Sunday, May 18, 2008

Juntos, outra vez

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Zelia Gattai não morreu ontem, na Bahia. Zelia tornou a viver. Pode ser que demore alguns dias, dias terrenos, essas vinte e quatro horas em que o planeta gira em torno de si mesmo, que convencionamos a chamar de dia. Em algum tempo, em medida que desconhecemos, Zelia reencontrará a vida porque estará de novo com seu grande amor.

Jorge Amado morreu em 2001, deixando para Zelia os dois filhos e os netos, a cadeira na Academia Brasileira de Letras, a solidão na casa do Rio Vermelho. Parece que foi mais cedo para arrumar a casa e esperá-la. Conhecendo Zelia e Jorge por meio dos livros dela, é de se imaginar que a casa estará uma bela bagunça. Zelia chegará para colocar ordem na nova vida dos dois.

Foi assim desde 1945, quando os dois se conheceram, ambos desquitados, militantes do Partido Comunista. Fascinada pelo escritor baiano, a paulistana assumiu a vida do marido como a própria vida. Mudou-se com ele para o Rio, acompanhando-o já eleito deputado federal. Declarado ilegal o partido, foram exilados para Paris, depois Praga, na então Tchecoslováquia, e finalmente, Salvador.

Mulher, desquitada, militante comunista. Zelia mudou-se com Jorge para o mundo deixando tudo para trás. Teve coragem até para deixar o filho, fruto de um primeiro casamento, aos cuidados das irmãs. Não, esse não era um amor qualquer.

Colocou ordem na vida de Jorge, responsabilizando-se até por passar a limpo e revisar seus originais.

Escritor popular, talvez o mais popular do Brasil, Jorge sabia que não era considerado pela intelectualidade como um literato. Talvez não fosse mesmo, mas não parecia se importar com isso. Jorge talvez tivesse a consciência da missão nobre a ele reservada: enfiar a cara de milhares, milhões de pessoas em todo o mundo dentro de um livro. Não há que ser literato para isso, há que ser bom contador de histórias.



E foi o talento para contar histórias que Jorge detectou na mulher, incentivando-a a escrever suas memórias. "Anarquistas graças a deus" foi o livro de estréia de Zelia, aos 63 anos de idade. O conselho dele: escreva de maneira simples, sem parecer literato. Não somos literatos.

Com sua singeleza, Zelia tornou-se uma competente cronista de suas épocas. Da São Paulo dos anos 20 e 30, do Rio de Janeiro dos anos 40, da Europa dos anos 50. Histórias prosaicas, daquelas que aconteciam na vida de qualquer um, transcritas em textos fluidos, sem empáfia.

Zelia, como Jorge, ajudou a despertar em muitos leitores o amor pelos livros. Obrigada, Zelia, vai cuidar do teu baiano romântico e sensual, vai.

9 comments:

Ron Groo said...

Esse tempo terreno que você cita, poeticamente, vai ser bem menor que o que podemos sequer imaginar.
No céu, ao lado de Neruda, seu amigo em vida, Jorge já preparou uma daquelas maravilhosas moquecas que perfumam as paginas de alguns de seus livros para receber Zélia.
E que lá de cima, sem sentimentalismos, que não sou disso e nem ‘religiosismos’ - se existir a palavra - que os dois olhem por todos aqueles que de uma forma ou de outra fizeram desta coisa maravilhosa que é juntar letras, formar palavras e criar frases para contar histórias ou informar as notícias e os protejam e ilumine.
E sim, um grande amor, como o dos dois nunca tem fim, nem nas partidas desta vida...

Gustavo Castro said...

Excelente post, Alessandra. Só uma correção sobre dois posts atrás. A última ultrapassagem valendo a liderança não tinha sido a de Alonso em Massa na Alemanha e sim a de Kimi em Hamilton na China.

Anonymous said...

Alessandra, como você, curti demais as histórias de Jorge Amado e também a pessoa do Jorge, com isso aprendi a admirar sua companheira, pensava pô será que essa mulher escreve bem mesmo? Um dia, incentivado pela mini série Anarquistas, encarei o seu livro e por fim, a feliz descoberta. Ali também estava taleno e sensibilidade à flor da pele. Hoje fico aqui imaginando o casal vivendo aqueles tempos difíceis, mas que graças a amizade e o amor conseguiram superar. Você reiterou o que eu já achava: Os dois incentivaram muita gente ao delicioso hábito da leitura. Valeu Zélia, Axé Bahia. Ed.

Cynthia said...

Não li quase nada de Jorge e li quase tudo de Zélia. Contava uma história como ninguém...

Hugo Becker said...

Linda a forma como você colocou a história deles... eu, que nunca dei tanta importância assim ao casal, me interessei após ler esse post. Por aí a gente percebe a influência e o poder que um texto em um blog pode ter na vida de alguém...

Ah, e quanto a rua Antônio de Souza... sério que é seu avô? hahaha... que tipo de vínculo seu avô tinha com Guarulhos? Que mundo pequeno, meu Deus... hahaha

Beijo!

http://mottorhome.blogspot.com

Celso Vedovato - Salvador - Bahia said...

