Monday, September 04, 2006

Homem não chora

...


Desculpem a insistência no tema, mas estou mesmo sensibilizada com a aposentadoria de Andre Agassi. Os anos e a brutalidade do mundo vão se encarregando de endurecer nossos corações juvenis e chegamos à maturidade com tiques de ceticismo. Às vezes, nada parece sincero. Tudo pose, tudo fake, tudo feito para a TV. Mas, sei lá, Agassi me derrubou. Talvez por ter exatamente a mesma idade que eu, o norte-americano, ao dar adeus às quadras, me bateu de leve no ombro e cochichou: “é, mana, você está ficando velha.”

Agassi não encerrou sua carreira no auge da forma. Portanto, poucos apostariam que ele se despediria do tênis conquistando mais um título, como fez Pete Sampras. Logo, cada uma das três partidas que disputou no Aberto dos Estados Unidos tinha potencial para ser a última. A primeira, contra o romeno Andrei Pavel, não foi exatamente fácil. Agassi perdeu o primeiro set e venceu os três seguintes. A segunda, contra o cipriota Marcos Baghdatis, foi de arrancar o couro. Jogo com mais de três horas, decidido em cinco sets. Foi demais para o veterano.

Ontem, dia 3 de setembro, os cacos de Agassi entraram na quadra para enfrentar o alemão Benjamin Becker, que até agora só figura na história do tênis por ter vencido a última partida disputada pelo norte-americano. Esse Becker não tem nada a ver com o Boris, número 1 que dividiu glórias e títulos com Ivan Lendl nos anos 80. Só apareceu para ser o outro, a sombra, o J. Pinto Fernandes da história.

Drummond não escreveria sobre a derradeira partida de Agassi, um 3 a 1 qualquer, como tantos. Agassi perdeu, encaminhou-se para a rede, como pede a etiqueta tenística, cumprimentou o vencedor, foi para sua cadeira, sentou-se e começou a chorar. Talvez nessa hora, o poeta mineiro se animasse. A platéia estava lá para isso mesmo, por isso se levantou inteira e despejou-lhe palmas, gritos, vivas e mais lágrimas. Talvez nenhum espectador lá estivesse para ver a vitória, mas para presenciar a história. E a história só se faria com a derrota. Um bando de urubus, na verdade nua e crua.

Agassi, como era de se esperar, pegou o microfone e dirigiu à turba o discurso guardado na mente havia alguns meses. Palavras sem originalidade, juras de amor e gratidão. Poderia até soar fake, não fossem os soluços entrecortando a fala. E as lágrimas escorrendo, e aquela fisionomia de alegria triste que marca o ser humano nas horas cruciais. Aquelas horas estanques que determinam o nada será como antes. Casamento, formatura, despedida. Por mais aguardado o momento, por mais alvissareiro o futuro, é difícil levantar a âncora do passado. Alegria triste.

Ah, se os homens soubessem como amamos suas lágrimas...

O quanto ficam mais humanos, mais sensíveis, mais acessíveis, mais ternos, mais doces. Não, não queremos manteigas derretidas, bezerros desmamados, histéricos descontrolados. Não queremos e não seremos cataratas instantâneas a cada emoção ou contrariedade. Que nem homens nem mulheres tenham a prerrogativa do choro. Nem a do não-choro. Não sejamos modelos. Sem essa de mulher chora à toa. Nada de homem não chora. Homem não chora. Quem chora é gente.

22 comments:

Alessandra Alves said...

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

(Carlos Drummond de Andrade)

daniel carlos nava said...

Quem diria que começou a jogar tênis por imposição do pai, pois nem gostava do esporte.

Zeca said...

Eu ainda não havia visto a despedida do Agassi. Acabei de ver no YouTube. Que maravilha ver alguém terminar sua carreira de forma tão grandiosa, com tanto reconhecimento e respeito. É isto que faz o esporte ser tão especial. E atos sinceros e espontâneos como o dele fazem a nós, seres humanos, sermos ainda mais surpreendentes e especiais.

Aí vai o link para quem não viu também (http://www.youtube.com/watch?v=B5IFJCrbe7I) - Alessandra, desculpe incluir o link.

Vida longa ao Agassi. E aos textos da Alessandra.

