Wednesday, February 03, 2010

Treino é treino (?)


Torcedor de Fernando Alonso, ele me liga entusiasmado no começo da tarde, logo depois de chegar da escola e de checar os tempos de Valência.

- Holla, que tal?! As coisas estão ótimas para a Espanha, com Alonso em primeiro, De la Rosa em segundo e Alguersuari em quarto!

Easy, big fellow. Do outro lado da linha, arremessei certa dose de água fria no caliente palpite infantil. Parece não conhecer a máxima futebolística de que treino é treino, jogo é jogo. Digo a ele que muita coisa pode ter levado a esse domínio inexpugnável da Ferrari nos três dias. Pode haver simulacros de toda sorte, da equipe italiana e das outras. No entanto, o entusiasmo tiffoso tem, sim, razão de ser.

A primeira hipótese, sempre levantada pelos lá de trás: andaram com pouco combustível. Se foram a Valência para andar durante três dias com pouca gasolina, fecha a firma. Neste deserto de testes e boas ideias, gastar seis períodos de treino só para fazer figura é demonstração evidente de pouca inteligência. Ainda mais com o fim do reabastecimento e a necessidade de conhecer as reações do carro pesado, parcialmente abastecido e levinho, como nas classificações.

Não. Não acho que a Ferrari gastaria esse tempo só pelo status de estar na frente, ainda que de forma fantasiosa. A torcida apaixonada, que entupiu a via de acesso ao autódromo, poderia justificar um falso brilhante da Ferrari como presente de boas vindas a Alonso. Mas Massa fez quase igual na véspera e na antevéspera. Não é tudo blefe.

E ainda que eu queira baixar a bola da expectativa juvenil - coisa de mãe, para evitar eventuais futuras decepções - não deixo de lembrar da Brawn, em Barcelona, no ano passado. Chegou chegando e praticamente antecipou nos testes o que faria na Austrália, para valer.

Talvez siga nesa linha o raciocínio de Michael Schumacher, que já duvida de suas chances de vencer pela Mercedes logo no início da temporada. Pode ter percebido que a ex-Brawn não é tudo isso neste ano. O velho truque o difusor de dois andares já não é segredo e a equipe "alemã" pode estar mais próxima das outras do que esteve na primeira metade de 2009.

Para o bem da competitividade, eu torço mesmo para que Schumacher tenha um bom carro, competitivo e com potencial vencedor. Mas que não seja o melhor do grid. É muito melhor ver Schumacher em desvantagem, precisando caçar os adversários, como o fez na Malásia/1999 ou no Brasil/2006, do que tê-lo inquestionável lá na frente, quebrando recordes e construindo monotonias.

Que a Mercedes não seja uma Brawn em 2010!

Sunday, January 31, 2010

Arquitetos de obra pronta


Meu parceiro Sergio Brito, um dos mais talentosos editores de arte com quem já trabalhei, costuma definir desta maneira aqueles que, depois de pronto um projeto editorial, começam a tecer comentários óbvios: são os arquitetos de obra pronta. Depois que a coisa já aconteceu, é bem mais fácil teorizar sobre ela. Não querendo ser arquiteta de obra pronta, prefiro apresentar meus palpites sobre as principais equipes de Fórmula 1 deste ano antes que o primeiro motor do primeiro carro ronque em Valência, neste primeiro de fevereiro.

Algumas equipes já apresentaram carros, duplas e novas pinturas. Como era de se esperar, as diferenças entre os modelos de 2010 e 2009 são bem menores do que aconteceu no ano passado, quando uma substancial mudança no regulamento aconteceu e reduziu drasticamente os apêndices aerodinâmicos dos carros. Foi uma revolução. Em 2010, não haverá mais reabastecimento, o que obrigou os projetistas a preverem tanques maiores, impactando na distância entre-eixos dos carros. É uma mudança, não uma revolução.

