Sunday, May 29, 2016

Mais uma vez, a arte me salvou


Não sei dizer quantas epifanias e catarses o cinema, a música, o teatro e a literatura já produziram na minha vida. Todas, de alguma forma, me recolocaram no trilho da sanidade mental, embora eu muitas vezes só tenha percebido isso muitos anos depois. Eu achava graça por ter chorado tanto em “Dumbo”, na cena em que o filhote de elefante é separado da mãe, e só depois associei aquele choro como uma resposta elaborada ao ciúme que o nascimento do meu irmão gerou em mim.

Às portas da adolescência, fui assistir ao musical “Aí vem o dilúvio” e fiquei obcecada pela peça, em especial por uma cena na qual os personagens formavam casais que tinham por missão repovoar a Terra. “Bela noite sem sono...” era um dos versos da canção e, novamente, apenas muitos anos depois eu entendi que a sensualidade delicada daquele momento explicou a mim a ebulição de hormônios que eu experimentava – e estranhava. E me pacificou.

Nunca deixou de ser assim. “Cem Anos de Solidão”,“Central do Brasil”, um show extemporâneo dos Mutantes, “Pina”, “Ela”, para citar apenas alguns. De fato, acho que nunca vivi um ano sem que alguma obra de arte fizesse o favor de me colocar no prumo, ou me convulsionar a ponto de repensar as escolhas e o rumo da minha vida. E sempre me sinto um pouco constrangida com isso, porque entendo arte como entidade inútil, no sentido de ter fim em si mesma. Utilizá-la para alguma coisa, ainda que em nível moral, mental, espiritual, soa a mim como profanação.

E hoje essa tarefa coube ao filme “Ponto Zero”, do diretor José Pedro Goulart.

Na sexta-feira passada, comentei brevemente com a minha mãe que não conseguia pensar no estupro coletivo da garota carioca sem ter vontade de chorar. Não era verdade. Cada vez que lia ou escutava algum fato relativo a esse crime, eu não tinha vontade de chorar. Eu sentia angústia, raiva, nojo. Mas lágrima nenhuma descia.

Sintomaticamente, desenvolvi em dois dias uma série de reações físicas a esse conjunto de sentimentos. Uma crise de alergia congestionou minhas vias aéreas superiores. A cabeça pesava e doía, evoluindo durante o dia até virar enxaqueca. Crises de tosse irrompiam sem aviso e me paralisavam a fala. Para coroar, uma afta do tamanho de uma couve-flor deixou meu lábio com o indesejável aspecto de uma aplicação de botox assimétrica.

Fui ver “Ponto Zero” quase num voo às cegas, com pouquíssimas referências. A beleza da cena de abertura vale pelo filme todo, e sua retomada no final, ainda que não viesse carregada de simbolismo, seria justificada plenamente apenas pela questão estética. Acho até que o filme carrega demais nos simbolismos, alguns meio óbvios, como carros andando de marcha à ré, mas nunca vou deixar de ser grata a ele, pela perturbadora sequência de cenas sob a chuva que ocupa boa parte do trecho final.

Além de belíssimas, e de incluir uma dos meus maiores objetos de fascínio no cinema – planos-sequência – as cenas de chuva provocaram uma reação física inequívoca em mim. Chorei. Não, o filme não era especialmente triste, nem esta sequência, carregada de referências a morte e renascimento, tinha algo de triste. Era um rito de passagem do personagem central, mas funcionou como catarse genuína para mim. Três dias depois da notícia do estupro, de pelejar com o peso da cabeça, com o incômodo da alergia, com a afta e com o nó no peito, “Ponto Zero” parecia ter puxado a tampa do meu ralo. Chorei os oito quilômetros que separam o cinema da minha casa. A cabeça não dói mais, estou respirando bem, a afta drenou, aquela dor entre as costelas sumiu.

A arte foi o que de melhor nossa espécie medíocre produziu neste planeta e vou continuar usando-a como tábua de salvação. Bom para mim.


Mas, e a menina?

Friday, May 27, 2016

Cultura do estupro: isso É política



Estou disfarçando, mas não está fácil viver em um país em que uma moça é estuprada por 30 e um “ministro” recebe um apologista do estupro.

