Sunday, September 04, 2016

Aquarius, um tratado sobre a resistência


Sonia Braga começou a ganhar notoriedade no Brasil em 1968, quando participou da montagem brasileira do musical “Hair”, que tinha como um de seus temas a música “Age of Aquarius”. Nas peças de divulgação do longa “Aquarius”, do diretor Kleber Mendonça Filho, não vi nenhuma indicação de que o nome da obra faça algum tipo de homenagem ou referência ao início da carreira da atriz. No filme, “Aquarius” é o nome do edifício onde a personagem de Sonia mora, e centro do conflito em torno do qual a história foi construída.

Ainda que esta seja apenas uma coincidência, não é incorreto dizer que “Aquarius”, o filme, é um estudo de personagem que dificilmente teria a força que se traduz na tela sem a interpretação de Sonia Braga. O que, ao mesmo tempo, não quer dizer que os elementos que alicerçam a obra sejam desprezíveis nem ao menos acessórios. Começando pelo roteiro, escrito pelo próprio diretor.

A história de “Aquarius” é muito simples: crítica de música aposentada, Clara (Sonia Braga) mora em um pequeno edifício na avenida da praia, no Recife, que é alvo de uma incorporadora imobiliária. Todos os demais proprietários já venderam seus apartamentos, menos Clara, que não quer se mudar do local e enfrenta, por isso, uma série de conflitos, com os donos dessa empresa, com sua família, com outros antigos proprietários e com a estranha fauna que passa a frequentar o prédio.

Como já havia feito em “O som ao redor”, seu excelente primeiro longa de ficção, Mendonça estruturou o roteiro em três capítulos, oferecendo ao espectador o (falso) conforto de dominar os três atos da obra. Volto ao parêntesis depois. No primeiro capítulo, a personagem principal é apresentada, começando com uma sequência ocorrida no passado, precisamente em 1980. E já é admirável observar a reconstituição da época ali apresentada, mais um trunfo de “Aquarius”.

Sonia, o diretor Kleber e Humberto Carrão


Em uma festinha familiar, ali estão as garrafas de refrigerante de vidro, as mulheres com blusas de ana-ruga (acho que esse tecido caiu em extinção...), os meninos com shorts muito curtos, que os deixavam a todos meio pernaltas. Com cabelos também muito curtos, Clara é logo mostrada como alguém que sobreviveu a um câncer e a seu agressivo tratamento. É natural, esperado e quase impossível não se identificar com aquela mulher que se mostra, nos primeiros momentos, como uma resistente.

É também sintomático que o roteiro já circunde Clara, naquele momento, de figuras que não farão parte da sua vida futura, o período que ocupa a grande parte da história, dando pistas inequívocas de que o passado daquela mulher talvez seja seu maior patrimônio. A voz de Freddie Mercury, a canção de Altemar Dutra, a citação a Elis Regina, a presença da tia e do marido: tudo isso serão lembranças na vida da Clara sexagenária, que surge marcada pelo tempo, mas ainda bela e vigorosa e, sobretudo, serena em sua nova vida de aposentada.

Outro detalhe fundador da personalidade de Clara é dado em um breve diálogo da personagem com sua empregada, logo no início da história: a relação de hierarquia, a estratificação social estão ali estabelecidas. Clara é pequeno-burguesa e se beneficia do privilégio de ter alguém para servi-la, mas a gentileza, quase doçura, com que se dirige à diligente Ladjane (Zoraide Coleto) mostra que estamos diante de uma mulher que cultua a empatia, outro ponto a favor da identificação do público com a protagonista.

O desempenho de Sonia Braga é magnífico em “Aquarius”. Ponto. Mas, se o filme se torna uma daquelas referências nas quais não se consegue imaginar outro ator para o papel, isso também é mérito da direção de Mendonça e do ritmo que ele imprime às quase duas horas e meia de projeção. As referências à música são constantes no filme – e nem poderia ser diferente, porque Clara é uma jornalista e crítica de música aposentada e porque som e música já são referências da obra do diretor. Nesse sentido, se fosse uma peça musical, “Aquarius” seria uma sinfonia que começa em intensidade pianíssimo e termina em fortisíssimo (assim mesmo, cheio de “esses” e de fúria). Ainda que a cena de abertura do filme traga um grupo de jovens escutando música em volume alto no carro, o ruído externo desse começo parecerá silêncio perto do grito do ato final. 

