiste, no entanto, o mesmo sentimento de falência social de ontem (a turba em fúria no Pacaembu), de anteontem (os meninos do documentário "Falcão", que a TV mostrou aos pedaços). Vivemos em uma sociedade cronicamente doente.

Friday, May 12, 2006

Evo, o mundo é um moinho - primeiro ato

Palco vazio. Escuro. À esquerda, um facho de luz avermelhada ilumina Índia, em pé, segurando uma mala em cada mão.

Índia (segura e serena) - Chega. Foram anos, décadas, séculos de exploração. Você, talvez seja apenas o último, o mais recente. Mas isso tinha que acabar. Já arrumei suas coisas. Vá embora ou me trate como acho que seja justo.

Luz avermelhada esmorece. Palco escuro. Áudio:

"Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar"


À direita, um foco de luz branca incide sobre uma bancada de telejornal. O âncora dá a notícia.

Âncora - O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou ontem a nacionalização da produção de gás do país, ordenando a ocupação da sede da Petrobras. Vamos saber de nosso analista de política o que esse ato significa.
Analista - É uma atitude radical, baseada em promessas de campanha de um político populista, eleito presidente de um dos países mais pobres da América Latina. O ato revela a imaturidade de um líder despreparado, que parece desconhecer as proporções da crise em que pode mergulhar a Bolívia após essa decisão.

Foco de luz se apaga. Palco escuro. Áudio:

"Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és"

Centro do palco. Luz verde-amarelada sobre homem de barba, vestindo terno. Fala dirigindo-se à esquerda.

Homem (sereno)- Reconheço que você tem esse direito. É uma questão de auto-afirmação, soberania até, eu diria. Mas vamos conversar. Você sabe que depende de mim, que não vive sem mim.

Luz verde-amarelada esmorece. À esquerda, luz avermelhada sobre a Índia.

Índia (demonstrando irritação) - A verdade é que nossa relação nunca foi justa! Eu talvez dependa mesmo de você, mas isso não lhe dá direitos irrestritos sobre mim. Você não trata os outros como a mim! Na verdade, deixa-se explorar também pelos outros e parece concentrar em mim toda sua capacidade de explorar, e humilhar.

Luz avermelhada esmorece. Palco escuro. Áudio.

"Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó"


À direita, um foco de luz branca incide sobre uma bancada de telejornal. O âncora dá a notícia.

Âncora - Após a nacionalização, a Bolívia suspende os contratos com a Petrobras, exigindo reajuste nos valores praticados atualmente. A palavra do nosso analista político.
Analista - É uma afronta ao contrato firmado entre os países. O governo brasileiro precisa tomar atitudes enérgicas, no sentido de fazer valer os interesses de nossa multinacional.

Foco de luz se apaga. Centro do palco, luz verde-amarelada sobre homem de terno.

Homem (entre defensivo e resignado) - Eu não diria isso para os outros, mas devo confessar que estou me sentindo traído. Nunca me neguei a discutir nossa relação. Pelo contrário, dei-lhe todo meu apoio. Você radicaliza e me deixa sem alternativas...

Luz verde-amarelada esmorece. Palco escuro. Áudio.

"Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés"


Luz avermelhada na esquerda.

Índia (resoluta, soltando as malas) - Talvez cheguemos a um acordo. Talvez eu só esteja mesmo fazendo isso para me afirmar. Talvez eu não tenha fôlego para ir além da esquina. Mas me responda: seria justo que continuasse tudo como estava?

Fim do primeiro ato.

Wednesday, May 10, 2006

Uma pergunta...



A nova direita vai torcer contra a seleção do Brasil, na Copa, como a esquerda fez em 1970?

