Thursday, May 17, 2007

Todas as teclas



Para uma pessoa apaixonada por música como eu, era natural que, em algum momento, o desejo de aprender música despontasse. O problema foi que eu não soube lidar em nenhum momento com essas três palavras – natural, desejo e aprender.

Sempre fui CDF de carteirinha, daquelas de estudar para prova de Filosofia, que não reprovava, no quarto bimestre, tendo fechado as notas no terceiro. Falando o português claro, fui naqueles tempos a neurótica da caderneta. E não me dei por satisfeita em ter um natural desejo de aprender. Não. Em minha defesa, havia uma lógica. Siga: eu já sabia que queria ser jornalista e planejava ser crítica de música. Ora, não querendo que os artistas por mim detonados me dissessem que eu era apenas mais uma “música frustrada”, enfiei na cabeça que eu TINHA que SABER tocar. Não era mais desejo nem muito menos natural. Era obrigação.

Ai, ai... E o pior: é tudo verdade.

Se a coisa era assim séria, não servia professora particular. Fui direto pro conservatório. O ambiente era mais que amigável, quase familiar. A escola pertencia havia várias décadas a Dona Aline, amiga da família, freqüentadora da casa. Não havia piano em casa, mas isso foi o de menos. O ancestral instrumento adquirido por meu avô lá pela década de 50 repousava quase inerte na casa da minha tia mais velha, que fora a pianista da família até se casar. Minhas primas chegaram a batucar um pouquinho nas teclas, mas nenhuma das duas se entusiasmou muito.

Herdei o piano e, minha mãe, uma seqüência de dores de cabeça por conta do trambolho. Quem já teve piano em casa sabe o que é: impossível arrastar o bicho para limpar, necessário chamar firma especializada até para trocar a coisa de uma sala para outra. O terror se instalou quando mudamos da casa para um apartamento e lá foi o piano pela escada, apoiado insanamente nas costas dos carregadores, nove andares acima.

Como toda CDF que se preza, deslanchei nos primeiros anos. Tanto que consegui cumprir os quatro primeiros em apenas dois. Eu me virava bem naqueles livros introdutórios, tipo Anna Magdalena Bach e Czerny. Até gostava de estudar escalas, mas comecei a achar que algo estava fora de ordem quando percebi que gostava mais, muito mais, das aulas de teoria. E que eu era a única que não blasfemava contra o solfejo. Lá pela metade do curso, a suspeita que rondava se instalou no meu colo.

Meus colegas eram tarados por um teclado. Não podiam ver piano aberto que logo se aboletavam e tocavam de ouvido coisinhas básicas como Chopin. Saquei que aquilo não era para mim. Eu, para perpetrar um minueto, uma valsinha que fosse, tinha que malhar horas a fio com a cara na partitura. Errava, parava, voltava. Fazia o mesmo compasso vezes seguidas. E os jovens gênios lá, tocando Mozart e Beethoven de montão. Não, chega, vou parar.

Comuniquei a decisão à minha professora, uma jovem chamada Edilene da qual nunca mais soube nada. Ela ponderou que, naquela altura, metade do curso, era uma pena. Resisti ao argumento. Daí apelou para uma retórica que quase me fez rir. “Veja, você vai estudar jornalismo, profissão difícil... Termina o curso, pelo menos fica com mais um diploma, pode ser professora se não conseguir emprego na sua área.” Quase ri de pensar nos coitados dos meus eventuais alunos. Eu e essa minha paciência toda... Não, prô, acho que vou me entender melhor com as teclas da máquina de escrever que com essas aqui. Então ela jogou baixo, sujo, desleal. “Puxa, isso não combina com você, nunca achei que você fosse do tipo que desiste...”.

Claro, me arrastei até o final do curso. Terminei a tortura no mesmo ano que me formei na faculdade. A cerimônia de formatura era caprichada, com colação de grau e um pequeno espetáculo em um teatro alugado. Naquele último ano, a própria Dona Aline era minha professora. E ela achou muito legal que eu tocasse na formatura a “Rapsódia sobre um tema de Paganini”, de Sergei Rachmaninoff. Eu estava estudando a peça, que é lindíssima, claro, mas igualmente dificílima. Achei que encarava a loucura e aceitei.