A direção de Mendonça é a mão discreta e ao mesmo tempo segura que vai guiando Clara, seus companheiros e fantasmas por uma narrativa que descreve aparentemente um conflito urbano frequente nos dias atuais. Mas que, com um pouco de sensibilidade, pode estar descrevendo o Brasil, e também retomo essa ideia no final.

Mendonça, evidentemente um cinéfilo cheio de referências, imprime enorme variedade de linguagens em “Aquarius”. É capaz de criar, com a mesma habilidade, planos abertos que situam o espectador na Recife que acolhe a história e diálogos internos cheios de tensão, como aquele que coloca os três filhos de Clara (Maeve Jinkings, Germano Melo e Pedro Queiroz) de um lado, a mãe do outro, como em um ringue. Independentemente dos golpes eficientes dos mais jovens, embasados em preocupações genuínas, o espectador naturalmente se coloca do lado oposto, torcendo e quase tendo certeza de que a parte aparentemente mais frágil da história levará os três oponentes às cordas, e os nocauteará com uma firmeza desconcertante.

Com essa mesma habilidade, o diretor apoia-se todo tempo em uma condução generosa, transparecendo não apenas a confiança nos atores como também a aposta na criação coletiva. Essa busca de autenticidade chega a criar trechos com evidente sintoma de improviso nos diálogos, como na cena da conversa de um grupo de mulheres em um baile “de terceira idade”, filha legítima do Neorealismo italiano, ou da Nouvelle Vague francesa. Esta, por sinal, também parece legar à narrativa uma breve, mas poderosa sequência de cortes secos, mostrando Clara sozinha em seu apartamento, como reforço à ideia de que o fato de estar ali, sozinha, não significa letargia ou tédio, já que seu espírito não se contém diante do conflito maior – e dos menores – com que tem de lidar.

Chegando ao terceiro e instigante capítulo, “O câncer de Clara”, o roteiro desconstrói o aparente controle do espectador sobre aquela obra em três atos, e aqui retomo o parêntesis do início. No lugar de um desfecho conformista e eventualmente esperado para a vida de uma mulher sexagenária, a história vai ganhando uma tensão cada vez mais aguda. Prolongando o suspense em perfeita tradição hitchcockiana, a trama se apoia em diversos elementos que não apenas justificam como tornam praticamente inevitável o gesto final da protagonista. E é digno de aplauso o recurso engendrado pelo roteirista/diretor de contar sem mostrar, sugerir sem explicitar, um Polanski pernambucano parindo um bebê demoníaco cheio de vida nauseante em plena praia de Boa Viagem.

Protesto em Cannes: "Aquarius" tem lado


Clara, a mulher aparentemente apegada ao passado, é também a mente mais transgressora de toda a trama, seja pela maneira como assimila as mudanças do mundo ou pela forma como lida com a própria sexualidade e com a incompreensão estúpida ou ingênua sobre ela, dos homens que a cercam. A assimilação do novo é extraordinariamente exposta na sequência em que Clara explica a uma repórter como se relaciona às várias mídias de música do presente. O semblante pouco inteligente da jovem jornalista deixa evidente que ela não entendeu nada do contexto que a veterana colega expôs. Caberá à repórter um mero esforço para enquadrar a antiga crítica em uma frase-manchete que certamente já saiu escrita da redação, antes sequer de ser feita a entrevista.

Mas é no embate com o jovem administrador de empresas Diego (Humberto Carrão), o maior antagonista da trama, que Clara dá voz ao discurso mais forte, resistente e contundente de “Aquarius”. Aquele velho edifício, que por força do dinheiro vira literalmente uma suruba e ao mesmo tempo um ninho de evangélicos, cabe como metáfora do Brasil atual, sempre e ainda dominado por oligarquias que só enxergam seus próprios interesses, agindo de forma diametralmente oposta aos gestos empáticos de Clara. Um autêntico câncer corrói “Aquarius” – o edifício e o Brasil – e não deixa de ser melancolicamente tocante supor que “o país do futuro” possa continuar sendo tão mais “casa grande & senzala” do que “era de Aquarius” como, há quase 50 anos, a jovem Sonia Braga, nua em cima do palco, ousou sonhar.

O discurso político de “Aquarius” é claro, direto e tem lado: o da resistência. Surgido no limiar de um período nascido de um golpe, o filme de Kleber Mendonça Filho provavelmente será visto como símbolo do pensamento oposto a ele. Daqui alguns anos, quando alguns estiverem se desculpando pelo apoio ao golpe, Mendonça estará sereno, com a consciência tão limpa quanto a de Clara, polindo algum dos muitos prêmios que “Aquarius” já recebeu mundo afora.

