Monday, March 20, 2006

Assino embaixo

A coluna "Politicamente Responsáveis", escrita pela cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora Vange Leonel é um primor de coerência e concisão sobre o tema e, sem tirar nem pôr, representa também a minha opinião.

O original foi publicado na edição do dia 12 de março, na Revista da Folha, e a íntegra pode ser lida nesse link abaixo:

http://vangeleonel.blogspot.com/

Vamos ao debate?

40 comments:

Pedro Alexandre Sanches said...

vamos! (quem começa?, hahaha)

Alessandra Alves said...

eu começo! (aqui, não tenho receio em ser "a moça feia que debruçou na janela" hahahahaha - piadinha para habitués do blog do pas.)

eu estava esperando a vange postar essa coluna no blog dela porque, quando li o original na revista, fiz algo que não fazia havia muito tempo: arrancar uma página para guardar. no mesmo instante em que fiz isso, me achei uma tolinha, porque sabia que logo isso viria para a web e eu poderia guardar virtualmente, mas sou uma romântica incorrigível que ainda lê revistas e jornais de papel.

vou começar comentando duas coisas sobre esse tema. a primeira é de caráter pragmático, remetendo a uma coisa que aconteceu na minha família. tenho um filho de cinco anos (quase seis) e ele freqüenta uma escola bastante preocupada com essa formação politicamente responsável.

confesso que fiquei no limite entre fazer um comentário jocoso e o silêncio quando ele chegou em casa cantando "não atire o pau no gato tô, porque isso sô, não se faz...". mas vi o lado mais importante desse conceito, o de não introjetar agressão, violência e desrespeito a outro ser vivo como sendo uma coisa normal.

daí me lembrei da minha própria infância, e de como me doía, levando às lágrimas, ouvir a fábula da cigarra e da formiga, e como eu tinha ódio daquela formiga CDF que humilhava a cigarra.

no começo deste ano, como nos anteriores, comprei para meu filho o livro de leitura da escola, para uma atividade que eles chamam de "ciranda do livro": cada criança compra um livro e leva para casa, a cada semana, o livro de um colega para ler. quando me vi diante das opções para a turma do pré, de cara me interessei por um chamado "a verdadeira história dos três porquinhos". é a velha fábula, mas contada do ponto de vista... do lobo!

o livro, além de tudo, é escrito como se fosse uma grande reportagem, tem inclusive uma capa que remete a recortes de jornais, ou seja, perfeito para o filho de dois jornalistas.

"seu" lobo não deixa por menos. começa se defendendo da acusação de ter comido porquinhos "tão engraçadinhos" usando uma comparação de arrasar: "se todo mundo achasse cheeseburger 'uma gracinha', então você também seria uma fera perigosa". hahahahahaha, sensacional!

um dos motivos de eu ter escolhido o tal livro foi a recém-descoberta, pelo meu filho, de uma antiga fita VHS, com aqueles famigerados filmes da disney com histórias dos três porquinhos. vi o moleque rindo de engasgar com a "máquina de tortura" criada pelo porquinho CDF para obrigar o lobo a falar onde estavam seus outros irmãos. epa! doi-codi, não! tortura, nunca mais! e veio a calhar o livro do lobo.

da mesma maneira que não quero ver meu filho aceitando como normal a tortura aos animais (atirei o pau no gato-tô), também não quero que ele ache normal, engraçado, uma pândega torturar alguém até que ele fale a verdade (não, pelo menos pau de arara não tem na máquina do porquinho).

e aí chego ao que a vange fala no texto dela. uma piada, um dito popular, uma idéia repetida à exaustão tem graça até que ela se volte contra você. uma pessoa que já tenha sido torturada não vai achar graça nenhuma na passagem do lobo com o porquinho. o filho cuja mãe apanhou seguidamente do pai não vai achar graça na expressão "não sei porque bato, ela sabe porque apanha".

tem um outro aspecto, depois retomo.

Daniel Carlos Nava said...

Cara Alessandra, você chegou ao ponto que eu queria.
Concordo com o texto da Vange integralmente. O problema do politicamente correto é seu exagero, que geralmente aumenta as tensões e preconceitos entre diferentes.
Quanto a essa história do gato, nunca bati com um pau, nem soube de alguém que fizesse isso, devido à música, mas ainda dá pra aceitar as razões de quem mudou a letra.
O pior foi a música do boi da cara preta, que vi na Veja com essa do gato. Qual o problema do boi ter a cara preta? Nenhum. Mas mudar para boi do Piauí, primeiro, para quem conhece a letra original, da a impressão que ter a cara preta é algo ruim. Segundo, deixa implícito que o boi vai pegar porque é do Piauí.
Ou seja, onde não havia nenhum traço de preconceito, pode incluir dois.

Alessandra Alves said...

daniel, concordo com você. como não costumo ler a veja, e essa versão do boi da cara preta não chegou lá em casa, fiquei meio no ar. você lembra como era a letra? escreve aqui para mim, por favor!

Guilherme Barranco said...

Não sei por onde começo.... hehehehehehehe Confesso que eu era um crítico do politicamente correto, pois achava que era um conceito que na maioria das vezes era extremo, não permitia gradações e carregado de "rancor". Explico essa última palavra. Sempre me pareceu que o politicamente correto era alguém recalcado, que queria se defender, mas usava o meio incorreto. Porém, não dá pra ficar indiferente aos argumentos de quem sofre com a piada, idéia, música errada. Não dá pra ignorar a dor de quem é atingido e com o passar do tempo pude entender o poder do inconsciente, das mensagens assimiladas por repetição e do efeito nefasto que algumas coisas aparentemente bobas, podem gerar dentro de nós.
Isso porque muitas vezes a gente não percebe o conceito por trás da forma. A gente acha o "atirei o pau no gato" bonitinha, mas não percebe que é uma crueldade com o gato, que pode insitar a pessoa a torturar animais. E tortura é uma coisa inadmissível, independente de quem é o torturado.
Mas uma coisa ainda me pega, e o Daniel expôs muito bem. Eu sempre cantei o "atirei o pau no gato", mas nunca atirei o pau em nenhum deles na vida real, não sou favorável à crueldade com animais, e tampouco acho que eles servem pra serem maltratados. Outro exemplo é que eu tinha bonequinhos de guerra dos "Comandos em Ação", mas nunca saí metralhando ninguém e sou extremamente contrário à qualquer tipo de guerra ou violência. Pior!!! Leio até hoje gibis de super heróis (que tem muita pancadaria), e quem me conhece sabe que eu não bato nem na minha sombra (apesar de ter tamanho pra isso).
Aí fiquei pensando, e cheguei a uma conclusão. O que distinguiria uma pessoa que ouve a frase do "não sei porque bato, mas ela sabe porque apanha", e não sai batendo em ninguém, daquele que ouve e acha um comportamento normal? Simples, a educação recebida.
Mas não acho que é uma educação que proibe ou condena a frase pura e simplesmente, mas sim aquela que explica que aquilo é apenas uma piada, que não pode ser aplicado na vida real, que a gente têm que respeitar os outros.
A gente não pode educar achando que deve proibir ou condenar, mas educar informando, levando as crianças a raciocinar, a chegar em conclusões e condutas de respeito, de igualdade, de cidadania e de responsabilidade.
Não acho que a gente tenha que proibir a piada, a música ou o pensamente, desde que deixe claro que eles não exprimem reais valores ou condutas de comportamento aceitáveis na nossa sociedade.
Sei que parece difícil, quase impossível fazer isso, pois de vez em quando a cabela das crianças não conseguem chegar à mesma conclusão dos adultos, mas se eu, o Daniel, e a Alessandra conseguimos, se todos nós cantamos na infância o "atirei o pau no gato" e não saímos por aí atirando o pau nos gatos, porque os outros não conseguem?
E outra pergunta que eu coloco, é a seguinte, tem muita gente já crescida, sem essa tal educação e que pode achar que o mundo manda ela atirar o pau no gato. Isso significa então que a gente não deve mais cantar? Não pode mais contar piadas, ou falar algumas besteiras despretenciosas, só porque eles vão achar ruim? E voltando a uma pergunta antiga, devemos então extinguir a sátira, a ironia, o humor? Será que não é muito radical?