Detalhe: eu já trabalhava na Folha, estava no último ano da faculdade, tinha meu trabalho de conclusão de curso para entregar e, naturalmente, nenhum milagre se operou entre o começo do curso e o final. Eu continuava a mesma inepta para a execução de uma peça. Ou seja, se quisesse tocar minimamente bem, ia ter que rachar de estudar e, óbvio, não consegui. Fui para o tal concerto com vontade de não ir. Recebi o canudo, subi ao palco, toquei e nunca mais voltei ao conservatório, nem para buscar o diploma, muito menos para pegar uma cópia da fita do meu fiasco.

Gosto de pensar que me enganei, que não foi tão ruim quanto penso. Lembrei disso há alguns dias, quando meu blog-amigo Henrique Bartsch me contou sobre o episódio de Rita Lee tocando no Phono 73, ao lado de Lucia Turnbull, na meteórica existência da dupla “As Cilibrinas do Éden”. Para Rita, elas foram vaiadas naquela noite. Henrique estava lá, gravou e prova que não foram. Fiquei pensando que talvez fosse bom encontrar um anjo desses, mas afinal não virei mesmo pianista, nem crítica de música. Daquele dia em diante, senti um alívio imenso em nunca mais ter de enfrentar a dupla teclado-partitura pela frente. E uma alegria ainda maior em poder deixar as unhas crescer.

Anos depois, assistindo ao filme “Shine”, que rendeu a Geoffrey Rush o Oscar de melhor ator, compreendi a dimensão da minha loucura. O pianista David Helfgott, em cuja vida o filme foi baseado, sofreu o mais grave de seus surtos, que o levou a um manicômio, tocando em público uma peça de... Sergei Rachmaninoff. Até que tive sorte.

10 comments:

Alessandra Alves said...

o título deste post é o mesmo de um magnífico disco gravado por césar camargo mariano e wagner tiso. será que tem em cd?

henrique bartsch said...

Há muito tempo, numa tal Trigreza (ou seria Tigressa?), CV lá pelas tantas diz:"Como é bom tocar um intrumento". E acho esta uma das mais perfeitas frases, se precisarmos de orientação. As pessoas geralmente não tocam em um instrumento, temendo a maldição de ter que fazer aquilo virar uma profissão. Seria muito bom entender que tocar um instrumento, mesmo que para você mesmo(a), e não precisa ser lá tão bem, é uma dádiva que todos podem, e deveriam, exercer. Voltando para casa ao final da batalha diária é melhor do que qualquer prozac, whisky ou qualquer outra ingerência que se possa tomar. Um acorde, ou mesmo uma nota soando é o contado com a divindade. Alê, descola um tecladinho daqueles bem xinfrim, e dê uns acordes para a vida e flutue novamente.
E naquele dia da Phono 73, eu não estava de anjo não, mas sim de abençoado pela magia. Mas quem sabe eu não possa aproveitar e vender umas fitinhas k-7 do Frei Galvão?uoh oo oh...listen to the music...

Anonymous said...

Que coisa não!Quer saber,achava que vc e o piano fossem feitos um para o outro assim que começou o texto .
É realmente magnífico o dom musical,aquele natural ,e divino o dom de compor, é abstrato ,mágico.
Tai uma coisa que sempre tive vontade ,aprender a tocar algum instrumento que não fosse percurssão,justamente para poder compor ,digo ,tentar!
Pois a bateria só serve para acompanhar ,claro que gosto mas falta algo,depois tem os tambores de uma escola de samba ,todos deliciosos ,quem nunca esperimentou deve tentar um dia ,é simples e o prazer que se tem no meio a bagunça meche com a estrutura do corpo ,contagia.
Mas de uma maneira geral vejo nos tambores o poder de mecher com a estrutura ,não com a alma.
Tai uma ideia Alessandra, procure uma escola de samba e comece a ensaiar na bateria para o proximo carnaval ,mas não deixe sua professora saber.

Jonny'O

Alessandra Alves said...

henrique: o "meu" piano agora está na casa do meu irmão. minha cunhada fez algumas aulas, sabiamente com esse espírito que você sintetizou, não com meu radicalismo cdf. gosto de ver o piano lá e pensar que minha sobrinha, que hoje tem pouco mais de seis meses, possa se arriscar nas teclas no futuro.

para falar a verdade, tenho tido uma vontadezinha crescente de batucar umas teclinhas diferentes dessas do computador. e você está me atiçando!

quanto à muamba by phono 73, demorô, né? bota pra vender que eu compro.

jonny´o: pois não é, rapaz! o segundo post deste blog, de fevereiro de 2006, é justamente uma letra de um samba enredo composto coletivamente pelos malucos da minha família. só que eu sou mais rock´n´roll´n´jazz´n´pop que propriamente sambista...

fran said...

