Monday, July 03, 2006

Epitáfio, by Parreira

Pouco antes do início da Copa, surgiu a notícia de que o técnico Carlos Alberto Parreira tinha escolhido a música "Epitáfio", composição de Sergio Brito, dos Titãs, como tema da seleção agora eliminada da Copa da Alemanha. Estava na cara que a coisa não podia dar certo. Felipão sacodia sua "Família Scolari", em 2002, com Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho, e o Parreira afundava seus depressivos jogadores nessa bela música titânica, bela mas ótima para se tocar naquela cerimônia fúnebre do Crematório da Vila Alpina.

Fechado o caixão, proponho uma versão para a letra original. Em tempo: o refrão deve ser cantado pelo lateral Roberto Carlos que, parece, estava ocupado ajeitando a meia no lance do único gol da França:

Devia ter atacado mais
Contra-atacado mais
Posto o Cafu pra correr
Devia ter arriscado mais
Substituído mais
Deixado os caras com o que sabem fazer
Devia ter percebido que a França não é o Braziliense
Que nem todo afro-descendente tem a pontaria de um ganense
O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter segurado menos
Teorizado menos
gritado como o Felipão
Devia ter me importado menos
Com recordes pequenos
Ter tomado mais gols
Queria ter colocado o Robinho logo de saída
Pro Gaúcho entrar com ela dominada, driblando o mundo, feliz da vida

O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O Dida vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter faturado menos
Aparecido menos
Gritado como o Felipão...

22 comments:

Alessandra Alves said...

que se registre logo: parreira e felipão são, para mim, dois retranqueiros de uma figa. a diferença entre eles reside na condução do grupo. como já escrevi antes, felipão é anfetamina. parreira, anestesia.

em tempo: a teoria sobre robinho possibilitando mais ataques de ronaldinho gaúcho está na física. com robinho correndo de um lado para o outro, a marcação dissipa-se. ronaldinho teria aquele espacinho do meio para correr com a bola dominada, trocar passes curtos, correr em direção ao gol. coisa que ele cansou de fazer (bem) no barcelona.

Véio Gagá - BH said...

Alê, estou de volta ao mundo Blogal (qualquer semelhança com global é mera coincidência. Será?). Que bom voltar e ver um post como esse. Deixo também meu epitáfio: Devia ter acreditado menos, ter torcido menos...

Daniel Carlos Nava said...

O que mais me deixou indignado com a desclassificação é comprovar que a população só é brasileira durante a copa.

Onde estão as bandeirinhas que inundavam a cidade?

Hoje devo ter visto 2, no máximo.

Pedro Alexandre Sanches said...

hahahaha, alessandra, desculpa a risada, mas é que eu tô pas-sa-do em saber que o Parreira escolheu ESTA música como tema da seleção na Copa (foi mesmo??)! porque ela pertence ao disco imediatamente anterior à morte por atropelamento do Marcelo Fromer, e inclusive, quando ele morreu, despertou interpretações esotéricas sobre maus presságios, à boca pequena...

porque, "o acaso vai me proteger/ enquanto eu andar distraído", e o integrante da banda morre atropelado dois minutos depois??? piada (involuntária) macabra, no mínimo... evidentemente, a música depois ficou meio identificada como tema da perda do fromer - a história se repete agora?

mas, bem, sem essa de presságios, né? pra mim, essas coisas refletem é a predisposição e o estado de espírito geral dos envolvidos, isso sim... a tal profecia pronta a se autocumprir já pelo "desejo" obscuro secreto do "profeta"...

Alexandre Carvalho said...

Olá, voltei... acho que o Flavio Gomes disse tudo sobre o Brasil na Copa em seu blog. Aqueles caras tem identidade com o Brasil.
E a Globo vendeu para os brasileiros como Pop Stars. E os brasileiros compraram.
Ainda bem que perderam.

Alexandre Carvalho said...

corrigindo, aqueles caras "NAO" tem identidade com o Brasil.

Gui Barranco said...

Sobre a seleção... NADA a declarar... eles não merecem nem meu escárnio!!!
Sobre a composição... Ale, você devia ser compositora!!! Já é a sua segunda composição!!! Tá certo que você teve ajuda na primeira, mas essa comprova o seu talento!!! Quem sabe você não larga o jornalismo empresarial e vira compositora de axé music???????
Boto mais fé em você como compositora do que na seleção do Parreira!!!! hahahahahahahahahaha

Gustavo said...