Pedro Alexandre Sanches said...

alessandra, eu tô chocado de saber que já se fazem todas essas adaptações das cantigas infantis nas escolas! no meu tempo não tinha nada disso, hahahaha. a princípio assusta, parece estranho, mas mais um pouquinho e eu fico pensando: por que não? que mal poderia fazer tentar incutir esse tipo de "responsabilidade" na cachola da criançada, né?

queria comentar um ponto só levantado pelo guilherme: ok, guilherme, nem você nem eu jamais atiramos paus nos gatos, nem transformamos em fuzil de verdade nossos briquedos de comandos em ação... mas, puxa (quem viu o documentário do mv bill no "fantástico" domingo?), a gente não faz essas coisas, mas tá cheio de gente que faz - e, em termos de quantidade, faz por si próprio e, talvez, por nós também. penso que não adianta a gente tentar se eximir, se isolar dos que maltratam animais e dos falcões do tráfico que empunham metralhadoras aos 9 anos de idade - essa é a nossa sociedade, de todos nós, dos que praticam isso de fato e dos que só praticam simbolicamente, "atirando o pau no gato" e "brincando" de comandos em ação... as ações lá na favela "alimentam" nossos caixas 2 aqui no asfalto, assim como nosso descompromisso com a responsabilidade política aqui no asfalto assassina milhões de crianças e bichos & outros bichos lá no morro (e aqui também)...

sei lá, minha opinião é que a gente precisa meter a mão na massa, que não tá mais com nada ninguém se eximir de nada - bolas para a "correção" política, mas tá mais que na hora de todo mundo assumir responsabilidades perante este mundão sanguinário em que todos nós vivemos, não?...

Véio Gagá - BH said...

Ótima a conclusão do Pedro Alexandre Sanches, que complementou o ponto de vista do Guilherme. A questão não é ser politicamente correto no dizer, no escrever, mas sim no agir com responsabilidade. Os meninos brincam de traficante porque esse é o ideal de vida deles, o cume a que podem chegar - chefes do tráfico. Quando eu era criança brincava de "polícia e bandido" com revólveres de espoleta, e nunca tive vontade de comprar uma arma de verdade. Naquele tempo, não tão longínquo, todos queriam ser "polícia", porque era uma instituição respeitada, onde quase não havia corrupção, e por isso se faziam respeitar. Para os meninos da favela, ser traficante é ser respeitado, ainda que à força. O traficante ou alguém protegido por ele se sentiu ofendido? Morte ao ofensor. Precisa de médico? Se pedir ao traficante ele paga consulta particular; se depender do Estado, morre na fila... O tráfico supre as deficiências do Estado. Os valores daquelas crianças estão totalmente invertidos, e isso não é culpa dos três porquinhos, ou do "atirei o pau no gato".
Enquanto isso os acadêmicos preparam "cartilhas do politicamente correto", quando na verdade deveriam agir de modo a fazer todo e qualquer cidadão se sentir respeitado como tal, se sentir seguro de seus direitos e compromissados com o cumprimento de suas obrigações. Ser respeitado e respeitar os outros. Isso é ser politicamente correto, politicamente responsável. O embrutecimento do ser humano está diretamente ligado à forma com que está inserido na sociedade. Como disse o Pedro, já está mais do que na hora de metermos a mão na massa. Na nossa época, Alessandra, Guilherme, Pedro e Daniel, os bons valores estavam tão arraigados em nós que podíamos ouvir "atirei o pau no gato", brincar de Falcon ou Comandos em Ação, polícia e bandido, ter armas de espoleta, que nada disso abalava tais valores. Afinal de contas, éramos (somos) classe média, com plano de saúde, escola particular e caderneta de poupança.
As crianças que brincam de "matar o X-9", que vêem os bandidos como super-heróis e a polícia como bandidos, que estão acostumadas à violência desde o nascimento, cuja linha que separa o que é correto e o que não é já não existe mais, não podem ouvir "atirei o pau no gato" até que se resgatem os valores éticos e morais perdidos na dureza das suas vidas.
E pensar que existe a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente... Cadê as ações para levar a cabo tudo isso? O que fizemos de concreto? Mea culpa, mea culpa...

Daniel Carlos Nava said...

Alessandra,
Segue a letra (ou algo assim, vai de cabeça):
"Boi, boi, boi,
Boi do Piauí
Pega essa criança
Que tem medo de dormir"

Alessandra Alves said...

quando fiz meu primeiro comentário à coluna da vange, eu disse que ia falar duas coisas, e uma era essa experiência pessoal/familiar.

a outra era mais conceitual e tinha a ver com a questão do "macho adulto branco sempre no comando", a que eu já me referi (não me lembro se aqui, no blog do pedro!). eu poderia me alongar um pouco mais nisso, mas resumindo acho que é mais ou menos o seguinte: o combate ao politicamente correto (ou responsável) me parece muito arraigado na tradição paternalista, machista, elitista de quem nos dirige. o "macho adulto branco" é meio inatacável nesse sentido: ninguém faz piada de homem burro (ou que não sabe dirigir), de heterossexual, de branco. ser um "macho adulto branco" é como ter um salvo conduto: pode rir de todas as piadas (de loira, de bicha, de preto, de velho), propagá-las à farta, pois estará resguardado delas.

o guilherme levantou um ponto importantíssimo, daqueles tão fundamentais que soam óbvios, mas nem sempre o óbvio com que sonhamos é factível nessa nossa sociedade. podemos ter introjetados vários conceitos inadequados por músicas, fábulas, brincadeiras infantis etc., mas saberemos agir de maneira responsável, eliminando a influência nociva disso se tivermos educação, orientação.

daí o pedro foi além, sendo em seguida complementado pelo véio gagá (mais um de bh! márcia, será que ele também é aquariano?!). não atiramos o pau no gato nem fizemos coisa pior porque tivemos educação. e o que nos falta, enquanto nação, enquanto sociedade? educação para todos, acesso à informação, condições dignas de vida etc.

eu não vi o documentário do mv bill no fantástico, mas estou fortemente impactada pela sua repercussão. ontem, day after da exibição, antes das nove da manhã eu já tinha ouvido de três pessoas, isoladamente, praticamente o mesmo relato: "dormi mal essa noite, depois de ver a reportagem do fantástico".

eram pessoas queridas (minha mãe entre elas!) mas eu acho a divulgação desse tipo de material altamente positiva, ainda que traumatizante. qual é? qual é o nosso trauma de classe média ao ver algo tão chocante? qual é a comparação entre o trauma de conhecer isso e o trauma de quem vive isso?

o véio gagá chamou atenção para um aspecto importante: somos classe média, somos uma casta, somos uma parcela ínfima da população.

daí o pedro diz que temos que colocar a mão na massa, no que eu apóio. mas então lanço uma pergunta: como fazer isso? participar de ongs, ajudar asilos e creches? ok, façamos isso, mas me parece pouco, pontual, restrito.

eu queria a opinião de vocês, mas acho que a grande tarefa da casta letrada, que somos nós, está na atuação diária, cotidiana, incessante junto ao universo de iletrados e párias que nos circundam. não precisa ir debaixo do viaduto para encontrar um deles. sua empregada, a faxineira do seu trabalho, o porteiro do seu prédio, o menino que você encontra todo dia no mesmo farol.

pode parecer pouco, mas eu acho que temos tanto a fazer por cada um deles, e acho que isso poderia ter um poder de multiplicação tão, mas tão grande...

Daniel Carlos Nava said...

O maior problema do politicamente correto é que só altera palavras, não ações. Gera tensões onde não existe e não diminui onde elas estão.
A liberdade de expressão é a maior dádiva do ser humano, e esta liberdade pode eventualmente magoar alguém.
Se eu trato uma pessoa diferente de mim com cordialidade, mas fecho qualquer oportunidade desta pessoa, não adianta nada.

