Tuesday, May 16, 2006

Galinhas ou abutres?

Situações como as dos últimos dias - de confusão e medo em São Paulo - têm o poder de me emudecer. Jamais serviria para comentarista política de TV ou rádio, que exigem prontidão de opinião. Comigo, não. Uma coisa é dizer na lata que o time A está jogando melhor que o B porque seus laterais cumprem a função tática de atacar quando preciso e defender se necessário.

Tiros, fogo, rajadas, cadeia, PCC, comandante da polícia, secretário de segurança pública, governador, ministro, presidente formam um time bem mais complexo para que minha cabeça ou minha pena cuspa uma sentença imediata.

No fundo, eu talvez cale opiniões mais profundas porque tenho medo dos meus próprios sentimentos. Lembro que quando tinha onze, doze anos, rebeliões eram relativamente comuns na Casa de Detenção, não muito longe da minha casa, e eu grudava na TV e no rádio, querendo mais, e mais. Tenho medo dessa morbidez, e o treino da profissão não me apartou dela. Mea culpa, minha máxima culpa: enquanto pude, ontem, ouvi rádio AM todo o tempo, acessei sites noticiosos enquanto estive à frente do computador. Confesso, eu, pecadora: não estava atrás de orientação coisa nenhuma, estava atrás de notícia (talvez mais ataques, mais mortes, toque de recolher, estado do sítio!). E você, queria o quê?

Meu sentimento, hoje, é de constrangimento. Senti-me um abutre.

O 15 de maio paulistano, o 11 de setembro nova-iorquino, as rebeliões na Detenção, o shopping de Osasco que explodiu servem para muito pouco. Chacoalham nossa vidinha besta, discursamos bobagens para gente que mal conhecemos, nos indignamos e vociferamos contra entes etéreos, como o poder público, o sistema carcerário ou a justiça. Entramos em nossos carros, seguimos tocados como o resto do rebanho, corremos para casa como galinhas assustadas, como bem comparou o colunista Demétrio Magnoli, na Folha de hoje.

Depois, voltamos para nossa vidinha besta, sem tiros, sem mortes, sem toque de recolher.

É uma relação doente, admito. Quanto mais busco saber, mais me enredo na dificuldade de concluir um juízo próprio. Persiste, no entanto, o mesmo sentimento de falência social de ontem (a turba em fúria no Pacaembu), de anteontem (os meninos do documentário "Falcão", que a TV mostrou aos pedaços). Vivemos em uma sociedade cronicamente doente.

17 comments:

Alessandra Alves said...

para quem não conseguir linkar o artigo, aqui vai a íntegra:

