Wednesday, August 01, 2007

Benza Deus!

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Nesta quinta-feira, dia 2 de agosto, se fosse viva minha avó Elza completaria 88 anos. Morreu em 2000, antes de conhecer o quinto bisneto, que estava na minha barriga. De qualquer forma, aproveitou bem as oito décadas de vida terrestre que lhe couberam, sempre fugindo dos problemas. Não que tenha tido uma vida sem percalços, ninguém a tem.

O pior deles deve ter sido a perda do filho primogênito, Toninho, abatido por um mal a que ela se referia como “bucho virado” ou “espinhela caída”. Suponho que a doença fosse desidratação, hoje uma ocorrência banal, mas que dizimou milhares de crianças ainda no século 20. Mesmo com o trauma, ainda teve outros cinco filhos.

O sobrenome de solteira da vó Elza era Silva, mas bem que podia ser Coelho. Nasceu em uma família tão numerosa que é difícil contabilizar e – mais ainda – acreditar nos números relatados. Seu pai teve doze filhos com a primeira esposa. A mãe, três com o primeiro marido. Consta que a mãe perdeu marido e prole vitimados por alguma peste na viagem de navio, de Portugal para cá. Viúvos, o brasileiro e a lusitana se casaram. Daí pra frente, nunca entendi ao certo. Dizem que tiveram vinte filhos. Sim, duas dezenas. Jamais soube se foi esse descontrole natal mesmo. Fato é que, filhos de ambos, vingaram nove. Vó Elza era a terceira. Ah, sim: recentemente, alguém da família fez uma pesquisa e parece ter descoberto outros quatro filhos “naturais” do meu bisavô, o Coelho, quer dizer, Antônio da Silva.

Vó Elza nasceu em Amparo, interior de São Paulo, e lá viveu até os vinte anos, quando se casou com meu avô Antônio. Nunca mais voltou a morar na cidade natal. Mesmo assim, uns quarenta anos depois de ter saído de Amparo, sempre esticava o pescoço quando via um carro com placa de lá. “Será alguém conhecido?”.

Quando meu avô morreu, com apenas 57 anos, vó Elza tinha 56. Para mim, no entanto, ela era uma velhinha bem velhinha. Curioso é que minha mãe ficou viúva com a mesma idade e eu a achava tão nova... Minha avó era uma vovozinha. Minha mãe é uma grand-mothern, uma avó moderna, antenada, agitada. Acho que tanto mudaram as avós, que hoje são bem menos vovozinhas mesmo, quanto mudei eu, porque a idade torna tudo tão relativo, não é mesmo? Quando você tem cinco anos, 56 anos é idade de velho. Com 37, bem, estamos quase chegando lá, né?

O fato é que Vó Elza era uma avó típica: agulhas sempre em punho, parecia uma máquina de fazer crochê. Em uma tarde, pronto: um biquinho de pano de prato, uma toalhinha de bandeja, era um fenômeno. Eu gostava mais quando ela errava no tricô e precisava desfazer. Uma linha de desmontagem perfeita: um neto ia puxando a lã já tecida, outros iam esticando para não embaraçar, o último enrolava no novelo. Netos não faltavam, já que ela teve doze, seis meninas e seis meninos. Além de tricotar e crochetar, vó Elza também era ótima na pintura. Acho que não agradeci suficientemente por tantos trabalhos de Artes que ela fez e eu só dublei. Dona Zinha, minha eterna professora na matéria, devia sacar fácil que não era eu a autora de tantas obras primas, já que sempre fui muito menos que o cocô do cavalo do bandido em termos de habilidade para artes plásticas. Obrigada, vó. Desculpe, dona Zinha...

Mas vó Elza, como todas as inúmeras irmãs, era também cozinheira de mão cheia. Seu trivial era espetacular e não há quem esqueça o inigualável bolinho de batata recheado com queijo. As netas, algumas, herdamos o talento para a cozinha, embora nem todas, como eu, pratiquemos a arte regularmente. Herdei um de seus cadernos de receita, que guardo com carinho de neta e com interesse de cozinheira que voltarei a ser, um dia. Dizem, aliás, que faço seu decantado bolo de fubá tão bem quanto ela, o que sempre soou como troféu de excelência para mim.

Cuca fresca por natureza, vó Elza só parecia ter medo incontrolável de duas coisas: cobras e relâmpagos. As primeiras, mesmo que as visse só pela TV, faziam-na levantar na mesma hora as pernas para cima do sofá. Raios e trovões a dirigiam para uma espécie de ritual religioso: andava pela casa sacudindo palmas bentas da Semana Santa pelas janelas, entoando frases de louvor a Santa Bárbara, que parece ser protetora contra intempéries da natureza. Tenho a impressão de que Santa Bárbara é Iansã no candomblé e acho que tem a ver com raios e trovões, sei lá. Mas tenho certeza de que vó Elza ficou feliz, onde está, ao saber que agora tem uma bisneta chamada Bárbara.

