Friday, August 10, 2007

Adeus, Conjunto Nacional

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Moro em Santana, na Zona Norte de São Paulo, o bairro mais longe da capital. Não importa que o sujeito more no Morumbi, na Penha, em Alphaville, que nem em São Paulo fica. Quando digo que moro em Santana, sempre me perguntam por que moro “tão longe”. Há vários anos já desisti de explicar que longe é um conceito dependente de algo chamado referencial. Digo apenas que gosto de morar lá, o que é a pura verdade.

Moro a exatos dez quilômetros do meu trabalho, na região da Paulista. Pouco mais de seis quilômetros me separam do centro da cidade. Gosto de estar a esta distância da muvuca, mas paradoxalmente gosto de me sentir perto dela, como se a controlasse à distância. Santana é um bairro alto, vejo a cidade de cima. Não deixa de ser um tolo exercício de poder.

Da janela da minha cozinha, avisto o Conjunto Nacional, um importante edifício localizado na avenida Paulista. O Conjunto Nacional foi um projeto revolucionário no período de seu lançamento, na década de 1950. Agregando áreas residenciais e comerciais, virou um ponto de referência da grande avenida. Tem lojas, restaurantes, escritórios, cinemas e a sede da Livraria Cultura. Mas, para efeito de símbolo da cidade, o Conjunto Nacional pode simplesmente ser descrito como o edifício do relógio do Itaú. Ao longe, é possível saber que horas são, ou quantos graus está na cidade, apenas desviando o olhar para a Paulista.



(A cidade de São Paulo sofreu uma faxina radical recentemente. O prefeito Gilberto Kassab fez cumprir uma lei chamada Cidade Limpa que saiu arrancando letreiros e fachadas de tudo quanto foi estabelecimento comercial. O mastodôntico relógio do Itaú segue impávido em cima do Conjunto Nacional. Há alguns anos, depois que o agora governador José Serra foi eleito prefeito, o Itaú passou a responder pelos pagamentos da prefeitura. Deve movimentar um dinheirão esse dono do relógio...)

Santana é um bairro em ebulição imobiliária, como de resto vários outros da cidade. As casas vão caindo uma atrás da outra, dando lugar a prédios com nomes italianos como Areggio ou Via Qualquer Coisa. Eu mesma moro em um prédio, não posso falar muito. Mas percebi que um terreno perto de casa está todo cheio de tapumes, denunciando construção eminente. Não seria nada demais se não estivesse a vivenda em projeto bem na linha do Conjunto Nacional.

É por uma fresta que o vejo, e presto atenção nele por uns dez segundos, diariamente. Quando acordo e vou fazer meu café da manhã. E antes de deitar, hora do último copo d´água. Pela manhã, se vejo o prédio e diviso o relógio, estranhamente me sinto confortada. É como se tudo fosse dar certo naquele dia. Mas há muitos dias de neblina, e nem sempre o enxergo. Claro que não volto para a cama e desisto do dia por conta disso. Até me esqueço.

Mas era um hábito, um conforto, uma companhia familiar tê-lo ali, tão longe e tão perto. Vou sentir falta do Conjunto Nacional, mas vou me habituar à sua ausência. É sempre assim, com tudo. Cada vez que olhar o Areggio Não-sei-o-quê ou o Via Não-sei-o-que-lá vou lembrar que ele, antes, lá esteve. Ainda estará, só não mais ao alcance dos meus olhos.

12 comments:

L-A. Pandini said...

Vale lembrar que durante muito tempo o "relojão" do Conjunto Nacional foi chamado de "relógio da Willys", referência ao antigo patrocinador.

Anonymous said...

Nossa!5Km é o suficiente para atravessar minha cidade (Andradas),como 200Km esta o primeiro posto de combustivel de muitas cidades no centro oeste do pais.Perto ,longe,como é relativo tudo isso.O importante é estar bem onde se vive,né.
Mas olha, no final ai do texto ,deu um nó danado ,fiquei meio enroscado!
-Ah!!Menina!

Quando fica dificil de ler ,a gente diz assim por aqui:
- Antis pió,mió assim!

Jonny'O

Alessandra Alves said...

pandini: eu não sou dessa época.

jonny´o: ah, então você mora em uma cidade de primeira, né? daquelas que, se colocar segunda no carro, sai do limite do município. mas o que é que ocê não entendeu, hômi? deixa que a loira dois-neurônio aqui sou eu, viu?

Andréa N. said...

Que triste isso. Lindo post. Amo São Paulo. Beijo.

Alessandra Alves said...

andréa n.: é triste, mas são paulo é a eterna força da grana que ergue e destrói coisas belas, né? em tempo: não estou conseguindo entrar no seu blog! me manda o link de novo?

Ron Groo said...

Oi Alessandra, desculpe estar tanto tempo sem entrar em seu blog, na verdade houve um bug misterioso e em minha cidade e região (Franco da Rocha, Francisco Morato e Caieiras) nem uma pagina blogger/blogspot abria. Soube que também não abriam na Zona norte da capital, bem como em alguns estados do sul so país. Fiquei triste e com a sensação de estar perdendo muito.
Quanto ao conjunto nacional, concordo com você no que tange à "força da grana que ergue e destroi coisas belas". Mas é inevitável não ficar com uma dorzinha fininha no coração.
Em tempo: fiz um post sobre Luiz Melodia, cê gosta? Passe pelo bliggro e dê uma olhadinha, achei que ficou com teu estilo. E de minha parte espero nunca mais ficar tanto tempo sem aparecer por estas plagas. Eta lugarzinho bão sô!

Felipe Atch said...

Legal isso São Paulo ainda tem como crescer. Me fez lembrar de quando era criança e da casa de um tio meu eu via os navios chegando no porto. Hoje os prédios praticamente na areia não me deixam ver o sol depois das 3 da tarde na praia!

Alessandra Alves said...

ron groo: bom tê-lo de volta! já comentei lá, você viu?

felipe: interessante sua visão, de achar legal que são paulo ainda tem para onde crescer. eu acho que são paulo já cresceu demais, preferia que ela parasse um pouco com esse gigantismo, mas este é um fenômeno mundial, o da formação das grandes cidades...

Anonymous said...

Gostei de ver vc falar sobre um período que eu vivi. O Conjunto Nacional que era um "point" na época, aliás, foi lá no cine Astor que assisti "Help" dos Beatles. Relembrar 'e viver...

Anonymous said...

Essa é a minha repórter predileta...

L'Author

Jorge Ramiro said...
This comment has been removed by the author.
Jorge Ramiro said...

Alessandra não só tem uma das vozes mais bonitas. É uma das mulheres mais bonitas. Gostaria de levá-la a um dos restaurantes em alphaville. :)