Discorro sobre a não-revolução como preâmbulo para meu primeiro palpite: apesar de ter amargado alguns desempenhos decepcionantes em 2009, principalmente em pistas nas quais a temperatura era mais baixa, a ex-Brawn, agora Mercedes, me parece favorita justamente pela similaridade entre os pacotes técnicos de 2009 e 2010. As cartas não foram tão embaralhadas desta vez. Quem já vinha bem não tem motivos para ir drasticamente mal.



Seguindo esse mesmo raciocínio, alinho meu segundo palpite: a "bebe quieto" Red Bull briga pelo título em 2010. Os flashes reluziram para Ferrari e McLaren, que apresentaram carros e pilotos paramentados, enquanto a equipe de Vettel, Webber, Christian Horner e, principalmente, Adrian Newey mantém-se na moita. O projeto de Newey para 2009, com seu bico afilado, mostrou-se verdadeiro benchmark da categoria. Tanto que a Ferrari não teve vergonha em copiá-lo neste ano. A incógnita do time dos energéticos segue sendo o motor Renault, grande calcanhar de Aquiles da temporada passada no quesito confiabilidade. A falta de interesse da montadora francesa na categoria pode atrapalhar e fazer da Red Bull mais um exemplar de "por fora bela viola, por dentro pão bolorento". Mas, em 2009, quando motor e carro ajustaram-se bem, foram verdadeiros olés na concorrência - China, Inglaterra, Alemanha, Japão, Brasil e Abu Dhabi.

Isso tudo não quer dizer que considero McLaren e Ferrari coadjuvantes. As duas grandes equipes praticamente desistiram do campeonato passado na metade e passaram a trabalhar com os olhos em 2010. Foi graças a uma decisão desse tipo que a Honda saiu do fundo do grid, em 2008, para se tornar a Brawn GP vencedora dos títulos de Pilotos e Construtores em 2009. É certo que, naquela ocasião, Ross Brawn era mais ou menos como a raposa tomando conta do galinheiro, presidindo a comissão que definiu as mudanças técnicas da categoria para o ano seguinte. Ainda em 2009, a McLaren esboçou uma reação consistente, dando a Hamilton duas vitórias, dois terceiros e um segundo lugar na segunda metade da temporada. O fato de abrigar os dois últimos campeoões da F1 pode detonar outra luta fratricida como se viu recentemente, com o mesmo Hamilton e Fernando Alonso. Ou como Senna e Prost. Quem corre de gosto não se cansa, já dizia minha avó. Se a McLaren encaixar um carro bom e perder novamente para si mesma, por conta de disputa interna, não pode dizer que ninguém avisou.



A Ferrari me parece uma incógnita ainda maior. A vitória de Kimi Raikkonen na Bélgica não serviu para atenuar o ano desastroso, agravado pelo acidente de Felipe Massa na Hungria e pela comédia de erros protagonizada depois pelo simpático, porém bufo, Luca Badoer. A ida de Alonso para Maranello revela um projeto de longo prazo. Cinco anos de contrato, dinheiro de xeque árabe, juras latinas de amor. Massa segue bem na fita com la famiglia. Mas persiste em mim a impressão de que, para a Ferrari, Felipe é o bom. Fernando, o marvado. O bom ganha elogios. O marvado, campeonatos. Segundo a dupla Fê-Fê (Felipe e Fernando) tem falado, os dados do túnel de vento, do simulador, do dinamômetro, enfim, de toda a traquitana tecnológica que serve para supor como o carro será na pista, parece que o bólido tem potencial. No entanto, ambos têm colocado várias condicionais e o jogador Alonso, que adora um pôquer, disse que não apostaria nem um dólar na certeza de que a Ferrari disputa o campeonato. Pode ser aviso para os tiffosi colocarem as barbas de molhos. Alonso, pôquer... Pode ser blefe, também.

No próximo post sobre F1, faço meus palpites sobre o campeonato de pilotos.

