Tuesday, May 21, 2019

Rush, um filme de amor

Daniel Brühl (à esq.), como Lauda e Chris Hemsworth, como Hunt
Com a viseira embaçada por uma chuva torrencial, Niki Lauda enxerga menos a pista de Fuji, no Japão, que a imagem da mulher, Marlene, com quem se casara naquele mesmo ano e surge no momento de maior tensão da história para povoar sua mente atormentada. Ao parar no box e desistir do GP do Japão de 1976, logo admite que não há qualquer problema com o carro. Inseguro naquela condição, e depois de quase ter morrido, poucos meses antes, no GP da Alemanha, o austríaco simplesmente abdica da prova. A cena, na parte final de “Rush – No limite da emoção”, de certa forma conclui um diálogo entre Lauda e Marlene, alguns minutos antes. Em lua de mel, apaixonado, o piloto debate-se com a insônia e explica a aflição à jovem esposa, dizendo que o amor era perigoso para um piloto. Teoriza que se torna difícil ir ao limite quando se tem algo a perder.
Assim, de forma rasa e linear, é possível para o espectador menos versado no tema concluir que Niki Lauda, interpretado no filme pelo ator Daniel Brühl, perdeu o Mundial de Fórmula 1 daquele ano por amor. Claro que não perdeu. O drama dessa temporada reparte-se em dezenas de detalhes técnicos, esportivos, políticos, comportamentais e circunstanciais que tiraram o título, que parecia certo no início do ano, das mãos de Lauda. Não foi a mocinha sofisticada, que surge em um provocante vestido frente única no início do filme, que lhe impôs a derrota.
Não é o amor de Lauda por Marlene que desencadeia a história dirigida por Ron Howard, longe disso, mas ainda me parece mais apropriado, ainda que soe estranho, definir “Rush” como um filme de amor que rotulá-lo como filme de ação. Não o amor do austríaco pela esposa, nem o de James Hunt (Chris Hemsworth) por Suzy Miller ou por praticamente todas as mulheres (com exceção de Marlene) que surgem na tela ao longo dos 123 minutos do filme. Todas as outras, enfermeira, aeromoça, modelo, alvos óbvios de Hunt, enquadradas no estereótipo “não sei seu nome, mas vou transar com você mesmo assim.”
(Tola eu seria se esperasse de “Rush” qualquer coisa longe do chauvinismo. Ainda que se afaste da realidade em diversas circunstâncias, o filme é ambientado na Fórmula 1 e, se ainda hoje as mulheres representam papéis pouco mais do que de objetos decorativos no circo, o que dizer dos anos 1970. Talvez em um ato de rebeldia, Ron Howard criou cenas de sexo entre Hunt e suas garotas que mostram mais o corpo do ator que das atrizes. Se você tinha o desejo secreto de saber como é o traseiro de Chris, aproveite. Que diabos, é o Thor, dos Vingadores, pelado, de costas!).
Não é desse amor, às vezes feito às pressas, no banheiro do avião, que se gira a história. “Rush” é um triângulo amoroso entre Lauda, Hunt e a vitória (ou a glória, ou a conquista do título ou, em última análise, a Fórmula 1).
A vida não é filme, isso todo mundo já entendeu. Para ser filme, há que romancear os fatos, estereotipar os personagens, carregar em algumas cores e empalidecer outras. Como Eduardo Correa escreveu neste mesmo GPTotal, na resenha do filme,“Rush” pinta Niki Lauda como um “coxinha CDF”. É o herói obstinado, disciplinado, estudioso, praticamente uma personificação da ética protestante, pela qual o bom resultado é sempre uma consequência lógica do esforço. Hunt, a seu turno, é o bon vivant, o hedonista que persegue o prazer como bem maior e, nesse contexto, parece unicamente servir-se de um dom natural, como se seu talento na pista fosse um acidente, não o produto da dedicação e, por que não dizer, do sofrimento para conquistá-lo. Claro que Lauda não era esse poço de virtudes, nem Hunt o campeão acidental que os fatos rasos podem fazer crer. Mas funciona para a ficção e assim está pintado na tela.
No desenrolar da narrativa, a consagração, a glória, a vitória, o título da Fórmula 1 desempenha o papel da musa desejada que oscila entre o bom moço e o bad boy. É a Ilsa Lund de Casablanca, indecisa entre o boêmio Rick Blaine e o militante Victor Laszlo. Não que o bar de Rick, o piano de Sam, o “play it again”, os nazistas da história sejam desprezíveis. Mas o foco, em Casablanca, está nos personagens de Ingrid Bergman, Humphrey Bogart e Paul Henreid. Da mesma forma, não é que os outros pilotos, as corridas e os carros possam ser limados de “Rush”. Mas não repousa ali o interesse da história. São pano de fundo para o triângulo formado entre Lauda, Hunt e a consagração final.
