Saturday, March 01, 2008

Majestic


Durante muitos anos, minha família passava férias em Águas de Lindóia. Todo ano em Águas de Lindóia, uma adorável estação de águas do interior paulista. É certo que existem outras adoráveis estações termais em São Paulo, no sul de Minas. Mas era Águas de Lindóia, sem apelação.

A raiz de tal obsessão era minha avó Maria, que não passava sem seus tratamentos nas águas do balneário de Águas de Lindóia. Vó Maria era do tipo que ditava as regras e ninguém ao redor ousava desobedecer. Hoje, fico pensando como os adultos da família deviam acalentar o sonho de ir para outro lugar. Que fosse Poços de Caldas, São Lourenço, Araxá, outras termas, tudo bem, haveria um balneário para a matriarca banhar-se, mas outro lugar, pelo amor de Deus! Mas não. Havia de ser Águas de Lindóia. E havia de ser o Majestic, um badalado hotel naqueles tempos.

Com meus sete, oito anos, eu não achava nada de errado naquela insistência. Esperava com ansiedade pelo grande dia, o da viagem, e ia no carro lendo o caminho inteiro, imagine, até hoje não sei como não tinha náuseas. Lia e comia bolacha Maria ou Maizena, que vó Maria levava. Meu irmão, em compensação, coitado, chamava o Hugo a qualquer ameaça de serra. Bastava o carro subir ou descer um morro e ele já começava a passar mal. E eu lá, devorando bolachas e páginas.

Lembro da sensação com nitidez cristalina. Ao deitar, na primeira noite, no quarto do hotel, eu ficava pensando: "Não acredito que estou aqui, que bom, que bom!" E acordava para uma seqüência de dias quase sempre iguais.

A manhã começava cedo. Tomávamos café lá pelas oito. O restaurante do Majestic era gigantesco, aos meus olhos, pelo menos. Tinha uma gigantesca mesa bem no centro. De manhã, ela se enchia de frutas, sucos, pães, queijos, geléias. Íamos para a piscina lá pelas nove e era entre as nove e as onze que eu colocava meus ombros a prêmio. Naqueles tempos, crianças, não se ouvia falar de filtro solar e eu, Branca como a de Neve, me enfiava na piscina para não queimar muito a pele. Sempre acabava com os ombros de fora, sempre os tinha vermelhos ao fim do dia, sempre ouvia a mesma coisa da minha mãe. "Bem que eu avisei para sair do sol...".


< balneário de Águas de Lindóia

Minha mãe era a heroína dessas viagens, hoje eu sei. Ela não gosta de piscina nem de tomar sol, mas passava todas as manhãs conosco, quarando naquele calor de janeiro. O pior, no entanto, vinha na hora do almoço. Meu irmão, que sofria de bronquite e não comia direito, era a fonte maior de preocupação da minha avó, a banhista das termas. A matriarca atormentava minha mãe com o pouco apetite do menino. Sábia, para não estressar-se ainda mais, nem ao ambiente, minha mãe deu um olé na sogra. Passou a pedir o almoço do raquítico no quarto, longe das vistas da avó. Ele não comia, do mesmo jeito, mas isso fica entre nós, porque o discurso era bem outro. "Puxa, no quarto, sem as distrações do restaurante, ele come tão bem...".

No almoço, a mesa do café transformava-se em mesa de saladas. Em um dos cantos, uma bandeja que sempre me impressionou. Um leitãozinho inteiro, com a indefectível maçã na boca. Jamais provei. Evitava até olhar. Ao lado da mesa, instalavam um carrinho para os pratos quentes. E quem não gostasse das opções ainda podia pedir um filé com fritas! A cada estação no Majestic, a família devia engordar unida o equivalente a um novo integrante. Adulto.

As tardes eram reservadas para os passeios. Ir até cidades vizinhas, como Monte Sião, e suas árvores cortadas em formatos diversos, Serra Negra ou Jacutinga. Ou andar pela praça de Águas de Lindóia, onde uns homens ganhavam a vida empurrando carrinhos divertidos para crianças. Fico pensando em que mundo viemos parar, porque há trinta anos não tinha nada de mal em deixar uma criança de quatro ou cinco anos com um adulto desconhecido que a levaria para passear em um carrinho por uma enorme praça, longe das vistas dos pais.