Invictus


Fazia muito tempo que a estreia de um filme não me deixava tão ansiosa. Quando ouvi falar de "Invictus", de Clint Eastwood, na mesma hora me programei para assisti-lo assim que estreasse. E o fiz ontem, dia seguinte da estreia em São Paulo. Adorei.

Motivos para a ansiedade: era um filme sobre esporte, sobre Nelson Mandela (uma personalidade que muito me interessa, talvez o líder mais marcante do meu tempo), um filme dirigido por Clint Eastwood (nunca deixei de gostar de um filme dele). Aliás, na primeira vez que fui a um cinema com um namorado foi para assistir a um filme de Eastwood. Era o improvável "Bird", sobre Charlie Parker. Na época, o jovem casalzinho, ambos metidinhos a intelectuais, olhava incrédulo para o cartaz do filme e dizia: "Nunca imaginamos que o primeiro filme que veríamos seria de Clint Eastwood...". Vinte e poucos anos atrás, Eastwood era mais um ator de filmes de ação do que um diretor respeitado.

Cheguei ao cinema em cima da hora. Sobrou-me apenas um assento na segunda fila. Péssima experiência. As cenas de ação, no campo de jogo, demandam certa distância para uma visualização ideal. De qualquer forma, não eliminou outros atributos do filme. O mais evidente e óbvio: o desempenho de Morgan Freeman como Nelson Mandela. Expressões faciais, gestual, sotaque, tudo remete ao líder sul-africano com veracidade inquestionável. Para ajudar, a reconstituição dos fatos reais é extraordinária. Como um atestado de realismo, no fim do filme, Eastwood coloca fotos dos próprios Mandela e François Pineear, o capitão do time de rugby, ao lado dos nomes de Morgan Freeman e Matt Damon. Semelhanças incríveis.

Mas não é só de atuações irresistíveis e reconstituições realistas que se faz "Invictus". Na minha ótica de apaixonada por esportes, vibrei intensamente com as cenas de ação em campo. Eu, que entendo pouco ou quase nada de rugby, me vi torcendo apaixonadamente pelo time da África do Sul contra o da Nova Zelândia. O que é algo praticamente inédito, pois foi a primeira vez que esta corintiana sofreu tão genuinamente por um time de verde jogando contra um time de preto...

Além disso, "Invictus" emociona ao reconstituir parte da vida de Mandela, sem deixar de mostrar seus paradoxos, sua grandeza como líder contrastando com sua solidão e afastamento da própria família. Emociona ao remeter ao poema que dá nome ao filme, embora deixe-o de certa forma no ar, ao não mencionar seu autor. Fui procurar por conta própria e achei este post, com o original e uma tradução para o português. Há cenas que quase resvalam a pieguice, como a do capitão Pineear visitando a cela que abrigou Mandela durante 27 anos. Mas é cinemão americano, afinal, e isso não é necessariamente um defeito.

Pequenos toques de diretor genial que valem o ingresso: as cenas em câmera lenta e o reforço dos sons guturais dos jogadores, que de certa forma reduzem aqueles homens uniformizados a animais, capazes de bater, de ferir, de atacar e de defender como feras ou presas. Capazes de alijar o semelhante de seus direitos, de segregar, de fixar-se a dogmas medievais com justificativas pueris. Ali, o rugby (poderia ser o futebol, a Fórmula 1, o boxe) não é mais um esporte. É metáfora da vida e da imaturidade reinante do ser humano.

Pelo twitter, o leitor Joubert Amaral me informa que o livro, como sempre, é rico em passagens e detalhes que escaparam ao diretor. Conta, por exemplo, que a insistência do capitão, para que o time aprendesse o novo hino sul-africano, é muito mais dramática e transformadora do que o filme apresenta. Boa ideia: vou aproveitar que meu aniversário está chegando e pedir o livro de presente...

Tuesday, January 19, 2010

28 anos


Há 28 anos, Elis Regina assumia de vez a condição de estrela.

Maior cantora do país. E ainda tinha bom gosto para futebol...

