Sunday, August 19, 2007

La famiglia

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Há alguns dias, quando escrevi sobre o Campeonato de Fórmula 1 de 1999, mencionei o irlandês Eddie Irvine e o fato de ele ter se tornado vice-campeão naquele ano pela Ferrari. Foi uma condição totalmente inesperada a que produziu esse quase título. Aquele campeonato foi o quarto de Michael Schumacher pela Ferrari, e o primeiro a oferecer condições reais de um título para o alemão, a bordo de um dos carros da escuderia italiana.

Mas Schumacher se acidentou em Silverstone, quebrou uma perna e ficou de molho por seis corridas. Em seu lugar, assumiu Mika Salo, finlandês como Mika Hakkinen, o campeão daquele ano. Na primeira corrida sem Schumacher, e com Salo, Irvine conquistou sua segunda vitória do ano, encostando em Hakkinen na classificação do campeonato (apenas dois pontos os separavam após essa prova, disputada em Zeltweg, na Áustria).

Na corrida seguinte, na Alemanha, Hakkinen largou na pole e liderou até a 24ª volta, quando abandonou por um furo no pneu traseiro esquerdo que o fez rodar e bater forte em uma proteção de pneus. Vinha em segundo o escudeiro ferrarista Mika Salo, com Irvine em terceiro. A liderança de Salo não foi maior do que uma volta. Cumprindo ordem da equipe, o finlandês cedeu o primeiro lugar a Irvine, que liderou as vinte voltas seguintes, venceu a prova e saiu de Hockenheim líder do campeonato, com oito pontos de vantagem sobre Hakkinen.



A manobra ficou na cara. Irvine saltou do carro e foi agradecer Salo ainda no parque fechado. Consta até que o irlandês teria dado o troféu de primeiro lugar ao companheiro de equipe. O finlandês correu as quatro provas seguintes, pontuando apenas na Itália, com um terceiro lugar. A fidelidade de Salo, embora não tenha sido suficiente para garantir o título para a Ferrari, naquele ano, foi amplamente premiada. O piloto ganhou vaga na Sauber, que utilizava motores Ferrari, no ano seguinte. Ainda pilotou para a Toyota na Fórmula 1 e, hoje, é um dos pilotos da Ferrari no American LeMans Serie, campeonato de carros turismo e GT nos Estados Unidos. Seu companheiro de equipe é o brasileiro Jaime Melo Junior.



Esta história serve para reforçar uma prática ancestral da Ferrari. A equipe italiana tradicionalmente escolhe um de seus pilotos e trabalha por ele. O segundo piloto é parte desta estratégia. Já era assim com Enzo Ferrari. No campeonato de 1979, diante da flagrante e espetacular ascensão do canadense Gilles Villeneuve, o comendador teria conversado com o piloto, de quem gostava “como um filho”, pelo que dizem. O teor da conversa: este ano, vamos trabalhar por Jody Scheckter. Gilles não teria gostado muito, mas acatou, certo de obter a preferência na oportunidade seguinte. Esta oportunidade teria chegado em 1982, só que a morte chegou mais cedo para ele.

Então, nada de novo em exigir tal comportamento também de Salo. Fico me perguntando se a imprensa finlandesa esboçou reação irada quando o piloto foi obrigado a ceder a vitória a Irvine. Teriam dito que Salo era “só um finlandezinho lutando contra esse mundo todo”? Detalhe: o gesto de Salo prejudicou outro finlandês, Hakkinen, que terminaria com o título, mas por aquela manobra perdeu momentaneamente a liderança do campeonato.

Pode-se até discutir a ética esportiva desse tipo de estratégia, mas fica evidente que este é o jeito da Ferrari trabalhar. O que leva a uma conclusão para os dias de hoje. Ainda neste campeonato de 2007, em algum momento, a Ferrari fará esta opção, entre Raikkonen e Massa.

13 comments:

Anonymous said...

Sempre achei normal o jogo de equipe ,nos anos 50 era comum o segundo piloto parar seu carro no box para o primeiro assumir o volante se este tivesse qualquer problema com o seu.
A Lotus em 78 usou muito o jogo de equipe entre Andretti e Peterson ,acho logico ,afinal é um time ,mas na visão de hoje é proibido e sendo assim disfarçado pode.Vai entender.
Mas este ano ,acho que já esta até um pouco tarde para a Ferrari fazer a escolha,só com alguma trapalhada da Mclaren ,tá dificil!