Escrevi esta frase no Twitter, na tarde desta quinta-feira. Algumas pessoas começaram a reproduzi-la, até que ela chegou a alguns formadores de opinião da rede social, desses que têm dezenas de milhares de seguidores, que também reproduziram. Muitas horas depois, continuo escutando o sinal no celular, dando conta de que alguém a está curtindo ou compartilhando. Não é ruim a sensação de perceber que não estou sozinha na minha indignação. Mas o sentimento de empatia não preenche a tristeza que continuo sentindo com tudo isso.

A um desses grandes formadores de opinião que reproduziram minha frase, o neurocientista e professor Miguel Nicolelis, respondi com uma pergunta direta: manifestar-se é pouco, indignar-se é pouco – o que fazer? Ele respondeu que a saída é investir em educação com cidadania. Claro, a resposta honesta a essa pergunta não pode supor uma ação cirúrgica pontual, que extirpe a cultura do estupro da nossa sociedade. A mudança virá com o tempo. Mas, e até lá?

Quando digo que não está fácil viver nessa sociedade, não estou usando de retórica. Sou mulher e sinto ecos dessa cultura no meu dia. Quando vou sozinha ao cinema e noto olhares de estranhamento pela minha ausência de companhia. Quando dirijo meu carro sozinha, à noite, e me forço a continuar olhando para a frente, impassível, porque o condutor do carro ao lado acha que o fato de estar desacompanhada funciona como senha para eu ser assediada.

Eu poderia continuar enumerando as situações desagradáveis que uma mulher como eu enfrenta cotidianamente, e elas vão desde irrelevantes dissabores, como o garçom que entrega a conta para meu filho de quinze anos, supondo sempre que o homem da mesa vai pagar a despesa, até grandes inquietações de ordem moral, como embotar minha própria sexualidade enquanto não tiver certeza de que poderei expor isso para um interlocutor civilizado, que não vai me classificar como vagabunda.

(Aliás, cabe aqui uma breve reflexão sobre o emprego das palavras vagabundo e vagabunda, na nossa sociedade. Vagabundo é o homem que não trabalha. Vagabunda, a mulher que transa com quem quiser, ou com qualquer um, ou com muitos. O defeito, no homem, é não prover, pecado venial em sua existência. O da mulher, fazer o que quiser do seu corpo, pecado mortal.)

Mas, na fila dos oprimidos, estou em penúltimo lugar. Sou mulher, branca, com nível superior de escolaridade, tenho casa própria, carro, dois aparelhos de TV em casa. Acho que são esses itens que definem um cidadão de classe A no Brasil. Atrás, na fila da opressão, apenas os homens iguais a mim. À nossa frente, os homens pobres, os homens pretos, os homens pretos e pobres, as mulheres pobres, as mulheres pretas, as mulheres pretas e pobres.

Olham estranho para mim no cinema? O filme não ficará pior nem melhor por isso. O macho alfa do carro ao lado está lançando olhares lascivos em minha direção? Daqui a pouco, o farol abre. O garçom acha que meu filho é o provedor? Ele está repetindo um gesto ancestral e, afinal, muitos homens ainda fazem questão de pagar a conta, e algumas mulheres aceitam isso. O cara se escandalizou com minha franqueza na abordagem? Valeria menos que um cinema, com filme ruim.

Eu estou muito, mas muito menos vulnerável à violência de um estupro que a moça da favela, isso é fato. Mas nem por isso vou me sentir menos agredida do que me senti hoje. O fato de estar mais resguardada, na prática, não me protege da agressão de saber que uma semelhante a mim foi violentada por mais de trinta homens. Nem de encontrar opiniões que culpam a vítima pelo crime que ela sofreu.

Regras para namorar minha filha: 1 - Eu não faço as regras, 2 - Você não faz as regras,
3 - Ela faz as regras, 4 - O corpo é dela, as regras são dela


Na prática, o que posso apresentar como contribuição à mudança dessa cultura do estupro? O fato de estar criando um jovem para que ele respeite as mulheres como donas de seus corpos, e tudo o que isso significa em termos de aproximação, abordagem e envolvimento? Sinceramente, isso é minha obrigação como mãe.