Era normalmente à tarde, também, que arranjávamos uns papelões e descíamos pelo barranco gramado da praça em frente ao hotel. Um tobogã de graça, que devia arruinar a grama em todos os verões. Alguns anos depois, voltamos a Águas de Lindóia, e vimos que a prefeitura tinha plantado mudas de árvores no barranco. Acabaram com o tobogã, os sem-graça, mas permaneci com a sensação de ter causado mina primeira intervenção urbana, que orgulho.

No final da tarde, começo da noite, de banho tomado e com as melhores roupas, sim, porque era um desfile de moda aquele hotel, descíamos para algo que ainda não sabíamos, mas se chamava happy hour. No bar do Majestic, Toninho preparava um coquetel magnífico, o Sol de Verão, preferência das damas, enquanto eu me acabava com suco de tomate e amendoins. Meu tio tomava Campari e eu achava impossível que aquela bebida, tão linda, fosse tão amarga quanto diziam. Depois provei, e era.

O banquete nababesco do almoço não parecia superável, mas o Majetic conseguia. A mesa, aquela do café da manhã, que virava mesa de saladas, à noite se transmutava em mesa de sobremesas! O maitre, Seu Davi, era um gentleman por natureza. No almoço, guardava croquetes de carne para meu irmão, o enjoado, comer à noite, visto que ele não provava mais nada do lauto bufê. Voltávamos à noite para a praça, a do tobogã, para "fazer a digestão". Custo a acreditar que a memória não me trai, mas o fato é que subíamos para o quarto, para dormir, pouco depois das nove.

Eu deitava, a partir do segundo dia, e tinha aquela sensação de estar boiando, aquilo que se sente quando se fica muitas horas na água.

Sempre adormecia pensando: "Eu não acredito que estou aqui, que bom, que bom..."

11 comments:

Andréa N. said...

Minha família foi umas duas vezes pra lá. Eu também curtia. Eu era (e ainda sou) como o seu irmão; ficava enjoadíssima na serra. Meu maior problema eram as curvas das estradas de Santos, hehe, que hoje eu amo tanto e morro de saudade. Lembro direitinho de, no auge do desespero pra não vomitar, sempre pedir pro meu pai: "vai mais reto, pai, não faz tanta curva"! E todo mundo no carro (meus pais e meus irmãos) sempre morriam de rir com isso. Eu ficava p*#@ com a falta de consideração. Filha caçula sofre. :)

Ron Groo said...

Bela página de suas memorias...
Quando criança nunca tive problemas de enjoo em viagens, mas já quando adulto!
Teu texto me fez lembrar de uma viagem em especial quando meus pais quiseram que eu conhecesse a terra onde tinham passado infancia e adolescencia: São José do Rio Pardo.
Me lembro bem da cidadezinha pacata, com uma ponte projetada e construida por Euclides "Os sertôes" da Cunha. E de uma ilhazinha no meio do Rio Pardo, habitada por macacos que jogavam pedaços de frutas e outras coisas na gente.
Também voltei para casa sem a pele das costas. O sol ficou com ela.

Anonymous said...

Bravo ,Alessandra ,Bravo!!!

Pensei que não lembraria dos carrinhos na praça ,hehe,era o que eu esperava o tempo todo ,imagine,esperar por eternas horas meus irmãos na picina e só a tarde porder "dirigir" aqueles calhambeques ,coitados daqueles homens ,que ficavam ouvindo o tempo todo; -Vai ! Anda mais rapido !

Agora ,Leitão com maça na boca ,não tem coisa mais sadica, nunca entendi qual é a graça.

Valeu Alessandra ,seu texto me fez viajar no tempo.

Jonny'O

Luizano said...

Engraçado que a gente se submete à vontade dos avós né?
Nas férias de julho, sempre íamos para a cidade dos meu avós, Santa Filomena - PI, e Vô Esdras, já estava nos esperando, mal chegávamos e ele nos levava para a Fazenda, para nos mostrar como se fazia rapadura,e ai de quem reclamasse.
Abraço

Tho said...

Alê,

Eu, assim como você, passei algumas férias em AdeL. Fui empurrado pelo mesmo estranho na praça, fiz esquibunda no mesmo morro, fui ao mesmo balneário.

É tão bacana ler um texto assim e lembrar de seus próprios momentos nos mesmos lugares...