Sunday, May 29, 2016

Mais uma vez, a arte me salvou


Não sei dizer quantas epifanias e catarses o cinema, a música, o teatro e a literatura já produziram na minha vida. Todas, de alguma forma, me recolocaram no trilho da sanidade mental, embora eu muitas vezes só tenha percebido isso muitos anos depois. Eu achava graça por ter chorado tanto em “Dumbo”, na cena em que o filhote de elefante é separado da mãe, e só depois associei aquele choro como uma resposta elaborada ao ciúme que o nascimento do meu irmão gerou em mim.

Às portas da adolescência, fui assistir ao musical “Aí vem o dilúvio” e fiquei obcecada pela peça, em especial por uma cena na qual os personagens formavam casais que tinham por missão repovoar a Terra. “Bela noite sem sono...” era um dos versos da canção e, novamente, apenas muitos anos depois eu entendi que a sensualidade delicada daquele momento explicou a mim a ebulição de hormônios que eu experimentava – e estranhava. E me pacificou.

Nunca deixou de ser assim. “Cem Anos de Solidão”,“Central do Brasil”, um show extemporâneo dos Mutantes, “Pina”, “Ela”, para citar apenas alguns. De fato, acho que nunca vivi um ano sem que alguma obra de arte fizesse o favor de me colocar no prumo, ou me convulsionar a ponto de repensar as escolhas e o rumo da minha vida. E sempre me sinto um pouco constrangida com isso, porque entendo arte como entidade inútil, no sentido de ter fim em si mesma. Utilizá-la para alguma coisa, ainda que em nível moral, mental, espiritual, soa a mim como profanação.

E hoje essa tarefa coube ao filme “Ponto Zero”, do diretor José Pedro Goulart.

Na sexta-feira passada, comentei brevemente com a minha mãe que não conseguia pensar no estupro coletivo da garota carioca sem ter vontade de chorar. Não era verdade. Cada vez que lia ou escutava algum fato relativo a esse crime, eu não tinha vontade de chorar. Eu sentia angústia, raiva, nojo. Mas lágrima nenhuma descia.

Sintomaticamente, desenvolvi em dois dias uma série de reações físicas a esse conjunto de sentimentos. Uma crise de alergia congestionou minhas vias aéreas superiores. A cabeça pesava e doía, evoluindo durante o dia até virar enxaqueca. Crises de tosse irrompiam sem aviso e me paralisavam a fala. Para coroar, uma afta do tamanho de uma couve-flor deixou meu lábio com o indesejável aspecto de uma aplicação de botox assimétrica.

Fui ver “Ponto Zero” quase num voo às cegas, com pouquíssimas referências. A beleza da cena de abertura vale pelo filme todo, e sua retomada no final, ainda que não viesse carregada de simbolismo, seria justificada plenamente apenas pela questão estética. Acho até que o filme carrega demais nos simbolismos, alguns meio óbvios, como carros andando de marcha à ré, mas nunca vou deixar de ser grata a ele, pela perturbadora sequência de cenas sob a chuva que ocupa boa parte do trecho final.

Além de belíssimas, e de incluir uma dos meus maiores objetos de fascínio no cinema – planos-sequência – as cenas de chuva provocaram uma reação física inequívoca em mim. Chorei. Não, o filme não era especialmente triste, nem esta sequência, carregada de referências a morte e renascimento, tinha algo de triste. Era um rito de passagem do personagem central, mas funcionou como catarse genuína para mim. Três dias depois da notícia do estupro, de pelejar com o peso da cabeça, com o incômodo da alergia, com a afta e com o nó no peito, “Ponto Zero” parecia ter puxado a tampa do meu ralo. Chorei os oito quilômetros que separam o cinema da minha casa. A cabeça não dói mais, estou respirando bem, a afta drenou, aquela dor entre as costelas sumiu.

A arte foi o que de melhor nossa espécie medíocre produziu neste planeta e vou continuar usando-a como tábua de salvação. Bom para mim.


Mas, e a menina?

Friday, May 27, 2016

Cultura do estupro: isso É política



Estou disfarçando, mas não está fácil viver em um país em que uma moça é estuprada por 30 e um “ministro” recebe um apologista do estupro.

