Saturday, May 03, 2008

Para gostar de ler - Contos de Gabriel García Márquez


.
Faz tempo que não escrevo sobre livros, por isso resolvi escrever sobre dois de uma só vez. Recentemente, li dois livros de contos do colombiano Gabriel García Márquez, provavelmente meu escritor preferido.

Desde que li "Cem anos de solidão", em 1984, sempre procurei ler tudo que pudesse desse autor. Até que, há alguns meses, percebi que estavam faltando pouquíssimos livros dele para que eu completasse toda a obra literária de García Márquez. Sempre que vou a uma livraria, dou uma vasculhada na prateleira de autores latino-americanos, para ver se tem algum desses que me faltam. Foi dessa forma que li, em 2008, as coletâneas "Os funerais da Mamãe Grande" e "Olhos de cão azul", exatamente nesta ordem.

É muito interessante ler o "jovem" García Márquez depois de já ter lido o autor consagrado, ganhador do Nobel de Literatura em 1982. Cito o jovem porque os dois livros de contos trazem histórias escritas no início da carreira, antes do sucesso de "Cem anos de solidão". E ambos funcionam como uma espécie de rascunho do que seria a grande obra do autor. Seja pelos temas, pelas referências à fictícia Macondo, onde se passa a trama de "Cem anos", seja pelos toques do chamado realismo fantástico, seja, ainda, pelo estilo em formação do autor, já com suas metáforas e com seu ritmo de texto, que alterna frases longas, algo rebuscadas, com outras, curtíssimas, com o poder de navalhas ultra-afiadas.

"Olhos de cão azul" reúne contos escritos entre 1947 e 1955, em publicações diversas. A coletânea, como livro, só saiu em 1974. Os contos têm em comum o mesmo tema - a morte, tratada de formas diversas. O conto de abertura, "A terceira renúncia", remete a um morto consciente do próprio corpo inerte e da própria morte. Faz lembrar o célebre "Pedro Páramo", conto de Juan Rulfo, tido como grande influenciador de García Márquez e de grande parte da geração de escritores latino-americanos florescida nas décadas de 1950 e 1960.

Está nesse livro, também, o inquietante e opressivo "Isabel vendo chover em Macondo", conto que antecipa a atmosfera de uma importante passagem de "Cem anos de solidão". Meu conto preferido, nesta obra, foi "Nabo, o negro que fez esperar os anjos", menos pela temática, mais pelo incrível parágrafo final, um looping de uma página e meia e um fôlego só, revelador do grande narrador que viria a ser García Márquez nos anos seguintes.

"Os funerais da Mamãe Grande", lançado em 1962, também traz alusões a Macondo. É na fictícia cidade criada por García Márquez que se desenrola o conto que dá nome à coletânea. O colombiano, em várias entrevistas, citou Érico Veríssimo e sua obra "O tempo e o vento" como influência importante de "Cem anos de solidão". Neste "Mamãe Grande", no entanto, há um quê de Jorge Amado, com um universo povoado por representantes de uma casta aristocrática opressora e gente do povo, fartamente oprimida. Deste livro, meu preferido é "Nesta terra não há ladrões", a história de um roubo e a luta de um homem com sua consciência e com sua miséria, para tentar desfazer-se da culpa e das provas de seu crime.

Dizer que recomendo a leitura de García Márquez é redundância. Serei, portanto, redundante: se puder, leia "Os funerais da Mamãe Grande" e "Olhos de cão azul". Se você já leu ou se quiser comentar qualquer coisa sobre as obras e seu autor, o espaço, como sempre, está aberto.

9 comments:

Ron Groo said...

Não li os "Olhos de cão azul", título que sempre me causou uma curiosidade muito grande. Bem como o "Amor nos tempos do cólera" que esta em minha pilha de livros para ler - quinze no total - até julho, quando aniversário e vou me dar de presente alguns livros do Paulo Scali,"Circuito da Gávea" entre eles.
Pois bem, voltando ao Gabo... "Os funerais de Mamãe Grande" é desde o oferecimento ao "Crocodilo sagrado" até o ultimo conto os tais funerais, é um livro emocionante.
Meu conto predileto é 'Nesta terra não há ladrões".
Dois outros livros dele altamente recomendáveis e que dão uma amostra de que Garcia Marquez é muito maior que sua obra de ficção são os volumes "Relatos de um Náufrago", onde ele narra a história real de Luiz Alejandro Velasco, que passou dez dias a deriva no mar e foi encontrado semi morto numa praia ao norte da Colômbia, sendo entrevistado de forma clandestina por um jornalista da oposição ao regime ditatorial de Rojas Pinilla.
Outro é o sensacional "A aventura de Miguel Litín clandestino no Chile", em que narra o retorno - também clandestino - do diretor de cinema chileno Miguel Litín, completamente disfarçado rodando um filme que serviria para denunciar a situação no País depois de doze anos de ditarura de Pinochet. A passagem onde Miguel encontra sua mãe é impagavel, e nem ela o reconhece... Maravilhoso...
Putz me estendi... quando falo de livros ou música é sempre assim, não me controlo. Desculpa aí! Alessandra.