Se via uma criança bonita e robusta, ou um belo peru assado, ou um bolo que crescia bastante ou qualquer coisa que desse sinal de beleza, fartura ou saúde, vó Elza exclamava sempre a mesma expressão: “Benza Deus!”. A frase, pelo que sei, é uma corruptela de “A benção de Deus”. Que Deus abençoe você, vó Elza, hoje e sempre!

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E você? Tem avó? Não tem mais? Quer me falar dela? Contar alguma coisa, dar uma receitinha? Fique à vontade.

11 comments:

pcbernardes said...

Lindo!! Sem palavras.

Luizano said...

A cena da sua vó fazendo crochê, é igual a da minha fazendo tapete de retalhos de pano, eu adorava ficar ao lado dela nessas horas, enquanto fazia os tapetes ia me contando as histórias dos parentes mais antigos, ou então reclamando do Flamengo, era torcedora doente, nunca perdoou o Bebeto por te jogado no Vasco, e ai do neto que torcesse para outro time.
Valeu ai pelo texto e pelas lembranças que ele trouxe.
Abraço

Cynthia said...

Oi Alê, lembrei bem da sua vó fazendo crochê, que barato! Ah, e eu "filei" almoço no apartamento dela, perto do colégio. Grande novidade...
Da minha avó paterna herdei o gosto pela leitura. Nas datas comemorativas compro um livro de presente e já me coloco na fila de leitura, depois que ela termina.
Da minha avó materna tenho os olhos claros e a impressão , na semana em que não consigo fazer as unhas,de que ela olha lá de cima já pensando: que coisa feia!

Andréa N. said...

Meus avos paternos chamavam-se Jose Maria Rodrigues e Maria Jose Rodrigues. Nao eh fofo?

Que Deus abencoe a vo Elza, os vos Jose Maria e Maria Jose e todos nos!

Felipe Atch said...

Minha Avó esse ano fez 80 anos e graças a Deus está mais forte que eu! Dada a longas caminhadas e costura de adereços femininos, tambem morre de medo de Trovões, outra coisa são pontes não passa por nenhuma delas sem começar a rezar, mesmo de carro. Por falar em cozinha estou negociando com ela algumas aulas de culinária, mas ela insiste que cozinha não é lugar de homem! Mandou eu aprender a fazer churrasco.

PS: Santa Bábara é sim a protetora contras as tempestades celebrada dia 9 de dezembro! E no sincretismo com o camdoblé é Iansan mesmo.

Anonymous said...

Lindo texto Alessandra ,eu ainda tenho minhas duas avós ,bem diferentes,vó Rosa ,Portuguesa ,sem papas na lingua e uma historia que daria um livro,está com 90 anos ,porém ,por causa da obesidade anda dando um pouco de trabalho.
A outra é a vó Armida,filha de italianos 87 anos ,magrinha ,anda pelo menos 5 km por dia ,jamais teve um carro ,acha um absurdo alguém usar automovel em uma cidade de 40.000 habitantes,esta sempre ligada nas novidades ,mora sozinha e morre de medo de trovão!
Mas em todo texto que vc escreve ,tem sempre um detalhe que me faz lembrar de alguma passagem:
No meio da decada de 90 ,levei meu sobrinho ao supermercado para comprar uma caixa não me lembro do que,mas que tinha um brinquedo qualquer, de repente apareceu uma senhora ,tipo avó mesmo,gordinha e de oculos e me disse:
-Nossa ,que menino gordo ,bonito!
Meu sobrinho fez cara feia e falou:
-Gorda é vc!!

Acho que foi choque de gerações.

Jonny'O

Alessandra Alves said...

pcbernardes: você por aqui!!! venha mais vezes!

luizano: adorei sua avó! uma velhinha fanática por futebol, que máximo!

cy: você era praticamente a 13ª neta! lembro bem da sua avó materna. faça as unhas então, pô!

andréa n.: isso é que alma gêmea, hein? que fofos... meus avós paternos também se chamavam Maria e José, mas só isso.

felipe: legal você ter mencionado o lance da cozinha, porque eu mesma fiquei pensando nisso depois que escrevi. eu disse que as netas herdamos, algumas, o talento para a cozinha, mas o fato é que alguns dos meus primos são também ótimos chefs. mas aprenderam por conta própria, não com a vó Elza, que certamente achava que lugar de homem não era na cozinha. obrigada pelas informações sobre o sincretismo religioso.

jonny´o: que legal você ter as duas avós, e duas assim tão diferentes. veja o exemplo da sua avó andarilha. realmente, a atividade física contribui para a boa saúde. e, pelo jeito, ter medo de trovões é uma característica essencial dessa geração. adorei a história do seu sobrinho. eu sofri isso na pele, em meus tempos de juventude, um dia vou contar essa história. o pessoal de antigamente achava que gordura era formosura e sempre fazia esses paralelos, que hoje são detestáveis!

valéria mello said...