Sunday, January 10, 2010

Velha guarda


Em agosto do ano passado, escrevi este post sobre o caso Nelsinho Piquet x Flavio Briatore. O texto usava trechos de músicas da velha guarda da MPB para pontuar os lances da briga pública entre a família Piquet e o ex-chefe da Renault. Na ocasião, usei um trecho de uma música composta por Herivelto Martins e outra, cantada por Dalva de Oliveira, citando brevemente a briga pública entre o ex-casal.

Quem acompanha este blog sabe que gosto de Fórmula 1 e de música, misturando os dois assuntos eventualmente. Gosto pouco de TV, mas acabei me interessando pela minissérie que a Globo levou ao ar na semana passada, sobre a vida de Dalva e Herivelto. Assisti a alguns pedaços de alguns capítulos, o que naturalmente não me credencia nem para fazer a sinopse da história nem para avaliar a produção (acho que nunca vou me sentir gabaritada para avaliar nada em nenhuma produção de TV, especialmente em teledramaturgia).

Quando elogiei a caracterização dos atores, ouvi uma ótima frase da minha mãe sobre o Herivelto de Fábio Assunção. "Ele é bonito demais para fazer o Herivelto." Sim, de acordo. Mas, além de bonito, Fábio pareceu-me verdadeiro no papel. Uma boa maquiagem, com direito a uma prótese que o deixou com protuberante papada, somou-se às expressões corretas do ator. Vendo-o, eu enxergava aquele macho típico do século passado, que se achava no direito de pintar e bordar mas que negava o mesmo direito à mulher.

Mas, na minha opinião, as melhores coisas da minissérie foram a já decantada reconstituição de época que a Globo empreende em produções históricas e a atuação/caracterização da atriz Adriana Esteves. Os demais personagens reais retratados no programa (Marlene, Emilinha Borba, Dercy Gonçalves, Ataulfo Alves, Linda e Dircinha Batista) foram fielmente reconstituídos com atores contemporâneos. Roupas, mobiliário, microfones, auditórios de rádio, tudo parecia em sintonia perfeita com aquela atmosfera anos 30/40.

Adriana Esteves despiu-se da vaidade para abraçar o papel da cantora que apanhou mais da vida que carne de segunda. O cabelo crespo de Dalva, ruim de doer, afastou dela a imagem de loirinha brejeira que tanto grudou à sua figura em papéis anteriores. O gestual de sua Dalva, no palco, era preciso e fiel. A Dalva moribunda deu-lhe chance de exercer o drama e ainda de mostrar umas mãos macilentas de velha doente. Outro ponto para a maquiagem.

O melhor da série, na minha opinião, é levar a história e, principalmente, as músicas daquele período a várias gerações que não conheciam o tema. Mas é duro de aguentar os roteiros espremidos e forçados da teledramaturgia nacional. Contar uma história de décadas em cinco capítulos, com vários números musicais entremeando a sequência, acaba criando diálogos telegráficos e praticamente sem nenhuma profundidade.

Vendo a série, fiquei pensando em outros personagens da velha guarda da música brasileira que renderiam ótimas histórias: Carmen Miranda, Noel Rosa, Assis Valente, Vinícius de Moraes, só para ficar no pessoal da primeira metade do século passado.

E assim, em quase quatro anos de blog, perpetrei um texto elogiando a Globo! Talvez eu só volte a ver algo da teledramaturgia da emissora daqui uns quatro anos. Portanto, não acostumem...

Saturday, January 02, 2010

São Silvestre - ano 4



Faltam trezentos metros para o fim da prova. Olho no cronômetro e vejo 1h30. De longe, meu recorde negativo na São Silvestre. Mas faltam só trezentos metros. Já estou na Paulista, já subi tudo o que precisava, já corri quase 15 km. Mas não me canso de disputar corridas contra mim mesma e lanço-me um último desafio: cruzar a chegada antes que o cronômetro marque 1h31. Eu tinha acabado de entrar na avenida, vencendo a subida da Brigadeiro.

