Friday, April 07, 2006

Teto de vidro

Tenho dito por aqui que sou uma incorrigível otimista e espero sempre cultivar essa característica. Um dos aspectos mais positivos trazidos pela crise de ética instalada no Brasil, especialmente do meio de 2005 para cá, foi na minha opinião a oportunidade da reflexão e do debate.

Foi como se o PT, pilhado em flagrante, determinasse a queda do último bastião de honestidade da nação. Não é o meu caso, mas muita gente que nunca tinha votado no PT acreditou no partido, nas últimas eleições presidenciais, pela aura de ética que seus candidatos sempre fizeram questão de transparecer.

Destruída essa ilusão, parece-me que parte da sociedade caiu em uma desesperança sem precedentes, daí a quantidade tão grande de intenções ao voto nulo, como as que tenho ouvido aqui e acolá. Mas uma parte da nação me parece disposta a olhar a situação por outro ângulo.

Os outros roubavam e mentiam, esses roubam e mentem. Não presta ninguém. Eu também não presto? Tenho sido ético e honesto em todos os momentos da minha vida? Desonesto é só o político que desvia dinheiro público para negociações escusas de bastidor?

E a empresa que eu abri no município vizinho e que me permite recolher menos impostos, ainda que eu não atue lá?
E a nota "espelhada", que preencho com valor correto para o cliente e subfaturada para o controle fiscal?
E o carro que eu emplaquei numa cidade do sul do país, para me locupletar de uma taxa de licenciamento menor e para escapar de eventuais multas?
E o material de escritório que subtraio dia a dia do local onde trabalho?
E a fita isolante maquiando a placa do carro, para que ele não seja identificado nos radares da cidade?

Os políticos erraram, erram ainda e continuarão errando enquanto refletirem os hábitos, vícios e erros da sociedade que os elege.

Acerca do tema, escreveu a psicóloga Rosely Sayão, com quem cheguei a cruzar na redação da Folha, muitos anos atrás, e ela certamente não se lembra de mim (mas eu a tenho em altíssima conta, pela lucidez das posições, pelo tanto que ela me ilumina e inspira na criação do meu filho).

Recomendo entusiasticamente a leitura deste artigo, publicado na edição de ontem do caderno Equilíbrio, da Folha de S. Paulo.

17 comments:

Alexandre Carvalho said...

Excelente artigo. Fico revoltado quando vejo alguém trafegando no acostamento, jogo praga (tomara que algum radar pegue e custe $500 pro desgraçado). Mas já passei em sinal vermelho e já não pedi nota fiscal. Também já cometi crimes. Será que a corrupção é contagiante?

denise said...

hmm... o link da folha não tá abrindo....
ai, essa cosa do incorruptível tem cada ramificação... lembro qdo eu era pequena e o primeiro filme q eu assisti foi "Os Trapalhões no Auto da Compadecida", e a Fernanda Montenegro ficava julgando os pecados e no final todo mundo era culpado, ninguém era digno de entrar no "céu" porque não era possível que ngm tivesse sequer uma falta.. fiquei soterradíssima na minha meninice naquela cadeira de cinema (hahah), pq eu também, mesmo c/ a pouca idade, já tinha mentido pra mãe que a mana tinha feito alguma coisa que na real era eu, & etcs... Claro que se existe alguma regra pralguma coisa e a ação que a gente fizer for contrária estaremos errados, mas às vezes algumas coisas vão ficando default, e tbm há que se questionar algum tipo de REAL pertinência de alguma 'lei', assim.
é um assuntãooo!!! =O

Véio Gagá - BH said...

Alê, vou ser breve, só pra jogar lenha na fogueira que logo se fará. Eu acho que, em regra, o brasileiro é (somos) um Macunaíma, um herói sem nenhum caráter.

Alessandra Alves said...

para quem não conseguir abrir o link, aí vai a íntegra do texto da rosely:

S.O.S. família

Que cidadania é essa?