“Rush” é um grande paradoxo. É da estirpe dos filmes “baseados em fatos reais”, o que não é mentira, mas está longe de ser uma reconstituição do que foi o dramático campeonato de 1976. Supor que as cenas de corrida o tornam um filme de ação é outra análise apressada. As excelentes reconstituições de carros percorrendo circuitos da época são elos entre as narrativas que constroem o embate entre Lauda e Hunt. Várias das dezesseis corridas são mostradas como simples legendas, em rápidos registros, formando uma espécie de clip recorrente ao longo do filme.
Nenhum demérito nisso. O recurso foi usado – e às vezes de maneira mais singela – no mítico “Grand Prix”, de 1966, dirigido por John Frankenheimer. Foi difícil, mas consegui escrever 895 palavras sobre “Rush” antes de citar o filme da vida de nove entre dez amantes de Fórmula 1. E, nessa comparação, talvez resida o paradoxo mais evidente de “Rush”: embora seja “baseado em fatos reais”, o filme de Ron Howard é menos real que “Grand Prix”, construído em torno de personagens fictícios. É certo que os personagens centrais de “Grand Prix” foram fartamente inspirados em pilotos reais, mas o cerne na história é mera ficção. Ainda assim, o roteiro filmado por Frankenheimer contribui mais para entender a dinâmica da Fórmula 1 dos anos 1960 do que “Rush” faz com o campeonato de 1976.
Deve ter contribuído para esse realismo de “Grand Prix” o fato de ele ter sido filmado “a quente”, aproveitando as imagens de inúmeras corridas do campeonato de 1966 na peça ficcional. Howard, por sua vez, reconstituiu um cenário de quase quarenta anos, deixando que o olhar em perspectiva molde os personagens a ponto de fazê-los estereótipos encaixados no modelo romanceado que convém a um produto cinematográfico. O desafio era contar uma história que pode soar como improvável pela lógica dos bons romances, afinal, neste caso, a mocinha escolheu o bad boy. Ver a glória entregar-se ao dissoluto Hunt era como mudar o final de Casablanca e permitir que Ingrid Bergman trocasse o marido circunspecto pelo charmoso Bogart. O recurso para premiar a ética do esforço é conduzir a narrativa pelo sobrevivente.
Depois do épico GP do Japão, no qual Hunt sagra-se campeão com um terceiro lugar que lhe garante o título por apenas um ponto de diferença, os dois rivais voltam a se encontrar. Lauda reforça o discurso moralizante para cima de Hunt. O inglês verbaliza um conceito que o perseguiu praticamente até o fim da vida – a insinuação de que só foi campeão por conta do pavoroso acidente de Lauda – e rechaça a ideia. O austríaco venceu mais dois campeonatos, em 1977 e 1984, sobreviveu ao acidente e ao próprio Hunt, que morreu após um ataque cardíaco fulminante, aos 45 anos. Isso tudo, contado no filme como reminiscência de Lauda, reforça a ideia de que ele pode ter perdido aquela batalha, mas ganhou a guerra. Ilsa Lund hesitou mas, afinal, não ficou com Rick Blaine.
As peças de divulgação de “Rush” prometem mostrar “a maior rivalidade da história da Fórmula 1”. Outra mão pesada na condução da história. Lauda e Hunt, em que pese a disputa acirrada nas pistas, eram amigos, bons camaradas. À medida que a categoria foi se tornando cada vez mais um negócio altamente competitivo, a partir dos anos 1980, as rivalidades acirraram-se entre pilotos e acho que todos que acompanham Fórmula 1 há algumas décadas concordam que os embates entre Nelson Piquet e Nigel Mansell e entre Ayrton Senna e Alain Prost deixaram o duelo Lauda-Hunt com uma aura de rusga juvenil.
O documentário “Senna” aprofunda esse contencioso entre o brasileiro e o francês, transformando os eventos vividos pelos dois em uma narrativa novelesca, ainda que totalmente baseada em “fatos reais”. Fico imaginando se, daqui alguns anos, alguém se aventurar a filmar também esse duelo, como Howard fez agora. Melhor vestir logo o ator que fará Senna de branco e dotá-lo de auréola. Prost, em um modelito vermelho, surgirá com chifres e tridente.
Mas, não se influencie por essa leitura crítica: “Rush” é excelente entretenimento. O problema é que nós, que gostamos demais desse troço chamado Fórmula 1, temos a essa história toda na cabeça. E, para aqueles que cultivam o hábito de pensar, então, é impossível assistir ao filme e não rotulá-lo como um bom filme. De ficção.
Por fim, um registro afetivo: terminada projeção, fiquei vários minutos lendo os créditos, em busca de um nome. Finalmente, surgiu na tela, como assistente de Mr. Ron Howard: Gabriel Henrique Gonzalez, filho do colega Wagner Gonzalez. Vi Gabriel, que nasceu em Londres, apenas uma vez. Com uns sete anos, esteve na minha casa e brincou de carrinho no chão da sala. Proud of you, Gabriel!

