Friday, March 13, 2009

Escolha feita



Meu coração está em paz. Das bobagens que já fiz na vida (atire a primeira pedra quem não fez as suas também), talvez a mais pública e notória tenha sido minha aposentadoria. Em 13 de outubro de 2007, neste mesmo blog, anunciei que estava me aposentando do "cargo" de corintiana. Eram trinta anos de serviços prestados, o Corinthians só dava vexame, dentro e fora do campo, eu me sentia tendo doado muito mais do que recebido, pedi as contas, peguei o boné, fui.

É claro que não me tornei indiferente a ele de uma hora para outra. Mas efetivamente mudei minha atitude em relação ao Timão. Já não deixava de sair para ficar em casa assistindo aos jogos televisionados, sofria muito menos (até em situações como a perda da Copa do Brasil, na final contra o Sport) e chegava até a zapear por outros canais nos eventuais jogos que vi. Saiba, leitor querido: para quem me conheceu roendo as unhas em frente à TV, essa mudança de comportamento teve o valor de uma revolução.

Mas aí veio 2009, título na Copa São Paulo. Meu coração começou a se reaquecer por aquele que, afinal, nunca deixou de ser um grande amor. Passei a me lembrar, cada vez mais, de tantos bons momentos vividos. Sofremos? Claro, isso é normal em uma relação de longo termo, que atravessa crises. Mas o amor se manteve e o saldo - e isso foi se tornando evidente - era amplamente positivo.

Como esquecer tantas conquistas? O bi-Paulista, em 1982/1983, o primeiro Brasileiro, em 1990, o inesquecível ano de 1995, com a primeira Copa do Brasil e a vitória sobre o Palmeiras, na final do Paulista, o bi-Brasileiro, em 1998/1999 e, torçam o nariz se quiserem, como esquecer aquele janeiro de 2000, que nos brindou com o título do primeiro Mundial Interclubes organizado pela Fifa?

Aquele janeiro de 2000 no qual eu trazia no ventre um futuro corintiano. Pelo menos, era isso que eu pensava, ou ardentemente desejava. A tarefa me parecia fácil. Meu marido - do alto de sua generosidade (ou devo dizer: de sua indiferença por futebol?) - não ofereceria resistência. O Corinthians vinha de conquistas vultosas naqueles meses. E, last but not least, o obstetra que me acompanhou durante todo o pré-natal e que fez o parto é um corintiano daqueles de dar orgulho em Vicente Matheus e Elisa juntos. Sendo o primeiro ser humano a tocar no rebento, o faria como se ungisse a criança com os óleos sagrados do corintianismo.

Mas a vida às vezes nos confunde. O ritual de 2000 foi se desvanecendo em uma bruma tricolor que tomou conta da geração século 21. Quando meu filho começou a se interessar, ainda que levemente, por futebol, o São Paulo bombava. Ajudava, no pendor para tal time, a influência da tia adorada. Resultado: ao ser perguntado sobre o time do coração, o pequeno começou a se definir como são-paulino. Apertou meu coração mas, estando eu mesma afastada do grande amor, achei até natural. Como um castigo pela minha negligência, por ter deixado minha família alvi-negra às portas da desintegração (afinal, mesmo desligado de futebol, meu marido não deixa de ser alvi-negro, pelas raízes santistas de quem nasceu na terra que consagrou Pelé).

Mas veio 2009. Veio o nove. Veio 8 de março e aquele gol aos 47 minutos do segundo tempo, contra o Palmeiras. Um gol de empate, um gol redentor, um gol que fez a família (avó, tios, primos), reunida em um churrasco, vibrar em uníssono. Um gol que fez o pequeno ex-são paulino pular e gritar e bradar o nome de Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo.

No dia seguinte, volta da escola regozijando-se do feito. Do gol de Ronaldo e da oportunidade de congratular-se com colegas e com os dois professores de Educação Física - "corintianos como eu, mamãe". Parece, pela primeira vez em seus quase nove anos de vida, interessado em ir ao campo. Na quinta-feira, após a vitória de virada sobre o São Caetano, gol de Ronaldo, não via a hora de chegar à escola e perguntar ao novo amigo ("corintiano como eu"), como tinha sido a experiência de ver in loco a estréia do camisa nove no Pacaembu. E me pede, com sinceridade no olhar, para eu lhe comprar uma camiseta, com os dizeres: Eu nunca vou te abandonar... Por que eu te amo!

(crédito da foto: Cesar Greco /FOTOARENA / Parceiro / Agência O Globo)

7 comments:

tohmé said...

ARRRRRGH!

Primeiro vem o "Vamos falar de homens....". Agora isso?

Faça-me o favor. O Pandini não merece. Nem o filhão.....he, he

Anselmo said...

Olá Alessandra.
Curete muito seu blog e suas opiniões também, apesar de ser Alvi-Verde. Porém o que mais me espantou neste post foi saber que tu és mãe e mulher dos Pandini que curto os referidos blogs.
Quero deixar aqui meus parabens aos dois por ter uma mulher/mãe como você e dizer que é so disso que tenho "inveja", do time não...
Abraços e boa sorte

Degas said...

Ah! Os corinthianos que me perdoem. Eu não consigo me esquecer da semi-final do paulistão contra a Portuguesa em 1998 e, principalmente, o campeonado brasileiro de 2005 (que, por sinal, não foi citado).

Anonymous said...

Tá certinho o Gabriel ,aqui no Brasil o Timão tem a mesma magia de uma Ferrari na F1 ,uma coisa maravilhosa ,esplendorosa,magnífica,sensacional,belissima,apaixonante....ah !

Sem falar no distintivo corinthiano ,é impossivel confundi-lo com outro qualquer ,é o primeiro desafio de um verdadeiro corinthiano ,desenha-lo!

Taí seu primeiro desafio Gabriel!

Jonny'O

Celinho Boy said...

El, Alessandra, o "Tim Maia" já marcou dois gols em três jogos. Eu achei estranho vc não ter citado sobre a vinda do Ronaldo ao Timão dois dias depois do São Paulo ter sido campeão brasileiro.
Sinceramente me incomodava muito o fato do teu time ter contratado o Ronaldo e ele apenas estrear em março. Já estava virando uma novela de baixa audiência e com notícias que nada tinham a ver com o profissional.
Por outro lado, tô louco para "ver" o Ronaldo no Rio Grande do Sul. E que de preferência com vitória tricolor. :)
Beijos Alessandra

Grünwald said...

Isto chama-se "força de um ídolo". Vai sofrer, este Gabriel. Mas vai ser feliz.

Celso Vedovato celsovedovato@uol.com.br said...

Fantástico depoimento amiga corinthiana.
Alessandra passei pelo mesmo esfriamento com o nosso time em 2007. Voltei a me animar com a campanha correta da 2a divisão. Um time desses tem que voltar a primeira daquele jeito, sem chances a cometários de adversários, estabelecendo um novo patamar de qualidade para time grande jogar a série B.
O Ronaldo fez reviver até os velhos debates por email entre nosso grupo de amigos corinthianos na internet.
Passei sua coluna sobre o Gabriel para minha esposa ler, para ela entender porque pretendo , quando tivermos um filho , manter o pai e o irmão dela, fanáticos palmeirenses, longe do nosso rebento(a), até completar seus 18 anos de amor ao Corínthians.
Não quero correr riscos de depois não aparecer outro Ronaldo no Parque - rssssss