Thursday, April 27, 2006

GLS Futebol Clube



O técnico Vanderlei Luxemburgo, atualmente no Santos, foi julgado e condenado a dois meses de suspensão pelo Tribunal de Justiça Desportiva. A acusação: ofender o árbitro Rodrigo Martins Cintra, que apitou o clássico entre Santos e São Paulo, pelo último Campeonato Paulista. O São Paulo venceu e Luxemburgo saiu do estádio dando a seguinte declaração:

"Ele apitava e olhava pra mim em toda falta que marcava. Ele [Rodrigo Cintra] não parava de olhar. Eu não sou veado. Talvez seja pela minha camisa [rosa]", disse Luxemburgo. Naquele mesmo domingo, já à noite, um programa de TV entrevistou o árbitro, que em princípio duvidou do conteúdo da declaração do técnico. Exibida a entrevista, Rodrigo não polemizou, nem “se defendeu”. Analisou o comportamento de Luxemburgo como um desvio de foco, já que seu time tinha perdido.

Oh, céus! Por onde começar?

A declaração do técnico, que ensejou todo o resto, tem evidentemente um teor ofensivo, além do risível reforço ao estereótipo de que rosa é cor de mulher (de gay também, deve-se supor). A intenção de Luxemburgo foi clara: ele quis atacar o árbitro e se valeu de um paradigma colossal no meio futebolístico, “acusando”, “xingando”, “levantando a suspeita” de que o outro era homossexual.

Apoiado na intenção de ofender, manifestada pelo técnico, o tribunal acertou em puni-lo. Mas isso resolve toda a questão? Não há também aqui o recrudescimento de uma posição preconceituosa, sectária, xiita do futebol (dos esportes, em geral, mas fiquemos apenas com o futebol) em relação à homossexualidade?

Há, sem dúvida, um significativo avanço em punir quem se vale de qualquer circunstância para ofender o outro, e nisso a “comunidade futebolística” parece estar, em sua maioria, de acordo.

Mas por que é ofensivo chamar um homem de gay (veado, viado, bicha, boiola, bambi, fruta, queima-a-rosca, salta-pocinhas, morde-a-fronha)? Se a sociedade já avançou a ponto de assimilar e respeitar as diferenças individuais em tantos campos, por que o futebol se mantém tão sectário?

O radicalismo sectário contra o diferente persiste em cada um até que o diferente invada sua casa. Terei preconceito contra homossexuais até o dia em que meu filho, meu pai, meu irmão, meu sobrinho, meu amigo resolva sair do armário. Se já somos capazes de lidar com respeito às diferenças em tantos setores, por que nos mantemos tão medievais no futebol?

Porque, cá entre nós, você não acredita de verdade que “essas coisas” não acontecem no futebol, acredita?

Tuesday, April 25, 2006

Micropolêmica

Mãe joga filho no rio. Filho mata mãe com golpe de judô.
A humanidade está eternamente condenada à lei de ação-reação.

Friday, April 21, 2006

Telê


O jogo era contra a Itália e minha mãe inventou de fazer nhoque.
Meu pai achou por bem acompanhar com pão italiano.
Aquilo não me soou bem, e eu só tinha doze anos.
Tínhamos moído a Argentina, o mundo era nosso.
Não percebi que perder, ali, não podia.
O empate era nosso, mas que retranca?
Fechar o time? Botar na roda? Cera?
Mataria o time, alegando desonra.
Cerezo sozinho, de costas.
Nem um grito, um alerta.
"Cuidado, ladrão!"

Daí pra frente, sempre detestei perder por 3 a 2. E fiquei de bico com nhoque e pão italiano por um bom tempo. Chorei e sofri, como nunca antes, nem depois, pelas coisas da bola. E foi ali que a bola me fisgou. Devo essa a Telê Santana.

Friday, April 14, 2006

Reforma do código penal

Não, não sou advogada. Mas às vezes me ocorrem sugestões para melhorar nossos diversos códigos de leis. E como precisamos de pausa para rir um pouco, convido os amigos a compartilhar as minhas e contribuir com novas idéias.

Já é tempo de classificarmos como "crimes hediondos" as seguintes infrações, incorreções, inconveniências e aporrinhações:

- usar uma fita colante (de qualquer espécie: durex, fita isolante, esparadrapo etc.) e não dobrar-lhe a ponta após o uso (já tentou usar uma assim, depois que algum infeliz esqueceu de dobrar a pontinha?).
- referir-se a marcas e modelos de carros com apelidos ou diminutivos: Merça no lugar de Mercedes Benz, BM em vez de BMW (isso é um asco!), Fuca substituindo Fusca. Enquadram-se na categoria os abomináveis Gol Quadrado e Gol Bolinha.
- falar com entonação de idiota quando se dirige a um bebê. Falar com entonação de bebê quando se dirige ao(à) namorado(a). Chamar o(a) namorado (a) de bebê.
- exclusivo para homens: tingir os fios do bigode. (aliás, bigode sem barba não é bem um crime hediondo, mas um passo para continuar sozinho nas noites de sábado)
- exclusivo para mulheres: mini blusa + calça de cintura baixa + formações adiposas abdominais (incorrer nesse crime deveria dar direito a cumprir a pena em um spa. Como o estado não dispõe de recursos para tal, no lugar de spa, esparadrapo. Feche a boca ou mude o look, minha filha. E não se esqueça de dobrar a ponta do esparadrapo depois!)