Mas sinto que há algo positivo nascendo dessa tragédia que hoje chegou a nós. Esta é uma causa política. Já há eventos programados para os próximos dias, de protesto e discussão sobre a condição da mulher. Vá a algum deles, engaje-se, manifeste-se. Acho que poucos brasileiros mentalmente sãos, hoje, seriam capazes de afirmar que a nossa sociedade não naufragou. E a nossa sociedade é essencialmente patriarcal, oligárquica, elitista. Despertar – e agir – contra a cultura do estupro pode ser um começo para romper o monolítico atraso moral do Brasil.

Monday, May 23, 2016

Certo agora, errado antes: amor à arte


Se “viver é desenhar sem borracha”, como disse Millôr Fernandes, a arte ignora esse fatalismo. Qualquer forma de narrativa, literária ou audiovisual, permite contar o mesmo fato de maneiras diferentes, inclusive movendo elementos que modifiquem essencialmente a própria história. O filme sul-coreano “Certo agora, errado antes” faz isso de uma maneira desconcertante.

À primeira vista, é uma história de amor, ou de mera atração, entre um consagrador diretor de filmes “de arte” e uma artista plástica iniciante. Tudo o que dá errado na primeira parte do filme (“errado antes”) transforma-se com o movimento de uma única peça – uma informação fundamental sobre a vida do diretor. E é a segunda parte do filme, quando a história é recontada acrescida dessa informação, que o filme se revela bem mais que uma história de amor.

A simplicidade que o diretor Sang-soo Hong imprime a cada cena logo parece deixar clara a intenção da obra: contar uma história. As cenas são gravadas sempre com uma única câmera, muitas vezes fixa. O recurso do zoom, que surge esporadicamente, pode soar anacrônico, quase pueril, lembrando o movimento de câmera dos antigos filmes de lutas marciais. Aqui, no entanto, ele parece empregado apenas para captar mais de perto a expressão facial dos protagonistas e, aos poucos, vai deixando o espectador mais próximo daquela história e mais íntimo daquelas pessoas.

Ao acrescentar a informação essencial à história, na segunda parte (“certo agora”), Sang-soo Hong não apenas dá outro rumo à trama de amor/atração entre o diretor e a artista plástica. Ele redimensiona ambos e, ao fazer isso, propõe uma discussão que faz eco na própria arte.

Nesse momento, o personagem do diretor humaniza-se, deixa de ser “o famoso diretor Ham Cheon-soo”, cultuado como gênio, para ser apenas um ser humano sujeito a beber demais, e a falar demais, e a dar vexame. 

A artista plástica e o cineasta, no ateliê: discussão essencial

















Sob esse prisma, duas sequências deixam claro que a intenção de Sang-soo Hong, ao contrário da primeira impressão, não era apenas contar uma história de amor/atração, mas generosamente colocar a própria arte em discussão. Os diálogos entre o diretor e a artista plástica, no ateliê dela, antes e depois, revelam essa revisão. No segundo momento, é lapidar uma resposta da moça à suposição de que sua pintura era uma forma de fugir da solidão. “Não, quando eu quiser fazer isso, eu vou procurar um cara legal.”

A segunda passagem é a relação do diretor com um crítico local, responsável pela mediação de uma palestra sobre a obra do cineasta. No momento “errado” da história, o diretor sente-se agredido pelas perguntas do crítico, nitidamente sentindo-se aviltado. Seu estado de espírito – preso ao pedestal – parece agir contra uma interlocução franca e construtiva com quem quer que seja. Na recontagem da história, despido da faceta de mito infalível, o diretor surge relaxado e aparentemente feliz, em ver sua obra discutida e valorizada em um ambiente de pessoas interessadas no que ele tem a dizer.


Depois de descer do pedestal, com a simples admissão de uma verdade essencial, ele parece tornar sua própria arte mais verdadeira e mais propícia a atrair, enlevar, agradar ou simplesmente provocar a reflexão em quem tiver contato com ela.A cena final, cercada de afeto e compreensão, faz a ponte definitiva entre aquele casal improvável. Não seriam, afinal, suas vidas distantes que os uniriam, mas a arte.

Monday, April 18, 2016

Choram Paulinhas e Vanessas

Talvez tenhamos que reaprender a ser pedra
Fechei a janela do banheiro, abri a torneira da ducha, liguei o rádio em alto volume, enfiei a cabeça debaixo da água. Depois de sair da última colocação, no primeiro turno, o Corinthians chegava à final e perdia para o São Paulo, no Campeonato Paulista de 1987. Não queria ouvir a comemoração lá fora, os fogos, os gritos.