Obrigado! =)

valéria mello said...

Íamos sempre para a casa da minha tia, em Uberaba, geralmente nas festinhas de aniversário dos primos. A família toda se reunia lá. Na sexta à noite eu e meu irmão ajudávamos minha mãe a arrumar as malas. Saíamos no sábado logo cedo e quando chegávamos minha tia nos recebia preparando a sua famosa galinhada. A tarde era de muita farra com os primos e lá pelas cinco horas começava a se formar a fila do banho. À noite a festa ia até às tantas e depois dormíamos nos colchões que a minha tia espalhava pela casa. No domingo quase sempre tinha churrasco, algumas vezes no rancho, que não ficava muito longe. E de tardezinha, meio em caravana, pegávamos a estrada de volta. Era uma delícia.

Celinho Boy said...

Adorei esta história, Alessandra. eu fiquei imaginando tuas brincadeiras e tuas impressões. Muito encantador mesmo. O tobogã, a piscina, tudo... Noto que tu pões muitas memórias da tua infância. Seria por que foi uma época marcante em tua vida. Minha também foi muito marcante, embora não tenha chegado a ir a um Águas de Lindóia, embora já até tenha viajado pra fora do Estado há quase 20 anos. Te decepcionaste com o Campari, ainda bem que não me deixaram me decepcionar com a caipirinha. é que uma vez um casal de viajantes, muito simpáticos por sinal, me perguntaram o que eu queria beber. Ingênuo, pedi a tal de caipirinha, pois achava o nome bastante gostoso e sugestivo. Depois que soube que era bebida alcoólica, me satisfiz com uma lata de Guaraná antártica. Beijos e abraços e nos brinde com mais histórias legais.

mario lago said...

êhhhh verdão!!!! alessandra, o majestic foi reformado, ampliado, e tem ainda hoje um dos melhores serviços hoteleiros da cidade. o balneário, infelizmente, não é sequer sombra de seu reluzente passado, embora continue lá suas águas termais, seus banhos e massagens relaxantes. talvez reflexo da cidade, cujo prefeito nos últimos 14 meses foi cassado e reconduzido ao cargo -sempre via liminar judicial- ao menos meia dúzia de vezes. em 2005 houve na cidade uma corrida da superclassic, realizada ao redor do lago cavalinho branco num circuito semi-oval com exata milha de extensão. apesar de muito bacana, com certeza não foi páreo para os carrinhos de sua infância, que ainda hoje continuam a povoar a praça e a imaginação das crianças. se lá voltar, não deixe de visitar o recanto dos nefilibatas, sossegado bar no meio da mata cujo proprietário também é dono do melhor sebo da região. em tempo: para os amigos da cidade rola até um desconto nas diárias, ok?

Charles Henrique Schweitzer said...

Hahahahahahaha! Amazing!!! De tanto irmos para lá, agora temos um apartamento e eu continuo indo...

Os tiozinhos dos carrinhos continuam por lá... E as pessoas continuam confiando suas crianças a eles...

Aliás, a única coisa que mudou um pouco, além de suas interferências urbanísticas, foi o surgimento da modalidade criminal de furtos... Já foram 2 CD-Players, mas, no stress, ainda é bem legal ir para lá... E agora, dá para fazer treinos de corrida da praça ao Morro Pelado!!! É show!

Beijos,

Charles

Alessandra Alves said...

charles: morro pelado é onde tem o cristo?

Charles Henrique Schweitzer said...

Oi Alessandra! Desculpe a demora em responder...

Não, aquele é o Morro do Cruzeiro... Seria um treino interessante também, mas não tão legal quanto o Morro Pelado...

O Morro Pelado é aquele que tem a rampa de Asa Delta e que hoje o pessoal usa para decolar de Para-glyder. Uma parte dele é "trilha" (uma estradinha de terra, na verdade).

Na próxima vez que for para lá, o desafio vai ser ir até a base do Morro Pelado e ao invés de subir à direita, na bifurcação da Fazenda Morro Pelado, subir à esquerda... Você vai sair depois de algum tempo, lá no Tenis Clube e vai descer pelo Morro das 7 curvas, lá atrás do Vacancy...

Anote meu e-mail... Fica mais fácil de conversar...

Charles.Schweitzer@bol.com.br

Beijos,

Charles