Wednesday, December 11, 2019

História de um casamento: uma boa novela de Manoel Carlos

Scarlett Johansson (Nicole), Azhy Robertson (Henry) e Adam Driver (Charlie


História de um Casamento": sim, parece novela de Manoel Carlos. Pessoas de elite branca com problemas de elite branca. Sem um grande vilão, os conflitos vêm das situações. Não quer dizer que os problemas não sejam duros, e o diretor é hábil em criar empatia.

O forte do filme são os diálogos mas, no início, é quase tortuoso acompanhar tanta falação, cuja função é clara: situar personagens e seus conflitos. Mas o direitor e roteirista Noah Baumbach é também cuidadoso em pontuar esse falatório com signos visuais fortes.

Portas de armário deixadas abertas, cortes de cabelo, refeições sendo preparadas: o que parece mero cenário, nesse início turbulento, ganha significados diferentes em outros momentos do filme, nos quais os sentimentos dos personagens também são outros. Bela sutileza.

Baumbach também se mostra craque nos enquadramentos que escolhe para situações bem específicas da história. O tom confessional de determinada cena de Scarlett Johansson (Nicole), com a câmera fechada em seu rosto, chega a lembrar a estética de alguns filmes de Godard, como "A Chinesa".

E é admirável como ele desconstrói a ideia de intimidade/verdade do que estava sendo dito ao incluir a fala de uma personagem, até então ausente na cena, e cortar para um enquadramento totalmente diferente, descortinando a farsa montada pela advogada vivida por Laura Dern.

Laura Dern, por sinal uma das atrizes preferidas de David Lynch, é favorita em todas as sondagens para levar o Oscar de Atriz Coadjuvante. Na cerimônia, devem exibir um monólogo em que ela compara as mães à figura da Virgem Maria. Mas Laura faz muito mais que isso no filme.


Laura Dern, a advogada Nora


Sua altivez (realçada pelo figurino, com roupas sempre justas e saltos altíssimos, e pelo enquadramento - de novo! - que a coloca sempre como uma espécie de gigante) encurralam o quase ex-marido da história, Adam Driver, e seu(s) advogado(s).

Uma cena, em particular, materializa esse ato de encurralar a dupla masculina. Alan Alda, o advogado "bonzinho", e Driver estão conversando em uma pequena sala do escritório da advogada. O enquadramento escolhido por Baumbach quase dispensa palavras: estão em um beco sem saída.

Se Dern entrega uma personagem invariavelmente altiva, Driver percorre um caminho muito mais dúbio com seu Charlie. Intelectual, gênio criativo, pai exemplar, ele aos poucos deixa escapar sua natureza mesquinha, egoísta e, por que não dizer, machista. E o faz de forma impecável.

A grande cena de confronto entre Driver e Johansson vem ancorada em um diálogo que começa sob o signo da boa intenção e civilidade, atinge seu ápice com violência verbal e sentimentos terríveis, e termina com uma imagem que, afinal, sinaliza por onde passará a solução do conflito.

Por melhor que fosse o diálogo e o movimento de câmeras que o diretor/roteirista tivesse criado para esse ápice, só dois atores gigantes alcançariam o que Driver e Johansson atingiram ali. (Mas dois atores gigantes também não alcançariam isso se... vocês entenderam).

Meu único senão para o filme fica para a penúltima sequência, que acontece no quarto, com Charlie e o filho do casal. Ainda que seja uma solução de roteiro justificável, amarrando o fim com o começo, a mim soou apelativa, "para fazer chorar". No mais, gostei muito.

Thursday, December 05, 2019

Charles Chaplin, Buster Keaton, Noel Rosa e a atualidade do cinema mudo

Charles Chaplin, em cena de "O garoto"
Noel Rosa ficou incomodado com a influência de idiomas estrangeiros na linguagem popular e compôs “Não tem tradução”. O primeiro verso já aponta o réu, dizendo que “o cinema falado é o grande culpado da transformação”. Se estivesse vivo, Noel talvez se sentisse recompensado pela prevalência da imagem sobre o som no século 21.

Não só no cinema, claro. Grandes realizadores do início do século 20, como Charlie Chaplin e Buster Keaton, provavelmente estariam fazendo filmes sonoros nos dias de hoje, mas é instigante notar como o desafio de transmitir ideias só com imagens parece dominar o mundo contemporâneo.

Você liga seu computador e clica em cima de um programa ou de um aplicativo simplesmente ao reconhecer seu ícone na área de trabalho, sem precisar ler uma palavra sequer. O mesmo para seu celular (um computador também, afinal). Se quiser “dizer” que está tudo bem para alguém, é só entrar no aplicativo de mensagens, reconhecido pelo desenho de um telefone dentro de um balão, e enviar a imagem de um polegar erguido, e ainda que isso se chame emoticon, é de uma imagem que se trata.


Buster Keaton

Você não precisa mais ligar para ninguém e dizer, com voz chorosa, que está arrependido de ter feito alguma coisa e quer pedir desculpas. Taca a imagem do Gato de Botas, aquele do Shrek, olhando para cima com uns olhos marejados, segurando o chapéu como em ato de contrição. Não chama emoticon, chama GIF, mas é tudo apenas imagem.


"Desculpe..."

Nada precisa ser dito, e tem sido cada vez mais recorrente a queixa em relação a “áudios longos”. Ninguém quer ficar ouvindo uma ladainha de 1 minuto e meio. Manda uma imagem, um GIF. Se não ficar claro, acompanhe as imagens de um texto curto, uma ou duas linhas.

A comunicação interpessoal desembarcou na segunda década do século 21 como uma recriação do cinema mudo. Ou isso tudo não se resume a “imagens intercaladas com sucintas cartelas de texto”?.