Friday, May 05, 2006

A favela e a arquibancada



Muito prazer, meu nome é Elite e observo a favela daqui do alto, da janela do meu apartamento. Sei que lá tem uma maioria de gente honesta e trabalhadora. Fico chocada com a presença dos chefes do tráfico, sei que eles controlam e amedrontam a maioria, que se cala ou sai de perto. Fiquei em estado de pré-depressão quando conheci a realidade dos meninos do tráfico, naquele documentário que a TV passou. Acho que os criminosos devem ser punidos, que as desigualdades não justificam atos violentos, mas começo a achar que não podemos cuidar só dos efeitos, que precisamos entender e modificar as causas.

Muito prazer, meu nome é Elite e observo a arquibancada daqui do alto, da cadeira numerada. Sei que lá tem uma maioria de gente honesta e trabalhadora. Fico chocada com a presença dos chefes das torcidas organizadas, sei que eles controlam e amedrontam a maioria, que se cala ou sai de perto. Fiquei em estado de pré-depressão quando vi a multidão enfurecida, tentando invadir o gramado. Acho que os criminosos devem ser punidos, que as desigualdades não justificam atos violentos, mas começo a achar que não podemos cuidar só dos efeitos, que precisamos entender e modificar as causas.

que não podemos cuidar só dos efeitos, que precisamos entender e modificar as causas...
que não podemos cuidar só dos efeitos, que precisamos entender e modificar as causas...
que não podemos cuidar só dos efeitos, que precisamos entender e modificar as causas...
que não podemos cuidar só dos efeitos, que precisamos entender e modificar as causas...

Wednesday, May 03, 2006

Agüenta, coração!

Pronto, já fiquei ansiosa para ler o livro. José Miguel Wisnik prepara nos Estados Unidos um livro sobre futebol, com uma abordagem, parece, bem diferente daquilo que sempre lemos por aqui. O Idelber Avelar fez uma excelente entrevista com o Zé Miguel, que tem passado alguns meses em New Orleans. Vale a pena.

Thursday, April 27, 2006

GLS Futebol Clube



O técnico Vanderlei Luxemburgo, atualmente no Santos, foi julgado e condenado a dois meses de suspensão pelo Tribunal de Justiça Desportiva. A acusação: ofender o árbitro Rodrigo Martins Cintra, que apitou o clássico entre Santos e São Paulo, pelo último Campeonato Paulista. O São Paulo venceu e Luxemburgo saiu do estádio dando a seguinte declaração:

"Ele apitava e olhava pra mim em toda falta que marcava. Ele [Rodrigo Cintra] não parava de olhar. Eu não sou veado. Talvez seja pela minha camisa [rosa]", disse Luxemburgo. Naquele mesmo domingo, já à noite, um programa de TV entrevistou o árbitro, que em princípio duvidou do conteúdo da declaração do técnico. Exibida a entrevista, Rodrigo não polemizou, nem “se defendeu”. Analisou o comportamento de Luxemburgo como um desvio de foco, já que seu time tinha perdido.

Oh, céus! Por onde começar?

A declaração do técnico, que ensejou todo o resto, tem evidentemente um teor ofensivo, além do risível reforço ao estereótipo de que rosa é cor de mulher (de gay também, deve-se supor). A intenção de Luxemburgo foi clara: ele quis atacar o árbitro e se valeu de um paradigma colossal no meio futebolístico, “acusando”, “xingando”, “levantando a suspeita” de que o outro era homossexual.

Apoiado na intenção de ofender, manifestada pelo técnico, o tribunal acertou em puni-lo. Mas isso resolve toda a questão? Não há também aqui o recrudescimento de uma posição preconceituosa, sectária, xiita do futebol (dos esportes, em geral, mas fiquemos apenas com o futebol) em relação à homossexualidade?

Há, sem dúvida, um significativo avanço em punir quem se vale de qualquer circunstância para ofender o outro, e nisso a “comunidade futebolística” parece estar, em sua maioria, de acordo.

Mas por que é ofensivo chamar um homem de gay (veado, viado, bicha, boiola, bambi, fruta, queima-a-rosca, salta-pocinhas, morde-a-fronha)? Se a sociedade já avançou a ponto de assimilar e respeitar as diferenças individuais em tantos campos, por que o futebol se mantém tão sectário?