Quem dá mais?

Monday, April 10, 2006

Custo, preço e valor




Uma das principais críticas feitas à viagem do astronauta brasileiro - o militar Marcos César Pontes - diz respeito ao gasto de US$ 10 milhões por parte do governo federal.

(Outras duas críticas me parecem pouco defensáveis. A saber, a primeira: a de que a viagem de Pontes é mera propaganda eleitoreira de Lula não se sustenta porque o programa começou há oito anos, portanto, durante a gestão FHC. E a segunda: de que os experimentos feitos por ele no espaço não servem de nada, mas ainda que assim fosse, eu concordaria com o próprio coronel, que enxerga em sua missão um fator de motivação aos jovens em formação.)

Mas voltando à cifra dos 10 milhões. Não achamos despropositados os valores que envolvem as grandes transações no futebol: Tevez veio para o Corinthians por 20 milhões de dólares, o Real Madrid pagou 30 milhões para ter Robinho. Tudo ali, na lata. Não quero dizer que 10 milhões sejam dinheiro de pinga nem omitir o fato de que, no caso dos jogadores, é dinheiro privado, enquanto a viagem do astronauta é dinheiro público.

No entanto, 10 milhões investidos em oito anos representam 1,25 milhão/ano, o que não me parece nenhuma soma absurda. Na esteira da crítica quanto ao valor absoluto gasto pelo governo, vem a queixa de que o Brasil poderia investir esses 10 milhões na formação de muitos cientistas. Nas últimas décadas, o Brasil tem conseguido formar e até exportar cientistas, sobretudo, graças às parcerias do governo com a iniciativa privada. É o tipo de relação "boa para ambas as partes": as instituições públicas, como as universidades, ganham acesso às tecnologias mais recentes, viabilizadas pelo contato com as empresas, e a iniciativa privada pode contar com a mão-de-obra de melhor nível em formação no país.

Uma exposição do país nesse programa, enviando um cientista para o espaço, não funciona, no mínimo, como estímulo para que outras empresas adotem políticas de parceria e participação junto a instituições de ensino e pesquisa? Eu acho que funciona.

Friday, April 07, 2006

Teto de vidro

Tenho dito por aqui que sou uma incorrigível otimista e espero sempre cultivar essa característica. Um dos aspectos mais positivos trazidos pela crise de ética instalada no Brasil, especialmente do meio de 2005 para cá, foi na minha opinião a oportunidade da reflexão e do debate.

Foi como se o PT, pilhado em flagrante, determinasse a queda do último bastião de honestidade da nação. Não é o meu caso, mas muita gente que nunca tinha votado no PT acreditou no partido, nas últimas eleições presidenciais, pela aura de ética que seus candidatos sempre fizeram questão de transparecer.

Destruída essa ilusão, parece-me que parte da sociedade caiu em uma desesperança sem precedentes, daí a quantidade tão grande de intenções ao voto nulo, como as que tenho ouvido aqui e acolá. Mas uma parte da nação me parece disposta a olhar a situação por outro ângulo.

Os outros roubavam e mentiam, esses roubam e mentem. Não presta ninguém. Eu também não presto? Tenho sido ético e honesto em todos os momentos da minha vida? Desonesto é só o político que desvia dinheiro público para negociações escusas de bastidor?

E a empresa que eu abri no município vizinho e que me permite recolher menos impostos, ainda que eu não atue lá?
E a nota "espelhada", que preencho com valor correto para o cliente e subfaturada para o controle fiscal?
E o carro que eu emplaquei numa cidade do sul do país, para me locupletar de uma taxa de licenciamento menor e para escapar de eventuais multas?
E o material de escritório que subtraio dia a dia do local onde trabalho?
E a fita isolante maquiando a placa do carro, para que ele não seja identificado nos radares da cidade?

Os políticos erraram, erram ainda e continuarão errando enquanto refletirem os hábitos, vícios e erros da sociedade que os elege.

Acerca do tema, escreveu a psicóloga Rosely Sayão, com quem cheguei a cruzar na redação da Folha, muitos anos atrás, e ela certamente não se lembra de mim (mas eu a tenho em altíssima conta, pela lucidez das posições, pelo tanto que ela me ilumina e inspira na criação do meu filho).

Recomendo entusiasticamente a leitura deste artigo, publicado na edição de ontem do caderno Equilíbrio, da Folha de S. Paulo.

Sunday, April 02, 2006

E agora, José?



Seguindo o movimento iniciado no blog do Pedro Alexandre Sanches, abro o espaço para os comentários acerca do tema acima.

Estejam à vontade.