Jonny'O

Alessandra Alves said...

jonny´o: isso a que você se referiu, para mim, tem nome - hipocrisia.

em relação ao campeonato de 2007, talvez seja mesmo tarde, afinal, faltam apenas seis corridas. mas, sei lá, e se a mclaren sofrer alguma punição ainda em função da espionagem? eu não boto muita fé nisso, mas poderia mudar tudo. e mesmo que a mclaren siga impávida no mundial, não é impossível que a ferrari consiga dois ou três bons resultados em seqüência, embolando a disputa.

nesse caso, se os quatro primeiros se aproximarem ainda mais, eu acho que a ferrari não deixa a disputa correr frouxa dentro do time. vão optar por alguém, para aumentar as chances. o próprio raikkonen sinalizou que "é preciso fazer dobradinhas".

por isso, as próximas corridas serão fundamentais também para decidir o futuro dentro da ferrari. só é pena pensar que todo esse xadrez se resolve invariavelmente apenas com as paradas no box, e não com ultrapassagens na pista...

valéria mello said...

Quando o assunto é jogo de equipe sempre penso no seguinte: o que o piloto entende por equipe é a estrutura que lhe permite correr. O outro piloto não é seu parceiro ou companheiro, é seu rival. Muito mais do que uma questão de ética, é uma questão de egos, ninguém vai querer ajudar a equipe abrindo mão da disputa pelo campeonato.

Ron Groo said...

Não deve ser muito estimulante para quem é o segundo piloto porém é do jogo. Normal seria termos a luta aberta pelo campeonato entre todos os pilotos. Só que tantos interesses difucultas o que chamamos de 'esporte'. Quanto a Ferrari vai ter de se decidir logo. Se não corre o risco de repetir a Willians que tinha Mansell e Piquet (dois genios) e perdeu o titulo para Alain Prost (outro).
Que escolha o melhor, e tomara, esperamos, que o melhor seja o Massa.

Alessandra Alves said...

valéria: não sei, há pilotos e pilotos. há quem aceite o papel de escudeiro em nome de um bom contrato. bolso cheio esvazia o ego de alguns. não acho que seja o caso de todos. por exemplo: fernando alonso jamais se prestará a esse papel. ayrton senna jamais se prestaria. são ou foram pilotos que querem vencer, e logo. há bons pilotos que fizeram longas carreiras na fórmula 1, ganharam muito dinheiro, algumas corridas e gostaram de desempenhar esse papel. gerhard berger talvez seja o exemplo mais bem acabado. berger teve uma tamburello em sua vida (1989), sobreviveu a ela como ser humano, mas talvez não tenha sobrevivido como piloto. dali para frente, nunca mais foi o mesmo, perdeu muito de seu arrojo. foi o segundo piloto que senna pediu a deus, e nunca ficou reclamando da posição que, afinal, ele aceitou.

ron groo: sim, amigo, sim! a ferrari também vive um interessante momento em relação à disputa interna, e acho que o gp da turquia pode sinalizar decisões importantes neste quesito. vamos supor que kimi ou massa vença a prova, com um dos dois em segundo. logo na seqüência, virá o gp da itália, no qual a ferrari tem, no mínimo, uma vantagem psicológica. se ela conseguir dois bons resultados seguidos, pode encostar na mclaren. mas só conseguirá alguma coisa se unir forças...

Marcog "unoturbo" Oliveira said...

Alessandra, só chamo a atenção para um detalhe: Mika Salo era, sabidamente, um "piloto tampão" neste caso. Ou seja, nada mais óbvio que fizesse isso mesmo, visto que jamais teria chances de disputar o título daquele ano, já que era somente um substituto de Schumacher.

Sempre que ouço a palavra "jogo de equipe" me vem à memória uma cena de meus tempos de ciclista: Numa etapa do Paulista de Ciclismo, na USP, uma das competidoras era, sabidamente, a favorita para vencer a etapa. Por um motivo qualquer (faltou perna, sei lá), quem acabou vencendo foi uma garota de sua equipe, numa das tradicionais "escapadas" que acontecem nesse tipo de esporte.

A outra competidora (a famosa), cruzou a linha de chegada no meio do pelotão, em 5o ou 6o lugar, sei lá (não importava mesmo). Mas, comemorou aplaudindo ofusivamente, demonstrando que havia sido uma vitória DA EQUIPE.

Talvez se Barrichello tivesse tido um pouco mais de espírito de equipe, e, mais ainda, tivesse chegado em 2o EM TODAS AS CORRIDAS em que Schumacher chegou na frente, hoje estaria disputando o título PELA FERRARI, com status de 1o piloto independente do companheiro.

Mas, sabemos que não era bem por aí. Como um cara pode reclamar por tratamento VIP, se chegava em 5o, 4o... né ?