Wednesday, May 01, 2019

Senna e a bandeira


Você aí se preocupando com a inflação de 6% ao ano talvez não saiba, ou não se lembre, que o índice quase atingiu 80% em 1986. E esse número absurdo para os dias de hoje já foi um avanço na comparação com o ano anterior, quando a inflação chegou a estapafúrdios 242% ao ano. 1986 começou com um dos choques heterodoxos realizados na segunda metade da década, com o objetivo de debelar a inflação, o Plano Cruzado. Não deu certo. Em 1987, o índice ultrapassaria os 360%. A economia do Brasil naquele tempo era uma vergonha.
É certo que o noticiário, em 1986, foi dominado pela economia no início do ano, mas chegou ao final do primeiro semestre tomado pelo interesse na Copa do Mundo, realizada pela segunda vez no México. Nada muito diferente do que já acontecia antes, a cada quatro anos, e voltou a acontecer depois, e sempre. No comando da seleção brasileira, o mesmo Telê Santana tido como arquiteto do futebol-arte derrotado na Copa de 1982. Era evidente que a seleção brasileira que se apresentou no México não inspirava a mesma esperança de quatro anos antes, mas não era fora de propósito renovar a crença e sonhar com um título que já não vinha para o Brasil havia 16 anos.
No dia 21 de junho de 1986, um sábado, a seleção brasileira entrou em campo para disputar as quartas-de-final contra o time da França, que tinha como principal expoente o jogador Michel Platini, no ocaso de uma bela carreira em clubes, mas sem um título mundial pela seleção de seu país (que, por sinal, só viria em 1998). No tempo regulamentar daquele jogo no estádio Jalisco, 1 x 1. Na disputa de pênaltis, o Brasil saiu derrotado, 4 x 3. Dito assim, parece um jogo qualquer. Não foi. Drama, pênalti perdido durante a partida pelo atacante Zico, que saiu como o grande vilão do Brasil na derrota. Para aumentar a sensação de tragédia, no pênalti cobrado pelo francês Bellone, a bola maliciosamente bate na trave, atinge as costas do goleiro brasileiro Carlos e entra para o gol. Quatro anos depois da derrota no Sarriá, quando o Brasil foi eliminado pela Itália de Paolo Rossi, nova frustração para a torcida. O país cuja economia era uma vergonha passava vergonha também no futebol.
Poucas vezes a expressão “nada como um dia após o outro” fez tanto sentido. No domingo, 22 de junho, aconteceria o GP dos Estados Unidos da temporada de Fórmula 1, no circuito de rua de Detroit, sétima prova daquele campeonato. Uma semana antes, vitória do inglês Nigel Mansell no GP do Canadá. A torcida estava com os olhos voltados para Jalisco e poucos devem ter atentado para o fato de que Ayrton Senna havia marcado a pole position para a corrida estadunidense. Foi a 11ª pole de sua carreira. Logo atrás dele, a dupla da Williams, com Mansell à frente de Nelson Piquet. O francês Alain Prost, que desembarcou em Detroit como líder do campeonato, largava apenas em sétimo.
Logo no início da prova, Senna perderia a liderança para Mansell, recuperando a ponta na oitava volta, quando o inglês começou a enfrentar problemas com os freios. O brasileiro começou a abrir vantagem para os demais, quando foi obrigado a fazer um pit stop por conta de um pneu furado, na 13ª volta. Lá na frente, a liderança sobrava para dois franceses, consecutivamente. Primeiro, com René Arnoux, que se manteve na ponta por apenas três voltas, sendo obrigado a também ir aos boxes para trocar pneus. Depois, com Jacques Laffite. Senna, nessa altura, fazia uma bela corrida de recuperação, passando Michele Alboreto, Stefan Johansson, Arnoux e Prost. Na volta 31, Senna passa Mansell e é beneficiado pela parada de Laffite nos boxes. Nessa altura, o brasileiro já estava em segundo, atrás do compatriota Piquet, e voltou a ser beneficiado por mais uma ida do líder ao box. Com uma parada longa demais, Piquet voltou à pista disposto a recuperar posições, mas acabou batendo e abandonando na volta 42.
Enquanto isso, Senna mantinha a liderança segura na prova, mantendo-se em primeiro da 39ª volta à bandeirada. Depois do acidente de Piquet, praticamente só franceses alternaram-se nas posições que davam direito ao pódio. Arnoux, que também acabaria saindo da prova por acidente, Laffite, terminando em segundo e conquistando o último pódio de sua carreira, e Prost, que se debateu com problemas nos freios mas, ainda assim, garantiu o terceiro lugar. Senna chegava à sua quarta vitória, a segunda no ano, mas o GP dos EUA de 1986 ficaria marcado na memória do público brasileiro menos por essas estatísticas e mais, muito mais, por um gesto de Senna.
Ao garantir a vitória, já na volta de desaceleração, Senna diminui a velocidade, para o carro próximo a um guard rail e faz um gesto para alguém que assistia à corrida. Um homem se aproxima e entrega ao piloto uma pequena bandeira do Brasil, daquelas feitas em plástico, com uma pequena haste. Bandeira de parada militar, eu definiria. Ele terminou a volta segurando e agitando a bandeira, assumindo, depois, que o gesto era uma forma de compensar a frustração do público brasileiro pela derrota no dia anterior. Caiu bem. Caiu muito bem.
A comparação da bandeira de Detroit com os artefatos utilizados por populares e estudantes em parada militar não foi à toa. Em 1986, o Brasil vivia o segundo ano após o fim da ditadura militar. Durante vinte e um anos, o governo federal sempre procurou associar os símbolos nacionais aos feitos do próprio Estado. Usar verde e amarelo na década de 1970, para o brasileiro médio, era uma forma de expressar patriotismo. Não faltavam oportunidades para isso, mas a apoteose era mesmo o 7 de setembro, quando até fitinhas nas “cores do Brasil” eram distribuídas para serem amarradas nas antenas dos rádios dos carros. Para uma geração como a minha, que cresceu no período, a associação da bandeira do Brasil com o governo militar era direta e, em um determinado momento, começou a se tornar repulsiva.
De quatro em quatro anos, era como se a seleção brasileira de futebol se apoderasse do verde e amarelo. Depois do “Brasil que vai pra frente” e traz a Jules Rimet definitivamente, uma cacetada após a outra. Em 1974, perdemos o rumo no carrossel holandês. Em 1978, a farsa que deu o título à seleção argentina, no bojo de uma ditadura militar ainda mais recrudescida. 1982 e o grande trauma do futebol-arte que deu em nada. Enquanto isso, o Brasil ia se afundando na “carestia”, desconstruindo o mito de que aquele governo, que nos livrara da ameaça comunista, era o mais competente para garantir uma vida tranquila à população. Os donos da bandeira – governo e seleção brasileira de futebol – estavam por baixo. Empunhá-la era quase um escárnio.
Ao empunhar a bandeira pela primeira vez, naquele 22 de junho, caprichosamente à frente de dois franceses, Senna não apenas vingou a derrota do dia anterior, mas reabilitou um símbolo nacional. No lugar de um governo autoritário que progressivamente passou a desagradar a maioria da população ou de jogadores incompetentes, um jovem bem nascido e obstinado pela vitória. Um Brasil que dá certo e dá orgulho. Uma bola dentro, provavelmente surgida da espontaneidade, e depois largamente utilizada como forma de reafirmar a condição de grande herói do povo brasileiro, que Senna exerceu dali para frente, até sua morte.
De 1986 para frente, agitar ou empunhar uma bandeira do Brasil tornou-se algo natural e esperado nas vitórias de Senna. No pódio do GP do Brasil de 1991, sua primeira vitória em casa, aquela da sexta marcha, o piloto carrega um bandeira grande, com haste, e exacerba na expressão da dor até para erguê-la, reafirmando a missão de literalmente carregar o Brasil nos ombros. Em 1992, acossado pela ameaça de impeachment, o ex-presidente Fernando Collor jogou a sorte com o apoio popular e suplicou que o brasileiro o apoiasse no domingo seguinte, saindo às ruas de verde e amarelo. A população respondeu com roupas pretas. Perdeu, playboy. Naquele ano, Senna até poderia estar lascado, correndo atrás de uma Williams inalcançável, mas o verde-amarelo era dele.
Reza a lenda que, dentro do FW 16 que levou Senna ao encontro da morte, repousava uma bandeira da Áustria, homenagem póstuma do brasileiro ao companheiro Roland Ratzenberger, morto no dia anterior. Teria sido bonito. Dois meses depois, quando a seleção brasileira de futebol finalmente voltou a ser campeã, 24 anos depois do “pra frente Brasil”, vários jogadores enrolaram-se em bandeiras brasileiras. As referências a Senna foram evidentes, inclusive com uma faixa exibida por jogadores ainda em campo, na qual se lia: “Senna…aceleramos juntos, o tetra é nosso”. Mais do que homenagear o herói morto, a seleção parecia pedir licença para retomar o símbolo para si. Vinte anos depois, sem títulos na Fórmula 1 há vinte e três anos, sem títulos no futebol há doze, com uma insatisfação pelo país cada vez mais evidente, por motivos diversos, a bandeira respira com esperança de voltar à moda. Vai que é tua, Neymar?
Texto publicado pela primeira vez em maio de 2014.