Pânico no galinheiro
DEMÉTRIO MAGNOLI
COLUNISTA DA FOLHA

O PCC deflagrou ontem a guerra da informação. Existiram, aqui e ali, disparos reais, mas sobretudo os bandidos dispararam aleatoriamente chamadas telefônicas ameaçadoras. BUUU! A cidade de São Paulo reagiu como um imenso galinheiro. Rumores correram soltos, desatando reações em cadeia. Sob o influxo do boato, comerciantes baixaram portas de aço, pais assustados correram às escolas para resgatar as crianças e empresas suspenderam o serviço. De um bairro a outro, a cidade apagou-se ao longo da tarde.
Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegóvina, não renunciou à vida, nem sob sítio e debaixo das rajadas de franco-atiradores. Os mercados de Bagdá funcionaram em meio aos estrondos das bombas e mísseis dos ataques norte-americanos. Londres não parou durante os bombardeios aéreos alemães, na Segunda Guerra Mundial. Mas São Paulo curvou-se à delinqüência comum. Vergonha!
A culpa é dos governantes? Sempre, em primeiro lugar, a culpa é deles. Atônitas, cercadas por numerosas assessorias inúteis, as autoridades estaduais e federais entregaram-se desde domingo ao jogo eleitoral, elaborando declarações maliciosas sobre seus adversários. Mas esses especialistas na baixa política não foram capazes de identificar o sentido da operação do PCC e, na prática, renunciaram a governar.
Na hora da primeira série de ataques coordenados, o governo do Estado de São Paulo tinha a obrigação de centralizar as forças policiais em um comando único de emergência. Em vez disso, talvez inspirado nas ações dos comandantes do Exército que, no Rio de Janeiro, firmaram um acordo fétido com o Comando Vermelho, ele preferiu iniciar negociações sigilosas com os chefes da delinqüência.
De nada servem um governador e um secretário da Segurança impotentes diante de uma guerra de rumores. Ontem, enquanto os cidadãos se acovardavam, os boletins de notícias desempenhavam involuntariamente o papel destinado a eles no planejamento dos bandidos. Mas não passou pela cabeça vazia das autoridades o recurso elementar de, usando a legislação disponível, colocar a TV e o rádio em rede oficial, por todo o tempo necessário, a fim de desfazer a boataria, chamar as pessoas à razão e impedir o cancelamento da vida normal.
A culpa é só dos governantes? Não, mil vezes não! São Paulo conheceu ontem os efeitos psicológicos da indústria do medo. A classe média que não deixa os seus filhos circularem de ônibus e metrô, que se cerca de câmeras e alarmes, que passeia apenas em shopping centers e aspira comprar um automóvel blindado correu na direção de seus bunkers domésticos murmurando tolices sobre a pena de morte. No começo da noite, um manto de silêncio desceu sobre a cidade. Vergonha!

Alessandra Alves said...

o debate sobre a bolívia continua quente no post de baixo, não nos abandonem!

Cynthia said...

Li o artigo do Demétrio e foi assim que me senti. Vivemos ontem aqui um dia de pânico, ninguém conseguia saber exatamente o que estava acontecendo e fomos dispensados mais cedo. E eu mesma passei um e-mail alarmista, mas fazer o quê. Acho que a polícia deveria ter passado mais informação, só eles tinham condições de evitar a boataria.
Fiquei com medo e muito deprimida na volta pra casa. Pessoas a pé na Marginal Pinheiros, com caras assustadas, eu rezando pra todo mundo chegar em casa tranquilo. Comércio de portas fechadas, muito triste. Quem chegou, correu a ligar pra ver se todos da família estavam em casa. Meu pai atravessa a cidade todos os dias e ontem levou 3 horas até em casa. E que agonia até ele chegar. Rezei muito por São Paulo e que apesar dos pesares, é a minha cidade.

gheirart said...

fico refletindo. a mídia fica querendo dar força ao pcc, como se fosse um grupo superorganizado. balela, né? podem ser, na questão da permanência do tráfico, da grana. e os policiais num esquema q os corrompe e q a essa altura já nem sabemos se fazem parte desse pcc, pagam de defensores. ué, mas pq não explodem então o palácio do governador? ficam queimando ônibus, depredando etc. isso pra mim é amador, sabe?
é isso q a mídia devia enfocar. meu, a minha irmã me ligou ontem duas vezes pra me dizer para eu me cuidar e tal. as pessoas q estavam nas ruas, vivendo, não viram nada.
anda agora recebi um e-mail de uma amiga q fazia mestrado comigo, dizendo de um suporta ligação do pcc com o pt. q preguiça disso tudo, viu?

denise said...

oi alessandra!
eu fiquei com essa mesmíssima impressão... e andava pensando esses dias sobre que hj a gente tem uma pequena aberturinha maior pra saber o outro lado da coisa (o lado bom) através de órgãos que não os 'oficiais' (well, mas td tem um preço...mas enfim), porque tragédia e alarmismo muitas vezes é o que movimenta manchete (e $$$!)... até a gente mesmo reeducar o próprio abutrismo vai levar um tempo, pq - eu pelo menos - fui educada sob o manto do terrorismo formatado (tudo está horrível e só vai piorar), mas te confesso que essas brechinhas de boas notícias e lados positivos (muito por 'obra e graça' da net) que se tem tido conhecimento tem me deixado mais bem da cabeça (rs...)
até +!! :)