Pedro Alexandre Sanches said...

ah, alessandra, não sei também, mas sabe aquele papo de "reeducação alimentar"? acho que começa por aí, da reeducação de mim mesmo, não do vizinho ao lado ou do menino da favela... nenhum de nós tem potência para reeducar o mundo, mas se colocar em xeque suas próprias posições sobre o mundo, quem sabe depois de amanhã não deixa o vizinho intrigado, não desperta a curiosidade dele, não passa adiante o que aprendeu - logo, logo, o que o "reeducado" de si mesmo aprendeu vai estar espalhado para o estado vizinho, para o país vizinho, para os estados unidos, para a favela (afinal, o máximo possível de distância entre nós e qualquer outro ser humano não são os tais famosos "sete graus de separação"?)...

nesse sentido, só discordo de um ponto específico no que disse o daniel carlos, sobre os "erros" do politicamente correto (ou responsável, ou o que seja): ele não altera só palavras, ele começa alterando palavras e provocando reflexões que irão, mais para a frente, alterar ações; ele não gera tensões onde não existem, as tensões estão todas aí rodeando as palavras ao nosso redor, e são gigantescas, espetaculares; ele diminui, sim, as tensões onde elas estão - garanto pra vocês que, se ninguém nunca mais me chamar de "bicha" como se isso fosse um xingamento, eu vou ficar 1.000% menos tenso do que estou agora...

Véio Gagá - BH said...

Alessandra, você perguntou como fazer. O Pedro respondeu tocando em um ponto nevrálgico. Comecemos por mudarmos a nós mesmos. Por experiência pessoal, adquirida com o exemplo dos meus pais e ratificadas pelos outros como aspectos positivos ("ele é tão educado!") eu tenho por hábito cumprimentar e saber o nome de todos os vizinhos e funcionários do condomínio onde moro e também do escritório. Mais do que isso, tenho real gosto por, quando possível, passar 2 ou 3 minutos conversando com eles (dá pra ver que eu gosto de uma conversa, né?), ajudando até mesmo com pequenas orientações jurídicas, que é o que posso fazer (sou advogado). Mesmo quando estou de mau humor, meus pais me ensinaram que os outros não têm culpa disso e por isso não podem ser maltratados. No caminho para o escritório, em alguns sinais, abro o vidro (que perigo! hahaha) e converso com os vendedores de balas e jornais. Não costumo comprar nada deles, só converso. Mesmo assim eles deixam de abordar outros carros e venderem pra ficar conversando comigo. Se estou sozinho até mais tarde no escritório e resolvo pedir uma pizza, peço uma grande e vou à portaria comer com meu amigo daquele dia. Claro que vai ter alguém que extrapolará os limites e pedirá dinheiro emprestado, por exemplo, mas dá pra tirar de letra essas situações e o "folgado" fica tão sem-graça que nunca mais fará isso. Enfim, esse meu comportamento nunca me prejudicou. Ao contrário, me ajuda a me situar como ser humano, igual a todos os outros, que não tiveram as mesmas oportunidades que eu mas merecem o mesmo respeito que eu me julgo ser merecedor. Estava com minha esposa na fila de espera de um restaurante e cedi meu lugar a um casal de idosos, pelo simples fato de que é o que eu tinha que fazer, por respeito a eles (nem precisava de qualquer lei pra garantir a eles esse direito), afinal sou mais gagá do que velho, e eles eram mais velhos do que gagás. Pra mim isso é natural, aprendi a ser assim. Estranharam tanto uma atitude que deveria ser usual a todos que nos convidaram a dividir a mesa com eles. Ficamos duas horas e meia entre o jantar e a conversa e provavelmente nunca mais voltarei a vê-los, mas foi muito bom. Parece vanglória, mas não é. Realmente gosto do relacionamento interpessoal e não me fecho a ninguém (a família da minha mãe é toda assim, também). Somos seres sociáveis, é nossa natureza. A única regra que precisamos para ironias, piadas, músicas, é um sincero respeito pelo outro; como já disse em um comentário aqui neste blog, dependendo do tom e do contexto da conversa, pode ser pior chamar um negro de "afro-brasileiro" do que propriamente de negro. O que importa é o tratamento respeitoso devidamente situado e contextualizado.
Tudo isso pra dizer que concordo com o Pedro no sentido de que deve-se cultivar a boa educação como forma de irradiar respeito, provocando uma reação em cadeia. Já dizia um adágio popular: "Frei exemplo é o melhor pregador."

Fabio said...

Ainda acho muito perigoso esse negócio de incutir "responsabilidades" com fincas em conceitos politicamente corretos... cresci ouvindo as antigas cantigas de roda, e nem por isso me tornei um torturador de animais ou um rascista enrustido. Cresci brincando com revólveres de brinquedo (que soltavas faíscas muito legais de se ver no escuro) e votei pelo sim no plebiscito. Ao crescer em contato com esses ícones antigos, pude desenvolver o meu livre-arbítrio, sem precisar que ninguém me impusesse nenhum conceito externo. Vi, ouvi, cresci, sopesei e optei, nada mais. E essa capacidade de desenvolver o livre-arbítrio incutiu em mim uma consciência robusta, que moldou de forma indelével os meus valores.
Agora, quando os educadores da hora presente se reúnem e decidem alterar as letras das cantigas de roda, para evitar conotações em tese desagradáveis, estão retirando das crianças de hoje o desenvolvimento da sua capacidade de discernimento por conta própria, jogando no futuro uma geração que não vai saber raciocinar a ponto de optar pelo caminho certo ou não - e essa capacidade é vital ao ser humano. No fundo, subtrai-se a capacidade de pensar ao ser humano, e isso não é nada bom, já que esse tipo de atitude nada mais revela do que uma forma de controle, controle de pensamento.

Vange said...

bom, eu reafirmo o que escrevi ao final da minha coluna: acho inócua a discussão "contra ou a favor do politicamente correto". Essa discussão é vazia, sempre carece de uma localização precisa e contexto. Prefiro as discussões tópicas relacionadas por vcs como, por exemplo, cantigas, armas de brinquedo, etc. A experiência própria é uma referência importante para a análise da questão (também ouvi "atirei um pau no gato" e nunca bati em um), mas insuficiente, porque a experiência humana varia e conheço quem atirou pau no gato e colocou o gato no forno. Por isso não se trata de discutir se a correção política é ou não boa ou má. Acho que o caminho (como também afirmei ao final da minha coluna e como o Pedro sugeriu) são reflexôes generosas, auto exame de consciência, admissão das próprias contradições para que justamente deixemos de cair na tentação do maniqueísmo. Por que canções politicamente corretas tirariam de uma criança sua capacidade de raciocinar? Por que uma pessoa, no trânsito, chama o cara que fechou seu carro de "viado"? Ah, vc acha chato ter que pensar e refletir e raciocinar e se conter toda vez antes de chamar alguém de viado? Pois é, tá todo mundo tão acostumado a chamar desfeto de viado que a coisa até parece normal. Vou contar uma historinha:

Na semana passada, duas amigas minhas apanharam na rua Augusta de dois sujeitos com o dobro do tamanho delas só porque elas eram (e faziam questão de dizer que eram) sapatão. Os caras se sentiram super à vontade, cheios de razão, afinal, elas eram uma espécie de "viado", né?

Pedro Alexandre Sanches said...

fabio, ok, mas me diz uma coisa... você viu o documentário do mv bill no "fantástico" domingo? legal, você teve e tem livre arbítrio e discernimento para não atirar o pau no gato, não ser racista enrustido nem empunhar arma "de verdade". e aqueles meninos lá do documentário, você acha que eles estão entrando na "competição" em pé de igualdade com você? por que é que, nesta nossa sociedade "cordial", você (nós) tem amplo acesso e direito ao livre arbítrio e ao discernimento, enquanto seus (nossos) coleguinhas lá da favela não têm nenhum direito além daquele dito pelo menino de 10 anos de idade ("se eu morrer vai nascer outro que nem eu, se eu morrer vou descansar")?

eu quero dizer: adianta a gente se refugiar na tese de que "tive revólver de brinquedo quando criança, mas votei pelo 'sim' ao desarmamento"? essa crença redime algum menino da favela? ou só "redime" (ou simula que redime) a gente mesmo?

mas aí, no modo como você descreve a questão, quem "subtrai" e "controla pensamento" é justamente quem se contrapõe aos velhos mesmos modos de controle e de subtração de sempre, que no brasil valem há 506 anos? ora, ora...