Sentei ao lado da janela, só porque o Outono tinha se fantasiado novamente de clima do Saara, acompanhei os votos no Twitter, meti fones de ouvido e, ao sinal do desfecho, soltei Red Hot Chili Peppers no máximo. A Câmara dos Deputados tinha aprovado o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não queria ouvir a comemoração lá fora, os fogos, os gritos.

“Você parece criança que, quando os pais dão bronca, tampa os ouvidos e fica gritando qualquer bobagem para não ouvir!”

Meu filho, depois de socar o sofá e o chão com suas luvas de muai thai, tinha certa razão em criticar um traço tão imaturo de escapismo quanto aquele. Não me demovi do gesto. A primeira música acabou, a farra na rua continuava. Soltei outra canção. Finda a segunda, o silêncio.

Chora mais. Depois, luta (foto Gustavo Andrade AFP)


Perdemos. Sim, perdemos feio, de lavada. É triste perder e, se o gesto foi o mesmo de quase trinta anos atrás, bancando a criança mimada que não, não quer ouvir, desculpem-me, companheiros. Tenho a pele fina, os ouvidos sensíveis e, talvez, o mais relevante: um ego inflado que não gosta de ser tripudiado. É por ele que não me exponho em brigas políticas ou futebolísticas. Talvez eu seja menos civilizada do que minha postura sugere. Eu não digo tudo o que penso – de pênaltis mal marcados a votos porcamente justificados – mas penso cada barbaridade que, deixa pra lá...

Vou continuar não brigando, mas meu coração foi se apertando e fazendo brotar palavras à medida que interagia com amigos – reais e virtuais – na noite deste domingo. Eram Paulas, Wesleys, Vanessas, Alans, Tatianas, Gustavos. E os que mais me comoviam eram os bem jovens, muitos deles entristecidos não apenas pela derrota, mas principalmente por ver aflorar sentimentos de intolerância que deságuam em algo que não pode ser chamado de outra coisa que não seja fascismo.

Por partes, companheiros. Primeiro, à tristeza pela derrota. Muitos de vocês não eram vivos, ou pelo menos crescidos, enquanto vivíamos uma ditadura militar no Brasil. Não viveram a campanha pelas Diretas Já, não votaram para presidente pela primeira vez junto com seus pais. Não vou dizer que a derrota de ontem foi pouca coisa, não foi. Mas não posso deixar de notar que os últimos treze anos, que representaram a continuidade de um governo de esquerda no Brasil, significaram mais da metade da vida de alguns de vocês. A guerra ainda não está perdida, e a mobilização de todos continua sendo vital para tentar reverter esse quadro.

Mas, acostumem-se à ideia de agir como oposição, caso percamos também a guerra. Esses treze anos, coincidentemente, marcaram também a popularização das redes sociais no mundo. É certo que a oposição à esquerda no Brasil articulou-se de forma competente por esse canal. Panelaços e manifestações nasceram nos últimos anos por meio desse veículo. E pessoas que pensam de forma contrária a nós sentiram-se encorajados para se mostrar. Mostraram muita convicção e vários exageraram na dose de agressividade.

Mas eu arrisco dizer que a neodireita brasileira não tem noção do que a esquerda pode fazer quando deixar de ser vidraça e se tornar pedra novamente, como fomos na maior parte da nossa existência. Fundamentalmente, porque nosso ativismo não se restringe ao ambiente virtual. Estamos lastreados por forças sociais (de trabalhadores, de estudantes etc.) que pode – e, ao me parece, vai – mobilizar a sociedade para além dos protestos festivos aos domingos.

Por isso, jovens companheiros, quando passar a vontade de chorar, de se esconder no riff barulhento de um rock estridente ou de socar o chão, mobilizem-se novamente. Já fizemos isso antes. Dói, mas caleja, e não mata ninguém, pelo menos enquanto não se chegar à conclusão de que a ditadura é melhor, como pensam alguns.