Volte umas nove horas no tempo. Manhã do dia 31/12, nove e pouco da manhã. Recebo uma notícia de morte. "Seu" Miguel havia partido na noite anterior, depois de uma relativamente curta, mas sofrida agonia. "Seu" Miguel foi uma espécie de avô postiço para mim. Sogro do meu tio mais novo, era uma figura engraçada. O mais divertido era assistir aos jogos do Corinthians, seu time, na sua companhia. Sempre escolhia um dos jogadores da partida para Cristo e o xingava do começo ao fim. Um jogador do próprio Corinthians, que fique claro. Se o Corinthians perdia, não demorava a decretar: "Também, com aquele perna de pau, só podia perder mesmo." Se ganhasse, pequena variação no discurso: "Não sei como ganhamos, com aquele perna de pau em campo".

Fui para o velório. Chegando lá, uma das primeiras reações à minha presença. "Ué, o que você está fazendo aqui? Não vai correr a São Silvestre?", disse meu primo Brunno, neto do "Seu" Miguel. Era cedo, ainda, umas 11h. Fiquei até a saída para o crematório e corri para casa. Preparei um spaghetti com legumes em tempo recorde e saí umas 15h15. Desde 2006 vivendo uma espécie de ritual na preparação para a prova, desta vez estava atordoada. No caminho para a Paulista, lembro de ter pensado: "Com que pernas vou correr? E com que cabeça?" Ao contrário do que dizia a música da Vila Sésamo, nem todo dia é dia, nem toda hora é hora.

Pensava e ia. Achava que não correria e seguia. Desanimava e continuava em direção à Paulista. Achei um estacionamento na alameda Jaú. Deixei vintão como pagamento adiantado e segui para o tradicional ponto de encontro da equipe Conexão, na frente do Hotel Maksoud Plaza. Lá, já estavam o Nilton, o Brando e a Alê Carioca. Depois, chegaram o William, o Henry, o Zoca e, surpresa!, nosso técnico Zé Eduardo Pompeu. Tínhamos feito o treino para a corrida no domingo anterior e eu não sabia que Zé correria desta vez. Foi a primeira vez que fiz a São Silvestre com ele e, quando fomos para a Paulista, propus: "Vamos fazer a prova todos juntos?" A ideia era meio absurda, porque é muito difícil correr em grupo em corridas de rua. Cada um tem seu ritmo e, afinal, são 21 mil pessoas na São Silvestre. Abafa o caso, encerro o assunto.

A largada, como se sabe, acontece na frente do Masp. Nós, da equipe, ficamos esperando o início da corrida na esquina da rua Pamplona, a uns trezentos metros. À nossa frente, aquele tradicional mar de cabeças, algumas adornadas por adereços esdrúxulos como vaso de cerâmica, chapéu de viking, coroa de louro, cocar. As fantasias se multiplicam, como sempre. Entre a largada da elite masculina e a nossa passagem pelo marco zero da corrida, mais de quinze minutos. Ao cruzar o portal de largada, olhei de relance para um telão e vi um dos líderes já no Minhocão. É gente demais para passar pelo mesmo pedaço. Há que esperar, não tem jeito.

À medida em que avançávamos, a mesma sensação de edições anteriores. São Silvestre só é corrida para os líderes, para os atletas de elite. Nós, amadores, devemos antes de tudo curtir essa prova como um grande evento, uma celebração. Buscar recorde na São Silvestre só é possível se você conseguir largar muito na frente. E aguentar o tropel de gente e a overdose de cotoveladas. No final da Consolação, continuávamos juntos eu, Brando, Henry e Zé. Depois do primeiro posto de água, na avenida São João, Henry desgarrou-se. Seguimos, os três, por um longo trecho, até o quilômetro nove, quando subimos o viaduto que liga as avenidas Rudge e Rio Branco. Daí para a frente, éramos eu e o Zé.