Daniel Carlos Nava said...

Acho muito mais proveitoso indicar à criança os caminhos certos que colocá-la em uma redoma de vidro. Melhor saber que existem pessoas que "atiram o pau no gato" e saber que isso está errado. Ou que não se deve fazer algo só porque está em uma música.
Colocar a criança numa "redoma de vidro" não vai evitar que ela entre em contato com letras de música com apologias a drogas e violência. Melhor deixar que ela cante a música original sabendo que é apenas isso, uma música.
Quanto a armas de brinquedo, deve-se apenas instruir a criança que aquilo pode ser perigoso. Que ao encontrar uma arma ela deve chamar um adulto antes de manuseá-la. Pois uma criança que nunca teve nenhum contato com armas, que nem sabe da existência delas, ao encontrar uma, eventualmente, vai ficar curiosa e daí podemos ter um acidente.
Quanto ao politicamente correto, chamar um negro de negro de modo respetável é melhor que chamá-lo de afro-descendente e achincalhá-lo ou "ferrar" ele depois.
Agora, no caso levantado de chamar um homossexual de bicha, já muda um pouco a coisa. Já falei palavrões para outros, quando fui ofendido também, mas nunca usei a condição racial, social ou sexual para isso.

Alessandra Alves said...

como eu disse no post original, vange, esse seu texto exprime a minha opinião sobre a questão do "politicamente responsável" e isso que você reforçou, sobre como é inócua a discussão em si eu também assino embaixo. importante é a reflexão de cada um, a mudança de posição, a prática, o exemplo.

meu pai costumava falar uma frase acerca disso: "na china, as crianças falam chinês". quando instado a explicar o que queria dizer, ele completava: "porque aprenderam com os pais". aí chego a um ponto que o pedro levantou, sobre aquilo que o fabio falou.

eu entendo que nós sempre tenhamos a tendência do empirismo - tivemos tal experiência, generalizamos a partir dela. mas eu concordo com o pedro, fabio, e convido você a refletir sobre isso também. eu, você, o pedro, todo mundo aqui, ao que parece, cantou atirei o pau no gato e não se tornou torturador de animais, mas nós tivemos exemplos. nós tivemos pais.

remetendo novamente ao documentário do mv bill, que eu não vi (estou louca para ver, se alguém souber como, please...). uma informação que aparece lá, pelo que eu vi, é o fato de que a maioria desses meninos não têm ou não conhece o pai. como ter exemplo de algo que não existe?

alguém poderia dizer que há muitos órfãos de pai, criados só pela mãe, por avós, outros parentes ou por outras pessoas que nem por isso viraram marginais. mas eu lembro que, mesmo nesses casos de ausências, o que prevalece é um sentimento de família, que essas crianças não têm.

isso me faz lembrar duas historinhas. de novo, remetendo ao meu colégio de freiras. lembro de uma aula de história em que uma aluna fez referência à "falta de higiene" do povo nordestino. a professora foi firme e direta: "se não tivesse água na sua casa, você também não seria limpa". (daí quero ver alguém me dizer que o lula está fazendo pouco no governo. só por esse projeto de cisternas no nordeste, que sempre me faz lembrar dessa história, eu acho que ele merece, no mínimo, respeito).

a outra história é do seu jorge, durante uma entrevista no roda viva. para quem não sabe, o cantor, compositor e ator seu jorge foi morador de rua. ele conta a história da família dele, vítima de uma chacina, e de como se transformou de pária da sociedade em artista cult. mas ele faz questão de não ser tomado como exemplo de "perserverança", "força de vontade" ou coisa que o valha. ele tem consciência de que o caso dele não serve de medida. a regra é o morador de rua se tornar um marginal, não um artista, e não por falta de vontade.

nós, letrados, com todos os dentes na boca, com acesso à internet, politicamente responsáveis não somos a medida do mundo. os meninos do documentário são.

Idelber said...

Belo debate, Alessandra, e estou plenamente de acordo com o que você, o Pedro e a Vange colocaram (sou mais um de BH na discussão, embora no momento escrevendo aqui de New Orleans...).

Meus dois centavos nesta discussão são os seguintes: o que eu gostei especialmente no texto da Vange é que ela desloca esse termo "politicamente correto" que, lembremos, foi inventado como forma de desqualificar as lutas pelas representações não preconceituosas dos grupos étnica, sexual, ou socialmente discriminados. Em outras palavras, não foram os movimentos negro, gay, lésbico, etc. que inventaram o termo. Ele foi gerado na direita como - típica estratégia dos que querem manter privilégios - uma maneira de estereotipar, reduzir a preocupação com as representações e os rótulos a uma simples questão de usar o 'termo correto', como se alguma vez os grupos socialmente discriminados tivessem dito que disso se tratava.

Daí a importância desse deslocamento terminológico que a Vange fez: muito legal - politicamente responsável, falemos disso, e deixemos essa expressão tão equívoca (politicamente correto) pra lá.

É claro - como bem disse o Pedro - que uma representação nunca é só uma representação: ela passa a operar sobre, transformar a realidade que ela inicialmente só representava. Quem cresceu ouvindo epítetos racistas sabe muito bem disso. Dizer que ouviu "o pau no gato" quando criança e não virou torturador de gatos é um exemplo individual que não altera esse fato social.

Permito-me deixar um link de um post antigo no meu blog que tem a ver com a discussão e que pode interessar, Alessandra:

http://www.idelberavelar.com/archives/2005/11/violencia_contr.php

Grande abraço,

Pedro Alexandre Sanches said...

alessandra, discussão quente!, até o idelber ressurgiu! (ê, idelber, saudade do seu blog!)

então, eu concordo com tudo que o daniel falou, menos com um aspecto. assim como você, daniel, também fico titubeante e indeciso diante dessa história de mudar a letra das canções - não sei direito o que pensar sobre, tô tentando tirar conclusões com ajuda da discussão aqui. mas não tenho dúvidas de que temos mais é que botar o pau do gato na berlinda, sim, e não acredito que tenha qualquer dimensão perigosa o acréscimo de uma letra singela para uma cantiga de roda que tinha uma letra nada singela (disse acréscimo, porque evidentemente a letra antiga não vai se extinguir, simplesmente porque algumas pessoas passaram a cantar diferente, né?). não acredito que a letra singela de "(não) atirei o pau no gato" tenha o poder de colocar nenhuma criança numa redoma de vidro. sabe por quê? porque não dá para colocar numa redoma de vidro quem já mora numa redoma de vidro... porque vocês não acham que as crianças das classes sociais de médias para cima (ou seja, as classes de provavelmente todos nós aqui) já vivem em grande medida confinadas a redomas de vidro - a redomas de vidro blindado, de grades de ferro, de medo de seqüestro, de shopping center, de condomínio fechado, de porteiro eletrônico, de segurança na esquina, de vigilância no colégio particular? nesse cenário dantesco, dá até dó do pau do gato...

também concordo com o daniel no incômodo pelo termo "afro-descendente" - mas, ei, quem aqui usa ou usou esse termo recentemente? eu não uso, e até hoje, ainda bem, nenhum "afro-descendente" ainda me repreendeu por eu dizer "negro"... aí acho legal mirar esse aspecto que o idelber trouxe, de a própria discussão em torno do tal "politicamente correto" ter sido inventada e inflada artificialmente justamente por quem quer desmerecer as causas por trás dos rótulos caricaturais (ou seja, a "direita", como observou o idelber)...

alessandra, linda a frase do seu pai! linda também a da sua professora, "se não tivesse água na sua casa, você também não seria limpa"... se tivesse pau em casa, será que eu atirava no gato?