Humm.. compartilho da sua angústia... mas veja, poderia ter acontecido pior... eu, por exemplo, além de ser jornalista, ter penado em aulas de piano por 7 anos... ainda fui tocar com bandas... e imagina.... trabalhar de dia e de madrugada não é bacana. Depois de 6 anos tocando com bandas de black music e jazz... resolvi ser jornalista de verdade.
HUAHUAHUAHUAHUA
Bjos!

Felipe Atch said...

Desde pequeno sempre via meu tio tocar Vilão nos encontro de família e dizia:"Que legal, mas, não é pra mim!". Quando entrei para grupo de jovens na Igreja, o violão não é um simples instrumento era praticamente uma obrigação para um rapaz de 14/15 anos aprender aquele trambolho. Contribuindo pra isso minha timides servia de argumento para os camaradas que me "apoiarem" no que conciderei um tormento por longos anos tentando aprender as infernais posições do instrumento. Acho que minha mente criou um bloqueio tão grande que passei tempo se nem escutar música. Hoje já passou o "trauma" mas não me pessa para chegar perto de nenhum instrumento o meu violão que meu pai montou pra mim esta lá no cantinho do meu quarto sem que ninguem toque. A sim e nos encontro religiosos pode me pedir pra fazer qualquer coisa menos assumir as tarefas de animação (diretamente ligadas a música).

Marcog "unoturbo" Oliveira said...

Mas, não era só o "Rach 9" a obra impossível do Rachmaninoff ?

Gabriel Izar said...

Alessandra, nossa história musical é bastante parecida, trocam-se os conservatórios e os instrumentos, mas a relação com o instrumento, a paixão pela teoria e a incapacidade de tirar até o "atirei o pau no gato" de ouvido é a mesma...
Ao ler seu texto parecia que ele falava de mim.

Em tempo: Recebi no dia 15 de maio, meu aniversário, O Boto do Reno via sedex. Adorei a foto autografada e a dedicatória do Gomes. Duas felizes coincidências proporcionadas por este blog é demais.

[]'s

Paulo de Tarso said...

Todo mundo que estudou música um dia, e que não tem o gênio pra coisa, já teve essa mesma sensação: depois de estudar que nem um louco, ver um carinha chegar como quem não quer nada e tocar coisas dificílimas como se estivesse batendo papo na esquina. É um sentimento avassalador. É o mesmo sentimento que Salieri teve em relação ao próprio Mozart - pelo menos na dramatização do filme. Salieri era celebridade em Viena e Mozart era apenas um garoto que começava. Mas Salieri sabia - só ele sabia - o quanto aquele carinha era divino. E foi tomado de um sentimento perturbador de extrema inferioridade.
Eu também passei por isso várias vezes e desisti muitas vezes por causa disso. Até que resolvi assumir minha mediocridade e tocar para simplesmente me divertir. Aí a coisa rola gostosa.
Uma época, resolvi investir firme no estudo e decidi comprar um violão Suguiyama, de dois mil dólares. Via (via mesmo, nos shows) o João Bosco tirar aquele puta som de um Suguiyama; ao vivo e sem truques de estúdio. Via o Turíbio Santos dar aquela sonoridade pros estudos e choros do Villa. Quanta ingenuidade a minha!!! Pensar que eu também poderia tirar aqueles sons.
Um ano depois, vendi o violão pra um professor de música. O violão era muito melhor do que eu. Um instrumento desses tem personalidade: só dá o seu melhor som pra um músico que faça por merecer.
Talento pode ser desenvolvido. Mas, para isso, já tem que estar lá. Não é possível colocar talento em quem não tem. E vale a observação: todo mundo tem talentos; só é preciso descobrir quais e para quê.
Uma vez vi uma entrevista do César Camargo Mariano, na TV, contando como começou a tocar. Ele tinha mais ou menos uns doze anos. O pai era professor de piano, mas não tinha piano em casa. Dava as aulas na casa dos alunos. O César nunca estudara e preferia jogar futebol na rua. Um dia o pai comprou um piano usado. No dia em que o piano chegou, César estava jogando bola, como sempre, e quando viu o piano sendo descido do caminhão, correu para casa. Ele diz que, enquanto durou a difícil tarefa de transportar o instrumento, montá-lo e afiná-lo - operação que durou umas duas horas ou mais - ele, César, ficou num estado meio hipnótico, encostado na parede olhando tudo, calado. Abandonou o jogo de futebol e ficou lá, parado num canto da sala. Ele diz que lembra da sensação do frio da parede nas suas costas nuas e suadas. Quando tudo acabou, as pessoas sairam da sala e César foi se aproximando do instrumento lentamente. Sentou no banquinho e começou a tocar. Parece que já sabia tudo o que tinha que fazer. Quando o pai entrou na sala e viu aquilo, tomou um susto tão grande que teve um desmaio e precisou ir para um hospital. Em seguida, na entrevista, César lembrou que tinha uma fita K-7 com ele tocando, uma semana depois desse episódio. E pos a fita pra tocar. Aí quem quase desmaiou fui eu. Era já o César Mariano tocando: aquele balanço da mão esquerda, aquelas notas econômicas no meio do teclado. Quase como se tivesse acabado de gravar. Sim, claro, ele estudou sim. Com gente muito boa. Mas o talento já estava lá. Nasceu junto.
Não dá pra concorrer com gente assim; gente que recebeu o sopro dos deuses da arte, né?
Mas, prá se divertir, dá. Desde que a gente não aborreça os ouvidos alheios, né?