Escrevi esta frase no Twitter, na tarde desta quinta-feira. Algumas pessoas começaram a reproduzi-la, até que ela chegou a alguns formadores de opinião da rede social, desses que têm dezenas de milhares de seguidores, que também reproduziram. Muitas horas depois, continuo escutando o sinal no celular, dando conta de que alguém a está curtindo ou compartilhando. Não é ruim a sensação de perceber que não estou sozinha na minha indignação. Mas o sentimento de empatia não preenche a tristeza que continuo sentindo com tudo isso.

A um desses grandes formadores de opinião que reproduziram minha frase, o neurocientista e professor Miguel Nicolelis, respondi com uma pergunta direta: manifestar-se é pouco, indignar-se é pouco – o que fazer? Ele respondeu que a saída é investir em educação com cidadania. Claro, a resposta honesta a essa pergunta não pode supor uma ação cirúrgica pontual, que extirpe a cultura do estupro da nossa sociedade. A mudança virá com o tempo. Mas, e até lá?

Quando digo que não está fácil viver nessa sociedade, não estou usando de retórica. Sou mulher e sinto ecos dessa cultura no meu dia. Quando vou sozinha ao cinema e noto olhares de estranhamento pela minha ausência de companhia. Quando dirijo meu carro sozinha, à noite, e me forço a continuar olhando para a frente, impassível, porque o condutor do carro ao lado acha que o fato de estar desacompanhada funciona como senha para eu ser assediada.

Eu poderia continuar enumerando as situações desagradáveis que uma mulher como eu enfrenta cotidianamente, e elas vão desde irrelevantes dissabores, como o garçom que entrega a conta para meu filho de quinze anos, supondo sempre que o homem da mesa vai pagar a despesa, até grandes inquietações de ordem moral, como embotar minha própria sexualidade enquanto não tiver certeza de que poderei expor isso para um interlocutor civilizado, que não vai me classificar como vagabunda.

(Aliás, cabe aqui uma breve reflexão sobre o emprego das palavras vagabundo e vagabunda, na nossa sociedade. Vagabundo é o homem que não trabalha. Vagabunda, a mulher que transa com quem quiser, ou com qualquer um, ou com muitos. O defeito, no homem, é não prover, pecado venial em sua existência. O da mulher, fazer o que quiser do seu corpo, pecado mortal.)

Mas, na fila dos oprimidos, estou em penúltimo lugar. Sou mulher, branca, com nível superior de escolaridade, tenho casa própria, carro, dois aparelhos de TV em casa. Acho que são esses itens que definem um cidadão de classe A no Brasil. Atrás, na fila da opressão, apenas os homens iguais a mim. À nossa frente, os homens pobres, os homens pretos, os homens pretos e pobres, as mulheres pobres, as mulheres pretas, as mulheres pretas e pobres.

Olham estranho para mim no cinema? O filme não ficará pior nem melhor por isso. O macho alfa do carro ao lado está lançando olhares lascivos em minha direção? Daqui a pouco, o farol abre. O garçom acha que meu filho é o provedor? Ele está repetindo um gesto ancestral e, afinal, muitos homens ainda fazem questão de pagar a conta, e algumas mulheres aceitam isso. O cara se escandalizou com minha franqueza na abordagem? Valeria menos que um cinema, com filme ruim.

Eu estou muito, mas muito menos vulnerável à violência de um estupro que a moça da favela, isso é fato. Mas nem por isso vou me sentir menos agredida do que me senti hoje. O fato de estar mais resguardada, na prática, não me protege da agressão de saber que uma semelhante a mim foi violentada por mais de trinta homens. Nem de encontrar opiniões que culpam a vítima pelo crime que ela sofreu.

Regras para namorar minha filha: 1 - Eu não faço as regras, 2 - Você não faz as regras,
3 - Ela faz as regras, 4 - O corpo é dela, as regras são dela


Na prática, o que posso apresentar como contribuição à mudança dessa cultura do estupro? O fato de estar criando um jovem para que ele respeite as mulheres como donas de seus corpos, e tudo o que isso significa em termos de aproximação, abordagem e envolvimento? Sinceramente, isso é minha obrigação como mãe.


