Wednesday, March 07, 2007

Sabe, Rita...

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Sabe, Rita, quando você disse que foi a Abbey Road e lambeu as maçanetas do estúdio, só porque John, Paul, George e Ringo tinham segurado nelas, achei que era exagero, que ninguém chegaria a tanto só por amor a seus ídolos. Bem, querida, mais uma vez, você me pegou. Soube que era verdade quando me vi ajoelhada aos pés do Sergio, tomando-lhe a mão para beijar. Ele, com seu sorriso de esquilo, deve ter achado ridículo ou ficou envergonhado, porque logo me ergueu e disse, doce e cavalheiro, que são os homens que devem se ajoelhar por nós, as damas.

Sabe, Rita, o primeiro dos meus abusos não pareceu me conter, porque em seguida eu estava beijando a testa do Arnaldo, abraçando aquele corpo magrinho (que no entanto deu cambalhotas e fez flexões no palco, ninguém me contou, eu vi), segurando-lhe as mãos e repetindo “obrigada, obrigada”, como se ele tivesse me lançado a bóia dos náufragos. Teu ex-companheiro achou graça e, candidamente, soltou vários “eu é que agradeço”, como se eu é que tivesse o colocado de volta em um trem colorido, do passado lóki para o meu presente enlouquecido. Rita, confesso, careta, que eu ontem pirei.

Sabe, Rita, eu ainda hoje fico procurando mensagens pouco cifradas naquelas músicas e fico com pena de você dizendo “eu só quero que você me queira”, imaginando com raiva que ele respondia “eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória”. Daí fico achando que ele se arrependia, sentia saudade e dizia “benvinda aos braços meus, você demorou, por onde andou?, fiquei chateado, coitado de mim”, pra você em seguida tripudiar, ameaçando “eu vou sabotar, você vai se azarar”. Ah, Rita, esse amor talvez tenha sido demais, explodiu, desandou, transbordou e todos nos sentimos com direito a morder pedacinhos dele.

Sabe, Rita, quando os astros de 2006 se alinharam, um anjo passou e dissemos amém, eu não tive nem tempo de pensar que você viria também. Não teve Yoko, não teve a bala do Marc Chapman nem o câncer do George, mas eu nunca deixei minha cabeça sonhar que com vocês seria possível, seria diferente. No fim, ele quase se azarou, a glória correu para você, teu 2001 astronáutico também já passou, tua Miss Brasil 2000 está quase coroa. Você poderia ter vindo, mas sempre soubemos que o muro talvez fosse espesso demais, intransponível. Toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz, ele te mandou embora. Ah, eu acho que eu não voltava também.

Sabe, Rita, ajoelhar aos pés do Sergio e beijar a testa do Arnaldo foi a maior travessura que fiz na vida, desde que roubei a plaquinha da porta da minha classe, no 3° Colegial. Não estou à altura de um mutante, eu sei, desculpe o vexame. De você, o máximo que consegui ter até hoje foi só uma imitação da mítica franja. Fiquei depois pensando que mais eu faria se você estivesse lá, também. Sabe, Rita, você não sabe, mas a primeira coisa mais ou menos séria que eu escrevi na vida foi um programa de rádio sobre você, quando eu tinha 13 anos. De lá, vim dar aqui. Se você estivesse lá, não sei, acho que algum circuito ia queimar, um ciclo ia se fechar, tenho medo desses ritos, sem trocadilho.

Sabe, Rita, não tem nada a ver o Vinicius de Moraes com isso, mas sua falta ontem me fez lembrar de uma poesia dele, “Ausência”. O trecho: “... eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz/ Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado”. Serve para todos os amantes condenados a viver à distância, mas serviu para mim ontem. Ah, vocês poetas, pensam que escrevem só para si. Se você estivesse lá, ontem, acho que eu desmancharia no ar.

Sabe, Rita, foi bom, porque ficou parecendo que não terminou. Eu nunca sonhei que seria possível ver Mutantes e me deram esse bônus. Acho que vou começar a acalentar a esperança de um dia, qualquer dia, ter você junto a eles também. Não liga não, é só sonho, posso? Sem pressa, sei que você segue como mutante, no fundo sempre sozinha.

“Ai de mim que sou romântica...”

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Ontem, 6 de março de 2007, uma festa comemorou os 35 anos de Fórmula 1 do jornalista Reginaldo Leme e a 15ª edição de seu anuário Automotor (e eu escrevi a primeira!!!). Os Mutantes deram um show, com 14 músicas, no final do evento, tendo o primeiro-irmão Dinho Leme em sua melhor forma, na bateria. Obrigada, Reginaldo e Dinho, não sei se vocês têm noção do que representou aquilo tudo para gente como eu. Vida longa à família Leme, ao anuário, aos Mutantes!



