
Faltam trezentos metros para o fim da prova. Olho no cronômetro e vejo 1h30. De longe, meu recorde negativo na São Silvestre. Mas faltam só trezentos metros. Já estou na Paulista, já subi tudo o que precisava, já corri quase 15 km. Mas não me canso de disputar corridas contra mim mesma e lanço-me um último desafio: cruzar a chegada antes que o cronômetro marque 1h31. Eu tinha acabado de entrar na avenida, vencendo a subida da Brigadeiro.
Volte umas nove horas no tempo. Manhã do dia 31/12, nove e pouco da manhã. Recebo uma notícia de morte. "Seu" Miguel havia partido na noite anterior, depois de uma relativamente curta, mas sofrida agonia. "Seu" Miguel foi uma espécie de avô postiço para mim. Sogro do meu tio mais novo, era uma figura engraçada. O mais divertido era assistir aos jogos do Corinthians, seu time, na sua companhia. Sempre escolhia um dos jogadores da partida para Cristo e o xingava do começo ao fim. Um jogador do próprio Corinthians, que fique claro. Se o Corinthians perdia, não demorava a decretar: "Também, com aquele perna de pau, só podia perder mesmo." Se ganhasse, pequena variação no discurso: "Não sei como ganhamos, com aquele perna de pau em campo".
Fui para o velório. Chegando lá, uma das primeiras reações à minha presença. "Ué, o que você está fazendo aqui? Não vai correr a São Silvestre?", disse meu primo Brunno, neto do "Seu" Miguel. Era cedo, ainda, umas 11h. Fiquei até a saída para o crematório e corri para casa. Preparei um spaghetti com legumes em tempo recorde e saí umas 15h15. Desde 2006 vivendo uma espécie de ritual na preparação para a prova, desta vez estava atordoada. No caminho para a Paulista, lembro de ter pensado: "Com que pernas vou correr? E com que cabeça?" Ao contrário do que dizia a música da Vila Sésamo, nem todo dia é dia, nem toda hora é hora.
Pensava e ia. Achava que não correria e seguia. Desanimava e continuava em direção à Paulista. Achei um estacionamento na alameda Jaú. Deixei vintão como pagamento adiantado e segui para o tradicional ponto de encontro da equipe Conexão, na frente do Hotel Maksoud Plaza. Lá, já estavam o Nilton, o Brando e a Alê Carioca. Depois, chegaram o William, o Henry, o Zoca e, surpresa!, nosso técnico Zé Eduardo Pompeu. Tínhamos feito o treino para a corrida no domingo anterior e eu não sabia que Zé correria desta vez. Foi a primeira vez que fiz a São Silvestre com ele e, quando fomos para a Paulista, propus: "Vamos fazer a prova todos juntos?" A ideia era meio absurda, porque é muito difícil correr em grupo em corridas de rua. Cada um tem seu ritmo e, afinal, são 21 mil pessoas na São Silvestre. Abafa o caso, encerro o assunto.
A largada, como se sabe, acontece na frente do Masp. Nós, da equipe, ficamos esperando o início da corrida na esquina da rua Pamplona, a uns trezentos metros. À nossa frente, aquele tradicional mar de cabeças, algumas adornadas por adereços esdrúxulos como vaso de cerâmica, chapéu de viking, coroa de louro, cocar. As fantasias se multiplicam, como sempre. Entre a largada da elite masculina e a nossa passagem pelo marco zero da corrida, mais de quinze minutos. Ao cruzar o portal de largada, olhei de relance para um telão e vi um dos líderes já no Minhocão. É gente demais para passar pelo mesmo pedaço. Há que esperar, não tem jeito.
À medida em que avançávamos, a mesma sensação de edições anteriores. São Silvestre só é corrida para os líderes, para os atletas de elite. Nós, amadores, devemos antes de tudo curtir essa prova como um grande evento, uma celebração. Buscar recorde na São Silvestre só é possível se você conseguir largar muito na frente. E aguentar o tropel de gente e a overdose de cotoveladas. No final da Consolação, continuávamos juntos eu, Brando, Henry e Zé. Depois do primeiro posto de água, na avenida São João, Henry desgarrou-se. Seguimos, os três, por um longo trecho, até o quilômetro nove, quando subimos o viaduto que liga as avenidas Rudge e Rio Branco. Daí para a frente, éramos eu e o Zé.
Então, chegamos de volta do Centro e suas cenas inusitadas. Mendigos encachaçados são outra tradição da São Silvestre. No Largo do Paissandu, um representante da classe juntou-se aos corredores. Uma das mãos levava no alto um ramo de folhagens, qual tocha olímpica. A outra ocupava-se de segurar o calção, que insistia em cair. "Vai, arruda!", "Boa, carqueja!", a multidão encorajava o lunático, que disparou entre os atletas com suas passadas trôpegas, porém rápidas, de chinelo de dedo.
Cheguei à Brigadeiro e, apesar da temida subida, só então consegui desenvolver um ritmo razoável, escalando o morro com relativa facilidade, pois a multidão, naquele ponto, já havia se dispersado bastante. Quase cruzando a Treze de Maio, encontrei o Nilton e, como sempre, fiz uma referência futebolística, já que ele é palmeirense e nunca escapa aos meus comentários alvi-negros. Este ponto, a Treze de Maio, é tido por todo corredor que já fez a São Silvestre como o fim da prova. Explico. Ali está o marco de 14 km. O quilômetro final terá cerca de 300 metros de terreno plano, na Paulista, e outro tanto no final da Brigadeiro. Ou seja, falta pouco, muito pouco para subir. A placa de 14 km, para um atleta amador, é mais ou menos como receber a sinalização de que falta só uma volta para o fim da corrida de Fórmula 1, quando se tem o melhor carro, gasolina no tanque e trinta segundos de vantagem para o segundo colocado.
Escalo a montanha, viro à direita, entro na Paulista. Checo o cronômetro. Já era uma quase tradição, para mim, fazer tempos piores a cada edição. Em 2006, 1h22. Em 2007, 1h23. Em 2008, adivinha? 1h24, claro. Eu já tinha passado muito todas essas marcas, já tinha entregado para Deus. 1h30. Olho o portal de chegada ao longe, pernas pra que te quero, um desesperado sprint final. Ainda ouço de um colega - "Boa, é isso aí, menina" - e aproveito aquele que é meu mais prezado Réveillon. Em 2010, se Deus quiser, estarei aqui novamente. E em todos os próximos anos, os bons, os não tão bons, os excelentes. Cruzo a linha de chegada, zero o cronômetro.
1h31.
Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press