Mas sinto que há algo positivo nascendo dessa tragédia que hoje chegou a nós. Esta é uma causa política. Já há eventos programados para os próximos dias, de protesto e discussão sobre a condição da mulher. Vá a algum deles, engaje-se, manifeste-se. Acho que poucos brasileiros mentalmente sãos, hoje, seriam capazes de afirmar que a nossa sociedade não naufragou. E a nossa sociedade é essencialmente patriarcal, oligárquica, elitista. Despertar – e agir – contra a cultura do estupro pode ser um começo para romper o monolítico atraso moral do Brasil.

Monday, May 23, 2016

Certo agora, errado antes: amor à arte


Se “viver é desenhar sem borracha”, como disse Millôr Fernandes, a arte ignora esse fatalismo. Qualquer forma de narrativa, literária ou audiovisual, permite contar o mesmo fato de maneiras diferentes, inclusive movendo elementos que modifiquem essencialmente a própria história. O filme sul-coreano “Certo agora, errado antes” faz isso de uma maneira desconcertante.

À primeira vista, é uma história de amor, ou de mera atração, entre um consagrador diretor de filmes “de arte” e uma artista plástica iniciante. Tudo o que dá errado na primeira parte do filme (“errado antes”) transforma-se com o movimento de uma única peça – uma informação fundamental sobre a vida do diretor. E é a segunda parte do filme, quando a história é recontada acrescida dessa informação, que o filme se revela bem mais que uma história de amor.

A simplicidade que o diretor Sang-soo Hong imprime a cada cena logo parece deixar clara a intenção da obra: contar uma história. As cenas são gravadas sempre com uma única câmera, muitas vezes fixa. O recurso do zoom, que surge esporadicamente, pode soar anacrônico, quase pueril, lembrando o movimento de câmera dos antigos filmes de lutas marciais. Aqui, no entanto, ele parece empregado apenas para captar mais de perto a expressão facial dos protagonistas e, aos poucos, vai deixando o espectador mais próximo daquela história e mais íntimo daquelas pessoas.

Ao acrescentar a informação essencial à história, na segunda parte (“certo agora”), Sang-soo Hong não apenas dá outro rumo à trama de amor/atração entre o diretor e a artista plástica. Ele redimensiona ambos e, ao fazer isso, propõe uma discussão que faz eco na própria arte.

Nesse momento, o personagem do diretor humaniza-se, deixa de ser “o famoso diretor Ham Cheon-soo”, cultuado como gênio, para ser apenas um ser humano sujeito a beber demais, e a falar demais, e a dar vexame. 

A artista plástica e o cineasta, no ateliê: discussão essencial

















Sob esse prisma, duas sequências deixam claro que a intenção de Sang-soo Hong, ao contrário da primeira impressão, não era apenas contar uma história de amor/atração, mas generosamente colocar a própria arte em discussão. Os diálogos entre o diretor e a artista plástica, no ateliê dela, antes e depois, revelam essa revisão. No segundo momento, é lapidar uma resposta da moça à suposição de que sua pintura era uma forma de fugir da solidão. “Não, quando eu quiser fazer isso, eu vou procurar um cara legal.”

A segunda passagem é a relação do diretor com um crítico local, responsável pela mediação de uma palestra sobre a obra do cineasta. No momento “errado” da história, o diretor sente-se agredido pelas perguntas do crítico, nitidamente sentindo-se aviltado. Seu estado de espírito – preso ao pedestal – parece agir contra uma interlocução franca e construtiva com quem quer que seja. Na recontagem da história, despido da faceta de mito infalível, o diretor surge relaxado e aparentemente feliz, em ver sua obra discutida e valorizada em um ambiente de pessoas interessadas no que ele tem a dizer.


Depois de descer do pedestal, com a simples admissão de uma verdade essencial, ele parece tornar sua própria arte mais verdadeira e mais propícia a atrair, enlevar, agradar ou simplesmente provocar a reflexão em quem tiver contato com ela.A cena final, cercada de afeto e compreensão, faz a ponte definitiva entre aquele casal improvável. Não seriam, afinal, suas vidas distantes que os uniriam, mas a arte.

Monday, April 18, 2016

Choram Paulinhas e Vanessas

Talvez tenhamos que reaprender a ser pedra
Fechei a janela do banheiro, abri a torneira da ducha, liguei o rádio em alto volume, enfiei a cabeça debaixo da água. Depois de sair da última colocação, no primeiro turno, o Corinthians chegava à final e perdia para o São Paulo, no Campeonato Paulista de 1987. Não queria ouvir a comemoração lá fora, os fogos, os gritos.

