Sunday, December 16, 2007

49:00

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Hoje, fiz minha última corrida “pra valer” em 2007. A última, de verdade, será a São Silvestre, mas esta não conta, porque vai ser mais confraternização que performance.

Circuito das Estações, Corrida do Verão, o mesmo circuito, quatro vezes em um ano. Largamos e voltamos ao Estádio do Pacaembu, fazendo a maior parte da prova em cima do Elevado Costa e Silva, o famigerado Minhocão. A meta era fazer abaixo dos 50 minutos, tempo que tenho perseguido há alguns meses. “Será que hoje dá?”. Saí de casa com a incerteza rondando o pensamento.



Cheguei à Praça Charles Miller e logo encontrei o mestre Zé Eduardo, nosso técnico, e o colega Zoca. Um pouco mais à frente, o nipônico Henry, o homem que não transpira. Dentro do estádio, que está em reforma, já nos esperavam outros membros da equipe. Nilton, Lara, Adalberto. O clima estava perfeito. Sem sol, não muito abafado. Comecei a achar que ia dar.

Pouco antes de voltar à praça, de onde partiríamos ao som da sempre bem-vinda “Where the streets have no name”, do U2, encontramos o outro Henry, que também é japonês. (E este é o terceiro Henry nissei que conheço!) Henry, o segundo, é de outra categoria. A exemplo do Zé, é triatleta, um esportista de alto nível. Olhou para mim e perguntou, quase em tom de ordem: “Vamos correr abaixo dos 50, hoje?”

Comecei a confiar que, sim, hoje ia dar. Na sexta-feira, Zé tinha me dado duas estratégias para avaliar. Deliberamos brevemente sobre as duas e me propus a acompanhar o japonês, aumentando progressivamente o ritmo. Zé deu aval, largamos muito mais forte do que eu tinha feito até então. Tanto que passamos o primeiro quilômetro abaixo dos cinco minutos! Entre o segundo e o terceiro quilômetros, a maior subida da prova. O ritmo caiu brevemente, mas logo retomamos a aceleração, já em cima do Minhocão.

Depois de ter conferido o cronômetro algumas dezenas de vezes, antes de chegar ao quilômetro três, o companheiro alertou. “Pára de olhar o relógio, eu controlo o tempo”, como se eu nunca tivesse ouvido isso do Zé antes. Essa minha teimosia... Como me conheço o suficiente para saber que a sugestão/ordem seria pouco para deter minha ansiedade, mexi nos botões do relógio e mudei do cronômetro para o modo freqüencímetro, que mede a freqüência cardíaca. E tome aceleração.

177, 178, 179... Era meu coração no Elevado. Bem elevado. Quando o aparelho marcava 181 batidas por minuto, eu fazia um gesto e o japonês diminuía o ritmo. Ofegante, extenuada, com os bofes de fora. “Não fala, não gasta energia à toa.” Obedeci. Na virada dos 5 quilômetros, metade da prova, Henry disse apenas: “Vinte e quatro”. 24 minutos. Estávamos fortes. Mantendo, chegaríamos com folga abaixo dos 50.

Mas o Minhocão, aquele monstrengo arquitetônico, é um sobe-e-desce desgramado. No quilômetro seis, achei que eu ia quebrar. “Vai, Henry, não vou conseguir te acompanhar, pode ir no seu ritmo.” O japonês tinha tomado o desafio para si. Eu ia fazer aquela prova abaixo de 50, ele não ia desistir. Não foi, e se pôs a me estimular continuamente. “Não são suas pernas que querem te derrubar, é sua cabeça, vambora!”

Do quilômetro sete até o oito, a generosidade de uma boa descida. Em vez de apenas soltar os músculos, aquecidos que estávamos, conseguimos aumentar o ritmo e ganhar um pouco de tempo. Voltar à avenida Pacaembu é um misto de sentimentos. Ao mesmo tempo, parece tão próximo o final, e tão sem fim aquela reta. E a armadilha da Charles Miller já estava desarmada, pela experiência de outras três provas disputadas no mesmo circuito este ano. Quem passa de carro não diz, mas aquela pracinha sobe até chegar ao estádio, viu?