Alessandra Alves said...

cy: não precisamos nos culpar por entrado na onda alarmista. é um constrangimento, visto de hoje, mas a força da boataria acaba envolvendo a todos, os com e os sem consciência. e tem outro detalhe: quantas ligações não recebemos de mães, pais, cônjuges, irmãos etc. perguntando por nós, instigando-nos a ir embora, a voltar para casa, a enfiar a cabeça no buraco? como resistir depois de tanto apelo emocional?

gheirart: concordo com você, e mais, nunca me imaginei dizendo isso, mas concordo com o que disseram o comandante da polícia e também o governador lembo. de fato, de verdade, NADA acontecido durante o dia da segunda-feira justificava a histeria. fogo nos ônibus? foi na madrugada. tiros no metrô? foi na madrugada. eu vivi um dia normalíssimo nesse 15 de maio: passei a manhã inteira num cliente, fui para a academia na hora do almoço, cheguei no escritório e então começou o bombardeio (de boatos!).

outra coisa que me parece significativo: como bem disse o pedro no blog dele, eu também não conheço ninguém que tenha visto, ouvido ou presenciado nada. e esses ônibus todos que queimaram? nenhuma vítima?! queimaram ônibus vazios? avisaram antes? foram bonzinhos com as empresas? são amiguinhos dos donos das empresas? fizeram um servicinho para os donos das empresas receberem seguro? ai,ai...

denise: estou totalmente afinada com você! também fui criada sob o manto do terror e do claustro, o que me parece normal para entender nossas reações em dias como essa segunda 15. e também me pego no otimismo de perceber que não sou a única com ar de constrangimento passado o furacão sem vento. compartilhar essas impressões com vocês, aqui, ali e acolá, nessa blogosfera que (não) é esférica também alivia minha mente!

Véio Gagá - BH said...

Pessoal, indepententemente da disparidade entre os atos e sua repercussão, concordo que vivemos numa sociedade cronicamente doente. Ainda que a população não tenha sido atingida - ainda bem! -, o poder demonstrado pelos criminosos deixou claro que poderiam fazê-lo. De toda forma acho que muita coisa precisa ser mudada, e essa histeria (motivada pela boataria, que seja) pode trazer consigo as mudanças necessárias. Só espero que não sejam mudanças rasas só pra enganar a população. Minha opinião a respeito está no meu blog (www.veiogaga.blogspot.com).
Abraços,

danilo said...

(...concordando com o magnoli e continuando a vida normalmente como o bortolotto...) Alessandra, desculpa ignorar as galinhas e abutres e mudar de pato pra ganso, mas acabei de ler um texto muito gostoso e lembrei de quando você fala do teu filho.

Chama-se "Minha mulher é mais do que um domingo" e é de um poeta chamado Fabrício Carpinejar.

Vou tomar a liberdade de copiar aqui, tudo bem?

Segue:

"Tenho pudor em chamar minha mulher de mãe e mudar a categoria de motorista. Tomo cuidado para não me transformar em irmão de meu filho. Posso me acostumar ao chamado e perder a intimidade de marido. É perigoso: convivo com amigos que se referem a sua esposa como mãe; curioso enxergar o homem feito a puxar conversa com esse apelo no almoço ou jantar, eu não consigo imaginar o casal trepando. É Édipo demais para uma Jocasta só.

Compliquei o caminho do Vicente, que demorou para dizer "mãe" porque me imitava e chamava Ana. Valorizo Ana, assim como a conheci, pois ele não deixa de ser - no breve nome - amante, amiga, confidente, louca, serena, sensível, gostosa, e também mãe. Não é uma coisa ou outra, é tudo ao mesmo tempo, inclusive o que não quero, inclusive o que me desafia. Quando erro, peço desculpas. Amo pedir desculpas, pois ela se irrita, esbanja vontade de discutir e já deixei a cena. Pedir desculpa é o jeito masculino de ter razão quando faltam argumentos.