Mano,

Tudo é marketing! Não é mais competição, esporte. Dá até para imaginar no intervalo, o Robinho: "Ei, deixa eu ir lá dar um 'oi' pro meu amigo Zizo!".
Ah, tudo tem hora e lugar.
Acho que fica muito feio o clima de "Tô nem aí!". Imagina se este for o clima nas próximas Copas que o público tiver com a Seleção.

Paula said...

Alê,

Acabei de enviar pro seu e-mail (é imagem e não deu pra colar aqui) uma outra versão de "Epitáfio" que recebi ontem. Depois me conta o que achou...

Ufa...que bom que não sou só eu que não engole essa súbita 'adoração' ao Scolari! Realmente a falta de memória do brasileiro é impressionante! Já fico imaginando, em caso de uma campanha não vitoriosa em 2010, ser obrigada a ouvir "Volta, Parreira"...socorrooooooooo!!!

Makely said...

Acho que a seleção brasileira não devia ter técnico! Devia ter um painel eletrônico no estádio, exibindo a intenção dos milhares de torcedores que votariam por telefone em opções como: entra Robinho e sai Adriano, Ronaldinho joga mais adiantado, etc. Na concentração, câmeras filmando tudo o tempo todo e o povo opinando a escalação/paredão. Não seria ótimo? E a responsabilidade seria toda nossa...

L-A. Pandini said...

É isso que dá ter uma seleção formada apenas por "celebridades" (ô, palavrinha que passou a me dar ojeriza!) e não por jogadores de futebol.

É isso que dá uma imprensa que sobrevaloriza o futebol e manda quinhentos jornalistas cobrirem a seleção, esquecendo que a vida continua e que tem gente que não deseja ver todo o espaço do noticiário ser engolido por futebol.

Alessandra Alves said...

véio: que bom tê-lo de volta! já estava preocupada. eu também me senti meio com nariz de palhaço, mas como já não TORÇO daquele jeito, o sofrimento já é beeeeem menor. e sofia?

daniel: brilhante comentário! eu também me irrito bastante com isso. tanto que não saio por aí com bandeirinha no carro nem entro na onda consumista de ter tudo quanto é memorabília da copa. bandeira é símbolo nacional, não logotipo da seleção! a gente realmente só vê o brasileiro empunhar esse símbolo como sinônimo de torcida na copa. é como muito bem escreveu o pedro alexandre sanches em seu blog: ficamos todos meio palhaços, fantasiados de verde e amarelo. uma vez, depois da copa de 94, eu estava fazendo compras em um supermercado quando reparei que as sacolas tinham a bandeira do brasil impressa. "sobra da copa", pensei. só depois atinei que aquela era a primeira semana de setembro, ou seja, semana da pátria! eu sou de uma geração que tem um pouquinho de pudor de usar e exacerbar com símbolos nacionais porque isso acaba tendo uma certa relação com o período da ditatuda, aquelas paradas militares, educação moral e cívica etc. isso talvez contribua para aumentar minha certa aversão à febre verde-amarela da copa.

pedro: acho que é séria a história, sim. eu li no terra, ainda antes do começo da copa e, confesso, não quis bater tambor para isso para não engrossar o coro dos agourentos. adorei a história, a contextualização que você trouxe, obrigada.

certa vez, eu estava entrevistando a malu mader para a revista de uma empresa que eu fazia. a entrevista rolou durante a sessão de fotos. o fotógrafo, certa hora, perguntou se ela se emocionava ao escutar "epitáfio". ela, que é uma fofa, confirmou isso que você falou, que a música ficou estigmatizada como sendo um presságio da morte do fromer, mas que a música que dava um nó na garganta dela era "um morto de férias", do fromer, do tony e do sergio brito. foi legal porque ela contou o backstage da composição. disse que o fromer foi para o rio e costumava ficar na casa deles (dela e do tony). e chegou empolgado com essa idéia. "cara, olha o que eu pensei: um morto de férias! vamos fazer alguma coisa com isso!" e disse que ele repetia a frase "um morto de férias" e se ria todo.

alexandre: eu vou escrever um pouco mais longamente sobre essa história da falta de identificação do público brasileiro com essa seleção, mas de saída já digo que esse talvez tenha sido nosso bem e nosso mal.

gui: larga o direito e vem ser meu parceiro! você também é ótimo e criativo.

gu: o mesmo que eu escrevi para o alexandre. vou mais a fundo nisso e acho que vai dar uma reflexão legal.

paula: gostei da versão do "epitáfio" que você me mandou. aliás, o que está rolando de piada e charge... umas muito boas, aliás. que bom que não estou sozinha nessa estranheza de "são felipão".

makely: boa a idéia, mas acho que não ia rolar. se os caras não prestam a atenção nem em cobrança de falta, iam ler o placar?

pandini: eu acho que o problema não era o grupo que estava lá. eram esses mesmos, sem discussão. problema é a condução disso tudo. inclusive por parte na imprensa, no que concordo integralmente com você.