O radicalismo sectário contra o diferente persiste em cada um até que o diferente invada sua casa. Terei preconceito contra homossexuais até o dia em que meu filho, meu pai, meu irmão, meu sobrinho, meu amigo resolva sair do armário. Se já somos capazes de lidar com respeito às diferenças em tantos setores, por que nos mantemos tão medievais no futebol?

Porque, cá entre nós, você não acredita de verdade que “essas coisas” não acontecem no futebol, acredita?

Tuesday, April 25, 2006

Micropolêmica

Mãe joga filho no rio. Filho mata mãe com golpe de judô.
A humanidade está eternamente condenada à lei de ação-reação.

Friday, April 21, 2006

Telê


O jogo era contra a Itália e minha mãe inventou de fazer nhoque.
Meu pai achou por bem acompanhar com pão italiano.
Aquilo não me soou bem.
Tínhamos moído a Argentina, o mundo era nosso.
Não percebi que perder, ali, não podia.
O empate era nosso, mas que retranca?
Fechar o time? Botar na roda? Cera?
Mataria o time, alegando desonra.
Cerezo sozinho, de costas.
Nem um grito, um alerta.
"Cuidado, ladrão!"

Daí pra frente, sempre detestei perder por 3 a 2. E fiquei de bico com nhoque e pão italiano por um bom tempo. Chorei e sofri, como nunca antes, nem depois, pelas coisas da bola. E foi ali que a bola me fisgou. Devo essa a Telê Santana.

Friday, April 14, 2006

Reforma do código penal

Não, não sou advogada. Mas às vezes me ocorrem sugestões para melhorar nossos diversos códigos de leis. E como precisamos de pausa para rir um pouco, convido os amigos a compartilhar as minhas e contribuir com novas idéias.

Já é tempo de classificarmos como "crimes hediondos" as seguintes infrações, incorreções, inconveniências e aporrinhações:

- usar uma fita colante (de qualquer espécie: durex, fita isolante, esparadrapo etc.) e não dobrar-lhe a ponta após o uso (já tentou usar uma assim, depois que algum infeliz esqueceu de dobrar a pontinha?).
- referir-se a marcas e modelos de carros com apelidos ou diminutivos: Merça no lugar de Mercedes Benz, BM em vez de BMW (isso é um asco!), Fuca substituindo Fusca. Enquadram-se na categoria os abomináveis Gol Quadrado e Gol Bolinha.
- falar com entonação de idiota quando se dirige a um bebê. Falar com entonação de bebê quando se dirige ao(à) namorado(a). Chamar o(a) namorado (a) de bebê.
- exclusivo para homens: tingir os fios do bigode. (aliás, bigode sem barba não é bem um crime hediondo, mas um passo para continuar sozinho nas noites de sábado)
- exclusivo para mulheres: mini blusa + calça de cintura baixa + formações adiposas abdominais (incorrer nesse crime deveria dar direito a cumprir a pena em um spa. Como o estado não dispõe de recursos para tal, no lugar de spa, esparadrapo. Feche a boca ou mude o look, minha filha. E não se esqueça de dobrar a ponta do esparadrapo depois!)

Quem dá mais?

Monday, April 10, 2006

Custo, preço e valor




Uma das principais críticas feitas à viagem do astronauta brasileiro - o militar Marcos César Pontes - diz respeito ao gasto de US$ 10 milhões por parte do governo federal.

(Outras duas críticas me parecem pouco defensáveis. A saber, a primeira: a de que a viagem de Pontes é mera propaganda eleitoreira de Lula não se sustenta porque o programa começou há oito anos, portanto, durante a gestão FHC. E a segunda: de que os experimentos feitos por ele no espaço não servem de nada, mas ainda que assim fosse, eu concordaria com o próprio coronel, que enxerga em sua missão um fator de motivação aos jovens em formação.)