Então, chegamos de volta do Centro e suas cenas inusitadas. Mendigos encachaçados são outra tradição da São Silvestre. No Largo do Paissandu, um representante da classe juntou-se aos corredores. Uma das mãos levava no alto um ramo de folhagens, qual tocha olímpica. A outra ocupava-se de segurar o calção, que insistia em cair. "Vai, arruda!", "Boa, carqueja!", a multidão encorajava o lunático, que disparou entre os atletas com suas passadas trôpegas, porém rápidas, de chinelo de dedo.

Cheguei à Brigadeiro e, apesar da temida subida, só então consegui desenvolver um ritmo razoável, escalando o morro com relativa facilidade, pois a multidão, naquele ponto, já havia se dispersado bastante. Quase cruzando a Treze de Maio, encontrei o Nilton e, como sempre, fiz uma referência futebolística, já que ele é palmeirense e nunca escapa aos meus comentários alvi-negros. Este ponto, a Treze de Maio, é tido por todo corredor que já fez a São Silvestre como o fim da prova. Explico. Ali está o marco de 14 km. O quilômetro final terá cerca de 300 metros de terreno plano, na Paulista, e outro tanto no final da Brigadeiro. Ou seja, falta pouco, muito pouco para subir. A placa de 14 km, para um atleta amador, é mais ou menos como receber a sinalização de que falta só uma volta para o fim da corrida de Fórmula 1, quando se tem o melhor carro, gasolina no tanque e trinta segundos de vantagem para o segundo colocado.

Escalo a montanha, viro à direita, entro na Paulista. Checo o cronômetro. Já era uma quase tradição, para mim, fazer tempos piores a cada edição. Em 2006, 1h22. Em 2007, 1h23. Em 2008, adivinha? 1h24, claro. Eu já tinha passado muito todas essas marcas, já tinha entregado para Deus. 1h30. Olho o portal de chegada ao longe, pernas pra que te quero, um desesperado sprint final. Ainda ouço de um colega - "Boa, é isso aí, menina" - e aproveito aquele que é meu mais prezado Réveillon. Em 2010, se Deus quiser, estarei aqui novamente. E em todos os próximos anos, os bons, os não tão bons, os excelentes. Cruzo a linha de chegada, zero o cronômetro.

1h31.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press

Thursday, December 24, 2009

Feliz Natal



Nem Papai Noel, nem renas. Neste blog, a imagem do Natal é sempre John+Yoko, por várias referências - a música Merry Christmas à frente.

Nestes últimos dias, acabei refletindo um pouco mais sobre o Natal. Já faz alguns anos que procuro em mim o fascínio que o Natal exercia na minha imaginação. Na infância e mesmo depois, já adolescente, eu entrava em férias no final de novembro e dedicava o mês de dezembro inteiro a curtir de fato o Natal.

Confeccionava meus próprios cartões, escrevia-os e os enviava a minhas amigas de escola, folheava a revista Claudia em busca de ideias novas para enfeites (alguém aí se lembra da árvore de macarrão feita sobre um cone de isopor, depois colorida com spray dourado?). Em alguns anos, tinha também a novena de Natal, da qual eu gostava basicamente por dois motivos - pelas músicas natalinas e porque toda reunião invariavelmete terminava com um lanche!

Tinha o LP com músicas de Natal cantadas por um coro (austríaco, eu acho). E tinha um ritual que eu sempre repetia na tarde da véspera do Natal. Um disquinho da coleção Disney chamado "O Natal do Tio Patinhas", versão da história do velho avarento que é visitado pelos espíritos do Natal passado, presente e futuro.

E depois tinha a família chegando cada um com seu prato, com sacolas cheias de bebidas em vasilhames de vidro. Confusão de mulheres na cozinha, esquentando peru, tender, farofa e um detestável arroz com champanhe que, felizmente, só era feito no Natal e que eu odiava com todas as forças, porque a iguaria chique era sempre um arroz todo empapado, e eu detesto arroz empapado.