Thursday, November 22, 2018

As viúvas: quem roubou de quem?

Viola Davis (Veronica): "mulher é o crioulo do mundo"

Em sua essência, “As viúvas”, novo longa-metragem dirigido por Steve McQueen, de “Doze anos de escravidão”, é um filme sobre um grande roubo. Circundando o tema principal, “As viúvas” às vezes tangencia e, em outras, mergulha tão fundo em tantos assuntos que talvez seja mais correto afirmar que se trata de um filme sobre racismo, machismo, violência doméstica, xenofobia, classismo, lugar de fala, corrupção e sororidade, tendo, como pano de fundo, os planos para um grande roubo, e o roubo em si.

Na sequência de abertura, “As viúvas” mostra os personagens Veronica (Viola Davis) e Harry Rawlings (Liam Neeson) se beijando, deitados na cama. A cena é cortada por sequências de homens fugindo em uma van, durante um roubo. Além das cenas de intimidade desse casal, a abertura também mostra sequências de outros três casais em seus cotidianos, deixando claro que aqueles eram os homens que seriam mortos durante uma operação criminosa, e elas, suas viúvas.

Ambientado em Chicago, o filme desenvolve a trama dessas mulheres no contexto de uma eleição municipal, que contrapõe os personagens Jack Mulligan (Colin Farell), sucessor político de seu pai, Tom Mulligan (Robert Duvall), e Jamal Manning (Brian Tyree Henry), que tenta ser o primeiro vereador negro eleito no distrito. Manning, que logo se mostra conectado a ações ilícitas, como evidencia sua relação com o sobrinho Jatemme (Daniel Kaluuya), pressiona Veronica após a morte do marido, que era o chefe do bando, exigindo que ela termine a tarefa não concluída pela quadrilha. Ameaçada, ela convoca as outras viúvas para cumprir a tarefa.

Viola Davis e Colin Farell

 Para contar essa história, com uma daquelas revelações surpreendentes quase no final, McQueen apoia-se em um roteiro, do qual é coautor, baseado no livro “Widows”, de Lynda La Plante. Transitando em dois mundos muito distintos – o dos brancos e o dos negros – o diretor diferencia esses universos por meio de símbolos visuais e sonoros inequívocos: o comitê espartano do candidato negro versus o equivalente luxuoso do político branco; o rap dos negros, o cool jazz dos brancos.

No entanto, para mostrar que aqueles universos aparentemente tão distantes conviviam praticamente na mesma vizinhança, McQueen lança mão de um plano sequência que registra uma viagem de carro, paradoxalmente conduzida pelo lado de fora do veículo. Enquanto se ouvem as vozes de Jack Mulligan e de sua assessora, de dentro do carro, a câmera passeia pelos bairros de Chicago, saindo do desprovido distrito pobre, habitat dos negros, para rapidamente chegar ao endereço elegante dos brancos, com suas casas sofisticadas, cercadas por grades.

É na personagem Veronica, no entanto, que reside a interseção dos dois mundos, como uma afronta àquela divisão. Veronica é uma mulher negra e rica, altiva em uma condição sócio-econômica que logo se revela frágil. Não tão frágil, no entanto, quanto seu próprio espírito, indelevelmente marcado por uma tragédia, revelada nos minutos finais do filme, cuja origem não foi outra senão o racismo. Há outro personagem, o reverendo Wheeler (Jon Michael Hill), um pastor negro protestante, que também transita entre os dois mundos. Em um sermão com frases como “Hoje, a ignorância é a normalidade, ou melhor, é a excelência”, Wheeler tem o salvo-conduto de ser reconhecido como um líder de espíritos, mentes e votos. Por isso, tem o respeito que Veronica não desfruta nem entre negros, muito menos junto aos brancos.

