Sunday, July 26, 2009

Comunicação de Massa


Nessas horas, até quem não acompanha Fórmula 1 acaba se ligando nas imagens da TV. Tudo captado pelas câmeras: a mola voando em direção à Ferrari, os braços inertes sobre o volante, freio e acelerador pressionados até o fim, juntos. E o carro seguindo direto para a barreira de pneus, a cabeça imóvel, o atendimento médico ágil, o suspense, a movimentação de repórteres e pilotos.

E o contexto novelesco se formando. O irmão no paddock, os pais no Brasil, junto da esposa, ainda por cima grávida. A Globo, que nunca passa a entrevista coletiva dos pilotos após o treino, ontem esticou a transmissão. Audiência em alta, segura aí! Ao longo da transmissão, Galvão Bueno passando do blasé para o histérico. Primeiro, como se tudo fosse uma habitual batida contra a proteção de pneus. Depois, percebendo que Massa não tinha batido-e-desmaiado, mas desmaiado-e-batido, tornando-se cada vez mais dramático.

"Nunca pensei que teria de dizer isso novamente: vá com Deus, meu amigo..."

Frase dita ao vivo, repetida depois, ao vivo, no Jornal Nacional. O JN, que em condições normais daria uma matéria de um minuto, um minuto e meio para a Fórmula 1, abriu a edição com "o drama de Massa". Link ao vivo no hospital, com Galvão dando testemunho de ser uma das seis pessoas que estiveram na porta do centro cirúrgico, esperando a saída da equipe médica. Esforço de reportagem no aeroporto. A esposa grávida em desespero, dois celulares nas mãos, chora abraçada ao sogro, pede para não gravar entrevista, mas, entre lágrimas, pede: "Não importa qual seja sua fé, reze por ele." E a apresentadora, lançando migalhas ao público ávido: "No final desta edição, mais informações sobre o acidente de Felipe Massa." Audiência, segurem-na!

Uma foto de Massa, ainda de capacete, é mostrada. O olho esquerdo fechado, o corte no supercílio, o olho direito arregalado. A mesma foto, no dia seguinte, estampada na primeira página de vários jornais. Uma foto mundo-cão. Nós, jornalistas, defendemos a publicação desse tipo de imagem pela relevância da notícia. Nós, seres humanos, ficamos chocados com a exposição da dor e da tragédia.

Quem está certo? Espaço aberto para o debate.

16 comments:

Anonymous said...

Pra variar, aparecem os mesmos vícios de sempre.
Quem vê no YouTube uma transmissão qualquer da RG com o locutor oficial nos anos 80 pensa ser outro cara. Mas não é.
Assim como somos sistematicamente dopados pela RG, transmitindo fatos por uma ótica muito particular, os profissionais que fazem seu trabalho parecem estar em um planeta diferente.
Às vezes tenho nojo, outras vezes raiva. Tem que gostar demais de corrida de carro para aguentar esse teatrinho besteirol. Quando ainda era engraçado dava pra suportar, mas agora o besteirol chega as raias do surreal.
Quem gosta disso tudo não aguenta mais essa arrogancia incompetente, esse drama lamentável.
Claudio Ceregatti

Marco Fabretti said...

Primeiro pensamento que me veio à cabeça ao ver a foto: manera!

10 segundos depois: meio pesada a foto né?

sem universalizações desnecessárias, acho que, no fim, posturas jornalísticas sensacionalistas se dão devido ao público que as consome. E aqui não faço uma crítica a A ou B: todos consumimos. Todos gostaríamos de saber como estava o Massa após a batida, e queríamos imagens, e uma narração que nos mantivesse próximo ao fato ocorrido, mesmo que nos afastássemos depois deste tipo de postura.

A exposição da dor e da tragédia me parece ser mais interessante que o cotidiano. Que a finalidade de quem as expõem seja algo como índices de audiências e suas consequências, não as tornam menos interessantes. É como se fosse uma novela: espectadores num teatro famintos por emoções que os deixem vivos. Que o teatro seja a TV ou o jornal da manhã, tanto faz.

Mas é só uma hipótese.

Gostei do teu blog.

Fabrizio Salina said...

Penso que por mais forte que seja umaa imagem, é melhor saber que foi mostrada do que ocultada, ou pior, adulterada, como era de praxe em regimes totalitários de até pouco tempo atrás.
A verdade muitas vezes não é bonita, razão pela qual a mentira e a condescendência costumam preponderar.
Por sua vez, a cobertura está certa em editar de forma a incrementar a audiência. Tv é meio de comunicação de massa, queiramos ou não.
E por fim, sobre o Galvão, acho que a pessoa dele é aquilo ali, e por mais questionável que sejam suas intervenções, parece que relmente gosta dos pilotos. Seus arroubos se justificam, pois em tempos de puritamismo e falsa ética, a questão é de se perguntar o que faríamos no lugar dele?