Quanto à tristeza de ver o discurso fascista florescendo entre nós, principalmente entre os mais jovens... Desculpem, talvez para essa eu precise da ajuda de vocês. Eu entendo e louvo a ideia de que jovens têm de ser do contra. É quase orgânico, e esperado. E acho que o atual governo tem erros terríveis a serem corrigidos, e acharia natural ver mais jovens empunhando a bandeira da inclusão social ampliada, da descriminalização das drogas, do respeito à mulher, do casamento homoafetivo etc. Mas não consigo encontrar explicação para, ao contrário, ver crescer as intolerâncias raciais, religiosas e étnicas, a homofobia, o machismo, a misoginia. Alguém me ajuda com isso? 

Wednesday, April 13, 2016

Rosa e azul

Apresentando a donzela à corte: bleargh!
Eram pelo menos dois por mês, quando não mais. Uma classe com vinte e poucas alunas, todas completando 15 anos naqueles meses. O meu, em fevereiro, não teve festa nem valsa. Estávamos de mudança para aquele que seria o lar dos nossos sonhos, um apartamento espaçoso e ensolarado, e todos os recursos iam para ele. Nem que estivéssemos nadando em dinheiro. Eu dizia, desde os bailes das minhas primas mais velhas, que, na minha vez, não teria nada daquilo. Por essa época, e até hoje, não gosto de comemorar aniversário, não gosto de ser o centro das atenções, para as boas coisas, como ultrapassar mais um ano de vida, ou para o mal, como ir ao pronto-socorro tomar soro.

Dois fatores somavam-se à minha ojeriza a bailes de debutantes: eu tinha uma autoestima rastejante na época, com um corpo habitualmente acima do peso e aparelho nos dentes, o que sempre me fazia sorrir de boca fechada nas fotos. Vestidos de baile - ainda mais nos anos 1980, cheios de mangas bufantes - não favoreciam a discrição que eu sempre pretendia.

Mas o mais severo senão era ideológico, bipartido em duas vertentes. Quando entendi que o baile de debutantes remontava ao conceito de "apresentar a jovem à sociedade", meu sangue feminista ferveu. Eu não estaria na vitrine desse mercado humano, à espera de pretendentes, mesmo que minhas amigas "normais" me dissessem que era só uma festa, para todo mundo dançar, divertir-se, paquerar.

A "diferentona": "Com reco eu não danço"


A segunda vertente, intransponível, era política. A moda, na época, era convidar cadetes das Forças Armadas para ir dançar a valsa com as 15 escolhidas pela aniversariante. Era 1985. Tínhamos acabado de encerrar a ditadura militar. Toscamente, é verdade, com um governo eleito indiretamente pelo Congresso Nacional (o hábito é antigo, como podemos perceber). Mas estava lá, um civil no poder. "Eu, dançar com um reco?!" Era assim que nos referíamos aos aspirantes a militar, fossem do Exército ou da Aeronáutica. Que eu me lembre, nunca apareceu nenhum grupo da Marinha nessas festas, e nem que aparecesse o próprio Richard Gere de quepe branco, saído do set de filmagem de "A força do destino", eu bailaria o Danúbio Azul com ele.

Atravessei o ano indo a festas, dançando ao som de Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Madonna, George Michael (que ainda era do Wham), A-Ha. Enlouquecidas com tantos bailes, as mães parecem ter costurado um acordão entre si, para que as 15 donzelas usassem sempre vestidos cor de rosa. Ninguém se importava em repetir o modelo. Minha mãe providenciou para mim um conjunto de saia e blusa, em chamalote azul. Era um tecido da moda, dava a ilusão de formar umas ondas na superfície. Elas iam de rosa, eu ia de azul, e seguia ignorando solenemente todo e qualquer cadete. Bem feito. Segui boca virgem até os 18 anos, e isso não é força de expressão. Minhas amigas achavam engraçada minha rebeldia. Aos 15 anos, a gente gosta de ser do contra. O que, por esses tempos, significava marcar posição contra os cadetes do baile de debutantes. Hoje, os do contra tiram fotos com a PM.

Sunday, March 27, 2016

Homens-objeto

O filme “A grande aposta” recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor. Levou apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, o que não quer dizer que o filme seja ruim. Pelo contrário, achei “A grande aposta” superior a outros três concorrentes a melhor filme que vi neste ano – “O regresso”, “O quarto de Jack” e “Spotlight”, embora tenha gostado muito dos dois últimos.