Basicamente, porque “a mulher é o crioulo do mundo”, como já cantava John Lennon. O que dizer, então, quando a mulher é negra? No contato com as viúvas que arregimenta para terminar o serviço dos maridos, Veronica se porta como chefe. Mas é notável que acabe funcionando como trampolim para a dignidade da jovem viúva Alice (Elizabeth Debicki), uma loira de origem polonesa e aparência frágil que apanhava do marido e era humilhada pela própria mãe. A primeira vez em que Alice consegue levantar a voz não se dá em uma discussão com o marido agressor, na conversa cercada de hipocrisia com a mãe ou nos encontros com o novo e egoísta namorado, mas com a mulher negra que a confronta, mostrando que os esforços de sororidade ainda precisam transpor muitas barreiras de racismo depositadas ao longo dos séculos.

Michelle Rodriguez e Elizabeth Debicki

Tão arraigada permanece a questão da cor da pele que Alice, já revestida de uma coragem provavelmente inédita em sua vida, não tem dificuldade para cumprir a tarefa de comprar armas de fogo para o grupo, provocando a empatia de uma típica mulher e mãe norte-americana. Fingindo-se uma esposa ameaçada pelo marido (sabemos onde ela se inspirou para compor a história), Alice sensibiliza a mulher acompanhada de sua filha a orientá-la sobre quais revólveres escolher. Diante da frase candidamente repetida pela menina (“Mamãe, você sempre diz que a arma é a melhor amiga de uma mulher”), o trio mostra que a sororidade, de fato, existe, mas prolifera melhor entre iguais no tom de pele.

Contudo, o filme de McQueen não se contém nas dualidades entre negros e brancos, inserindo-se nas sutilezas de confrontos de outras naturezas. Imersa em conceitos abertamente racistas e xenófobos, uma conversa entre o velho Tom Mulligan e seu filho Jack mostra que há embate também no aspecto geracional. “Não vamos perder esta cidade para pessoas que vieram para cá ilegais e que não param de ter filhos”, diz Tom a certa altura, diante da evidente falta de traquejo político do sucessor. No entanto, ainda que o conflito crie uma relação crispada de ressentimentos e frustrações, ele não parece pujante o suficiente para mobilizar revoluções, deixando claro que a cartilha continuará sendo seguida, menos por crença, e muito mais pela normalidade que oferece, algo que se reforça em uma pergunta do velho: “mudar as coisas para quê?”

É admirável que a história ainda consiga se debruçar sobre questões como a misoginia e até o lugar de fala. A máscara de brinquedo da filha de uma das personagens inspira as mulheres a transformarem suas vozes no momento crucial da tarefa. Estariam elas disfarçando suas identidades ou emprestando um tom masculino às próprias vozes, como busca desesperada por respeito? E como não se sensibilizar com o comício do candidato branco que chama ao palanque mulheres negras para dar testemunho de seus empreendimentos, facilitados por brancos, em um discurso proferido apenas e unicamente pelo homem branco da cena?

Agudo na construção de seus personagens e conflitos, “As viúvas” é um exemplar filme “de roubo”, mas, ao final, é impossível não ter a convicção de que aquelas mulheres (todas as mulheres?) foram e continuam sendo roubadas nos que lhes é mais caro: a dignidade.

Tuesday, October 23, 2018

Sua bolsa tá aberta...



A frase quase sempre soa como se um meteoro estivesse prestes a cair sobre a minha cabeça. É um aviso angustiado, de medo, de ameaça à espreita. “Cuidado, moça, sua bolsa está aberta!”

Geralmente, no metrô ou em algum outro lugar público. Já fiz troça da frase. “Eu sei, não consigo pegar minhas coisas com ela fechada.” Já fiz discurso. Já me resignei simplesmente e disse apenas “obrigada”.

Mas é uma frase que me incomoda, me irrita, cutuca minha consciência, porque revela um pensamento de cunho pequeno-burguês. Uma neurose pela qual o mundo conspira para tomar o que pertence a esse cidadão de bem.

Sim, a frase também pode ter simples cuidado com o outro, um aviso bem-intencionado. Claro que pode. Mas seu cerne é essa certeza de que o outro está a postos para tomar o que eu conquistei, com o meu suor.

São Paulo, trabalho não falta. Ainda que você passe três horas do seu dia sacolejando em um vagão, ou no ônibus. Mas, final do mês, salário na conta. Mexer na minha bolsa? Cuidado, moça, sua bolsa tá aberta.

Eu entendo o trabalhador que saiu do sertão e aqui encontrou a chance de não morrer de fome, ainda que morra de cansaço um pouco por dia, e de pressão alta um pouco por ano, e de câncer no pulmão, de vez.

Entendo que ele tenha essa neurose, essa frase automática, esse grito de alerta incontido. Deus o livre levarem seu dinheiro, seu celular, essas coisas que a gente custa tanto a conquistar.

Eu entendo que ele desenvolva um medo permanente de ser roubado, e que enxergue na punição exemplar o único jeito de evitar esses larápios. E se deixe seduzir pela ideia de se armar contra essa ameaça.

Causa e efeito: trabalhei, Deus me ajudou, venci. Calvinismo puro. Vem aqui me roubar? Te recebo com bala, filho de um cão. É uma pena, mas não tenho o direito de pedir para ele pensar em programas de inclusão.

Mas há o outro pequeno-burguês, apartamento de 70 metros quadrados, varanda gourmet, financiado em 30 anos, sedã adquirido em consórcio, 60 parcelas, que vocifera contra a taxação de grandes fortunas.