Marcos Antônio Filho said...

sobre a questão da foto, eu sinceramente condenei todos os jornais e sites que fizeram questão de usar em suas primeiras páginas. Uma foto dessa não informa,choca. É sensacionalismo, aquela foto ficaria bem no "Notícias populares" mas não em vários jornais considerados importantes, fora alguns sites de noticias e especializados. Incrível o que fizeram pra chamar atenção das pessoas que não acompanham a F1. E sobre a transmissão piegas da globo, lamentável, porém justificável:o trio da plimplim é amigo do Massa, janta junto, viaja junto, na hora, eles nem quiseram fazer questão de separar as coisas. Fora a questão d emostrar que a F1 é um esporte emocionante e seguro.Mas automobilismo é muito perigoso.

Daniel Médici said...

Em primeiro lugar, registro meu apreço pelo título do post.

A frase do Galvão me fez pensar. Como vc apontou muito bem (e eu não tinha percebido) o automobilismo sai pela primeira vez da esfera dos entusiastas no Brasil e se alastra por toda opinião pública, desde a morte do Senna.

Curiosamente, o automobilismo volta à língua do povo da mesma maneira como ele foi embora: com um acidente, com um brasileiro, com um helicóptero, com um hospital... Ao menos o desfecho não parece estar em vias de se repetir.

Daniel Médici said...

Com um capacete desfigurado, com uma família entre lágrimas... Quanto mais penso, mais os dois fatos parecem especulares. O registro ao vivo, a exploração da imagem...

Estendemos aos coadjuvantes: Barrichello sofreu o acidente e foi visitado pelo Ayrton no hospital. Agora o mesmo é o "causador" (e bota aspas nisso) do acidente e aquele que visita o Felipe internado.

Mas a relação especular mais impressionante é mesmo a da opinião pública. No primeiro caso, abandona o automobilismo. No segundo retorna a ela. Momentaneamente, ao menos.

Edu said...

Jornalismo desesperado. A repórter (MB) que passou o dia na frente do hospital chega a se referir a uma fã que está atrás, desfocada, e não arreda pé dali. Que lindo, uma fã solitária, impossível uma imagem mais cliche.
E uma inserção em cada programa para repetir o que já havia sido dito: Felipe está sedado, estável e teremos notícias amanhã.
Volte amanhã, por favor.
O que mais dá cólica é ver a feição grave do apresentador, se apressando em dizer (num ataque de síndrome de bentinho) que "eu" falei com a família, "fui" (e sou eventualmente) convidado a jantar no motor home. E a aparência grave como se não quisesse ser o portador da mensagem, mas está ali, impávido, cumprindo sua missão maior, que é noticiar a quase morte de um piloto que é seu quase filho.
"Continuem orando, seja qual for sua religião". É válido saindo da boca da esposa, desesperada, mas retransmitir à exaustão pela equipe de reportagem? Ok, adoro F1 e entre os brasileiros torço para o Massa, gente boa, competente, determinado e não chora, mas menos né? Não nos insulte.

Ron Groo said...

Não consigo formar opinião.

Existem imagens muito mais chocantes que hoje servem de documento histórico.

Uma execução no Vietnã, um assassinato no Irã.
Mundo cão, claro. Mas relevante no contexto jornalistico.

Choca, mas informa e no fundo mostra a fragilidade da vida e da condição humana.

Se deve ou não ser mostrado?

Sinceramente não sei.

E quanto ao Galvão e a Globo, acho que ninguém esperaria menos de suas transmissões. E isto não é um elogio.

Anonymous said...

Olá !
O é público deve ser mostrado. Mostram alegria em demasia, a dor não deve ser esquecida e sim lembrada para o momento de prazer sempre seja valorizado.
Bem ... é que eu acho.
bj a todos

Luis Biason

Cynthia said...

Ontem só assisti a corrida esperando por notícias, torcendo pela recuperação do Massa. Não aguento o GB.

Gabriel Pandini said...

Eu achei que o Galvão poderia ter dito diferente assim:
Torço pela sua recuperação Massa!
Ou ter falado como a Ferrari escrevendo:
Forza Felipe si Amo con te
Beijos
Gabriel

Gabriel Pandini said...
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Gabriel Pandini said...
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Marcio Gaspar said...

não tenho a mínima simpatia pelo fulano, mas é claro que torço pro cara escapar dessa. mas a verdade é que, nesse 'esporte' imbecil, os protagonistas estão lá pra isso mesmo: sofrer acidentes, se despedaçarem, morrerem ante os olhos ávidos por sangue. por isso ganham rios de dinheiro: pra correr riscos, pra enfrentarem a morte de frente. e vc disse bem, alessandra: tirando meia dúzia de aficcionados, a F1 só vai mesmo seduzir as massas quando aparecer um fora-de-série brasileiro como o senna, ou qdo algum outro brazuca sofrer uma cidente altamente ' midiático' como esse de agora. e o galvão bueno? a globo? a tal foto nos jornais? é isso que o público quer. normal.

Rafael Palladino said...

Pior foi a Ana Maria Braga ontem:
- "Acabei de falar com a Rafaella Massa, e ela disse que o Felipe está bem. Eles são meus vizinhos..."
Aí entra ao vivo a Mariana Becker:
- "Ana, a Rafaella agradeceu seu telefonema, mas não podia atender naquela hora..."
kkkkkkk ridículo querer forçar amizade. Igualzinho o GB.

Marcio Gaspar said...

e outra: é claro que o pentelho do rubinho não tem culpa, mas vai ser azarado assim lá na barrichelandia!! PQP!! Pede pra sair, ô seu barrica!