Quando comentei que tinha adorado “A grande aposta”, nas redes sociais, algumas pessoas questionaram se eu não havia considerado o enredo “técnico demais”, por conta das exaustivas referências a termos do mercado financeiro. Bem, o filme propõe-se a contar de que maneira a bolha imobiliária dos Estados Unidos tornou-se uma enorme crise econômica mundial, não havia como escapar desses termos.

Mas acho que os roteiristas foram hábeis na tarefa de introduzi-los, primeiro com as repetições constantes de sua definição, cabíveis nos diálogos, e também com o recurso bem-humorado de utilizar celebridades como a cantora Selena Gomes para exemplificá-los. Ainda que não se entendam todos os meandros desse ambiente, é fácil deduzir a mensagem principal do filme: o mercado financeiro é uma selva.

Christian Bale, em "A grande aposta"


No entanto, não é impossível que eu tenha me abstraído da dificuldade de entender todo o discurso técnico por um detalhe prosaico: o filme tem um monte de atores bonitos e/ou charmosos, e em dado instante eu percebi que além de seguir a história, eu estava interessada em continuar vendo aquele desfile de espécimes masculinos. Não eram poucos: Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt (que é um fracasso retumbante em tentar parecer gordo e velho), além de nomes menos conhecidos, como Hamish Linklater (o problemático, porém engraçado, irmão de Julia Louis-Dreyfuss na série “New adventures of old Christine), e até alguns coadjuvantes como Max Greenfield e Billy Magnussen.

Não. Não eram poucos. Era praticamente um monopólio de homens na tela. E logo me lembrei de outros dois filmes, citados anteriormente, que praticamente só mostravam homens em ação: “O regresso” e “Spotlight”. Comentei isso com o amigo crítico e escritor Pablo Villaça, diretor do site Cinema em Cena, e ele apontou que a falta de representatividade das mulheres no cinema não é novidade, em vários aspectos. Um deles é a baixíssima quantidade de mulheres indicadas ao Oscar, ao longo da história, na comparação com homens, em todas as categorias, como mostra este texto (em inglês).

Brad, desista: você nunca fica feio


Também me chama a atenção o fato de que nem sempre as atrizes premiadas pela Academia estejam nas produções indicadas ou vencedoras dos principais prêmios (Melhor filme, especificamente). Este outro texto, também em inglês, quantificou isso, mostrando que, na história, apenas 40% das mulheres indicadas na categoria Melhor atriz estavam em produções indicadas a Melhor filme, contra 52% entre os homens.

Uma tentativa de justificar essa diferença poderia passar pela escolha dos temas. Ora, se vamos falar de mercado financeiro e o mercado financeiro é dominado por homens, é natural que tenhamos mais atores que atrizes. O mesmo se aplica para um filme que fale de uma tropa do exército deslocando-se em um ambiente inóspito. No entanto, praticamente qualquer história pode ser contada do ponto de vista das mulheres afetadas direta ou indiretamente por elas. E ainda: o mundo está cheio de histórias cujo protagonismo se concentra em mulheres ou em grupos de mulheres, e muitas dessas histórias esperam ser contadas.

Ryan Gosling: "ô, lá em casa..."


Mas, então, fiquei pensando que minha atitude contemplativa da beleza masculina, diante de um filme tão impregnado de testosterona, ainda que sério, talvez tenha sido uma pequena rebeldia. Querem nos impor machos brancos indômitos nas telas, relegando as mulheres a papéis menos que secundários? Não tem problema. Façamos deles homens-objeto, eventualmente desconsiderando o que estão falando, apenas para admirar seus dotes físicos. O gesto de desprezo intelectual não é muito diferente do que se tem feito regularmente com a figura feminina, na mídia, em geral. Mulheres seminuas têm ajudado a vender de cerveja a carro 0 km, sem precisarem abrir a boca. De preferência, não abrindo.

De fato, tenho visto crescer, nas redes sociais, uma postura frontalmente lasciva das mulheres em relação a atores, esportistas e celebridades, cultuando esses homens eventualmente mais pelo seu invólucro do que pelo que dizem e fazem. Eu mesma tenho seguidores dos dois gêneros que se atiçam com meus comentários ligeiramente maliciosos ou meramente contemplativos da beleza de pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol e artistas, como se eu emulasse um macho típico soltando um gracejo do gênero “ô, lá em casa...”.