Ouvindo Maria Rita, "Santa chuva".

Mauro Chazanas said...

Alessandra, pessoal, boa tarde. Alessandra, enquanto voce não me botar pra fora eu vou ficando - cara chato, né? - e ainda por cima cantando. Alessandra, deixa falar uma coisa? Quando voce diz "nós", referindo-se às mulheres, tem certeza desse "nós"? A impressão que tenho é que as mulheres, ou melhor, muitas mulheres, são tão ou mais machistas que os homens. Os colegas de auditório vão confirmar ou desmentir, sei lá, mas é gente é ator. A gente quer fazer bem nosso papel. A platéia, o mundo, não quer, não admite, não aceita que a gente chore. Imagine passar imagem de fragilidade para uma mulher! O que ela iria pensar?! Nem todo mundo é Agassi, a gente é só a gente. E à gente nem sempre é dado o direito de chorar. Só em segredo. Que nem eu, ouvindo agora "Belle de Jour" , com Alceu Valença. Excelente bom fim de tarde e melhor começo de noite pra todas e todos.

israel peniza said...

oi alessandra, foi muito emocionante mesmo,a despedida do agassi, ontem eu tava vendo a espn brasil , um homenagem a ele no bate bola, lá eles falaram daquele lance de raspar o cabelo por causa da mãe e da irmã com cancer vc viu?
agora tirando o agassi, o último que sobrou com um estilo, podemos dizer " contra o sistema " é o guga, apesar dele não jogar a um bom tempo........
ps- homem chora sim, e te falo um coisa , as alegrias, e tristezas do esporte , são o que me fazem chorar com mais facilidade, é só rever aquela imagem do robson caetano em 1984.........ou o gol do rei raí no japão..........

Anonymous said...

Lembro do jogo de despedida do Pelé,Santos e Cosmos(EUA).Da primeira despedida do Emerson (EUA)1980.A ultima do Piquet ,a panca (EUA)1992, em 93 voltou só pra exorcizar a pista.
Lembro do paulista de 1977, esse eu chorei muito, viva o Basilio!
Lembro do boneco Falcon que ganhei ,era um paraquedista, joguei pro alto e este caiu eternamente em cima do telhado da vizinha, nunca vou esquecer.
Lembro dos treinos do GP da Belgica de 1982,estava na sala ,e quando uma chamada extraordinaria da TV dava uma noticia que chocaria toda uma geração de amantes do automobilismo.
A vida é longa e rapida, e como são importantes os momentos, as vezes nos fazem chorar, as vezes não.
Jonny'O

Alessandra Alves said...

daniel: pois é, opinião polêmica a minha, ensejada pela sua colocação de que agassi começou a jogar por imposição do pai. veja se concorda: em alguns momentos, os pais devem se impor aos filhos. sou contra toda forma de ditadura e opressão, mas vejo alguns pais e mães abdicarem de seus papéis de orientar, preferindo a omissão. por trás de um discurso aparentemente democrático e libertador - "cada um deve fazer o que gosta", "todo mundo deve ir atrás de seu sonho" e outras frases prontas do gênero - acho que se esconde uma imensa preguiça. confrontar-se com o filho é algo penoso e, sobretudo, que dá trabalho. não conheço a circunstância na qual o sr. agassi obrigou o filho a jogar tênis - talvez ele fosse um pai ganancioso, ávido por ter um filho milionário, talvez apenas visse o potencial do garoto e achasse que seria um desperdício não desenvolvê-lo. o fato é que hoje, provavelmente, agassi é grato pela obstinação do pai. quando meu filho, que tem seis anos, eventualmente contesta minhas decisões, encerro a questão sempre com a mesma frase: "se fosse para você me dizer o que fazer, e não o contrário, você não seria meu filho, mas meu pai."

zeca: foi de dar nó na garganta, né? e, por favor, fiquem você e todos à vontade para linkar o que quiserem por aqui. mi casa, su casa.