E, já na adolescência, demos de fazer sempre uma batida de sonho de valsa que virou hit eterno dos meus Natais (hoje, vai ter. É só bater uma lata de leite condensado, a mesma medida de pinga e cinco bombons sonho de valsa.) Na versão sem álcool, é só substituir a pinga por leite, fica bom também.

À meia noite, brinde. Sempre tinha alguém que pedia guaraná para brindar com o champanhe alheio "porque estava tomando remédio". Brinde e lágrimas. Como se chorava em Natal na minha família! Oração, sobremesa, amigo secreto (nove entre dez dos convivas começava sua dissertação acerca do amigo oculto com o indefectível "é uma pessoa muito especial"). Houve um tempo em que o amigo secreto perdeu ibope, ou em tempos de grana curta, sei lá. O genérico da brincadeira era um sorteio feito na hora, e cada um entregava ao outro uma barra de chocolate como símbolo de amizade. Não era incomum o sujeito tirar um papel e devolvê-lo, alegando ter tirado a si mesmo, ainda que outro alguém já o tivesse tirado também, evidenciando que o fulano estava apenas e tão somente selecionando quem queria e, principalmente, quem não queria tirar.

No fim de tudo, o desânimo diante das sobras daquele banquete pantagruélico. Sempre me impressionei muito mal com aquelas carcaças carcomidas, com aquele resto evidenciando o desperdício. E o cansaço tomando conta de todos, e a irritação para fazer caber na geladeira aquelas sobras. Quando criança, eu nem percebia esses bastidores da grande noite. Queria mais era dormir logo, para chegar logo o dia seguinte e poder brincar com os presentes ganhos na véspera.

Pensando bem, não é tão difícil descobrir porque o Natal perde seu charme na vida adulta. E, agora, com licença, que tenho de arrumar espaço na minha geladeira!

Feliz Natal, John. Feliz Natal, Yoko. Feliz Natal!

Tuesday, December 22, 2009

Na contramão



A foto que ilustra o post é manjada. Retrato do artista quando jovem, traz Schumacher em seus tempos de Mercedes, ao lado de Wendlinger e Frentzen, antes de Gachot lançar gás paralisante em um adversário durante uma briga de trânsito e catapultar Michael para a glória. Leio em sites, blogs e no Twitter que o anúncio da contratação do alemão pela equipe neoalemã é questão de horas. Portanto, começo me desculpando se estou falando em hipótese e o fato já está consumado enquanto você lê.

(Em quase quatro anos de blog, nunca fiquei mais de um mês sem escrever. Desculpem pelo abandono. Há alguns meses, lancei-me em um duplo compromisso - escrever mais no blog e retomar meus bons desempenhos nas corridas. E pedi para ser cobrada! Vocês também esqueceram de fazer isso...)

Anyway...

Confesso grande dose de expectativa com a eventual volta de Schumacher. Se eu me inquieto com essa perspectiva, o que dizer de pilotos como Hamilton, Vettel, Kovalainen, Buemi, Kobayashi, Alguersuari, Grosjean? E ainda mais de Bruno Senna, Lucas Di Grassi, Hulkenberg? Há pouco, Di Grassi escreveu no Twitter que, quando Schumacher ganhou seu primeiro título na Fórmula 1, ele (Di Grassi) tinha apenas dez anos e começava no kart. Jovens pilotos, de variados calibres, terão a chance de correr ao lado do maior vencedor da história da Fórmula 1 e isso é coisa para, no mínimo, colocar no currículo. Desafiá-lo e eventualmente vencê-lo certamente são desejos nada secretos dessa moçada mal saída das fraldas quando Schumacher alinhou pela primeira vez, no já distante GP da Bélgica de 1991.