Essa naturalidade em “coisificar” um homem talvez seja boa notícia, por refletir mais uma fronteira vencida pela mulher na sociedade. Mas não aplaca a sensação de baixa representatividade que esses mundos – do cinema, do esporte etc. – ainda nos impõem. Eu trocaria alguns suspiros motivados por músculos salientes, olhares sedutores e sorrisos marotos pela sensação de maior pertencimento a esses mundos. Basicamente porque a contemplação na tela do cinema ou na TV é mera idealização, mas a desvantagem feminina é real, palpável e cruel.

Wednesday, March 23, 2016

Eu não te odeio

Posicionei o celular na direção dele e perguntei se poderia fotografá-lo. “Por que, você vai me bater?” Eu tinha acabado de sair do trabalho, estava usando um vestido estampado, sandálias de salto e carregava a bolsa em um ombro, a mochila com o notebook no outro. Penteada, levemente maquiada, como sempre. Eu realmente devo parecer madame, ou executiva. Era até natural que ele não me identificasse com o restante das pessoas que estava na Avenida Paulista naquela hora, manifestando-se a favor da democracia, a maioria vestindo vermelho. Mas era improvável que eu pudesse bater naquele homem de talhe enorme. Eu, um metro e cinquenta e seis de altura.

Mas entendo. Sinal dos tempos, da animosidade como regra. “O que é isso, companheiro?” Ele se desarmou, exibiu o cartaz que carregava e eu fiz a foto. Ri com ele. Mas não tinha nada de graça naquele rir. Não, não é sinal dos tempos coisa nenhuma, não é de agora, não é de hoje. Um homem negro ter medo de alguém como eu, apenas pelos símbolos de bem-nascida que carrego, é uma das histórias mais antigas deste país. Mais velha que esta, só se ele fosse índio.

"Vai me bater?"


Na hora, não relacionei o episódio a outro fato daqueles mesmos dias. Eu estava treinando, na academia, e um professor me perguntou, em voz baixa: “Você, que é petista, como está vendo tudo isso que está aí?” O tom de voz dele, que é contrário ao atual governo federal, carregava uma intenção evidente: não me expor naquele ambiente em que se contam nos dedos os eleitores de esquerda. Habitualmente acuada, por ter vivido a maior parte da minha vida em locais hostis à minha ideologia, respondi brevemente o que ele me perguntou e subi para fazer uma aula. Enquanto pedalava ao som de um bate-estaca, uma ideia martelava meu cérebro. Queria retomar a conversa e corrigi-lo quanto à minha definição. Não sou petista.

Se você chegou até aqui, já estou feliz. Em uma sociedade na qual muita gente mal lê placa de trânsito, atrair o leitor por três parágrafos é vitória do escritor. Caso alinhe-se à direita, não se anime com a afirmação acima. Caso seja “petralha”, “vermelho”, “bolivariano”, não abandone a leitura.

Eu sou de esquerda, desde a adolescência e nunca abandonei meus ideais socialistas. Já escutei muita crítica e deboche, dizendo que o socialismo não deu certo em lugar nenhum. Para todos, sempre dei a mesma resposta. Acredito que o socialismo ainda não deu certo porque o ser humano ainda não deu certo.

E acredito que está chegando um tempo em que a sociedade vá perceber que a lei da selva já não nos serve, que o “cada um por si” cavou um abismo profundo no qual estamos todos caindo, puxados pelo peso das florestas desmatadas, da força das águas armazenadas em barragens débeis, das montanhas de corpos de crianças famélicas, de refugiados cuspidos de suas terras, de mulheres assassinadas por maridos violentos, de gays agredidos apenas porque são. À beira do fim, após séculos de depuração, aprendendo muito mais pela dor que pelo amor, tenho fé: o homem vai entender que só a solidariedade salva.

Pode ser que o regime de governo que vá emergir desse pré-caos não se chame socialismo. É claro que a mácula sobre o nome pode ser incontornável, pelos maus tratos que governos ditatoriais ou simplesmente incompetentes lhe impuseram. Mas não me parece haver outra saída que não seja perceber o outro como reflexo de si mesmo, de enxergar-se naquela criança com fome, naquele imigrante, naquele homossexual, sob o risco de cairmos todos nesse mesmo buraco.