mauro: boa instigação! quando eu digo que "amamos suas lágrimas", na verdade não me refiro apenas às mulheres, não, mas a todas as pessoas de bom senso, sensíveis e maduras. como digo a seguir, no post, "que nem homens nem mulheres tenham a prerrogativa do choro. nem a do não-choro". vou contar uma historinha breve. em 1998 (acho...), quando frank sinatra morreu, a rádio bandeirantes, logo pela manhã, entrevistou o crítico de música zuza homem de mello. além de ser grande conhecedor de música norte-americana, zuza morou e estudou em nova york nos anos 50/60, vivenciou o auge da fama e da carreira de sinatra. em dado momento da entrevista, zuza se lembrou de alguma passagem de sinatra e se pôs a chorar, pedindo desculpas, acusando-se muito emocionado. no mesmo instante, o apresentador josé paulo de andrade louvou a sensibilidade do crítico e agradeceu por aquele momento de emoção, por suas lágrimas, enfim.

quando você diz que o mundo não aceita lágrimas masculinas, e que essa rejeição parte, sobretudo, de um machismo das próprias mulheres, contesto. acho que esse estigma é muito mais forte entre vocês, homens. duas situações: você tem um desentendimento qualquer com sua esposa/namorada e se magoa a ponto de chorar. tenho a impressão de que ela talvez até se assuste com essa reação, mas dificilmente não vai se sensibilizar e talvez até refluir na agressão. agora, imagine outra circunstância. você tem uma discussão com seu chefe, no meio de seus colegas, a maioria formada por homens. você se magoa a ponto de ter vontade de chorar. o que aconteceria se as lágrimas rolassem? aqui, sim, é muito provável que eles lhe estampassem o selo de frágil, instável, incapaz, fraco etc. sei não, mas acho que as mulheres estão mais prontas a entender e aceitar essa manifestação emotiva dos homens que os próprios homens.

israel: que pena, não vi essa homenagem, não, mas essa história de ele raspar o cabelo em solidariedade à mãe e à irmã me fez gostar ainda mais do agassi.

pois é, o guga talvez fosse esse sucessor, mas não tenho grandes esperanças em vê-lo reerguer sua carreira. temo pelo físico do nosso guga, sinceramente. acho que ele se comprometeu demais.

você tocou num ponto interessante, até para ligar com o que o mauro falou. homens chorando de emoção por causa do esporte não costumam causar estranheza. mas vai chorar em filme romântico! bah, convenções bestas!

só para não deixar passar: desde o primeiro post sobre agassi, esqueci de comentar algo que me encanta no tênis. é praticamente impossível haver injustiça nesse esporte. eu nunca vi nenhuma partida que terminasse com a vitória de quem jogou pior. isso é a antítese do futebol, que vira e mexe coroa um time mais fraco, que só venceu porque contou com a sorte. por isso também que o futebol tanto me encanta...

Alessandra Alves said...

jonny´o: também vivenciei quase todas essas. a quebra do tabu, em 77, deixou em mim imagens inesquecíveis, como a da multidão invadindo o gramado e a polícia fazendo um cordão humano para varrer a turba do campo. e ainda ecoa em meus ouvidos a cantoria na madrugada (eta, eta, eta, pau no cu da ponte preta). hahahahahaha

Anonymous said...

Hahahahaha..........
Putz!!!
Essa foi quase on line!!
Chutou o pau da barraca!!!!!
Enfiou o pé na Jaca!
É isso ai , foi assim mesmo!
hahaha!!
Chorei de rir!
Jonny'O

Mario Lago said...

Alessandra, este telespectador vem a público confessar que ao final do tape dos melhores momentos da partida final, levantou-se da cadeira, aplaudiu e chorou em homenagem a mais um talentoso artista em retorno ao lar após tanto encantar... um brinde à agassi!

André Gonçalves said...

Eu sempre torci pelo Agassi, até pelo fato de ele ser o único grande tenista com o meu nome no circuito. rs rs
Emocionante, mesmo.

Augusto Sobral e Silva said...

Mulheres são "livres" para chorar. Os homens não.

Para exemplificar, é normal observar amigas andando de mãos dadas. Mas completamente anormal (pelo menos ao padrão da sociedade atual) observar amigos fazendo o mesmo. Com o choro acontece o mesmo.