Anonymous said...

Credo, Pedro!!!!!!
Nossa!!!!!hoje em dia está muito difícil diferenciar a burrice da má fé, mesmo!!!!!

Alessandra Alves said...

idelber, obrigada pelos comentários, pelo link e pela menção ao meu blog no seu!

importantíssima sua colocação sobre a "origem" do politicamente correto. eu nunca tinha pensado por esse ângulo. tenho repetido a idéia de que a repulsa (às vezes até coerentemente defendida) às posições politicamente responsáveis é típica do "macho adulto branco", ao sujeito mais ou menos inatacável. quem é ou se sente minoria, em qualquer circunstância e grau, começa a ter mais sensibilidade para isso.

resisto a fazer uma linha direta aqui, pois tenho lutado bravamente para não cair em dicotomias, no preto 100% ou no branco total radiante, enxergando mais e mais tonalidades de cinza (e nesse sentido a discussão no blog do pas tem sido muito significativa para mim). mas caio em tentação, sim: o pensamento que sustenta essas agressões, como a desmoralização do conceito de correção política, é a ideologia dos dominantes, da elite, da casta que valoriza "competências" e ignora carências. indo por essa linha (talvez perigosa) posso bater de frente até mesmo com o conceito de liberdade de expressão, que outros debatedores já alinhavaram por aqui e que parece ser um dos dogmas da chamada "nova direita".

e aí, idelber, pedro, fabio, vange, daniel, véio gagá, guilherme, o que vocês acham: até onde vai a liberdade de expressão e onde começa o desrespeito?

Anônimo: ????

Véio Gagá - BH said...
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Véio Gagá - BH said...

Alessandra, vou dar o pontapé inicial, deixando o desenvolvimento por conta dos amigos (desculpem a intimidade, mas com vocês - amigos virtualmente reais - eu tenho mais oportunidades de exercitar o pensamento do que com muitos amigos presenciais, mas isso é outro assunto).
Vamos lá então: Liberdade de expressão X desrespeito = franqueza X grosseria
Explico. A liberdade de expressão, assim como a franqueza, quando anunciadas previamente ou invocadas posteriormente, funcionam como máscaras por trás das quais se escondem o desrespeito e a grosseria.
Antes vou derivar um pouco, que é meu forte. Quem já não foi vítima de uma grosseria dita por alguém que propaga ser "muito franco"? Estorinha: Você encontra com alguém, começa um assunto e, do nada, seu interlocutor diz: "Desculpe". Você pensa: "Ih! Já começou pedindo desculpas..." e ele continua: "Você sabe que eu sou muito franco." Você pensa: "Lá vem..." Batata! Você recebe uma paulada direto na moleira, no seu ponto fraco: "É que você está...", ou então: "Não tem nada a ver você...", ou ainda: "Eu não queria te dizer, mas o(a) fulano(a)..."
A franqueza é uma virtude, uma coisa objetivamente boa por si só, e como tal, não precisa ser desculpada, e tampouco anunciada antes ou invocada depois de um comentário. Só se o "franco" quiser usar o escudo de uma virtude para dizer ou fazer algo que passa longe disso. Se foi realmente feito com franqueza e respeito, o interlocutor identificará sem que se necessite de desculpas ou invocação.
Da mesma forma ocorre com a liberdade de expressão. Quando se tem que a invocar é porque se vai desrespeitar alguém.
E qual a diferença entre esses escudos? Um é usado entre particulares (a falsa franqueza), normalmente entre quem se conhece; o outro escudo (a falsa liberdade de expressão) é mais abrangente, servindo para dar sustentação a uma afirmação de caráter negativo de alguém ou de uma coletividade para um público indeterminado.
Como impor limites? No caso da falsa franqueza, sendo realmente franco com o autor da grosseria: "Isso não é franqueza, é grosseria" ou mais polidamente: "Cuidado com sua franqueza, os outros podem não gostar." ou, chutando o balde: "Pô! Tu é chato, hein?". Pronto.
E no caso da falsa liberdade de expressão, que é um salvo-conduto para a liberdade de ofensa? Aí é que a coisa complica, até porque entra algo imensurável que é subjetividade dos ofendidos. Voltamos então a uma aflitiva questão contemporânea. Ao mesmo tempo em que lutamos para sermos politicamente responsáveis (vou começar a usar esse termo) e educarmos nossas crianças para isso, também lutamos para defender o conceito objetivamente bom da liberdade de expressão. Só que alguns usam deste conceito objetivamente bom para fazer algo objetivamente ruim, como ofensas a pessoas, grupos, etc. E se titubeamos quando questionados sobre a concordância ou não com a liberade de expressão, somos colocados em cheque. "Mas se você concorda com a liberdade de expressão, por que discorda disso?" Claro! Na visão dos que convenientemente se escondem atrás do que seria o real e bom conceito de liberdade de expressão, não se pode admitir relativização. Ou ela (a liberdade) existe ou não. Até porque, no conceito deles, o bem maior é a liberdade de expressão, e a consequência disso pode até ser um mal menor (uma ofensa - que nunca vai ser reconhecida como tal, é lógico - a pessoas, grupos ou minorias).
Mas não se trata de relativização, mas sim de responsabilização, de se dar o real valor a cada bem jurídico tutelado. Ambos (liberdade de expressão e o indivíduo) encontram proteção constitucional e infra-constitucional, porém o indivíduo, com sua liberdade e sua honra, é o bem maior, sem dúvida. No entanto os ofensores fazem os incautos crerem que a liberdade deles, ofensores, é que seria o bem maior, a "prioridade", por assim dizer.
E tanto a proteção ao indivíduo (sozinho ou um grupo) é o bem maior, que todos sabemos que é garantido a todo indivíduo - ou grupo - ofendido em sua honra pleitear judicialmente a reparação.
Conceitualmente é assim. Mas e na prática? Aí é que a situação se complica, pois o Estado (leia-se o Poder Judiciário), além de todas as mazelas que já conhecemos, não está preparado para lidar com aspectos que envolvam a subjetividade do ofendido, preferindo avaliar a repercussão externa da ofensa, ao invés de levar em conta o grau de má-fé do ofensor, para aplicar a justa punição a este último (isso quando há punição efetiva!). E com isso os falsos defensores da liberdade de expressão deitam e rolam...
Lá vou eu com um exemplo pessoal: Vi numa entrevista do Heródoto Barbeiro o seguinte: Um americano foi à Suprema Corte e apresentou uma pedido formal de autorização para publicar um site de pedofilia. A Suprema Corte o autorizou. No mesmo dia, o pedófilo foi preso. Apresentando a autorização da Suprema Corte em Juízo, lhe foi dito: "Você pode fazer o que quiser, desde que assuma as consequências dos seus atos. Nesse caso, a consequência é a prisão."
Entendo que a questão da liberdade de expressão tem a ver com a assunção das responsabilidades decorrentes dessa liberdade, que não são poucas. Mas para que possamos evoluir nesse sentido e estabelecer a liberdade de expressão com responsabilidade, muita água há de rolar.

Daniel Carlos Nava said...

A liberdade de expressão só funciona em um Estado de Direito. Infelizmente o Brasil está longe disso.
Quanto a querer culpar a direita pelo politicamente correto, também, é asneira. Quem oprime, impede o crescimento do país, cala um coitado que quer falar o que sabe e impede que se invertigue um milhonário que financia o presidente é a esquerda.

Pedro Alexandre Sanches said...

véio gagá, achei extraordinária a sua exposição!!!! eu nunca tinha pensado nisso, nesse parentesco da "franqueza" com a "liberdade de expressão". concordo e digo um pouquinho mais: o que tem de autoritarismo e pretensão totalitária disfarçados de "liberdade de expressão", especialmente nos territórios da "grande mídia", é algo colossal, assustador, monstruoso. acho a idéia que você lançou importantíssima, se a gente não denuncia essas contradições nos discursos que ouve por aí, a gente só colabora para alimentar dogmas de falsa liberdade e mais e mais e mais autoritarismo...

aí, puxa, daniel, não quero ficar pegando no seu pé, mas acho que você parte um pouco para isso ao usar o caseiro e criticar seletivamente o "milionário que financia o presidente". os que supostamente estão "defendendo" o caseiro também não o usam de modo sórdido, para atacar eleiçoeiramente o presidente? e os milionários do conglomerado psdb-pfl, que manipulam sordidamente caseiros e patrões de caseiros, esses não merecem sua crítica? ora...