Mas, pensando bem, Noel não se sentiria feliz. WhatsApp, emoticon, GIF (que significa Graphics Interchange Format, sabia?): tudo vem em Inglês e, para a maioria dos usuários, simplesmente não tem tradução.




Monday, November 25, 2019

Ford vs. Ferrari: um filmão, em sentido amplo

Damon (Shelby) e Bale (Miles): heróis na pista contra os monstros da burocracia


Se ocorresse uma catástrofe e a Ford fosse soterrada, daqui alguns anos os escavadores chegariam às ruínas e teriam a certeza de que se tratava de uma fábrica de papel com uma imensa frota de veículos. A piada interna, repetida por várias gerações de funcionários da multinacional norte-americana, faz eco com uma das cenas da primeira parte do longa “Ford vs. Ferrari”, dirigido por James Mangold, na qual o personagem principal, vivido por Matt Damon, critica a burocracia da companhia.

Baseado na história por trás da criação de um dos carros de corrida mais famosos de todos os tempos, o Ford GT40, o filme é centrado na figura de Carroll Shelby (Damon), um ex-piloto que se notabilizou por vencer as 24 Horas de Le Mans, em 1959, e precisou abandonar as pistas por conta de um problema cardíaco. O filme mostra Shelby mantendo-se no universo automotivo, negociando carros e projetando novos modelos, até ser procurado por um executivo da Ford (Lee Iacocca, vivido por John Bernthal), para liderar a criação de um carro e de uma equipe que fossem capazes de vencer a então imbatível Ferrari em Le Mans. Shelby aceita a tarefa e insere o velho amigo Ken Miles (Christian Bale) no projeto.

Um dos desafios de transformar uma história real em filme convencional é a fidelidade aos fatos. Quem conhece a longa história de Shelby (a despeito do problema cardíaco, ele viveu até os 89 anos, morrendo em 2012), certamente vai encontrar incorreções no roteiro. O mesmo vale para Miles e, mais ainda, para a própria Ford Motor Company. Uma reunião na sede, retratada no início da trama (e mostrando o interior da companhia, com suas características paredes de madeira) dá a entender que os anos 1960 seriam a estreia da empresa no automobilismo de competição, o que não é verdade. Mas, como a música dos Paralamas do Sucesso já ensinou, “a vida não é filme”. E “Ford vs. Ferrari” é um filmão.

Literalmente, inclusive. Filmado em formato scope, preenche a tela com ação e velocidade, entregando seu cartão de visita enchendo os olhos dos fanáticos por gasolina com cenas de Shelby ao volante de um Aston Martin, na sua vitória em Le Mans. Introduzindo a fase pós-aposentadoria de Shelby e a intenção da Ford em investir no automobilismo, o filme mergulha em uma longa sequência de cenas que pouco tem a ver com o universo acelerado de seu início. Acentuando a burocracia da montadora, os interesses comerciais de seus executivos e os processos pouco éticos desse ambiente, “Ford vs. Ferrari” gasta pelo menos uma hora de seu tempo com poucas cenas de corrida.

Bale (Miles) e Jupe (Peter): relação pai e filho


Mas o que pode soar como defeito para amantes da velocidade é o tempo ideal para o projeto dirigido por Mangold continuar sendo um filmão. É nesse intervalo entre a Le Mans de Shelby, em 1959, e o desafio da trinca Shelby-Miles-Ford, no final dos anos 1960, que a história se aprofunda nas personalidades dos personagens. É aí que o filme laça de vez o espectador para o lado da dupla Damon-Bale. O Miles de Bale, por sinal, exagera em um sotaque indefinido entre o inglês e o matuto ianque (Miles, de fato, era inglês), mas transparece autenticidade ao mesclar certa brutalidade nas falas e nos gestos com uma quase doçura no trato com a esposa Mollie (Caitriona Balfe) e o filho Peter (Noah Jupe). O jovem Jupe, que já esteve em “Um lugar silencioso”, “Extraordinário” e “Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso”, parece crescer junto com seu personagem no filme, dividindo com Damon uma das cenas de maior força dramática, no final da história.

É também no espaço “sem corridas” que o roteiro introduz a Ferrari. A representação da marca italiana, de seu fundador Enzo e de todo o universo que cerca a mítica fábrica de Maranello passa longe de um eventual maniqueísmo Estados Unidos x Resto do Mundo. Pelo contrário: por sua essência, orgulho e amor ao esporte, Enzo Ferrari e sua trupe parecem bem mais próximos de Shelby e companhia do que o patético Henry Ford II (Tracy Letts), que afinal "não é Henry Ford", e que o amoral Leo Beebe (Josh Lucas), eleito como o grande antagonista do filme.

Remo Girone (à direita), como Enzo Ferrari: mais próximo de Shelby e Miles que Henry Ford II


Mas é na última parte do filme, quando os motores roncam, que “Ford vs. Ferrari” se torna o grande show desejado por todo fã de corrida. A largada “estilo Le Mans”, com os pilotos correndo a pé até seus carros, a sensação de velocidade, com muitas tomadas na altura do asfalto, a reprodução da disputa Ford x Ferrari na pista, a recriação dos boxes e camarotes, a montagem precisa, a trilha sonora em crescendo, a sequência de cenas diurnas, noturnas e a volta para a luz do dia colocam o espectador dentro do universo da mais famosa corrida de longa duração da história de uma forma que só o longa “Le Mans”, protagonizado por Steve McQueen em 1971, havia conseguido fazer. Mas, convenhamos, com personagens e com uma história muito mais envolventes.

