Monday, February 12, 2007

Primeiro mundo, pero no mucho

Estava ouvindo o noticiário da manhã, pelo rádio, quando uma propaganda me chamou a atenção. Uma rede de postos de combustível sugeria que pessoas "apaixonadas por carro", desejosas de trabalhar em tal rede, cadastrassem seus currículos na página da empresa, na internet. Sempre que acontecem essas situações, olho para o aparelho de rádio como se ele pudesse me explicar algo mais com o olhar.

Sei que é uma tentativa de apenas concentrar melhor minha atenção, para ter certeza se entendi direito. Estamos falando de trabalhar como frentista de posto, certo? Não, já comecei mal. Assim como as empresas hoje não têm mais funcionários, muito menos empregados (ô boca suja!), mas "colaboradores", postos não têm mais frentistas. Inventaram um vasto sortimento de nomes para a função, até "auxiliar de pista". Então tá. Estamos falando de profissionais para encher o tanque do carro, verificar fluidos, lavar o vidro, calibrar os pneus? E precisa pedir para esse pessoal "cadastrar o currículo no site"? Não é demais?

Tudo bem. Vamos verificar a realidade do país. Hoje em dia, conectar-se à rede não é nenhuma tarefa hercúlea. Há trocentas lan houses em todo canto, as Casas Bahia vendem computador em dezenas de prestações fixas. Sejamos Pollyanna e não sejamos preconceituosos: por que só os universitários podem cadastrar seus currículos na web? Façamos o mesmo com os frentistas! Estamos todos plugados, viva a banda larga, uma salva de palmas para o e-mail. Acho que entramos para o Primeiro Mundo e não me informaram, vai ver foi isso.

Daí chego em casa do sacolão, vou pegar o carrinho de compras na garagem e me deparo com uma engonhoca nova. Os dois carrinhos do prédio estão presos à parede por um cabo de metal flexível. Para soltá-los, há que ter uma chavinha própria, com o número do apartamento. Assim, quem chegar para usar o carrinho e não encontrá-lo disponível vai saber, pela chavinha dedo-duro, quem cometeu o crime de retirá-lo e não o devolveu. Portanto, depois de descarregar as compras no apartamento, devo voltar à garagem para resgatar minha chavinha e salvaguardar minha reputação.

Ao contexto: moro em um prédio pequeno, com apenas dezoito apartamentos e um único andar de garagem. Não seria muito mais lógico que cada morador, ao usar o carrinho, deixasse-o de volta no elevador? Quem fosse usar o mesmo na seqüência simplesmente devolveria o carrinho à garagem e pronto. Eu usei, você tira. Você usou, eu tiro. Não cairia a mão de ninguém e, mais importante, eis o detalhe!!! Quem usou o carrinho pela última vez não iria fazer mais duas viagens de elevador, aumentando o consumo de energia e o desgaste do equipamento.

Acho espantoso o fato de que estamos todos preocupados com o meio ambiente e com o consumo de recursos naturais, mas não somos capazes de trazer isso para o dia-a-dia. Também me espanta o abismo entre o discurso de um povo metido a bacana, que quer ser civilizado, e sua prática. Porque o cidadão do mundo, que viaja para a Europa a bordo de seu pacote turístico pago em prestações, acha lindo o jeito como o gringo respeita o espaço do outro e aproveita melhor os recursos. Mas na hora de agir de fato como uma comunidade, Deus me livre.

9 comments:

Gabriel Izar said...

Pôxa Alessandra, deixar o carrinho no elevador ? Nem te passa pela cabeça que alguém possa usar o mesmo sem passar pela garagem e ainda ter que dividir o espaço com um trambolho largado lá dentro ?

Não acho inteligente a solução da chavinha, mas acho muito cômoda e egoísta a solução de deixá-lo dentro do elevador, é simplesmente transferir um problema para o vizinho.

Não moro em apartamentos e não tenho opinião formada quanto ao problema, entendo que o ideal seria que todos morássemos em casas e pudéssemos descarregar nossas compras sem o auxílio de carrinhos.