Uma notícia, divulgada na última semana, precisa ser considerada, por pais e professores em especial, como tema de debates, conversas e reflexões, para trazer mais luz à educação que praticam e mais crítica às atitudes que tomam, como educadores que são.
O Ibope Opinião, em uma pesquisa realizada em todo o país, revela que 75% dos brasileiros admitem que, caso ocupassem cargos públicos, seriam capazes de cometer irregularidades. Mais: reconhecem também que cometem, de vez em quando, certas irregularidades na vida cotidiana, como sonegação de imposto, suborno para se livrar de multa de trânsito, compra de produtos piratas, falsificação de documentos etc. Creio que parar em fila dupla ou estacionar o carro em local proibido, para deixar ou pegar o filho na escola, também podem ser considerados atos ilícitos que já fazem parte do dia-a-dia de muitos brasileiros.
E o que significa isso? Que estamos pouco nos lixando para o bem-estar comum, para o outro. O que importa, realmente, é o bem-estar individual, o conforto pessoal.
Poucos se preocupam em reconhecer e respeitar o outro, quando há um interesse pessoal em jogo. Podemos constatar isso no trânsito, nas ruas, nos cinemas etc.
E pensar que, quando se trata de educação familiar e escolar, só para citar temas freqüentes em nossas conversas, adotamos, sem pestanejar, slogans do tipo "educação para a cidadania dos alunos", "socialização dos filhos" etc. Que cidadania é essa? O que entendemos por socializar?
Acreditamos, neste momento, que uma vida boa é a que podemos alcançar para cada um de nós e para a nossa família, não é verdade?
Se alguém tem pressa para chegar em casa no domingo, após um final de semana fora, não hesita em trafegar pelo acostamento para driblar o trânsito lento; se alguém quer muito assistir a um filme, e a fila para o cinema é grande, não vacila em solicitar a um conhecido, que está no início da fila, que compre suas entradas; se for preciso, poucos vacilam em usar o prestígio que têm com alguém para solicitar um privilégio.
Isso demonstra um desprezo imenso; um desdém em relação aos outros que trafegam pelas estradas respeitando as regras de trânsito; com os que aguardam na fila para comprar o seu ingresso; com os outros que conosco convivem nas relações sociais, enfim. Nessas horas, não nos damos conta de que esses outros são alguns de nós e de que nós somos outros também.
E se nós, adultos -que temos maturidade para escolher e arcar com nossas escolhas; que temos condição de avaliar a situação antes de agir; que temos chance de despender esforços para controlar nossas vontades e qualificação para conter nossos impulsos em benefício da vida em grupo-, não usamos essas nossas possibilidades, a não ser em benefício próprio, como podemos esperar que os mais novos sejam diferentes de nós?
Essa é uma boa hora para debatermos a respeito da ética e da moral, já que todos querem uma vida boa para os filhos e sabemos que essa realidade que vivemos não é boa para eles -agora ou num futuro próximo- nem para nós. Recentemente, li um texto que pode ajudar os educadores a refletir sobre isso: "Nos Labirintos da Moral", de Mario Sergio Cortella e Yves de La Taille (Papirus Editora).
Temos pago um preço alto pelas nossas ambições personalizadas. O desprezo pelos outros, que muitas de nossas ações e atitudes expressam, como algumas apontadas pela pesquisa citada, acaba se voltando contra nós mesmos, ou seja, o feitiço se volta contra o feiticeiro. Não é exatamente assim que a vida em sociedade atualmente se encontra?
Aliás, as relações sociais, que têm estado agressivas e violentas, têm servido de justificativa para muitos pais restringirem o âmbito de circulação de seus filhos. Já comentei aqui que crianças e jovens não andam mais pelas ruas das cidades. Pois agora, com os dados dessa pesquisa, fica mais difícil localizarmos essa violência nos outros, nesses estranhos. Ela está em nossas atitudes também. Prova incontestável disso são os problemas que condomínios verticais e horizontais enfrentam com seus próprios moradores, não é verdade?
Socializar nossos filhos significa introduzi-los na vida em grupo, e a vida em grupo exige a assimilação de valores morais fundamentais para a vida em sociedade. Isso significa viver com o outro de modo solidário, respeitoso e justo, assim como responsabilizar-se pelo exercício dos direitos e dos deveres sociais. Só respeitando o outro é que poderemos exigir o respeito recíproco. Mas não é assim que temos feito, tampouco ensinado.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

denise said...

valeu! :)
poisééé...

Alessandra Alves said...

pois é, pois é. alexandre, denise, vocês dois levantaram uma questão interessante. o alexandre pergunta se corrupção contagia, confessando o que todos devemos confessar: em algum momento da vida, burlamos leis e regras. e a denise foi fundo, no trauma de infância advindo... de um filme dos trapalhões! kakakaka, desculpe denise, mas essa vai mandar o renato aragão direto para o divã. mas note que entendo e respeito seu trauma: eu sou uma pessoa altamente traumatizada pela fábula da cigarra e da formiga, um dia eu conto isso.

anyway...

que bela enrascada nos metemos, não? passamos décadas tecendo loas à rebeldia, cultivando heróis cabeludos, ou que queimaram sutiãs em praça pública, e agora nos vemos perdidos nesse aparente vale tudo, no qual "quem pode mais chora menos", no qual aquele que não se locupleta, porque não viola regras, é trouxa, paspalho, mané, idiota.

tornou-se inválida a contestação, a subversão de antigos valores e regras? não, na minha opinião, porque a revolução cultural, hippies, maio de 68, beatles, tropicália, pílula anticoncepcional, tudo isso e outras coisas aconteceram para combater a tirania de hábitos e costumes ultrapassados, em grande medida restritivos às liberdades individuais (inclusive do pensar).

