
Desculpem a insistência no tema, mas estou mesmo sensibilizada com a aposentadoria de Andre Agassi. Os anos e a brutalidade do mundo vão se encarregando de endurecer nossos corações juvenis e chegamos à maturidade com tiques de ceticismo. Às vezes, nada parece sincero. Tudo pose, tudo fake, tudo feito para a TV. Mas, sei lá, Agassi me derrubou. Talvez por ter exatamente a mesma idade que eu, o norte-americano, ao dar adeus às quadras, me bateu de leve no ombro e cochichou: “é, mana, você está ficando velha.”
Agassi não encerrou sua carreira no auge da forma. Portanto, poucos apostariam que ele se despediria do tênis conquistando mais um título, como fez Pete Sampras. Logo, cada uma das três partidas que disputou no Aberto dos Estados Unidos tinha potencial para ser a última. A primeira, contra o romeno Andrei Pavel, não foi exatamente fácil. Agassi perdeu o primeiro set e venceu os três seguintes. A segunda, contra o cipriota Marcos Baghdatis, foi de arrancar o couro. Jogo com mais de três horas, decidido em cinco sets. Foi demais para o veterano.
Ontem, dia 3 de setembro, os cacos de Agassi entraram na quadra para enfrentar o alemão Benjamin Becker, que até agora só figura na história do tênis por ter vencido a última partida disputada pelo norte-americano. Esse Becker não tem nada a ver com o Boris, número 1 que dividiu glórias e títulos com Ivan Lendl nos anos 80. Só apareceu para ser o outro, a sombra, o J. Pinto Fernandes da história.
Drummond não escreveria sobre a derradeira partida de Agassi, um 3 a 1 qualquer, como tantos. Agassi perdeu, encaminhou-se para a rede, como pede a etiqueta tenística, cumprimentou o vencedor, foi para sua cadeira, sentou-se e começou a chorar. Talvez nessa hora, o poeta mineiro se animasse. A platéia estava lá para isso mesmo, por isso se levantou inteira e despejou-lhe palmas, gritos, vivas e mais lágrimas. Talvez nenhum espectador lá estivesse para ver a vitória, mas para presenciar a história. E a história só se faria com a derrota. Um bando de urubus, na verdade nua e crua.
Agassi, como era de se esperar, pegou o microfone e dirigiu à turba o discurso guardado na mente havia alguns meses. Palavras sem originalidade, juras de amor e gratidão. Poderia até soar fake, não fossem os soluços entrecortando a fala. E as lágrimas escorrendo, e aquela fisionomia de alegria triste que marca o ser humano nas horas cruciais. Aquelas horas estanques que determinam o nada será como antes. Casamento, formatura, despedida. Por mais aguardado o momento, por mais alvissareiro o futuro, é difícil levantar a âncora do passado. Alegria triste.
Ah, se os homens soubessem como amamos suas lágrimas...
O quanto ficam mais humanos, mais sensíveis, mais acessíveis, mais ternos, mais doces. Não, não queremos manteigas derretidas, bezerros desmamados, histéricos descontrolados. Não queremos e não seremos cataratas instantâneas a cada emoção ou contrariedade. Que nem homens nem mulheres tenham a prerrogativa do choro. Nem a do não-choro. Não sejamos modelos. Sem essa de mulher chora à toa. Nada de homem não chora. Homem não chora. Quem chora é gente.