Alessandra Alves said...

véio gagá, faço minhas as palavras do pedro. a sua colocação jogou luz sobre um aspecto que nós não tínhamos tangenciado. levando a questão da "franqueza" para o cotidiano, eu mesma já tinha me debatido muito com isso. sabe aquele tipo de gente difícil de se relacionar, que fala o que dá na telha, é habitualmente descortês, deselegante e em grande modo temido por seus pares? sabe esse tipo de gente que distribui patadas sem escolher o alvo e depois vem sempre com a mesma cantilena - "não faço por mal, esse é o meu jeito"... então, quando topo com gente desse tipo, sempre costumo entender essas justificativas como "ok, esse é o seu jeito - grosso, sem educação e anti-social". acho incrível como esse comportamento às vezes é relevado por parte das pessoas com quem o "franco" se relaciona. e esses benevolentes aceitam a franqueza, a grossura, a falta de tato dessas figuras difíceis com muletas do tipo: "ah, mas ele é tão competente" ou "no íntimo, é uma boa pessoa".

essa reflexão cotidiana, me parece, serve para as instâncias macro da sociedade. ora, aceitamos ser objeto de piada, chacota e até humilhações diversas se isso vier de meios de comunicação consagrados, de "formadores de opinião", como se a mídia tivesse salvo conduto para falar o que quiser, como quiser, sem medir as conseqüências do que faz.

acabamos, aqui e no blog do pas, nesse ponto da conversa, convergindo para a questão do conselho federal de jornalismo, tido como afronta, como meio de censura e cerceamento do pensamento, projeto natimorto, em grande medida, pela pressão despropositada que a mídia fez dele.

vou explicar porque considero a pressão despropositada, lembrando um exemplo que me parece correlato. a atividade da publicidade, no brasil e em outros países, criou um órgão de auto-regulamentação justamente para que seus próprios pares possam debater e eventualmente coibir abusos. no brasil, esse órgão é o conar e isso funciona muito bem na prática, e isso é regulado pelos próprios profissionais da área. não tem conversa: uma campanha publicitária que possa ser considerada ofensiva a um grupo de pessoas, se ganhar uma representação no conar, vai a julgamento e, dependendo da decisão do órgão, pode sair do ar.

eu considero isso uma demonstração de amadurecimento, de ética, de responsabilidade. ao se opor a um órgão regulador (poderia ser auto-regulador, mas os veículos não quiseram nem discutir a respeito!), o que a imprensa quer não é um salvo conduto? um passe livre para falar o que quiser e não responder por isso?

alguém poderia dizer que isso existe, são os processos de calúnia, injúria e difamação, mas acho que parece muito evidente que a velocidade do sistema judiciário não comporta a velocidade da informação, cada vez mais. o estrago que se pode fazer na vida de uma pessoa (lembram do caso da escola base?) não se afina com os prazos da justiça, e um órgão regulador traria mais agilidade e, na minha opinião, mais eficiência a esse processo.

daniel, eu tenho pouco a acrescentar em relação ao que o pedro lhe disse diretamente, só diria mais uma coisa, mesmo correndo o risco de ser professoral e/ou arrogante: examine o seu discurso e veja se você não está só reproduzindo a opinião de um veículo de comunicação que pode não ter o interesse apenas de informar você, mas seus próprios interesses como empresa, como grupo empresarial forte que eventualmente se sente desprestigiado ou mesmo desfavorecido pelo atual governo federal.

Véio Gagá - BH said...

Alessandra e PAS, fico feliz se pude contribuir com o debate. Concordo plenamente com vocês, mas não acho possível submeter a imprensa a um conselho, ainda que auto-regulamentador. Acho a liberdade de expressão, com a devida responsabilidade e respeito à liberdade das pessoas ou grupos (situação ideal, até utópica, né?) o modelo norteador. Para isso são necessários editores éticos e isentos, despidos de preconceitos, o que sabemos não é assim. O cerne da questão está em um ponto que você, Alê, tocou: a "formação de opinião", que a mim soa mais como um eufemismo para "imposição da opinião". Embora grande parte da imprensa mundial "forme opinião", no Brasil, até pelo fato de nós brasileiros ão termos a necessária formação cultural e intelectual, a imprensa consegue formar mais opinião do que no resto do mundo.
E aí, na "formação de opinião" é que reside o problema. Se a imprensa fosse realmente informadora e isenta, deixaria a seu público a tarefa de formar a própria opinião. Pra mim, o papel da imprensa - claro que nunca em colunas de opinião, onde o colunista tem liberdade para expressar a sua, individual - seria primeiro de informar com ética e isenção, bem como de refletir a opinião da sociedade. Nunca poderia ter o papel nocivo de "formadora de opinião". Afinal, se deixarmos os outros formarem livremente nossa opinião, ao acharos que o que lemos ou vemos é sempre isento e verdadeiro, e assim nos apropriamos fazendo nosso um juízo por vezes deturpado pelas convicções ou preconceito, o que será de nós?

Pedro Alexandre Sanches said...

alessandra e véio gagá, pois é, nesta questão específica do conselho de jornalismo eu fico mais com a alessandra...

conhecendo o jornalismo por dentro, tenho cada vez maior convicção de que ele necessita de auto-regulação, precisa sair dessa situação surreal de terra de ninguém (ou de "poucos alguéns"). não é possível, todo país normatiza suas profissões, toda profissão se auto-regula, como é que uma categoria pode pretender viver à margem da discussão interna das suas responsabilidades?
por coincidência, alessandra, tô lendo um romance do irvin yalom, "mentiras do divã", que tangencia isso que estamos falando. o autor é um psiquiatra/psicanalista, e o tema dos livros dele ("quando nietsche chorou" é o mais "famoso", até agora) costuma devassar um pouquinho a intimidade da profissão dele... neste novo, a certa altura, tem toda uma cena de uma reunião do conselho deles lá, com o objetivo de expulsar um psicanalista que supostamente transgrediu os códigos de ética da profissão. é uma carnificina, eles se engolem vivos uns aos outros, a bordo de muito ego e vaidade - e eu fiquei pensando, como é que justamente os jornalistas se "economizam" desse tipo de discussão interna? como é que ficam julgando e esfolando e se intrometendo com todo mundo do "mundo lá fora", enquanto zelam por se preservar corporativamente uns aos outros? ah, claro, melhor ficar esfolando só o lula e o caetano veloso do que ter que sequer cogitar a possibilidade de "cortar na própria carne", né?

véio gagá, eu acho que, em meio a muitos exemplos e casos defensáveis, tem muito capo do jornalismo clamando por "liberdade de expressão" para acobertar seus próprios abusos, autoritarismos etc. e, ok, concordo com você que se eles tivessem ética e responsabilidade nada disso aconteceria... mas, e se eles não têm?, e se não sabemos ao certo quais são os que têm e quais são os que não têm?, ou melhor, em que hora e momento fulano e sicrano estão agindo ou não com ética e responsabilidade? não há quem faça isso, os jornalistas simplesmente correm pelo pasto feito touros bravos indomados - e violentos, muitas vezes.