(pausa para o riso)

Aquele que herdou propriedades e rala o mês inteiro, administrando os dividendos da família enquanto falsifica uma carteirinha de estudante porque o ingresso nessas novas arenas ficou bem mais caro que no Pacaembu.

Esse pequeno-burguês não anda de metrô, portanto sua bolsa raramente corre o risco se ficar aberta. Mas nem por isso ele sossega atrás do sedã com vidro filmado, da grade do condomínio. Deus o livre roubarem suas coisas.

Esse pequeno-burguês não encontra o pequeno-burguês alarmado no metrô. Encontrava recentemente, nos aeroportos. Seu sobrinho encontrou outros deles há algum tempo, na faculdade. Deus o livre, roubaram minhas coisas.

Se o pequeno-burguês do metrô avisasse da bolsa aberta para o pequeno-burguês do sedã, o pequeno-burguês do sedã olharia com medo para o pequeno-burguês do metrô.

O medo do pequeno-burguês do metrô é de ladrão.

O medo do pequeno-burguês do sedã é de pobre.

Monday, April 16, 2018

Max, o adultescente



"Os 40 são os novos 30." Sempre que vejo alguém reivindicar juventude onde deveria haver maturidade, tento ser condescendente. Afinal, uma das marcas mais significativas das últimas décadas foi a grande mudança demográfica pela qual a sociedade tem passado: estamos ficando mais velhos. Antes, era preciso começar a trabalhar cedo, casar cedo, ter filhos cedo, porque raramente se iria além dos 50 anos. Hoje, chegando e ultrapassando os 80, a visão do tempo mudou. A linha de chegada avançou muitos quilômetros nessa longa estrada da vida, e o ser humano sabe que, com enorme probabilidade, não terá chegado à metade da sua existência quando fizer 40 anos. Sendo assim, o que dizer de alguém de 20?

O piloto holandês Max Verstappen tem 20 anos. Fez sua estreia na Fórmula 1 em março de 2015, quando tinha apenas 17. Ou seja, podia pilotar um carro da categoria mais importante do planeta, mas ainda não podia dirigir pelas ruas. Foi um assombro: em sua segunda corrida, já conquistou um sétimo lugar. Marcou pontos em outros nove GPs, demonstrando o arrojo típico dos grandes talentos. A bordo de um carro da Toro Rosso, Verstappen cumpria o papel de jovem promessa na equipe que é o time B da Red Bull. Chamou tanta atenção que, no ano seguinte, fez apenas quatro corridas pelo time original, sendo promovido à Red Bull a partir do GP da Espanha. Nessa primeira corrida, justificou a pressa dos patrões em assegurar seu passe, colocando-o fora dos olhos grandes da Ferrari, que parecia cortejar o garoto. Conquistou nessa mesma corrida sua primeira vitória, beneficiando-se da colisão entre os favoritos Lewis Hamilton e Nico Rosberg, da Mercedes.

Verstappen muito rapidamente virou uma estrela na Fórmula 1. Com duplo apelo - o talento e a juventude - amealhou uma torcida jovem militante em sua causa. A cada prova, essa verdadeira esquadra passou a atuar em bloco nas eleições de "piloto do dia" e o holandês vencia quase sem esforço a sondagem realizada no site da Fórmula 1. No ano da estreia pela Red Bull, Verstappen terminou em quinto no campeonato, confirmando a boa aposta da chefia, ainda que a Red Bull não tivesse o mesmo nível técnico das rivais Mercedes e Ferrari. Em 2017, no entanto, os erros do holandês começaram a se proliferar.

É certo que ele perdeu muitos pontos por quebras do carro e situações em que sua culpa seria nula ou pelo menos relativa. Mas também é evidente que Max deixou de somar pontos para si (e para a equipe), por excesso de arrojo, como no GP da Hungria, em que uma ultrapassagem forçada pelo holandês tirou da prova Daniel Ricciardo, seu companheiro de equipe. Mas nenhum erro anterior parece tão determinante quanto a sequência estabanada do GP da China de 2018. Verstappen beneficiou-se da estratégia - e da agilidade - da Red Bull, que chamou seus dois pilotos ao box na mesma volta e trocou-lhes os pneus no momento exato em que o Safety Car aproximava os outros carros na pista.


Só que Max, com excesso de arrojo e falta de paciência, forçou duas ultrapassagens. Primeiro, sobre Hamilton, saindo da pista e sendo ultrapassado pelo companheiro Ricciardo. Depois, sobre Sebastian Vettel, fazendo com que os dois pilotos rodassem e ele mesmo recebesse uma punição de dez segundos. Vettel terminou a prova em oitavo, Verstappen, em quinto, assistindo a uma exibição irretocável do companheiro australiano. Finda a prova, o jovem holandês foi imediatamente pedir desculpas ao alemão, que aceitou e elogiou o gesto de mea culpa.

Do ponto de vista esportivo, a série de manobras desastrosas talvez ajude Max a aprender com os erros. Com apenas 20 anos, Verstappen pode se tornar um multicampeão no futuro, claro. A título de comparação, vale lembrar que alguns campeões recentes da categoria já estavam lutando e vencendo seus primeiros títulos em suas quartas temporadas (Michael Schumacher, Fernando Alonso e Sebastian Vettel, especificamente). Hamilton, outro caso raro, foi campeão no segundo ano e lutou por ele no primeiro. Schumacher foi campeão, pela primeira vez, com 25 anos. Alonso, com 24 (o campeão mais jovem até então). Vettel, com 23 (batendo o recorde de Hamilton).

Todos eles, em seus inícios de carreira, cometeram erros em profusão. Normal, esperado até. Em sua quarta temporada na Fórmula 1, Verstappen já tem experiência o suficiente para não poder mais ser considerado uma promessa. Se perder corridas como a da China, por sua própria culpa, já não pode colocar o revés na conta da pouca idade.

