Monday, May 28, 2007

Solitude

"Você precisa fazer os 10 km da Tribuna, em Santos. Lá não é como aqui, a cidade pára para ver a corrida, não é essa solidão de correr pelas ruas de São Paulo."

O apelo da moça foi tão entusiasmado que acabei me inscrevendo na tal corrida naquele mesmo dia. O diálogo aconteceu poucos minutos antes da Corrida de Outono, no Pacaembu, uma prova bem tumultuada em termos de organização, no dia 1º de abril. Eu, que nunca havia corrido em Santos, achei que era uma boa oportundidade para fazer uma prova diferente e aproveitar um final de semana na praia.

Os 10 km da Tribuna aconteceram no dia 20 de maio. Uma ótima organização, um percurso agradável e muito diferente de tudo o que se faz em São Paulo, a começar pelo fato de que não "corremos em círculo" lá. A prova sai do Centro da cidade e termina na orla. Em São Paulo, em geral, largamos e terminamos no mesmo lugar.

Ontem, 27 de maio, corri uma das minhas provas preferidas, a da Academia do Barro Branco. Tenho vontade de morder a língua cada vez que falo isso. Quando tinha meus 15 anos, eu não podia nem ouvir falar no Barro Branco, nome ligado a uma instituição da Polícia Militar, localizada na Zona Norte de São Paulo. A ditadura militar tinha acabado de acabar e eu simpleslemte ficava louca com algumas colegas que debutavam e convidavam os cadetes do Barro Branco para dançar a valsa. Pois eu me recusava, na tentativa mais próxima de mostrar minha resistência ao antigo regime e de expressar minhas esperanças no novo governo civil. Tsk, tsk...

Mas a prova do Barro Branco é inigualável. Nem todos gostam de fazê-la, por seu percurso pouco usual. Localizada em uma região de terreno bem acidentado, a prova acontece praticamente só em ladeiras, subindo ou descendo. Um verdadeiro teste de resistência e força que ameaça de fato os músculos.

Correndo nesta fria manhã de domingo, em determinado trecho, praticamente deserto de almas transitando pelas ruas, lembrei da comparação da moça de Santos (cujo nome não sei e que nunca mais vi!). É realmente contrastante a animação do público às margens dos 10 km da Tribuna em relação à indiferença paulistana com a maioria das coisas que acontece por aqui. A cidade não é indiferente só a uma corrida de malucos às 8h da matina de um domingo gélido. A metrópole é blasé em relação a quase tudo. Fui assaltada uma vez, o sujeito quebrou o vidro do meu carro, havia uma multidão de carros à volta, ninguém nem olhou. Aqui, é assim.

Mas a divagação foi mais longe. Concordei em termos com a moça de Santos. De fato, lá a coisa é mais, digamos, "quente". Mas a solidão de correr independe do entorno. Aliás, correr é também um ótimo exercício para a mente. Pois foi correndo, com seis mil pessoas à volta ou sozinha, que fui percebendo como a solidão talvez seja o destino de todos. Por mais companhia que se tenha, por mais ajuda, colaboração, apoio, amor, simpatia, afinidade que se possa amealhar nos relacionamentos, é dentro de si que estão as perguntas e as respostas, os problemas e as soluções. E isso não é maldição nenhuma, mas antes uma grande libertação.

(Os sites especializados em fotos de corrida vão colocando seu material no ar aos poucos. Encontrei duas fotos minhas da prova de ontem. Estão neste link.)

19 comments:

Alessandra Alves said...

para não dizer que não falei: fiz a prova da tribuna (10 km), em 49 minutos e a do barro branco, 6,6 km, em 35min18.

na primeira, fui a 16ª na minha faixa etária; na segunda, a 12ª.

Felipe Atch said...

Alessandra já ouviu falar das 10 milhas Garoto?

Alessandra Alves said...

felipe: conheço não! me conta?

achei mais duas fotos. êita mulher para sorrir para as câmeras!

http://www.ativo.com/foto_atleta.php?linha_atual=2&atleta=Alessandra%20de%20Souza&id_evento=39001&total_eventos=2&row_ini=1&sel=1&td_eventos=0

Andréa N. said...

Wow, parabéns, Alessandra! Ai que saudade da minha Santos...

E esse papo de solidão me lembrou uma do Fernando Pessoa:

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.

Gustavo said...

Oi Alessandra!

