Thursday, June 08, 2006

Bola de cristal

A Copa do Mundo começa amanhã, na Alemanha, e o clamor por "previsões" se espalha. Desde o tradicional "bolão da firma" até análises acuradas de especialistas da bola, todo mundo dá seu palpite quanto a favoritos para vencer o torneio. Se todos já o fizeram, eu é que não faço, mas exerço minha porção vidente de outra forma.

Vislumbro, desde já, uma série de referências a Telê Santana, recém-falecido. Para dar uma mãozinha a locutores e comentaristas, ofereço aqui uma coleção de frases prontinhas, adaptáveis de acordo com a ocasião.

Se o Brasil for campeão, jogando bonito - "Essa Copa é sua Telê, você merecia ser o técnico dessa equipe, que mostrou ao mundo como ainda se pode ser campeão apostando no futebol arte!"

Se o Brasil for campeão, jogando feio - "Essa Copa é sua Telê, vencemos com um esquema fechado, retrancado, marcador, mas é na genialidade do jogador brasileiro, algo que você tanto valorizou, que fazemos a diferença!"

Se o Brasil não for campeão, jogando bonito - "Perdemos a Copa, Telê, mas encantamos o mundo, como seu time de 82, no Sarriá. Não levamos o hexa, mas talvez sejamos mais campeões que os vencedores, com nossa alegria, nosso jeito moleque!"

Se o Brasil não for campeão, jogando feio - "Perdemos a Copa, Telê, talvez porque tenhamos insistido em jogar duro, fechado, retrancado. Tivéssemos aprendido suas lições, velho mestre, e nosso futebol-arte hoje talvez nos desse outro título..."

12 comments:

Daniel Carlos Nava said...

Não sei se foi a sua intenção, mas me parece uma crítica (que já fiz várias vezes em conversas com amigos) à hipervalorização de Telê Santana.
Sei que vou ser crucificado, mas sempre achei ele um bom técnico, não excepcional.
Perdeu a copa de 82 com uma geração que não tinha como perder e ganhou com o sao paulo jogando retrancado e no contra-ataque.

Alessandra Alves said...

daniel, é mais um sarcasmo que uma crítica, e mais à mídia que a telê. a mídia vive de uma mesmice, de um óbvio tão descarado que a tarefa mais fácil é adivinhar reações desse tipo que listei no post. quer dizer: qualquer que seja o cenário, alguém vai lembrar do telê, como se ele fosse o parâmetro máximo do "futebol-arte".

eu também já disse algumas vezes que a louvação a telê às vezes me parece um pouco de mea culpa da imprensa. não sei se você lembra desse tempo, da copa de 82, mas me marcou porque foi exatamento o período que eu comecei a me interessar por futebol. o telê, como todo técnico, era criticado à beça pela imprensa esportiva. era "teimoso", "turrão", nas palavras da crônica esportiva, e chegou a inspirar até um personagem cômico do jô soares, o zé da galera, que falava com o técnico de um orelhão e pedia "bota ponta, telê".

não foi só a opção por um time com apenas dois atacantes que era criticada. lembro das críticas à exclusão do reinaldo, atacante revelado pelo guarani, e do posicionamento do serginho chulapa naquele time de 82, que jogava deslocado em relação à sua função original, de centroavante "ortodoxo".

aquela seleção de fato me marcou muito. tínhamos um "quadrado mágico", como hoje, tínhamos muitos jogadores habilidosos no time, como hoje. espero, sinceramente, que o final da história não seja o mesmo.

Gustavo said...

Brou,

Já imaginou pegar as opiniões de alguns colunistas agora no início da Copa e comparar com o texto no final da Copa?

Alessandra Alves said...

Gu,

ótima idéia! Vou ver se consigo fazer uma coletânea.

bjs

mario lago said...