Ao final de 2h32 de projeção, a conclusão de “Ford vs. Ferrari” surge quase como lamento. Esse filmão no formato, na criação dos personagens, na condução da história mostra-se também um filme grande em sua duração, mas não arrastado. Carregado nas tintas em alguns estereótipos e situações, o filme de Mangold, no entanto, é cirúrgico em mostrar que grandes corporações entram em competições esportivas por um único propósito: aumentar suas vendas. Permanecem no negócio enquanto ele se mostrar eficiente para esse fim. Recolher as ferramentas e fechar a garagem são consequências que se relacionam muito mais aos cifrões perdidos que a corridas disputadas. Shelby, Miles e o GT40 ficaram na história da Ford e do automobilismo mundial. A Ford, bem, a Ford continua sendo uma montadora de veículos, mas a julgar pela transformação pela qual esse mercado atravessa, talvez no futuro ela esteja fabricando outros produtos. Tomara que não seja papel.



Thursday, September 19, 2019

Bacurau: uma carta para Dra. Domingas

Dra. Domingas: "por que vocês estão fazendo isso?"

No último ato de Bacurau, o alemão Michael (Udo Kier) encontra-se com Dra. Domingas (Sônia Braga). A médica do vilarejo atacado violentamente por forasteiros parece tentar um armistício, no que é ignorada pelo comandante do grupo. “Por que vocês estão fazendo isso?”, pergunta Dra. Domingas.

Em um exercício de empatia – abominável, porém necessário – decidi me colocar no lugar dos gringos (norte-americanos chefiados por um alemão residente nos Estados Unidos) e tentar responder tal pergunta. Faço isso no formato de uma carta, que envio para a médica, por meio deste blog.

Prezada Dra. Domingas,

Espero que esta carta a encontre bem de saúde e com o ânimo recuperado depois dos acontecimentos tão intensos vividos em Bacurau. Certa de que o forasteiro Michael não teve – nem terá – oportunidade de lhe responder o que havia por trás dos ataques aos habitantes do vilarejo, espero responder por que, afinal, aquela gente estava fazendo aquilo.

Veja, Dra. Domingas, os Estados Unidos são uma nação beligerante. Desde que assumiu o lugar da Inglaterra no imperialismo ocidental, o país já se meteu em pelo menos 33 guerras, e estamos falando só do século passado e deste século 21. A senhora, a quem respeitosamente chamo de experiente, é também pessoa letrada. Deve ter lido ou ouvido que a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelo soldado soviético, com a colaboração do operário norte-americano. Claro que os patriotas envoltos em Stars and Stripes reagiriam rapidamente para lembrar o seu número de mortos no conflito. Foram muitos, de fato. Cerca de 400 mil. Soviéticos? Quase 11 milhões.

Mas os operários americanos realmente executaram sua tarefa com louvor. A partir de 1941, com a entrada dos Estados Unidos na guerra, surgiram três mil novas fábricas e estaleiros no país. Um assombro: até 1945, foram 16 milhões de toneladas de armamentos, entre navios, artilharia, tanques e munição. Não se abandona um negócio pujante assim, do nada, concorda? As guerras que vieram depois, sempre bem distantes da terra da democracia e da liberdade, continuaram absorvendo essa fantástica produção. E seria incoerente brindar tantos países com tão farto material bélico e não aproveitar aquele imenso mercado nacional, não é mesmo?

Pois aproveitam. Estima-se que existam quase 270 milhões de armas nos Estados Unidos. São mais de 50 mil lojas de armas oficialmente registradas por lá (McDonald’s, veja a senhora, Dra. Domingas, cerca de 14 mil). O ser humano pode ser muito inteligente, mas também tem seus deslizes e nem todo mundo usa essas armas para caçar veados na Primavera ou para espantar coiotes que ameacem a criação nos ranchos. Uns doidos varridos começaram a atirar nas pessoas, a senhora deve se lembrar disso. Só em 2019, foram mais de 250 tiroteios em massa, e esse número que eu estou contando para a senhora agora foi contabilizado bem antes de o ano terminar.

O alemão Michael e a devoção às armas

Não dava mais, Dra. Domingas. Era preciso fazer alguma coisa. Mas como evitar que esses incidentes desagradáveis continuassem acontecendo sem empanar o brilho dessa indústria de armas tão importante para a economia do país? Puxa, elas geram empregos, contribuem para grandes causas, financiam projetos importantes e, se eu não me estendo nesse pormenor, a senhora certamente vai me entender. De mais a mais, Dra. Domingas, se a arma ficar lá quietinha, não mata ninguém. O museu de Bacurau é prova disso. O que não dava mais era para passar carão perante o mundo com esses tiroteios. Aquele pessoal da ONU, da Anistia Internacional, o Papa, todos reclamam. Ou, coisa pior, criar caso com seguradoras, porque essa gente é osso duro de roer.

Foi aí que tiveram essa ideia brilhante de criar uma atividade lúdica, uma espécie de competição que reunisse os melhores jogadores. Em vez de desperdiçar esses talentos da mira em universidades ou shopping centers, a esmo, o negócio era levar a turma para lugares distantes, onde pudessem dar seus tirinhos sem atrapalhar a ordem daquela nação tão civilizada. Coisa fina, né, Dra. Domingas? Eles têm armas, mas não quaisquer armas. São artistas do tiro, são adoradores de peças míticas. Idealizaram durante anos a aventura de portar uma submetralhadora, um fuzil ou uma pistola. Eles são clássicos, portam drones, mas não qualquer drone, não, senhora. Tudo é vintage nesse jogo e até esse recurso deles veio com ares de ficção científica dos anos 1960, parecendo um disco voador.

Domingas e Michael, antes do furdunço

 Encontrar lugar para a competição também não é tarefa das mais difíceis. Lembra que eu falei da Segunda Guerra Mundial? Pois naquela época, embora o governo brasileiro se enrabichasse bem mais para o lado dos perdedores, acabou entrando na briga junto com os americanos. Dizem que o nome forró nasceu por essa época, não sei bem, mas que eles fincaram base em Natal, isso é certeza. Sempre tem um político matreiro para trançar os pauzinhos com eles. Tony Junior, o ex-prefeito de vocês, é de linhagem tradicional, mas evidentemente não teve o talento do pai para fazer a coisa de um jeito mais discreto. Tenho para mim que ele queria esse pedaço de chão de vocês para algum empreendimento turístico, imobiliário, não sei bem. Aquela serra em torno de Bacurau é bonita, né? Turismo ecológico, trilha, vai saber.