Alessandra Alves said...

pedro e véio gagá, eu só queria acrescentar uma coisa em relação à questão de imparcialidade e formação de opinião.

acho que todo estudante de comunicação - como fomos eu e o pedro - escutou em algum momento de sua vida a seguinte frase: "pior do que não ler nenhum jornal é ler apenas um". essa máxima de professores e decanos de redação encerra uma constatação acerca do mito da imparcialidade. não existe imparcialidade, e admitir que todo relato forçosamente passa por um viés - qual seja - me parece um sinal de amadurecimento e humildade.

um dos mais lapidares exercícios dessa constatação me foi dado pela ficção, por meio do livro "crônica de uma morte anunciada", de gabriel garcía márquez. ele reconta um crime sob a ótima de diversos personagens, cada um contando a "sua" verdade. a mim, parece evidente que o olhar de cada testemunho sempre terá enxergado uma verdade própria, porque ao fato em si, à "verdade" estarão sempre associados os juízos de valor, as experiências anteriores, a moral de cada um.

isso porque estamos falando de um fato isolado - um crime. o que dizer de um emaranhado de fatos, como costumam ser as implicações políticas, econômicas, ideológicas, sociais de tantas questões que nos cercam?

na semana passada mesmo, pedro, você há de se lembrar de uma manchete da folha, que falava sobre o atendimento à população miserável por parte dos projetos sociais do governo. a notícia era clara, com números estampados, de que mais da metade da população nessa condição de pobreza tinha sido atendida por algum projeto social do governo, mas a manchete destacava exatamente a "quase metade" que (ainda) não foi. ora, quem leu só a manchete guardou o quê? o trato negativo do tema, posto que o positivo estava escondido no texto!

eu vejo a imprensa do brasil ainda muito imatura nesse sentido. busca-se a imparcialidade na forma, quando são evidentes os interesses defendidos no conteúdo. a imprensa nos países europeus me parece muito mais madura e transparente nesse sentido. na frança, todo mundo sabe que o le figaro é de direita, que o le monde apóia a esquerda. tenho certeza que o leitor de cada um desses jornais se afina com as idéias ali expostas mas, diante da transparência das posições, pode até se sentir mais à vontade para discordar delas. por quê? porque elas são claras!

Daniel Carlos Nava said...

Alessandra,
A opinião que expresso é apenas a minha. Sei que você quis dizer que sou influenciado pela Veja, mas ainda acho que ela tem muitas patologias no seu conteúdo (se bem que menos que suas concorrentes). O que quis dizer é que - não estou defendendo o sujeito - nem o Collor teve a audácia de tentar calar seu motorista desta maneira.
O risco de um órgão fiscalizador nos moldes que o nosso governo quer é termos uma imprensa ainda mais passiva em relação à sua sujeira toda. O Lulla já mostrou que tem vocação de Stalin.
Voltando ao assunto do meio destes posts (o documentário do MV Bill), não o havia comentado por não tê-lo visto (não vejo o fantástico desde a reportagem tendenciosa da morte do menino Diego). Vi apenas quando ele levou o garoto (já homem) ao Faustão onde a culpa de fazer parte do tráfico ser de todos, menos dele mesmo. Acho isso um desrespeito com todos os favelados e órfãos honestos, pois todos foram classificados como potenciais agentes do tráfico. Mas o maior problema é querer ser o dono da solução de todos os males do mundo. Nunca vi tanta gente falando tantas superficialidades como solução do problema. Após anos ouvindo que o usuário não era o problema, ele agora o é. Apenas gostaria de saber o que querem dizer com "acabar com o usuário".

Véio Gagá - BH said...

Daniel, pegando o mote do seu comentário, lá vou eu derivar...
Qual é o problema afinal? A pobreza, a miséria, o usuário, o meio? Eu acho que a raiz do problema é a má distribuição de renda e a má distribuição de cultura. Sim, isso é chover no molhado, mas é a raiz do problema. Fazer o que? Não tem outra causa que não essas.
Aí vêm aqueles que querem extirpar a consequência do problema, mantendo intactas as causas. O incrível é que os humanistas acadêmicos, defensores da dignidade humana, são os primeiros a violentarem o que defendem. A culpa da violência gerada pelo tráfico é do usuário. A culpa da pobreza é da alta taxa de natalidade. Um pensamento simplista que até encontra algum eco. Mas será que a solução proposta é a correta? "Acabar com o usuário" sem acabar com o tráfico, é o mesmo que pretender controlar a natalidade com imposições de laqueaduras compulsórias. Aí chega o ponto de minha derivação. O controle de natalidade nunca poderia ser feito através de esterilização compulsória, sob pena de se violar um direito natural do ser humano. Controlar a natalidade quase forçando as mulheres sem instrução a se mutilarem é um verdadeiro abuso, um crime! O planejamento familiar tem que decorrer da vontade das famílias, que seriam instruídas a tanto e que teriam gratuitamente os meios para isso (pílulas, camisinhas, etc.) Mas não. Como é muito difícil melhorar o nível cultural, para que as famílias, mesmo as mais pobres, possam pensar por si sobre o planejamento familiar, surgem as propostas para facilitar tudo: a esterilização. Tenho um raciocínio matemático sobre os motivos que levam as famílias pobres a terem muitos filhos: Nós, os que temos alguma coisa a dividir, pensamos "temos 10 (dividendo) de patrimônio, dá pra dividir por 4 (divisor). Ok, vamos ter 2 filhos, porque fica com 2,5 (quociente) para cada um." Sabemos matematicamente que zero dividido por qualquer número é sempre zero. A família pobre, miserável, que vive com zero e tem zero para dividir não sentirá qualquer diferença em ter 1 ou 10 filhos. Ao contrário, pela lei das probablidades, tendo mais filhos a família, além de ter mais gente pra trabalhar (esmolar?) e compor a renda familiar, pode ter algum que melhore um pouquinho e ajude os outros.
Acho que se concordarmos com esses planos de combate aos efeitos e, pior, com essas idéias de violência à liberdade e à dignidade humana,logo haverá planos de combate à pobreza e ao crime que defenderão a idéia de incendiar uma favela, tirar crianças de mães pobres para dá-las a adoção, e outros absurdos.
A única saída é melhorar a educação, cultura, saúde e distribuição de renda (parece discurso político, né?) como forma de se combater as altas taxas de natalidade, o crime e outras mazelas sociais. Utopia? Sim. Mas se não direcionarmos o foco e contagiarmos os outros a realidade deixará essa utopia fica cada vez mais distante.

Daniel Carlos Nava said...

Concordo com você, véio, em vários pontos. Diminuir a pobreza diminui a violência, apesar de não achar que o pobre é culpado pela violência. Também na questão da natalidade. O número de filhos deve ser uma decisão do casal. O problema seria a falta de educação, que no Brasil tem relação direta com a falta de riqueza (no sentido que o pobre dificilmente tem acesso a educação de qualidade, não de educação familiar). Para gerar riqueza, o país tem que incentivar os setores que geram riqueza, ou seja, o empresariado. O Estado nunca vai conseguir prover todas as necessidades da população no sentido que não produz nada, apenas consome. Se as empresas crescem, aumenta a oferta de empregos. Aumentando o emprego, aumenta o salário médio. O ponto onde quero chegar (me desculpem se tropeço nas palavras, mas passei esta noite em claro no trabalho) é que todas as ações para diminuir a pobreza tomadas pelo Estado até hoje são equivocadas. Não é tomando 40% da riqueza do País na forma de impostos que teremos uma distribuição melhor. Diminuindo-se "benefícios" e o assistencialismo estatal, teríamos um crescimento sustentável e a riqueza gerada voltaria aos mais pobres. O que seria melhor, a classe média pagar metade de sua renda em impostos para que seja paga uma bolsa de R$50,00 para os mais pobres, ou que esse dinheiro voltasse à economia, gerando empregos que poderiam aumentar a renda daquela família em R$300,00, R$600,00? A razão até pode ser justa, mas o meio é injusto. Até porque, pagando-se tanto em impostos, não podemos ajudar como queríamos a entidades assistenciais privadas, que administram muito melhor seu dinheiro que o Estado. Um país que gera riquezas, que cresce sustentavelmente exige, inclusive, uma taxa de natalidade de, ao menos, 2.1 filhos por casal para manter este crescimento.
Mas no primeiro momento a repressão policial é necessária. O que mais atrai o jovem ao crime é a impunidade dos que já estão nessa vida. E nisso o ECA mais atrapalha que ajuda, pois para o menor, a sensação de impunidade é dupla: O crime não é punido como deveria e, quando alguma vez o é, o menor sai da mesma maneira que entrou. Totalmente "inculpável".