Alessandra Alves said...

gabriel: o que você chama de transferir o problema para o vizinho eu chamo de viver em comunidade. por um bem maior - a economia de energia elétrica para o prédio (e para o planeta, afinal) - não me custa nada tirar o carrinho que outro usou. porque, ao que consta, todo mundo faz compras e todo mundo anda de elevador em um prédio. é a história de que uma mão lava a outra.

essa tática de deixar o carrinho no elevador é usada, por exemplo, no prédio em que minha mãe mora. lá, são 19 andares, com quatro apartamentos por andar. a assembléia de moradores percebeu que menos viagens de elevador significavam contas de energia elétrica menos altas e adotou a medida. as pessoas simplesmente se adaptaram.

Gabriel said...

Fico imaginando como seria usar um elevador que tem um carrinho lá dentro para um deficiente que depende de cadeira de rodas ou então para quem está saindo com o filho e o carrinho de bebês...

Entendo que deixar o carrinho representa menos viagens, a questão é que as viagens não são exclusivas da garagem para o apartamento das pessoas, existem casos em que o carrinho poderia ficar passeando de um lado para o outro sem sair de dentro do elevador por horas...

Alessandra Alves said...

gabriel, bem lembrado. minha colocação não levou em conta os cadeirantes e os carrinhos de bebê, você tem razão. é preciso olhar as exceções. mas vou insistir na possibilidade de uns ajudarem os outros. normalmente, os prédios têm dois elevadores, um social e um de serviço e o carrinho é restrito ao de serviço, o que deixaria o social livre para esses passageiros que precisam mesmo de prioridade.

Gui Barranco said...

Ale,
Dessa vez eu concordo com o Gabriel, o carrinho no elevador acaba gerando problemas, não só pro cadeirante ou pais de bebês, mas você já pensou na hipótese de sair um monte de gente de casa e não caber todo mundo no elevador porque o carrinho está lá?
Haveria a necessidade de uma segunda viagem de qualquer jeito.
Além disso, dependendo do elevador é impraticável, aqui no meu, com o carrinho só cabe mais duas pessoas (e das magrinhas....).
O pior é se a turma estiver com pressa e resolver tirar o carrinho e descer todo mundo, aí vai ser um Deus nos Acuda, pois alguém vai ter que procurar o carrinho de andar em andar, o que significa um tremendo aumento do consumo da energia e do elevador.
Acho a chavinha limitante, mas ainda a vejo como uma regra compulsória para a nossa civilidade tupiniquim ainda rareante.
Sobre os frentistas... Well, acho que o anúncio não era pra vaga de frentista, mas sim pras vagas da companhia distribuidora de petróleo ou na parte administrativa da rede de postos. Eu pelo menos teria entendido assim.
Enfim, mil felicidades pelo aniversário, pois ainda que você não tenha comentado, ontem, 12 de fevereiro foi aniversário da Blogueira!!!!
Beijão!

Gui Barranco said...

Corrigindo.... só cabeM mais duas pessoas... hehehehehe Faha nossa...

Alessandra Alves said...

gui: eu continuo apoiada em uma experiência que eu conheço e que deu certo, inclusive com redução de conta de energia elétrica, mas reconheço os seus argumentos e os do gabriel, pois como já diz o sábio popular, cada caso é um caso.

acho que meu inconformismo vem mesmo é da chavinha, a isso que você se referiu como "regra compulsória para nossa civilidade tupiniquim ainda rareante" (hahahaha - adorei!). quer dizer, tem que ter a chavinha lá, com o número do apartamento, porque se não tiver muita gente pode nem se dar ao trabalho de tirar o carrinho do próprio corredor! e nós estamos falando de gente de classe média, teoricamente "estudada", teoricamente "civilizada". no fundo, é isso que me desanima.

quanto ao anúncio, acho que é para frentista mesmo. até ouvi a peça hoje de novo.

Edu said...

Meu pai é chaveiro e eu sou chaveiro também.

Conheço esse sistema e as vezes um quebra a chave só para levar a cabeça embora e não ser dedurado.

Feita a regra feita a trapaça.

Edu said...

Só para continuar o feita a regra, feita a trapaça... É por isso que sociedades livres só são livres na base do autoritarismo moral, esse negócio de moralismo que é pregado pelas religiões.

Só que hoje eles acreditam que se livrar desse moralismo é que é ser livre. Enquanto as evidências provam o contrário, quanto mais nos livramos mais ficamos presos atrás das grades, vigiados por cameras, etc...

A própria classe média, estudada, é genericamente anti-religiosa. Isso porque nos últimos 40, 50 ou 60 anos o estado tomou papel quase que totalitário na educação.

O papel da religião entre os pobres já é bem mais importante e uma boa parte leva isso a sério.