Sunday, August 02, 2009

Benza Deus (nº 2)



Minha avó Elza deve ter sido a única pessoa na história da humanidade a se casar às seis horas da manhã. Ela e meu avô Antonio, naturalmente, posto que ela não se casou sozinha. Minha avó Elza tinha histórias curiosas, sui generis, algumas tristes, outras de chorar de rir.

Entre as tristes, a saga da mãe, portuguesa, que partiu de Trás-os-Montes com o marido e os três filhos e desembarcou no Brasil sozinha, vendo a família morrer aos poucos, dizimada por uma daquelas pragas que contaminavam os navios de imigrantes. Minha avó nasceu do segundo casamento, uma união que gerou vinte filhos, com um aproveitamento de menos de 50%. Sobraram nove. Minha avó era a terceira entre os vivos. Sui generis o detalhe de que o bisavô, o reprodutor dos vinte rebentos, era já viúvo, pai de doze filhos, alguns adultos, o que levou minha avó a vivenciar a estranha experiência de ter vários sobrinhos mais velhos que ela.

(Definitivamente, entendo porque ler "Cem Anos de Solidão" não me causou nenhuma estranheza...)

Vó Elza conheceu meu avô em fevereiro de 1940. Ele, de São Paulo, vendia aparelhos de rádio. Ela, em Amparo, interior paulista, bateu o olho no rapaz e, seguindo o conselho de uma prima mais velha, arrancou impulsivamente uma etiqueta do chapéu dele. Dizia, em uma dessas histórias curiosas, que isso era um código para a moça sinalizar ao galente pretendente que, sim, estava a fim. O impulso foi tanto que, ao arrancar a etiqueta, rasgou o forro do chapéu do moço da capital. O que não o impediu de voltar lá em junho do mesmo ano e trazê-la para São Paulo, como esposa.

Os costumes da época não permitiriam que a moça viesse para São Paulo sozinha com o noivo para se casar. E, naturalmente, não se aventava a possibilidade de transferir para a capital toda a família, com os doze filhos do primeiro casamento, os nove do segundo e adjacências. Tinha de ser em Amparo a cerimônia. A logística era complexa. Se casassem às seis da tarde, não teriam trem para seguir viagem. E não teriam morada para usufruir da noite de núpcias e seguir viagem na manhã seguinte. A solução foi marcar o casório para as seis da manhã. Finda a cerimônia bem a tempo de pegar o trem, em 29 de junho de 1940, Dia de São Pedro.

Pronto o vestido, Vó Elza cismou de entrar na igreja com um buquê de camélias brancas. Mas quem haveria de colher camélias antes das seis da manhã, para a cerimônia em tão inusitado horário? Pois a moça tinha pensado em tudo. Pediu que um dos irmãos (e não devia ser difícil achar algum dando sopa) colhesse algumas camélias na noite anterior. Deixou o buquê pronto e, terror! Quando foi se aprontar, viu que as flores estavam escuras. Vó Elza estava cansada de ver as belas flores vicejando na natureza, mas não conhecia a delicadeza da planta, que a um simples toque com a pele já começava a escurecer. A solução não me é exata na memória. Não sei quais flores escolhidas e colhidas para o evento, só sei que Vó Elza aparece na foto do casamento com uma maquiagem da moda, engraçadíssima aos dias de hoje, com a boca em coração, como a maquiagem da Minnie, e segurando um buquê de flores brancas, que não eram camélias.

Hoje, Vó Elza completaria 90 anos. Benza Deus, como ela diria. Segue uma camélia virtual para você, Vó Elza, Bisa Elza. Esta, tenho certeza, não vai escurecer.

2 comments:

Edu said...

Juro que não ia comentar esse post, não gosto de ficar comentando tudo, como se precisasse - além de ter uma opinião, compartilhar sempre.

Mas a verdade é que é um texto lindo, sensível, uma janela para as histórias da sua vida, e um relato gostoso que mostra como as coisas eram diferentes.

Então, o propósito desse é dizer que foi um post lindo, inspirado e que me emocionou.

Parabéns.

@brunnobarranco said...

Não sabia dessa nossa história... meus olhos se encheram de lágrimas... gosto de ouvir as histórias de nossas família!
Beijos e parabéns pelo blog!