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Atualização fotográfica, com um agradecimento especial a Carsten Horst, da agência Hyset



Alessandra, Sergios Dias e Bruno Vicaria, do site Grande Prêmio



Alessandra, Arnaldo Baptista e Vicaria



Lance curioso: a platéia, formada por muitos jornalistas ligados ao automobilismo, interrompeu o show várias vezes, gritando "Dinho, Dinho!". Ó ele lá no meio!

19 comments:

Vicaria said...

E ainda invadimos o camarim, roubamos o set list da parede, entramos na sala do Arnaldo sem pedir licença, enchemos o cara de beijos e ainda tiramos várias fotos.

É... aproveitamos pouco, né, mamy!

Mario Lago said...

caraca meu! que lindo!

Fábio Seixas said...

Sabe, Alê, foi muito bom. Mas seu texto consegue ser melhor. beijos

Alessandra Alves said...

vicaria: essa eu vou ficar devendo para você eternamente!

mario lago: será que "ela" vai ler? e, lendo, será que ia gostar?

fábio: não exagera, moço...

Véio Gagá - BH said...

Alê, que saudades! Estou de volta. Vou recomeçar a comentar seus posts. Coloquei um post novo no meu blog, passa lá.

Beijão!

Cynthia said...

Oi Alê, que legal... Como eu ouvi de camarote o seu programa de rádio, imagino como você deve estar se sentindo.
Passei por isso, há uns 2 anos, quando estive muito próxima ao Mauricio de Souza e sentei ao lado da Mônica. Só que eu não consegui dizer uma palavra, fiquei paralisada. Ainda bem que era só um almoço e não era trabalho, senão eu tinha perdido o emprego...

Alessandra Alves said...

véio gagá: que bom, você voltou! mas e aí, não se acanhe. ansiamos por suas considerações! já passei lá no seu blog.

cy: e se eu te disse que esse programa de rádio completou 24 anos no último dia 23 de fevereiro?
quanto ao encontro com a mônica, oh, que surpresa!!! você, travada diante de desconhecidos?! parem as máquinas!

Henrique Bartsch said...

Alessandra, que belo texto. Somos filhos de pais divorciados, e que se separaram litigiosamente. Nestes casos, tem horas que os filhos se culpam pela separação, ou tentam ficar achando onde tiveram culpa nisso. Mas, mesmo in the worst case scenario, a felicidade das crias é a ilusão de que um dia seus mentores venham a se juntar novamente. Talvez não coabitar, mas coexistir civilizadamente. Eles podem não fazer isso jamais, mas não desistiremos deste sonhozinho bobo de novela com final feliz. Temos a ilusão e a magia. A ilusão engana, leva a crer, induz. A magia é real, palpável, existe, é o que move a vida.
Se ela leria? Do que eu conheço, acho que não, pois ela não lê ou vê nada sôbre sí, seja do bem ou do mal. No máximo ouviria um comentário de alguém que leu, dá pra entender?
Estou de "férias", mas assim que meu blog voltar, semana que vem, recomendo seu espaço inteligente. Bjs, querida.

Henrique Bartsch said...

Putz...sobre o show, né? É como o Papa, Nova Iorque, Paris...não fui ainda, mas bobeou, um dia acontece...

Alessandra Alves said...

henrique: putz, obrigada mesmo! que lindo seu comentário, que lindo... é uma grande alegria ter você por aqui.

quanto a ela ler ou não, pois é... sempre procuro me colocar do outro lado, tentar enxergar pelos olhos alheios e, sinceramente, eu não sei como lidaria com uma situação de fama, de exposição. isso é muito fragilizante! entendo esse resguardo mas, puxa!, não sou de ferro. claro que eu gostaria que ela lesse porque, afinal, o que é que há? é só amor!

(ai, juro que vou parar de citar músicas dela nesse textos, já está me dando nos nervos, mas não resisto! hahahaha)

quanto ao show, cara, prepare-se. quando eu soube que teria essa chance, fiquei dizendo para os mais chegados que eu ia ter de tomar calmante antes e depois. não tomei. mas fiquei na pilha o dia inteiro, antes, e custei a dormir, depois. o day after então, só voei. é acachapante. não perca sua chance, assim que ela aparecer.

é claro que eu não me arriscaria a fazer uma crítica do show, não tem a menor condição disso, dado o envolvimento emocional. engraçado é que, quando cheguei no camarim, abracei o dinho e ele me disse, meio resignado: "é, foi mais ou menos, fizemos shows melhores...". não sei, não quero saber. eu fui!

Alessandra Alves said...

em tempo: para quem não sabe, o henrique lançou recentemente um livro chamado "rita lee mora ao lado". eu comprei o meu recentemente, ainda não li, mas volto ao tema assim que terminar.

tina oiticica harris said...