Marca na tua agenda: Maratona do Vinho no Vale dos Vinhedos (Bento Gonçalves-rs), provavelmente em abril, uma bela experiência sem dúvida. Medida oficial da maratona cumprida por 2, 4 ou 8 pessoas de uma mesma equipe, correndo entre vinhedos, estradas centenárias e toda a paisagem que só a Serra Gaúcha proporciona....acompanhei de bike a prova e garanto que o pessoal se divertiu,vou pesquisar daqui a alguns meses se farão novamente o evento.

Caíque. said...

Alessandra,
Correr, Andar e Pedalar são atividades esportivas nas quais a gente pode fazer exercício e Pensar, Filosofar, Sonhar, Ver a vida em volta e isso é muito legal, coisa que nadar não permite porque a gente só vê azulejos e não pode comtemplar a Vida. Certo estava o Ministro quando escreveu: "..se não há mais nada a fazer, a gente precisa ver o Luar..."
A Solidão de que você falou, acho que é essa, de estarmos só, podermos nos sentir, pensar, etc...MAS é sempre bom saber que quando acabar a gente tem alguém ou alguénss....

Caíque. said...

coNtemplar...descupe o erro.

Alessandra Alves said...

andréa n.: você é de santos?! eu não sabia! meu marido é de lá, será que vocês são contemporâneos?

sabe que sua instigação poética me deu saudade de falar de poesia e literatura no blog? vou pensar um post a respeito. obrigada!

gustavo: não posso deixar de imaginar uma situação - nas paradas para hidratação, quando o pessoal da organização nos cede copinhos de água, nesta prova do sul, por acaso, eles oferecem vinho?! pensou?!

brincadeira à parte, deve ser uma prova maravilhosa. o formato lembra a maratona de revezamento do pão de açúcar (o supermercado, não o morro do rio). me dá um toque, sim!

caíque: ah, meu amigo, disso você sabe, né?

mas retomando o lance da solidão, sem dúvida que é bom saber que haverá alguém na chegada, mas não era bem isso ao que eu me referia. é uma certeza cada vez maior que se afirma em mim: a de que somos nós, e somente nós, no íntimo dos nossos seres, os grandes responsáveis, atores, diretores, maestros e governantes da nossa vida. não que devamos prescindir da companhia, do amor, das afinidades alheias, mas teremos sempre responsabilidade total sobre nossos atos, é essa "solidão" a que me refiro, que não é ruim, mas consciente.

Edu said...

De carro é ainda mais solitário, especialmente na estrada com retas longas. O som do motor paradoxalmente contribuí para o silêncio interior. É um som constante, previsível, como o som dos pulmões trabalhando ou do coração batendo. Eu me lembro quando voltava pra casa a 160 com minha Chevy pela Imigrantes, achava aquilo o mais silencioso momento do dia!

Esse silêncio interior, ou solidão, também é uma constante nas tradições religiosas. É em silêncio que se conversa com Deus. A Santa Tereza d'Ávila escreveu um livro sobre isso que esta na minha lista das futuras leituras: Castelo Interior. A Santa Tereza quando tinha 7 anos de idade fugiu de casa, para ir morrer por Deus na guerra contra os Mouros. Um tio a encontrou no caminho e a levou de volta para casa. Mais tarde ela promoveu a reforma da ordem carmelita, que passou a ser conhecida como "ordem das carmelitas dos pés descalços". Abriu diversos conventos pela Espanha e ela conseguiu fazer o que a Santa Inquisição não conseguiu, que foi salvar a Igreja no país. Foi a maior inspiração de Miguel de Cervantes para escrever Dom Quixote.

Edu.

Caíque. said...

Alessandra,
Nisso concordo plenamente, a nós, enquanto errantes nesta vida aqui, nos resta PROGREDIR e para que isso possa realmente acontecer, precisa-se de AMOR, basta isso de forma verdadeira e a gente pode melhorar a vida a nossa volta, mas só temos a nossa mesmo para PILOTAR e aí concordo com sua definição e sentimento de Solidão, o nosso caminho só por nós é decidido.

Caíque. said...

Edu,
Em silêncio e CALMO, podemos parar e checar a nossa Consciência, quando fazemos isso estamos fazendo um DDD com Deus, pelo menos eu creio nisso. Pra falar com Êle não precisamos de Intermediários. Intermediários usamos para pedir uma Força no nosso pedido à Êle.