- buenas dona alessandra!!!!
já está 2x1 o jogo inaugural. fim do primeiro tempo. dá-lhe costa rica!!!!!
- ontem, vc, tendo postado as 11:23 am, matou o furo jornalistico de sua colega milena ceribele no globo esporte, cuja matéria se referiu, especificamente, a homenagem a telê que provavelmente cafú fará em caso de hexa. batendo a globo, ein garota!!!
- brincadeira a parte, se tributo houver, sejamos sinceros vai, o telê os merece. homem sério, ético, talentoso, e, é verdade, turrão, pão duro e teimoso, muuuuiiito teimoso!!!
- põe ponta, telê!!!! gritava jô soares ao orelhão travestido de zé da galera. e a nação concordava. e ele não colocava. de jeito nenhum!!!
- deixou renato gaúcho de fora da copa de 86 em plena forma, perdendo a maior força física que tinhamos para jogar ao sol de meio dia no méxico. leandro, lateral craque, solidário (e culpado pelo atraso), disse que não iria sem renato... e ele não voltou atrás. esse era telê!
- seja como for, quando a certidão é de óbito, o ofício é de santo...hé! hé! hé!
- valeu!!!!!!

Paula Pacheco said...

Oi, Alê,

Agora que finalmente o PC está em ordem vamos ver se consigo comentar com mais freqüência. Eu leio você sempre, mas como estava travando muito nem me atrevia a postar nada porque era só clicar 'enviar' em qualquer formulário e o PC desligava sozinho... risos...

Bom, em relação ao Telê você sabe que, como toda e qualquer boa tri-campeã mundial (hehehe) eu sou suspeita pra falar... mas sou futebolisticamente 'devota incondicional de São Telê' há muito tempo, mesmo antes da fase de ouro do tricolor e do bi. Explico:

Não sei por que, mas sempre tive uma 'queda' pelo velhinho (em 82, aos 13 anos, para mim ele parecia um velhinho... risos... e essa imagem de simpático-ainda-que-brabo vovô jamais se desfez na minha cabeça). Durante a copa de 82, também para mim o divisor de águas entre o 'futebol não é pra mulher' e a paixão ensandecida, lembro de ter tido uma briga homérica com meu pai e tio, ambos xingando o Telê de burro e afins e eu, com a convicção e o rigor de quem não entendia absolutamente nada de futebol, defendendo meu 'vovô' com unhas e dentes porque 'ele sabia o que fazia senão não seria o técnico' (eu sei, heresia passível de cadeira elétrica, mas por favor considere as atenuantes tais como a ingenuidade e a idade da ré). Meu pai até hoje nega, meu tio dá risada.

Com o tempo veio um pouco de conhecimento técnico e a ilusão da perfeição do velhinho terminou. Mas você sabe que toda paixão deixa vestígios, e a simpatia jamais morreu. A vinda dele pro tricolor foi a glória, a ainda que inconsciente certeza de que dali em diante 'conosco ninguém podosco'... e, querendo ou não, nunca foi tão fácil torcer por um time quanto na época foi para o tricolor, me lembro até de um adesivo colado no vidro do automóvel do meu pai que dizia 'torcer para o tricolor é uma grande moleza' (yes, by Milton Neves... risos... de marketing ele sempre manjou muuuuuuuito).

E para variar o que era um simples comentário virou um testamento... acho que sei porque desisti antes de começar da minha carreira no jornalismo! Enfim, devaneios e grata homenagem ao mestre Telê à parte, são inegáveis tanto a importância dele para o chamado futebol-arte quanto a indefectível transformação pela mídia de qualquer defunto em autoridade absoluta sobre o que quer que seja.

Beijão pra você e em casa também.

Paula Pacheco said...

PS - O que você achou do novo artilheiro da Inglaterra? ...risos...

Guibarranco said...

ALESSANDRA!!!!!
Agora descobrimos tudo!!!!
VOCÊ É A REDATORA DAS FRASES "MARAVILHOSAS" DO GALVÃO!!!!
Quem diria....
hahahahahahahahahahahahaha
Beijo grande!