Sentei ao lado da janela, só porque o Outono tinha se fantasiado novamente de clima do Saara, acompanhei os votos no Twitter, meti fones de ouvido e, ao sinal do desfecho, soltei Red Hot Chili Peppers no máximo. A Câmara dos Deputados tinha aprovado o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não queria ouvir a comemoração lá fora, os fogos, os gritos.

“Você parece criança que, quando os pais dão bronca, tampa os ouvidos e fica gritando qualquer bobagem para não ouvir!”

Meu filho, depois de socar o sofá e o chão com suas luvas de muai thai, tinha certa razão em criticar um traço tão imaturo de escapismo quanto aquele. Não me demovi do gesto. A primeira música acabou, a farra na rua continuava. Soltei outra canção. Finda a segunda, o silêncio.

Chora mais. Depois, luta (foto Gustavo Andrade AFP)


Perdemos. Sim, perdemos feio, de lavada. É triste perder e, se o gesto foi o mesmo de quase trinta anos atrás, bancando a criança mimada que não, não quer ouvir, desculpem-me, companheiros. Tenho a pele fina, os ouvidos sensíveis e, talvez, o mais relevante: um ego inflado que não gosta de ser tripudiado. É por ele que não me exponho em brigas políticas ou futebolísticas. Talvez eu seja menos civilizada do que minha postura sugere. Eu não digo tudo o que penso – de pênaltis mal marcados a votos porcamente justificados – mas penso cada barbaridade que, deixa pra lá...

Vou continuar não brigando, mas meu coração foi se apertando e fazendo brotar palavras à medida que interagia com amigos – reais e virtuais – na noite deste domingo. Eram Paulas, Wesleys, Vanessas, Alans, Tatianas, Gustavos. E os que mais me comoviam eram os bem jovens, muitos deles entristecidos não apenas pela derrota, mas principalmente por ver aflorar sentimentos de intolerância que deságuam em algo que não pode ser chamado de outra coisa que não seja fascismo.

Por partes, companheiros. Primeiro, à tristeza pela derrota. Muitos de vocês não eram vivos, ou pelo menos crescidos, enquanto vivíamos uma ditadura militar no Brasil. Não viveram a campanha pelas Diretas Já, não votaram para presidente pela primeira vez junto com seus pais. Não vou dizer que a derrota de ontem foi pouca coisa, não foi. Mas não posso deixar de notar que os últimos treze anos, que representaram a continuidade de um governo de esquerda no Brasil, significaram mais da metade da vida de alguns de vocês. A guerra ainda não está perdida, e a mobilização de todos continua sendo vital para tentar reverter esse quadro.

Mas, acostumem-se à ideia de agir como oposição, caso percamos também a guerra. Esses treze anos, coincidentemente, marcaram também a popularização das redes sociais no mundo. É certo que a oposição à esquerda no Brasil articulou-se de forma competente por esse canal. Panelaços e manifestações nasceram nos últimos anos por meio desse veículo. E pessoas que pensam de forma contrária a nós sentiram-se encorajados para se mostrar. Mostraram muita convicção e vários exageraram na dose de agressividade.

Mas eu arrisco dizer que a neodireita brasileira não tem noção do que a esquerda pode fazer quando deixar de ser vidraça e se tornar pedra novamente, como fomos na maior parte da nossa existência. Fundamentalmente, porque nosso ativismo não se restringe ao ambiente virtual. Estamos lastreados por forças sociais (de trabalhadores, de estudantes etc.) que pode – e, ao me parece, vai – mobilizar a sociedade para além dos protestos festivos aos domingos.

Por isso, jovens companheiros, quando passar a vontade de chorar, de se esconder no riff barulhento de um rock estridente ou de socar o chão, mobilizem-se novamente. Já fizemos isso antes. Dói, mas caleja, e não mata ninguém, pelo menos enquanto não se chegar à conclusão de que a ditadura é melhor, como pensam alguns.


Quanto à tristeza de ver o discurso fascista florescendo entre nós, principalmente entre os mais jovens... Desculpem, talvez para essa eu precise da ajuda de vocês. Eu entendo e louvo a ideia de que jovens têm de ser do contra. É quase orgânico, e esperado. E acho que o atual governo tem erros terríveis a serem corrigidos, e acharia natural ver mais jovens empunhando a bandeira da inclusão social ampliada, da descriminalização das drogas, do respeito à mulher, do casamento homoafetivo etc. Mas não consigo encontrar explicação para, ao contrário, ver crescer as intolerâncias raciais, religiosas e étnicas, a homofobia, o machismo, a misoginia. Alguém me ajuda com isso? 