Muito cativante teu post. Emocionante, mesmo. Tive a oportunidade de ver ao vivo os Mutantes entre 68-71. Francamente, não gosto de falar sobre uma experiência tão longa e emocional entre Arnaldo e Rita. Ela já é avó, teve três filhos com o Roberto, acho que devemos deixar fechar o ciclo. Arnaldo está lá na granja com Lucinha há muito tempo também.
Por experiênca própra sei que nenhum amor termina bem ou termina. É como a canção do Edu Lobo, "Só me fez bem."
Rita não quis voltar aos Mutantes, já houve declarações deselegantes à imprensa, vamos deixar que todos sigam seus caminhos e quem sabe um dia se encontrem. Se não, "We'll always have Paris."

Excelente teu post. Obrigada, Alessandra.

tina oiticica harris said...

Com todo prazer, seu link sobre os Mutantes vai para o Universo Anárquico, um bloguezinho menor.

Obrigada,

--tina

Alessandra Alves said...

tina: fica com ciúme não! eu vi a menção no seu blog, amei, obrigada! olha, sobre rita (e roberto) e arnaldo (e lucinha), eu assino embaixo do que o henrique disse aqui. meu desejo é para que sejam felizes, sobretudo, e que coexistam (salve, bono!). realmente, se vão cantar juntos ou não é muito mais problema nosso que deles, concorda? mas é o que eu escrevi - é só um sonho. adorei ver a foto do arnaldo com a lucia no seu blog. quem não viu, vai lá!

Anonymous said...

Alessandra, se a Rita ler esse texto, ela com certeza vai se sentir uma mutante...por erro de genética.

Realmente ler seus textos... é algo que talvez nem vc saiba que dimensão tem...vc é fantástica!!
beijo grande.

Carlos Miguel

Marcio Gaspar said...

Tambem estive no Tom Brasil, Alessandra, e fiz questao de assistir ao show de cara pro palco, e depois mais atras, pra poder ter uma perspectiva do todo. Achei legal, mas so isso. E me deu uma sensacao desagradavel de estar presenciando um `cadaver insepulcro` ali naquele palco. A verdade? Apos a emocao inicial, da entrada no palco, da primeira musica, sobra o esforco humilde e elogiavel da zelia, uma certa pena do arnaldo, e a egotrip do serginho, finalmente realizado no ansiado papel de bandleader, mas meio `over`. E o dinho, realmente muito bom. Mas o repertorio infelizmente envelheceu e a `volta` corre serio risco de virar uma chatice, caso eles nao se separem de novo em muito breve, ou caso nao arranjem um novo repertorio... Minha opiniao singela, don`t take it bad...

Alessandra Alves said...

carlos miguel: obrigada!

marcio gaspar: ah, que pena! então você também estava lá? se eu soubesse, gostaria de te conhecer para além da blogosfera. imagina se eu levaria a mal sua opinião... engraçado isso que você falou sobre a localização em relação ao palco. eu fiquei o tempo inteiro grudada no palco, como fica claro pela primeira foto. lembro de ter pensado, lá pela terceir música: "o som está uma droga daqui, muito perto, não vou ouvir direito." mas nem cogitei em sair. eu estava como se vendo o cometa halley, com aquela sensação de 'once in a lifetime'.

eu não sei nem se discordo mesmo de você, simplesmente porque não me vejo em condição de avaliar o show friamente. naquele dia, no tom brasil, me senti exatamente como nos jogos decisivos do corinthians. nessas ocasiões, não sou capaz de dizer se o time está jogando bem ou não. simplesmente torço, sofro, enfim, só coração, nada de razão.

não sou capaz nem de analisar a peformance do dinho, como você destacou, porque aí então mistura amizade. mas fico embasbacada de saber que o cara ficou praticamente 30 anos sem encostar numa bateria, isso é espantoso!

ver mutantes ao vivo pela primeira vez teve esse mesmo poder sobre mim. eu tenho pensado que essa volta, se ficar só no passado, está mesmo fadada a um novo fim. mas li, estupefacta, que eles têm material inédito e que - daí a razão do espanto - o sergio está conversando com roberto de carvalho (sim, o próprio!) para dar formato final a esse material. será?! pior é que eu fiquei tão lesa de estar com ele que nem perguntei sobre isso. mas que seria uma ironia monumental, no mínimo, isso seria...

enio said...

Roberto e Sérgio.

Isso não está escrito em lugar nenhum e é quase como uma sagrada escritura sendo encaminhada.

Adorei ler esse comentário.

Tão luminoso quanto a carta pra rita.

Bacana.

johnny oliveira said...

Tudo depende....seu texto é mais ou menos...ruim...pior....bom...excelente
Um viva a todos os músicos que passaram pelos Mutantes.