Além disso, sempre tem uns fornecedores locais prontinhos para pegar um dinheiro rápido da mão dos gringos, não é mesmo? Eu acho, Dra. Domingas, que na verdade tem dois tipos bem diferentes de colaboração. Uma vem dos pobres coitados que vivem nesse interiorzão do Brasil. Vida precária, muita necessidade. Vem um bacana qualquer, oferece uns caraminguás e pronto: eles fazem o que for – até entregar caixão sem nem saber para o que vai ser usado.

Mas tem um tipo bem mais matreiro, que são os que se acham bacana também. Que se iludem, pensando que os gringos são amigos deles só porque falam a língua deles. Falar é modo de dizer, né, doutora? Acho bem engraçado quando vejo um engomadinho branquelo achando que fala língua estrangeira. Porque, desculpe a distração, mas agora a senhora pense junto comigo: se um estrangeiro chega no Brasil e nunca, nunquinha, consegue falar “caipirinha de maracujá” sem se enrolar todo, como é que um sujeito nascido e criado aqui, só porque frequentou escola de inglês duas vezes por semana, acha que vai falar daquele jeito que coloca a língua no meio dos dentes e pronunciar as palavras deles sem sotaque? Capaz...

Mas os gringos só estavam lá para matar


Voltando à explicação que prometi à senhora: virou um negócio bom para os dois lados, percebe? Os estrangeiros vieram para cá, cheios das suas armas e parafernálias, jogar seu jogo. O prefeito facilitou as coisas, vendo a vantagem de limpar a região, para explorar aquelas terras de outro jeito. Se a senhora lembrar bem, vai rever na sua mente aquele carrão com que o prefeito chegou depois do furdunço todo. Banco de couro, ar-condicionado, cheio de umas garrafinhas de água, que deviam até estar geladinhas. É uma chacota, eu sei. O povo de Bacurau sem água e os gringos, depois que acabassem o jogo deles, terminando o serviço para o prefeito, iam voltar sei lá eu para onde, naquele carrão de bacana. E com água gelada ainda!

É, Dra. Domingas... Deu tudo errado para eles, porque eles não contavam com a união de vocês. União até dentro das divergências. Porque mesmo nesse sítio tão precário, diante de tanta dificuldade, o ser humano também faz suas diferenças. Estava lá o Lunga, com os meninos, segregado do resto do povoado, magoado. A serra de Bacurau não é Sierra Maestra, mas serviu de esconderijo para esse novo Lampião de vocês. E a senhora, só a senhora, levantou a voz contra o prefeito, quando ele quis levar Sandra. Bicha, puta... pouca gente se importa, não é mesmo? Mas na hora que precisou, foi todo mundo junto para a luta.

A cova de Bacurau: Varsóvia?

 Eles não contavam que a escola, atacada por eles (naquele dia e pelos outros, sempre) ia revidar. Não contavam que o museu ia virar um paiol. Do museu e da escola, Dra. Domingas! Aquele mesmo museu que os forasteiros metidos a bacanas não quiseram nem entrar. De onde eles nunca esperavam, nasceu a resistência. Aquele alemão doido deve ter ficado espantado quando viu o buraco no meio da vila. “Varsóvia?!” Dá até para imaginar que ele se lembrou de alguma história velha, daquela guerra lá, contada por seu pai ou por um tio. Eles não contavam que Damiano, esse Panoramix do sertão, tinha uma fórmula mágica para emprestar força e coragem para aquela gente.

Fazia sentido na cabeça deles, Dra. Domingas. Mas as cabeças deles a gente sabe o destino que tiveram. Que Deus os tenha. E o Diabo que os carregue.

Friday, September 13, 2019

No Coração do Mundo



Quando Stanley Kubrick resolveu filmar seu primeiro longa-metragem, em 1953, optou por uma história de guerra ambientada na selva. Classificado pelo próprio diretor como um trabalho amador, Medo e Desejo foi renegado por Kubrick. Dois anos depois, de volta aos longas, o diretor nova-iorquino seguiu o conselho de um amigo e dirigiu A morte passou por perto, história de um lutador de box que se envolve com o mundo dos gângsters de Nova York. Por trás do conselho estava uma senha: aborde um mundo que você conhece e parte de seus problemas estará resolvida. A familiaridade de Kubrick com o cenário do segundo longa ajudou a alavancar sua carreira, mas nem por isso ele se tornou um diretor capaz apenas de fazer filmes de gângster em Nova York. Kubrick transitou por gêneros tão diversos quanto filme de guerra, romance, ficção científica e drama psicológico que até hoje, vinte anos depois de sua morte, vez por outra ainda se aponta um ou outro diretor como possível herdeiro do norte-americano – e isso quer dizer: fulano sabe dirigir qualquer gênero.

Gabriel Martins e Maurílio Martins apresentaram seu primeiro longa-metragem em 2019, No Coração do Mundo. Como Kubrick, que antes de lançar o primeiro longa também dirigiu alguns curtas, Gabriel e Maurílio iniciaram carreira nesse formato, com a diferença de já terem mais de dez anos de experiência. Assistir a No Coração do Mundo, conhecendo a obra dos dois diretores, é se reencontrar com o mesmo ambiente e com alguns personagens que já transitaram por outros filmes, especialmente os curtas Contagem (2010) e Dona Sônia Pediu uma Arma para Seu Vizinho Alcides (2011). Contagem não é só nome de filme: é a cidade da região metropolitana de Belo Horizonte onde os dois diretores cresceram. Como Kubrick, à vontade filmando Nova York, Gabriel e Maurílio movem-se com desenvoltura em Contagem e essa familiaridade transparece no filme. O que não quer dizer que serão para sempre cineastas circunscritos à cidade natal, crivada de carências, nem que sua obra tenha de espelhar essa precariedade. Aliás, No Coração do Mundo, mesmo sendo o primeiro longa, parece anunciar que ambos já não cabem em qualquer rótulo que junte as palavras “cineasta” e “periferia”.