Faltando um quilômetro e meio, Henry continuava no papel de meu grilo falante, gritando palavras de ordem que não me deixavam esmorecer, apesar de minhas pernas quase gritarem. Em dado momento, como ele quase me proibisse de continuar olhando no relógio, apertei os botões mais uma vez e deixei apenas no relógio. Eram 8h45. “Milan x Boca já começou”, lembro de ter pensado. E logo afastei o pensamento, porque tudo o que não se quer, em uma corrida, é perder o foco.

Já avistávamos o estádio quando rompi a mordaça. “Para sprint não vai dar, não consigo acelerar mais”, disse em um fôlego só. Henry concordou. “Na boa, vamos assim que vai dar.”

Nos banners pendurados nos postes, contagem regressiva.

800 metros... “Faltam só duas voltas” – a velha herança de treinar em pista de atletismo de 400 metros.

500 metros... “Quem chegou até aqui acelera só mais um pouco...” – a cartada final para me forçar o sprint.

300 metros... “Vai, Alê, passa na minha frente, vou controlar o tempo aqui atrás...” – o cavalheirismo de me deixar chegar antes.

200 metros... “Alê, já deu, você tem dois minutos para terminar, já era!” – sabendo que dali para a frente eu não iria aliviar mesmo.

100 metros... Já não escuto a voz do Henry, mas o som alto e o locutor animado. “A turma dos 50 minutos vem chegando”. Uma olhadela rápida no relógio. 48 e uns quebrados. Fecho os olhos, abro os braços para baixo, minha oração de sprint final. Cruzo o tapete, cesso o cronômetro. 49:00

///

Foi meu melhor tempo no ano, expressivamente melhor que a última prova de 10 km, quando fiz 51:30, mas também muito melhor que a anterior no mesmo circuito, a prova da Primavera, que fechei em 50:30.



As pernas são minhas e o suor, também. A medalha que ganhei é minha, eu sei. Mas conquistar esta marca – que não é a coisa mais importante do mundo, mas é a minha melhor marca, ora, bolas! – foi resultado de um ano de treino sob a orientação de José Eduardo Pompeo. Meu técnico, meu mestre jedi, meu puxão de orelha, que passou o ano inteiro dizendo a mesma coisa para o cabeção aqui. “Tudo tem seu tempo.” Hoje, Zé completou a frase. “O seu tempo chegou.” A medalha é minha, a responsabilidade é do Zé. E a escolta do Henry, meu grilo falante, um grande cara. Valeu, japonês!

17 comments:

Herik said...

Parabéns pela Vitória!

Ico (Luis Fernando Ramos) said...

Boa, mocinha serelepe! Parabéns pela superação. Invejo demais seus tempos e, em 2008, vou tratar de ir atrás dos meus. Neste ano que passou, infelizmente, só fiz a Meia de Viena, mas no ano que vem vou colocar as corridas com mais freqüência na minha vida. E vamos nos programar para uma juntos aqui em SP!

Parabéns, parabéns, parabéns, de novo!

André Dias said...

Uau. Um recorde pessoal é sempre bem vindo e deve ser selebrado. Meus parabéns

Como eterno corredor de cinco minutos por quilometro, sei que baixar esta marca é muito gratificante.

E vamo que vamo, agora é a São Silvestre.

Abraços

Andre Dias said...

Pois é, celebração saiu com s.

Acontece.

No meu caso, com muita frequencia infelizmente.

Andre

valéria mello said...

Que bom que você atingiu sua meta, parabéns! E qual será a próxima?

Alessandra Alves said...

pessoal, obrigada.

valéria: a meta, agora, é aumentar a distância. quer encarar algumas meias maratonas em 2008, até para perder um pouco a obsessão pelo tempo de 10 km.

Ron Groo said...