Os erros na China não anulam o enorme talento de Verstappen nem inviabilizam seu futuro promissor. Mas o que parece chocante é acompanhar sua massa de torcedores-seguidores deixando de enxergar a culpa do piloto nas duas manobras desastrosas. No fundo, o choque se desfaz quando voltamos lá para o começo da história e lembramos que um ser humano adulto, hoje, parece ter salvo-conduto para continuar imaturo aos 20 anos. Passando a mão na cabeça desses jovens tão talentosos, voluntariosos e, em muitos casos, privilegiados, estamos criando uma imensa população de "adultescentes".

Thursday, April 05, 2018

Dois cigarros: a transitoriedade de tudo

O primeiro romance do jornalista e escritor Flavio Gomes


Homens de meia idade costumam ser crianças crescidas, e por isso mesmo respondem à voz de comando de uma mulher com obediência canina. Talvez por serem de uma geração acostumada aos mimos de mães e avós zelosas e onipresentes, de alguma ou de várias formas parecem buscar essa segurança opressora vida afora. Da mesma forma que o instinto do cachorro faz com que ele aceite as ordens do dono porque vai receber comida depois, o homem entrado em anos recebe os desígnios da mulher em busca da recompensa carnal que ela eventualmente irá a ele destinar.

Dois cigarros, primeiro romance do jornalista e escritor Flavio Gomes, tem um protagonista sem nome consciente dessa condição. O livro, em primeira pessoa, é um relato de um homem de quarenta e poucos anos para uma mulher mais jovem. A relação comandante-comandado fica evidente logo nas primeiras páginas, que relatam uma viagem do casal a uma hipotética cidade do interior de Minas Gerais.

A jovem guia todos os passos da dupla, determina a dinâmica entre eles, escolhe dos passeios ao cardápio, passando pelas roupas dos dois. Ele obedece e se cala, como o cão que senta, deita, rola, vai buscar a bolinha, volta com a bolinha, abana o rabo porque sabe que, depois, vai ganhar ração.
Gomes, no lançamento do livro, em São Paulo
Só que a moça, além de altiva, é errática. Entra e sai da vida do tiozinho solitário sem aviso. Como tudo, aliás. Na vida dele. Na vida, apenas. Cada vez que volta, surge a bordo de ordens e mistérios. O domínio que exerce sobre o pobre macho pode lembrar o perfil da mulher desalmada de “Travessuras da menina má”, de Mario Vargas-Llosa. Mas, enquanto o protagonista do escritor peruano é um pobre diabo revestido de autocomiseração, o arquiteto errante de Flavio Gomes é um ser resignado. Não há nada de grandioso em sua existência – nem os prazeres, nem as danações.

Mas, se as autoimagens dos dois protagonistas são bastante diferentes, as visões que ambos têm das mulheres de seu desejo são totalmente opostas. O peruano ressentido parece sempre disposto a julgar o comportamento da “menina má”, inclusive como forma de reforçar sua própria miséria. O arquiteto/barqueiro/garçom de Flavio Gomes tem arroubos de raiva e desprezo pela jovem que o domina ao nível da paranoia, mas nunca a julga e, ainda que a ligação entre ambos seja carnal, o romance jamais resvala na descrição dos encontros físicos entre ambos. Elegância? Mistério? Algum pudor?

Não. Porque não é essa ligação física o que move a história. Um inesperado plot twist coloca Dois cigarros na trilha de uma narrativa em vários tempos, e é muito mais a vida daquele pobre diabo que passa a interessar o leitor. Costurada como um labirinto cujos caminhos, de alguma forma, irão se encontrar, a trama equilibra eventos frenéticos e divagações existencialistas de forma instigante, saborosa. Flavio Gomes tem um dos melhores textos do jornalismo esportivo brasileiro há quase trinta anos. Não é de se espantar que tenha trazido sua prosa altamente coloquial para o formato romance, legando ao público uma história sobre amor que é também sobre a vida, ou sobre a transitoriedade de tudo, inclusive dos sentimentos.

Desavisado, ou mal-intencionado, um leitor crítico poderia questionar: por que ele está contando para a mulher uma história que ela mesma viveu? Insignificante, resignado, blasé, aquele homem de meia idade nunca havia falado de sua (s) vida (s) para ninguém, nem para ela. Contar a história dela era uma forma de dar significado à existência banal dele. A narrativa o colocou no controle, porque todo homem de meia idade é uma criança crescida, mas grita por dentro a necessidade de ser pelo menos um pouco macho alfa.