Selma (Grace Passô), em cena que homenageia Carlos Reichenbach


No Coração do Mundo é um western urbano e a presença do rap Texas, do MC Papo, logo no início, parece não deixar dúvidas quanto à intenção do filme em ser reconhecido como um faroeste da periferia. Não tão rápido. No Coração do Mundo também é romance e várias situações, estrategicamente engendradas como poderosos alívios cômicos, permitiriam, sem exagero, identificar ali traços de comédia romântica. Não só. No Coração do Mundo também é drama, suspense, ação, em camadas sobrepostas que denotam não apenas a evidente cinefilia de seus autores, como a evolução de seu fazer cinematográfico. Pois, se Contagem e Dona Sônia estão ali, de alguma forma (ou de várias), a forma final do longa é uma evolução evidente dos cineastas que maravilharam o diretor Carlos Reichenbach quando surgiram no Festival de Brasília de 2009.

Carlão está no filme, homenageado como nome de escola. Lá atrás, na gênese da dupla, o diretor veterano assistiu a Contagem em Brasília e, impactado com o trabalho dos dois jovens, escreveu um artigo em seu blog intitulado “Fez-se a luz em Contagem”. À época, Carlão exalou encantamento em ver, pela primeira vez, um filme rodado em câmera digital que a ele parecia feito em película. De lá para cá, os dois jovens mineiros aperfeiçoaram sua linguagem cinematográfica e sua técnica. A ambientação da periferia está lá, o hábil processo de criação de empatia com aqueles personagens está lá. Mas estão também o rigor no corte preciso – apenas quando essencial – e a obstinação pelo plano, a ponto de construir várias cenas em planos longos e passagens desafiadoras em planos sequência que vão sinalizando, ao longo do filme, que Gabriel e Maurílio cresceram. E, cineastas adultos que são, sabem-se aptos a aumentar o volume, a velocidade e a tensão da trama a ponto de produzirem sequências de ação irrepreensíveis, coroando o filme com um desfecho calcado em movimento e violência, elementos abundantes naquela Contagem que tanto conhecem, ali usados como matéria-prima de uma narrativa coesa.

Maurílio Martins (à esquerda) e Gabriel Martins

 Sim, Gabriel e Maurílio cresceram – em um universo pontuado por mulheres fortes. Na periferia, cineastas filmam em locação menos por influência de John Ford e mais por falta de recursos. Mulheres tornam-se fortes menos por serem arianas com ascendente em Leão e mais pela premência de criar filhos, sustentar a casa, cuidar de pais idosos, muitas vezes sozinhas. As mulheres de No Coração do Mundo são diligentes e estão sempre em movimento: Selma (Grace Passô) dirige (e como dirige!) seu ou qualquer outro automóvel. Rose (Bárbara Colen) planeja uma mudança de vida tornando-se motorista de Uber. Ana (Kelly Crifer) circula o dia inteiro como cobradora de ônibus, e ainda que a vida pareça prendê-la em um feroz carrossel que nada tem de música infantil, ela se move. Os homens, sem exceção, surgem letárgicos.

Ainda que No Coração do Mundo não se apresente como um filme essencialmente feminista, ele se torna o retrato de uma comunidade que vive à margem de uma capital de estado, formada por famílias marcadas pela carência e pela falta de horizonte (belo ou não). E essas famílias, quase sempre, são guiadas por mulheres. No Coração do Mundo é um agudo retrato de um lugar e de um tempo em que as mulheres continuam sendo “o crioulo do mundo”, como cantou John Lennon. Esse mundo Gabriel e Maurílio conhecem bem, e o primeiro longa deles deixa isso muito claro.