Ana cuida dos meus filhos melhor do que eu, não há dúvida. Ela cria um passo e faço o mesmo, sou um mímico de sua música. Até Mariana, que não partiu de seu ventre, procura ela primeiro para conversar sobre namorados e incertezas da escola. São cúmplices desde a origem e vivem me provocando. Tento entrar na conversa e ficam mudas de repente. Saio e escuto a balbúrdia de novo no quarto. Enquanto me provocam, estou certo de que estamos bem. Posso ser consultor amoroso fora de casa, dentro de casa sou o último a ser consultado. Acabo tão feminino, tão maternal, que jogo contra mim. Em minha família, são todos contra mim, inclusive eu. Ganhamos por W.O.

Com Vicente, não há saída. Caso Ana dê alguma ordem, será inútil convencer o menino do contrário. De noite, ele sempre a chamou. Quando vinha cambaleando, com os cabelos em arame farpado, para alcançar o leite, ele chorava tanto que era difícil desacreditar da minha feiúra. Acordava em desvalia.

Acostumei-me a ser coadjuvante e não é nenhum demérito nisso. Minha única vantagem é no espaço do armário, Ana ainda não percebeu ou não quis me xingar. Ela conta com cinco prateleiras e uma ala do cabide para comprimir os inúmeros vestidos e casacos. Por favor, não conte para ela, disponho de três alas e dez prateleiras.

Ana criou os rituais do Vicente, o café da manhã, o horário da televisão, a escala dos bichinhos com que ele dorme, decorou as possibilidades e os tipos do Power Rangers, o convenceu a sentar na cadeira de adulto nos restaurantes, a pentear os cabelos de lado, como os dela. Só Ana conhece os brinquedinhos que ele leva ao banho. Foi ela quem comprou o blusão amarelo do Bob Esponja que o guri não deixa colocar para lavar sob hipótese nenhuma.

Vicente é educado com estranhos, efusivo com os familiares, dá beijinhos quando se apresenta. No meu filho reconheço o caráter da minha mulher. Nunca consegui chegar antes na sua agenda escolar. Ela responde os recados com clarividência.

Quando ele me abraça, vira meu corpo para onde está a mãe. Para que ela veja o amor que ele tem por mim.

O amor que Vicente tem por mim ainda é amor por ela".

Gustavo Alves said...

Mano,

Concordo absolutamente contigo e pego embalo em um comentário.

Se tenho uma empresa de transporte urbano e minha frota está obsoleta, o 'ataque do pcc' seria um ótimo álibi?

Se tenho uma rivalidade com um policial posso usar a 'onda pcc' e fazer uma execução?

Até mesmo há a possibilidade dos boatos começarem de quem queria sair mais cedo do emprego.

Mas pelo apelo da audiência para a mídia, a cultura do medo, e tudo feito na emoção da paixão, ocorreu o que ocorreu.

E quero saber quem foi que não caiu neste espírito! Até o Bonner caiu.

Débora said...

O Bonner iniciou o JN com uma mensagem de solidariedade dramática para os Paulistanos. Até se deslocou do RJ para fazer "ao vivo" o telejornal direto da GLOBO SP.
Um dos meus filhos (Lucas) comentou que não achava nada bom ver o Bonner em SP, porque o mesmo só se desloca para cobrir tragédias, mortes de celebridades/personalidades e etc...E que sentia medo do que estava ainda por ser noticiado.
Incrível mas a trilha sonora do dia 15 se resumia nas sirenes e nas vinhetas dos plantões de todos os telejornais.
Muito ruim ver o medo dos meus filhos. A aflição deles pelo pai que não conseguia chegar em casa. O pavor por morarmos em frente a base da PM (que foi alvo do PCC em janeiro p.p.)e a pergunta que me fizeram : "Até quando?"
Respondi: " Até que os responsáveis pela segurança tenham segurança para agir, até que o sensacionalismo deixe de existir e a boataria não piore ainda mais a situação."