PÔ Alessandra, parabéns, a ajuda do Henry e a força do teu técnico foram sim fumdamentais, porém se não fosse sua força de vontade de nada adiantaria.
E esta parte "177, 178, 179... Era meu coração no Elevado. Bem Elevado." Ficou ótimo, uma boa tirada poética para abrilhantar o post. Mais uma vez, parabéns. Que se divirta muito na São Silvestre.

Cynthia said...

Oi Alê, parabéns. Boa sorte na São Silvestre.

Zé Eduardo said...

Enfim o tal dia chegou, e agora, o que vamos fazer? Vamos comemorar mais um ano de muitas conquistas e felicidades e ... que no próximo ano dias melhores virão.
E por falar em tempo, deixa ele com "nóis", valeu...

Anonymous said...

Parabéns Alessandra ,ficou fantastico o post, fui lendo e torcendo ,ufa !Conseguiu!!

Divirta-se na SS.

Jonny'O

Luiza said...

Parabéns, fiquei quase sem fôlego imaginando sua corrida. Ei, também conheço um Henry japonês! Isso faz quase dez anos, ele tinha uns três anos e era vizinho de uma amiga carioca. Uma vez ele me disse mostrando um carrinho: "olha meu ônibux", com sotaque. Minha amiga disse que ele vivia na casa dela e na dele, só falavam japonês. Uma gracinha aquele curitibano falando como carioca.

Charles Henrique Schweitzer said...

Oi Alessandra!

Parabéns pela marca... Demorei um tempão para baixar dos 50" também... Agora faz quase 2 anos que não corro provas de 10km´s (a agenda de triathlon não deixa), mas uma coisa te garanto pela experiência que tenho...

DUVIDO que a São Silvestre será só for fun... Eu aposto com você que minutos antes da largada, você vai estar pensando se dá para fazer 1:15...

Como a SS tem dois pontos muito difíceis, faz o seguinte, lembra disso: "Entre 1:15 e 1:20". Ninguém quer passar o fim de ano frustrado porque não conseguiu alcançar mais uma marca...

Bom, é isso...

Keep Running! Let Johhnie Do The Walk...

Alessandra Alves said...

ron: obrigada pelo elogio ao texto. você reparou justamente no trecho de que eu mais gostei!

cy: obrigada, querida!

zé: sim, vamos comemorar. mais uma vez, obrigada pelo ano de treinamento. e vamos às meias em 2008! nova york em 2009? quem sabe. para sempre: sarchicha!!!

jonny´o: obrigada pela torcida, mas era só ler o título do post que dava para saber que tinha dado, né? hehehe

luiza: não valeria uma tese antropológica? por que há tantos descendentes de japonês chamados henry?

charles: pois é, rapaz, esta será minha segunda são silvestre. fiz no ano passado em 1h12, mas este ano acho que tudo muda. no ano passado, fiz a prova feminina, que tinha mil e poucas inscritas, uma tranquilidade para correr, e ainda tive a sorte de pegar a prova com chuva, ou seja, sem o calor das 15h. só que agora juntaram as mulheres com os homens de novo. ou vou na boa, "for fun", ou assumo que vou levar muita cotovelada. como não quero passar o ano novo toda roxa, acho que vou só para curtir mesmo. mas você tem toda razão. na hora em que a buzina soar, a gente sempre quer se superar. obrigada pela força!

Ron Groo said...

Quando der e se puder passa no bliggroo pra ver um texto que escrevi pra sacanear um amigo, mas que (advogando em causa prórpria) ficou bonitinho.

André Dias said...

Uai.

Se voce fez 1h12 na SS do ano passado (4min48s/km), foi melhor que os 49min nos 10k desta semana (4min54sec/km).
Temporal, hem. Um dia chego lá.

André Gonçalves said...

fiquei cansado so de pensar.
parabens pra voce!
ufa...

Alessandra Alves said...

andré dias: viajei! não fiz em 1h12, mas em 1h22. se tivesse feito em 1h12, de fato, teria sido minha melhor marca. desculpe a nossa falha!

andré gonçalves: o melhor foi que, no dia seguinte, eu estava inteirinha, sem dor nenhuma!