Tuesday, May 21, 2019

Rush, um filme de amor

Daniel Brühl (à esq.), como Lauda e Chris Hemsworth, como Hunt
Com a viseira embaçada por uma chuva torrencial, Niki Lauda enxerga menos a pista de Fuji, no Japão, que a imagem da mulher, Marlene, com quem se casara naquele mesmo ano e surge no momento de maior tensão da história para povoar sua mente atormentada. Ao parar no box e desistir do GP do Japão de 1976, logo admite que não há qualquer problema com o carro. Inseguro naquela condição, e depois de quase ter morrido, poucos meses antes, no GP da Alemanha, o austríaco simplesmente abdica da prova. A cena, na parte final de “Rush – No limite da emoção”, de certa forma conclui um diálogo entre Lauda e Marlene, alguns minutos antes. Em lua de mel, apaixonado, o piloto debate-se com a insônia e explica a aflição à jovem esposa, dizendo que o amor era perigoso para um piloto. Teoriza que se torna difícil ir ao limite quando se tem algo a perder.
Assim, de forma rasa e linear, é possível para o espectador menos versado no tema concluir que Niki Lauda, interpretado no filme pelo ator Daniel Brühl, perdeu o Mundial de Fórmula 1 daquele ano por amor. Claro que não perdeu. O drama dessa temporada reparte-se em dezenas de detalhes técnicos, esportivos, políticos, comportamentais e circunstanciais que tiraram o título, que parecia certo no início do ano, das mãos de Lauda. Não foi a mocinha sofisticada, que surge em um provocante vestido frente única no início do filme, que lhe impôs a derrota.
Não é o amor de Lauda por Marlene que desencadeia a história dirigida por Ron Howard, longe disso, mas ainda me parece mais apropriado, ainda que soe estranho, definir “Rush” como um filme de amor que rotulá-lo como filme de ação. Não o amor do austríaco pela esposa, nem o de James Hunt (Chris Hemsworth) por Suzy Miller ou por praticamente todas as mulheres (com exceção de Marlene) que surgem na tela ao longo dos 123 minutos do filme. Todas as outras, enfermeira, aeromoça, modelo, alvos óbvios de Hunt, enquadradas no estereótipo “não sei seu nome, mas vou transar com você mesmo assim.”
(Tola eu seria se esperasse de “Rush” qualquer coisa longe do chauvinismo. Ainda que se afaste da realidade em diversas circunstâncias, o filme é ambientado na Fórmula 1 e, se ainda hoje as mulheres representam papéis pouco mais do que de objetos decorativos no circo, o que dizer dos anos 1970. Talvez em um ato de rebeldia, Ron Howard criou cenas de sexo entre Hunt e suas garotas que mostram mais o corpo do ator que das atrizes. Se você tinha o desejo secreto de saber como é o traseiro de Chris, aproveite. Que diabos, é o Thor, dos Vingadores, pelado, de costas!).
Não é desse amor, às vezes feito às pressas, no banheiro do avião, que se gira a história. “Rush” é um triângulo amoroso entre Lauda, Hunt e a vitória (ou a glória, ou a conquista do título ou, em última análise, a Fórmula 1).
A vida não é filme, isso todo mundo já entendeu. Para ser filme, há que romancear os fatos, estereotipar os personagens, carregar em algumas cores e empalidecer outras. Como Eduardo Correa escreveu neste mesmo GPTotal, na resenha do filme,“Rush” pinta Niki Lauda como um “coxinha CDF”. É o herói obstinado, disciplinado, estudioso, praticamente uma personificação da ética protestante, pela qual o bom resultado é sempre uma consequência lógica do esforço. Hunt, a seu turno, é o bon vivant, o hedonista que persegue o prazer como bem maior e, nesse contexto, parece unicamente servir-se de um dom natural, como se seu talento na pista fosse um acidente, não o produto da dedicação e, por que não dizer, do sofrimento para conquistá-lo. Claro que Lauda não era esse poço de virtudes, nem Hunt o campeão acidental que os fatos rasos podem fazer crer. Mas funciona para a ficção e assim está pintado na tela.
No desenrolar da narrativa, a consagração, a glória, a vitória, o título da Fórmula 1 desempenha o papel da musa desejada que oscila entre o bom moço e o bad boy. É a Ilsa Lund de Casablanca, indecisa entre o boêmio Rick Blaine e o militante Victor Laszlo. Não que o bar de Rick, o piano de Sam, o “play it again”, os nazistas da história sejam desprezíveis. Mas o foco, em Casablanca, está nos personagens de Ingrid Bergman, Humphrey Bogart e Paul Henreid. Da mesma forma, não é que os outros pilotos, as corridas e os carros possam ser limados de “Rush”. Mas não repousa ali o interesse da história. São pano de fundo para o triângulo formado entre Lauda, Hunt e a consagração final.
