Monday, August 14, 2006

Adrenalina, suor e Vivaldi

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(vou introduzir um assunto recente mas, por favor, atentem para os debates nos tópicos abaixo, que continuam a todo vapor. Não vamos nos dispersar!)

A Corrida do Centro Histórico, cuja 11ª edição aconteceu ontem, em São Paulo, já se tornou uma tradição para os corredores paulistanos. É uma prova diferente de todas as outras, que normalmente acontecem em locais como a Cidade Universitária ou parques, como o Ibirapuera e o Villa Lobos. Correr pelas ruas do centro tornou-se um momento muito especial para mim, por muitos motivos.

Primeiro, mea culpa, porque sou uma paulistana de meia tigela, que não conhece o coração da própria cidade. Sou de uma geração de classe média criada longe desse burburinho. A infância e a juventude dos meus pais foi marcada por constantes idas ao centro, ou “à cidade”, como se costumava dizer. Os bairros não tinham todas as facilidades da região central, de forma que qualquer necessidade além do cotidiano implicava em uma visita ao centro. E essas necessidades iam de consultar um oculista a comprar tecidos finos. Estar no centro parece significar, para mim, a volta a um passado que nem é meu, afinal de contas.

Mas há outros motivos para meu carinho com a Corrida do Centro Histórico. O ritual que antecede a prova, por exemplo. É a única ocasião do ano em que tomo o metrô às 6h30 da manhã de um domingo. Na primeira vez, fui meio ressabiada, achando que seríamos só eu e poucas almas penadas. Logo descobri que o metrô paulistano pulsa cedo, mesmo em um domingo de agosto, habitualmente frio. Não foi o caso deste 13 de agosto, que amanheceu quente.

A arena montada pela Corpore, que organiza a corrida, também tem um charme especial. Estendem-se as barracas pelo Vale do Anhangabaú e eu, que nunca fui de passeatas e protestos, me sinto um pouco mais perto da história, do comício das Diretas Já, das comemorações nas Copas do Mundo, dos já longínquos títulos do meu (Las)timão. E o fato de estarmos ali, em lugar apropriado para aglomerações humanas, permite que encontremos conhecidos, troquemos impressões sobre a corrida, tudo muito bom.

Este ano, a Corpore introduziu uma prática muito simpática durante as provas. A exemplo de maratonas tradicionais, como a de Nova York, a organização programa apresentações de grupos musicais ao longo do percurso (fruto da parceria com o Conservatório Musical Souza Lima). Na prova de ontem, a largada foi brindada com um tenor cantando sucessos italianos antigos e outras peças para vozeirões privilegiados. Na Praça da República, uma cantora entoava Volare (Nel blu di pinto di blu). Achei que a coisa estava italianada demais para o meu gosto. Nada contra peças em italiano, mas me pareceu caricato.



Até que cheguei ao Pátio do Colégio e um grupo de câmara, composto por quatro jovens músicos, soltava no ar a melodia do Allegro da Primavera, “As quatro estações”, de Antonio Vivaldi. Deixei-me render pelos italianos: que cena bonita de se ver! Música erudita para todos, e com visível interesse dos transeuntes. Passei (claro!) muito rápido pelo local, mas pude perceber como tinha juntado gente em torno do pequeno palco. E, convenhamos, quem estava no centro de São Paulo, às oito e pouco da manhã de um domingo, não era a fina flor da elite paulistana, o que derruba a tese preconceituosa de que “música clássica é coisa de rico”. O culto à beleza, a fruição da arte é para todos.

12 comments:

Alessandra Alves said...

em tempo: completei a prova em 45min19, tempo que considerei bom apesar da minha meta original, de 43 minutos.

a justificativa para o tempo: as provas da corpore, muito bem organizadas, estão se tornando eventos complicados para quem quer buscar tempo, pelo grande número de participantes. resultado, os primeiros três quilômetros são um mar de gente, o que dificulta desenvolver mais velocidade. fiz os três primeiros quilômetros acima de 5min/km. consegui recuperar bem no final, fazendo abaixo de quatro, o que me deu média de 12 km/h. não foi o ideal, mas nada mau!

Mauro Chazanas said...

Alessandra, boa tarde. Sem "dispersar-me", permita: "Las-timão" não pode ficar impune. Muiiiiiiiito bom, parabéns, genial.

Andréa N. said...

Ja tinha dito, e digo de novo, ADOREI o seu blog. Abracos.

Alessandra Alves said...

mauro: justiça seja feita, não é meu o "Lastimão". o olé usou semana passada, no episódio da briga entre marcelinho e mascherano. por que será que ninguém reproduziu isso na imprensa daqui, né? é ótimo!!!

andréa: obrigada, de novo. também já me fiz íntima no seu blog!

Ricardo said...

Gostei do blog.
Ótimos textos!

L-A. Pandini said...

Ao contrário do que pensam as gravadoras e os donos de rádios e TVs, qualquer um gosta de boa música. Basta ter acesso a ela.

Os concertos que volta e meia acontecem no Ibirapuera, sem cobrança de ingressos, não juntariam a multidão de gente que vai até lá.

Thiago Kuerques said...

Você tem um estilo maravilhoso pra escrever. Obrigado.
Li quase todos, e por baixo, digo que a blogosfera é surpreendente.
Beijos

Anonymous said...

A gente vai mudando,sem duvida,passa a dar valor em coisas que passavam despercebidas.
E toda gente a ouvir e apreciar uma musica classica em uma manhã de domingo é a vitoria da expressão artistica sobre o exercicio do razão.
Adorei seu Blog.
Jonny'O

Valeria said...

Alessandra, sempre frequentei o centro de São Paulo, por motivos profissionais. E posso te dizer é um dos locais mais legais e agitados de Sampa.
Quanto aos concertos e música boa, ali é um terreno fértil. Nos meses de outubro/novembro ocorre um festival de órgão no mosteiro de São Bento, o Teatro Municipal tem os concertos do meio dia (toda a quarta-feira), e as vesperais líricas (de segunda às 18 horas) com entrada franca, o Centro Cultural Banco do Brasil realiza apresentações musicais de terça e sexta-feira no horário do almoço, tudo isso com entrada franca.

As pessoas [b]gostam[/b] de boa música, porém o acesso a ela é dificultado pelos meios de comunicação que nos impõe essa porcariada goela baixo.

Alessandra Alves said...

luiz alberto: parece uma coisa meio paranóica, mas é impossível não pensar que existe, de fato, um interesse da indústria cultural em alijar a maioria da população de produções de qualidade, né? há um vaaaaaaasto campo para se discutir o que é qualidade, onde mora nosso preconceito elitizado em relação à cultura popular etc., mas que existe, existe.

thiago: obrigada! vc leu o primeiro post do blog, "a parábola do tremoço"? se puder, leia e comente também.

johnny: pode crer. o gosto da gente vai mudando. quando você é criança, não gosta de café. depois, aprende a tomar café com açúcar. aí chega um tempo que percebe que açúcar demais faz mal e começa a diminuir a quantidade. até que encara numa boa o café amargo. certo dia, lhe servem um café adoçado e você acha intragável. acho que isso vale para todos os nossos sentidos...

valeria: sensacionais suas dicas! vou me programar para aproveitar um pouco dessas jóias no coração de são paulo, obrigada!

Nicolau said...

Alessandra, o Timão foi campeão brasilerio ano passado, po. Melhore essa auto-estima, menina.

Nicolau said...

E sobre futebol, visitem meu blog junto com uns amigos, o futepoca.blogspot.com
O pessoal escreve bem, entende do riscado e tem bom humor.