Friday, March 28, 2008

Balestre e a quase barriga

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No jargão jornalístico, "barriga" é a notícia falsa, que depois precisa ser desmentida. Um dos maiores dissabores na vida de um jornalista é dar uma barriga. Quase dei uma barriga por causa de Jean-Marie Balestre, ex-presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), que morreu hoje na França.

Em 1991, eu trabalhava na editoria de Esporte da Folha de S. Paulo. Durante um fechamento, estava redigindo uma nota sobre a eleição que aconteceria no dia seguinte na Fisa, o braço esportivo da FIA. Balestre era presidente da entidade desde 1978 e parecia fossilizado no cargo, daqueles que só largam o osso depois de mortos.

Parecia tão certo que se elegesse novamente que meu editor, na época, chegou a sugerir que o título fosse: "Balestre se reelege hoje na Fisa". Dei uma olhada de canto de olho. "Mesmo?" Ele reafirmou, depois reconsiderou, concordou com a neutralidade. Ficou algo como "Fisa realiza eleições hoje".

No dia seguinte, o fechamento seria às três da tarde, um suplício que nos era imposto duas vezes por semana. Por conta daquelas questões industriais da gráfica, o caderno precisava rodar antes e tínhamos de chegar cedo à redação, não no final da manhã, como nos outros dias. Cheguei por volta das oito e fui dar uma espiada na sala do telex, para ver se tinha alguma novidade da eleição.

"Max Mosley é eleito presidente da Fisa".

Rasguei a pedaço de papel da máquina e fui falar com o editor, que estava em reunião com o secretário de redação. Embora ainda fosse "foca" (outro jargão jornalístico, que designa o jornalista em início de carreira), percebi que aquela notícia era importante e tive a cara de pau de interromper o colóquio. Estendi o telex para ele, que leu e me devolveu um sorriso cúmplice.

Não dei a barriga, mas me sobrou a tarefa de escrever o perfil de Balestre. Foi talvez a melhor matéria que escrevi na Folha. Preciso perguntar a minha mãe se ela ainda a guarda...

2 comments:

Ron Groo said...

Ainda bem que você não deu a tal 'barriga' né?
Mas falando sobre Balestre eu o considero um personagem importante, afinal ele foi um dos vétices do triângulo que decidiu um campeonato mundial de f1, pode-se esquecer até quem foi o campeão ou vice, mas jamais vai se esquecer que Balestre orquestrou aquela decisão. E tem mais, para a lenda pessoal de Senna ele foi crucial. Era o senhor das aguas e do fogo no automobilismo na epoca e era contra o brasileiro ( ou quase isto) chamando assim a atenção para o piloto que acabou sendo visto como o esportista 'injustiçado' e 'perseguido' pelo cartola 'mau e tendencioso.' Não que eu goste dele, como também não gosto de Max ou Eclestone, mas ha de se entender sua importância à epoca.
Como dizem em Portugal, que a terra lhe seja leve.

Ron Groo said...

E no fim ele nem orquestrou nada, Senna tava errado mesmo...
E quem desclassificou o brasileiro foram os comssiarios.