Sunday, March 30, 2008

Insustentável Fiesp

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Congestionamentos servem para duas ou três coisas, como ouvir música no carro, pensar na vida, sei lá mais o quê. Parada no trânsito da Paulista, peguei-me admirando o prédio da Fiesp. Não que eu goste dele de maneira especial, acho até que não gosto, mas não se pode negar que é um tremendo marco da avenida.

Fui pesquisar a respeito e encontrei este ótimo texto do arquiteto e professor Igor Guatelli, analisando principalmente a função do edifício como espaço público. Para quem não sabe, o prédio da Fiesp foi concebido para ter uma espécie de praça pública em seu térreo, pelo projeto original do escritório Rino Levi Arquitetos Associados, da década de 1970. Circunstâncias da obra e as transformações no entorno do edifício desviaram o projeto desse objetivo inicial. Nos anos 1990, um projeto de adequação do térreo, a cargo do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, incumbiu-se de reabilitar a função pública do espaço.

Confesso que não era nada disso que passava pela minha cabeça, enquanto esperava o trânsito andar. Pensava em como os conceitos de modernidade são atropelados de uma época para outra. No final dos anos 1960, quando a Fiesp decidiu construir um prédio que fosse um marco da avenida, era natural eleger como vencedor um projeto daquele, que previa não um prédio, mas uma pirâmide urbana. Era natural conceber um prédio sem janelas, na medida em que luz artificial e ar condicionado eram sinônimos de modernidade e de desenvolvimento. Era a Fiesp, era na Paulista, afinal. Era o exercício máximo de poder, de avanço, de pujança.

Quase quarenta anos depois da idéia inicial, vivemos o tempo da ecoeficiência, ou pelo menos da busca por ela. Queremos - ou, antes, precisamos - de prédios que aproveitem a luz do dia e a circulação de ar natural. É imperioso que gastemos menos com energia elétrica, as empresas (as indústrias de São Paulo!) esforçam-se em programas de redução de gastos com eletricidade, e já não o fazem por consciência ecológica apenas, mas porque poerceberam que também economizam um bom dinheiro com isso. E a Fiesp, a representante delas mesmas lá, sem janelas, sem luz natural, sem circulação de ar.

Redesenhamos os layouts de nossos escritórios para aproveitar melhor cada espacinho, e ocuparíamos bem melhor esse vazio que a pirâmide da Paulista cria com esse prédio inclinado. Repare: pode ter sido uma genial obra de arquitetura, mas o fato é que o edifício da Fiesp acabou criando um nada que vai crescendo a cada andar.

Se o conceito de sustentabilidade passa pelo aproveitamento adequado de recursos como energia elétrica e espaço físico, acho que o prédio da Fiesp é um totem de insustentabilidade.

2 comments:

Ron said...

"Se o conceito de sustentabilidade passa pelo aproveitamento adequado de recursos como energia elétrica e espaço físico, acho que o prédio da Fiesp é um totem de insustentabilidade."

Mais ou menos isto: A Fiesp é mais um conselheiro matrimonial solteiro...

Egészségedre said...

na verdade, aquilo é uma fachada ventilada, que cobre as janelas mas nao deixa de levar ventilação e iluminação para dentro do prédio. por fora é uma coisa, por dentro é outra. estou pesquisando na internet exatamente isso e resolvi deixar meu comentário.
um abraço.
Fernanda