Minha vó Albina morreu quando eu tinha um pouco mais de um ano, não me lembro dela mas uma coisa que sempre me contam é que ela se desmanchava de rir quando eu, aprendendo a falar, caprichava na pronúncia do seu nome. Já minha vó Adalzira acabou de completar 94 anos e mora aqui em casa. Apesar de ter boa saúde, infelizmente ela perdeu completamente a lucidez, já não reconhece nem as pessoas mais familiares, e está totalmente dependente. Mas não perdeu o carisma que sempre encheu sua casa de gente e lhe rendeu uma porção de afilhados. É impressionante que mesmo as pessoas que a conhecem como está hoje ficam encantadas, ela tem um jeitinho que cativa todo mundo. Uma lembrança muito marcante que eu tenho de quando era criança é do bolinho de espinafre, delicioso, que só ela sabia fazer.

Débora, a neta mais velha. said...

Chuva, raios, trovões...tempestade!!!
E lá ia Vó Elza em busca de "ramos bentos" para serem queimados enquanto a forte chuva acontecia (ramos, que todos os anos eram renovados na época da Páscoa, mais precisamente no Domingo de Ramos), e deveriam ser queimados durante as orações, somente nos momentos de tempestades.
A procissão por todos os cantos da casa tinha sempre início com oração à Santa Barbara. E como fiéis escudeiros (mais como curiosos pelo ritual do que tementes ao que poderia ocorrer); os netos; Paulo, Claudia e Débora a acompanhavam. Um misto de curiosidade,crença e até um "medinho imposto" pelo o que poderia ocorrer se aquele ritual religioso não fosse cumprido, levava os 3 netos à repetirem a tal oração até que a Vó Elza entoasse um "AMÉM" como ponto final.
Nem sempre a chuva passava, os raios e os trovões paravam . Mas, os ramos bentos deveriam ser queimados, mesmo que depois a casa ficasse com cheiro de fumaça.
Essa era uma das crenças religiosas que Vó Elza cultuava. Pois, católica praticante que era, mantinha alguns costumes que hoje já não existem mais nem mesmo entre os católicos fervorosos.
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Já o lado "cozinheira de mão cheia" é lembrado até hoje por causa de famosos quitutes que ela preparava: salgadinho de queijo e cebola, cuscuz, torta de presunto e queijo, bacalhau ao forno, bolinho de batata com recheio de carne e queijo, bolos de laranja, fubá e nega-maluca, e outros mais.
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Duas palavras também eram marcas registradas dela: pequerrucho e pinhões.
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Com certeza se fossem reunidos fatos, frases, palavras, fotos e atitudes da Vó Elza, poderíamos elaborar um livro.

FELIZ ANIVERSÁIO VÓ ELZA!

Anonymous said...

Olá Lilê

Só hoje tive a oportunidade de fazer um comentário do BENZA DEUS.Você lembrou da expessão mais famosa da vó Elza,dos quitutes inigualáveis,do medo de cobra e trovões.Medo esse que ela passou para mim também.Só não queimo as palmas porque você sabe qur eu não tenho tanta fé nos rituais.Acho que se tiver que trovejar vai trovejar com ou sem palmas bentas.
Mas pena que eu não herdei o gosto pela cozinha.Meus netos não lembrarão com saudades do bolo gostoso ou da comidinha feita hora
pela vovó Zinzinha.
Lamento também não ter herdado a sabedoria de saber conviver com as adversidades da vida como ela o fazia.
Na vida tive dois modelos para seguir,o pai ou a mãe,mas sei que sou muito mais Souza do que Silva.
Silva era calma.
Souza pavio curto.
Silva dançava conforme a música.
Souza determinava tudo e vivia dando murro em ponta de faca.
Silva delegava.
Souza assumia.
Fazer o que,sei que sou Souza de nascimento e de opcão.
Gostaria de ser mais Silva,pois a calma dela em muitas vezes me segurou.
Saudades dos quitutes,do tom apaziguador,da capacidade de agregar.
Saudade do "BENZA DEUS"
MEEEU DEUS DO CÉU!
NOOOOOSSA SENHORA DA
APARECIDA!
DEUS ACONPANHE NA IDA E
NA VOLTA!
REZA UMA AVE MARIA POR
MIM.
E os netos com certeza a ouviram rezar"Com Deus me deito com Deus me levanto com a graça de Deus e do Espirito Santo.
ou"Santo anjo do Senhor ,meu zeloso guardador,se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege,guarda,governa,ilumina.Amén.
E na hora de dormir o boa noite era sempre:"Boa noite dorme com Deus e os anjinhos.Até amanhã se Deus quiser."
Bença mãe!

Elzinha

Alessandra Alves said...

e assim fica explicado de onde vem meu dom para escrever. elzinha não é silva, é souza e alves. sou também souza e alves, mas talvez seja mais souza neste quesito.

adorei!