Qual não foi minha surpresa, recentemente, quando descobri que um pré-candidato à disputa presidencial dos Estados Unidos – Bernie Sanders, no caso – tem amealhado simpatizantes entre parte do eleitorado, especialmente jovens, ao tornar públicas suas posições que confrontam fortemente os ideais do livre mercado, deslocando o foco de um eventual governo seu para as pessoas, em vez de servir prioritariamente às instituições.

Teorizei um pouco sobre o “meu” ideal de sociedade por dois motivos: para expor claramente meu lado (se tivesse tido tempo de conversar com o personagem que abre este texto, ele entenderia que eu definitivamente não queria bater nele) e para explicar ao meu professor da academia que não concordo com tudo o que o atual governo petista fez. Isso inclui os erros administrativos e a corrupção (isso é tão óbvio que escrevi e apaguei essa menção algumas vezes, mas que fique, para registro). Mas também critico os avanços ainda tímidos desse governo em numerosas questões sociais. Eu idealizo um governo ainda mais destemido no enfrentamento a carteis, oligarquias, violências cotidianas e preconceitos. Este, que está aí, com muitos erros, foi o que mais se aproximou desse meu ideal.

Um motivo que não me impulsionou a esta “saída do armário”: convencer quem quer que seja da minha opinião. Em toda minha vida, só tive a pretensão de ajudar a formar o meu filho, porque sou responsável por isso e o que parece certo para mim teria de direcionar essa influência. Neste ano, ele se torna eleitor e vejo, com indisfarçável orgulho, que não reproduz minhas ideias. Confronta muitas delas, pensa por si.

Nasci e me criei em uma família de pensamento conservador. Amigos, vizinhos e a comunidade em torno, formada pela chamada “classe média”, seguiam a mesma linha. Os parentes votavam em massa na Arena, quando eu era criança. Professam essa ideologia até hoje, e por mais que me entristeça ver algumas dessas pessoas engrossando coros raivosos, sectários e preconceituosos, não vou ao embate contra eles. Primeiro, e mais importante, pelo afeto que me une a vários deles. Mas também pelo respeito que tenho à opinião de cada um. Como eu, são adultos e também tiveram as mesmas oportunidades de se informar e de formar seus pensamentos.

Acho até certa ingenuidade quando vejo amigos de esquerda alertando a massa que prega um regime de exceção, como intervenção militar, por exemplo, sobre os perigos que isso possa representar para o cidadão comum. Acho ingênuo porque, de fato, dificilmente essas pessoas (gente como eu, diga-se) serão diretamente afetadas pelo governo. Qualquer governo. Quem tem casa, carro, diploma, sítio, plano de saúde, passaporte etc. vive altos e baixos, aperta o cinto hoje, gasta em outlet amanhã e, no mais, toca a vida.

É claro que alguns se ressentem mais de momentos econômicos críticos como o atual e demonizam o governo, ainda que estejam patinando em dívidas ou em falta de oportunidades de trabalho porque fizeram escolhas erradas, ou gastaram demais e pouparam de menos. Mas raramente uma pessoa dessa classe vai militar politicamente ou incentivar seus filhos a fazê-lo. Geralmente, vai fugir de “confusão”, levando sua vida de “Ouro de tolo”, na certeza de que político é tudo igual. Não é pela ameaça da supressão de direitos que alguém vai alertá-los para o risco de um recrudescimento político e social. Nem por isso, vou ironizar suas escolhas, chamá-los de ignorantes, vociferar contra o que acreditam.

Manifestante não identificada na Avenida Paulista: não sei quem você é, mas você me representa

Se é fácil fazer isso porque os laços que me unem a muitos deles são os de afeto, não acho que seja impossível transportar a mesma tática para os que eu pouco conheço. Porque, para além do discurso raivoso, das ideias opostas ou simplesmente da aparência, pode ser que haja uma fagulha de diálogo. Da mesma forma que o companheiro na Paulista percebeu que, atrás do meu jeito de madame, havia ali alguém que, em grande medida, afinava o pensamento com o dele.


Não vou terminar sem expressar mais claramente o que penso “de tudo isso que está aí”. Mas vou fazê-lo com a ajuda do amigo Pablo Villaça, que publicou ontem este texto. Depois de lê-lo, eu ansiei muito pelo abraço que encerra a narrativa. Sintam-se, todos, abraçados.