Alessandra Alves said...

marcog: muito bem lembrada a condição do salo. ele estava lá para isso mesmo. na ocasião, o jean todt até comentou sobre a escolha, que poderia ter recaído sobre luca badoer, o eterno piloto de testes da ferrari. só que, naquele ano, ele estava a bordo de uma minardi. mesmo que fosse o badoer, trabalharia pelo irvine. e se não fosse o acidente do schumacher, o irvine trabalharia por ele.

sobre o que você falou a respeito do barrichello, concordo. tanto que hoje está lá o massa, disputando o título. só que o rubens foi para a ferrari no auge do schumacher. ele só teria duas perspectivas: ou se acomodar na posição de segundo piloto e fazer bem feito esse papel, esperando anos a fio até chegar sua vez, ou pegar o boné e tentar ser competitivo em outra equipe. ele, no fundo, sabe que escolheu a primeira, mas nem assumiu isso publicamente e ficou reclamando condições de igualmente sabendo que nunca teria, nem manteve essa regularidade a que você se refere.

Ron Groo said...

Oi de novo Alessandra, me perdoe por voltar assim. Quero informar que acabamos de inaugurar o site www.mondointerativo.wordpress.com , site no qual sou editor junto com mais dois amigos. Eu poderia resumir o site, mas prefiro convida-lá a ler nosso conteúdo, nossas colunas. Esperamos fazer um bom trabalho por lá sem abandonar nosso blogs.
E ficaremos muito felizes se qualquer dia destes no email do fale conosco recebermos uma coluna sua para a seção Internauta. Esperamos fazer um bom jornalismo por lá e editarmos colunas agradaveis de se ler.
Obrigado em nome dos três editores
Felipe Maciel, Bernardo Bertch e eu Ron Groo.

Anonymous said...

Estou fora do assunto Alessandra,mas deu no Grande Premio que o Massa vai de chassi novo no proximo GP.
Será que o chassi velho estava com algum problema?
Pode ter alguma coisa a ver com sua corrida ruim na Hungria?

Jonny'O

Alessandra Alves said...

jonny´o: também achei essa notícia intrigante. às suas perguntas, eu somo outras: só massa vai de carro novo, kimi não? o fato de massa ter um carro novo significa alguma preferência para ele? ou vai o brasileiro de boi de piranha para testar alguma nova solução?

a corrida de massa em budapeste foi realmente patética, mas teria sido por culpa do carro? por que, então, felipe teria se humilhado tanto, e publicamente, assumindo como seus todos os erros daquela prova?

como bem pontuou o fábio seixas em seu blog, acho que a única coisa que sinaliza, com exatidão, esse pacote de melhorias para massa é o fato de que, em istambul, ele não vai poder reclamar da equipe.

Degas said...

Alessandra! Na sua narrativa da temporada de 1999 faltou falar daquilo que foi, emminha modesta opinião, a coisa mais impressionante do ano. O GP da Malásia. Eu considero a melhor corrida da carreira de Schumacher, embora ele não tenha vencido. Vencer não é tão difícil quanto ordenar os concorrentes, do primeiro ao terceiro lugar. Dá uma olhada aí e conta prá gente!
Valeu!

Alessandra Alves said...

degas: eu não chegaria a dizer que foi a melhor corrida da carreira de schumacher, mas esta prova tem, no mínimo, algo de altamente desmistificador, que é o fato de schumacher ter sido um autêntico segundo piloto, trabalhando de fato pela vitória de irvine.

schumacher largou na pole, depois foi ultrapassado por irvine e por coulthard, reassumiu a liderança e, faltando quatro voltas para o final, entregou a vitória ao companheiro, com o oponente mika hakkinen em terceiro. com este resultado, a decisão do campeonato ficou para a última corrida do ano, no japão, chegando irvine à frente de hakkinen na classificação, mas sendo superado por este último.

Degas said...

HUm. Ok. Eu tenho uma leitura diferente daquela corrida.
Schuey fez a pole, sobrando. Largou, e em seguida cedeu a pospiçao para Irvine e David. Passou a segurar Hakkinen, enquanto Irvine abria. Quando Irvine fez sua parada, e voltou à frente de Mika Hakkinen, o finlandês estava fora de combate pela vitória. Michael fez sua habitual seqüência de voltas, para se livrar sa Mclarem número 1. Mais que o habitual, na verdade, pois acabou voltando de sua parada em primeiro lugar. Aí ficou mais fácil ceder novamente a posição para Irvine e garantir Mika em não mais que terceiro num jogo da Mclarem pois em condições normais ele não alcancaria Couthard. Um trabalho completo: não venceu porque não quis, definindo as posições de todo mundo. Nunca vi nada parecido em outro momento na Fórmula 1.