Vem um pouco dessa data parte da minha ansiedade pelo revival do alemão. 1991 foi a primeira temporada que cobri profissionalmente, na retaguarda da Folha de S.Paulo. Já escrevi aqui: quando a Jordan viu-se sem piloto, pela inusitada prisão de Bertrand Gachot, redigi uma nota curta (um módulo 200, como chamávamos na época) sobre o substituto, um tal Michael Schumacher de quem eu, confesso, nunca tinha ouvido falar. As informações estavam em um telex, também bastante curto, evidenciando que Schumacher estava longe de ser um superstar na época. Voltar 19 anos no tempo é algo de um valor quase afetivo, um mergulho no tempo, uma sensação de também estar começando de novo e isso, crianças, por alguma razão, nos revitaliza.

Mas há uma ansiedade esportiva ainda maior a me aquecer neste quesito. Vislumbro um campeonato, como no caso de 2009, com muitas limitações para o desenvolvimento dos carros ao longo da temporada. Testes quase nulos repetem a cantilena do campeonato terminado em novembro: para ser vencedor, o carro precisa nascer bom. Desenvolvê-lo ao longo do ano? Sem testes? Difícil. E a Mercedes parte de um projeto muito bom. Se o modelo de 2010 for uma evolução do carro da Brawn, é certo que teremos Schumacher em um carro candidato ao título. Ou seja, sua volta não terá nada de café com leite. Com o perdão da expressão, ele vai pro pau.

Mas terá uma Ferrari que praticamente recolheu as armas na metade da temporada passada, hibernando para 2010, com uma dupla de pilotos tida, até agora, como a melhor do grid. Difícil imaginar que Maranello fará figuração pelo segundo ano consecutivo. Terá, também, uma McLaren, agora sem Mercedes, mas com outra dupla de pilotos fortes (dois campeões do mundo, afinal). Terá uma Red Bull amadurecida na briga pelo título, com um mini-Schumacher cada vez mais sedento por se firmar no Olimpo da Fórmula 1.

Outro fator que pode pesar a favor da competitividade em 2010. As mudanças aerodinâmicas impostas pelo regulamento em 2009 foram muito mais radicais que as do próximo ano. Na temporada passada, a Brawn acertou a mão, com aquele difusor duplo que tanta vantagem lhe deu no início do ano (e que, dizem por aí, nasceu das informações privilegiadas de Ross Brawn ainda no comando da extinta Honda). As outras literalmente correram atrás. É de se supor que esse desequilíbrio não seja tão grande em 2010. Minha perspectiva - que talvez seja até uma esperança, reconheço - é ver Schumacher em um ambiente muito mais equilibrado do que em seus tempos de Ferrari. Um verdadeiro tira-teima a que um homem de 41 anos vai se impor. Estou louca para ver.

Last, but not least, gostaria de falar da série de decisões dissonantes que envolvem Mercedes e Schumacher neste final de 2009, início de 2010. É a tal contramão que dá nome a este post. A primeira contramão é o próprio reforço da Mercedes em sua permanência na Fórmula 1. Justamente quando as montadoras saíram em debandada da categoria, a empresa alemã reafirmou seus investimentos. A segunda está na própria constituição do time.

Enquanto a maioria das equipes sempre busca mesclar pilotos de estilos e nacionalidades diferentes (até como recurso para atrair diferentes patrocinadores e parceiros), a alemã Mercedes está em vias de investir em dois pilotos alemães. Essa decisão, se confirmada, revela mais que uma opção esportiva. Desnuda uma postura neonacionalista à qual nos desacostumamos em relação à Alemanha do pós-guerra. Equipe alemã, com dois pilotos alemães. Uau! Acho que as feridas finalmente começaram a cicatrizar.

Por fim, a evidente contramão na faixa etária. Em 2010, celebramos mais um recorde de precocidade na Fórmula 1, quando Jaime Alguersuari tornou-se o mais jovem piloto a estrar na categoria. Este rapazinho poderia ser filho do provável (eventual, possível, especulado...)piloto do carro número 4 no ano que vem.

Oh, lord... Falta muito para a temporada de 2010 começar?