Alessandra Alves said...

ron: em primeiro lugar, não se desculpe pela extensão do comentário. o espaço é para isso mesmo! os dois livros que você citou são extraordinários. por acaso, acabei de ler "relato de um náufrago" na semana passada. foi um desses livros que garimpei recentemente nas minhas idas às livrarias.
talvez eu escreva sobre "náufrago" qualquer dia desses. adoro ler grandes reportagens escritas por GGM tanto pelo prazer de ler seu texto quanto pelo orgulho de me saber colega de profissão de um dos meus autores preferidos. GGM conserva, como escritor, a alma de repórter que o forjou mestre da narrativa. no caso de miguel littín, gostaria até de ler novamente, porque já faz muitos anos que li e, sim, a cena do encontro do cineasta com a mãe é sensacional (embora eu esteja com a impressão de que ele encontrou, na verdade, a sogra, não a mãe. anyway...). desse livro, lembro de muitas passagens, como a da ida do cineasta a um barbeiro. quando solicitou que o profissional usasse água quente, o homem lhe disse: "então, fomos para o caralho, porque só temos agüinha fria..." hahahaha ressalvando que o uso da palavra "caralho" para os hispânicos é bem menos ofensiva que para nós. aliás (tá vendo como a gente não pára quando começa a falar de livro?) a última frase de "o amor nos tempos do cólera" também tem caralho no meio! e, por deus, vale muito a pena esse livro também!!!

Ron Groo said...

Como diria Adoniran:"-A dúvida é um bichinho que para roer tá sozinha, roe mais que rato em queijo parmesão!" Tá certo que ele usou outro sentimento em vez da 'dúvida', mas serve também...
Sobre a passagem no 'Miguel Litín' ele encontra a mãe mesmo, inclusive o capitulo chama-se "Nem minha mãe me reconhece" e é um dos últimos do livro.
Fui a minha pequena biblioteca e procurei livro por alguns minutos, e fiquei algumas horas com ele no colo, relendo... E de novo me diverti à beça.
E pronto, anotada a sugestão, estou a procura nos sebos pelo 'Cólera'...

Alessandra Alves said...

ron: obrigada pela dedicação em ir atrás da informação. leio "cólera" e depois me conte o que achou. você leu a primeira parte das memórias do GGM? nele, há um longo trecho que é, sem tirar nem pôr, a referência verídica desse romance.

e, pelo jeito, seremos só nós dois a papear sobre gabo...

Pamella B. said...

Eu estava buscando sobre um conto em "Olhos de Cão Azul" que me chamou muitaa atenção, que foi "Isabel vendo chover em Macondo", acabei de ler o livro ontem. E já me deu vontade de ler esse conto novamente. Não tenho palavras pro Gabo (já me sinto íntima pra assim chamá-lo, rs)! Me apaixonei no ano passado, e mais da metade dos livros que li só esse ano são da obra dele. E espero ler TODOS, assim como você fez! Sinto uma imensa satisfação sempre que vejo um post tão bem feito assim sobre meu autor preferido, é sempre bom saber que existem pessoas com gostos parecidos!!

Outra coisa, "roubei" sua idéia. Como li "Olhos de Cão Azul" esses dias, seu post me inspirou a também fazer um no meu blog, rs! Grande beijo!

Alessandra Alves said...

paemmla: obrigada pela visita. comentei lá no seu blog!

M. said...

Oi, Alessandra, olha eu aqui de novo! (espero que ainda dê tempo de ver este comentário, pq este é o 2º hoje, o outro foi sobre "Mack the Knife"). Queria só endossar o coro dos leitores do Gabo (meu autor favorito), e dizer que fiz uma análise do conto "Olhos de cão azul" no ano passado (sou aluno de letras). E pedir encarecidamente para que, quem não leu, leia "Ninguém escreve ao coronel", outra obra maravilhosa desse autor. A partir de hoje, vou acompanhar suas postagens e comentar quando tiver algo sobre algo de que eu goste - o que, pelo que eu vejo, ocorrerá com certa freqüencia.

Anonymous said...

achei uma caverna escura logo q li, e vi q gostava de cavernas escuras o raro em suas palavras soavam como pedras acesas nestes esquadros do olhar em sombra.enfim senti ao ler cem anos uma tamanha e isolada sassiação.Caiu-me tão precoce aidade qnem acredito q tenho 30 torneime um velho enjoado em gosto pra leituras

Anonymous said...

oi sou eu denovo "o anonimo",vc sab q são raras estas conversas interessantes sobre autores enfin,mas porém vivemos então destas ficções q aprendemos a gostar.já sobreviventes vivemos em buscas das tais horas,q...são pouquissimas:-ho!o q será d nós quando morrerem desdentados nossos autores?