Wainwrightkohm said...

Todo mundo que estudou música um dia, e que não tem o gênio pra coisa, já teve essa mesma sensação: depois de estudar que nem um louco, ver um carinha chegar como quem não quer nada e tocar coisas dificílimas como se estivesse batendo papo na esquina. É um sentimento avassalador. É o mesmo sentimento que Salieri teve em relação ao próprio Mozart - pelo menos na dramatização do filme. Salieri era celebridade em Viena e Mozart era apenas um garoto que começava. Mas Salieri sabia - só ele sabia - o quanto aquele carinha era divino. E foi tomado de um sentimento perturbador de extrema inferioridade. Eu também passei por isso várias vezes e desisti muitas vezes por causa disso. Até que resolvi assumir minha mediocridade e tocar para simplesmente me divertir. Aí a coisa rola gostosa. Uma época, resolvi investir firme no estudo e decidi comprar um violão Suguiyama, de dois mil dólares. Via (via mesmo, nos shows) o João Bosco tirar aquele puta som de um Suguiyama; ao vivo e sem truques de estúdio. Via o Turíbio Santos dar aquela sonoridade pros estudos e choros do Villa. Quanta ingenuidade a minha!!! Pensar que eu também poderia tirar aqueles sons. Um ano depois, vendi o violão pra um professor de música. O violão era muito melhor do que eu. Um instrumento desses tem personalidade: só dá o seu melhor som pra um músico que faça por merecer. Talento pode ser desenvolvido. Mas, para isso, já tem que estar lá. Não é possível colocar talento em quem não tem. E vale a observação: todo mundo tem talentos; só é preciso descobrir quais e para quê. Uma vez vi uma entrevista do César Camargo Mariano, na TV, contando como começou a tocar. Ele tinha mais ou menos uns doze anos. O pai era professor de piano, mas não tinha piano em casa. Dava as aulas na casa dos alunos. O César nunca estudara e preferia jogar futebol na rua. Um dia o pai comprou um piano usado. No dia em que o piano chegou, César estava jogando bola, como sempre, e quando viu o piano sendo descido do caminhão, correu para casa. Ele diz que, enquanto durou a difícil tarefa de transportar o instrumento, montá-lo e afiná-lo - operação que durou umas duas horas ou mais - ele, César, ficou num estado meio hipnótico, encostado na parede olhando tudo, calado. Abandonou o jogo de futebol e ficou lá, parado num canto da sala. Ele diz que lembra da sensação do frio da parede nas suas costas nuas e suadas. Quando tudo acabou, as pessoas sairam da sala e César foi se aproximando do instrumento lentamente. Sentou no banquinho e começou a tocar. Parece que já sabia tudo o que tinha que fazer. Quando o pai entrou na sala e viu aquilo, tomou um susto tão grande que teve um desmaio e precisou ir para um hospital. Em seguida, na entrevista, César lembrou que tinha uma fita K-7 com ele tocando, uma semana depois desse episódio. E pos a fita pra tocar. Aí quem quase desmaiou fui eu. Era já o César Mariano tocando: aquele balanço da mão esquerda, aquelas notas econômicas no meio do teclado. Quase como se tivesse acabado de gravar. Sim, claro, ele estudou sim. Com gente muito boa. Mas o talento já estava lá. Nasceu junto. Não dá pra concorrer com gente assim; gente que recebeu o sopro dos deuses da arte, né? Mas, prá se divertir, dá. Desde que a gente não aborreça os ouvidos alheios, né?