“Rush” é um grande paradoxo. É da estirpe dos filmes “baseados em fatos reais”, o que não é mentira, mas está longe de ser uma reconstituição do que foi o dramático campeonato de 1976. Supor que as cenas de corrida o tornam um filme de ação é outra análise apressada. As excelentes reconstituições de carros percorrendo circuitos da época são elos entre as narrativas que constroem o embate entre Lauda e Hunt. Várias das dezesseis corridas são mostradas como simples legendas, em rápidos registros, formando uma espécie de clip recorrente ao longo do filme.
Nenhum demérito nisso. O recurso foi usado – e às vezes de maneira mais singela – no mítico “Grand Prix”, de 1966, dirigido por John Frankenheimer. Foi difícil, mas consegui escrever 895 palavras sobre “Rush” antes de citar o filme da vida de nove entre dez amantes de Fórmula 1. E, nessa comparação, talvez resida o paradoxo mais evidente de “Rush”: embora seja “baseado em fatos reais”, o filme de Ron Howard é menos real que “Grand Prix”, construído em torno de personagens fictícios. É certo que os personagens centrais de “Grand Prix” foram fartamente inspirados em pilotos reais, mas o cerne na história é mera ficção. Ainda assim, o roteiro filmado por Frankenheimer contribui mais para entender a dinâmica da Fórmula 1 dos anos 1960 do que “Rush” faz com o campeonato de 1976.
Deve ter contribuído para esse realismo de “Grand Prix” o fato de ele ter sido filmado “a quente”, aproveitando as imagens de inúmeras corridas do campeonato de 1966 na peça ficcional. Howard, por sua vez, reconstituiu um cenário de quase quarenta anos, deixando que o olhar em perspectiva molde os personagens a ponto de fazê-los estereótipos encaixados no modelo romanceado que convém a um produto cinematográfico. O desafio era contar uma história que pode soar como improvável pela lógica dos bons romances, afinal, neste caso, a mocinha escolheu o bad boy. Ver a glória entregar-se ao dissoluto Hunt era como mudar o final de Casablanca e permitir que Ingrid Bergman trocasse o marido circunspecto pelo charmoso Bogart. O recurso para premiar a ética do esforço é conduzir a narrativa pelo sobrevivente.
Depois do épico GP do Japão, no qual Hunt sagra-se campeão com um terceiro lugar que lhe garante o título por apenas um ponto de diferença, os dois rivais voltam a se encontrar. Lauda reforça o discurso moralizante para cima de Hunt. O inglês verbaliza um conceito que o perseguiu praticamente até o fim da vida – a insinuação de que só foi campeão por conta do pavoroso acidente de Lauda – e rechaça a ideia. O austríaco venceu mais dois campeonatos, em 1977 e 1984, sobreviveu ao acidente e ao próprio Hunt, que morreu após um ataque cardíaco fulminante, aos 45 anos. Isso tudo, contado no filme como reminiscência de Lauda, reforça a ideia de que ele pode ter perdido aquela batalha, mas ganhou a guerra. Ilsa Lund hesitou mas, afinal, não ficou com Rick Blaine.
As peças de divulgação de “Rush” prometem mostrar “a maior rivalidade da história da Fórmula 1”. Outra mão pesada na condução da história. Lauda e Hunt, em que pese a disputa acirrada nas pistas, eram amigos, bons camaradas. À medida que a categoria foi se tornando cada vez mais um negócio altamente competitivo, a partir dos anos 1980, as rivalidades acirraram-se entre pilotos e acho que todos que acompanham Fórmula 1 há algumas décadas concordam que os embates entre Nelson Piquet e Nigel Mansell e entre Ayrton Senna e Alain Prost deixaram o duelo Lauda-Hunt com uma aura de rusga juvenil.
O documentário “Senna” aprofunda esse contencioso entre o brasileiro e o francês, transformando os eventos vividos pelos dois em uma narrativa novelesca, ainda que totalmente baseada em “fatos reais”. Fico imaginando se, daqui alguns anos, alguém se aventurar a filmar também esse duelo, como Howard fez agora. Melhor vestir logo o ator que fará Senna de branco e dotá-lo de auréola. Prost, em um modelito vermelho, surgirá com chifres e tridente.
Mas, não se influencie por essa leitura crítica: “Rush” é excelente entretenimento. O problema é que nós, que gostamos demais desse troço chamado Fórmula 1, temos a essa história toda na cabeça. E, para aqueles que cultivam o hábito de pensar, então, é impossível assistir ao filme e não rotulá-lo como um bom filme. De ficção.
Por fim, um registro afetivo: terminada projeção, fiquei vários minutos lendo os créditos, em busca de um nome. Finalmente, surgiu na tela, como assistente de Mr. Ron Howard: Gabriel Henrique Gonzalez, filho do colega Wagner Gonzalez. Vi Gabriel, que nasceu em Londres, apenas uma vez. Com uns sete anos, esteve na minha casa e brincou de carrinho no chão da sala. Proud of you, Gabriel!