Wednesday, April 13, 2016

Rosa e azul

Apresentando a donzela à corte: bleargh!
Eram pelo menos dois por mês, quando não mais. Uma classe com vinte e poucas alunas, todas completando 15 anos naqueles meses. O meu, em fevereiro, não teve festa nem valsa. Estávamos de mudança para aquele que seria o lar dos nossos sonhos, um apartamento espaçoso e ensolarado, e todos os recursos iam para ele. Nem que estivéssemos nadando em dinheiro. Eu dizia, desde os bailes das minhas primas mais velhas, que, na minha vez, não teria nada daquilo. Por essa época, e até hoje, não gosto de comemorar aniversário, não gosto de ser o centro das atenções, para as boas coisas, como ultrapassar mais um ano de vida, ou para o mal, como ir ao pronto-socorro tomar soro.

Dois fatores somavam-se à minha ojeriza a bailes de debutantes: eu tinha uma autoestima rastejante na época, com um corpo habitualmente acima do peso e aparelho nos dentes, o que sempre me fazia sorrir de boca fechada nas fotos. Vestidos de baile - ainda mais nos anos 1980, cheios de mangas bufantes - não favoreciam a discrição que eu sempre pretendia.

Mas o mais severo senão era ideológico, bipartido em duas vertentes. Quando entendi que o baile de debutantes remontava ao conceito de "apresentar a jovem à sociedade", meu sangue feminista ferveu. Eu não estaria na vitrine desse mercado humano, à espera de pretendentes, mesmo que minhas amigas "normais" me dissessem que era só uma festa, para todo mundo dançar, divertir-se, paquerar.

A "diferentona": "Com reco eu não danço"


A segunda vertente, intransponível, era política. A moda, na época, era convidar cadetes das Forças Armadas para ir dançar a valsa com as 15 escolhidas pela aniversariante. Era 1985. Tínhamos acabado de encerrar a ditadura militar. Toscamente, é verdade, com um governo eleito indiretamente pelo Congresso Nacional (o hábito é antigo, como podemos perceber). Mas estava lá, um civil no poder. "Eu, dançar com um reco?!" Era assim que nos referíamos aos aspirantes a militar, fossem do Exército ou da Aeronáutica. Que eu me lembre, nunca apareceu nenhum grupo da Marinha nessas festas, e nem que aparecesse o próprio Richard Gere de quepe branco, saído do set de filmagem de "A força do destino", eu bailaria o Danúbio Azul com ele.

Atravessei o ano indo a festas, dançando ao som de Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Madonna, George Michael (que ainda era do Wham), A-Ha. Enlouquecidas com tantos bailes, as mães parecem ter costurado um acordão entre si, para que as 15 donzelas usassem sempre vestidos cor de rosa. Ninguém se importava em repetir o modelo. Minha mãe providenciou para mim um conjunto de saia e blusa, em chamalote azul. Era um tecido da moda, dava a ilusão de formar umas ondas na superfície. Elas iam de rosa, eu ia de azul, e seguia ignorando solenemente todo e qualquer cadete. Bem feito. Segui boca virgem até os 18 anos, e isso não é força de expressão. Minhas amigas achavam engraçada minha rebeldia. Aos 15 anos, a gente gosta de ser do contra. O que, por esses tempos, significava marcar posição contra os cadetes do baile de debutantes. Hoje, os do contra tiram fotos com a PM.

Sunday, March 27, 2016

Homens-objeto

O filme “A grande aposta” recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor. Levou apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, o que não quer dizer que o filme seja ruim. Pelo contrário, achei “A grande aposta” superior a outros três concorrentes a melhor filme que vi neste ano – “O regresso”, “O quarto de Jack” e “Spotlight”, embora tenha gostado muito dos dois últimos.



Quando comentei que tinha adorado “A grande aposta”, nas redes sociais, algumas pessoas questionaram se eu não havia considerado o enredo “técnico demais”, por conta das exaustivas referências a termos do mercado financeiro. Bem, o filme propõe-se a contar de que maneira a bolha imobiliária dos Estados Unidos tornou-se uma enorme crise econômica mundial, não havia como escapar desses termos.