Alessandra Alves said...

véio: como sempre, você nos traz uma visão diferenciada, com seu conhecimento dos temas e meandros do direito. recomendo com entusiasmo o post "fraqueza e poder" no blog do véio gagá.

pegando carona no final do seu texto, eu destaco:

"(...)Sim, nada substitui a justiça social (educação, emprego, escola, renda...), tão necessária para que a violência urbana seja reduzida. Mas esperarmos que isso ocorra sem que sejam adotadas medidas imediatas, concretas e duras para repressão ao crime é esperarmos pelo caos.(...)"

se fôssemos médicos, acho que a comparação poderia ser a seguinte: temos um organismo gravemente doente, com infecção e febre. vamos combater a febre com um analgésico, que age imediatamente, e a infecção com um antibiótico, que demanda um tratamento mais longo.

as mudanças que você ressalta do ponto de vista das leis e do cumprimento delas talvez fossem esses dois remédios juntos, e sem dúvida precisamos ministrá-los.

mas se o paciente sair dessa infecção e continuar se alimentando mal, expondo-se a agressões diversas do ambiente, dormindo desregradamente, a infecção volta...

danilo: lindo, lindíssimo! muito obrigada pelo off-topic. tenho certeza de que não só eu, mas a família toda vai se identificar...

gu: bom saber que não fui a única meio paranóica com essa situação. o que eu realmente achei estranho nessa história dos ônibus foi o seguinte: no rio, botaram fogo em ônibus e isso teve conseqüências trágicas, com várias mortes. aqui, queimaram um monte de ônibus e ninguém nem se machucou! não é estranho demais?

o estilista alexandre herchcovitch deu um testemunho ótimo, na folha de ontem: "Medo? Não, não tive medo. Nas ruas, parecia uma mistura de pânico com euforia, parecia quando o Tancredo morreu e ligaram da escola avisando que não ia ter aula, eu adorei."

E não foi mais ou menos isso mesmo?

dé: entender e explicar isso tudo para as crianças e os adolescentes é uma das tarefas mais difíceis. hoje, mais do que nunca, entendo suas aflições e também fiquei temerosa pela base da PM aí da frente. o que me parece cada vez mais claro é que não existe mais lugar seguro, nem atitude segura. vamos, como disse o pedro no blog dele, continuar feito emas/avetruzes (alô, véio gagá!) com a cabeça enfiada em nossos buracos/bunkers seguros?

Pedro Alexandre Sanches said...

Gente, e o chilique do Bonner diante do governador de São Paulo, lá de cima do teto do edifício blindado da Globo? o cara tava histérico a ponto de não deixar o governador falar, interrompendo todas as respostas pelo meio, incitando a insanidade do Exército nas ruas de SP...

Sei lá, a gente tá tão acostumado com o olhar "crítico" SÓ sobre os governantes que esquece de ver o ridículo que os jornalistas (minha "classe", ó, orgulho e vergonha simultâneos..) passam ali do ladinho, transmitindo pânico & fúria para a população como quem estivesse fazendo um piquenique nos jardins floridos do Brooklin Novo... E permanecendo sempre, ou quase sempre, "imunes" a qualquer crítica ou reparo...

Foi lastimável, um horror. Em compensação, o governador Lembo, do PFL (um partido que eu odeio, como gosto sempre de frisar), continua me surpreendendo positivamente. vocês viram a entrevista sem meias palavras dele à "Folha" hoje? Vai aí um link, pra quem quiser ver:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u121683.shtml

mario lago said...