mas quando burlamos as regras e os hábitos do nosso país (de arrecadação fiscal a leis de trânsito, passando por toda sorte de abusos e pecadilhos do dia-a-dia), não estamos exercendo nossa rebeldia contra o tirano da vez. estamos nos colocando em uma posição de privilégio, diante de um grupo de iguais, arvorando-nos o direito de tirar vantagem de uma regra vigente, um estado de coisas que, afinal, foi constituído democraticamente.

a lei é injusta, a carga tributária é abusiva? há mecanismos democráticos para combatê-las. um deles é o voto. o outro é a participação ativa na vida social, política e até mesmo parlamentar. quem de nós tem o hábito de dialogar com o deputado em que votou nas últimas eleições? ou com qualquer deputado, vereador, com o sub-prefeito de sua região? quem de nós sabe que os gabinetes desses nossos representantes estão equipados para receber queixas, comentários, idéias e sugestões do cidadão?

mas retomo a colocação da denise. é mesmo um tanto angustiante pensar que devemos ser perfeitos e que nos aguarda o fogo do inferno "só" porque afogamos formiguinhas na infância. (mas, denise, vem cá: no auto da compadecida original, nossa senhora não faz justamente o contrário, deixando todo mundo entrar no céu porque todo mundo tinha justificativas para seus erros? ou estou me agarrando nas migalhas da minha esperança de ser salva do coisa ruim?!)

visão muito pessoal minha: não somos nem seremos perfeitos, somos humanos, com todas as dores e delícias de sermos imperfeitos, falíveis etc., mas temos de nos manter vigilantes para que, pelo menos, nossos pecados (pecadilhos, pecados mortais) atinjam o menor número possível de semelhantes, e na menor intensidade possível. e isso eu acho que tem muito a ver com respeito, cidadania etc.

pegando carona no exemplo do alexandre: o cara que trafega pelo acostamento. além de pisar na cabeça dos outros motoristas, dizendo a cada um alguma coisa como "fiquem aí, seus tontos, que eu vou me mandar", ele no mínimo corre o risco de prejudicar uma viatura, uma ambulância que efetivamente precise trafegar naquela faixa auxiliar para atender alguém. mas (lá vem a otimista de novo!) eu vejo a atitude dele como uma excelente oportunidade de aprendizado para a coletividade. a atitude arrogante e coalhada de soberba dele pode servir de exemplo para um pai ou mãe, que esteja com seus filhos no carro, e tenha a oportunidade de falar: "lá vai um apressadinho, o dono da estrada, o motorista mais importante do congestinamento". se servir para plantar a consciência em um jovem em formação, que seja, até a atitude inadequada tem sua serventia, concordam?

agora, você, véio gagá, vai me fazer refletir um pouco mais (bela instigada esse macunaíma).

Daniel Carlos Nava said...

Não estou defendendo estas ações pelas pessoas, mas se eu andar pelo acostamento e for pego, sou multado. Se ponho fita isolante na placa, idem. Se "espelho" minha nota fiscal e sou pego pela receita, posso até ir preso. Ou seja, são ações em que corro um risco de ser penalizado.
Se o deputado admite ter recebido R$400.000.00 é absolvido com direito a dança. Lama por todos os lado do presidente e ninguém investiga com medo de que ele se suje.
O Brasil só tem duas saídas, mesmo. O aeroporto ou apagar tudo e começar de novo. E espero que se formos recomeçar, nos espelhemos nos desenvolvidos, e não nos pobres coitados. Até porque nunca colonizamos ninguém para querer ser uma França.

Alessandra Alves said...

daniel, nós não devemos cometer esses atos ilícitos porque podemos ser punidos ou porque eles são imorais e/ou amorais?

a impunidade do cidadão que burla o fisco e é salvo pela ineficiência do sistema de fiscalização é da mesma natureza da impunidade do deputado, salvo pela ineficiência do sistema político. o que retomo é: o sistema político é produto do VOTO.

Daniel Carlos Nava said...

Alessandra, não estava discutindo sobre a moralidade dos atos. Apenas que a maioria da população é tratada como de segunda classe. Quando pegos, infratações menores têm punição e as de grande vulto, se feitas pela turma do PT, nada. Como já disse no caso das invasões da Aracruz, um crime não justifica outro. Não tem essa de que não podemos fazer nada contra a corrupção enquanto existir uma pessoa que joga papel de bala no chão. Isso parece até conversa de malufista, tentando justificar o injustificável.

Gustavo Migli said...

Aproveitando a deixa do velho gagá: em regra, todas as pessoas do globo tem alguma matiz de Macunaíma....basta as circustãncias ajudarem para "aflorar" essa faceta até nos Suecos.