Alessandra Alves said...

jonny´o: por baixo dessa fina jovem senhora, mora uma maloqueira, sim, senhor!

mario: palmas para agassi e para suas lágrimas. mas queremos saber: e afinal, saiu o jantar na semana passada?

andré: vai ver que simpatizo com o agassi também pelo nome. como eu, ele também é AA.

augusto: difícil quebrar esses paradigmas, né?! quem começa?

Alexandre Gossn said...

Nesse mundo de engodos, é preciso estar atento para não sermos vítimas de embustes televisivos e midiaticos. No entanto, neste mesmo mundo igualmente embrutecido, emburrecido e desumanizado (no sentido de pouca formação humanística), é preciso sopesarmos com cautela as informações, sob pena de não tomarmos por embustes os atos mais puros. Nem sempre o tolo apregoa tolices, bem como nem sempre o gênio arrota pérolas de brilhantismo. A coluna da Alessandra sobre o Schumacher e o Agassi me fez recordar o filme ganhador do oscar de 2.006 - CRASH - no limite. Porque ambas abordam a mesma questão: o ser humano realmente não é dotado de grande originalidade no momento de agir nas grandes ocasiões e acasos da vida. E mesmo assim, podemos nos emocionar. Não devemos nos vergar às pieguices globais (mexicanas?), mas é preciso que fiquemos alertas: nem toda lágrima vertida é de crocodilo, pois assim pensando, talvez sejamos nós os crocodilos...

Pedro Alexandre Sanches said...

aaaah, não consigo não trazer à mente uma música que eu amo, e que foi composta pelo (vixe!) gonzaguinha, e que era cantada pelo (vixe!) fagner: "um homem também chora, menina morena/ também deseja colo, palavras amenas"... chama-se "guerreiro menino", a música...

Anonymous said...

Alessandra Alves,você me emocionou com seu texto.Fantástico.

Beijo grande

Carlos Miguel

Alessandra Alves said...

alexandre: eu já estava a fim de ver esse filme. agora, então, que estreou no telecine e com sua indicação, vou nessa. olha, a questão da falta de originalidade do ser humano eu não acho um demérito, não. aliás, já escrevi sobre isso e gente muito mais gabaritada que eu já escreveu também. o filósofo ortega y gasset diz algo mais ou menos assim: se tivesse que partir sempre do zero, o homem estaria jogando fora seu grande diferencial em relação às outras espécies animais, que é de aprender com o passado. pleitear a originalidade seria pleitear ser como os macacos. acho que isso também serve para a gente baixar nossa bola de vez em quando, de se achar eventulmente genial. pouco do que pensamos e concluímos não foi antes pensado e concluído por alguém...

pedro: pois eu fiquei com outra música na cabeça, justamente "homem não chora", do frejat. aliás, tadinho do fagner. sabe aquela frase "tudo na vida tem um lado bom"? eu sempre costumo antecedê-la de um "tirando os LPs do fagner". hahahaha

carlos miguel: obrigada!

Alexandre Gossn said...

Alessandra:
Ortega realmente tinha razão,e para seguir na esteira de citações pops (rs), lembro que há uma música do Barão Vermelho, se eu não me engano que diz algo como "todos se parecem na dor"... não sou bom para recordar letras, mas é algo do gênero. Acerca do filme CRASH, eu recomendo. Excepcional, e estou certo de que o filme será muito bem aproveitado por você, pois é nítido que você é uma pessoa dotada de muita sensibilidade. O filme é um tapa na cara daqueles que dividem os humanos em bons e maus, ou durões e sensíveis, ou mesmo certos e errados. Não que não existam pessoas "mais íntegras que outras", mas o que o filme tenta nos recordar (e o choro de Agassi e quiçá o do porvir de Schumacher) é que mesmo tão diferentes, em certos momentos da vida, todos agem de maneira igual. De Buda a Hittler, todos são humanos. Encerro, dizendo que tem sido um enorme prazer participar deste espaço. Parabéns!

Marcus said...

Só agora li o seu texto. Queria apenas dizer que o achei lindo. Muito emocionante.

Pedro Alexandre Sanches said...

posso confessar que eu ADORO o fagner?, hihihihi... prontoconfessei!...

Mario Lago said...

eh! eh! alessandra, saiu sim. e ficou bom pacas!!!!!!

Ricardo said...

É isso tudo!