Tive o grande prazer de estar brevemente com a escritora Zélia Gattai. Se a Alessandra me permite, tento contar rapidamente aqui nos comentários.
Nos anos 90 já alimentava um sonho de morar na Bahia, terra da minha família paterna.
Em 99 com o sonho tomando forma, soube do lançamento com noite de autógrafos de A Casa do Rio Vermelho. De repente decidi, vou lá, falarei do meu sonho de morar na Bahia.
Na minha vez, ela foi gentilíssima, eu tomei coragem e falei do meu sonho, ela levantou-se, e carinhosamente me deu a mão e disse, "realize o seu sonho Celso, e será mais um paulista feliz em Salvador. A Bahia te acolherá bem, tenha certeza...E quando se mudar nos faça uma visita na Casa do Rio Vermelho".
Quase caí de costas, não podia acreditar em tanta gentileza, em tanta ternura, em tanta simplicidade. E a D. Zélia ainda era a cara da minha querida avó baiana - Anália.
Fiquei profundamente emocionado e saí com o meu autógrafo - "Para Celso, a casa do rio vermelho e o carinho da Zélia Gattai". Claro que repetiu este autógrafo muitas vezes naquela noite. Mas o carinho, o gesto de levantar-se, a palavra doce de incentivo, me comoveram. Me tornei desde então um fã daquela senhorinha tão doce e tão forte, tão terna e tão "Amada".
Em 2000, realizei meu sonho e vim morar na Bahia. Não..., nunca fiz a visita. Nunca tive coragem de tocar a campainha da casa, passei algumas vezes pela Rua Alagoinhas n. 33 no Rio Vermelho... mas não conseguia tocar a campanhia. Em 2000, as notícias da saúde de Jorge Amado já não eram boas, sempre achava que incomodaria a paz do casal.
Acho que foi melhor assim, guardei carinhosamente aquele livro, o autógrafo e principalmente aquele afetuoso incentivo e o delicado convite.
Que eles, que nem a morte separou, sigam mais juntos, agora na nova casinha deles lá no céu. Quem sabe um dia, essa eu visite, com mais tempo e sem as preocupações terrenas desse nosso mundo.

Alessandra Alves said...

ron: ontem, vi a neta dos dois, maria joão, mostrando a casa do rio vermelho e a mangueira onde estão depositadas as cinzas de jorge, para onde vão também as de zélia. história que me toca muito essa, viu?

gustavo: obrigada pela correção. de fato, raikkonen acabou ultrapassando hamilton antes que o inglês cometesse o erro que lhe custou o campeonato (um dos dois erros, aliás). interessante que ninguém, na transmissão, chamou atenção para essa corrida. embarcamos todos na ultrapassagem de alonso sobre massa, em nurburgring. obrigada!

ed: os livros da zélia são uma delícia! li vários, depois de "anarquistas graças a deus". gostei muito de "um chapéu para viagem", quando ela narra o início da vida em comum dos dois.

cynthia: concordo. por isso fiquei toda cheia quando o ron comparou uma pequena crônica minha aos textos dela.

hugo: fico feliz pela influência. quanto à avenida, sim, senhor! meu avô era o antonio de souza! meu vô antônio era de são paulo e sempre viveu na zona norte. ele tinha uma imobiliária e fazia vários loteamentos na região de tucuruvi, jaçanã, até acabar em guarulhos, que faz "fronteira" com esse pedaço da zona norte. aí na sua cidade, ele ficou muito próximo de um ex-prefeito, chamado antonio pompeu (era antonio? vixe, só lembro, com certeza, do sobrenome). e começou a se envolver em programas de assistência social, fazendo natal para crianças carentes, arrecadando doações etc. por conta desse trabalho social, recebeu a homenagem, um ano e pouco após sua morte, em 1975, do próprio pompeu, que deu o nome dele à avenida recém-inaugurada. em tempo: meu nome inteiro é alessandra de souza alves.

celso: puxa, rapaz, obrigada, de verdade, pelo seu relato. que coisa bonita! eu nunca estive pessoalmente com a zelia, mas não me surpreende sua descrição. ela exalava essa doçura e tenho certeza de que ficaria muito feliz se você a encontrasse depois de ter mudado para salvador e dissesse que tinha seguido o conselho dela. mas concordo que você fez bem em não bater à porta da casa do rio vermelho. eu acho que também não bateria. como você bem disse - essas nossas preocupações deste mundo... vendo essa reportagem com a neta dela, uma coisa me chamou muito a atenção: que casa simples, espartana mesmo...

Gustavo said...

É Alessandra, eu percebi isso um pouco depois da transmissão do rádio, revendo o dvd oficial da fórmula 1 das últimas três corridas, para relembrar o fantástico título do meu ídolo. E foi uma ultrapassagem linda, o Hamilton não tracionou bem e o Kimi por dentro tomou o posto.

Um abraço

Hugo Becker said...

Nossa, juro que não sabia dessa história toda... acho que é um problema do consciente coletivo dos guarulhenses. Estamos tão próximos de São Paulo, vivemos mais na capital do que aqui (Guarulhos é uma cidade-dormitório, o pessoal trabalha, vive, se diverte e gasta dinheiro na capital), e conhecemos mais da história paulistana do que da nossa própria história.

Sabe aquela coisa que transparece, às vezes, de que os portoalegrenses são "semi-argentinos"? Então, nós guarulhenses somos semi-paulistanos... e abandonamos nossa própria história, na maioria das vezes.

Mas legal demais conhecer essa parte da história, Alessandra de Souza Alves! hahaha

Beijão