Pedro Alexandre Sanches said...

daniel, pela minha cabeça nem tinha passado a idéia sobre se você lê a "veja" ou o quê, mas agora me ocorre uma dúvida: você só lê a "veja", ou lê as concorrentes "mais patológicas" também?

independentemente da sua resposta, tô com a alessandra: quem vê só a globo, ou lê só a "veja", ou só a "época", ou só a "carta capital" (onde trabalho) tá correndo riscos seriíssimos de lavagem cerebral... (e, alessandra, nós sabemos que é gigantesca a quantidade de pessoas que pertence a esse grupo dos que se influenciam apenas por uma fonte de informação, né?... muitas vezes nem nós, jornalistas, escapamos dessa arapuca...)

Daniel Carlos Nava said...

Pedro,
Leio no Brasil, basicamente, Veja, Estado, notícias online dos portais UOL, Terra e IG. Eventualmente FSP e até Carta Capital.
Já para me informar, leio sites e blogs de notícias dos EUA e Europa, com predominância do primeiro.
Acho a imprensa nacional tendenciosa (com forte "lavagem cerebral", como você disse). Com pouco de estudo aprofundado se verifica isso.
Um exemplo disso é a "deusificação" de Fidel Castro e Che Guevara, apesar de tudo.

Pedro Alexandre Sanches said...

nossa, daniel, mas onde o fidel e o che costumam ser deusificados? eu tô muito mais acostumado a ler eles serem satanizados, execrados, ridicularizados e combatidos - a "veja", por exemplo, é dos lugares onde isso mais acontece (que o diga o hugo chávez, apesar de tudo...)...

Alessandra Alves said...

daniel, como o pedro disse, eu também não disse nem insinuei que você só lê a veja, aliás não lembrei a questão de ler uma única fonte como forma de exemplificar a partir de você.

achei interessante a abordagem que você fez acerca dos usuários de drogas, ensejada pelo documentário do mv bill. eu fico arrepiada sempre que ouço falar em "acabar com os usuários". isso sempre me remete a extermínio, puro e simples. não cabe piada aqui, mas isso é culpar a cama pela traição da mulher.

véio gagá: convivendo com famílias humildes e numerosas, enxergo muito essa sua visão também. dividir miséria, paradoxalmente, cria a idéia (ilusão?) de que uma família numerosa pode em algum momento representar a redenção de todos os pobres que fazem parte dela. vai que nasce um ronaldinho ali? e como frear ou impedir essa ilusão? não isso que a mídia estampa todos os dias, com ex-famélicos virando neo-milionários e avisando a todos que o sonho é possível?

tem outra coisa: eu esperei os trinta anos para ter meu filho, por "n" razões diferentes. minhas amigas, quase todas, seguiram o mesmo caminho. a compra da casa própria, a consolidação da posição profissional, uma viagem planejada, tanta coisa, né? o que, desses itens, faz parte da vida dos mais pobres?

eu vou voltar a esse tema em um próximo post, relatando uma conversa que tive com uma moça, sobre planejamento familiar, que me deixou estarrecida.

mas volto ao daniel, para comentar um outro aspecto. daniel, eu concordaria que o maior desenvolvimento forçosamente levaria a uma melhor distribuição de renda se nós não tivéssemos uma economia tão baseada em grupos multinacionais, que remetem muito dos seus lucros para seus países de origem, se não tivéssemos uma classe empresarial que se aproveita de práticas tão moralmente condenáveis quanto qualquer mensalão e caixa dois, como sonegação e elisão fiscal e habitualmente só se apega a práticas de responsabilidade social "para inglês" ver, ou porque virou um belo marketing reciclar lixo, ajudar a creche da comunidade ou patrocinar a orquestra da cidade. desculpe, mas não posso deixar a saúde, a educação, o bem estar da população nas mãos dos empresários.

eu pediria sua atenção para uma questão que você mesmo levantou: aumento de impostos. eu não acho que obrigatoriamente se tenha de fazer mais e melhor pela população carente aumentando os impostos, mas usando-os de forma mais racional. o governo federal pode ser acusado de muita coisa (juros altos, câmbio desfavorável para a exportação etc.) mas não se pode acusar o lula de ter aumentado impostos para levar água a tantas famílias carentes do nordeste (com o projeto de cisternas), nem para levar luz a rincões que não conheciam energia elétrica em pleno século 21.

agora me diz: se o governo federal não tivesse proporcionado esse prosaico mas absolutamente fundamental bem estar a essas pessoas, quem faria? a iniciativa privada?

Daniel Carlos Nava said...

Tudo bem o governo proporcionar saúde, educação e segurança (incluo saneamento básico em saúde). Mas por que o Estado tem que ter banco (que não respeita o sigilo)? Por que tem que ter petrolífera?
Quanto ao empresariado ser multinacional, isso é verdade apenas nas mega empresas. E mesmo as multis que estão aqui têm que empregar brasileiros.
Agora, precisa confiscar 48% do PIB para levar água e luz para regiões remotas? Ou isso é necessário para se pagar mensalões?

Véio Gagá - BH said...

Concordo com você Daniel, mormente se considerarmos que o binômio arrecadação e investimentos está muitíssimo desequilibrado. Há que se lembrar que por muito menor carga tributária (quinto - 20%)eclodiu a inconfidência mineira.

Alessandra Alves said...

daniel e véio gagá, eu acho que temos discussões diferentes aqui. uma coisa é a carga tributária do brasil, que eu também considero alta. aliás, saiu um estudo ontem ou anteontem, acerca da percentagem de impostos em relação ao pib, e esse descompasso fica muito evidente.

como pequena empresária que sou, tenho consciência disso. minhas contas mais altas, de longe, são os impostos e eu gostaria muito de pagar menos, principalmente por me sentir bitributada ao pagar essa enormidade em impostos e ainda, por gozar de um expressivo privilégio nessa nossa sociedade, poder pagar escola particular para o meu filho, plano de saúde para minha família etc.

o problema maior, me parece, é o mau uso do dinheiro arrecadado em impostos e é nisso que reside nossa responsabilidade como pessoas com boa formação e potencial de influenciar opiniões. o bom uso só vai ser uma realidade quando a sociedade entender que somos todos, ao mesmo tempo, causa e efeito de mazelas como a corrupção. ninguém está de acordo com mensalão e caixa 2, óbvio, mas então vamos limpar os mensalões e os caixas 2 de toda nossa vida, que tal?

é falta de ética um partido ter caixa 2, mas não achamos nada de mais um profissional autônomo nos prestar serviço e não nos fornecer uma nota. não vemos falta de ética em ter uma empresa fantasma num município vizinho ao nosso porque lá a arrecadação de impostos é menor, sendo que você usa o espaço em outro lugar, circula no trânsito de outro lugar etc.

precisamos equilibrar, como disse o véio, o binômio arrecadação/investimento, concordo, e acho que podemos e devemos fazer isso com o nosso engajamento, nosso voto, mas sobretudo, contribuindo para modificar essas pequenas práticas cotidianas que podem parecer nada perto dos mensalões e caixas 2 da mídia mas que, na minha visão, revelam uma falha de caráter coletiva, uma sociedade hipócrita.

daniel, respondendo seu questionamento, do porque de o estado manter em suas mãos instituições como bancos e a petrobrás. nos dois casos, eu acho que se tratam de instituições de interesse e soberania nacional. no caso específico da petrobrás, além de tudo, é uma empresa muitíssimo bem sucedida, referência internacional em vários aspectos, e mais, representa um papel social importantíssimo, seja pela geração de postos de trabalho, seja pelos programas sociais que sustenta. por que o governo federal deveria abrir mão dela em prol da iniciativa privada, que sempre colocará apenas o lucro à frente do impacto social advindo da atividade dessa empresa?

Véio Gagá - BH said...

Por mim, Alê, você, sempre ponderada e conscienciosa, colocou um ponto final na questão.
Abraço,