Wednesday, May 01, 2019

Senna e a bandeira


Você aí se preocupando com a inflação de 6% ao ano talvez não saiba, ou não se lembre, que o índice quase atingiu 80% em 1986. E esse número absurdo para os dias de hoje já foi um avanço na comparação com o ano anterior, quando a inflação chegou a estapafúrdios 242% ao ano. 1986 começou com um dos choques heterodoxos realizados na segunda metade da década, com o objetivo de debelar a inflação, o Plano Cruzado. Não deu certo. Em 1987, o índice ultrapassaria os 360%. A economia do Brasil naquele tempo era uma vergonha.
É certo que o noticiário, em 1986, foi dominado pela economia no início do ano, mas chegou ao final do primeiro semestre tomado pelo interesse na Copa do Mundo, realizada pela segunda vez no México. Nada muito diferente do que já acontecia antes, a cada quatro anos, e voltou a acontecer depois, e sempre. No comando da seleção brasileira, o mesmo Telê Santana tido como arquiteto do futebol-arte derrotado na Copa de 1982. Era evidente que a seleção brasileira que se apresentou no México não inspirava a mesma esperança de quatro anos antes, mas não era fora de propósito renovar a crença e sonhar com um título que já não vinha para o Brasil havia 16 anos.
No dia 21 de junho de 1986, um sábado, a seleção brasileira entrou em campo para disputar as quartas-de-final contra o time da França, que tinha como principal expoente o jogador Michel Platini, no ocaso de uma bela carreira em clubes, mas sem um título mundial pela seleção de seu país (que, por sinal, só viria em 1998). No tempo regulamentar daquele jogo no estádio Jalisco, 1 x 1. Na disputa de pênaltis, o Brasil saiu derrotado, 4 x 3. Dito assim, parece um jogo qualquer. Não foi. Drama, pênalti perdido durante a partida pelo atacante Zico, que saiu como o grande vilão do Brasil na derrota. Para aumentar a sensação de tragédia, no pênalti cobrado pelo francês Bellone, a bola maliciosamente bate na trave, atinge as costas do goleiro brasileiro Carlos e entra para o gol. Quatro anos depois da derrota no Sarriá, quando o Brasil foi eliminado pela Itália de Paolo Rossi, nova frustração para a torcida. O país cuja economia era uma vergonha passava vergonha também no futebol.
Poucas vezes a expressão “nada como um dia após o outro” fez tanto sentido. No domingo, 22 de junho, aconteceria o GP dos Estados Unidos da temporada de Fórmula 1, no circuito de rua de Detroit, sétima prova daquele campeonato. Uma semana antes, vitória do inglês Nigel Mansell no GP do Canadá. A torcida estava com os olhos voltados para Jalisco e poucos devem ter atentado para o fato de que Ayrton Senna havia marcado a pole position para a corrida estadunidense. Foi a 11ª pole de sua carreira. Logo atrás dele, a dupla da Williams, com Mansell à frente de Nelson Piquet. O francês Alain Prost, que desembarcou em Detroit como líder do campeonato, largava apenas em sétimo.
Logo no início da prova, Senna perderia a liderança para Mansell, recuperando a ponta na oitava volta, quando o inglês começou a enfrentar problemas com os freios. O brasileiro começou a abrir vantagem para os demais, quando foi obrigado a fazer um pit stop por conta de um pneu furado, na 13ª volta. Lá na frente, a liderança sobrava para dois franceses, consecutivamente. Primeiro, com René Arnoux, que se manteve na ponta por apenas três voltas, sendo obrigado a também ir aos boxes para trocar pneus. Depois, com Jacques Laffite. Senna, nessa altura, fazia uma bela corrida de recuperação, passando Michele Alboreto, Stefan Johansson, Arnoux e Prost. Na volta 31, Senna passa Mansell e é beneficiado pela parada de Laffite nos boxes. Nessa altura, o brasileiro já estava em segundo, atrás do compatriota Piquet, e voltou a ser beneficiado por mais uma ida do líder ao box. Com uma parada longa demais, Piquet voltou à pista disposto a recuperar posições, mas acabou batendo e abandonando na volta 42.
Enquanto isso, Senna mantinha a liderança segura na prova, mantendo-se em primeiro da 39ª volta à bandeirada. Depois do acidente de Piquet, praticamente só franceses alternaram-se nas posições que davam direito ao pódio. Arnoux, que também acabaria saindo da prova por acidente, Laffite, terminando em segundo e conquistando o último pódio de sua carreira, e Prost, que se debateu com problemas nos freios mas, ainda assim, garantiu o terceiro lugar. Senna chegava à sua quarta vitória, a segunda no ano, mas o GP dos EUA de 1986 ficaria marcado na memória do público brasileiro menos por essas estatísticas e mais, muito mais, por um gesto de Senna.
Ao garantir a vitória, já na volta de desaceleração, Senna diminui a velocidade, para o carro próximo a um guard rail e faz um gesto para alguém que assistia à corrida. Um homem se aproxima e entrega ao piloto uma pequena bandeira do Brasil, daquelas feitas em plástico, com uma pequena haste. Bandeira de parada militar, eu definiria. Ele terminou a volta segurando e agitando a bandeira, assumindo, depois, que o gesto era uma forma de compensar a frustração do público brasileiro pela derrota no dia anterior. Caiu bem. Caiu muito bem.
A comparação da bandeira de Detroit com os artefatos utilizados por populares e estudantes em parada militar não foi à toa. Em 1986, o Brasil vivia o segundo ano após o fim da ditadura militar. Durante vinte e um anos, o governo federal sempre procurou associar os símbolos nacionais aos feitos do próprio Estado. Usar verde e amarelo na década de 1970, para o brasileiro médio, era uma forma de expressar patriotismo. Não faltavam oportunidades para isso, mas a apoteose era mesmo o 7 de setembro, quando até fitinhas nas “cores do Brasil” eram distribuídas para serem amarradas nas antenas dos rádios dos carros. Para uma geração como a minha, que cresceu no período, a associação da bandeira do Brasil com o governo militar era direta e, em um determinado momento, começou a se tornar repulsiva.
De quatro em quatro anos, era como se a seleção brasileira de futebol se apoderasse do verde e amarelo. Depois do “Brasil que vai pra frente” e traz a Jules Rimet definitivamente, uma cacetada após a outra. Em 1974, perdemos o rumo no carrossel holandês. Em 1978, a farsa que deu o título à seleção argentina, no bojo de uma ditadura militar ainda mais recrudescida. 1982 e o grande trauma do futebol-arte que deu em nada. Enquanto isso, o Brasil ia se afundando na “carestia”, desconstruindo o mito de que aquele governo, que nos livrara da ameaça comunista, era o mais competente para garantir uma vida tranquila à população. Os donos da bandeira – governo e seleção brasileira de futebol – estavam por baixo. Empunhá-la era quase um escárnio.
Ao empunhar a bandeira pela primeira vez, naquele 22 de junho, caprichosamente à frente de dois franceses, Senna não apenas vingou a derrota do dia anterior, mas reabilitou um símbolo nacional. No lugar de um governo autoritário que progressivamente passou a desagradar a maioria da população ou de jogadores incompetentes, um jovem bem nascido e obstinado pela vitória. Um Brasil que dá certo e dá orgulho. Uma bola dentro, provavelmente surgida da espontaneidade, e depois largamente utilizada como forma de reafirmar a condição de grande herói do povo brasileiro, que Senna exerceu dali para frente, até sua morte.
De 1986 para frente, agitar ou empunhar uma bandeira do Brasil tornou-se algo natural e esperado nas vitórias de Senna. No pódio do GP do Brasil de 1991, sua primeira vitória em casa, aquela da sexta marcha, o piloto carrega um bandeira grande, com haste, e exacerba na expressão da dor até para erguê-la, reafirmando a missão de literalmente carregar o Brasil nos ombros. Em 1992, acossado pela ameaça de impeachment, o ex-presidente Fernando Collor jogou a sorte com o apoio popular e suplicou que o brasileiro o apoiasse no domingo seguinte, saindo às ruas de verde e amarelo. A população respondeu com roupas pretas. Perdeu, playboy. Naquele ano, Senna até poderia estar lascado, correndo atrás de uma Williams inalcançável, mas o verde-amarelo era dele.
Reza a lenda que, dentro do FW 16 que levou Senna ao encontro da morte, repousava uma bandeira da Áustria, homenagem póstuma do brasileiro ao companheiro Roland Ratzenberger, morto no dia anterior. Teria sido bonito. Dois meses depois, quando a seleção brasileira de futebol finalmente voltou a ser campeã, 24 anos depois do “pra frente Brasil”, vários jogadores enrolaram-se em bandeiras brasileiras. As referências a Senna foram evidentes, inclusive com uma faixa exibida por jogadores ainda em campo, na qual se lia: “Senna…aceleramos juntos, o tetra é nosso”. Mais do que homenagear o herói morto, a seleção parecia pedir licença para retomar o símbolo para si. Vinte anos depois, sem títulos na Fórmula 1 há vinte e três anos, sem títulos no futebol há doze, com uma insatisfação pelo país cada vez mais evidente, por motivos diversos, a bandeira respira com esperança de voltar à moda. Vai que é tua, Neymar?
Texto publicado pela primeira vez em maio de 2014.