Alessandra Alves said...

mario: a obviedade é tanta que não posso me vangloriar de tal "furo jornalístico". você lembrou o episódio do renato gaúcho na copa de 86, muito bem lembrado!

aquele episódio merece ser revisitado, não tanto pela teimosia do técnico em deixar um senhor atacante de fora (porque aí acho que entramos naquelas discussões protagonizadas por um personagem safadíssimo, o "se"), mas principalmente pela postura do leandro, que na época foi malhado feito judas. desequilibrado foi o mínimo que se falou do lateral, mas outras insinuações não faltaram. grande idéia, quem sabe não retomo isso? quem sabe não lembramos desse caso e refletimos sobre um exemplo de ética, lealdade, honestidade, tão raro no nosso mundo, tão raro no futebol...

paula: os são-paulinos "devem" muito a telê, sem dúvida, mas telê também devia muito ao são paulo. foi a passagem vitoriosa do telê pelo tricolor que o reabilitou para a história do futebol brasileiro. as máculas de duas copas perdidas - em situações beirando a tragédia, é verdade - foram amenizadas pelas campanhas incontestáveis de 92 e 93 e o telê pôde consolidar essa última grande e vultosa vitória em sua carreira graças à confiança de um clube no qual os procedimentos são bem mais profissionais que nos outros, aqui no brasil.

repare que nenhum são-paulino abre a boca para falar de telê, embora se ouçam vozes dissonantes vindas de torcedores de outros times, como prova o daniel, inaugurando os comentários deste post. guardadas as proporções, eu vejo essa devoção dos são-paulinos a telê como a maior simpatia dos corintianos em relação ao parreira. a maioria da torcida brasileira tem grandes desconfianças em relação a parreira. ele ganhou uma copa, é certo, mas não perdeu aos olhos da maioria a fama de retranqueiro. os corintianos, depois da passagem vitoriosa de parreira pelo parque são jorge, aprenderam a admirar seu estilo e hoje, talvez, sejam o único sustentáculo popular ao treinador.

confesso: não foi fácil aprender a amar parreira. aqueles primeiros tempos, jogando "de ladinho", cansando e irritando adversários, para ganhar de magros placares, sempre na etapa complementar, ai que medo!

quanto ao gol contra de gamarra, que dó! ainda que ele hoje ostente uma camisa verde-esmeraldina, o paraguaio é, e provavelmente será por muito tempo, o melhor zagueiro que vi jogar no corinthians. não lhe quero mal, doeu em mim tamanho infortúnio (mas bem feito para a inglaterra, né?! precisar de um gol contra para ganhar do paraguai de 1 x 0?! que favorito é esse, gente?!)

Alessandra Alves said...

gui, em tempo: não sou eu quem escreve, não. se fosse, as frases seriam melhores. ou você não bota fé?

Makely said...

Oi Alessandra, eu tinha 7 anos na copa de 82 e, como não sou sãopaulino, nunca perdoei o Telê por não nos ter dado aquele título. Ainda acho que o Reinaldo com as duas pernas machucadas era melhor que o Serginho Chulapa! Mas havia também outras opções... Curioso é que Telê barrou o Renato Gaúcho e o Leandro por uma suposta fuga da concentração para uma farra. Resquícios do puritanismo mineiro no nosso técnico-arte? E agora, na recente fuga dos jogadores para uma boate em Lucerna, Parreira não só disse para a imprensa que cada um faz o que bem entender na folga, como disse também que sexo é bom para os jogadores. Talvez tenha dito isso não porque seja mais liberal, mas porque sabe da nossa tradição promíscua em campeonatos internacionais. Não foi assim que Garrincha arrumou um filho sueco? E as escapulidas de Pelé?Antigamente a coisa era institucional, os médicos da seleção iam até as "boates" examinar e selecionar as mulheres para os brasileiros. Hoje talvez haja menos hipocrisia, ou será que não?

Alessandra Alves said...

makely: muito bem apontado. antes, só por baixo do pano. será que se renato e leandro tivessem conseguido fazer tudo na surdina a coisa teria tomado o rumo que tomou? pode ser que não. infelizmente, o futebol é um campo fértil para a hipocrisia, o preconceito, o machismo, o sexismo e outros ismos que me chateiam bastante.