Mas acho que os roteiristas foram hábeis na tarefa de introduzi-los, primeiro com as repetições constantes de sua definição, cabíveis nos diálogos, e também com o recurso bem-humorado de utilizar celebridades como a cantora Selena Gomes para exemplificá-los. Ainda que não se entendam todos os meandros desse ambiente, é fácil deduzir a mensagem principal do filme: o mercado financeiro é uma selva.

Christian Bale, em "A grande aposta"


No entanto, não é impossível que eu tenha me abstraído da dificuldade de entender todo o discurso técnico por um detalhe prosaico: o filme tem um monte de atores bonitos e/ou charmosos, e em dado instante eu percebi que além de seguir a história, eu estava interessada em continuar vendo aquele desfile de espécimes masculinos. Não eram poucos: Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt (que é um fracasso retumbante em tentar parecer gordo e velho), além de nomes menos conhecidos, como Hamish Linklater (o problemático, porém engraçado, irmão de Julia Louis-Dreyfuss na série “New adventures of old Christine), e até alguns coadjuvantes como Max Greenfield e Billy Magnussen.

Não. Não eram poucos. Era praticamente um monopólio de homens na tela. E logo me lembrei de outros dois filmes, citados anteriormente, que praticamente só mostravam homens em ação: “O regresso” e “Spotlight”. Comentei isso com o amigo crítico e escritor Pablo Villaça, diretor do site Cinema em Cena, e ele apontou que a falta de representatividade das mulheres no cinema não é novidade, em vários aspectos. Um deles é a baixíssima quantidade de mulheres indicadas ao Oscar, ao longo da história, na comparação com homens, em todas as categorias, como mostra este texto (em inglês).

Brad, desista: você nunca fica feio


Também me chama a atenção o fato de que nem sempre as atrizes premiadas pela Academia estejam nas produções indicadas ou vencedoras dos principais prêmios (Melhor filme, especificamente). Este outro texto, também em inglês, quantificou isso, mostrando que, na história, apenas 40% das mulheres indicadas na categoria Melhor atriz estavam em produções indicadas a Melhor filme, contra 52% entre os homens.

Uma tentativa de justificar essa diferença poderia passar pela escolha dos temas. Ora, se vamos falar de mercado financeiro e o mercado financeiro é dominado por homens, é natural que tenhamos mais atores que atrizes. O mesmo se aplica para um filme que fale de uma tropa do exército deslocando-se em um ambiente inóspito. No entanto, praticamente qualquer história pode ser contada do ponto de vista das mulheres afetadas direta ou indiretamente por elas. E ainda: o mundo está cheio de histórias cujo protagonismo se concentra em mulheres ou em grupos de mulheres, e muitas dessas histórias esperam ser contadas.

Ryan Gosling: "ô, lá em casa..."


Mas, então, fiquei pensando que minha atitude contemplativa da beleza masculina, diante de um filme tão impregnado de testosterona, ainda que sério, talvez tenha sido uma pequena rebeldia. Querem nos impor machos brancos indômitos nas telas, relegando as mulheres a papéis menos que secundários? Não tem problema. Façamos deles homens-objeto, eventualmente desconsiderando o que estão falando, apenas para admirar seus dotes físicos. O gesto de desprezo intelectual não é muito diferente do que se tem feito regularmente com a figura feminina, na mídia, em geral. Mulheres seminuas têm ajudado a vender de cerveja a carro 0 km, sem precisarem abrir a boca. De preferência, não abrindo.

De fato, tenho visto crescer, nas redes sociais, uma postura frontalmente lasciva das mulheres em relação a atores, esportistas e celebridades, cultuando esses homens eventualmente mais pelo seu invólucro do que pelo que dizem e fazem. Eu mesma tenho seguidores dos dois gêneros que se atiçam com meus comentários ligeiramente maliciosos ou meramente contemplativos da beleza de pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol e artistas, como se eu emulasse um macho típico soltando um gracejo do gênero “ô, lá em casa...”.


Essa naturalidade em “coisificar” um homem talvez seja boa notícia, por refletir mais uma fronteira vencida pela mulher na sociedade. Mas não aplaca a sensação de baixa representatividade que esses mundos – do cinema, do esporte etc. – ainda nos impõem. Eu trocaria alguns suspiros motivados por músculos salientes, olhares sedutores e sorrisos marotos pela sensação de maior pertencimento a esses mundos. Basicamente porque a contemplação na tela do cinema ou na TV é mera idealização, mas a desvantagem feminina é real, palpável e cruel.