oi alessandra, bom dia!
pelo que li acima, são tantas as opiniões simultaneamente iguais e diferentes entre sí, exaltando sentimentos em paradoxo, medo, culpa, curiosidade.
pelo que li por aí:
policiais femininas adentrando aos quartéis querendo abraçar cada novo herói do dia, medalhando com beijos vermelho sangue o autor de cada corpo tombado ao chão. Talião?
a mídia preocupada em deixar claro que houve acordo entre o representantes das facções politicas e prisionais. melhor não tê-lo feito, então?
a facção política querendo negar o óbvio acordo celebrado, como fica?
alguém acredita que aquela robusta advogada cruzou o estado de lear jet, acompanhada de um delegado de elite, de um diretor do sistema prisional e de um coronel pm para verificar a integridade física do imperador preso? por quem nos tomam?
somos desgraçadamente abutres ou apenas vítimas das circunstâncias em que vivemos?
torcemos por quem entre o forte pcc e a canalha politica? por nós?
quantos alguéns defenderam o extermínio puro e simples das ervas daninhas com a morte 'acidental' na clausura?
e, sendo verdade, tudo teve início com a apropriação indébita da fita do depoimento sigiloso de policiais sobre o tráfico de drogas e armas, vendida a dois rábulas, dentro das instalações do congresso nacional, que depois as repassaram ao comando do pcc?
como pode alguém vender a honra, desrespeitar sua categoria profissional para ser cúmplice, por sua ação vil, da morte, do caos, da orfandade...
que vergonha!

Alessandra Alves said...

pedro, eu não vi o jornal nacional aliás, eu só assisto a globo para ver futebol e corrida de fórmula 1. não é ideologia nem elitismo: fico pouco tempo em casa, tenho um filho de seis anos e as parcas horas de lazer que me restam eu ocupo com ele ou com livros, que habitualmente me interessam mais que qualquer coisa na TV.
mas a sua percepção me diz muito, pela afinidade de pensamento que parecemos ter, e quase "vejo" o bonner histérico. vou tecer alguns comentários, até fazendo uma ponte entre a sua visão e a da debora, mãe de três adolescentes, logo ali em cima.

para um âncora, quanto maior a patente do entrevistado, mais status tem o bate boca, concordam? que o diga aquele âncora da cnn em relação a george w. bush. eu juro que não consigo "ler" na postura do bonner mais "defesa do cidadão" que auto-promoção. o chilique dele resulta em quê? em uma mudança de atitude do governante? claro que não! governante nenhum vai se render no ar, ao vivo, aos apelos dramáticos de um apresentador de jornal. pode ser o político que for: de esquerda, de direita ou muito pelo contrário! serve, apenas, para que adolescentes como o lucas, citado pela debora, atentem para o fato de que alguma coisa estranha está acontecendo, e para recrudescer o medo e, pior, na minha opinião, para introjetar idéias de que é importante, vital, fundamental tomar medidas para proteger o cidadão de bem, como atirar antes de perguntar em qualquer "suspeito" que apareça.

ouvi toda a entrevista do comandante da polícia militar e concordei com vários pontos levantados por ele. um deles, em particular, me fala de perto, porque se refere à comunicação. ele se referiu a uma emissora de TV que ficou muito tempo no ar com a imagem de um ônibus pegando fogo, com a inscrição "ao vivo", sendo que o evento tinha acontecido muitas horas antes. ora, analisou o comandante: um ônibus pegando fogo vinte vezes na TV são vinte ônibus pegando fogo, na cabeça de muita gente.

por isso, remeto ao pensamento central do meu post: notícia ou sensacionalismo? orientação ou criação de pânico?

Alessandra Alves said...

mario: suas perguntas são inquietantes e revelam que nem tudo é preto no branco, pão-pão, queijo-queijo, né?

eu só vou discordar de uma colocação que você coloca, ainda que na forma de pergunta. "somos desgraçadamente abutres ou apenas vítimas das circunstâncias em que vivemos?"

eu, como expressei no post, admito minha veia abutre de buscar a notícia menos para me informar e mais por pura morbidez (na ânsia de ser uma pessoa melhor, luto contra isso, mas é difícil...). não acho que podemos cruzar os braços (ou abri-los no crucifixo?) como vítimas da circunstâncias. só seremos todos vítimas enquanto não modificarmos nossa atitude (nossa, de todo mundo). fácil? não. na minha opinião, essa mudança inclui muita coisa. alguns exemplos:

desarmar-se em relação ao outro (sendo o outro tanto o seu cônjuge como seus filhos, sua empregada, seu chefe, o porteiro do seu prédio, seu colunista preferido no jornal, o presidente da república). e esse desarmar-se significa, para mim, entender-lhe as razões antes de prejulgar suas palavras e atitudes;