Mas voltando à cifra dos 10 milhões. Não achamos despropositados os valores que envolvem as grandes transações no futebol: Tevez veio para o Corinthians por 20 milhões de dólares, o Real Madrid pagou 30 milhões para ter Robinho. Tudo ali, na lata. Não quero dizer que 10 milhões sejam dinheiro de pinga nem omitir o fato de que, no caso dos jogadores, é dinheiro privado, enquanto a viagem do astronauta é dinheiro público.

No entanto, 10 milhões investidos em oito anos representam 1,25 milhão/ano, o que não me parece nenhuma soma absurda. Na esteira da crítica quanto ao valor absoluto gasto pelo governo, vem a queixa de que o Brasil poderia investir esses 10 milhões na formação de muitos cientistas. Nas últimas décadas, o Brasil tem conseguido formar e até exportar cientistas, sobretudo, graças às parcerias do governo com a iniciativa privada. É o tipo de relação "boa para ambas as partes": as instituições públicas, como as universidades, ganham acesso às tecnologias mais recentes, viabilizadas pelo contato com as empresas, e a iniciativa privada pode contar com a mão-de-obra de melhor nível em formação no país.

Uma exposição do país nesse programa, enviando um cientista para o espaço, não funciona, no mínimo, como estímulo para que outras empresas adotem políticas de parceria e participação junto a instituições de ensino e pesquisa? Eu acho que funciona.

Friday, April 07, 2006

Teto de vidro

Tenho dito por aqui que sou uma incorrigível otimista e espero sempre cultivar essa característica. Um dos aspectos mais positivos trazidos pela crise de ética instalada no Brasil, especialmente do meio de 2005 para cá, foi na minha opinião a oportunidade da reflexão e do debate.

Foi como se o PT, pilhado em flagrante, determinasse a queda do último bastião de honestidade da nação. Não é o meu caso, mas muita gente que nunca tinha votado no PT acreditou no partido, nas últimas eleições presidenciais, pela aura de ética que seus candidatos sempre fizeram questão de transparecer.

Destruída essa ilusão, parece-me que parte da sociedade caiu em uma desesperança sem precedentes, daí a quantidade tão grande de intenções ao voto nulo, como as que tenho ouvido aqui e acolá. Mas uma parte da nação me parece disposta a olhar a situação por outro ângulo.

Os outros roubavam e mentiam, esses roubam e mentem. Não presta ninguém. Eu também não presto? Tenho sido ético e honesto em todos os momentos da minha vida? Desonesto é só o político que desvia dinheiro público para negociações escusas de bastidor?

E a empresa que eu abri no município vizinho e que me permite recolher menos impostos, ainda que eu não atue lá?
E a nota "espelhada", que preencho com valor correto para o cliente e subfaturada para o controle fiscal?
E o carro que eu emplaquei numa cidade do sul do país, para me locupletar de uma taxa de licenciamento menor e para escapar de eventuais multas?
E o material de escritório que subtraio dia a dia do local onde trabalho?
E a fita isolante maquiando a placa do carro, para que ele não seja identificado nos radares da cidade?

Os políticos erraram, erram ainda e continuarão errando enquanto refletirem os hábitos, vícios e erros da sociedade que os elege.

Acerca do tema, escreveu a psicóloga Rosely Sayão, com quem cheguei a cruzar na redação da Folha, muitos anos atrás, e ela certamente não se lembra de mim (mas eu a tenho em altíssima conta, pela lucidez das posições, pelo tanto que ela me ilumina e inspira na criação do meu filho).

Recomendo entusiasticamente a leitura deste artigo, publicado na edição de ontem do caderno Equilíbrio, da Folha de S. Paulo.

Sunday, April 02, 2006

E agora, José?



Seguindo o movimento iniciado no blog do Pedro Alexandre Sanches, abro o espaço para os comentários acerca do tema acima.

Estejam à vontade.