Sobre o livro, lançado pela Gulliver, acesse aqui

Wednesday, April 04, 2018

1968, o ano que terminou em abril*

Jim Clark e Graham Hill: a batalha que não houve
Enquanto você estourava champanhe, pulava sete ondas, comia lentilhas, guardava caroços de romã na carteira, ouvia a mesma história daquele tio pelo oitavo Réveillon seguido ou curava as bolhas ganhas na São Silvestre, a Fórmula 1 registrava quarenta anos da última vitória de Jim Clark, em Kyalami, tornando-se o escocês o maior vencedor da Fórmula 1 até então, com 25 vitórias, superando Juan Manuel Fangio. A informação pode soar estranha – corrida de Fórmula 1 no dia 1º de janeiro?
Sim, e a estranheza tende a aumentar quando se descobre que a segunda corrida daquele campeonato de 1968 só aconteceria mais de quatro meses depois. Outros tempos, sem o foco da Fórmula 1 ajustado no binômio negócios-espetáculo que passou a nortear os eventos esportivos nos últimos anos. A lógica era simples: escapar o quanto fosse possível do inverno. Assim, era natural ter uma corrida na África do Sul em janeiro, em pleno verão no hemisfério sul, e só retomar o calendário na primavera europeia.
Clark venceu a prova de abertura em 1º de janeiro. Quando a Fórmula 1 desembarcou na Europa, para o GP da Espanha, em 12 de maio, o então líder do campeonato e bicampeão da categoria (1963 e 1965) estava morto. Em 7 de abril daquele ano, Clark perderia a vida em uma etapa do Campeonato Europeu de Fórmula 2, em Hockenheim, na Alemanha. Outro aspecto que, à luz de quarenta anos passados, pode parecer sem sentido. Clark correndo de Fórmula 2 em 1968 seria o mesmo que Fernando Alonso disputando uma prova da GP2 atual. Mais ou menos.
Naquele tempo, era comum ter pilotos da Fórmula 1 disputando provas da Fórmula 2. Desta mesma corrida em Hockenheim, participaram, por exemplo, pilotos do quilate de Graham Hill, companheiro de Clark na Lotus, e também campeão do mundo, e Chris Amon. Não havia nada de extraordinário, portanto, nesse cruzamento de pilotos e categorias. Além do mais, a Fórmula 1 vivia seu longo período de hibernação.
Clark perdeu o controle de seu carro na sétima volta, entrou por um trecho da floresta e bateu de lado, violentamente, em uma árvore, na altura do cockpit, morte instantânea. A vitória do escocês na prova de abertura era um prenúncio da alta competitividade do Lotus 49, o modelo criado por Colin Chapman para aquela temporada. Ao lado de Clark, no pódio, aparecia seu companheiro Graham Hill logo na segunda posição.
Após a morte de Clark, Hill venceu as duas corridas seguintes, depois amargou uma sucessão de quebras em quatro provas consecutivas, voltando ao pódio mais três vezes na segunda metade do campeonato. Foi campeão com doze pontos de vantagem sobre Jackie Stewart. É claro que a chance de Clark ter vencido esse campeonato seria enorme. Era um piloto de 32 anos, no auge da forma, com um carro vencedor, gozando de prestígio e, mais do que isso, de amizade junto ao dono da equipe.
O ano da morte de Jim Clark, 1968, é considerado um marco da história contemporânea. Tendo morrido em abril, Clark ainda teve tempo de ouvir falar de algumas notícias que mudariam para sempre a face da política e da cultura mundial naquele ano: os primeiros protestos nos EUA contra a guerra do Vietnã, a viagem dos Beatles à Índia, onde se aproximaram da cultura oriental, o assassinato do líder Martin Luther King, três dias antes do acidente fatal com o escocês.
Mas Clark não viu, por exemplo, os estudantes franceses protestando contra o governo reacionário de Charles de Gaulle no famoso maio de 68, não soube do assassinato do senador Robert Kennedy, nem viu os tanques soviéticos invadindo a Tchecoslováquia depois da frustrada “Primavera de Praga”, nem o protesto anti-racista dos Panteras Negras durante os Jogos Olímpicos, no México. Tudo em 1968.
Isso para não mencionar fatos marcantes da história brasileira, que certamente não chegariam aos ouvidos de Clark, como a ação do movimento estudantil, o advento da Tropicália e o endurecimento da ditadura militar, culminando com o decreto do Ato Institucional número 5, o tristemente célebre AI-5.
O ano de 1968, cujos fatos chegam agora a seu 40º aniversário, significou um momento de rupturas múltiplas. Na ordem política, se por um lado a chamada sociedade civil começava a se mobilizar contra regimes autoritários, por outro, vários países viram recrudescer sistemas anti-democráticos. No âmbito social, floresceram como nunca antes os movimentos feministas, anti-racistas, a luta pela liberdade sexual.
E, ainda, no campo cultural, multiplicou-se o experimentalismo, a liberdade criativa, a utilização da arte como forma de protesto e engajamento sócio-político. Muito do que se plantou em 1968 continuou dando frutos nos anos seguintes, modificando drasticamente a política, os costumes, a vida no final do século 20. Por essa perenidade e prevalência nos tempos que se seguiram, 1968 foi chamado, pelo escritor Zuenir Ventura, em seu livro lançado em 1987, de “o ano que não terminou”.
Na Fórmula 1, não foi bem assim. A morte de Clark foi um golpe severo para a categoria, ainda que tenha acontecido em um período no qual, afinal de contas, morrer nas pistas não era um evento raro. Clark era uma das principais estrelas da Fórmula 1 naquele tempo, e galgava célere os degraus rumo ao posto de maior piloto da história.
Seu número de vitórias, 25 em 72 GPs disputados, coloca-o ainda hoje em sexto lugar entre os maiores vencedores da Fórmula 1, 40 anos após sua morte. Há quem diga que Clark abandonaria as pistas no final daquele ano, para se casar. Difícil imaginar que, com um terceiro título no currículo, e com a Lotus em seus melhores dias, o escocês abriria mão de tentar ser o maior de todos os tempos. Especular sobre os anos seguintes é temerário, mas não há grande chance de errar sobre o título de 1968.
Clark e Hill na mesma equipe, adversários históricos. Hill foi vice-campeão nas temporadas que consagraram Clark (1963 e 1965), roubou-lhe o título de 1962 e a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis de 1966. À frente da concorrência, a Lotus dominaria amplamente aquele campeonato de 1968, com a promessa de uma disputa acirrada pelo título entre seus dois pilotos. Sobrou só Hill.
Aquela árvore, naquela pista alemã, naquela tarde de abril, na sétima volta encerrou o ano precocemente para a Fórmula 1. 1968 terminou ali.
*Coluna publicada originalmente em abril de 2008