Máximo said...

Acho que o Gustavo tocou num ponto importante. Falta competitividade.
Fica pra nós a impressão do "tô nem aí". Um pouco é a maldição do politicamente correto.
Sinto falta da época em que o jogador podia odiar por 90 minutos TODOS os do time adversário.
Hoje eles passam o jogo todo sendo cordatos, quase todo jogo parece coletivo...
não estou falando de fazer o que os argentinos fizeram contra a Alemanha, mas ter brio e vergonha na cara teria ajudado a seleção da Nike.

Cynthia said...

Demorou pra você escrever, mas foi genial como sempre. O que ficou feio é que uma equipe tratar seu trabalho com descaso numa empresa dava demissão, mas no futebol não acontece nada.
O Roberto carlos foi a passeio: na reserva do jogo contra o Japão ele ficou deitado no chão!
Revoltante! Coloquei o futebol no freezer.

Véio Gagá - BH said...
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Véio Gagá - BH said...
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Véio Gagá - BH said...

Ouvi no rádio alguém falar sobre a falta de sofrimento pela derrota ser reflexo do profissionalismo do futebol. "São profissionais, não se devem deixar levar por emoções" Ora bolas, se são profissionais deveriam cumprir suas tarefas com competência, foco na perfeição, dedicação/empenho, entusiasmo e comprometimento com os resultados. E se os sentimentos atrapalham o profissionalismo, por que as empresas pagam fortunas a "gurus" para motivarem emocionalmente suas equipes? E tem ainda o pior: há quem defenda que a FIFA teria se arranjado com a CBF para a seleção perder. Será que é tão difícil para os brasileiros reconhecerem que os atletas jogaram mal? Que perderam por incompetência? Que eles não são heróis de uma equipe, mas estrelas agrupadas em uma massa de estrelato tão densa que foi capaz de criar um "buraco negro" que sugou o brilho de todas e de cada uma delas?

Paula said...

Caro véio gagá,
Meus sinceros cumprimentos. A última sentença do comentário acima, para mim, encerrou definitivamente toda e qualquer discussão sobre o que poderia ter ocorrido nessa Copa do mundo. Vai virar curinga, e peço sua licença pra tirá-lo do bolso sempre que eu me sentir tentada a arranjar alguma outra justificativa para o papelão.Muito obrigada mesmo.

Pedro Alexandre Sanches said...

putz, alessandra, continuo boquiaberto de saber que o parreira escolheu "epitáfio" como tema de si próprio (e incrível, a história da malu mader!)...

mas, ó, isso que o máximo comentou, dos jogadores de times adversários cordatos uns com os outros, eu admito que simpatizo bastante com a idéia de eles cordatos, mas... confesso que ao ver as tais cenas dos amores entre jogadores franceses e brasileiros, eu ficava pensando em partidos políticos... sabe, tipo aquele governador de minas gerais, que é do psdb, mas nos bastidores demonstra gostar muito mais do lula, do pt, do que do geraldo alckmin?

o legal desse tempo é que os rótulos e as cores de camisas não estão grudando mais tão fácil quanto antigamente... é esquisito se acostumar com a idéia (de que, por exemplo, tinha jogador brasileiro que gostava muito mais do zidane do que dos colegas ali do lado), mas acho que eu acho divertido quando tudo embaralha desse jeito...

mario lago said...

buenas alessandra! atrasado no post, tive tempo de ver zinedine emplacar a final de sua carreira em berlim. acredito mais do que merecida a despedida em alto estilo deste gênio do futebol, que por duas vezes mostrou a nós, brasileiros, ao vivo e a cores, a beleza do futebol arte bem jogado, limpo, clássico, elegante. um brinde, portanto, a zizu!!!

Paula said...

Alê,
Não deixe de ler o Nando Reis no Estadão de hoje. Imperdível!
Beijo

mario lago said...

viiixêêê! foi só elogiar que f......
alessandra, desculpe pelo ''f'', mas é que não encontrei outro termo em todo meu vernáculo.