colocar-se no lugar do outro (o famoso "o que você faria se estivesse no meu lugar" e também o ancestralmente conhecido "não faça ao outro o que você não gostaria que fizessem a você")

fazer na sua vida o que exige de seus políticos. você não quer ver corrupção e falta de ética na política? então, deixe de pagar propina ao guarda que vai lhe aplicar uma multa e cobre o preço justo por seu serviço, não aquele que você sabe o ideal para garantir sua vitória na tal concorrência (e se você ficou sabendo do preço porque deu uma graninha ou uma dinheirama para o funcionário que tinha a informação privilegiada, para de fazer isso também).

entenda que as pessoas podem ser diferentes de você e por não terem a mesma cor, a mesma formação cultural, a mesma formação religiosa, a mesma orientação sexual, a mesma orientação política nem por isso são piores que você. respeite-as.

ah, e são tantas outras... e eu acho que elas têm um poder tão grande de multiplicação...

é fácil fazer isso? claro que não. mas queremos ser agentes da transformação social ou vítimas das circunstâncias?

Pedro Alexandre Sanches said...

pois é, alessandra, autopromoção do âncora total, e, na minha opinião, desta vez, autopromoção de uma imagem totalmente descontrolada e desequilibrada. isso se repetiu agora há pouco com o (âncora) carlos tramontina e o (secretário da segurança) saulo abreu (os segundos escalões dentro do primeiro escalão?, hehehe) - desta vez os dois pareciam identicamente descontrolados e desequilibrados. de todo modo, foi um bate-boca histórico (no pior sentido possível), o tramontina xingando o saulo porque o saulo não dá entrevista, o saulo retrucando, tão acusatório quanto, que deu uma entrevista enorme para o "jornal da globo" ontem e o "jornal da globo" não exibiu p... nenhuma...

enfim. descompostura total, uma tragédia (reveladora e educativa tragédia, eu espero).

sobre o seu comentário de baixo, ele me fez pensar numa coisa que ainda não tinha me ocorrido: será que essa escalada de violência de agora é filha do resultado do referendo do desarmamento (já faz nove meses que ele aconteceu?)? será que o grito do pcc é efeito retardatário e transtornado do "não" gritado pela voz rouca das ruas, pelo "não" gritado de forma fascista pela revista "veja" na "famosa" (no pior dos sentidos) capa que praticamente ORDENAVA ao cidadão que votasse "não" ao desarmamento?

eu acho que "sim", viu? vão espalhando os rastilhos de pólvoras... depois "colhem" os "frutos"... e ficam imediatamente histéricos, gritando para transferir culpas próprias no primeiro idiota que passar pela frente (da tela da tv ou da banca de jornais)...

ah, fui verificar, é claro: o referendo que disse "não" ao desarmamento foi em 23 de outubro de 2005. na próxima terça, completa sete meses. o bebê nasceu prematuro, na cidade de são paulo. não passa bem.

Alessandra Alves said...

pedro: também não vi o tramontina com o saula (ainda bem que você me atualiza! hahahaha).

putz! faz muito sentido sua referência ao referendo. não sei se você vai se lembrar disso, mas na época das discussões do SIM e do NÃO eu lembro de ter comentado, no seu blog, que tinha sido assaltada naqueles dias e que o fato me fez ter mais conficção ainda pelo sim, pelo desarmamento.

quando ouviam isso, algumas pessoas me criticavam e outras faziam uma leitura enviezada: é, isso mesmo, se você tivesse uma arma, poderia ter matado o cara!

não, mil vezes não! eu nunca vou ter uma arma! a conta é bem outra: eu acho que me dei muito bem no assalto, tendo como únicos prejuízos o vidro do carro quebrado, um relógio subtraído e R$ 5,00 (cinco mesmo) levados, porque ele, o assaltante, em vez de me assaltar com uma pedra, que ele usou para quebrar meu vidro, poderia ter uma arma! menos armas, menos vítimas!