
Meu amigo
Idelber Avelar detesta quando nós, seus colegas de blogosfera, o chamamos de "professor". É sua profissão de fato, e ele não é apenas professor - é Professor Titular, o mais alto posto na carreira acadêmica, da Universidade de Tulane, em New Orleans. Entendo a bronca desse adorável atleticano com a alcunha, posto que não somos, aqui, seus alunos, mas realmente seus colegas. Não deixo de levar, no entanto, as indicações de Idelber com o respeito de quem convive com um mestre (e tenho a sorte de conviver com alguns amigos que representam, na minha vida, o papel de professores, mas isso é outra conversa). Há alguns meses, Idelber escreveu um
post sobre "Veneno Remédio - O futebol e o Brasil", de José Miguel Wisnik, e descreveu a obra com enorme entusiasmo.
Como diz no post, Idelber leu o livro em uma única noite, dando prova da qualidade da obra, de sua capacidade de instigação, de sua riqueza de informações, de sua lógica e, naturalmente, da fluidez do texto desse outro mestre das Letras, o professor Wisnik.

Não consegui nem de longe acompanhar o ritmo de Idelber. Nesse corre-corre que é minha vida, às vezes mal conseguia ler dez das 446 páginas do livro por dia, o que me enchia de pena, pela vontade de continuar sempre um pouco mais. Já o terminei há algumas semanas, mas o corre-corre também me impediu de escrever antes.
Leia em uma noite ou vá aos poucos, mas leia.
"Veneno Remédio" é um ensaio fundamental da literatura, da sociologia, da antropologia brasileiras. É uma obra fundadora, em certo sentido, por reunir algo inédito no ramo dos livros sobre futebol. Como o próprio Zé Miguel menciona, os livros de futebol, em geral, dividem-se em dois grupos: os livros que falam
de futebol (jogos, jogadores, números, fatos, anedotas, curiosidades etc.) e os livros que falam
sobre futebol (análises de toda sorte - esportiva, sociológica, filosófica, antropológica etc.). Escritos, em geral, por autores que "não se freqüentam": quem escreve
de futebol em geral considera os intelectuais do esporte uns divagadores; quem escreve
sobre futebol vê os registros relatoriais com certo desdém. "Veneno Remédio" une as duas correntes. É um livro
de e
sobre futebol.
O estudioso Zé Miguel traz informações sobre as origens históricas dos jogos de bola, traça comparações magníficas entre sociedades a partir da predominância de um determinado tipo de jogo de bola (o futebol, na Europa; o football, nos EUA), adentra na origem do futebol brasileiro e vai, pouco o pouco, construindo e reforçando sua revolucionária tese, que subverte o que se tem repetido à exaustão nas análises sobre o Brasil e o futebol. Para Zé Miguel, o futebol do Brasil não é um reflexo da nossa sociedade (paternalista, elitista, racista, excludente etc.). Pela tese do professor, o futebol não é reflexo, mas causa, sendo um fator de importância fundamental na formação da sociedade brasileira.
À medida que o leitor avança pela obra, vai também avançando no tempo. Zé Miguel não se propôs a recontar a história do futebol, mas acabou fazendo uma análise da transformação da sociedade brasileira, a partir do futebol, em seqüência cronológica. E o envolvimento torna-se cada vez maior. É interessante acompanhar o mergulho do intelectual Zé Miguel Wisnik nos fatos: torcedor do Santos, testemunha ocular de Pelé e cia., Zé Miguel não se prende ao rigor das análises acadêmicas e escancara sua própria vivência como torcedor e observador do futebol. Assim, o livro fica ainda mais envolvente quando o autor chega ao período que ele mesmo viveu e acompanhou, somando às informações e referências bibliográficas tantas sua própria experiência.
Interessante, também, acompanhar a seleção de referências bibliográficas que Zé Miguel escolheu. Sem preconceito, ele mistura textos de intelectuais "puros" a pensadores de outras áreas, como o cineasta Pier Paolo Passolini, o compositor Chico Buarque, o ex-jogador e comentarista Tostão. Aliás, Tostão exerce um papel de destaque na obra, seja pela análise de sua atuação na Copa de 1970, seja por suas próprias análises como observador lúcido de futebol. (Particularmente, fiquei muito reconfortada com essa "reabilitação" do Tostão. Alguém precisava pedir desculpas publicamente a esse genial jogador, em nome de Gilberto Gil, que é tão simpático e cordato, mas perpetrou um verso muito indelicado contra ele, na igualmente genial "Meio de campo" - "(...) e eu não sou Pelé, nem nada, se muito for eu sou um Tostão." hehehe)
À medida que lia "Veneno remédio - O futebol e o Brasil", de forma meio pretensiosa, comecei a acalentar uma idéia. Eu gostaria de ler um livro com esse tipo de análise, sobre automobilismo. Quem sabe não o escrevo um dia?