Felipe Atch said...

As dez milhas sãopromovidas pela fábrica de chocolates, entre Vitória e Vila Velha chegada na frente da fábrica. E praticamente toda plana mas passa pela Principal ponte da cidade é uma subida e por conseguencia uma decida forte! Muito perto do mar o tempo todo. Não me pergunte sobre a organização até hoje só fui assistir, e comer chocolate! Mas quando quizer conhecer a região é um bom motivo!

Gustavo said...

Pior que acertou Alessandra....o mote é exatamente esse! Na maratona do vinho, o atleta podia escolher entre água, vinho ou suco...claro que muitos formaram equipes vestidas à caráter, ou seja: utilizando roupas antigas, dos colonizadores, faziam a prova (de sapatões!!!!) e bebiam quantidades industriais nas paradas, não me pergunte se alguém acabou a prova desses ali. Mas atletas sérios estavam na competição, e nem de bike - mesmo partindo 15 minutos depois do último - consegui chegar nos vencedores (dupla)! Prova duríssima pela topografia acidentada do local, muitos vales e montanhas, mas a paisagem compensam o esforço. Quando eu tiver novidades, volto a escrever sobre a maratona temática.

Alessandra Alves said...

edu: obrigada pela história, não conhecia. gostei particularmente de saber da relação da santa com "dom quixote".

caíque: é exatamente isso o que eu penso. e às vezes me aflige o pensamento - será que estou aproveitando a oportunidade para progredir? ainda tenho muito a caminhar, mas já estar na estrada, e pelo menos consciente disso, é melhor que nada, né?

caíque (para edu): dando meu pitaco. também concordo inteiramente. é isso a que me refiro no culto à solidão. é aqui dentro que está a linha vermelha com deus. ele está aqui, em cada um de nós. "se eu posso pensar que deus sou eu", disseram os mutantes. eu não penso, eu acredito.

felipe: juro que não sei se fiquei com mais vontade de fazer a prova ou de comer chocolate! hahaha

gustavo: que farra maravilhosa! preciso ir para o sul atrás dessa prova. e tenho certeza que, neste caso, não me faltará companhia!

Valeria said...

Andar a sós (ou correr) é sempre um exercício de meditação. Pelo menos pra mim. É o momento do dia em que me acalmo, jogo fora toda a tensão e os "macaquinhos" que ficam infernizando minha cachola.
Não por acaso uma das coisas que quero fazer é o caminho de Santiago.

Dirigir a sós, numa estrada sem radares, é uma delícia!

Edu said...

Além de inspirar pelas viagens no interior da Espanha, dizem hoje que Santa Tereza era histérica e que Sancho Pança e Dom Quixote seriam uma sacada do seu conflito interior. Eu não sei, teria que ler o que ela escreveu.

Caíque,
Essa idéia do DDD com Deus é própria das religiões monoteístas. Começou com Moisés, quando Deus lhe disse pra cruzar o Mar Vermelho... E realmente ele consegue cruzar. O destino então não estava mais ao acaso de deuses humanizados ou de humanos endeusados. Estava na consciência, formada no interior do indivíduo. Os judeus são o povo com o maior número de prêmios nobeis. Ehe!

Os pensadores antigos já haviam verificado isso: Conheça-te a ti mesmo. Mas foram as religiões que conseguiram por isso, em maior volume, em prática. Conheça-te a ti mesmo ou vai parar no inferno. O que, também na prática, é verdade.

As discussões sobre religião acabam sempre girando em torno do misticismo, mas há bem mais que isso.

Por exemplo, se uma menina dizer que quer doar sua vida a Deus, o que pensaria? Que ela estaria fugindo da realidade revelada pela ciência? Será então que a outra Tereza, a madre Tereza de Calcutá, estava fugindo da realidade quando se pôs a trabalhar entre os mais pobres entre os pobres? E há vários que, seguindo a vontade de Deus, foram iluminados pelo mais puro realismo.

Caíque. said...

Edu,
Pode incluir aí , que me lembre das histórias: São Camilo, Santa Rita de Cássia, São Francisco de Assis e Santa Clara. Falo desses porque sou Cristão, aliás dá pra notar...rsrsrsrs!!!

Anonymous said...

Olá nete site tem mais fotos sua
http://www.evagg.com/

Alessandra Alves said...

oi, anônimo, eu nem conhecia esse site, obrigada! mas quem é você?!