Gustavo Migli said...

Mas, apesar de tudo, ainda acredito que os desonestos são uma ilha rodeada de pessoas de boa índole. Os que burlam a lei, são minoria, pois todos tem a chance de ludibriar as convenções da sociedade a qualquer instante. Rodar pelo acostamento? são minoria, não creio que as demais pessoas não adotem o mesmo hábito apenas por temer a lei; falsificar notas, guardar lugar na fila....enfim, essas pequenas contravenções (sim, porquê corrupção ativa no governo, significa assasinato de milhares de pessoas carentes por tabela), são obra de uma parcela da população. Mesmo diante de um número tão expressivo da pesquisa do Ibope, devemos considerar as condições e os grupos sociais abordados nessa enquete....talvez o "sim" a corrupção, seja apenas uma resposta emotiva e cheia de desespernça diante do quadro sempre igual (cada vez pior na verdade) do cenário político. Talvez.....mas eu não vou atirar a primeira pedra...

P.s: R$18 milhões desviados de uma cidade de 22 mil habitantes....(Fantástico ontem), imagine-se o tamanho do rombo nos milhares de municípios desse nosso Brasil, todos os dias, toda hora....etc

Alessandra Alves said...

daniel, eu não disse que não devemos lutar contra a corrupção enquanto existir quem jogue papel de bala no chão, nem acho que um crime justifique outro, mas não consigo entender as ações humanas de outra maneira que não seja na base da causa e do efeito, ação e reação. punam-se os culpados, dêem-se exemplos, mas em âmbito geral e irrestrito.

gustavo, você antecipou e muito bem sintetizou algo que eu estava amadurecendo para comentar sobre a deixa macunaímica do véio gagá. certa vez, entrevistei um consultor de empresas que falou algo muito semelhante ao que você colocou.

empresas multinacionais, com sedes em países reputados por seu alto grau de "civilização", eventualmente se comportavam no Brasil com o mesmo grau de amoralidade de seus pares locais. questionei se não era mera questão de sobrevivência, ele não afastou a hipótese, mas ressaltou algo muito interessante. se a moral estivesse acima dos interesses econômicos, como faz crer a mítica em torno da propalada lisura (de nórdicos, orientais, europeus em geral), essas empresas teriam condições de impor uma nova lógica em seus mercados, uma vez que em grande medida atuavam quase como cartel (europeus e americanos na indústria automotiva, japoneses no mercado de eletrônicos etc.).

vale, então, aquele velho ditado: a ocasião faz o ladrão. fica evidente que o Brasil é um país moldado pelo hábito de burlar, adaptar e até ignorar leis e regras.

então cabe a pergunta: vamos viver eternamente na base do "jeitinho", do "rouba mas faz" ou vamos mudar tudo, a começar pelas atitudes cotidianas?

Alessandra Alves said...

gustavo, escrevemos simultaneamente e eu não pude responder sua segunda mensagem. eu concordo com você (sempre digo que sou uma eterna otimista) e, até por uma questão filófica/religiosa, acredito que caminhamos para a depuração dos princípios morais. teremos cada vez melhos ilhas de desonestos cercadas por multidões de honestos (toc-toc-toc)!

Gustavo Migli said...

Deus nos ouça (que pretensão) Alessandra, de algum modo, tudo irá melhorar com o passar do tempo - não apenas no contexto abordado - mas em tudo que envolve a caminhada da humanidade.

mario lago said...

Êta lugar bom!!!!!!!! Não falta polêmica, hé! hé!
Nossa carga tributária é vil!
Nossa distribuição de benefícios sociais -não estou falando de assistencialismo esmola-, é torpe!
A indústria da multa está entre as grandes falcatruas nacionais!
Então, sem fazer apologia a qualquer espécie de delito como a sonegação fiscal ou a adulteração de sinais de ideniticação, prego mesmo é a desobediência civil.
Agora, furtar material de escritório não vale né! Aí é sacanagem, coisa de caráter. O único crime de apropriação do alheio que acredito deva ser aceito ou perdoado é o famélico, vinculado a fome própria ou de terceiro, e somente para saciá-la. Valeu!!!!

Alexei said...

Eu acho que sou até a favor do "derruba a casa podre e constrói de novo"... ou seja, acabe o Brasil, divida-se em países menores, e que cada um se vire.
Pelo menos a chance de construir de novo existiria.

Elias Jr. said...

Acho que a grande culpa disso tudo, infelizmente é do povo, que hj em dia só se preucupa em adiantar o seu lado esqucendo que nós vivemos numa sociedade caótica que só vai algum dia talvez mudar no dia que houver uma revolução,de preferençia sangrenta......
Assim o povo vai voltar a ter um senso de nacionalismo que hj em dia só existe quando falamos de futebol.