Thursday, October 09, 2008

Não é, mas parece (3)


Chico César é este cantor e compositor de cabelo extravagante que ficou conhecido quando sua música "À primeira vista" foi gravada por Daniela Mercury e incluída na trilha sonora de uma novela da TV Globo. (Quando não tinha nada, eu quis/ Quando tudo era ausência, esperei/ Quando tive frio, tremi/ Quando tive coragem, liguei).

Paraibano de Catolé do Rocha, Chico César oscila entre a delicadeza extrema de canções de amor como essa e a crítica social de obras como "Mama África" e "Respeitem meus cabelos, brancos".

Pouco depois do grande sucesso de "À primeira vista", também gravada pelo autor, freqüentou as rádios uma outra canção romântica chamada "Pétala por pétala". Na primeira vez que ouvi a música, cheguei a pensar que se tratava de Caetano Veloso. O timbre da voz de Chico César é, por vezes, muito parecido com o do cantor e compositor baiano. Nesta canção, além da voz, algumas construções melódicas e trechos da letra parecem muito inspirados pela obra também romântica de Caetano.



A parte final da canção - que começa com "Pétala por pétala/ Que um tolo pode colher/ Sem saber que é amor" - constrói um caminho melódico e harmônico extraordinário, em um crescendo que sugere a inquietação em não se saber se é amor o que se está sentindo, a ansiedade na busca pelo ser amado, o sofrimento por sua ausência, desaguandando serenamente na confirmação do sentimento e na súplica por sua presença, no singelo arremate "vem".

Não é de Caetano, mas ele assinaria.


"Pétala por pétala"

Chico César

A sua falta me fez ver
O que de mau a vida pode ter
E a sua volta me dá mais
De todo o mel que eu ousaria querer

Sua presença me faz rir
Nos dias feitos pra chover
Nao há revolta pra sentir
Nem há milagre pra não crer

Vinda que finda
A tinta de pintar tristeza
E deixa os mistérios plenos de sentido
A flor da vida toda

Pétala por pétala
Que um tolo pode colher
Sem saber que é amor

Vem e aumenta em mim
O único que sou
E subtrai do que em mim passou
É amor, vem...

4 comments:

Ron Groo said...

Eu me lembro muito bem.
Era assintante da revista Showbizz e numa das paginas dedicadas a novos talentos uma foto pequena do Chico César e o título: Caetano da Paraiba.
A matéria dizia da briga entre Elba Ramalho e não me lembro quem por uma composição dele. Me lembro de ter pensado ao ver seu cabelo que era muito parecido com uma beterraba...
E ele não ficou na semelhança com Caetano apenas nesta canção não, muitas outras depois reforçariam a impressão como nesta Templo, que eu considero maravilhosa:

se você olha pra mim
se me dá atenção
eu me derreto suave
neve no vulcão

se você toca em mim
alaúde emoção
eu em desmancho suave
nuvem no avião

himalaia himeneu
esse homem nu sou eu
olhos de contemplação

inca maia pigmeu
minha tribo me perdeu
quando entrei no templo da paixão

Alessandra Alves said...

sem falar na beleza da construção: "vinda que finda a tinta de pintar tristeza", que eu leio da seguinte forma: a vinda do ser amado termina (finda) com a tristeza do amante. a introdução do elemento tinta acresce a sonoridade que se compõe com as palavras vinda e finda e ainda remete ao conceito de cor, tão presente no universo da flor, afinal, a inspiradora primeira da própria canção. genial!

Anonymous said...

Grande Chico!

Vejam um momento sublime da abertura do Pan

http://jp.youtube.com/watch?v=sCrBU0ZK9j0

Edu

mauro chazanas said...

Alessandra, é automático eu ouvir ou ler o nome "Chico César" e imediatamente algum browser interno da mente abrir duas janelas, uma com "Beradêro" e outra com "Onde estará o meu amor?". Na primeira, dentre outros, os trechos: "(...)e a voz da santa dizendo: o que é que eu tô fazendo cá em cima desse andor?" e "(...) e a cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire...". Na segunda,"(...)Será que vela como eu? Será que chama como eu? (...)" e "(...)onde estou eu, onde está você, estamos cá dentro de nós...sós...".
Acho que, como o Milton cantou em "certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu que fiz?" muita gente, com o Caetano, pergunta-se isto ao ouvir Chico César.